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[:pt]O julgamento de Ratko Mladic no Tribunal Penal Internacional e sua reta final[:]

[:pt] Vinte um anos após a assinatura dos Acordos de Dayton, que findaram as guerras de dissolução da antiga República Socialista Federativa da Iugoslávia, o Tribunal Internacional para a Antiga Iugoslávia (ICTY, na sigla em…

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[:pt]O Elogio da Velhice, pelo Papa, no Dia de Seu 80.º Aniversário[:]

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No passado dia 17 de dezembro o Papa Francisco celebrou seu 80.º aniversário. Associado às comemorações do líder da Igreja Católica, o Vaticano disponibilizou uma conta de e-mail e uma hashtag para felicitar Francisco[1]. O primeiro ato de seu dia festivo teve lugar durante o café da manhã, servido na Casa Santa Marta, no Vaticano, para o qual convidou um grupo de oito pessoas sem abrigo, que dormiam nas proximidades da Praça de São Pedro, para se juntar a ele. Durante a refeição matutina Francisco recebeu um telefonema de felicitações do Presidente dos EUA, Barack Obama. Em seguida, às 8 horas da manhã, o Sumo Pontífice presidiu a uma concelebração litúrgica, na Capela Paulina, no Vaticano, com os Cardeais residentes em Roma. Cumprindo a rotina de um dia normal, Francisco recebeu em audiência o Presidente da República de Malta, o Prefeito da Congregação para os Bispos, o Bispo de Chur, na Suíça, e a Comunidade de Nomadelfia, fundada por Frei  Zeno Saltini. Mais tarde, às 17 horas, o Papa se conectou, via Skype, à Prisão dos Palácios, em Veneza, a convite do Capelão, o Padre Marco Pozza[2].

Em pleno Advento, a partir de sua condição pessoal, Francisco se dirigiu aos 60 Cardeais, com idades aproximadas à sua, presentes na Capela Paulina para refletir acerca da dignidade da velhice e, também, do humor que é necessário para se enfrentarem as diferentes fases e situações vitais. Tendo recebido felicitações desde quarta-feira, dia 14 de dezembro, o Papa comentou: “Na minha terra, parabenizar antes da hora dá azar, e quem dá parabéns antecipado é pé-frio”. Por outro lado, na saudação proferida no final da missa, ele disse: “Vem-me à mente aquele poema… acho de Plínio: ‘Tacito pede lapsa vetustas’ [Ovídio]: chegará a velhice recurvada com passo silencioso. É assustador! Mas quando a consideramos como uma etapa da vida que serve para proporcionar alegria, sabedoria, esperança, começamos a viver”.

Para Francisco, a traditio é a base da revolutio. Com efeito, só sabendo quem fomos poderemos saber quem iremos ser. Esta máxima é válida para cada um de nós. Isto é válido para a família a que pertencemos, como o é para o país que nos viu nascer. Tradição, de tradere, equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que nos dá forças para completar o que falta. Podemos, contudo, rejeitar a herança; podemos aceitá-la, criticando-a; podemos, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica. Não defendemos, contudo, que os povos sejam tábuas rasas que, sem memória de nada, criem tudo a cada momento do seu existir. De acordo com Francisco, “é próprio do amor o facto de não esquecer; é próprio do amor ter sempre sob o olhar o muito, o muito bem que recebemos; é próprio do amor olhar para a história: de onde viemos, os nossos pais, os nossos antepassados, o caminho da fé…”. Assim, assinalou o Papa, “esta memória faz-nos bem, porque torna ainda mais intensa esta expetativa vigilante do Natal. Um dia calmo. A memória que remonta ao início da eleição do povo: ‘Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão’ (Mt 1, 1)”.

Tal como o Vigário de Cristo confidenciou aos presentes na missa do dia 17, “desde há alguns dias vem-me à mente uma palavra, que parece feia: a velhice. Assusta, pelo menos, assusta… Também ontem, para me oferecer um dom, monsenhor Cavalieri ofereceu-me o De Senectute de Cícero — uma gota a mais… Recordo o que vos disse a 15 de março [de 2013], no nosso primeiro encontro: ‘A velhice é a sede da sabedoria’. Esperemos que também para mim seja isto. Esperemos que seja assim!”. Após ter citado um verso de Hölderlin, “Es ist ruhig, das Alter, und fromm” – “a velhice é tranquila e religiosa”, Francisco pediu: “Rezai para que a minha seja assim: tranquila, religiosa e fecunda. E também jubilosa”.

Se o Papa Francisco, à semelhança de seus antecessores, tem defendido a vida em sua integralidade, o certo é que atualmente, altura em que se entende o ser humano a partir da dimensão hedonista, transferiram-se para o domínio público as dimensões fundamentais da existência humana: hoje, cada vez mais seres humanos nascem e morrem em hospitais. Paradoxalmente, nesta época em que se cultuam os aspectos lúdicos subjacentes a cada um de nós, se avaliam os seres humanos pelas capacidades aquisitivas que demonstram e não pelo valor ontológico que têm. Em contrapartida, o Sumo Pontífice, defendendo os valores de sempre, e não o relativismo neoliberal deste tempo, vê na velhice a fonte de sabedoria, tal como os gregos, os romanos e grande parte da História do Ocidente o fizeram. Francisco não descarta os idosos nem qualquer outra pessoa, qualquer que seja a faixa etária em que se encontram. Afinal de contas, tal como Cícero sublinhou[3] certeiramente, e Francisco corroborou, em nossos dias, a velhice é a idade da sabedoria.

