ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Catar anuncia saída da OPEP em janeiro de 2019

O Catar encerrou o ano de 2018 anunciando a saída do país da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e celebrando sua Data Nacional, em meio a um bloqueio por água, terra e ar – liderado pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – que já dura 17 meses.

Na segunda-feira, 3 de dezembro, o Ministro de Energia do país, Saad Sherida al-Kaabi, anunciou a saída do Catar da organização a partir de janeiro de 2019, encerrando 57 anos de vínculo com a Organização. Ele afirmou que o Catar concentraria suas atividades em sua indústria de gás natural e descartou a ideia de que a retirada estivesse ligada a questões políticas. Contudo, al-Kaabi insinuou que a nação buscava liberdade de um cartel petroleiro dominado pela Arábia Saudita, reportou o The New York Times. O Ministro afirmou: “Não estamos dizendo que vamos sair do negócio de petróleo, mas [ele] é controlado por uma organização gerenciada por um [só] país”.

Al-Kaabi afirmou que não fazia sentido “dispender esforços, recursos e tempo em uma organização na qual somos um jogador muito pequeno, e eu não tenho influência sobre o que acontece”. Hamad bin Jassem bin Jaber Al Thani, ex-Primeiro Ministro e Ministro das Relações Exteriores do Catar de 1992 a 2013, escreveu em sua conta no Twitter: “A retirada do Estado do Catar da organização da OPEP é uma decisão acertada, pois a organização se tornou inútil e não nos acrescenta nada” […] e “ela é usada apenas para fins que prejudicam nossos interesses nacionais”, conforme reportou a Bloomberg.

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Twitter de Hamad bin Jassem bin Jaber Al Thani, ex-Primeiro Ministro e Ministro das Relações Exteriores do Catar de 1992 a 2013

Anwar Gargash, Ministro de Estado de Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, avaliou em sua conta no twitter que a decisão de Doha é um reflexo de sua descendente influência na região: “O aspecto político da decisão do Catar de deixar a OPEP é uma admissão do declínio de seu papel e influência à luz de seu isolamento político”.

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Twitter de Anwar Gargash, Ministro de Estado de Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos

Em junho de 2017, a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito impuseram um boicote político, comercial e turístico ao Catar, acusando-o de financiar o terrorismo e interferir nos assuntos internos de outros Estados. Este nega as acusações e culpa o conjunto de países que organiza o boicote de visarem reduzir sua soberania. Para contornar a disputa política, o país tem reforçado seus laços com a Turquia e fortalecido sua coordenação com o Irã, país com o qual compartilha o maior campo de gás do mundo, o chamado “Campo do Norte”.

Conforme reporta o The New York Times, havia pouca razão aparente para as atividades de gás natural do Catar terem entrado em conflito com sua participação na OPEP. O país passou décadas construindo sua indústria de gás natural enquanto pertencia ao grupo. A decisão teria sido parte de uma estratégia de longo prazo e dos planos do país para desenvolver sua indústria de gás e aumentar a produção de Gás Natural Liquefeito (GNL) de 77 para 110 milhões de toneladas até 2024. “Asseguro-lhes que isto foi apenas uma decisão sobre o que é certo para o Catar a longo prazo. É uma decisão estratégica”, disse Al-Kaabi.

Ademais, a saída do país parece ter pouca influência efetiva sobre os preços do petróleo – ainda que tenha se dado em meio a uma tentativa Saudita de mostrar uma frente unificada, ao lado da Rússia, para cortar a oferta e recuperar os preços – atualmente sendo negociados a US$ 53,82 o barril, abaixo dos US$ 86,29 em inícios de Outubro.

Em novembro (2018), os preços do petróleo atingiram seu nível mais baixo desde junho de 2017, em parte porque os Estados Unidos concederam isenções de sanções a oito importadores de petróleo iraniano. Outro fator foi a estabilização da produção na Líbia e em outros países da OPEP.

De acordo com a Agência Reuters, Riad e Moscou têm decidido cada vez mais as políticas de produção mundial de petróleo, sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na OPEP, para reduzir os preços.

Na avaliação de Rauf Mammadov, do Middle East Institute, a retirada do Catar da OPEP pode dificultar a preservação da unidade do cartel por Riad, e tornar mais difícil para o líder de facto, a Arábia Saudita, submeter os outros membros à sua vontade. Adicionalmente, e em oposição imediata, a baixa sofrida pelos sauditas fortalece a posição iraniana na região.

O petróleo fez do Catar um dos países de crescimento per capita mais rápido e de mais acelerado crescimento do mundo. A exploração de petróleo no país começou em 1935, no campo de Dukhan, e a exportação comercial do campo começou entre os anos 1939 e 1940. Conforme dados oficiais da organização, o país é um dos menores produtores da OPEP (e o menor em área e população) sendo responsável por modestas contribuições para o mercado de petróleo, mas é o maior exportador mundial de gás natural liquefeito. Dentro da organização, o Catar exporta o equivalente a US$ 84,906 bilhões (ano base 2017), sendo US$ 35,496 bilhões (aproximadamente, 138,2 bilhões de reais, conforme a cotação de 24 de dezembro de 2018) em exportações de petróleo. Suas exportações de gás natural totalizam 128,6453 bilhões de metros cúbicos.

Em 2017, os membros da OPEP exportaram um total de US$ 578,29 bilhões em petróleo, próximos de 2,252 trilhões de reais, pela mesma cotação do dia 24. Destes, a Arábia Saudita gerou US$ 159,74 bilhões (em torno de 621,93 bilhões de reais, conforme a mesma cotação) em exportações de petróleo, seguida dos Emirados Árabes Unidos, com US$ 65,64 bilhões, (em torno de 255,56 bilhões de reais, ainda de acordo com a mesma cotação) – quase o dobro gerado pelo Catar no mesmo período.

