ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIOTerrorismo

Alemanha bane todas as atividades do Hezbollah no país e classifica a organização como terrorista

O Ministro do Interior da Alemanha, Horst Seehofer, proibiu no último dia 30 de abril todas as atividades “da organização xiita terrorista Hezbollah” no país, informou o Porta-Voz do Ministério, Steve Alter, em sua conta no Twitter. O banimento proíbe reuniões, manifestações públicas de apoio e publicações que promovam o grupo, além de permitir o confisco dos bens de indivíduos e instituições que tenham vínculo com a organização, informou o jornal libanês An-Nahar.

No dia do anúncio, o Ministério do Interior da Alemanha informou que “medidas policiais vêm ocorrendo em vários estados federais simultaneamente desde as primeiras horas da manhã”. Conforme reportou o  jornal alemão DW, as batidas policiais concentraram-se em quatro associações de mesquitas em Berlim, Dortmund, Bremen e Münster, todas acusadas de pertencer ao Hezbollah. Referindo-se à pandemia de COVID-19, que já deixou quase 7.000 mortos no país, o Porta-Voz afirmou que “o Estado de direito também pode agir em tempos de crise”.

O jornal libanês Al-Akhbar reportou que seis centros pertencentes principalmente à comunidade libanesa na Alemanha foram invadidos sob força policial, com confisco de telefones, computadores e dispositivos eletrônicos das casas e sedes das associações. Algumas pessoas também foram presas. O jornal acusou a decisão alemã de ter sido “um ataque malicioso que teve como alvo o povo libanês por razões políticas”, de contar com acusações generalistas e ser carente de detalhes sobre as supostas atividades desenvolvidas pelos empresários libaneses no país.

O mesmo aconteceria em países da América Latina (a exemplo do Brasil), afirmou o Al-Akhbar, onde tampouco haveria “evidências convincentes do envolvimento do Hezbollah em atividades terroristas claras”. Conforme  afirma Salem Nasser, em que pesem os registros de atividades de contrabando, tráfico de drogas e ilicitudes na região da Tríplice Fronteira, e ainda que possa haver ali, moral e politicamente, simpatizantes do Hezbollah, nenhuma acusação foi comprovada em qualquer instância, inclusive aquela de que haveria um fluxo de financiamento da região em direção ao Hezbollah – que por si só não constituiria crime de acordo com o direito brasileiro, explica.

Abbas Ali Kadkhodaei, Porta-Voz do Conselho Guardião da Constituição iraniano, disse que “a medida mais recente da Alemanha provou que o lema de seu governo de defesa dos direitos humanos não é real, mas é usado como pretexto para eliminar os direitos das pessoas em diferentes regiões do mundo”, publicou o Al-Ahed news.

Em comunicado, o Ministério do Interior alemão declarou que “o Hezbollah pede abertamente a eliminação violenta do Estado de Israel e questiona o direito do Estado de Israel de existir”. E completou: “a organização é, portanto, fundamentalmente contra o conceito de entendimento internacional, independentemente de se apresentar como uma estrutura política, social ou militar”, reportou o Middle East Monitor.

A decisão é fruto de um dos últimos atos do Parlamento alemão em 2019, que aprovou uma moção instando o governo a eliminar a distinção entre os ramos armados e políticos do Hezbollah, e pedindo pelo banimento total do grupo. A decisão foi elogiada pelo Embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, Richard Grenell, que na ocasião afirmou em entrevista para o Jerusalem Post que: “o governo está pronto para agir, usando as ferramentas legais disponíveis para negar ao procurador terrorista iraniano a capacidade de planejar, recrutar e arrecadar fundos em solo alemão”. Em nota, o Comitê Judaico Americano (AJC) também elogiou a decisão alemã como “bem-vinda e muito esperada”.

Segundo o DW, a Alemanha já havia feito anteriormente uma distinção entre o ramo político e militante do grupo, em linha com a União Europeia, que havia adicionado sua ala militar a uma lista de grupos terroristas proibidos em 2013. Contudo, na quinta-feira, 30 de abril, o país oficialmente classificou a organização como terrorista em sua integralidade. A decisão segue os passos dos Países Baixos e da Inglaterra, esta última que, em fevereiro de 2019, também introduziu uma legislação que classificou o Hezbollah como organização terrorista, citando suas atividades militares na Síria, Iraque e Iêmen.

Estados Unidos e Israel vinham pressionando fortemente a Alemanha a banir a organização como um todo. O Tesouro norte-americano também vem aumentando o cerco financeiro e sanções sobre o grupo, medidas que ocorrem em meio a crescente preocupação dos EUA com o papel do Hezbollah no governo libanês. Com a saída do país do acordo nuclear com o Irã, Washington vem pressionando seus aliados europeus a agirem de acordo. Em 2019, Niels Annen, Vice-Ministro das Relações Exteriores alemão, que falou com Der Spiegel após uma visita ao Líbano, rejeitou as críticas dos EUA de que a Alemanha “não estava fazendo o suficiente para combater a influência do Irã na região”.

