AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Consequências da política externa do Irã para os Estados Unidos

O Irã enfrenta uma série de desafios atualmente, a começar pela sua situação doméstica. O país é um dos mais afetados pela pandemia causada pela Covid-19, com mais de 296 mil casos confirmados e de 16 mil mortes registradas, em 28 de julho. Das 31 províncias do país, 25 se encontram em observação pelos efeitos da doença, 13 das quais são consideradas em perigo pelo risco que há desequilíbrio do sistema de saúde. O presente cenário indicava que o governo iraniano pode se ver obrigado ainda a aplicar medidas mais restritivas de quarentena e enfrentar um longo período da crise que já afeta profundamente sua economia.

A emergência sanitária também se soma à instabilidade política do país. Nas últimas semanas, protestos voltaram a ocorrer em distintas regiões, manifestantes expressavam insatisfação com o governo, bem como com a inflação e desemprego, aprofundados pela pandemia. O governo tenta evitar uma repetição dos protestos ocorridos em novembro de 2019, que deixaram mais de 300 mortos e centenas de feridos, segundo a Anistia Internacional.

Imagens compartilhadas recentemente em redes sociais indicam alta presença das forças de segurança nos protestos, e a organização Netblocks relatou que os serviços de internet vêm sendo desligados por certos períodos do dia no Cuzistão, província do sudoeste do país, onde há relatos de protestos. Não há informações de mortos ou feridos pela repressão ainda.

Desde sua campanha durante eleições presidenciais de 2016, o presidente Trump vem elevando a retórica contra o Irã. Em maio de 2018, o Presidente estadunidense retirou o país do Plano de Ação Integrado Conjunto (popularmente conhecido como “Acordo Nuclear do Irã”), desde então, a relação dos Estados é marcada por uma série de medidas restritivas por parte dos Estados Unidos e mesmo de ofensivas diretas, como o ataque militar que vitimou o general Qassem Suleimani, antigo Comandante das Forças Quds (forças especiais da Guarda Revolucionária Iraniana).

O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif

Existe a impressão de que as demonstrações de força por parte dos Estados Unidos esperavam levar o governo iraniano a renegociar o Acordo Nuclear e a relação de uma maneira que parecesse mais favorável aos tomadores de decisão em Washington, ou mesmo a um colapso do atual regime no país.

Segundo o presidente do Banco Central iraniano, Abdolnasser Hemmati, o país apresentou crescimento da receita em outros setores econômicos, diminuindo a dependência do petróleo. De acordo com relatório apresentado pela entidade, o Produto Interno Bruto do país cresceu 1,1% entre 2018 e 2019. Durante o período, o setor agrícola apresentou 8,8% de crescimento, a indústria 1,2% e a mineração 3,2%. Ainda assim, o Banco Mundial estima uma retração de 8,7% do PIB iraniano entre 2019 e 2020 devido a queda dos preços do petróleo.

O endurecimento do discurso também não aparenta produzir efeitos políticos morais. Uma pesquisa de opinião pública conduzida com o apoio do Centro de Estudos Internacionais e de Segurança da Universidade de Maryland, em agosto de 2019, indicou que para 63% da população as sanções impostas pelos Estados Unidos já haviam prejudicado ao máximo o país, e não poderiam causar ainda mais dano. Questionados se o país deveria buscar autossuficiência ou tentar se reintegrar ao comércio com outros países para voltar a crescer, 69% dos entrevistados optaram pela primeira opção

Tampouco há indicativos de que o Irã vá abrandar a retórica. Em um exercício militar realizado recentemente no Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária do Irã, aeronaves de combate atiravam contra uma réplica de um porta-aviões da classe Nimitz, utilizado pela Marinha dos Estados Unidos.

Ainda que houvesse decidido continuar cumprindo as medidas do Acordo Nuclear durante os primeiros meses após a saída dos Estados Unidos, o Irã anunciou em julho e novembro de 2019 que aumentaria suas reservas de urânio para além dos limites estabelecidos. A aberta retomada de atividades nucleares não desejadas foi considerada um grave contratempo por distintos atores diplomáticos.

É em meio a este cenário que o Estado iraniano negocia acordos que podem aproximar ainda mais o país da Rússia e da China, aumentando a influência de dois grandes rivais dos Estados Unidos sobre o Oriente Médio.

O renovado interesse de associação entre Teerã tanto com Moscou quanto com Beijing envolve uma série de acordos para venda de material bélico, cessão de atividades econômicos e fontes de energia.

O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif

Em visita ocorrida no dia 16 de junho à Rússia, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Zarif, manteve diálogo com sua contraparte russa, o chanceler Sergei Lavrov. Os diplomatas discutiram o apoio de Moscou para que o Irã mantenha seu programa nuclear operante e para evitar a renovação da Resolução 2231 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Emitida em 2015, a medida impõe uma série de restrições para a aquisição de armas e material bélico por parte do Irã. Lavrov afirmou que a Rússia faria “tudo” para manter o Acordo Nuclear com o Irã e que “Washington não tem nenhum direito de punir o Irã”.

O acordo com a China pode gerar o investimento de uma quantia estimada em 400 bilhões de dólares (2,07 trilhões de reais, de acordo com a cotação do Banco Central em 28 de julho) no Irã durante os próximos 25 anos. Segundo uma versão preliminar, ambos países encaminham uma agenda de desenvolvimento de uma robusta infraestrutura portuária e de produção de energia. Com isso, o Irã ganharia um comprador preferencial de seu petróleo e gás, garantindo ao menos estabilidade nestas receitas. Além de aumentar a presença chinesa em um ponto geopoliticamente crítico, Teerã espera apoio político e estratégico chinês.

Os chanceleres do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da Rússia, Sergei Lavrov, realizam a troca de documentos durante declaração conjunta em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif

No último dia 5 de junho, Trump chegou a afirmar que o Irã não deveria esperar uma mudança na administração dos Estados Unidos para “fazer o acordo”, mas que deveria “buscar um melhor acordo” com ele. Não importa quem seja o próximo residente da Casa Branca, haverá um desafio em equilibrar ou minimizar os efeitos da crescente rivalidade com o Irã e na relação com os demais países do Oriente Médio.