Valores das exportações de petróleo dos membros da OPEP (bilhões $)

  2013 2014 2015 2016 2017
Argélia 44.46 40.63 21.74 18.64 22.35
Angola 65.97 56.61 31.51 25.69 31.55
Equador 14.11 13.28 6.66 5.46 6.91
Guine
Equatorial
12.12 11.06 5.91 4.35 4.69
Gabão 7.69 6.91 3.74 3.13 3.69
República Islâmica do Irã 61.92 53.65 27.31 41.12 52.73
Iraque 89.40 84.30 49.21 43.68 59.73
Kuwait 107.54 94.32 48.44 41.46 50.68
Líbia 44.45 20.36 10.97 9.31 15.01
Nigéria 90.55 78.05 41.82 27.79 38.61
Catar 62.52 56.91 28.51 22.96 35.50
Arábia Saudita 321.89 284.56 152.91 136.19 159.74
Emirados Árabes Unidos 85.64 88.86 53.84 45.56 65.64
Venezuela 88.75 74.71 37.24 26.47 31.45
Total OPEP 1,097.00 964.22 519.81 451.83 578.29

Totalizando um volume de 600 mil barris por dia, a produção de petróleo do Catar é de cerca de 2% do total da OPEP – em comparação com mais de 10 milhões de barris produzidos pela Arábia Saudita ou os três milhões produzidos pelos Emirados Árabes Unidos.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) foi fundada em Bagdá, no Iraque, com a assinatura de um acordo em setembro de 1960 por cinco países: República Islâmica do Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela. Eles se tornariam os Membros Fundadores da Organização. A estes países juntaram-se depois o Catar (1961), Indonésia (1962-2009, 2016-2016), Líbia (1962), Emirados Árabes Unidos (1967), Argélia (1969), Nigéria (1971), Equador (1973-1992, 2007-), Gabão (1975-1995, 2016-), Angola (2007), Guiné Equatorial (2017) e Congo (2018). Com a saída da Indonésia em 2016, atualmente a Organização possui um total de 15 países membros.

O consumo de gás natural liquefeito, que é refrigerado até se tornar líquido e transportado em navios especiais, está crescendo mais rápido que o gás natural ou o petróleo. O Catar é membro de um grupo de produtores de gás natural, o Fórum de Países Exportadores de Gás, que tem sua sede em Doha, capital do país. O fórum possui 12 membros permanentes e 7 observadores. Outros grandes exportadores de gás natural liquefeito incluem a Austrália, a Rússia e, de forma crescente, os Estados Unidos. O Japão é o maior importador de gás natural liquefeito (GNL) no mundo, importando quase 84 milhões de toneladas em 2017.

Planta de GNL no Catar, propriedade da Qatargas. A companhia possui 70% da planta de gás natural liquefeito no país e a Shell detém 30%

Dias depois da decisão de saída da OPEP, o Emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani, também não compareceu à cúpula do Golfo Árabe em 9 de dezembro na Arábia Saudita. No lugar, o Catar enviou seu Ministro de Estado para assuntos estrangeiros, o que causou estremecimento adicional não somente com os sauditas, mas também com o Bahrein.

Na avaliação de Gerald Feierstein, vice-presidente sênior do Middle East Institute, a liderança saudita enfrenta desafios adicionais, talvez sem precedentes, tanto domésticos como internacionais. A acusação de envolvimento do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MbS) no brutal assassinato do jornalista Jamal Khashoggi trouxe luz sobre as acusações de abusos domésticos sob o rei Salman, incluindo prisões, detenções arbitrárias e violações de direitos humanos. Além disso, vários governos ocidentais, incluindo a Alemanha, anunciaram que suspenderiam a venda de armas ao Exército saudita devido a preocupações com seu envolvimento no Iêmen.

Celebração do Dia Nacional do Catar, em 2017

Apesar das dificuldades do bloqueio, o Catar conseguiu transformar a crise em uma oportunidade, de acordo com o desempenho econômico de 2018. Os números oficiais indicam que a situação econômica melhorou, pois, o bloqueio forçou a nação do Golfo a diversificar sua economia e aumentar a autossuficiência. Além do petróleo e do gás, as exportações do Catar aumentaram, com um acréscimo significativo no setor industrial, informa a Al Jazeera.

Em um cenário à primeira vista desfavorável, o Catar parece ter criado um senso de unidade entre os nacionais e residentes no país do Golfo. Em 18 de dezembro celebrou seu segundo Dia Nacional sob o bloqueio de junho de 2017, e o primeiro após a decisão de saída da OPEP. A parada militar deste ano foi três vezes maior do que no ano passado (2017). O Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani discursou no Fórum de Doha no dia anterior, declarando: “nossa posição não mudou sobre como resolver a crise do Golfo. […] Isso pode ser alcançado levantando o cerco e resolvendo as diferenças através do diálogo e da não-interferência nos assuntos internos de outros países”.

Há um sentimento no Catar de que o domínio da Arábia Saudita na região e nas muitas instituições da região tem sido contraproducente para o Catar atingir suas metas de desenvolvimento”, disse Andreas Krieg, analista de risco político do King’s College, em Londres. E completa sua avaliação afirmando que esta decisão “é sobre o Qatar se libertar como Estado e mercado independentes de interferência externa”.

Mas Steven Wright, Professor Associado da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Hamad bin Khalifa, no Catar, insiste que a interpretação da saída do país como um ato político e uma repreensão à uma organização crescentemente vista como ferramenta de projeção do poder saudita é simplista demais e não reflete a estratégia econômica de longo prazo do pequeno emirado do Golfo. Wright afirma: “o valor da OPEP para alguns de seus membros – particularmente os pequenos produtores, como o Catar – vem diminuindo progressivamente há algum tempo; eles sentem cada vez mais que têm influência muito limitada sobre a tomada de decisões. A OPEP continua a ser essencialmente um cartel liderado pela Arábia Saudita, cuja relevância global está em declínio significativo após a chamada ‘revolução do xisto’”.

Kristian Coates Ulrichsen, analista de Oriente Médio no Instituto Baker para Políticas Públicas da Rice University, em Houston, por sua vez, une o movimento político à estratégia econômica: “Faz sentido estratégico focar em um setor no qual o Catar detém mais de 30% da participação de mercado global do que em sua produção de petróleo, muito menor e em declínio. Ao também reforçar a autonomia do Catar em relação aos vizinhos do Golfo Pérsico, o movimento exemplifica o fracasso do bloqueio de 2017 para forçar o Catar a cortar suas asas e retornar ao rebanho regional liderado pela Arábia Saudita”.

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Nota:
As citações foram traduzidas pela autora, em tradução livre. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira da OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo(Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_dos_Pa%C3%ADses_Exportadores_de_Petr%C3%B3leo#/media/File:Flag_of_OPEC.svg

Imagem 2 Boletim Estatístico Anual OPEP 2018” (Fonte): https://asb.opec.org/index.php/interactive-charts/macro-economics

Imagem 3 Planta de GNL no Catar, propriedade da Qatargas. A companhia possui 70% da planta de gás natural liquefeito no país e a Shell detém 30%” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/royaldutchshell/5449987623

Imagem 4 Celebração do Dia Nacional do Catar, em 2017” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Qatar_National_Day#/media/File:Qatar_National_Day_2017_Musical_Fireworks,_Doha.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Russia, Irã, Iraque e Síria acordam cooperação para possível ação militar em Idlib

No sábado passado, dia 1o de setembro, comandantes militares da Federação Russa, do Irã, Iraque e Síria acordaram aumentar a cooperação e realizar mais trocas e auxílios nos setores de segurança e inteligência, para garantirem que as vitórias do governo Assad contra a resistência sejam mantidas. Assim, desejam encerrar a Guerra Civil no país, pois apontam que o bastião dos rebeldes ao Governo está localizado na região de Idlib, e esta encontra-se cercada e suscetível de ser derrotada por uma ação intensa e coordenada desses atores, além de haver probabilidade de contarem com o amparo da Turquia, ou ao menos a sua anuência.

