ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Insegurança no “Canal de Suez” inquieta Comunidade Internacional

O “Canal de Suez”, que liga o “Mar Vermelho” ao “Mar Mediterrâneo”, foi inaugurado em 1869 e transformou-se, desde logo, numa das mais importantes rotas marítimas mundiais. Durante os 144 anos de existência, o Canal foi encerrado apenas em cinco ocasiões. Ao longo dos anos, ele tornou-se referência no transporte petrolífero e é, hoje, o responsável pelo escoamento de aproximadamente 2,2 milhões de barris de petróleo e gás natural por dia, na rota que sai do “Golfo Pérsico” com destino à Europa e à “América do Norte[1]. Esta é uma via imprescindível para o comércio mundial e de energia, pois corresponde a 7% do transporte de petróleo mundial e 12% do tráfego marítimo do mundo. Em 2013, a maior companhia de navegação da atualidade, a “Maersk Line”, deixou de operar no “Canal do Panamá” em virtude do aumento do pedágio e transferiu-se para o “Canal de Suez”, o que eleva a importância dessa via hidroviária[2].

Contudo, o Canal encontra-se sob a ameaça de ataques terroristas, a partir de grupos insurgentes no Egito. As “Brigadas al-Furqan”, um grupo irregular ativo em todo o Egito, que acusa as “Forças de Segurança” do país de serem “apóstatas e descrentes”, tem se destacado em ataques a navios no “Canal de Suez”. O primeiro ataque aconteceu em 29 de julho de 2013, seguido de um outro, no dia 31 de agosto do mesmo ano, contra o navio porta-contentores “Cosco Asia[3]. Não houve danos quer no navio, quer na carga por ele transportada. Embora os atos cometidos até agora contra os navios não tenham causado grandes prejuízos, eles conseguiram gerar uma situação de insegurança.

No momento, há preocupação quanto à vulnerabilidade do “Canal de Suez” frente a futuros ataques terroristas. As “Brigadas al-Furqan” ameaçaram com novos atos e, embora alguns especialistas as considerem “um grupo jihadista desorganizado[4], os riscos de futuras ações terroristas é uma hipótese a ser tida em conta. A situação de instabilidade no Egito e a violência dos grupos insurgentes na “Península do Sinai[5] propiciam a presença de organizações irregulares em pontos estratégicos do país, debilitando a segurança.

Para Kevin Doherty, presidente da “Nexus Consulting”, uma empresa de segurança que monitora as ameaças marítimas, as “Brigadas al-Furqan” têm capacidade de empreender um evento de magnitude significativa. Kevin Doherty fez o seguinte comentário: “Nós sabemos que eles não são mártires suicidas, sabemos que eles são tecnologicamente mais experientes, e sabemos que eles têm capacidade, como já provaram por duas vezes[6].

A situação atual do Egito em relação à presença de grupos irregulares e à dificuldade em manter a estabilidade no país justificam as apreensões em relação ao “Canal de Suez”. Tais fatos elevam a insegurança a nível nacional e colocam em risco uma das mais importantes rotas marítimas do mundo, podendo comprometer o fornecimento energético ocidental. Um possível ataque terrorista que venha a interromper o fluxo de navios no “Canal de Suez” poderá trazer sérias consequências a nível global e agravar ainda mais a situação da economia mundial, em crise desde 2008.

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Imagem (Fonte):

http://gcaptain.com/wp-content/uploads/2013/02/398153_459928840729174_707370354_n.jpeg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.ctc.usma.edu/posts/attacks-in-the-suez-security-of-the-canal-at-risk

[2] Ver:

http://www.ctc.usma.edu/posts/attacks-in-the-suez-security-of-the-canal-at-risk

[3] Ver:

http://www.longwarjournal.org/threat-matrix/archives/2013/09/al_furqan_brigades_claim_two_a.php

[4] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/02/03/egypts_real_security_worry

[5] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/vaga-de-atentados-assola-a-peninsula-do-sinai/

[6] Ver:

http://www.ctc.usma.edu/wp-content/uploads/2014/01/CTCSentinel-Vol7Iss1.pdf

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Esquecemos as crianças da Síria?

Segundo novo relatório elaborado por investigadores das Nações Unidas”, nos últimos três anos as crianças sírias têm sofrido com assassinato, tortura, abuso sexual, detenções e recrutamento obrigatório. Sem contar com a condição geral de seu país. O novo Documento foi apresentado para o “Conselho de Segurança” na semana passada, quando representantes do Governo sírio e da oposição se reuniram na Suíça, sob os auspícios da ONU. É o primeiro estudo realizado propriamente sobre as consequências do conflito que ocorre no país para as crianças e abrange o período de março de 2011 a novembro de 2013.