Os iranianos buscam estabilidade interna e manter a projeção de seus interesses para a região. Caso avancem ainda mais as alianças com a China e a Rússia, o país poderá garantir estabilidade comercial, apoio político, bem como o suprimento de material e tecnologia para sua indústria militar.

A Rússia possui claros interesses estratégicos no Oriente Médio, como é observado após anos de presença militar na Síria e um renovado interesse na Líbia. A China possui interesse em aumentar sua presença globalmente e o Oriente Médio é ponto central para estabelecer a Iniciativa do Cinturão e Rota.

Apesar do alto impacto causado pelas sanções, o Irã manteve firme posição ao negar a possibilidade renegociar os termos do Acordo Nuclear. Um cenário de renovada estabilidade do país e uma aliança com dois dos maiores competidores globais pode se apresentar com um dos principais desafios para a diplomacia dos Estados Unidos durante o próximo mandato presidencial.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1O presidente do Irã, Hassan Rouhani, realiza videoconferência com os presidentes da Rússia, Vladmir Putin, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, sobre conflito na Síria / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1278310053402083328/photo/2

Imagem 2Visão da videoconferência entre os presidentes do Irã, Rússia e Turquia / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1278310053402083328/photo/2

Imagem 3O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, cumprimenta o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, durante encontro em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1285635000025731072/photo/1

Imagem 4Os chanceleres do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da Rússia, Sergei Lavrov, realizam a troca de documentos durante declaração conjunta em Moscou / Página oficial do chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, no Twitter – @Jzarif” (Fonte):

https://twitter.com/JZarif/status/1272910391803346949/photo/1

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Gestão da pandemia estremece o governo de Israel

O Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem se provado extremamente habilidoso em gerir as crises que cercam seu governo. Desde o princípio das investigações de corrupção das quais é alvo, o Premier participou de 3 processos eleitorais, entre abril de 2019 e março de 2020, sabendo manter sua posição e governabilidade.

Netanyahu conseguiu reverter o que parecia uma grande derrota nas eleições do 22º Knesset em setembro de 2019, quando a frente de centro-direita Kahol Lavan (Azul e Branco) passou a possuir a maior bancada, com 33 assentos contra os 32 do Likud.

Impossibilitado de formar um governo, o Parlamento se dissolveu e novas eleições foram convocadas para março de 2020. Durante o processo, o Likud conseguiu reverter o cenário desfavorável, ampliando seu espaço de 32 para 36 parlamentares, enquanto o Kahol Lavan se tornou a segunda força do Parlamento, retrocedendo de 33 para 14 cadeiras.

Durante o primeiro surto do coronavírus, o Likud, partido ao qual pertence Netanyahu, conseguiu consolidar um governo de coalizão através de um acordo com o general reformado Benjamin Gantz, líder do Kahol Lavan.

O atual momento da crise causada pela pandemia da Covid-19 pode, entretanto, mudar a sorte do atual gabinete. O país chega a mais de 40 mil casos apontados de coronavírus, com cerca de 365 mortes comprovadas. Ao mesmo tempo, o índice de desemprego chega a 21%. A insatisfação com a situação econômica, aliada à falta de medidas de suporte e ao atraso de pagamentos de auxílios, levou milhares de pessoas às ruas em Tel Aviv, em protesto ao governo.

Os indicadores apresentados durante a primeira onda, a qual autoridades avaliam haver ocorrido em Israel entre março e abril, levaram o país a ser considerado como um modelo global de combate à pandemia e o Primeiro-Ministro a afirmar que havia estabelecido um exemplo em “salvaguardar vidas e bloquear uma expansão da pandemia”.

https://platform.twitter.com/widgets.js
Netanyahu reunido com o comitê de crise do governo para decidir sobre pacotes de ajuda econômica para a população Retirado da Conta oficial do PrimeiroMinistro de Israel, Benjamin Netanyahu, no Twitter. @netanyahu

Até meados de maio o país apresentava um aumento de cerca de 20 casos diários, um contraste significativo com uma média que excede mil casos novos por dia em julho. Este novo cenário ameaça produzir um colapso do sistema de saúde e o comitê de crise do governo se viu a adotar severas medidas de distanciamento social, com o fechamento de comércios, restaurantes e academias, medidas que foram prontamente derrubadas pelo Knesset, que manteve a abertura da maioria de pontos de reunião públicas.

Em pesquisa realizada pelo Haaretz em abril, Netanyahu possuía uma taxa de aprovação de quase 33%. Os recentes desdobramentos resultaram em uma pesquisa que foi publicada no dia 9 de julho apontando que apenas 15% da população possuía uma impressão positiva do atual governo.

Quanto à gestão da crise causada pelo Coronavírus: em maio, 75% da população acreditava que a postura do governo era “positiva”; em junho, os números decaíram para 56% aprovando sua gestão da crise; para, em julho, mais de 60% avaliando que sua postura perante a atual situação do país era “inadequada.

O atual declínio da popularidade afasta os temores que haviam surgido sobre uma eleição parlamentar antecipada. Rumores recentes indicavam que o governo poderia buscar um novo pleito para ampliar seu espaço no Knesset, pois pesquisas atuais indicam que um pleito antecipado levaria a uma perda de 3 cadeiras para o Likud (33 contra as atuais 36) e de 5 cadeiras do Kahol Lavan (9 contra as atuais 14).

A mudança significativa do cenário prévio daria segurança para o governo buscar a discussão de medidas mais contraditórias, como avançar o projeto de anexação definitiva da Cisjordânia. O cenário mais favorável, que em 16 de junho apontava que em uma eventual eleição o Likud poderia ganhar até 41 dos 120 assentos no Knesset, levava o governo a cogitar tentar uma nova eleição para garantir a aprovação de suas agendas.

A falta de medidas amplas de ajuda fragiliza profundamente a população do país. A perda de empregos e de poder econômico, sobretudo da classe média do país, gera distintas manifestações em redes sociais afirmando que o governo “não se importa” com as pessoas e com a situação econômica de Israel.

As Forças de Defesa de Israel, que são um símbolo importante para toda a população, vêm sendo profundamente afetadas pela segunda onda da pandemia no país. Além do próprio Ministro da Defesa, o general da reserva e líder do Kahol Lavan, Benjamin Gantz, mais de 10 mil soldados foram colocados em quarentena depois de serem considerados como casos suspeitos de contaminação pela Covid-19.