No início de 2020, o Embaixador dos Estados Unidos na Alemanha instou novamente a União Europeia a designar todo o movimento como entidade terrorista. UE e França permanecem considerando somente o braço armado do Hezbollah como tal. Já Estados Unidos, Israel, Reino Unido, Canadá, Países Baixos, Conselho Cooperativo do Golfo, Argentina, Paraguai, Colômbia e Honduras classificam todo o grupo como terrorista. O Brasil, por enquanto, permanece seguindo a lista oficial das Nações Unidas, que exclui a organização de suas sanções (UNSCR 1267 (1999); UNSCR 1989 (2011) e UNSCR 2253 (2015)).

Contudo, em alinhamento à política externa norte-americana e israelense, em agosto de 2019 o Presidente Jair Bolsonaro confirmou suas intenções de classificar oficialmente o grupo como organização terrorista: “Pretendo fazer isso daí. São terroristas”, afirmou. No dia anterior, em 19 de agosto de 2019, o filho de Bolsonaro e Deputado federal pelo PSL-SP, Eduardo Bolsonaro, afirmou em sua conta do Twitter: “Essa questão do Hezbollah envergonha o Brasil no exterior. Temos que mudar essa realidade o quanto antes. Desconheço argumentos plausíveis que justifiquem considerar o grupo terrorista Hezbollah como partido político”.

A decisão, contudo, não é unanimidade dentro do governo – enfrentando resistências no Ministério da Defesa, na Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e na Polícia Federal, segundo escrevem Sami Adghirni, Ricardo Della Coletta e Gustavo Uribe para a Folha de São Paulo.

Muitos políticos alemães também se opõem a uma proibição total, alegando que permitir a existência do braço político do Hezbollah é essencial para manter as relações com o Líbano.  Um dia após a Alemanha ter designado o Hezbollah como organização terrorista, o Irã condenou veementemente a medida e ameaçou a Alemanha com consequências. O Porta-Voz do Ministério das Relações Exteriores, Sayyed Abbas Mousavi, a descreveu como “uma medida que atende aos objetivos dos EUA e do regime sionista de Israel”, em sua conta no Twitter.

Em nota, o Porta-Voz declarou que “A decisão do governo alemão foi tomada com total desrespeito ao governo e à nação libanesa […]” e que “também foi tomada com total imprudência contra uma força que teve e ainda tem um papel fundamental na luta contra o terrorismo violento do Daesh (ISIS) na região. O governo alemão, portanto, deve ser responsabilizado pelas consequências negativas de sua decisão na luta contra os verdadeiros grupos terroristas da região”, concluiu Mousavi.

Bandeira do Hezbollah

O partido político libanês Hezbollah (Partido de Deus) surgiu inicialmente como milícia em resposta à invasão israelense no Líbano em 1982 (Operação Paz para a Galileia) e resistiu à ocupação israelense durante toda a guerra civil libanesa (1975-1990). Atualmente, o grupo opera ao lado das Forças Armadas Libanesas, tendo sido responsável pela expulsão do exército de Israel do país em maio de 2000, encerrando 22 anos de ocupação, e na guerra de julho de 2006. Conforme afirma Christian Karam, sua ascensão nas últimas décadas é reflexo de um processo que envolve a oposição à ocupação israelense das terras árabes; o suporte à causa palestina; e o apoio de grupos sociais domésticos – sobretudo xiitas – historicamente à margem do Estado, economia e sociedade libanesas.

Desde o pós-guerra, o Hezbollah é uma das forças políticas mais importantes e influentes no Líbano, presente no atual governo interino do país, além de deter um extensivo programa de bem-estar social e de gerenciar uma ampla variedade de instituições, cobrindo ações de educação, microcrédito, habitacionais e de saúde pública, explicam Mona Harb e Reinoud Leenders.

Nas eleições gerais de 6 de maio de 2018, o Hezbollah obteve 13 assentos no Parlamento de 128 membros, mantendo os mesmos 10% de votos obtidos na eleição geral anterior de 2009. Com a formação do governo de união nacional em 31 de janeiro de 2019, o Hezbollah passou a ocupar também 3 Ministérios: o Ministério dos Esportes e da Juventude, o Ministério de Estado dos Assuntos Parlamentares e o Ministério da Saúde Pública – até a dissolução do governo após a renúncia de Saad Hariri em outubro de 2019.

Manifestantes em frente a Mesquita Mohammad Al-Amin, no centro de Beirute, em outubro de 2019

A decisão alemã ocorre em meio à retomada das manifestações populares contra o governo do Líbano. Com o início do afrouxamento das medidas de confinamento para o combate do coronavírus, manifestantes voltaram a tomar as ruas de Beirute e de Trípoli no último 1º de maio, de acordo com a Foreign Policy. As manifestações, que tiveram início em outubro de 2019, em menos de duas semanas causaram a renúncia do então Primeiro-Ministro do país, Saad Hariri. A população nas ruas se queixa dos altos níveis de desemprego, corrupção e preços crescentes. O Líbano enfrenta sua mais grave crise econômica desde o fim da guerra civil, em 1990. A dívida pública do país excede 150% do Produto Interno Bruto (PIB) e a Libra libanesa desvalorizou quase 60% em relação ao Dólar. De acordo com o An-Nahar, o preço de alguns bens básicos subiu mais de 60%.