Fotografia aérea do Kremlin, referindo-se ao Governo da Rússia

Os representantes acertaram que manterão o apoio mútuo, já que estão combatendo com sucesso o que denominam como terrorismo, havendo ainda concordância de que foram os suportes dados por esses países que permitiu a vitória dos sírios sobre os grupos que, como o Estado Islâmico, usam da violência e do terror contra os demais muçulmanos (takfiris*), sendo identificados como terroristas. Nesse sentido, os quatro Estados desejam que tais ações precisam ser mantidas até a derrota final dos rebeldes.

Conforme vem sendo disseminado, os membros do Estado Islâmico foram vencidos quase que totalmente, apesar de continuarem espalhados por áreas na Síria e Iraque, no entanto, há outros grupos da mesma natureza infiltrados entre os que fazem a resistência ao governo Assad, ou compondo-os integralmente, e, como foi dito, tem como o seu reduto exatamente Idlib, que usam como base para realizar os ataques ao Governo da Síria e, alegadamente, recebem apoio internacional para tanto.

Ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid al-Muallem

O raciocínio estratégico adotado pelos russos, ao fazerem as denúncias na semana passada de que os ocidentais estão preparando uma encenação de ataque químico proveniente do Governo sírio, segue esta linha de que se deve aproveitar a oportunidade de acabar definitivamente com os focos rebeldes, pois é alta a probabilidade de sucesso, o que obrigará a sociedade internacional a reconhecer o governo Assad como o único de fato no país. Dessa forma, os russos consideram que a suposta encenação visa justificar bombardeios e demais atividades bélicas dos ocidentais contra a infraestrutura e bases sírias, com o intuito de impedir o avanço do Exército governamental.

Pelo que vem sendo informado na imprensa, os preparativos para a ação contra a resistência nesta região se dá apenas com armas convencionais, dada a superioridade estratégica, tática, de efetivos e de equipamentos, algo que só poderá ser enfrentado com interferência direta do ocidente, o qual, para legitimar uma ação desta natureza, necessita de justificativa que lhe possibilite receber apoio da comunidade internacional, daí a suposta encenação de ataque químico, conforme vem declarando os russos.

Os sírios alegam que não detém mais armamentos químicos, que não usaram no denunciado ataque realizado no primeiro semestre deste ano (2018) e não precisam desse tipo de armas para obterem uma vitória na região, por isso não recuarão no intento de avançar sobre esta área.  

Nas palavras do ministro sírio Walid Muallem, “Tudo o que está sendo feito pelos Estados Unidos não afetará a determinação do povo sírio e do Exército sírio de libertar o Idlib e pôr fim ao terrorismo na Síria. (…). Nós, o povo e o governo da Síria, gostaríamos de acabar com o conflito, mas a interferência dos países ocidentais está atrapalhando isso”.

As convicções de observadores e personalidades globais são de que poderá haver mais uma catástrofe humanitária se houver combates na região, rompendo a trégua que foi estabelecida, a qual sírios e russos apontam que já foi rompida pela resistência. O Papa Francisco, por exemplo, declarou: “Os ventos da guerra ainda estão soprando e as inquietantes notícias sobre o risco de uma possível catástrofe humanitária na província de Idlib estão chegando. Peço mais uma vez [a] toda a comunidade internacional e todas as partes envolvidas a fazer uso dos instrumentos da diplomacia, diálogo e negociações, em conformidade com o direito internacional humanitário e para salvaguardar a vida dos civis”.

A tendência de alta probabilidade de vitória de Assad foi assumida indiretamente pelo Ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, o qual declarou sobre o Presidente sírio que este “venceu a guerra, mas não venceu a paz”. Tal afirmação decorre de considerar que ele terá derrotado, ou está prestes a vencer estes grupos rebeldes, mas que continuariam presentes as razões que levaram aos seus surgimentos, produzindo novos grupos e mantendo a situação no país, conforme é possível interpretar de suas palavras.

Cruzador de Mísseis Marechal Ustinov

Para enfrentar as medidas ocidentais, a Rússia está fazendo exercícios militares no  Mediterrâneo, iniciados no sábado, dia 1o de setembro, com duração até o dia 8 de setembro, e ocupando posições estratégicas. Segundo declaração do Ministério da Defesa da Rússia, “o grupo vai praticar um conjunto de tarefas de defesa aérea, anti-submarino e anti-sabotagem e também apoiar as contramedidas de minas”. O grupo a que se refere são 25 navios de guerra liderados pelo cruzador de mísseis Marechal Ustinov e 30 aeronaves, incluindo os bombardeiros guiados por mísseis Tu-160, os aviões de combate anti-submarino Tu-142MK e Il-38, os caças Su-33 e as aeronaves Su-30SM da aviação naval, conforme foi disseminado na mídia. Além disso, declarou que os Estados Unidos têm atualmente 70 veículos de entrega com cerca de 380 mísseis de cruzeiro no Oriente Médio e são capazes de preparar um grupo de ataque de mísseis para uma ação contra a Síria em apenas 24 horas.

Como as vitórias contra os remanescentes do Estado Islâmico estão acontecendo constantemente, observadores convergem para a certeza de que haverá a ofensiva contra os focos de resistência ao governo, por essa razão, a tendência é de que combates sejam realizados em futuro breve em Idlib. Nesse sentido, Rússia, Irã, o Governo Assad e demais aliados deram um passo estratégico mais seguro ao fazerem a denúncia, pois colocaram os ocidentais na reativa, sendo obrigados a provar que a acusação feita contra eles é falsa (invertendo o ônus da prova) e, neste momento, ocorre uma batalha entre os Serviços de Inteligência dos dois lados para acharem formas de anular a narrativa um do outro, tanto que ocorreu esta reunião entre os representantes da Federação Russa, Irã, Iraque e Síria.

Ressalte-se que também está ocorrendo embate entre estratégias de comunicação para tentar desqualificar o discurso um do outro. Até o momento, especialistas e a mídia internacional tem repercutido mais as declarações, acusações e denúncias feitas pela Rússia, podendo significar que esta vem tendo um ganho significativo.

Além disso, também é preciso lembrar que no caso do suposto ataque químico ocorrido em abril deste ano (2018), os russos tinham como principal interesse impedir que qualquer fato atrapalhasse a realização da Copa do Mundo de Futebol, já que o evento poderia ser, tal qual especialistas hoje dizem que foi, um excelente meio de apresentar à comunidade internacional uma outra Rússia e afastar as imagens negativas que vinham sendo disseminadas sobre o país e seu governo. Por isso, naquela ocasião, os russos recuaram. Sendo assim, o risco de uma tragédia neste momento é muito maior do que o existente no início do ano.