Gantz havia despontado durante as eleições de 2019 como líder de uma força política renovadora de centro-direita, pois seu histórico como militar e propostas de renovação atraíram a atenção de uma ampla parcela do eleitorado israelense.

Após o acordo para compor um governo com Netanyahu à frente, o General reformado passou a sofrer críticas de setores que o apoiavam. Estes apontam um sinal de fraqueza da liderança do Kahol Lavan, que inicialmente afirmava que vetariam qualquer plano de anexação sem diálogo com os palestinos e acena com ceder a votar com o Likud. Também criticam a ausência de Gantz no debate público sobre a pandemia, inclusive instruindo sua bancada a diminuir críticas ao governo

Apesar das sucessivas vitórias que o atual mandatário coleciona, o governo possui uma série de agendas complexas e contraditórias para aprovar, como as medidas de anexação de território palestino. Além da reprovação de grande parcela da população israelense, a medida é considerada impopular por ampla parte da comunidade internacional. Distintos membros da União Europeia, bem como países na África, América Latina e Ásia acenam com medidas de retaliação comercial para Israel em caso de aprovação. Apesar do apoio do presidente estadunidense Donald Trump à agenda de Netanyahu, o avanço da anexação encontra expressiva resistência no Congresso dos Estados Unidos.

Distintos atores internacionais temem que a medida aumente o risco de conflitos na região, tendo em vista que a Autoridade Nacional Palestina acena com a possibilidade de demandar completa independência e seguir com um conflito, congregando apoio de diversos atores no Oriente Médio.

Questões pessoais tornam a situação do Primeiro-Ministro ainda mais difícil de administrar. Netanyahu trava uma batalha persistente contra a Suprema Corte de Israel para impedir o avanço de investigações sobre supostos subornos e benefícios ilícitos que alegadamente haveria recebido.

Recentemente, ele requisitou e teve aprovada pelo Knesset uma série de descontos fiscais, que o isentam de pagar impostos sobre distintos benefícios e remunerações que recebeu entre 2009 e 2017. A isenção chega a mais de um milhão de shekels (cerca de 1,5 milhão de reais, segundo cotação do Banco Central do Brasil em 13 de julho de 2020). A medida gerou uma ampla impressão negativa com a população, em meio de dificuldades econômicas.

Observa-se que o governo israelense deverá buscar outras vias de diálogos com a população. Será necessário para Netanyahu buscar outras saídas políticas para manter agendas complexas ou conceder certas decisões políticas para manter a estabilidade. O avanço da pandemia e da crise nas próximas semanas será determinante para estabelecer como se dará a continuidade da aliança política e as saídas para o Primeiro-Ministro.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1O PrimeiroMinistro de Israel, Benjamin Netanyahu, realiza coletiva de imprensa para anunciar a aplicação de medidas de distanciamento social no paísRetirado da Conta oficial do PrimeiroMinistro de Israel, Benjamin Netanyahu, no Twitter. @netanyahu” (Fonte):

https://platform.twitter.com/widgets.js

Imagem 2Netanyahu reunido com o comitê de crise do governo para decidir sobre pacotes de ajuda econômica para a população Retirado da Conta oficial do PrimeiroMinistro de Israel, Benjamin Netanyahu, no Twitter. @netanyahu” (Fonte):

https://platform.twitter.com/widgets.js
ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Netanyahu confirma plano de anexação de assentamentos na Cisjordânia e Vale do Jordão para 1º de julho

O Primeiro-Ministro israelense, Benyamin Netanyahu, definiu o dia 1º de julho como data prevista para adiantamento do seu plano de anexação dos assentamentos israelenses no Vale do Jordão e na Cisjordânia, na esperança de um sinal verde de Washington. Conforme publicou o The Middle East Monitor, Netanyahu disse repetidamente que planeja “avançar anexando unilateralmente essas áreas a partir do próximo mês”. Os palestinos rejeitaram a proposta e manifestaram indignação contra a anexação sugerida por Israel.

No domingo 7 de junho, o Primeiro-Ministro israelense disse a colonos e Prefeitos da Cisjordânia que ainda pretende anexar todos os assentamentos ali estabelecidos na data de 1º de julho, o mais cedo permitido por seus acordos de coalizão. Contudo, conforme reportou o The Times of Israel, Netanyahu reconheceu que a anexação de outras terras alocadas sob o plano de paz do presidente norte-americano Donald Trump provavelmente levará mais tempo.

De acordo com o The Times of Israel, o pronunciamento de Netanyahu significaria que o governo inicialmente anexaria cerca de 3% do território da Cisjordânia, cobrindo os 132 assentamentos, lar de cerca de 450.000 israelenses. O restante dos cerca de 30% que o acordo de Trump concede a Israel – a maior parte no Vale do Jordão – seria anexado em um período posterior, quando o comitê conjunto de mapeamento EUA-Israel concluísse a determinação das divisões territoriais exatas além da chamada Linha Verde pré-1967.

Segundo analistas, o governo de Trump, dominado pela crise do coronavírus e pela onda de protestos nacionais contra abusos policiais, não teria dado a Israel o endosso para anexar os territórios para não despertar mais instabilidade doméstica. O Assessor Sênior da Presidência dos Estados Unidos e uma das principais cabeças por detrás do plano, Jared Kushner, teria dito para Netanyahu “desacelerar consideravelmente o processo” de anexação unilateral de grandes partes da Cisjordânia e do Vale do Jordão.

Ainda em junho, as forças israelenses fizeram incursões e promoveram demolições como em Ain Hajla, à leste de Jericó, no vale do Jordão. O Middle East Monitor reporta que moradores foram expulsos de 8 propriedades palestinas, ficando sem qualquer abrigo. Ainda que Netanyahu tenha declarado sua intenção de anexar o estratégico e fértil Vale do Jordão já durante sua campanha eleitoral em setembro de 2019, o movimento também é parte da proposta do Presidente norte-americano “Paz para a Prosperidade”, anunciada em 28 de janeiro de 2020.