Em 9 de março de 2020, pela primeira vez o Líbano não honrou o compromisso de pagamento de um título da dívida no valor de US$ 1,2 bilhão (por volta de 6,58 bilhões de reais, seguindo a cotação de 4 de maio de 2020), conforme a revista The Economist. O atual Primeiro-Ministro Hassan Diab, que tomou posse em 21 de janeiro de 2020, assinou em 1º de maio o pedido de assistência ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para lidar com a crise fiscal e financeira no país. O Líbano deverá buscar US$ 10 bilhões em empréstimos da instituição financeira (aproximadamente 54,86 bilhões de reais, também de acordo com a mesma cotação), após a aprovação de duras reformas de reestruturação econômica.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Horst Seehofer, Ministro do Interior da Alemanha(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Horst_Seehofer_2011.jpg

Imagem 2 Bandeira do Hezbollah(Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Flag_of_Hezbollah

Imagem 3 Manifestantes em frente a Mesquita Mohammad AlAmin, no centro de Beirute, em outubro de 2019(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Beirut_october_protests_2019_4.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Escalada da tensão entre palestinos e israelenses em meio a pandemia

O aumento de casos de coronavírus vem apresentando uma série de desafios para governos ao redor do mundo, a situação não é diferente no Oriente Médio e se soma a questões já existentes, como os históricos problemas entre israelenses e palestinos.

Tanto Israel quanto a Palestina vêm enfrentando dificuldades em implementar planos eficazes de combate à pandemia causada pela Covid-19. A presente situação preocupa os governantes das duas partes e, apesar deste cenário adverso apresentar o risco de crises mais profundas e novos problemas, alguns analistas enxergam oportunidade para cooperação.

No caso palestino, a separação física do território controlado resulta em fator complicador. A população vem reagindo de maneira distinta: enquanto em Gaza medidas de isolamento social são cumpridas, a população na Cisjordânia tem resistido ao cumprimento de medidas mais rigorosas.

Como consequência desta situação, a Palestina registra, hoje, 342 casos confirmados de Coronavírus (sendo 325 destes na Cisjordânia e somente 17 na Faixa de Gaza) e as únicas duas mortes confirmadas até o presente momento no país também ocorreram na Cisjordânia.

O governo israelense tomou uma série de medidas rigorosas ao princípio das contaminações no país. Hoje, com mais de 15.400 contaminados e 202 mortes por Covid-19, encontra dificuldade em manter as medidas restritivas e de isolamento social.

A exemplo de outros locais ao redor do globo, o reduzido número de mortes e a diminuição na velocidade dos contágios levou a um amplo debate social, acrescido da descrença por parte de alguns setores quanto à magnitude do impacto da doença e à necessidade de medidas tão rigorosas.

Uma parcela dos opositores das medidas afirma que o impacto econômico gerado pelas restrições de mobilidade não se justifica frente ao presente cenário. Também existe entre uma parcela da população e dos membros do Knesset a desconfiança quanto aos motivos que levam o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a sustentar uma quarentena rigorosa. Muitos acreditam que isto o ajudou tanto a impor a formação de um governo de coalizão, quanto a atrasar investigações de corrupção contra si.

A população tem expressado descontentamento com medidas tomadas pelo governo, tais como a exclusão de comunidades judaicas ultra ortodoxas, que levou a um alto grau de infecção entre esta parcela da população, e o uso do rastreamento digital para controlar a adesão à quarentena e pacientes infectados pelo coronavírus. Em março, o gabinete de Netanyahu havia aprovado uma diretriz que permitia ao Shin Bet – Serviço de Segurança Geral – rastrear dados telefônicos para monitorar pessoas infectadas pelo coronavírus, em decisão do dia 26 de abril, a Corte Suprema de Israel determinou a suspensão destas ações até haver legislação sobre o uso interno desta tecnologia tradicionalmente aplicada em ações de contraterrorismo.

Em meio a este cenário já complexo, outros problemas se apresentam para a cooperação na região. Após mais de um ano e meio de instabilidade política, o Knesset, Parlamento israelense, e grupos políticos no país estão próximos de encontrar um acordo. No dia 20 de abril, os líderes do Likud, Benjamin Netanyahu, e da aliança Azul e Branco (Kahol Lavan), Benjamin Gantz, chegaram a um acerto para a formação de um novo governo. Dentre as agendas políticas que as lideranças consideraram de comum acordo está a ampliação e sistematização dos assentamentos na Cisjordânia.

Este entendimento, que pode produzir um avanço nas políticas para anexação de certas regiões reclamadas por palestinos, criou uma tensão ainda maior entre as partes. Em declaração, a Autoridade Palestina afirmou que pode sair de acordos bilaterais já existentes se o avanço da anexação se concretizar, afirmando que “a aceleração da expansão dos assentamentos, associada ao avanço devastador da Covid-19, pode incendiar a situação e destruir qualquer esperança para a paz”.

Nickolay Mandlenov, Coordenador Especial para os Processos de Paz do Oriente Médio das Nações Unidas, declarou em conferência ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que o “reconhecimento da interdependência pode – se houver vontade política, traduzir-se em processo tangível para a resolução do conflito”.  Entretanto, a declaração não reflete em totalidade as ações políticas concretas na região.

Trabalhadores da área de saúde entregam suplementos médicos em território palestino

Autoridades palestinas, entretanto, têm se queixado do endurecimento de políticas de segurança de Israel durante o período. Dentre os relatos estão ataques de forças israelenses a centros de saúde e postos de distribuição de mantimentos em território palestino.

O Ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett, suspendeu testes na Faixa de Gaza para pressionar os palestinos a devolver prisioneiros israelenses e cooperar em outros aspectos. Em discurso ao Conselho de Segurança, o representante da Autoridade Palestina frente às Nações Unidas, Riyad Mansour, acusou as Forças de Defesa Israelenses de desbaratar esforços para o combate à pandemia em território palestino. As políticas de segurança israelenses também vêm, segundo afirmações de autoridades palestinas e organismos internacionais, atrasando a chegada de suprimentos básicos e equipamentos médicos aos organismos de saúde palestinos.

No dia 7 de abril, uma série de agências internacionais (como a Oxfam e a Human Rights Watch) assinaram um memorando conclamando que Israel deve “assumir suas responsabilidades em apoiar o sistema de saúde palestino, tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia”.

Aproveitando a escalada da tensão e a necessidade de apoio logístico, o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, entrou em contato com o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh, para anunciar o envio de equipamentos e suplementos médicos para a Palestina. O governo turco busca criar mais identidade com povos árabes da região. Segundo Haniyeh, Erdogan afirmou que turcos e palestinos “são o mesmo povo e compartilham das mesmas causas”. 

Ao mesmo tempo que representa a oportunidade de reconhecimento da interdependência e da criação de mecanismos de cooperação na região, a crise provocada pela pandemia pode apresentar uma oportunidade de reaproximação e mudança política. Dada a realidade dos dois países, é notório que a falta de uma solução integrada da pandemia pode prejudicar ambos os lados, pelos riscos de contágio e impactos.

Também para Israel, a falta de sensibilidade à crise enfrentada pelos palestinos pode aumentar a influência de atores regionais que não estão alinhados a seus interesses diretos e podem, ao ganhar simpatia dentro de autoridades políticas e da população palestinas, encontrar representantes

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Médicos prestam condolências a cidadão palestino falecido em consequência da Covid19 no Hospital Hugo Chávez, em Ramallah, Palestina” (FontePágina oficial do PrimeiroMinistro da Autoridade Palestina no Twitter, Dr. Mohammad Shtayyeh@DrShtayyeh): https://twitter.com/DrShtayyeh/status/1248642219206205440

Imagem 2Trabalhadores da área de saúde entregam suplementos médicos em território palestino” (FontePágina Oficial da Missão do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas na Palestina no Twitter@ochaopt): https://twitter.com/ochaopt/status/1252888404519522304/photo/1

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Protestos antigoverno no Iraque completam 5 meses

Desde 1º de Outubro de 2019, o Iraque vem sendo palco de protestos contra o governo. Os manifestantes contestam os altos índices de desemprego, o fornecimento insuficiente de serviços públicos e acusam a existência de corrupção desenfreada. Os protestantes também pedem pelo fim do sistema político sectário imposto após a invasão dos Estados Unidos em 2003, que derrubou o então presidente iraquiano Saddam Hussein. Os confrontos entre manifestantes e as forças de segurança e milícias pró-governo são responsáveis pela pior onda de violência no Iraque desde a derrota do Estado Islâmico no país, em 2017. O número de mortos já passa de 600, segundo a Anistia Internacional.

Protestos vêm sendo registrados na capital Bagdá e em grande parte do sul do território iraquiano, região majoritariamente xiita. O país já tinha sido palco de manifestações em anos anteriores, inclusive no verão de 2015, após uma grave crise na prestação de serviços públicos. Os manifestantes, que segundo a BBC bloquearam estradas, instalações de petróleo, pontes e portos, demandam também novas leis eleitorais, antecipação das eleições e nomeação de um Primeiro-Ministro independente.

Os protestos forçaram a renúncia do ex-primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi em 1º de dezembro de 2019, que permaneceu no cargo de forma provisória até que Mohammed Allawi fosse nomeado Primeiro-Ministro no início de fevereiro de 2020. Conforme reporta Linah Alsaafin para a Al Jazeera, os protestos nas ruas, contudo, não aceitam a nova nomeação, já que Allawi é visto como parte da antiga elite sectária do país. Segundo fontes de notícia, as manifestações têm sido alvo de forte repressão policial, com registro de milhares de iraquianos mortos, feridos ou detidos arbitrariamente nos últimos cinco meses.

Como publicou o Financial Times, críticos e manifestantes condenam o sistema político de forma generalizada, alegando que ele teria permitido às elites políticas sectárias dividir os recursos do Estado, institucionalizando a corrupção. Adicionalmente, conforme escreve Maha Yahya ao Carnegie Middle East Center, o arranjo fomentaria má governança, a consolidação de práticas antidemocráticas, redes políticas de patronagem e clientelismo, além de frequente paralisia decisória e ineficiência do Estado.

O sistema político iraquiano é fundamentado no compartilhamento de poder em bases sectárias, na tentativa de promover participação inclusiva de diferentes segmentos etno-religiosos – sobretudo sunitas e curdos – em um país de maioria xiita. Por convenção, escreve o Financial Times, o cargo de Primeiro-Ministro é reservado para um xiita, o de Vice-Presidente para um curdo, e o de Porta-Voz do Parlamento para um sunita. Cada representante também deve possuir dois vices dos outros dois grupos etno-sectários, esclarece Yahya. Conforme reporta a Al Jazeera, no Parlamento de 329 assentos 83 deles são reservados para mulheres e outros 9 assentos são reservados para minorias, como cristãos (5), mandaeans (1), yazidis (1), shabaks (1) e curdos xiitas failis (1). Além dos altos cargos serem alocados de acordo com o secto, o padrão é repetido em todo o governo em vários níveis administrativos, inclusive penetrando ministérios e burocracias estatais.