Embora as “Nações Unidas” tenham condenado publicamente tanto o Governo quanto a Oposição na Síria de graves violações às crianças, este foi o primeiro relatório entregue ao “Conselho de Segurança”. Segundo a análise, mais de dez mil crianças já foram assassinadas e muitas estão feridas ou desapareceram. Em sua declaração a respeito do assunto, o “Secretário Geral da ONU”, Ban Ki-moon pediu aos dois lados do conflito para que protejam os direitos infantis. Segundo ele, o sofrimento das crianças sírias é “indescritível e inaceitável[1].

A respeito da taxa de estupro, na fase inicial do conflito, quando começaram a ocorrer as manifestações para a derrubada do presidente Bashar al-Assad, a maior parte da violência sexual contra as crianças no país foi cometida por membros do Exército, serviços de inteligência e milícias a favor do Governo. Após este período, com o aumento da luta armada, os grupos de oposição se tornaram mais organizados e passaram também a cometer um maior número de estupros em crianças.

Quando falamos aqui de violência sexual, não se refere somente ao ato de estuprar uma criança. Segundo o relatório entregue ao Conselho de Segurança”, crianças foram presas e detidas com adultos, mal tratadas e torturadas por forças do governo em campanhas de aprisionamento, que foram intensas ao longo de 2011 e 2012. Nestas situações, uma série de abusos sexuais ocorreram e, de acordo com o relato de testemunhas, a agressão em relação às crianças incluiu o espancamento com cabos de metais, chicotes e bastões de madeira e metal, choques elétricos nos genitais, violência sexual – estupros e ameaças de estupros – ameaça e simulação de execuções, privação de sono, queimaduras com cigarros, confinamentos em solitárias e exposição à tortura de parentes. As testemunhas ainda afirmam que este tipo de violência, incluindo a sexual, foi usada para forçar confissões ou pressionar algum familiar a se render. 

Semana passada, em Genebra, o Governo sírio negou qualquer detenção de crianças. O vice-chanceler Fayssal Mekdad acusou as forças de oposição de sequestro, sumiço e assassinato de crianças. De acordo com os investigadores da ONU, não foi possível corroborar as alegações de violência sexual infantil por parte da oposição, por falta de acesso a informações necessárias[2].

Outro relato grave reportado pelo documento das Nações Unidas refere-se ao recrutamento – muitas vezes compulsório – de crianças por parte de organizações rebeldes. Dentre elas, o Exército Livre da Síria”, apoiado por muitos países do Ocidente. Grupos da oposição utilizam as crianças para posições de apoio e de combate, em sua maioria garotos entre 12 e 17 anos de idade. De acordo com o relatório, nos últimos três anos meninos desta faixa etária, principalmente, foram treinados e armados para combater ou para vistoriar checkpoints.

O relatório adiciona que muitas das adesões não forçadas aos grupos armados foram incentivadas pela perda de seus pais ou outros familiares. Além disso, a pressão por parte de parentes e comunidades, junto com a mobilização política que tomou o país, serviram de forte estímulo para o envolvimento de crianças ao “Exército Livre da Síria” e outros grupos filiados.

Os investigadores da ONU não reportaram ter encontrado documentos formais a respeito do recrutamento de crianças por parte das “Forças Armadas” do Governo. No entanto, foi relatado que tropas do Exército e grupos de milícia a favor do presidente Assad intimidaram e apreenderam jovens garotos para servir em checkpoints e em incursões armadas. Alguns destes jovens, abaixo dos 18 anos.

Ainda de acordo com a análise entregue às Nações Unidas”, milhares de crianças foram mortas, torturadas e mutiladas ao longo dos últimos três anos na Síria. Uma das grandes questões – se é que se pode enumerar questões frente à tamanha desgraça em pleno século XXI – é que este tipo de atrocidade não tem um único responsável. As crianças sofrem e morrem durante ataques aéreos por parte do Exército, protestos contra o atual Governo, por armas químicas e embates armados. A violência infantil é perpetuada pelos dois lados do conflito – Governo e grupos de oposição. Os investigadores afirmam, ainda, que possivelmente as organizações rebeldes realizaram uma série de execuções.

Muitas crianças também foram utilizadas como escudos humanos em choques entre os grupos conflitantes e centenas morrem pela fome e em decorrência da baixíssima condição de vida existente atualmente na maior parte do país.

As “Nações Unidas” não esclareceram quais os tipos de documentos ou os métodos utilizados pelos investigadores em tal análise. A representante especial de Ban Ki-moon para crianças e conflitos armados, Leila Zerrougui, irá atualizar diplomatas a respeito do relatório na próxima semana.

A compreensão de que esta é uma realidade atual e bem conhecida pelo cenário internacional é muito difícil. Enquanto mais de dez mil crianças já foram assassinadas na Síria – de forma brutal – e outras continuam sofrendo com exatamente as mesmas acusações trazidas por tal relatório da ONU, nada de efetivo está sendo feito por parte dos países que assistem a este cenário indescritível de desumanidade. Críticas são feitas, milhares de análises e artigos como este são escritos ao redor do mundo, mas as crianças e toda a população da Síria necessita urgentemente de atitudes mais enfáticas.