Mapa das fronteiras Israel-Palestina propostas no plano de Donald Trump ‘Paz para a Prosperidade’, de 28 de janeiro de 2020. Em azul, o Estado palestino proposto

O plano foi condenado como ilegítimo pela comunidade internacional, já que anexação dos assentamentos ilegais viola o direito internacional. Os palestinos rejeitaram a proposta e manifestaram indignação contra a anexação unilateral sugerida por Israel. A Autoridade Palestina (AP) rejeitou a proposta dos Estados Unidos e disse recentemente que considera todos os acordos assinados com Israel e os EUA nulos. As Nações Unidas e a União Europeia observaram que a anexação unilateral violaria o princípio da autodeterminação dos povos e seria um golpe devastador nas perspectivas de uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino. Os planos de paz que se baseiam na solução de dois Estados reservam aos palestinos os territórios que ocupavam antes da guerra de 1967: Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Como reflexo do alinhamento da Casa Branca com Tel Aviv, em maio de 2018 os EUA transferiram sua embaixada da capital israelense para Jerusalém. Em março de 2019, Trump reconheceu a anexação israelense das Colinas de Golã ocupadas na Síria. Em junho de 2019, os Estados Unidos reduziram suas contribuições à UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos, a zero; e em fevereiro de 2020 o país excluiu o financiamento à Autoridade Palestina e cessou toda a assistência humanitária da USAID na Cisjordânia e em Gaza.

Segundo informou a agência Reuters, em 6 de junho, milhares de israelenses protestaram contra o plano do Primeiro-Ministro israelense de estender a soberania sobre partes da Cisjordânia ocupada. Em Tel Aviv, na esteira do anúncio de Netanyahu, manifestantes carregavam cartazes dizendo “não à anexação, não à ocupação, sim à paz e à democracia”. Alguns agitavam bandeiras palestinas. Os organizadores também exibiram um vídeo do senador democrata dos Estados Unidos, Bernie Sanders, apoiando a causa palestina.

Já colonos israelenses e membros da extrema-direita expressaram reservas e até objeções ao plano de anexação de Netanyahu. Conforme escreve Mazal Mualem para o Al-Monitor, opositores internos, que supostamente se beneficiariam da ocupação, argumentam que a anexação que o Primeiro-Ministro está promovendo como passo histórico “é realmente um codinome para o estabelecimento de um Estado palestino que Netanyahu também está endossando como parte do plano de paz dos EUA”. Naftali Bennett, líder do partido nacionalista Bait Yehudi, teria sido ouvido acusando Netanyahu de ocultar intencionalmente os mapas e detalhes do plano de anexação. Nas palavras de Bennett: “Ainda não sabemos os detalhes do plano e do mapa. É soberania ou Palestina?”, reportou o The Times of Israel.

A iniciativa de extensão da soberania israelense sobre 30% da Cisjordânia – que na prática normaliza a ocupação, conforme escrevem G. N. Nithya eMohammad Ayesh – enfrentou oposição inesperada dos colonos por ser supostamente acompanhada de concessões aos palestinos, incluindo o estabelecimento de um Estado árabe nos 70% restantes da Cisjordânia. Yochai Damri, membro do Conselho Yesha, organização composta por 24 chefes de conselhos de assentamento, disse ao The Washington Post: “Se formos deixados aqui assim, estaremos no mar de um Estado palestino, um Estado inimigo. […] Todos sabemos que existem árabes que querem nos matar. Eles farão tudo o que puderem para nos machucar e nos forçar a sair desta terra”.

Conforme pesquisa elaborada pelo Israel Democracy Institute e publicada em 3 de junho pelo The Jerusalem Post, 50,1% dos israelenses apoiam a aplicação da soberania israelense a partes da Judéia e da Samaria. Entre os que apoiam a anexação dos territórios ocupados, um quarto dos israelense (25,3%) disseram que apenas apoiariam com o endosso do governo dos Estados Unidos, e outros 24,8% disseram que apoiam a anexação mesmo sem o apoio norte-americano. 

Michael Lynk, relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, disse à Mersiha Gadzo, da Al Jazeera, que “se Israel seguir adiante com a anexação, criará um Estado com dois níveis distintos de direitos políticos, econômicos, sociais e de propriedade, equivalentes ao apartheid”. E concluiu: “Quando a poeira baixar… o mundo perceberá que há apenas um Estado que opera entre o Mediterrâneo e o rio Jordão – e esse é Israel”, disse Lynk.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 PrimeiroMinistro israelense, Benjamin Netanyahu, em discurso em julho de 2015(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Prime_Minister_Netanyahu_(22674245217)_(cropped-01).jpg

Imagem 1 Mapa das fronteiras IsraelPalestina propostas no plano de Donald Trump Paz para a Prosperidade’, de 28 de janeiro de 2020. Em azul, o Estado palestino proposto(Fonte): 

https://en.wikipedia.org/wiki/Trump_peace_plan#/media/File:Trump_Peace_Plan_(cropped).jpg.

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

O novo governo e novas agendas políticas para o Iraque

No último dia 7 de maio, o Parlamento do Iraque realizou, através de votação, a escolha de Mustafa Al-Khadimi como novo Primeiro-Ministro do país, bem como deu posse ao seu gabinete.

A nomeação de um novo Primeiro-Ministro ocorre seis meses após a renúncia de Adil Abdul-Mahdi do cargo, em 29 de novembro de 2019. Desde então, o Parlamento iraquiano não conseguiu apontar um novo governo para o país. Dois Chefes de Governo foram apontados pelo presidente iraquiano Barham Salih, mas renunciaram antes que o órgão legislativo pudesse votar sua condução ao poder.

Abdul-Mahdi renunciou em meio a uma profunda turbulência política, que levou a quase 2 meses consecutivos de violentos protestos nas ruas do país e à polêmica em torno da violenta repressão por parte do governo, resultando em pelo menos 500 manifestantes mortos e mais de 19 mil feridos até dezembro de 2019.

Ao contrário das expectativas, a renúncia de Mahdi não chegou a produzir um arrefecimento dos protestos, que ocorreram com mais e menos intensidade até a imposição de medidas de quarentena, em 17 de março, reduzindo a presença da população nas ruas visando diminuir os efeitos da pandemia causada pela Covid-19.