Manifestantes libaneses protestam na Praça dos Mártires, em Beirute, em 22 de novembro de 2019

Manifestações com queixas anti-sectárias semelhantes – embora amplamente pacíficas – também vêm sendo registradas no Líbano desde outubro de 2019. Atualmente, a dívida do país excede 150% do produto interno bruto, sofrendo de semelhante incapacidade na prestação de serviços públicos básicos. O Líbano enfrenta problemas crônicos no fornecimento de água, eletricidade e gerenciamento de resíduos, além de altos níveis de desemprego – sobretudo entre a população mais jovem.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestantes iraquianos protestam em Bagdá em 1o de outubro de 2019 (Fonte): https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Baghdadprotests.jpg

Imagem 2 Manifestantes libaneses protestam na Praça dos Mártires, em Beirute, em 22 de novembro de 2019 (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lebanon_IdependenceDay_2019.jpg

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China enxerga oportunidades no Oriente Médio em crise entre Estados Unidos e Irã

A crise entre os Estados Unidos e o Irã desenvolve-se desde a decisão do Presidente americano, Donald Trump, de executar, no Iraque, um ataque por meio de um veículo aéreo não-tripulado (drone) que matou o general iraniano Qasem Soleimani, no dia 3 de janeiro de 2020. Soleimani era comandante da Força Quds, uma divisão do Exército iraniano responsável pela condução de ações militares extraterritoriais e operações clandestinas. Trump aprovou a operação de eliminação de Soleimani após receber dados dos órgãos de inteligência estadunidenses que indicavam múltiplas ameaças vindas do Irã a americanos no Oriente Médio. Como forma de retaliação, Teerã lançou dezenas de mísseis contra bases americanas no Iraque, no dia 7 de janeiro de 2020. 

Em mandarim, a palavra “crise” (wēijī) (危机), é composta pelo ideograma “wēi”, que significa “perigo”, e “”, que compõe a palavra “jīhuì” (机会), que significa “oportunidade”. Do mesmo modo, a China tem vislumbrado oportunidades na atual contenda entre os dois países, pois Pequim possui fortes laços com Teerã e realiza regularmente exercícios militares trilaterais com a nação persa e a Rússia. Após o ataque que matou Soleimani, o Ministro chinês de Negócios Estrangeiros, Wang Yi, condenouo ato de aventurismo militar dos Estados Unidos, que vai contra as normas básicas que governam as relações internacionais e que agravará as tensões e a turbulência na região”. Segundo o governo chinês, Teerã espera que “a China possa exercer um papel importante na prevenção da escalada das tensões regionais”. Assim, o eliminação do general iraniano possui o potencial de não apenas fornecer a Pequim um papel de mantenedor da estabilidade no Oriente Médio, mas também de aumentar a sua influência na região, onde muitos países consideram Washington como um ator crescentemente imprevisível.

O Vice-Presidente da República Popular da China, Wang Qishan, encontra o Presidente de Israel, Reuven Rivlin, em 2018

Desse modo, a política externa chinesa, que enfatiza, sobretudo, o desenvolvimento e o comércio, torna-se cada vez mais atraente para as nações da região, sejam elas democráticas ou não. Nos últimos anos, a China tomou o lugar dos Estados Unidos como o maior doador financeiro para os países em desenvolvimento e celebrou grandes acordos comerciais através da Ásia, do Oriente Médio e da África, como parte do megaprojeto internacional de infraestrutura do presidente Xi Jinping, a Iniciativa do Cinturão e Rota.

De acordo com os analistas Lindsey Ford e Max Hill, do Asia Society Policy Institute, de Nova York, “embora a expansão da presença da China no Oriente Médio ocorra por cálculos econômicos, ela oferece oportunidades estratégicas para PequimPara os autores, “a ênfase da China nos princípios de não-interferência, desenvolvimento econômico liderado pelo Estado e manutenção da estabilidade regional, ressoa entre muitos líderes não-democráticos do Oriente Médio, permitindo que a China promova o seu modelo alternativo de liderança de grande potência”.

Os chineses têm sido capazes de manter laços com aliados tradicionais na região, como o Irã e a Síria, enquanto incrementa suas relações com rivais desses países, como a Arábia Saudita, Israel e os Emirados Árabes Unidos. Jonathan Fulton, do Atlantic Council, de Washington, observa que “os interesses de Pequim se baseiam em um Oriente Médio estável e já considera há muito tempo que isso, eventualmente, requererá alguma forma de participação chinesa nas questões de segurança da região”. Fulton também afirma que “a China não é um país revisionista”, e indica que o Estado asiático “não quer remodelar o Oriente Médio e nem tomar para si a responsabilidade de manter a sua segurança, mas deseja uma região previsível e estável, o quanto for possível, na qual possa desenvolver atividades comerciais e investir”.O analista aponta que o eliminação de Soleimani por Washington, “no curto prazo, aumentará o custo dos Estados Unidos fazerem negócios na região e colocará muitas pessoas em risco, mas, no longo prazo, pode aumentar o poder e a influência da China no Oriente Médio, enquanto o país assume maiores responsabilidades na preservação de seus interesses regionais”.

Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos são a principal potência, não apenas no Oriente Médio, mas do mundo. À medida que a China desafia cada vez mais a hegemonia americana, o Oriente Médio vai emergir como uma das principais arenas dessa rivalidade e, ao decidir eliminar Soleimani, o governo americano pode ter facilitado para Pequim contestar o poder de Washington na região nos próximos anos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, encontra o Presidente do Irã, Hassan Rouhani” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=Xi+Jinping+rouhani&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Ali_Khamenei_receives_Xi_Jinping_in_his_house_(5).jpg

Imagem 2 O VicePresidente da República Popular da China, Wang Qishan, encontra o Presidente de Israel, Reuven Rivlin, em 2018” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=File%3AChina+Israel&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns14=1#/media/File:Reuven_Rivlin_meeting_with_Wang_Qishan,October_2018(7375).jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Israel passará por terceira eleição em menos de um ano

No dia 11 de dezembro, os membros do Knesset, Parlamento de Israel, votaram uma medida para dissolver novamente o mandato do legislativo, abrindo espaço para a realização da terceira eleição seguida no país no ciclo de um ano. O novo pleito deverá ocorrer em março de 2020.

A atual legislatura, o 62º Knesset, foi eleita no mês de setembro (2019), após um fracasso prévio conduzir o Parlamento à uma dissolução e novas eleições visando à construção de uma maioria forte.

A Coalizão Azul e Branco, liderada pelo General reformado das Forças de Defesa de Israel, Benjamin Gantz, foi considerada vencedora ao obter a maior bancada, com 33 deputados, nas últimas eleições. Ainda assim, não está próximo de conseguir formar a maioria necessária de 61 membros do Parlamento para nomear um Primeiro-Ministro.

De uma maneira geral, havia a expectativa entre a população que Gantz pudesse construir um amplo diálogo com setores afastados do Likud e de parcelas tradicionais da direita israelense. Entretanto, Gantz não foi capaz de garantir uma aliança com setores como Partido Trabalhista e a Lista Unida Árabe. O general da reserva informou o Knesset em 21 de novembro que não conseguiria compor uma maioria.

O membro do Knesset, Benjamin Gantz, discursa nas Colinas de Golão

Antes de Gantz, o presidente de Israel Reuven Rivlin havia incumbido o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de formar um governo. O Likud, Partido de Netanyahu, assegurou 32 assentos no Parlamento, mas não foi capaz de chegar a um acordo com o Kahol Lavan ou outras forças políticas. Dentre os fatores que tornaram as negociações mais difíceis são apontadas exigências consideradas difíceis de cumprir, como a manutenção de Netanyahu no cargo ou concessão de imunidade parlamentar, enquanto o mesmo enfrenta um processo judicial por corrupção.

Atendendo a um pedido de Netanyahu, o Knesset já havia optado por antecipar a eleição e dissolver o Parlamento no final de 2018. Desta maneira, o Primeiro-Ministro esperava adiantar as eleições, que idealmente ocorreriam em outubro (2019), para evitar uma série de eventos que poderiam desgastar sua imagem, como uma maior exposição pública de Benny Gantz ou abertura de um processo por corrupção.

Até a realização do novo pleito, Israel terá passado 18 meses sob um governo provisório. O Knesset, sem o comando de um governo consumado, não tem poder para votar leis de relevância nacional (como as relativas à Defesa e Infraestrutura), tampouco para sugerir ou votar mudanças no orçamento do país.

A presente situação pode levar o Likud a remover uma liderança partidária através do voto pela primeira vez em sua história. Convencido de que a figura de Bibi (como atual Primeiro-Ministro é popularmente conhecido) é prejudicial a figura do Partido, o deputado Gideon Sa’ar contestou a liderança de Netanyahu.

Gideon Sa’ar discursa no anúncio das Eleições Primárias do Likud

No dia 16 de dezembro, Sa’ar apresentou ao Partido um pedido para eleições internas, que devem ocorrer no dia 27 de dezembro, amanhã. Ao comentar sobre as eleições internas do Partido, Sa’ar afirmou que “um voto em Netanyahu é um voto para o próximo líder da oposição”.

De acordo com pesquisa eleitoral realizada pelo Canal 12 de Israel, um novo pleito aumentaria a vantagem do Kahol Lavan, que aparece conquistando 35 assentos. O Likud não cresce nestas pesquisas, permanecendo com os mesmos 32 deputados que possui hoje.

Ainda assim, a garantia de uma solução para o impasse não se apresenta neste cenário. Uma vez que o bloco de centro-esquerda (somados Kahol Lavan, Trabalhista e a União Democrática) garantiria 45 votos no Parlamento, enquanto uma coalizão de direita (Likud unido aos Partidos ultra ortodoxos: Shas, Judaísmo Unido na Torá e Hayamin Hehadash) alcançaria um total de 54 votos.

Alianças e concessões para a Lista Árabe Unida (13 assentos) ou com o Partido sionista secular, Yisrael Beitenu (8 assentos) se tornariam essenciais para alcançar uma maioria se este cenário se confirmar nas urnas em março de 2020.