Diante do quadro, questiona-se até quando se estudará os genocídios, as guerras, os assassinatos em massa na história que nos assustam e não se aprenderá nada com isso? Pior, se deixará que eventos como estes – com suas especificidades – se repliquem no presente. Enquanto governantes da maior importância se limitam a repreender tanto Governo quanto Oposição, uma série de organizações não-governamentais em diversos locais têm se mobilizado para tentar auxiliar com ajuda humanitária e recursos primários. Porém, como tem sido ressaltado pela comunidade internacional, já é passada a hora de o mundo agir de fato e de forma oficial para que o massacre que acontece atualmente em relação a crianças, jovens, adultos e idosos – homens e mulheres – termine de vez. Os observadores passivos de um conflito estão fazendo uma escolha. Todos os países têm, hoje, responsabilidade pela situação na Síria

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Imagem (Fonte):

http://worldnews.nbcnews.com/_news/2013/03/13/17294280-children-shot-at-tortured-and-raped-in-syria-report-says?lite

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/2014/02/04/un-report-syria-child-abuse_n_4725833.html

[2] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/02/05/world/middleeast/at-least-10000-children-killed-in-syria-un-estimates.html?_r=0;

Ver também oRelatório das Nações Unidas”:

http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N13/627/07/PDF/N1362707.pdf?OpenElement

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Ver ainda:

http://www.theguardian.com/world/2014/feb/05/syria-children-maim-torture-assad-forces-un

Ver ainda:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/02/05/U-N-report-details-unspeakable-suffering-of-Syrian-children.html

Ver ainda:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-26046804

Ver ainda:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/02/un-decries-child-abuse-syria-2014253588210756.html

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

O reconhecimento do Estado Palestino e a política externa americana

Em 31 de outubro de 2011, a “Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura” (UNESCO) admitiu a Palestina como seu 195º Estado membro, com 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções[1]. Entretanto, esse movimento foi, nas palavras do analista John Rogin, “apenas a ponta do iceberg[2].

De fato, pouco mais de um ano depois, em 29 de novembro de 2012, a “Assembleia Geral das Nações Unidas” conferiu à Palestina, antes vista como “Entidade Observadora Não-Membro”, o status de “Estado Observador Não-Membro da ONU”. A votação contou com 138 votos a favor, 9 contra e 41 abstenções[3].

Alguns meses mais tarde, em maio de 2013, o Google, acompanhando o reconhecimento do Estado palestino por parte da ONU, mudou os dizeres da versão palestina de sua página de busca de “Territórios Palestinos” para Palestina[4], o que, na época, ganhou grande destaque na mídia. Representando mais uma vitória para aqueles que advogam pelo reconhecimento da Palestina como Estado independente, o movimento do Google, assim como o da “Assembleia Geral”, desagradou Israel e “Estados Unidos[5].

Esses avanços parecem fazer parte de um esforço palestino em atingir uma adesão plena à ONU iniciado em 2011, antes mesmo do reconhecimento feito pela UNESCO. A “Resolução das Nações Unidas” de 29 de novembro de 2012 não apenas atribui à Palestina status de “Estado Observador Não-Membro”, como também leva a que o “Conselho de Segurança” aprove a candidatura palestina como “Estado Membro” das “Nações Unidas”, submetida em 23 de setembro de 2011[6].

Segundo o think tankCouncil on Foreign Relations”, a busca pelo reconhecimento da ONU derivou, conforme afirmou Mahmoud Abbas, Presidente palestino, da falta de progresso nas conversas de paz com Israel e da contínua construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia e em “Jerusalém Oriental”, o que Abbas considera ilegal[7].

De toda forma, quando John Rogin se referiu à adesão palestina à UNESCO como “a ponta do iceberg”, ele se referia, em 2011, aos desafios que os “Estados Unidos” teriam – e tiveram – de enfrentar para manter sua adesão à Organização.

Notadamente, a entrada da Palestina na UNESCO ativou restrições legislativas americanas que forçaram os “Estados Unidos” a interromper suas contribuições (financeiras) à Entidade[1]. A “Lei P.L. 103-236, Title IV, de 1994”, impede contribuições do governo americano “a qualquer organização afiliada das Nações Unidas, que conceda adesão plena como Estado a qualquer organização ou grupo que não tenha os atributos internacionalmente reconhecidos como de Estado[2].

Mais especificamente, a “Lei P.L. 103-236, Title IV, de 1990”, afirma que “[n]enhum recurso autorizado a ser apropriado por este ou qualquer outro ato deve estar disponível para as Nações Unidas ou a qualquer de suas agências especializadas que conceda à Organização de Libertação da Palestina a mesma posição que a de Estados membros[2].