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Imagem 1Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, enquanto Arcebispo e Cardeal de Buenos Aires (2008)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5a/Conf%C3%A9rence_18_juin_2008_par_le_cardinal_Bergoglio_-9.jpg

Imagem 2Domus Sanctae Marthae” / “Casa Santa Marta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Santa_Marta

Imagem 3Vista da Praça de São Pedro do topo da Cúpula de Michelangelo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vaticano

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

email: [email protected]

hashtag: #pontifex80

[2] Acerca da relação especial que mantém com aqueles que se encontram privados da liberdade, Francisco escreveu: “Tenho um afeto especial pelos que vivem na prisão, privados da liberdade. Sempre fui muito apegado a eles, por esta consciência do meu ser pecador. Cada vez que entro numa prisão para celebração ou para uma visita, sempre me vem este pensamento: por que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que aqueles que tenho diante de mim. Assim me encontro a repetir e a rezar: por que eles e não eu? Isso pode escandalizar, mas consolo-me com Pedro que negou Jesus e apesar disso foi escolhido.”, FRANCISCO, O Nome de Deus é Misericórdia. Uma Conversa com Andrea Tornielli, São Paulo, Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Catarina Mourão, pág. 76.

[3] CÍCERO, A Velhice Saudável, in (Apresentação de Luiz Feracine), A Velhice Saudável. O Sonho de Cipião, São Paulo, Editora Escala, 2006, trad. do latim por Luiz Feracine, págs. 21-77.

A versão online de “De Senectute”, em latim, pode ser consultada em:

http://www.thelatinlibrary.com/cicero/senectute.shtml

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPA

[:pt]Fethullah Gülen, Mestre do Humanismo e do Entendimento Multicultural[:]

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Nascido em 27 de abril de 1941, em Erzurum, na Turquia, no seio de uma família humilde, filho de um Imã e de uma professora voluntária de Alcorão, Fethullan Gülen aprendeu, desde cedo, os princípios do humanismo que alimentaram a sua infância e juventude tornando-o, na atualidade, num dos pioneiros do discurso intercultural e inter-religioso, no seu país e no mundo.

Formado em Ciências Islâmicas, Gülen é, além de professor, teólogo, literato, escritor, poeta, líder de opinião e erudito islâmico, um destacado ativista pela Educação e defensor da paz em nossos tempos. Enquanto promotor dos valores espirituais, por meio da Educação e do diálogo, o líder turco tem trilhado um caminho que, para os seus seguidores e, também, para aqueles que trabalham em prol das causas humanitárias, constitui um modelo que inspira a prática cotidiana. Porém, o pensamento de Gülen, que não está apenas no plano das ideias, tem provocado o combate por parte daqueles que rejeitam a igualdade de direitos entre as pessoas e os princípios da Democracia.

Em 1971, na sequência de um Golpe de Estado na Turquia, Fethullah Gülen foi preso permanecendo encarcerado durante seis meses sem acusação. A reprimenda aplicada ao líder humanista não foi suficientemente capaz de interromper a sua obra que continuou e se expandiu desde a criação do Movimento Gülen, ou Hizmet (Serviço), de caráter cívico-social, idealizado por ele em finais dos anos de 1960, na Turquia. O Hizmet tem como alicerce da sua existência o compromisso com a Educação, o diálogo, a paz, a justiça e a harmonia social. Este movimento traduz, na prática, as ideias de seu fundador, isto é, de que é possível alterar positivamente uma sociedade. Segundo Fethullah Gülen, “o Hizmet surgiu com a ideia de fundar instituições educacionais para formar jovens virtuosos, a fim de tentar encontrar soluções para os problemas do país”.

Numa época em que muitas famílias na Turquia, com poucas condições econômicas, não tinham muitas opções para conseguirem manter os seus filhos no Ensino Médio ou na Universidade nas grandes cidades, num ambiente propício para a formação dos jovens, Fethullah Gülen mudou esta realidade, através da criação de bolsas de estudo e de alojamentos para estudantes financiados pelas comunidades locais. O Hizmet, de fato, foi e continua a ser para muitos a crença no futuro a partir de uma Educação laica e com valores centrados no ser humano independentemente de confissão religiosa. Hoje, o movimento é transnacional e está presente em mais de 170 países, devolvendo a esperança de vida digna a milhares de pessoas. Os seus voluntários são “estudantes, acadêmicos, empresários, profissionais liberais, funcionários públicos, agricultores, homens e mulheres, jovens e velhos” que “contribuem para múltiplas formas de serviços, que se concentram em centros de ensino, escolas, faculdades, hospitais, organização de ajuda humanitária, editoras e instituições de mídia, tanto na Turquia”, quanto ao redor do mundo.

O trabalho desenvolvido por Fethullah Gülen, digno de distinção e que culminou no Hizmet, enfrenta na atualidade a oposição do Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, para quem o movimento é “um Estado paralelo” e uma “organização terrorista”. Gülen encontra-se auto-exilado nos EUA desde 1999, quando viajou àquele país para que lhe fossem prestados cuidados médicos. No Estado da Pensilvânia, onde estabeleceu residência, o erudito turco vive em um retiro “com um grupo de estudantes e médicos” e dedica-se “à leitura, escrita, ensino, oração individual e em pequenos grupos, e recebe alguns visitantes, quando sua saúde permite”. Embora distante da Turquia, ele enfrenta diversas acusações por parte do Governo turco, que tenta criminalizá-lo, tal como o Hizmet, embora nunca tenha conseguido provar envolvimento, quer de Gülen, quer do movimento que ele lidera, em nenhum crime. Mas a ausência de provas não serviu para impedir que a Procuradoria turca pedisse duas “condenações perpétuas e uma pena adicional de 1.900 anos” de prisão para ele. Gülen foi acusado de ter orquestrado o Golpe de Estado falhado de 15 de julho deste ano (2016), assim como de tentar “destruir a ordem constitucional pela força” e, também, “de formar e conduzir grupos terroristas armados”. No entanto, ele nega todas as acusações, condenando qualquer ato de violência.