A dificuldade em encontrar objetivos comuns entre os distintos grupos políticos do Iraque e a dificuldade em encontrar um nome que agradasse às ruas levou ao longo processo de escolha. Al-Khadimi, antigo chefe da inteligência no país, e jornalista de formação, apareceu como uma alternativa “técnica” frente à dificuldade de formar um governo. O novo Primeiro-Ministro iraquiano se propôs a formar um governo com pessoas consideradas especialistas em suas áreas e salientando que buscou escolher figuras “não associadas a partidos políticos”.

Apesar da formação de um novo governo representar um ponto positivo, existem claras barreiras a serem superadas por al-Khadimi. Apesar do ânimo de parte do Parlamento, o novo Chefe de Governo empossou um gabinete com 7 posições vagas – entre elas as de Ministro do Petróleo de das Relações Exteriores.

O novo governo do Iraque, reunido em sessão oficial – Página oficial do Governo do Iraque

O atual governo assume em um período bastante desafiador. No âmbito econômico, o país já enfrentava uma alta taxa de desemprego, sobretudo entre jovens, e a dificuldade em manter a liquidez do dinar iraquiano, a qual se acrescenta o risco de necessitar imprimir moeda para pagar salários do funcionalismo público.

De acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a exportação da commodity corresponde por 68 bilhões de dólares (R$ 378 bilhões de reais, segundo cotação do dia 22/05) em um total de 98 bilhões (R$ 530 bilhões, segundo a mesma cotação do dia 22/05) exportados anualmente pelo país.  A recente queda dos preços do petróleo, aliada à falta de expectativa de um retorno do valor do barril a um patamar mais alto, produz um desafio às receitas.

O novo governo também herda de seu antecessor a grave crise política e a escalada dos problemas de segurança internos. A agenda de segurança e a recuperação do diálogo com a população devem ser prioridades no próximo período.

Al-Khadimi ressaltou após a primeira reunião de seu governo que buscará “compensação e justiça” para as famílias dos manifestantes martirizados pelas forças de segurança. Prometendo, inclusive, punição aos envolvidos em eventos de repressão mais violenta e a libertação dos 98 manifestantes que permanecem presos. Apesar do direcionamento do governo, as cortes de justiça do Iraque ainda relutam em libertar estes presos.

Além das já esperadas resistências de grupos políticos e milícias locais, o recém-empossado Primeiro-Ministro enfrentou uma série de protestos no fim-de-semana que seguiu a sua posse. O maior destes levou centenas de manifestantes à praça Tahrir, no centro de Bagdá, exigindo mudanças políticas por parte do novo governo.

Mustafa Al-Khadimi também indicou que pretende adotar mais restrições e medidas mais duras de controle sobre as milícias, sobretudo grupos que possuam relações diretas com o Irã. Peças importantes na derrota do Estado Islâmico no Iraque, grupos como as Forças de Mobilização Popular (FMP) são hoje considerados grandes desafios para o estabelecimento de um governo central e Estado funcional.

Membros das Forças de Mobilização Populares distribuem mantimentos para afetados pela pandemia causada pelo novo Coronavírus – Página Oficial das FMP no Facebook @WarMediaTeam

Existem denúncias severas quanto à atuação violenta destes grupos contra manifestantes, principalmente nas regiões majoritariamente xiitas do Iraque. Um relatório recente da Missão de Assistência das Nações Unidas no Iraque (Unami) informou que atores armados infra-estatais (frequentemente identificados como “milícias”) estiveram envolvidos no desaparecimento e tortura de pelo menos 123 indivíduos em manifestações entre outubro de 2019 e março de 2020.

Em protesto ocorrido no dia 10 de maio, na cidade de Basra, região majoritariamente xiita no sul do país, manifestantes que pediam a renúncia do governador da província, Assad al-Eidani, além de pessoas que fazem parte da elite local entraram em confronto com membros da milícia local Thar Allah al-Islami. Um manifestante faleceu e outros quatro ficaram feridos no confronto. Por ordem direta do Primeiro-Ministro, conforme divulgado pela conta oficial do governo no Twitter, as forças de segurança locais invadiram a sede da milícia no dia seguinte. As forças policiais prenderam todos os presentes – incluindo o líder da milícia, Yusif Sawani – e recolheram armamento no local.

Com poucos dias à frente do escritório, a postura de al-Khadimi aponta para um endurecimento da ação governamental, visando centralizar o uso da Força e colocar controle sobre as milícias pelo Iraque. Forças governamentais também prenderam no dia 21 de maio Maytham al-Okaili, líder da Saraya al-Khorasani – uma facção pró-Irã associada às FMP. O Primeiro-Ministro chegou a apresentar um plano para a incorporação das milícias às forças de segurança regulares, impondo o controle governamental e novas leis para reger suas operações. No dia 16 de maio, ele realizou uma visita ao quartel-general das FMP em Bagdá, onde se reuniu com lideranças do grupo para “diminuir a tensão”, segundo a mídia local.

Apesar do Estado Islâmico não possuir mais amplo controle territorial sobre o Iraque, ondas de mobilização do grupo permanecem uma ameaça constante, bem como outros grupos terroristas. A associação das milícias ao Irã pode representar um desafio ao lidar com o poderoso vizinho. Os grupos também contam com simpatia da população após o combate contra o EI e tem efetivo controle territorial de muitas regiões.