Com isso, nunca foi feito o pagamento de 60 milhões de dólares pelo Governo estadunidense à UNESCO, que deveria ocorrer ao final de 2011. Evidentemente, considerando que esta anuidade corresponde a cerca de um quinto do seu orçamento anual, a UNESCO viu o financiamento despencar desde então[8].

No entanto, não foi apenas a Organização que foi prejudicada com essas mudanças. Em novembro do ano passado, os “Estados Unidos” tiveram seu direito a voto suspenso na UNESCO por inadimplência, i.e., por não pagar suas cotas. O mesmo ocorreu com Israel, que também interrompeu suas contribuições à agência da ONU em fins de 2011[9].

De acordo com especialistas, nesse cenário, ambos os países saem perdendo. Como destaca a “Ex-Secretária de Estado Assistente dos Estados Unidos”, Esther Brimmer, sem o suporte americano a UNESCO não pode levar adiante programas que promovem a segurança estadunidense, como a alfabetização da polícia afegã (“Literacy Empowerment for Afghanistan Police[10]). Nesse sentido, Brimmer chama a atenção para o fato de que, quando Bush aderiu novamente a UNESCO em 2003, após um afastamento datado da “Guerra Fria”, o então Presidente americano acreditava que a Organização poderia ajudar a combater o extremismo, em um contexto pós-11 de setembro[11].

Além disso, quando questões relativas ao patrimônio da “Terra Santa” forem discutidas na UNESCO este ano (2014), Israel e seu aliado, os “Estados Unidos”, não terão voz. Ao mesmo tempo, programas de grande interesse israelense, como de educação anti-genocídio e sobre o holocausto[12], também serão minados pela falta do suporte norte-americano.

Todavia, parece pouco provável que os argumentos de Brimmer sejam levados em consideração, sobretudo em um “Oriente Médio” pós-Primavera Árabe, em que, nas palavras de Anne Paterson, nomeada como próxima oficial do “Departamento de Estado Americano” para a região, “desafios mais importantes surgiram na região, eclipsando esse conflito [entre Israel e Palestina] como o foco da política americana no Oriente Médio[13].

Assim, no contexto das recentes conversas de paz em torno do conflito sírio, que não produziram nenhum avanço[13], e na espera da próxima rodada de negociações a respeito do “Programa Nuclear Iraniano[14], os “Estados Unidos” parecem não perceber que tirar a questão palestina do foco de sua política externa pode ter sérias consequências aos seus próprios interesses.

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ImagemO embaixador palestino na Unesco, Elias Sanbar, na conferência geral da agência” (Fonte):

http://news.bbcimg.co.uk/media/images/70998000/jpg/_70998731_70998730.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

JOHNSON, Larry D. “Palestine’s Admission to UNESCO: Consequences Within the United Nations?”. Denver Journal of International Law and Policy, 2012, v. 40, pp. 118-127; p. 118.

[2] Ver:

http://thecable.foreignpolicy.com/posts/2011/10/07/palestinian_membership_in_unesco_is_just_the_tip_of_the_iceberg

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2012/nov/29/united-nations-vote-palestine-state

[4] Ver:

http://blog.foreignpolicy.com/posts/2013/05/02/google_recognizes_palestine

[5] Ver:

http://blog.foreignpolicy.com/posts/2013/05/03/israel_isnt_happy_about_googles_decision_to_recognize_palestine

[6] Ver:

http://unispal.un.org/UNISPAL.NSF/0/19862D03C564FA2C85257ACB004EE69B

[7] Ver:

http://www.cfr.org/palestine/palestinian-statehood-un/p25954#p2

[8] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-15527534

[9] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-us-canada-24871100

[10] Ver:

http://www.unesco.org/new/en/kabul/education/literacy-for-empowering-afghanistan-police-leap/

[11] Ver:

http://bosco.foreignpolicy.com/posts/2013/11/04/israel_unesco_and_the_united_states

[12] Ver:

http://www.unesco.org/new/en/education/themes/leading-the-international-agenda/human-rights-education/holocaust-remembrance/

[13] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25993769

[14] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/acordo-nuclear-iraniano-o-impacto-internacional/

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Egito três anos após as manifestações na Praça Tahrir

Neste Janeiro de 2014, o Egito completou três anos das primeiras manifestações na Praça Tahrir”, que levaram à derrubada do ditador Hosni Mubarak – no poder há praticamente três décadas. A queda de Mubarak pareceu representar, então, o maior sucesso do fenômeno que ficou conhecido como “Primavera Árabe”. Nesse meio tempo, o país passou por um governo de transição militar, por suas primeiras eleições democráticas, pelo primeiro presidente eleito democraticamente seguido de sua derrubada, por atritos sociais e uma grave crise econômica. Nos choques violentos entre o atual governo de Adly Mansour e a oposição apoiadora da “Irmandade Muçulmana”, o resultado conta com milhares de mortos. Observadores levantam a pergunta: o que será que o Egito pode celebrar?