Em 19 de dezembro, o assassinato a tiros do Embaixador russo na Turquia, Andrei Kharlov, durante a inauguração de uma exposição de fotografias, em uma galeria de Arte em Ancara, por um jovem ex-policial turco de 22 anos, de nome Mevlut Mert Altintas, fez com que, imediatamente, Erdoğan atribuísse a responsabilidade do crime a Fethullah Gülen. Porém, o grupo insurgente Jaysh al-Fateh, que integra a Frente da Conquista do Levante – a antiga Frente al-Nusra – assumiu a autoria do atentado que, mais tarde, foi reivindicado pelo Estado Islâmico.

A frase proferida pelo assassino antes de ser morto pela polícia, em que disse: “nós morremos em Aleppo, você morre aqui”, revela que os radicais agiram em retaliação ao apoio russo ao regime de Bashar al-Assad, na guerra na Síria e, ao mesmo tempo, inocenta Fethullah Gülen, que condenou o trágico episódio que levou a óbito o Embaixador russo. Em declaração escrita, Gülen afirmou: “Eu condeno veementemente este ato hediondo de terrorismo”.

Segundo informações, há indícios de que há radicais infiltrados nas forças policiais turcas, depois que milhares de policiais foram expurgados por suas supostas ligações com o movimento Gülen. Neste contexto, em várias ocasiões, o líder humanista Fethullah Gülen foi responsabilizado pelo Governo turco por ações levadas a cabo contra o país. Até hoje, nada se conseguiu provar, mas ante as incertezas regionais e internacionais torna-se necessário refletirmos sobre a segurança deste ser humano que persiste na defesa de valores humanísticos a partir do acolhimento e da prática enraizados no princípio do entendimento intercultural e inter-religioso que, muitas vezes, são condenados por indivíduos cuja visão estreita da realidade não concebe a liberdade e a igualdade entre os seres humanos como um direito inalienável.

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Imagem 1 Fethullah Gülen” (Fonte):

http://www.theblaze.com/wp-content/uploads/2016/02/Fethullah-G%C3%BClen.jpg

Imagem 2 Logo do Gulen Movement” (Fonte):

http://hizmetnews.com/gulen-movement/

Imagem 3 Gülen and Pope John Paul II” / “Gülen e o Papa João Paulo II” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Gülen_movement

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[:pt]A Polêmica, no Vaticano, a Respeito de “Amoris Lætitia”[:]

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Amoris Lætitia[1]A Alegria do Amor – é uma exortação apostólica do Papa Francisco escrita na sequência dos Sínodos dos Bispos sobre a Família, realizados em 2014 e 2015, que foi publicada em 8 de abril de 2016. O documento pontifício, que pretende ser “um guia para a vida em família”, defende “que a Igreja aceite algumas realidades da sociedade contemporânea”, pretendendo abrir novas perspectivas para os católicos divorciados e, simultaneamente, tornar a Igreja mais tolerante em assuntos relacionados com a família. Amoris Lætitia foi considerada, pelo Cardeal Dom Walter Kasper, Presidente Emérito do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, como “o documento mais importante na história da Igreja do último milênio”. Contudo, logo na altura da publicação de Amoris Lætitia, as vozes dos católicos tradicionalistas fizeram ouvir sua discordância relativamente ao documento. Entre os opositores de primeira hora encontramos Roberto de Mattei, historiador e jornalista italiano, Presidente da Fundação Lepanto, para quem “a doutrina dos absolutos morais e do mal intrínseco é anulada por Amoris Lætitia, que se acomoda à ‘nova moral’ condenada por Pio XII em vários documentos e por João Paulo II em Veritatis Splendor”, e permite, aos católicos divorciados que voltaram a casar, a possibilidade de receberem a comunhão. Estamos, deste modo, em face de uma crítica contundente àquilo que os adversários do Sumo Pontífice designam como moral situacionista, ou seja, uma concepção relativista do Bem, do Bom, do Correto e do Justo que “deixa à mercê das circunstâncias e, em último caso, à consciência subjetiva do homem determinar o que está certo e o que está errado”.

O tempo que medeia entre a publicação de Amoris Lætitia e a atualidade assistiu à consolidação de uma corrente ‘liberal’ e de outra, ‘conservadora’, em relação ao pontificado de Francisco. Em 29 de agosto foi dada a conhecer a Declaração de Fidelidade ao Ensinamento Imutável da Igreja sobre o Casamento e à sua Disciplina Ininterrupta, assinada pelos Cardeais Dom Jãnis Pujats, Dom Carlo Caffarra e Dom Raymond Leo Burke, Bispos, Sacerdotes, além de mais de dezessete mil católicos de todo o mundo. A Declaração é um marco na defesa do ensino magisterial da Igreja Católica acerca dos sacramentos constituindo, simultaneamente, uma tomada de posição em relação à abertura manifestada pelo Papa para com os novos tipos de família e relacionamentos afetivos.