Nos próximos meses os Partidos deverão apresentar à população capacidade de construir uma maioria sólida o suficiente para formar um governo. Dentre as novidades que podem se apresentar, está um final antecipado para o ciclo de 10 anos de Netanyahu no poder. Entretanto, se um impasse político for mantido, novas alianças podem emergir e mudanças ainda mais profundas na realidade política israelense podem ocorrer.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1A sede do Knesset, em Jerusalém” (FontePágina oficial do Knesset no Facebook): https://www.facebook.com/TheKnesset/photos/p.2577655508987395/2577655508987395/?type=1&theater

Imagem 2O membro do Knesset, Benjamin Gantz, discursa nas Colinas de Golão” (FontePágina oficial de Benjamin Gantz no Twitter@gantzbe): https://twitter.com/gantzbe/status/1207305058746032128

Imagem 3Gideon Saar discursa no anúncio das Eleições Primárias do Likud” (FontePágina Oficial de Gideon Saar no Twitter @gidonsaar): https://twitter.com/gidonsaar/status/1206653788456673281

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Estados Unidos e Irã: Oriente Médio em um novo capítulo de tensão

Após Washington anunciar em maio de 2018 a retirada unilateral do acordo que culminou no desmantelamento do Programa Nuclear Iraniano, conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA, na sigla em inglês), e que fora assinado pelo grupo de nações intitulado P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China, mais a Alemanha), existia a possibilidade apontada por críticos da saída estadunidense do Acordo de que Teerã poderia restabelecer rapidamente sua capacidade nuclear.

Nesse período, apesar da oposição da União Europeia, as sanções impostas pelos norte-americanos em novembro desse mesmo ano, e apoiadas por algumas empresas da Zona do Euro, acarretaram no recrudescimento da venda de petróleo iraniano em aproximadamente 1,5 milhão de barris/dia.

Tal posicionamento inicial, fruto de uma promessa de campanha do presidente Donald Trump, ganhou novos contornos, com a Casa Branca aumentando a pressão nos últimos meses sobre a República Islâmica, ao anunciar novos mecanismos que oneram países que compram o petróleo bruto iraniano.

O objetivo, de acordo com membros da administração Trump, é por fim a atividades desestabilizadoras que o país persa promove no Oriente Médio, a incluir: o apoio ao grupo Hezbollah no Líbano; a assistência aos rebeldes Houthis no Iêmen; o patrocínio ao regime de Bashar al-Assad na Síria e as milícias xiitas no Iraque; assim como o restabelecimento de voos diretos Teerã-Caracas, retomados como parte do processo de apoio ao regime do presidente Nicolás Maduro.

Conferência de Imprensa do Grupo P5+1 e República Islâmica do Irã, em julho de 2015

Apesar de todos os investimentos, o retorno financeiro é considerado baixo e auxilia no aprofundamento da crise interna. A inflação de aproximadamente 50%, moeda em colapso, persistentes paralisações de trabalhadores, um crescente movimento pelos direitos das mulheres, recentes enchentes que mataram mais de 75 pessoas e causaram em torno de US$ 3 bilhões em danos (aproximadamente, 12,3 bilhões de reais, conforme a cotação de 17 de maio de 2019), além da praga de gafanhotos que ameaça 300.000 hectares, ou cerca de US$ 9 bilhões das terras agricultáveis do país (Em torno de 36,9 bilhões de reais, conforme a mesma cotação), ampliam a pressão ao Aiatolá Ali Khamenei, o Líder Supremo do país. Esse contexto viabiliza uma campanha cujo objetivo principal é acelerar o colapso econômico iraniano e a mudança do regime.

Para tal iniciativa ser bem-sucedida, observadores internacionais creem que reforçar as bases de apoio à posição de Israel como principal parceiro geoestratégico e ampliar os laços entre o Estado judeu com os países árabes que se opõem ao Irã, com os Estados do Golfo, Arábia Saudita e Egito, forçará o Líder Supremo e o presidente Hassan Rouhani a optarem por três cenários distintos:

1. Um acordo com a administração Trump: esse acordo inviabilizaria qualquer iniciativa de cunho militar e poderia restabelecer as conexões comerciais essenciais para a retomada econômica da nação;

2. Aguardar pelo pleito presidencial estadunidense em 2020: autoridades estadunidenses que participaram do Acordo de 2015 na administração de Barack Obama sugeriram ao chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif que Trump é um Presidente fraco e que, provavelmente, não será reeleito, o que abriria espaço para retomada do JCPOA em janeiro de 2021. Contudo, para analistas consultados, exercer tal “paciência estratégica” é considerada arriscada pelo Aiatolá.

3. Promover uma contra escalada: outra parcela de analistas pontuou a possibilidade do enfrentamento direto, ou seja, reiniciar o programa nuclear. Entretanto por ser o único país do sistema internacional a combater simultaneamente três ameaças de guerra, contra Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita, essa possibilidade se torna a mais remota, justamente pelo fato de o enredo contextualizado por Washington ser semelhante ao testemunhado em 2003, quando a invasão ao Iraque foi justificada pela existência de um arsenal de armas químicas e biológicas.

Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, em discurso em setembro de 2015

Embora a opção militar pela República Islâmica não seja considerada, analistas apontam que a limitação de forças convencionais, em uma eventual ofensiva externa, poderia ser superada por uma rede de forças xiitas que se estende do Afeganistão ao Líbano e incluem segmentos das milícias xiitas iraquianas e do Hezbollah, que controla o sul do Líbano e tem milhares de mísseis balísticos apontados para Israel.