Grupos políticos rivais planejaram uma série de protestos por todo o país em homenagem às revoltas de 2011. O atual Governo do Egito”, presidido por Adly Mansour, pareceu estar a favor das comemorações e disse que o público egípcio deve celebrar o aniversário. O “Ministro do Interior”, Muhammad Ibrahim, afirmou que medidas de segurança extra foram tomadas para garantir que nenhum ato de violência se intensifique, a fim de que a população não tenha medo de sair às ruas[1]

Simultaneamente, a denominada “Aliança Anti-Golpe” – liderada pela “Irmandade Muçulmana” – chamou seus seguidores para 18 dias de protestos, baseando-se nos 18 dias de revoltas que resultaram na renúncia de Mubarak. A “Irmandade Muçulmana” mantém protestos regulares desde que o ex-Presidente Mohammed Morsi foi forçado a sair do poder pelos militares, sob a liderança do general Abdel Fattah al-Sisi.

Um dos membros da “Aliança Anti-Golpe” residente da cidade do Cairo, Ahmad Nageeb, declarou para o jornal “Arabiya News” que o dia “25 de Janeiro” não pode ser celebrado sem que o verdadeiro espírito da Revolução seja regenerado. Segundo ele: “o dia 25 e Janeiro foi esquecido e nós estamos de volta à estaca zero. Nossos protestos não são permitidos e qualquer um que se oponha ao exército está sendo varrido do mapa. É por isso que devemos retomar o que a Revolução demandou inicialmente em 2011[2]

Outro grupo que planeja marcar presença nas ruas do Egito para este fim é o “Movimento Jovem 6 de Abril”. Fundado em 2008, o grupo representou uma das principais oposições a Hosni Mubarak e ficou conhecido por utilizar como ferramentas as mais variadas redes sociais. No atual “Governo Militar”, o grupo também tem sofrido com falta de liberdade de expressão. Seis de seus membros foram presos nos últimos dias por distribuir panfletos que chamavam para a “Terceira Revolução” no aniversário da “Revolta de Janeiro de 2011”.

A organização condenou as prisões em uma Declaração, na qual afirmou que a repressão da juventude por simplesmente distribuir panfletos é em si um convite claro para a rebelião contra as injustiças cometidas pelos atuais governantes[3].

Em meio às expectativas de celebração – por parte do Governo e da Oposição – das manifestações na “Praça Tahrir” em Janeiro de 2011, o Presidente deposto Mohamed Morsi passou por um julgamento nesta semana. Ele foi retirado do poder em julho de 2013 pelo Exército, que foi incitado por manifestações populares a atuar contra seus poderes na Presidência do país.

O movimento contra o primeiro Presidente eleito do Egito representou uma grande questão para a sociedade. Tendo sido apoiado – e pedido – por parte expressiva da população egípcia, o ato é considerado altamente antidemocrático. Por um lado, Morsi foi acusado de abuso de poder, repressão e violência, adicionando, ainda, o caráter islamita fundamentalista de seu partido político, o que significou grande ameaça para setores seculares da sociedade. Por outro, ele foi eleito democraticamente e sua deposição deixou um grande senso de injustiça para o Egito e para o mundo. Além disso, deixou uma enorme interrogação: estariam os militares garantindo sua estadia no poder?

Remontando à história do país, o primeiro “Golpe Militar” do Egito contemporâneo ocorreu em 1952, sob os auspícios do general Muhammad Naguib. Dois anos depois, Gamal Abdel Nasser o retirou do poder e se tornou uma das figuras de liderança mais aclamadas do mundo árabe. Após sua morte, em 1969, Nasser foi sucedido por Anwar Al-Sadat, assassinado em 1981 depois de assinar os “Acordos de Camp David” com Israel. Hosni Mubarak era o vice presidente de Sadat e esteve no poder desde então até o início de 2011, marcando quase seis décadas de regime militar no Egito.

Ao longo deste período, os militares tornaram-se um setor de especial importância no país, ocupando cargos públicos, regendo boa parte da economia e desfrutando de vantagens sociais.

Quando as manifestações contra Mubarak se intensificaram na “Praça Tahrir”, o Exército tomou uma medida quase inesperada: voltou-se para o lado da população pela renúncia do então Presidente. Assumiu o “Governo de Transição”, instaurou eleições parlamentares e, posteriormente, presidenciais.  Mohamed Morsi foi o vencedor, à frente da “Irmandade Muçulmana”, grupo de oposição que ganhou mais força e organização durante os anos do “Governo Militar” no país. Morsi ficou no poder por um ano, tendo assumido no dia 1o de julho de 2012 e deposto no dia 3 de julho de 2013. Desde então, a “Presidência do Egito” está novamente sob controle militar.