Semanas mais tarde, no passado dia 19 de setembro, 4 Cardeais – Dom Walter Brandmüller; Dom Joachim Meisner; Dom Carlo Cafarra; e Dom Raymond Leo Burke –, num gesto inusual, que foi interpretado como um sinal claro de dissidência, escreveram uma carta ao Papa Francisco, solicitando esclarecimentos acerca do conteúdo de Amoris Lætitia[2]. Considerando a proposta do Papa sobre a vida humana, o matrimônio e a família como “uma reflexão do Santo Padre”, ou seja, um “ponto de vista que ele não pretende impor”, o Cardeal Burke considera como erro as interpretações de quantos reputam Amoris Lætitia como “uma revolução na Igreja, como um radical afastamento do ensino e da práxis da Igreja sobre o matrimônio e a família, como transmitido até agora”.

Por outro lado, ao encarar o matrimônio indissolúvel como um “ideal”, Burke sublinha que “tal descrição do matrimônio pode ser enganosa. Pode levar o leitor a pensar no matrimônio como em uma ideia eterna, à qual os homens e as mulheres devem mais ou menos se conformar nas circunstâncias mutáveis”. Na sequência da divulgação da carta ao Papa Francisco, o Cardeal Burke concedeu uma entrevista na qual esclareceu: “O Papa é o fundamento da unidade dos bispos e de todos os fiéis. Esta ideia, portanto, que o Papa tem que ser algum tipo de inovador, que lidera uma revolução na Igreja ou algo similar, é completamente alheio à Função de Pedro. Segundo o purpurado norte-americano, a tradição se sobrepõe à modernidade, constituindo a garantia dos valores perenes que sustentam a Igreja. Deste modo, para Burke, “o Papa é um grande servidor das verdades da fé, já que foram pronunciadas em uma linha ininterrupta, desde os tempos dos apóstolos”.

Se referindo à atitude tomada pelos Cardeais, no sentido de questionar o Papa acerca do conteúdo de Amoris Lætitia, nomeadamente o capítulo 8.º da exortação apostólica[3], intitulado “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade[4], Burke considera-a como um ato de caridade e de justiça: “Para nós, permanecer em silêncio acerca destas dúvidas fundamentais, que surgiram como resultado do texto da Amoris Laetitia, seria, de nossa parte, uma grave falta de caridade para com o Papa e uma grave falta no cumprimento dos deveres de nossa própria missão na Igreja”.

O Pontificado de Francisco tem sido minado, desde o início, por adversários que se encontram tanto na Cúria, como nas próprias comunidades locais de fiéis. Aludindo a seus adversários no seio da Igreja o Papa referiu, em Amoris Lætitia, que “um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas[5]. Concretizando, o Vigário de Cristo apontou, na ocasião, os “corações fechados, que muitas vezes se escondem até por detrás dos ensinamentos da Igreja ‘para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas’[6].

Neste momento, no Vaticano, há um combate sem tréguas para tentar impedir o prosseguimento das reformas levadas a cabo pelo Papa argentino. Simultaneamente, num movimento de largo ímpeto, os conservadores já se alinharam para impedir que, no Conclave que elegerá o próximo Servo dos Servos de Deus, o escolhido pela maioria dos Cardeais seja alguém adepto dos ideais renovadores de Francisco.

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ImagemPraça de São Pedro, Cidade do Estado do Vaticano” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d6/St_Peter’s_Square,_Vatican_City_-_April_2007.jpg

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Notas e fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

PAPA FRANCISCO, Amoris Lætitia – A Alegria do Amor. Sobre o Amor na Família, São Paulo, Edições Loyola Jesuítas, 2016, 187 págs. [Texto oficial da CNBB para o português do Brasil].

Disponível online:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

[2] A carta foi originalmente divulgada pelo vaticanista Sandro Magister, em seu sítio web:

A Sua Santidade Padre Francisco e com conhecimento de Sua Eminência Cardeal Gerhard L. Müller

Santo Padre,

No seguimento da publicação da Vossa Exortação Apostólica ‘Amoris Laetitia’,  teólogos e estudiosos propuseram interpretações não só divergentes, mas também contrastantes, sobretudo no que respeita ao Capítulo VIII. Além do mais, os meios de comunicação têm vindo a pôr em realce esta disputa, provocando incerteza, confusão e desorientação entre muitos dos fiéis.

Por isso, chegaram-nos, a nós que nos subscrevemos, como também a muitos Bispos e Presbíteros, numerosos pedidos da parte de féis pertencentes a diversas condições sociais, a respeito da correta interpretação a dar ao Capítulo VIII da Exortação.

Assim, movidos em consciência pela nossa responsabilidade pastoral, e desejando praticar sempre melhor aquela mesma sinoladidade a que Vossa Santidade nos exorta, permitimo-nos, com profundo respeito, vir pedir-Vos, Santo Padre, que, como Mestre Supremo da Fé, chamado pelo Ressuscitado a confirmar os irmãos na fé, dirimais as incertezas e crieis clareza, dando benevolamente resposta aos ‘Dubia’ que nos consentimos juntar à presente carta.

Possa Vossa Santidade abençoar-nos, deixando-Vos a nossa promessa de uma constante presença na nossa oração.

Card. Walter Brandmüller

Card. Raymond L. Burke

Card. Carlo Caffarra

Card. Joachim Meisner

Roma, 19 de Setembro de 2016”.

Os “Dubia” [do latim “Dúvidas”] apresentados pelos Cardeais ao Papa são os seguintes:

1. Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em ‘Amoris Lætitia’ (nn. 300-305), se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive ‘more uxorio’ (de modo marital) com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por ‘Familiaris Consortio’, n. 84, e, entretanto, confirmadas por ‘Reconciliatio et Pænitentia’, n. 34, e por ‘Sacramentum Caritatis’, n. 29. Pode a expressão ‘em certos casos’ da nota 351 (n. 305) da exortação ‘Amoris Lætitia’ ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver ‘more uxorio’?