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Nota:

* Takfiri: O termo é usado para se referir a um muçulmano que acusa o outro de apostasia, ou seja, acusa-o de ter-se desligado, renunciado ou abandonado a religião da qual fazia parte, ou passou a adotar uma opinião contrária a ela. Sendo assim, são takifiris o Estado Islâmico e demais grupos que se posicionaram como inimigos dos outros muçulmanos que não seguem os preceitos por eles considerados como sendo os fundamentais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Print Screen da Região de Idlib  destacada em rosa retirado do Google Maps” (Fonte):

https://www.google.com.br/maps/place/Idlib,+S%C3%ADria/@35.9334051,36.6421011,7z/data=!4m5!3m4!1s0x152500e6cc6ed27b:0xe59a7e2f651fc24c!8m2!3d35.8268798!4d36.6957216

Imagem 2 Fotografia aérea do Kremlin, referindose ao Governo da Rússia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Kremlin_de_Moscovo#/media/File:Kremlin_birds_eye_view-1.jpg

Imagem 3 Ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid alMuallem” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Walid_Muallem#/media/File:Walid_Muallem.jpg

Imagem 4 Cruzador de Mísseis Marechal Ustinov” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Marechal_Ustinov#/media/File:Cruiser_Marshal_Ustinov_leaving_Norfolk_1989.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

O impasse na mediação norte-americana entre Israel e Líbano

O Subsecretário de Estado norte-americano, David Satterfield, e a embaixadora dos Estados Unidos no Líbano, Elizabeth Richard, se reuniram com o ministro libanês de Relações Exteriores, Gebran Bassil, em 21 de fevereiro de 2018. A visita é parte de um esforço diplomático norte-americano para resolução das tensões entre Israel e o Líbano sobre um controverso muro fronteiriço e a perfuração marítima de gás e petróleo em águas disputadas. Na ocasião, o Subsecretário também se encontrou com o primeiro-ministro libanês Saad al-Hariri, e com o Chefe do Exército do Líbano, o general Joseph Aoun, reportou a agência Reuters.

Líbano e Israel disputam uma área triangular marítima de cerca de 860 km2 (330 milhas quadradas) na fronteira em alto mar entre os dois países, rica em recursos naturais cobiçados, como gás e petróleo. Autoridades libanesas afirmam que toda a zona marítima pertence ao seu país, enquanto o Ministro da Defesa israelense, Avigdor Lieberman, insiste firmemente que a zona é território israelense, “sob quaisquer parâmetros”.

Neste mês de fevereiro de 2018 o Líbano assinou seu primeiro acordo de produção e exploração de energia em alto mar com um consórcio entre a francesa Total, a italiana Eni e a russa Novatek. O grupo assinou dois contratos de exploração e produção que abrangem os Blocos 4 e 9 de área de alto mar libanesa. Um dos dois Blocos dados ao consórcio, o Bloco 9, está parcialmente localizado nas águas reivindicadas por Israel e a Total disse em um comunicado que as águas em disputa compreendem apenas 8% da área.

David Satterfield tem ido e voltado constantemente entre Israel e o Líbano na tentativa de resolver as disputas, segundo informa o Naharnet. O arsenal crescente do grupo xiita Hezbollah também é listado pela agência Reuters como responsável por ter causado uma onda de tensões entre os dois Estados. Em 16 de fevereiro de 2018, Sayyed Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, descreveu a questão como uma “batalha pela totalidade do Líbano”, e que o país deve ser firme na disputa energética com Israel. Nasrallah também disse que “os Estados Unidos não são um mediador honesto” e que “a riqueza do petróleo é para todos os libaneses”.

De acordo com a Agência Oil Price, o Líbano – que compartilha a Bacia do Levante no Mediterrâneo oriental com Israel, Chipre e Síria – ficou muito atrás dos demais na exploração e desenvolvimento de sua parcela de recursos.      As primeiras reservas foram encontradas em 2009, mas os planos de exploração foram postergados devido ao impasse político nos últimos anos em Beirute e à disputa com Israel sobre a fronteira marítima do sul do Líbano. A querela libanesa-israelense é longa, mas as tensões aumentaram a partir de janeiro de 2018, depois que o Governo libanês chamou um tender de exploração de petróleo e gás em território disputado.

Em 31 de janeiro de 2018, o Ministro da Defesa israelense descreveu a decisão de explorar a zona como “muito provocativa”, já Nasrallah ofereceu seu grupo armado como garantia de que Israel não se intrometeria nas águas libanesas, mas colocando a decisão de confronto na fronteira marítima nas mãos do Conselho Superior de Defesa do país. Ressalte-se que a proteção contra a violação das águas libanesas foi reafirmada até por Saad Hariri, primeiro-ministro do Líbano e inimigo político do grupo.

O presidente do Parlamento, Nabih Berri, reafirmou a rejeição do Líbano às propostas dos EUA para resolução da disputa marítima como “inaceitáveis” e alegou que o projeto de lei israelense reivindicando a zona de 860 kms2 era um “novo ataque à soberania do Líbano”, conforme reportou a Al Jazeera.

Satterfield teria visitado o Líbano sem nenhuma nova proposta, de forma que as conversações giraram em torno da “Linha Hof”. Trata-se de uma linha de demarcação marítima temporária proposta pelo diplomata norte-americano Frederic Hof em 2012, que daria ao Líbano 500 kms2 e a Israel 360 kms2 da área triangular marítima disputada de cerca de 860 km2. A zona em debate se estende ao longo da borda de três (8, 9 e 10) dos 10 Blocos totais para licitação de exploração offshore [vide figura 2].

Desde 2013 os libaneses rejeitam a proposta do então enviado especial norte-americano para a Síria e para o Líbano, Frederic Hof, recusando-se a desistir dos restantes 360 kms2. O lado libanês sugeriu na ocasião que as Nações Unidas elaborassem uma linha marítima não permanente e definissem uma área de não investimento, a chamada “zona de compartilhamento”, até que a linha final fosse elaborada. O funcionário norte-americano, contudo, não respondeu à sugestão, congelando a proposta, explicou o Arab News.

Em terra, de acordo com Joe Macaron para o Al Monitor, Israel quer construir um muro conforme a Linha Azul, linha mediada pela ONU da retirada israelense em 2000, enquanto Beirute quer que a fronteira terrestre esteja de acordo com a linha de demarcação de 1923 entre o Líbano e a Palestina. “Essas discussões técnicas significam que a disputa entre os dois países é sobre 860 quilômetros quadrados (330 milhas quadradas) de água e 13 pontos na fronteira terrestre”, explica Macaron. Em dezembro último (2017), o presidente libanês Michel Aoun comunicou ao coordenador da ONU que Israel violou a fronteira libanesa 11.000 vezes [desde 2000] até hoje, e “continua essas violações com insistência”. Os Estados Unidos concordam com o Líbano que um acordo fronteiriço deva ser alcançado antes de Israel iniciar a construção de um muro de segurança.