O atual Governo se afirma como sendo de transição. Em dezembro de 2013, um rascunho da nova Constituição foi aprovado pelos membros da Assembleia Nacional”. Na última quarta-feira, dia 29 de Janeiro, a Lei sobre as Eleições presidenciais foram alteradas por Mansour. O Presidente interino declarou que elas serão precedidas por Eleições parlamentares e a discussão a respeito do assunto poderá se estender até o dia 9 de fevereiro[4].

No julgamento que passou esta semana, Mohamed Morsi esteve encarcerado em uma cela de vidro à prova de som, sendo permitido que se dirigisse à Corte após levantar a mão. Logo no início do processo, Morsi seguiu gritando: “eu sou o Presidente da República, como posso estar sendo mantido em uma lixeira por semanas?[5]. A uma certa altura do julgamento, foi permitido que os jornalistas escutassem o que se passava na cela de vidro e os outros acusados começaram a cantar “abaixo com o regime militar![5]. Após este ocorrido o Juiz cortou o som[5]

Três anos após a histórica renúncia de Hosni Mubarak, conquistada pela população apoiada pelos militares, a questão que fica é se algum ganho realmente foi conseguido. Aparentemente, o setor militar conseguiu se manter no poder, reprimindo e censurando os partidos islâmicos de oposição, especialmente a Irmandade Muçulmana”. Este grupo, por sua vez, mantém seu papel de principal organização opositora, assim como o foi na época de Nasser, Sadat e Mubarak.

Deve-se destacar que Morsi também recebeu severas críticas por parte de uma série de setores populares, foi acusado de violência e assassinato. Ao longo de seu período na Presidência, as prisões por censura foram muitas, bem como a repressão da oposição à “Irmandade Muçulmana”. No entanto sua retirada do poder representou um golpe sobre o primeiro Presidente eleito na história do país e o Governo prossegue nas mãos do mesmo setor desde a “Revolução Egípcia de 1952”.

Atualmente, o Egito sofre com grave crise econômica, resultado principalmente da falta de investimento externo e da queda do turismo. Os setores populares estão altamente divididos e polarizados e a violência aumentou muito no país nos últimos anos, possivelmente como resultado não somente de embates políticos, mas também da crescente taxa de desemprego.

No entanto, não se pode esquecer o fato de que regimes democráticos são, na realidade, muito singulares em relação a cada pais e o Estado-Nação, em si, tanto quanto a idéia de “Estado Democrático de Direito” são fenômenos relativamente recentes na história do “Oriente Médio”. A conquista da Democracia, por sua vez, é realmente um processo que envolve desacordos, aprendizagem, busca por lideranças e briga pelo poder. Olhando em retrospectiva, o caso do Egito não seria tão anormal em seu primeiro processo de busca democrática por parte de forças populares. E, como se depreende das observações de grande parte dos analistas, possivelmente, a quebra do status quo do regime militar de seis décadas, passando pela experiência de primeiras eleições democráticas, pela formação de grupos politizados e por manifestações foram grandes conquistas, que podem ser vistas como primeiros passos que devem ser celebrados pela sociedade enquanto o começo de uma jornada muito maior.

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Imagem (Fonte):

http://www.theatlantic.com/international/archive/2013/04/former-tahrir-square-star-now-sings-against-morsi/274524/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25874370

[2] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/perspective/analysis/2014/01/25/Three-years-on-Egypt-has-little-to-celebrate-on-Jan-25-.html

[3] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContentPrint/1/0/92196/Egypt/0/Egypts-April–denounces-fresh-arrests,-warns-of-th.aspx

[4] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/92975/Egypt/Politics-/Egypt-presidency-puts-amended-presidential-electio.aspx

[5] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25924027

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Missionários Franciscanos servem na Terra Santa

A presença dos missionários franciscanos da “Ordem dos Frades Menores na Terra Santa”, desde 1342 institucionalizada na “Custodia Terræ Sanctæ[1], além de antiga,  tem um sentido peculiar. A ligação com a terra dos antepassados cristãos foi estabelecida pelo próprio “São Francisco de Assis”, em 1219, quando, a caminho do Egito, parou em “São João de Acre”, com o objetivo de chegar a Jerusalém. Ele deixou o legado do sentido e da predileção pela terra onde “Jesus Cristo” nasceu e viveu a sua vida terrena[2].