Em complemento, o Irã também poderia mobilizar homens-bombas dedicados a causa xiita e ao nacionalismo propagandeado pelo regime, o que faria essa escalada militar resultar em um cenário sem precedentes.

No aspecto econômico, à instabilidade gerada pela retórica inflamada entre Washington e Teerã tende a manter a oferta e os preços do petróleo em consonância com os tempos mais recentes.

Contudo, Arábia Saudita e outros membros da OPEP, como Emirados Árabes Unidos têm a intenção de cortar as exportações de petróleo iraniano e inundar o mercado, porém podem ocasionar em riscos. Ao encorajar a política de Trump, os dois países visam não apenas enfraquecer o rival regional, como obter lucro financeiro, à medida que o preço do barril aumenta exponencialmente com as exportações.

O Iraque deseja que os países membros do bloco não tomem iniciativas unilaterais até a reunião de junho próximo (2019). Já a Líbia, com o retorno dos pesados combates em seu território, teme que suas exportações sejam colocadas em risco e não devem perpetrar nenhuma ingerência no cenário da OPEP contra o Irã. 

A perspectiva na Venezuela é considerada um dos piores cenários. Com a maior reserva comprovada de hidrocarbonetos, já não conta com a mesma capacidade de produção, hoje menos de um milhão de barris/dia, e novas sanções de Washington tendem a ampliar a turbulência política e a crise econômica no país sul-americano, o que inviabiliza também a possibilidade de maior pressão contra a ofensiva aos persas.

Em Beijing há pouco interesse na mudança do regime em Teerã, haja vista que é o único país na região rico em energia, sobre o qual Washington não tem uma posição segura. Na Índia, em meio a uma eleição geral, o atual primeiro-ministro Narendra Modi tem pouco interesse em tomar medidas que aumentem os preços dos combustíveis.

Embora haja interesse mútuo na cooperação em detrimento do conflito, Trump e Khamenei entendem que o caminho diplomático passa pela escalada das ameaças mútuas, algo que observadores apontam que resultará em prejuízos, principalmente ao povo iraniano, assim como aos demais povos do Oriente Médio onde Teerã exerce forte influência.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Muro da antiga Embaixada dos Estados Unidos em Teerã” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/mayhlen/8236713685/in/photolist-dxRj1V-qLgWqC-dxRjwD-pyM9Vv-W2p6GY-5fkMV9-fevnx2-Wq3i9F-5fgqh8-mkgPCW-mkiAXS-Wq3i1z-mkg3zZ-mkg4Ai-3e8mfT-mkdU84-mkdGYu-6Kz2LN-mkfMER-7R6PZD-7aZE3Y-px1VPj-dxWMQd-st9aHY-mkf7VX-mkiW73-mkfDk2-mkdTqm-mkc6GF-mkhZu6-sUAeRy-mkf7TF-4VUdi9-mkhAVF-mkchkp-mkhek5-mkfV4i-6Kz2JL-4VPXbH-mkdBEU-a21tUq-mkeJDn-mkdLKi-mkebjk-r8EBUx-rkWq8B-phuC7H-f6XDz2-aDczbH-phz1d6

Imagem 2Conferência de Imprensa do Grupo P5+1 e República Islâmica do Irã, em julho de 2015” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/unisvienna/19069822374/in/photolist-v48PNW-3TrU1d-v47zYH-v4hcpK-BGdp1w-vHx5fd-A3jMVt-cwHLkE-Z4R1GE-upELvo-c8hsx3-DaXsJ7-w3Ewed-CGjvLi-zBvUTm-25B8q9q-H5ZfiC-CkzRAy-EtsTr8-Kkh6L7-xefQy9-YrnXqx-ZpFJCp-NzKK4y-2cxJm6o-xR8U6X-xR8UmB-v3FPBp-vQX2qf-23WMTMo-y9jEEg-xR8TWt-xR3gNq-wFxWAa-xp3PuK-w4mXbQ-Cm5dr1-wsbEgX-ws32bm-x7rx3s-xQQQkp-xmP1nN-xmJey7-xR2njj-qZTfLb-xbL8QX-rZ6S5J-xSMqUv-BAPZda-B8uRbS

Imagem 3Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, em discurso em setembro de 2015” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/30525164571/in/photolist-NvprWT-MFbLax-NA11qd-NzZZQA-NA11ns-cZEWQS-6CzBLB-efCsMR-W26hGG-4TxVkU-UwxGAC-6zsCWU-6zsCYo-6zoxCp-6z8UTr-6zoxLR-phuC7H-6z8UP4-6zoxG4-phz1d6-2fr3o5x-cWeUAU-pwYdXd-9r1Va1-9hzbpY-djmPHF-2fhPHNK-4N4LHJ-ZJ3f3b-4EDyvR-6Ak9UU-6P7UW4-cWeWLj-cRzNCL-fEpyou-cWeWyN-aCyT2L-cUQVS7-cUR1cS-pjUd2Z-cWeXb3-3D7VoU-6ySLpB-cWeV9J-cUQXDs-4TDoHc-24dL3u2-cWeXp9-7zeRop-cWeWbh