A embaixadora norte-americana no Líbano disse que Satterfield “continua a se envolver em questões regionais e a ajudar o Líbano a desenvolver seus recursos em acordo com seus vizinhos”, conforme reportou o Asharq Al-Awsat, mas, segundo os relatórios da mídia libanesa, a mediação dos Estados Unidos para resolução da disputa teria falhado antecipadamente, por não ter obtido em primeiro lugar o consentimento de ambas as partes.

Elias Khoury, jornalista local em Beirute, que tem se concentrado no tema desde 2007, disse a Al Jazeera que as ameaças de anexação de Israel são “inaceitáveis”. Já Ramat Jalloh, especialista em direito marítimo do Instituto Internacional de Direito Marítimo, afirmou que “o Direito Internacional é muito claro nisso, nos casos em que os Estados compartilham uma zona marítima – talvez uma fronteira como o caso com Israel e Líbano – é costume dividir o território entre os Estados que se situam perto dessa área marítima. […]. Isso sempre deve ser alcançado através de tratados ou acordos bilaterais e mútuos. Em outras palavras, ambos os lados devem se encontrar em um ponto no meio do caminho”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1David M. Satterfield, subsecretário de Estado (representante) para Assuntos do Próximo Oriente, desde Setembro de 2017” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:David_M._Satterfield.jpg

Imagem 2Apresentação detalhando os procedimentos e os resultados da Primeira Rodada de licenciamento offshore do Líbano. Lebanese Petroleum Administration, 14 Dezembro 2017, página 4” (Fonte):

http://www.lpa.gov.lb/pdf/LPA%20presentation%20to%20the%20Media.pdf

Imagem 3Embaixador norteamericano Frederic C. Hof” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/boellstiftung/17714251574

Imagem 4Imagem da demarcação fronteiriça da Linha Azul entre o Líbano e Israel, publicada pelas Nações Unidas em 7 de junho de 2000, para determinar que Israel se retirasse completamente do Líbano. Desde então, o Líbano se queixa de numerosas violações israelenses” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Blue_Line_(Lebanon)#/media/File:BlueLine.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A invasão turca, a resistência curda e os destinos da Síria

Teve início em 20 de janeiro uma grande ofensiva aérea e terrestre das forças armadas turcas contra as milícias curdas entrincheiradas em Afrin, no norte da Síria. A operação, que recebeu o nome de “Ramo de Oliveira”, tem o objetivo de combater o YPG (sigla em curdo para Unidades de Proteção Popular), grupo que colaborou com a derrota do Estado Islâmico (EI) durante a guerra civil síria, mas que é acusado por Ancara de ter conexões com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), listado por muitos governos ocidentais como uma organização terrorista.

Vista de Afrin

Não é recente a preocupação dos turcos com o fortalecimento dos combatentes curdos concentrados ao longo de sua fronteira sul, sobretudo impulsionada pela decisão do Governo dos Estados Unidos de fornecer-lhes armas e equipamentos com o objetivo declarado de auxiliar na luta contra os “jihadistas” do EI. A opção pela deflagração de uma campanha militar, contudo, veio após a divulgação dos planos estadunidenses de criar uma “força de segurança de fronteira composta predominantemente por curdos e treinada por Washington. Mesmo que esta intenção tenha sido posteriormente desmentida pelo Secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, o presidente turco Recep Erdogan optou por dar prosseguimento à operação.

Em uma região marcada pela volatilidade e onde objetivos estratégicos antagônicos se sobrepõem, torna-se difícil identificar com precisão as possíveis implicações de um eventual sucesso da incursão turca na Síria. É certo que até o momento foram raras as manifestações formais de apoio a Ancara por parte dos diversos atores que formam o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, o que pode levar a crer em uma desaprovação consensual da comunidade internacional ao ataque a Afrin. Esta percepção, contudo, ainda não foi traduzida em ações concretas contra as investidas das Forças Armadas da Turquia.

A “carta branca” que Ancara parece ter recebido para conduzir suas operações pode ser justificada por interesses convergentes acerca da questão ainda não resolvida da autodeterminação do povo curdo e da hipotética formação de um Curdistão independente, que teria o potencial de abranger territórios hoje pertencentes a quatro países (Síria, Turquia Irã e Iraque). Por certo que o Governo de Erdogan é o principal interessado em desmobilizar as forças curdas no país vizinho, o que não apenas reduziria a capacidade de organização de um movimento emancipatório na Síria e com possíveis ramificações em seu próprio território, mas também iria ao encontro do fervor nacionalista de sua base eleitoral doméstica, que é o sustentáculo de seu poder. No entanto, Rússia, Irã e também o Regime sírio poderão angariar benefícios de um eventual sucesso turco, ainda que cada um a sua maneira.

Militantes do FSA nas cercanias de Afrin

A Rússia colhe hoje os frutos de ter sido a principal apoiadora do presidente sírio Bashar al-Assad em sua luta por se manter no poder ao longo de toda guerra civil que convulsionou o país árabe. Moscou manteve e expandiu suas bases militares na Síria, é responsável pelo controle de boa parte de seu espaço aéreo e permanece sendo a principal fiadora do Regime de Damasco. Desta forma, é improvável que a operação turca tenha acontecido sem o consentimento do Kremlin. A remoção de pessoal militar russo de Afrin no mesmo dia do início dos combates evidencia o alinhamento das ações.

Tendo Assad como fiel aliado, o principal objetivo de Moscou é fortalecer o poder do dirigente sírio e facilitar a reintegração de vastos territórios que ainda continuam fora do controle de Damasco. Uma dessas regiões é a província de Idlib, controlada majoritariamente pelo Exército Sírio Livre (FSA, na sigla em inglês), grupo rebelde sunita que goza do apoio da Turquia. Outra é a porção norte do país, governada de facto pelos curdos. Concomitantemente com o avanço turco em Afrin, que também conta com a participação de militantes do FSA, o Exército sírio ocupou sem resistência uma estratégica base aérea em Idlib, anteriormente nas mãos das forças contrárias ao Regime. Este evento sugere a possibilidade de um acerto entre Moscou e Ancara na direção de oferecer uma acomodação também aos interesses de Assad. Da mesma forma, o provável enfraquecimento das forças curdas provocado pela ação da Turquia poderá facilitar a devolução do hoje autônomo Curdistão sírio ao controle do Estado.