Apesar das dificuldades e incertezas enfrentadas ao longo dos séculos, os Franciscanos sempre estiveram envolvidos em questões que implicam a defesa dos lugares santos. Somente em fevereiro de 1852 terminou um longo período conturbado e o “Império Otomano” assinou o documento “Status Quo Nunc”, regulando e dando a posse da propriedade e de direitos às diversas comunidades cristãs. O trabalho dos frades Franciscanos não se restringiu apenas à luta pela posse, mas também esteve ligado à reconstrução dos lugares sagrados para os cristãos. Os frades são guardiões da “Terra Santa” por vontade e mandato da Igreja. Hoje, a Custódia está presente em Israel, Palestina, Jordânia, Síria, Líbano, Egito, nas ilhas de Chipre e de Rodes, contando com a presença de, aproximadamente, 300 religiosos[3].

Numa região de conflito quase que permanente e com muitas dificuldades, o trabalho dos frades Franciscanos tem contribuído, desde o século XIII, de modo decisivo para a preservação dos lugares santos, que são patrimônio cultural mundial. Atualmente, o Custódio responsável por todos os santuários católicos é Frei Pierbattista Pissaballa, eleito em 2004 e confirmado pelo Papa, em 2009, para mais um triênio. Este Custódio é oGuardião do Monte Sião”. Segundo Frei Pierbattista Pissaballa, a função dos Comissários da Custódia Franciscanaé fazer aponte entre a Terra Santa e os cristãos de todo o mundo”. Os Comissários são originários dos cinco continentes e estão divididos entre 46 países, num total de 69 religiosos[4].

O trabalho de preservação dos lugares sagrados da Cristandade só tem sido possível através das ofertas recebidas de todo o mundo, a partir da atuação dos Comissários. Na região onde nasceram as três religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, o patrimônio à guarda dos Franciscanos não se limita apenas aos preceitos religiosos, mas também diz respeito ao legado dos três povos das religiões do Livro, permitindo preservar valores intrínsecos a épocas remotas, que enriquecem a Humanidade sob o ponto de vista histórico, arquitetônico, cultural e identitário.

É importante ressaltar que o trabalho realizado pelos Franciscanos não é relevante somente para as identidades e culturas locais, mas para a Humanidade que vive o auge do processo de globalização numa época em que o ser humano pós-moderno se encontra carente de identidade. Na pós-modernidade, a identidade cultural passa pela crise de sobrevivência e enfrenta a “concorrência” da indústria cultural que visa destruí-la através da promoção de valores e símbolos antes somente acolhidos por minorias.

A recepção oferecida pelos frades aos peregrinos não se restringe apenas a um bom acolhimento, sendo-lhes dada a oportunidade de aprender os aspectos históricos e geográficos da região, tais como Jerusalém, Massada, Belém, o “Rio Jordão”, o “Mar Morto” (o ponto mais baixo na Terra)[5] e outros importantes locais históricos.

A relevância da obra dos “Custódios da Terra Santa” ao longo dos séculos é indiscutível. Todo o trabalho por eles desenvolvido não é feito de modo isolado, mas em rede mundial. É a conexão estabelecida entre todos aqueles que estão comprometidos com a atividade de manter a presença cristã na “Terra Santa” que tornou possível a conservação e preservação dos lugares sagrados[6] naquela região.

Num momento em que o “Oriente Médio” passa por mais uma fase conturbada em virtude dos conflitos internos e enfrenta uma “Guerra Civil”, os Franciscanos têm se dedicado a auxiliar os refugiados sírios. Para Frei Pierbattista Pissaballa, “a Síria encontra-se numa situação dramática e não pode ser esquecida… O Norte da Síria está quase totalmente nas mãos dos rebeldes, o Oeste sob controle governamental, o Centro-Sul está no caos total[7].

A posição tomada por Frei Pierbattista Pissaballa ante os acontecimentos na Síria é de auxílio e de denúncia da violência sofrida pelas minorias cristãs, principalmente no Norte da Síria, que se encontra sob domínio dos rebeldes fundamentalistas islâmicos. De acordo com o “Custódio da Terra Santa”, nem a Síria, nem os muçulmanos, nem os cristãos podem ficar esquecidos[8]. Desde o início da “Guerra Civil Síria” os Franciscanos têm atuado no sentido de amenizar a situação daqueles que necessitam de ajuda, independentemente de confissão religiosa. Deste modo, foi criada a ONG da Terra Santa”, “Ats Pro Terra Sancta[9], que tem, como lema da campanha de solidariedade: “Emergência Síria[10].

A atuação dos “Custódios da Terra Santa”, através de ações efetivas no que diz respeito à preservação dos lugares santos e à dedicação à causa humanitária, reflete a consolidação de um ideal que tem como motivação não somente os valores cristãos mas, acima de tudo, humanitários. Numa época, como a nossa, em que se apregoa o multiculturalismo e na qual, paradoxalmente, se mantêm o preconceito e a não aceitação da diferença, os Franciscanos naTerra Santaconseguem superar muitos desses obstáculos defendendo, e praticando cotidianamente, valores superiores às barreiras religiosas, culturais e políticas.