2. Continua a ser válido, após a Exortação Apostólica Pós-Sinodal ‘Amoris Lætitia’ (cf. n. 304), o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer exceção, que proíbem atos intrinsecamente maus?

3. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 301) pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objetiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de junho de 2000)?

4. Após as afirmações de ‘Amoris Lætitia’ (n. 302) acerca das ‘circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral’, ainda se deve ter como válido o ensinamento da Encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 81, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, segundo a qual ‘as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção’?

5. Depois de ‘Amoris Lætitia’ (n. 303) ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II ‘Veritatis Splendor’, n. 56, baseada na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência e enfatiza que a consciência jamais está autorizada a legitimar exceções às normas morais absolutas que proíbem ações intrinsecamente más em virtude do seu objeto?

[3] O Cardeal Dom Raymond Leo Burke refere que, a partir da publicação de Amoris Lætitia, a Igreja vive em estado de confusão em termos pastorais: “Temos um conjunto de diretrizes em uma diocese, por exemplo, dizendo que os sacerdotes são livres no confessionário, se julgarem necessário, para permitir que uma pessoa que está vivendo em uma união adúltera, e que continua assim, tenha acesso aos sacramentos, ao passo que, em outra diocese, de acordo com o que sempre foi a prática da Igreja, um sacerdote é capaz de conceder tal permissão aos que fazem o firme propósito de reparação para viver a castidade no matrimônio, ou seja, como irmão e irmã, e apenas para receber os sacramentos em um lugar onde não sejam motivo de escândalo. Isto realmente tem que ser abordado. Mas, depois, vêm as questões adicionais em dúvida, além dessa pergunta em particular a respeito dos divorciados em segunda união, que se englobam sob o termo ‘mal intrínseco’, com o estado de pecado e com a noção correta de consciência”.

[4] Ver:

PAPA FRANCISCO, Amoris Lætitia – A Alegria do Amor. Sobre o Amor na Família, op. cit., §§ 291-312.

Inquirido sobre o que aconteceria caso o Papa não respondesse aos Cardeais autores da carta, Burke foi inequívoco em sua resposta: “É dever, em tais casos, e historicamente já ocorreu, que cardeais e bispos deixem claro que o Papa está ensinando um erro e que lhe peçam para corrigi-lo”.

[5] Ver:

PAPA FRANCISCO, Amoris Lætitia – A Alegria do Amor. Sobre o Amor na Família, op. cit., § 305.

[6] Ver:

Ibidem.

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ANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISEUROPAPOLÍTICA INTERNACIONALPOLÍTICAS PÚBLICAS

[:pt]Ausloss: a Áustria e o declínio da União Europeia[:]

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O Bloco europeu enfrenta a maior crise existencial desde sua formação e luta por sobreviver perante o levante dos partidos de direita e extrema direita que, aos poucos, vão conquistando território no cenário político e refletindo o aumento do euroceticismo e extremismo crescente da região.

Com um discurso considerado xenófobo e cheio de apologias nacionalistas, a nova direita europeia tem sido vista como caracterizada mais pelo discurso exacerbado e patriótico do que por advogar pela solução dos problemas econômicos reais existentes e pela reestruturação necessária para promover o crescimento da região. Analisando os discursos, se observa que grande parte do argumento se baseia em responsabilizar os fatores externos pelas mazelas de sua sociedade, principalmente os estrangeiros e os governos de outros países. Segundo esses políticos, a União Europeia (UE) minou a soberania deles, impôs seu modelo econômico, reduziu sua autonomia internacional, reestruturou sua economia, reduziu sua competitividade e lhes obrigou a contrair uma série de políticas que lhes afetaram social e economicamente.

Muitos desses líderes, no entanto, parecem ignorar as composições demográficas de seus países (que, em muitos casos, contam com uma considerável proporção de imigrantes) e também as características produtivas de suas nações, além do fato de que todas essas mudanças estão previstas no processo de adesão e participação no Bloco econômico.

Esse discurso usado pelos nacionalistas europeus contraria o próprio modelo de integração da União Europeia, cuja base é a promoção da integração regional em diferentes níveis nas áreas de economia, política, sociedade e cultura, não sendo possível apenas participar da parte conveniente do Bloco, mas em sua totalidade, e, ao invés de adquirirem somente os benefícios, devem também assumir as obrigações da parceria.

Muitos desses Estados já demonstraram um enorme desgaste com Bruxelas e estudam sua saída da União. Ainda que a situação do Reino Unido (Brexit) siga em discussão, a Europa teme que um novo plebiscito possa vir a ocorrer em uma nação muito emblemática na história do continente: a Áustria, berço de Adolf Hitler e palco de uma das maiores convenções já realizadas no continente (a Convenção de Viena). Nesse sentido, os austríacos podem criar um novo capítulo na desfragmentação do Bloco europeu.

O Ausloss (ou perda da Áustria) ganhou forma após o cancelamento das eleições realizas em abril de 2016, por suspeita de fraude, havendo depois desse episódio um crescente favoritismo ao candidato ultranacionalista Norbert Hofer, do partido de extrema direita “Liberdade para a Áustria” (FPÖ).

Hofer já declarou que, se ganhar as eleições de dezembro de 2016, realizará um plebiscito para decidir se a Áustria deve ou não permanecer no grupo, e também informou que o país não irá cumprir políticas impostas pela União Europeia no que diz respeito às cotas de refugiados, ou à livre circulação de pessoas, além de ser contrário às negociações internacionais que a UE realiza com outros blocos.