Outro ponto focal de interesse da Rússia é a tentativa de deslegitimação e, se possível, eliminação por completo do resquício de influência que a Casa Branca poderia ter no destino da Síria pós-guerra civil. Atualmente, a participação dos EUA no desenrolar desse conflito está predominantemente restrita ao apoio tático oferecido às milícias curdas e seus aliados. A facilitação da ofensiva turca cumpriria o objetivo de minar as posições estadunidenses na região e, em adição, fomentaria o dissenso entre Ancara e Washington, dois membros estratégicos da principal aliança militar do Ocidente.

Carro de combate estadunidense em meio a combatentes curdos

Já o Irã, lar de uma considerável minoria curda, compartilha dos mesmos receios que a Turquia com relação ao surgimento do Curdistão como uma entidade política coesa. Ademais, se alinha com a Rússia na tentativa de limitar a capacidade dos EUA de imprimir suas políticas no Oriente Médio. Assim, o avanço turco em Afrin não é motivo para maiores objeções em Teerã. No entanto, o componente religioso cumpre um papel importante em sua política externa. Além de contar com contingente militar próprio no país sob a solicitação de Assad, o Irã apoia as forças xiitas largamente favoráveis ao Regime. Dessa forma, o fortalecimento das milícias sunitas financiadas por Ancara pode suscitar o atrito entre turcos e iranianos em um futuro próximo.

Por sua vez, é o Governo sírio que se encontra em posição mais delicada. Diante do que se apresenta como uma invasão externa ao seu país, Assad chamou de “agressão turca” a operação militar agora em curso. Compreensivelmente, a ocupação de parte de seu território por um país estrangeiro e o apoio da Turquia aos combatentes do FSA, contrários ao regime, não é reconfortante para Damasco. No entanto, uma possível derrota dos curdos pode servir ao objetivo do Estado sírio de reunificar o país sob um mesmo controle central. Especialmente interessante seria o fato de que a campanha militar aconteceria sem a participação direta de forças governamentais, o que viria como um alento para Assad, frequentemente acusado nos círculos ocidentais de massacrar a própria população.

No entanto, a confiança de que a Turquia vá se ater aos objetivos formais da missão e posteriormente abdicar das posições conquistadas é a única garantia de Assad para que sua soberania sobre o norte do país seja retomada. Há ainda a esperança de que o Kremlin intervirá em favor de Damasco em caso de uma possível traição turca, o que não desabona o cenário atual como uma cartada de alto risco. Ainda assim, debilitado por oito anos de guerra civil, o líder sírio não parece não ter outra alternativa senão acatar os desígnios que Moscou, e em menor grau, Ancara e Teerã, imaginam para seu país.

Encontro entre Assad e Putin em 2015

Os outros dois atores de grande relevo na geopolítica regional, Israel e Arábia Saudita, não possuem envolvimento direto nos desenvolvimentos atuais na Síria, embora os sauditas tenham sido os principais financiadores das milícias sunitas radicais durante o estágio mais dramático da guerra civil no país. Contudo, tanto Tel Aviv como Riad veem com bons olhos um eventual movimento de desmembramento sírio capitaneado pela emancipação dos territórios controlados pelos curdos. Neste cenário, restaria evidente o enfraquecimento da capacidade de influência iraniana no Oriente Médio, já que Teerã advoga por um Estado unificado sob Assad. Para sauditas e israelenses, o Regime de Teerã permanece sendo a principal força a ser combatida na região.

Finalmente os curdos, que estão cada vez mais isolados. Eles foram força importante durante os combates contra o Estado Islâmico, que agora não mais se apresenta como uma ameaça proeminente. Assim, desprovidos de função objetiva, aos olhos dos grandes atores regionais os curdos retornam paulatinamente ao seu papel histórico de povo sem Estado. Os EUA permanecem sendo a única grande potência a ainda os ter como aliados, seja por gratidão aos serviços prestados contra o grupo terrorista ou por serem os únicos procuradores estadunidenses remanescentes no conflito sírio.

Unidade de combate feminina das forças curdas

Contudo, nem mesmo Washington deverá continuar a acomodar os interesses curdos em seus planos para a região caso essa ação passe a se tornar muito custosa. Ancara já deixou claro que terá como alvo àqueles que apoiarem os combatentes do YPG. Desta forma, diante de um iminente cenário de confrontação com a Turquia, é pouco provável que a Casa Branca priorize os seus laços com os curdos em detrimento de suas já conturbadas relações com sua aliada na OTAN. Não obstante, em caso de vitória das forças turcas, os Estados Unidos sofrerão importante revés estratégico em sua política para o Oriente Médio. Seria mais um baque para o poder estadunidense na região, já contestado após as desastrosas campanhas no Afeganistão e no Iraque, e que parece estar em franco declínio após a chegada de Donald Trump à Presidência.

Por fim, é preciso atentar para o significativo potencial de combate que os curdos demonstraram nos últimos oito anos de conflito na Síria. Não será surpresa, portanto, que o Exército turco venha a ter dificuldade em cumprir com seus objetivos militares. Mesmo defendida por cerca de apenas 10.000 combatentes, Afrin ainda resiste após mais de dez dias de ataques por ar e terra e, caso caia nos próximos dias, quase duas semanas de resistência já terá sido um grande feito. Manifestações contrárias à operação militar e de apoio à autonomia do povo curdo já foram realizadas no Curdistão iraquiano e tendem a se espalhar para outros pontos da região. Ainda que improvável, uma vitória curda ou o prolongamento desgastante das batalhas embaralhará ainda mais o quebra-cabeças no Oriente Médio.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa da Operação Ramo de Oliveira” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Interven%C3%A7%C3%A3o_turca_na_Guerra_Civil_S%C3%ADria_(2018%E2%80%93presente)#/media/File:Operation_Olive_Branch_(2018).png

Imagem 2 Vista de Afrin” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Afrin,_Syria#/media/File:Afrin,south.jpg

Imagem 3 Militantes do FSA nas cercanias de Afrin” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Turkish_military_operation_in_Afrin#/media/File:FSA_Afrin_25-1-2018_(3).jpg

Imagem 4 Carro de combate estadunidense em meio a combatentes curdos” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Protection_Units#/media/File:YPG_and_US_army_Hassaka_1-5-2017.jpg

Imagem 5 Encontro entre Assad e Putin em 2015” (Fonte):

https://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%90%D1%81%D0%B0%D0%B4,_%D0%91%D0%B0%D1%88%D0%B0%D1%80#/media/File:Bashar_al-Assad_in_Russia_(2015-10-21)_06.jpg

Imagem 6 Unidade de combate feminina das forças curdas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Protection_Units#/media/File:YPJ_fighters_shake_hands_with_one_another.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Líbano aprova nova Lei Eleitoral

No último de 16 de junho de 2017, o Governo libanês aprovou e ratificou uma nova Lei Eleitoral para o país. A aprovação, após um longo debate legislativo, pavimenta o caminho para novas eleições parlamentares a serem promovidas em 6 maio de 2018. Críticos, contudo, ressaltam as insuficiências da nova Lei.