O novo governo do Iraque deve enfrentar uma acirrada desconfiança da população, dificuldades para estabilizar o país economicamente e a maior crise sanitária da história recente. Em meio a este cenário, o Primeiro-Ministro busca também a solução do que é considerado um dos maiores problemas estruturais do Estado iraquiano. Apesar de constituir uma agenda política que representa um elemento necessário à estabilidade do governo, há um risco grande em desafiar a popularidade de grupos políticos instituídos e criar frentes desafiadoras, em meio a um período já turbulento para o país.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O PrimeiroMinistro do Iraque, Mustafa AlKhadimi, em pronunciamento oficial Página oficial do gabinete do PrimeiroMinistro do Iraque no Twitter. @IraqiPMO” (Fonte):

https://twitter.com/IraqiPMO/status/1264616581629444097/photo/1

Imagem 2 O novo governo do Iraque, reunido em sessão oficial Página oficial do Governo do Iraque” (Fonte):

Imagem 3Membros das Forças de Mobilização Populares distribuem mantimentos para afetados pela pandemia causada pelo novo Coronavírus Página Oficial das FMP no Facebook @WarMediaTeam” (Fonte): https://www.facebook.com/WarMediaTeam

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIOTerrorismo

Alemanha bane todas as atividades do Hezbollah no país e classifica a organização como terrorista

O Ministro do Interior da Alemanha, Horst Seehofer, proibiu no último dia 30 de abril todas as atividades “da organização xiita terrorista Hezbollah” no país, informou o Porta-Voz do Ministério, Steve Alter, em sua conta no Twitter. O banimento proíbe reuniões, manifestações públicas de apoio e publicações que promovam o grupo, além de permitir o confisco dos bens de indivíduos e instituições que tenham vínculo com a organização, informou o jornal libanês An-Nahar.

No dia do anúncio, o Ministério do Interior da Alemanha informou que “medidas policiais vêm ocorrendo em vários estados federais simultaneamente desde as primeiras horas da manhã”. Conforme reportou o  jornal alemão DW, as batidas policiais concentraram-se em quatro associações de mesquitas em Berlim, Dortmund, Bremen e Münster, todas acusadas de pertencer ao Hezbollah. Referindo-se à pandemia de COVID-19, que já deixou quase 7.000 mortos no país, o Porta-Voz afirmou que “o Estado de direito também pode agir em tempos de crise”.

O jornal libanês Al-Akhbar reportou que seis centros pertencentes principalmente à comunidade libanesa na Alemanha foram invadidos sob força policial, com confisco de telefones, computadores e dispositivos eletrônicos das casas e sedes das associações. Algumas pessoas também foram presas. O jornal acusou a decisão alemã de ter sido “um ataque malicioso que teve como alvo o povo libanês por razões políticas”, de contar com acusações generalistas e ser carente de detalhes sobre as supostas atividades desenvolvidas pelos empresários libaneses no país.

O mesmo aconteceria em países da América Latina (a exemplo do Brasil), afirmou o Al-Akhbar, onde tampouco haveria “evidências convincentes do envolvimento do Hezbollah em atividades terroristas claras”. Conforme  afirma Salem Nasser, em que pesem os registros de atividades de contrabando, tráfico de drogas e ilicitudes na região da Tríplice Fronteira, e ainda que possa haver ali, moral e politicamente, simpatizantes do Hezbollah, nenhuma acusação foi comprovada em qualquer instância, inclusive aquela de que haveria um fluxo de financiamento da região em direção ao Hezbollah – que por si só não constituiria crime de acordo com o direito brasileiro, explica.

Abbas Ali Kadkhodaei, Porta-Voz do Conselho Guardião da Constituição iraniano, disse que “a medida mais recente da Alemanha provou que o lema de seu governo de defesa dos direitos humanos não é real, mas é usado como pretexto para eliminar os direitos das pessoas em diferentes regiões do mundo”, publicou o Al-Ahed news.

Em comunicado, o Ministério do Interior alemão declarou que “o Hezbollah pede abertamente a eliminação violenta do Estado de Israel e questiona o direito do Estado de Israel de existir”. E completou: “a organização é, portanto, fundamentalmente contra o conceito de entendimento internacional, independentemente de se apresentar como uma estrutura política, social ou militar”, reportou o Middle East Monitor.

A decisão é fruto de um dos últimos atos do Parlamento alemão em 2019, que aprovou uma moção instando o governo a eliminar a distinção entre os ramos armados e políticos do Hezbollah, e pedindo pelo banimento total do grupo. A decisão foi elogiada pelo Embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, Richard Grenell, que na ocasião afirmou em entrevista para o Jerusalem Post que: “o governo está pronto para agir, usando as ferramentas legais disponíveis para negar ao procurador terrorista iraniano a capacidade de planejar, recrutar e arrecadar fundos em solo alemão”. Em nota, o Comitê Judaico Americano (AJC) também elogiou a decisão alemã como “bem-vinda e muito esperada”.

Segundo o DW, a Alemanha já havia feito anteriormente uma distinção entre o ramo político e militante do grupo, em linha com a União Europeia, que havia adicionado sua ala militar a uma lista de grupos terroristas proibidos em 2013. Contudo, na quinta-feira, 30 de abril, o país oficialmente classificou a organização como terrorista em sua integralidade. A decisão segue os passos dos Países Baixos e da Inglaterra, esta última que, em fevereiro de 2019, também introduziu uma legislação que classificou o Hezbollah como organização terrorista, citando suas atividades militares na Síria, Iraque e Iêmen.

Estados Unidos e Israel vinham pressionando fortemente a Alemanha a banir a organização como um todo. O Tesouro norte-americano também vem aumentando o cerco financeiro e sanções sobre o grupo, medidas que ocorrem em meio a crescente preocupação dos EUA com o papel do Hezbollah no governo libanês. Com a saída do país do acordo nuclear com o Irã, Washington vem pressionando seus aliados europeus a agirem de acordo. Em 2019, Niels Annen, Vice-Ministro das Relações Exteriores alemão, que falou com Der Spiegel após uma visita ao Líbano, rejeitou as críticas dos EUA de que a Alemanha “não estava fazendo o suficiente para combater a influência do Irã na região”.

No início de 2020, o Embaixador dos Estados Unidos na Alemanha instou novamente a União Europeia a designar todo o movimento como entidade terrorista. UE e França permanecem considerando somente o braço armado do Hezbollah como tal. Já Estados Unidos, Israel, Reino Unido, Canadá, Países Baixos, Conselho Cooperativo do Golfo, Argentina, Paraguai, Colômbia e Honduras classificam todo o grupo como terrorista. O Brasil, por enquanto, permanece seguindo a lista oficial das Nações Unidas, que exclui a organização de suas sanções (UNSCR 1267 (1999); UNSCR 1989 (2011) e UNSCR 2253 (2015)).