Os discursos mantidos pelos partidos nacionalistas na Europa ganharam maior espaço após a vitória de Donald Trump e as movimentações à direita na América Latina. O paradigmático desse movimento é que o mesmo parece ignorar a dinâmica da economia global e da integração gerada pela globalização, onde não há espaços para uma visão econômica clássica.

Isolar um país para incentivar a economia através da produção nacional, investir na criação de muros e expulsão de mão de obra barata, que mantém um discurso patriótico e ganha votos, impacta diretamente contra a dinâmica global de competitividade e também na cadeia produtiva mundial, estabelecida pelo próprio sistema capitalista, vencedor da Guerra Fria. Os países competem entre eles e, se uma grande fábrica saiu da Europa para produzir na Ásia ou na China, isso se deve a uma série de fatores produtivos que cada país potencializou.

A Europa enfrenta os reflexos de uma integração desequilibrada, onde as assimetrias entre as nações participantes são cada vez maiores e, ao ser a solução para países de economia mais fraca, se transformou, para os europeus, numa espécie de carrasco de suas economias e políticas. Nesse sentido, da mesma forma que as nações participantes do Congresso de Viena não conseguiram reestabelecer a ordem mundial no século XIX, tornando a Áustria o símbolo de um início que fracassou, o Ausloss pode ser outro princípio, o do fim do Bloco europeu, que conseguiu durante um breve período superar os Estados Unidos como economia e ser a maior potência do mundo, mas que agora desfalece aos poucos.

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ImagemFronteira da Áustria” (Fonte):

https://www.euractiv.com/wp-content/uploads/sites/2/2016/11/Austria-border_CREDITJohanna-Poetsch_Shutterstock.jpg

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[:pt]O Atentado de Nice e as Raízes da Barbárie Fundamentalista na Europa[:]

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Em 14 de julho de 2016, a cidade francesa de Nice protagonizou mais um ato de terror cometido pelo islamismo radical, vitimando mortalmente 84 civis e ferindo outros 202, incluindo várias crianças. O ataque foi levado a cabo pelo tunisino Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel, de 31 anos, um residente local, que avançou 2 Km contra os espectadores que assistiam às festividades do 14 de julho, Dia Nacional de França.

Dois dias depois, em 16 de julho, o Estado Islâmico, através da Amaq, a agência de notícias ligada aos radicais, reivindicou o atentado, tendo atribuído a operação a um de seus soldados, como uma resposta aos países que fazem parte da coalizão que, neste momento, luta contra o Estado Islâmico.

Mohamed Lahouaiej Bouhlel, pai de 3 filhos e em processo de divórcio, motivado por várias agressões contra a sua mulher, não correspondia ao perfil de um religioso muçulmano, pois, de acordo com informações, ele consumia bebidas alcóolicas, drogas, não respeitava o Ramadã e não era um frequentador assíduo da mesquita. O autor do atentado, abatido pela Polícia francesa, era um desempregado e estava envolvido em crimes, tais como roubos e violência. Embora o responsável pela ação possa ser considerado um desajustado social, isto não foi impedimento para que ele se tornasse mais do que um apoiante do Estado Islâmico, sendo considerado como soldado, isto é, um dos operacionais do grupo insurgente.

Ao assumir a responsabilidade pelo atentado, o Estado Islâmico não mencionou detalhes sobre Lahouaiej Bouhlel, nem sobre o conhecimento prévio da estratégia da ação preparada pelo radical tunisino. Porém, não é possível atribuir a tragédia que se abateu sobre Nice como sendo fruto de um ato impensado, ou estando motivada pelo capricho de um impulso. Lahouaiej Bouhlel esteve presente entre a multidão, durante horas, antes de atropelar as pessoas e a data estabelecida para executar o seu plano foi, provavelmente, escolhida a partir daquilo que o evento representa para a população francesa e, também, ocidental.

A queda da Bastilha, símbolo do absolutismo europeu sepultado com a Revolução Francesa, teve, como lema, “a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade”. Atualmente, aqueles valores imperam, no Ocidente, como fundamento da Democracia Representativa, sendo questionados por aqueles que não se sentem contemplados por esses ideais, sejam eles cidadãos nacionais ou imigrantes, em França.

O distanciamento de tais convicções, provocado pela falta de esperança de jovens europeus e estrangeiros radicados no continente, é um dos fatores internos que tem contribuído para a radicalização através da adoção da ideologia islâmica extremista. Mourad Benchellali foi um dos primeiros jovens franceses a se alinhar ao terrorismo, quando tinha apenas 19 anos. Atualmente, aos 34 anos, ele diz que, por ser muito jovem, se deixou seduzir por uma mensagem radical e pelo desejo de aventura, tendo viajado para um campo de treino da al-Qaeda, no Afeganistão. Arrependido, acabou sendo preso e, somente após 4 anos, conseguiu se reestabelecer em França. Benchellali explica que, “quando não há trabalho, quando não temos um lugar na sociedade, tornamo-nos mais vulneráveis”.

Os problemas sociais, na Europa atual, afetam os cidadãos estrangeiros mais severamente, se comparados aos nacionais. O Eurostat, em boletim publicado em dezembro de 2015, revela uma estatística que comprova o processo de exclusão dos cidadãos não europeus. Em 2014, 40,1% da população dos não nascidos na União Europeia (UE) foi avaliada em risco de pobreza ou de exclusão social, em comparação com 22,5% da população nativa. A mesma pesquisa verificou que, em 2013, entre a população jovem imigrante de 16 a 29 anos, o risco de pobreza e de exclusão social era de 43,8% enquanto que, para os jovens europeus, os atingidos eram 28,1%.