Ela foi proposta pelo membro do parlamento George Adwan, das Forças Libanesas. O primeiro-ministro Saad Hariri elogiou o ocorrido, afirmando que foi uma “conquista histórica”. O presidente Aoun saudou o projeto como uma “grande conquista”, acrescentando que o sistema de votação atual não prevê uma representação justa.

O país agora será dividido em 15 distritos eleitorais principais, compostos por 27 subdistritos, com os 128 deputados divididos entre eles. Partidos e grupos ainda apresentarão uma lista de candidatos de todas as seitas, mas, em oposição ao antigo sistema de “o vencedor leva tudo”, o novo processo alocará os lugares proporcionalmente nas listas.

Cidadãos libaneses da diáspora agora poderão votar em embaixadas, consulados ou outros locais designados pelas autoridades competentes, correspondendo a 6 votos. Os assentos da diáspora serão divididos entre três cristãos e três muçulmanos, de acordo com o Artigo 112 da nova Lei Eleitoral.

O Líbano é um dos lugares com maior diversidade religiosa do Oriente Médio

Em um país que reconhece oficialmente 18 diferentes seitas religiosas, a maioria dos partidos políticos concorda com a necessidade de reformar o sistema atual, denominado por “Lei de 1960”, mas discorda sobre o arranjo que deveria substituí-lo. De acordo com a Al Jazeera, a nova legislação substituirá o atual sistema de votação plural por representação proporcional e reduzirá o número de distritos eleitorais. Diversos grupos reformistas vinham demandando um aumento na representatividade parlamentar, saliência distrital das minorias e maior composição sectária dos blocos parlamentares para reduzir o sectarismo e conferir maior participação a diferentes partidos. O alvo das críticas sempre foram os tradicionais líderes locais que tinham sua vitória virtualmente garantida.

A Lei atual é sectária, baseada nas confissões religiosas do país. E, projetada para reduzir a concorrência inter-sectária, atribui um número de assentos parlamentares a diferentes seitas religiosas em cada distrito. No entanto, o sistema é majoritário e o candidatos em um determinado círculo eleitoral devem alcançar a pluralidade do voto total para serem eleitos, independentemente da confissão. Isto levava ao estabelecimento de alianças estratégicas sectárias locais que conferiam aos líderes locais a maioria relativa em quase todos os distritos, práticas frequentemente condenadas como compras de votos. A demanda por eleições proporcionais, por esta razão, já vinha sendo feita por diversos setores da sociedade e da política libanesas. Com amplas mudanças demográficas e ausência de um censo atualizado desde 1932, a Lei Eleitoral era considerada injusta e não representativa da composição sectária atual dos distritos.

Dois dias antes da aprovação, em 14 de junho, o mandato do atual Parlamento foi prorrogado pela terceira vez, por 11 meses adicionais, até a data das próximas eleições parlamentares, que deveriam ter sido realizadas em 2013 – o Parlamento atual foi eleito para um mandato de quatro anos em 2009. Elas foram adiadas outras duas vezes pelo Governo. A primeira em 31 maio de 2013, por 17 meses, e a segunda em 5 de novembro de 2014, por 31 meses, até 20 junho de 2017. Preocupações de segurança ligadas à instabilidade política e à guerra na vizinha Síria foram apontadas como justificativas pelo Governo libanês.

Michel Aoun – atual Presidente do Líbano

As eleições parlamentares estavam agendadas para o mês passado (maio), mas, com os deputados incapazes de decidir sobre a nova Lei Eleitoral, o país caminhava em direção a um vácuo político que ameaçava desafiar o acordo político que permitiu a indicação de Michel Aoun como Presidente do país, em outubro de 2016, após 29 meses consecutivos de vacância do cargo. Em abril, o Presidente suspendeu as atividades parlamentares durante um mês para impedir que os legisladores estendessem o mandato e pudessem ter mais tempo para concordar com uma Lei Eleitoral, sem a necessidade de mais uma extensão.

Conforme reporta Bashir el Khouri para o Al Monitor, para Zeina el-Helou, secretária-geral da Associação Libanesa para Eleições Democráticas, “este é definitivamente um passo positivo, mas insuficiente. Os partidos no poder minimizaram o efeito da representação proporcional e sustentaram o confessionalismo através do número e divisão dos distritos. Isto sem mencionar que várias reformas essenciais, como a quota feminina, redução da idade de votação de 21 a 18 ou a criação de uma autoridade independente não foram incluídas na lei”.

Para Ramez Dagher, na forma como foi desenhada, a nova Lei Eleitoral é, em sua essência, majoritária, assim como a Lei anterior de 1960 (e confirmada em 2008, no acordo de Doha), “com um toque de representação proporcional”. O novo desenho dos distritos sectários permanece profundamente sectário, e não representa grandes inovações. No longo prazo, escreve Dagher, “é uma atualização indutora de Guerra Civil que provavelmente reorganizará os blocos parlamentares de uma maneira sectária previsível, mantendo os Zuamas dominantes [líderes políticos feudais] nas mesmas cadeiras que eles ocupam há décadas”.

Com a programação das próximas eleições para maio de 2018, ativistas da sociedade civil já se organizam para participarem do pleito, com demandas de base, contra a ampla corrupção no país, contra o sistema confessional e os partidos tradicionais. A lançarem-se como independentes ou parte de movimentos civis, figuras proeminentes e ativistas já se organizam para demandar políticas e reformas econômicas, sociais e ambientais. Atuando, dentre outros, pelo Partido Saaba, pelo You Stink e pelo Movimento Take Back Parliament. Esta proliferação de movimentos sociais e de partidos anti-establishment ganhou força ano após ano desde a crise do lixo na capital do país, no verão de 2015, quando alternativas de coleta e reciclagem foram desenvolvidas pela própria sociedade civil.

Tanto como foi para as eleições municipais de 2016, as eleições parlamentares de 2018 terá como desafio uma maior coesão e plataforma comum dos movimentos, além da real oposição a partidos tradicionalmente vitoriosos. Mas, conforme argumentou Nadine Moussa, membro ativo da sociedade civil libanesa que participará das eleições como candidata independente, a tentativa parece promissora. De acordo com a Lebanon Statistic: “47% dos libaneses dizem que não votarão em nenhum dos partidos políticos no poder após anos de vácuo político recorrente e paralisia, recessão econômica, aumento da corrupção e, o mais importante, duas extensões ilegais do mandato do parlamento”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Parlamento libanês” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BeirutParliament.jpg

Imagem 2 O Líbano é um dos lugares com maior diversidade religiosa do Oriente Médio” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADbano#/media/File:ChurchMosque.jpg

Imagem 3 Michel Aoun atual Presidente do Líbano” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Aoun

 

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Autoridades libanesas frustram ataque terrorista do Estado Islâmico

Nesta última terça-feira, dia 6 de junho de 2017, agências libanesas reportaram terem abortado de forma preventiva um ataque terrorista suicida planejado nos subúrbios do sul de Beirute, que resultou na prisão de três suspeitos. Autoridades alegaram terem desmantelado uma rede suspeita de ter vínculos com o Estado Islâmico, frustrando a operação. O suposto atentado suicida foi programado para atacar um restaurante no horário do Iftar, durante o mês do Ramadan. O Ministro do Interior libanês, Nouhad al-Mashnouq, confirmou a frustração do ataque durante uma reunião no Ministério com o embaixador britânico no Líbano Hugo Shorter. As forças de segurança declararam já terem desativado um pacote explosivo em Ard Jalloul, na última sexta-feira.