Contudo, em alinhamento à política externa norte-americana e israelense, em agosto de 2019 o Presidente Jair Bolsonaro confirmou suas intenções de classificar oficialmente o grupo como organização terrorista: “Pretendo fazer isso daí. São terroristas”, afirmou. No dia anterior, em 19 de agosto de 2019, o filho de Bolsonaro e Deputado federal pelo PSL-SP, Eduardo Bolsonaro, afirmou em sua conta do Twitter: “Essa questão do Hezbollah envergonha o Brasil no exterior. Temos que mudar essa realidade o quanto antes. Desconheço argumentos plausíveis que justifiquem considerar o grupo terrorista Hezbollah como partido político”.

A decisão, contudo, não é unanimidade dentro do governo – enfrentando resistências no Ministério da Defesa, na Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e na Polícia Federal, segundo escrevem Sami Adghirni, Ricardo Della Coletta e Gustavo Uribe para a Folha de São Paulo.

Muitos políticos alemães também se opõem a uma proibição total, alegando que permitir a existência do braço político do Hezbollah é essencial para manter as relações com o Líbano.  Um dia após a Alemanha ter designado o Hezbollah como organização terrorista, o Irã condenou veementemente a medida e ameaçou a Alemanha com consequências. O Porta-Voz do Ministério das Relações Exteriores, Sayyed Abbas Mousavi, a descreveu como “uma medida que atende aos objetivos dos EUA e do regime sionista de Israel”, em sua conta no Twitter.

Em nota, o Porta-Voz declarou que “A decisão do governo alemão foi tomada com total desrespeito ao governo e à nação libanesa […]” e que “também foi tomada com total imprudência contra uma força que teve e ainda tem um papel fundamental na luta contra o terrorismo violento do Daesh (ISIS) na região. O governo alemão, portanto, deve ser responsabilizado pelas consequências negativas de sua decisão na luta contra os verdadeiros grupos terroristas da região”, concluiu Mousavi.

Bandeira do Hezbollah

O partido político libanês Hezbollah (Partido de Deus) surgiu inicialmente como milícia em resposta à invasão israelense no Líbano em 1982 (Operação Paz para a Galileia) e resistiu à ocupação israelense durante toda a guerra civil libanesa (1975-1990). Atualmente, o grupo opera ao lado das Forças Armadas Libanesas, tendo sido responsável pela expulsão do exército de Israel do país em maio de 2000, encerrando 22 anos de ocupação, e na guerra de julho de 2006. Conforme afirma Christian Karam, sua ascensão nas últimas décadas é reflexo de um processo que envolve a oposição à ocupação israelense das terras árabes; o suporte à causa palestina; e o apoio de grupos sociais domésticos – sobretudo xiitas – historicamente à margem do Estado, economia e sociedade libanesas.

Desde o pós-guerra, o Hezbollah é uma das forças políticas mais importantes e influentes no Líbano, presente no atual governo interino do país, além de deter um extensivo programa de bem-estar social e de gerenciar uma ampla variedade de instituições, cobrindo ações de educação, microcrédito, habitacionais e de saúde pública, explicam Mona Harb e Reinoud Leenders.

Nas eleições gerais de 6 de maio de 2018, o Hezbollah obteve 13 assentos no Parlamento de 128 membros, mantendo os mesmos 10% de votos obtidos na eleição geral anterior de 2009. Com a formação do governo de união nacional em 31 de janeiro de 2019, o Hezbollah passou a ocupar também 3 Ministérios: o Ministério dos Esportes e da Juventude, o Ministério de Estado dos Assuntos Parlamentares e o Ministério da Saúde Pública – até a dissolução do governo após a renúncia de Saad Hariri em outubro de 2019.

Manifestantes em frente a Mesquita Mohammad Al-Amin, no centro de Beirute, em outubro de 2019

A decisão alemã ocorre em meio à retomada das manifestações populares contra o governo do Líbano. Com o início do afrouxamento das medidas de confinamento para o combate do coronavírus, manifestantes voltaram a tomar as ruas de Beirute e de Trípoli no último 1º de maio, de acordo com a Foreign Policy. As manifestações, que tiveram início em outubro de 2019, em menos de duas semanas causaram a renúncia do então Primeiro-Ministro do país, Saad Hariri. A população nas ruas se queixa dos altos níveis de desemprego, corrupção e preços crescentes. O Líbano enfrenta sua mais grave crise econômica desde o fim da guerra civil, em 1990. A dívida pública do país excede 150% do Produto Interno Bruto (PIB) e a Libra libanesa desvalorizou quase 60% em relação ao Dólar. De acordo com o An-Nahar, o preço de alguns bens básicos subiu mais de 60%.

Em 9 de março de 2020, pela primeira vez o Líbano não honrou o compromisso de pagamento de um título da dívida no valor de US$ 1,2 bilhão (por volta de 6,58 bilhões de reais, seguindo a cotação de 4 de maio de 2020), conforme a revista The Economist. O atual Primeiro-Ministro Hassan Diab, que tomou posse em 21 de janeiro de 2020, assinou em 1º de maio o pedido de assistência ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para lidar com a crise fiscal e financeira no país. O Líbano deverá buscar US$ 10 bilhões em empréstimos da instituição financeira (aproximadamente 54,86 bilhões de reais, também de acordo com a mesma cotação), após a aprovação de duras reformas de reestruturação econômica.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Horst Seehofer, Ministro do Interior da Alemanha(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Horst_Seehofer_2011.jpg

Imagem 2 Bandeira do Hezbollah(Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Flag_of_Hezbollah

Imagem 3 Manifestantes em frente a Mesquita Mohammad AlAmin, no centro de Beirute, em outubro de 2019(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Beirut_october_protests_2019_4.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Escalada da tensão entre palestinos e israelenses em meio a pandemia

O aumento de casos de coronavírus vem apresentando uma série de desafios para governos ao redor do mundo, a situação não é diferente no Oriente Médio e se soma a questões já existentes, como os históricos problemas entre israelenses e palestinos.

Tanto Israel quanto a Palestina vêm enfrentando dificuldades em implementar planos eficazes de combate à pandemia causada pela Covid-19. A presente situação preocupa os governantes das duas partes e, apesar deste cenário adverso apresentar o risco de crises mais profundas e novos problemas, alguns analistas enxergam oportunidade para cooperação.