Os Estados-membros da UE que apresentam as maiores discrepâncias e vulnerabilidade social no interior da sociedade com relação aos estrangeiros são, à luz dos dados publicados pelo Eurostat, a Bélgica, a Áustria, a Grécia, a Eslovênia e a Finlândia. Os maiores perigos do aumento de jovens pobres e excluídos estão na Bélgica, considerado como o país europeu com maior quantidade per capita de jihadistas. Os dados estatísticos apontam para o fato de a vulnerabilidade econômica e social da juventude estrangeira ser de 52,9%, contra 16,8% dos belgas.

As desigualdades, em termos de condição de vida digna e a falta de expectativas de futuro, somadas à discriminação e aos preconceitos, impedem a integração e promovem o distanciamento da cultura do país de acolhimento. Deste modo, não há sentido de pertença do indivíduo com a terra que ele escolheu para construir o seu futuro. O fim do sonho reforça a revolta e a ausência de compromissos para com os valores, a cultura e a História do país, que passa a ser responsabilizado pelo fracasso individual, da comunidade ou do grupo social ao qual ele pertence.

A desigualdade social, vivida por milhões de pessoas no Ocidente, tem sido um dos pontos fortes para a arregimentação de combatentes estrangeiros para o Estado Islâmico. Valendo-se de propagandas veiculadas no Youtube e em outras redes sociais, os fundamentalistas prometem o “paraíso na pátria muçulmana”. A publicidade é minunciosamente preparada, aproveitando-se da desesperança, da “perda do lar ético[1] por parte da população e dos fracassos das políticas sociais em diferentes partes do globo que, por negligência ou ineficiência governamental, não são satisfatórias. Assim, eles conseguem atrair adeptos e dar sentido às suas vidas carentes de identidade, de valores, de causas e de meios de sobrevivência que os administradores públicos não foram capazes de suprir.

No Estado Islâmico, segundo o jornal Público, “os combatentes estrangeiros e as suas famílias têm direito a habitação gratuita, serviços médicos, educação religiosa e até a uma espécie de entrega de refeições ao domicílio, de acordo com os entrevistados. Recebem salários pagos com os impostos e taxas que sobrecarregam milhões de pessoas que eles controlam”.

A promoção de uma sociedade mais justa e mais igual no contexto do mundo globalizado é, hoje, primordial no combate ao vazio existencial que tem conduzido muitas pessoas em direção ao islamismo radical, que ignora o Outro e promove a vingança contra inocentes em nome de uma justiça própria, levada a cabo em nome de um Deus particularmente implacável.

A falta de partilha de valores, de ideais e de respeito em relação à diversidade étnico-cultural, social e religiosa tem sido, na atualidade, uma porta aberta em direção ao extremismo. O especialista e estudioso do islamismo, Jochen Müller, afirma que a religião não é o motivo primordial para a radicalização dos jovens, o que vai ao encontro do comportamento de Mohamed Lahouaiej Bouhlel que, recentemente, atentou contra a cidade de Nice. Para Müller, “eles apresentam problemas sociais ou escolares, estão desempregados ou não são aceitos. Eles estão atrás de uma comunidade, de uma orientação, de respostas claras. A religião é apenas um pretexto – a possibilidade de, em nome de algo, atacar de forma gratuita”.

À semelhança de Müller, o antropólogo Scott Atran explicitou junto ao Senado norte-americano que, “o que inspira a maior parte dos terroristas que matam no mundo de hoje, é muito menos o Corão ou a doutrina religiosa, e muito mais a identificação com uma causa fascinante e uma ação que promete glória, admiração e estima dos amigos, e através deles o respeito eterno e a certeza de permanecer na memória deles”. O antropólogo também argumenta que os problemas que afetam o dia-a-dia dos jovens os movem em direção ao radicalismo, na medida em que “sentem tédio, que trabalham em subempregos, subqualificados e decepcionados. (…). A jihad é um empregador que oferece igualdade de oportunidades… é apaixonante, gloriosa e está na moda”.

As diversas estratégias enfrentadas pelas autoridades francesas e de outros países ao redor da Terra, para travar o avanço do terrorismo têm falhado em muitos aspectos, não por falta de meios sofisticados para identificar os potenciais agressores mas, talvez, pelo fato de o cerne do problema ser de natureza interna e pelo fato de o poder público não ter dado a devida atenção a esta questão.

Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel não foi detectado pelos Serviços de Inteligência franceses e, no entanto, ele constituía uma ameaça iminente e solitária no meio da multidão. Deste modo, os meios tecnológicos de investigação avançada e as armas inteligentes não têm dado conta para frear o neoterrorismo. Ao contrário do terrorismo tradicional, ideologicamente laico, cujas ações se concentravam em “sequestros, ataques a líderes políticos, negociações de prisioneiros, utilização de carros-bomba[2], o neoterrorismo “destaca-se por estar fragmentado em vários grupos e fundamentado pela ideologia religiosa islâmica, não excluindo dos seus ataques a população civil, ao mesmo tempo que o próprio ser humano se transforma em bomba[3].

Os Governos ocidentais já gastaram milhões de Dólares em pesquisas e aprimoramento de arsenais visando salvaguardar os seus países e as suas populações, mas isto não tem sido suficiente. A humanidade assistiu, em 11 de setembro de 2001, nos EUA, a aviões transformados em mísseis e, recentemente, em França, a um caminhão transformado em arma de arremesso. Foram ações insurgentes bem sucedidas e impossíveis de serem descobertas com antecedência pelos melhores Serviços de Inteligência do planeta.