Os três suspeitos teriam nacionalidade árabe, sendo um deles iemenita e outros dois palestinos. Atualmente, estão sob interrogatório na Segurança Geral Libanesa. Um dos suspeitos residiria no Complexo Al-Rabih, em Al-Tariq al-Jadideh, Beirute. Ele foi preso na semana passada. Outro suspeito, o suposto suicida, foi aprisionado ao mesmo tempo no sul da cidade de Sidon. Um colete suicida também teria sido apreendido.

A célula teria trabalhado a pedido de um Emir do Estado Islâmico em Raqqa, a capital de facto do grupo na Síria, através de um mediador que residiria em Ain al-Helweh, maior campo de refugiados palestinos no Líbano, localizado ao sul do país. Conforme reportou Layal Abou Rahal para o periódico libanês Daily Star, a guerra na vizinha Síria transformou partes do acampamento em um refúgio seguro para os jihadistas viajarem para lutar contra as forças de Bashar al Assad.

Bandeira do Estado Islâmico

Nas vielas do distrito de Taware, por exemplo, a bandeira negra do Estado Islâmico pode ser vista tremulando. Conforme também já publicado neste portal, desemprego, abandono, criminalidade e desafeto com as soluções desempenhadas durante décadas pela Organização para Libertação da Palestina nos 12 campos de refugiados palestinos no país têm ajudado a alimentar o surgimento do extremismo islâmico dentro destas áreas. As forças de segurança libanesas dizem que pelo menos 46 homens, em sua maioria não maiores de 17 anos, deixaram Ain al-Hilweh para lutar na guerra da Síria, além de um número móvel que “vai e vem”. Como parte de um acordo anterior, as forças de segurança do Estado não entram nos campos, deixando-os sob o controle de grupos militantes palestinos – e, agora, de grupos jihadistas como o Estado Islâmico e o Jabhat Fatah al-Sham.

Um desses grupos, “Shabab al-Muslim” (a Juventude Muçulmana), se estabeleceu em Ain al-Helweh, na medida em que seus líderes buscaram proeminência na Síria. Jamal Hamad, um clérigo e líder do Shabab al-Muslim, chamou o grupo de um “mosaico” de jihadistas. “Há empatia no campo com grupos jihadistas … Há empatia com a frente de Al-Nusra, e há alguma empatia com o Estado Islâmico”, disse Hamad à AFP. O clérigo afirmou que nenhum grupo tinha uma presença “oficial” no campo, mas os adeptos foram galvanizados pela retórica sectária.

A oposição liderada por sunitas na guerra síria detém apoio significativo entre os sunitas no Líbano, enquanto o governo do presidente Bashar Assad é apoiado pelo Hezbollah, longo aliado, que enviou forças ao país para engrossar as fileiras do regime.

Forças de segurança e inteligência libanesas afirmaram que o terrorista detido confessou ter se reunido com o notório militante islâmico Osama Mansour, na Mesquita Abdullah Bin Masood, na cidade de Trípoli, no norte do país, onde o suspeito teria recebido aprendizado religioso.

Trípoli tem sido um ponto de instabilidade associado ao conflito na Síria desde seu início em 2011. Islamitas sunitas travaram uma insurreição armada com o Exército na cidade em 2014, e os combatentes também entraram em confronto com membros das comunidades sunitas e alauitas. O último grande registro de violência foi um ataque suicida em janeiro de 2015. 

Veículo e soldado do exército libanês guardando a estrada entre Bab al-Tabbaneh e Jabal Mohsen

Após ter participado das batalhas entre apoiadores do presidente sírio Bashar Assad em Jabal Mohsen, majoritariamente habitada por alauitas, e seus rivais em Bab al-Tabbaneh, majoritariamente sunitas*, o suspeito participou de uma série de batalhas na Síria, entre 2011 e 2014. Ele também teria se encontrado com outros extremistas em Raqqa e Idlib, juntando-se às suas fileiras na Síria.

O oficial de segurança palestino, Sobhi Abu Arab, minimizou as preocupações com o terrorismo nos campos de refugiados palestinos, insistindo que apenas uma “minoria” de residentes estaria envolvida no conflito na Síria. Abu Arab afirmou que muitos que foram combater ao lado do Estado Islâmico e de outros grupos jihadistas voltaram porque “não estavam convencidos do que estavam fazendo”.

O Líbano vem empreendendo uma luta contra grupos terroristas, principalmente o Estado Islâmico e o Jabhat Fatah al-Sham, anteriormente conhecido como Frente Nusra, que detém posições nos subúrbios do nordeste do país, informa o Daily Star. Desde 2015, o Exército libanês intensificou ataques preventivos contra células terroristas. Apesar da presença pontual do Estado Islâmico, sobretudo em áreas fronteiriças, e a promoção de alguns atentados terroristas no país – Trípoli, em janeiro 2015; Beirute, em novembro de 2015; e no vilarejo cristão de Al Qaa, em junho de 2016, no nordeste do país – a estabilidade está sendo minimamente mantida no Líbano, que permanece uma das capitais mais seguras no mundo árabe.

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* Os residentes dos dois bairros se envolveram frequentemente em violência desde o início da guerra síria e tem se enfrentado desde a Guerra Civil Libanesa (1975-1990). Divididos em linhas sectárias, disputam oposição ou apoio ao governo sírio.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Catedral Maronita de São Jorge e Mesquita Mohammad AlAmin, na capital do país, Beirute” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Religion_in_Lebanon#/media/File:ChurchMosque.jpg

Imagem 2Bandeira do Estado Islâmico” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_Islâmico_do_Iraque_e_do_Levante#/media/File:Flag_of_the_Islamic_State_of_Iraq_and_the_Levant2.svg

Imagem 3Veículo e soldado do exército libanês guardando a estrada entre Bab alTabbaneh e Jabal Mohsen” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Bab_al-Tabbaneh%E2%80%93Jabal_Mohsen_conflict#/media/File:Lebanese_army_on_Syria_Street.jpg