No caso palestino, a separação física do território controlado resulta em fator complicador. A população vem reagindo de maneira distinta: enquanto em Gaza medidas de isolamento social são cumpridas, a população na Cisjordânia tem resistido ao cumprimento de medidas mais rigorosas.

Como consequência desta situação, a Palestina registra, hoje, 342 casos confirmados de Coronavírus (sendo 325 destes na Cisjordânia e somente 17 na Faixa de Gaza) e as únicas duas mortes confirmadas até o presente momento no país também ocorreram na Cisjordânia.

O governo israelense tomou uma série de medidas rigorosas ao princípio das contaminações no país. Hoje, com mais de 15.400 contaminados e 202 mortes por Covid-19, encontra dificuldade em manter as medidas restritivas e de isolamento social.

A exemplo de outros locais ao redor do globo, o reduzido número de mortes e a diminuição na velocidade dos contágios levou a um amplo debate social, acrescido da descrença por parte de alguns setores quanto à magnitude do impacto da doença e à necessidade de medidas tão rigorosas.

Uma parcela dos opositores das medidas afirma que o impacto econômico gerado pelas restrições de mobilidade não se justifica frente ao presente cenário. Também existe entre uma parcela da população e dos membros do Knesset a desconfiança quanto aos motivos que levam o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a sustentar uma quarentena rigorosa. Muitos acreditam que isto o ajudou tanto a impor a formação de um governo de coalizão, quanto a atrasar investigações de corrupção contra si.

A população tem expressado descontentamento com medidas tomadas pelo governo, tais como a exclusão de comunidades judaicas ultra ortodoxas, que levou a um alto grau de infecção entre esta parcela da população, e o uso do rastreamento digital para controlar a adesão à quarentena e pacientes infectados pelo coronavírus. Em março, o gabinete de Netanyahu havia aprovado uma diretriz que permitia ao Shin Bet – Serviço de Segurança Geral – rastrear dados telefônicos para monitorar pessoas infectadas pelo coronavírus, em decisão do dia 26 de abril, a Corte Suprema de Israel determinou a suspensão destas ações até haver legislação sobre o uso interno desta tecnologia tradicionalmente aplicada em ações de contraterrorismo.

Em meio a este cenário já complexo, outros problemas se apresentam para a cooperação na região. Após mais de um ano e meio de instabilidade política, o Knesset, Parlamento israelense, e grupos políticos no país estão próximos de encontrar um acordo. No dia 20 de abril, os líderes do Likud, Benjamin Netanyahu, e da aliança Azul e Branco (Kahol Lavan), Benjamin Gantz, chegaram a um acerto para a formação de um novo governo. Dentre as agendas políticas que as lideranças consideraram de comum acordo está a ampliação e sistematização dos assentamentos na Cisjordânia.

Este entendimento, que pode produzir um avanço nas políticas para anexação de certas regiões reclamadas por palestinos, criou uma tensão ainda maior entre as partes. Em declaração, a Autoridade Palestina afirmou que pode sair de acordos bilaterais já existentes se o avanço da anexação se concretizar, afirmando que “a aceleração da expansão dos assentamentos, associada ao avanço devastador da Covid-19, pode incendiar a situação e destruir qualquer esperança para a paz”.

Nickolay Mandlenov, Coordenador Especial para os Processos de Paz do Oriente Médio das Nações Unidas, declarou em conferência ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que o “reconhecimento da interdependência pode – se houver vontade política, traduzir-se em processo tangível para a resolução do conflito”.  Entretanto, a declaração não reflete em totalidade as ações políticas concretas na região.

Trabalhadores da área de saúde entregam suplementos médicos em território palestino

Autoridades palestinas, entretanto, têm se queixado do endurecimento de políticas de segurança de Israel durante o período. Dentre os relatos estão ataques de forças israelenses a centros de saúde e postos de distribuição de mantimentos em território palestino.

O Ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett, suspendeu testes na Faixa de Gaza para pressionar os palestinos a devolver prisioneiros israelenses e cooperar em outros aspectos. Em discurso ao Conselho de Segurança, o representante da Autoridade Palestina frente às Nações Unidas, Riyad Mansour, acusou as Forças de Defesa Israelenses de desbaratar esforços para o combate à pandemia em território palestino. As políticas de segurança israelenses também vêm, segundo afirmações de autoridades palestinas e organismos internacionais, atrasando a chegada de suprimentos básicos e equipamentos médicos aos organismos de saúde palestinos.

No dia 7 de abril, uma série de agências internacionais (como a Oxfam e a Human Rights Watch) assinaram um memorando conclamando que Israel deve “assumir suas responsabilidades em apoiar o sistema de saúde palestino, tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia”.

Aproveitando a escalada da tensão e a necessidade de apoio logístico, o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, entrou em contato com o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh, para anunciar o envio de equipamentos e suplementos médicos para a Palestina. O governo turco busca criar mais identidade com povos árabes da região. Segundo Haniyeh, Erdogan afirmou que turcos e palestinos “são o mesmo povo e compartilham das mesmas causas”. 

Ao mesmo tempo que representa a oportunidade de reconhecimento da interdependência e da criação de mecanismos de cooperação na região, a crise provocada pela pandemia pode apresentar uma oportunidade de reaproximação e mudança política. Dada a realidade dos dois países, é notório que a falta de uma solução integrada da pandemia pode prejudicar ambos os lados, pelos riscos de contágio e impactos.

Também para Israel, a falta de sensibilidade à crise enfrentada pelos palestinos pode aumentar a influência de atores regionais que não estão alinhados a seus interesses diretos e podem, ao ganhar simpatia dentro de autoridades políticas e da população palestinas, encontrar representantes

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Médicos prestam condolências a cidadão palestino falecido em consequência da Covid19 no Hospital Hugo Chávez, em Ramallah, Palestina” (FontePágina oficial do PrimeiroMinistro da Autoridade Palestina no Twitter, Dr. Mohammad Shtayyeh@DrShtayyeh): https://twitter.com/DrShtayyeh/status/1248642219206205440

Imagem 2Trabalhadores da área de saúde entregam suplementos médicos em território palestino” (FontePágina Oficial da Missão do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas na Palestina no Twitter@ochaopt): https://twitter.com/ochaopt/status/1252888404519522304/photo/1