Alguns seres humanos, contrários a tudo aquilo que lhes foi dado viver, encontraram na fé islâmica radical a justificativa para se transformarem em artefatos explosivos e já puseram fim a muitas vidas humanas. Estes, geralmente, não são percebidos a tempo de serem neutralizados, pelo que conseguem passar incógnitos pela vigilância das Forças de Segurança que não dão conta de manter sob controle a totalidade do universo populacional.

Não há uma receita infalível para evitar a tragédia que aconteceu em Nice e que, constantemente, tem afetado o Iraque, a Síria, a Líbia, a Bélgica, o Iêmen, a Turquia, os EUA e tantos outros países. No entanto, talvez uma solução provável consista na análise das mazelas existentes no interior de cada país. Na verdade, são elas que têm consumido os pilares da sociedade e destruído os valores que, até algum tempo atrás, eram o sustentáculo da esperança e do futuro. A pergunta que se levanta, neste momento, é: quantos Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel existem, hoje, e quando entrarão eles em ação nas partes mais improváveis do mundo, particularmente, do Ocidente?

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ImagemUma boneca jaz, no Promenade des Anglais, Nice, ao lado do cadáver de uma criança, vítima do atentado perpetrado por Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel” (Fonte):

http://s1.lprs1.fr/images/2016/07/15/5969671_nice-enfant_1000x625.jpg

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] MARCIANO VIDAL, Dicionário de Moral. Dicionário de Ética Teológica, Porto, Editorial Perpétuo Socorro, s. d. [1991], trad. do espanhol por A. Maia da Rocha e J. Sameiro, págs. 133-135.

[2] MARLI BARROS DIAS, Israel e Palestina – O Papel do Poder Político e da Ideologia na Construção da Paz, Curitiba, Juruá Editora, 2015, pág. 115.

[3] Ibidem.

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ANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISEUROPA

Brexit e os seus efeitos

Após uma acirrada disputa, o Reino Unido votou por sair da União Europeia em seu Referendum, realizado ontem, dia 23 de junho. Longe de ser uma decisão amplamente favorável, o resultado foi disputado voto a voto, havendo 51,9% dos votantes a favor da saída, frente a 48,1% que desejavam permanecer no Bloco Europeu.

Os efeitos da saída do Reino Unido foram amplamente debatidos dentro e fora da Europa, embora alguns resultados já são visíveis, como a queda do índice das principais bolsas de valores e a reação de outros partidos eurocépticos que já solicitam a realização de um Referendum semelhante na França, Holanda e Itália. Somente após um período maior de tempo, será possível avaliar o impacto total, tanto no Reino Unido como na União Europeia.

Ainda que desconhecido para muitos, a União Europeia possui um mecanismo estabelecido desde sua constituição que contempla a saída de um país membro do grupo. O Artigo 50 do Tratado da União Europeia estabelece que um país dissidente deva notificar ao Conselho Europeu sua decisão soberana de abandonar a União, havendo um período de até 2 anos de negociações, onde são analisados os deveres contraídos através de Tratados e Acordos, as relações futuras com o Bloco e seus integrantes, além de outras questões econômicas e jurídicas.

Dois fatores foram decisivos na discussão britânica, a questão econômica e as políticas migratórias.

O Reino Unido desde sua entrada na União Europeia manteve um status diferenciado em relação à circulação de pessoas – O país não participava no Tratado de Schegen – fato que durante muito tempo sofreu críticas dos demais países do Bloco por dificultar a sonhada integração total do continente. Nos últimos anos, transformou-se no destino de diversos jovens europeus vindos de economias em crise do resto do Bloco, tais como Espanha e Portugal, pressionando o já delicado equilíbrio fiscal e os serviços sociais. Por último, a União Europeia pressionava o Reino Unido em relação aos refugiados, tema que proporcionou força aos partidos de extrema direita.

Na área econômica o Reino Unido não integrava a Zona do Euro. A flexibilização dessa política ficou conhecida como “Europe a la carte, havendo outros Estados que também optaram por esse modelo. Além disso, o elevado grau de financeirização da economia britânica sempre lhe outorgou uma maior autonomia econômica em relação à Europa, o que por um lado pode ajudar o Reino Unido a se recuperar economicamente, mas, por outro, pode afetar suas empresas que se beneficiavam das vantagens de participar do Mercado Comum.

Outro tema discutido durante os debates prévios ao Referendum foi a segurança internacional e o combate anti-terrorismo. Perante essas duas questões não existe consenso, já que o Reino Unido participa da OTAN e possui um histórico considerável de participação no sistema global de segurança, mas por outro lado, ao não integrar a União Europeia, deverá negociar com a mesma as políticas usadas no combate ao terrorismo.

Não somente a União Europeia e o Reino Unido serão afetados pela separação. A economia europeia passa por um momento delicado e o alto grau de internacionalização da mesma, fará com que o impacto financeiro seja distribuído pelo globo. O fluxo produtivo de grandes multinacionais serão afetados, assim como o equilíbrio do mercado de consumo europeu e de países que dependiam da demanda britânica e vice-versa.

Perante esse panorama, e admitindo sua derrota, o primeiro-ministro David Cameron anunciou sua demissão e líderes de toda Europa temem um efeito cascada que leve o Bloco a uma total desintegração.

A União Europeia alcançou o auge da integração regional, nenhum outro Bloco conseguiu desenvolver um projeto semelhante, porém as assimetrias existentes no continente e outros fatores não contemplados durante sua criação, frutos da própria evolução do projeto, levaram-na a um ponto decisivo, onde ou a União Europeia se reformula, ou, aos poucos, os membros que buscam maior autonomia vão abandonar o barco.

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Imagem (Fonte):

http://image.posta.com.mx/sites/default/files/shutterstock_130660901-gedblog-study-brexit.jpg