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Imagem (Fonte):

http://www.stellamaris-naklada.com/hr/hodocasca/sveta-zemlja

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.custodia.org/

[2] Ver:

http://www.fmc-terrasanta.org/pt/historia-da-custodia-da-terra-santa.html

[3] Ver:

http://www.fmc-terrasanta.org/pt/historia-da-custodia-da-terra-santa.html

[4] Ver:

http://www.fmc-terrasanta.org/pt/custodia-da-terra-santa.html?vid=44&vt=1

[5] Ver:

http://www.holyland-pilgrimage.org/node/167

[6] Ver:

http://pt.custodia.org/default.asp?id=2048&id_n=19113

[7] Ver:

http://pt.radiovaticana.va/news/2013/10/21/cust%C3%B3dia_da_terra_santa_lan%C3%A7a_campanha_de_solidariedade_emerg%C3%AAncia/bra-739424

[8] Ver:

http://pt.radiovaticana.va/news/2013/10/21/cust%C3%B3dia_da_terra_santa_lan%C3%A7a_campanha_de_solidariedade_emerg%C3%AAncia/bra-739424

[9] Ver:

http://www.proterrasancta.org/

[10] Ver:

http://pt.radiovaticana.va/news/2013/10/21/cust%C3%B3dia_da_terra_santa_lan%C3%A7a_campanha_de_solidariedade_emerg%C3%AAncia/bra-739424

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A “Diplomacia Futebolística” no “Oriente Médio”

É importante não ignorar o papel que o futebol possui no cenário mundial, mobilizando, direta e indiretamente, grande número de atores e sendo instrumentalizado segundo os mais variados objetivos – sociais, econômicos, políticos e comerciais, por exemplo. Outrossim, muitas vezes este assume ares de uma contundente válvula de escape para tensões e conflitos, palco no qual pseudolutas são travadas, bem como esperanças e frustrações são canalizadas, refletindo, assim, a imagem do mundo em que vivemos nas suas mais diversas esferas, tanto política e econômica como social.

A acentuada penetrabilidade deste esporte no cenário internacional, haja vista que o futebol parece não conhecer limites nem fronteiras, o torna, muitas vezes, um percuciente instrumento de poder nas relações internacionais e, inclusive, matéria de pauta diplomática, dado que este tem sido comumente utilizado como propulsor da imagem e inserção internacional de alguns Estados na arena mundial. Com relação a este aspecto, segundo o pesquisador francês, Pascal Boniface, embora a definição clássica de Estado repouse sob três critérios tradicionais – um território, uma população e um governo – poderíamos acrescentar um quarto: uma equipe nacional de futebol. Ainda de acordo com Boniface, atualmente a independência nacional se caracterizaria pela capacidade de um Estado defender suas fronteiras, emitir moeda e disputar competições futebolísticas no plano internacional[1].

Por outro lado, o futebol também tem se mostrado uma ferramenta que auxilia na resolução de conflitos e na busca pela paz – dado ser este esporte um elemento de paz e aproximação entre os povos – e um instrumento de políticas de cooperação internacional e de ajuda ao desenvolvimento. Desta forma, por estar embasada na utilização do futebol como um relevante instrumento de ação nas relações internacionais esta prática diplomática não-tradicional recebe a denominação de diplomacia futebolística*. Em adição, cumpre registrar que a diplomacia futebolística não emana exclusivamente de atores estatais, embora os Estados sejam os que mais se favorecem desta prática. ONGs, fundações e, principalmente, clubes de futebol, vêm executando inúmeras ações no cenário internacional neste sentido.

Segundo Mario Santos, pesquisador deste tema, um dos mais recorrentes campos de aplicação da diplomacia futebolística tem sido o arrefecimento de conflitos – sejam estes internos ou entre países –, visto que o futebol representa um palco no qual se desenrolam gestos positivos e simbólicos que têm a capacidade de auxiliar, de forma muitas vezes mais significativa do que infrutíferos discursos políticos eivados de retórica ou certas resoluções internacionais, na solução pacífica de conflitos civis ou internacionais[2].

O Governo brasileiro, por exemplo, utilizou desta ferramenta em 2004, no Haiti, como estratégia fundamental para os esforços de pacificação no país, quando da liderança do Brasil na “Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (MINUSTAH), por ocasião do “Jogo da Paz”. E é justamente esta potencialidade do futebol que volta a se destacar no cenário internacional, desta vez pensada não por um governo, mas sim por um clube de futebol, o “FC Barcelona”, que carrega em seu seio uma identidade nacional catalã bastante acentuada.

Assim, conforme o noticiado na mídia, no início de agosto deste ano (2013), o Barcelona realizou uma “Peace Tour” (“Turnê da Paz”, em português) no “Oriente Médio”, tendo visitado Israel e Palestina, no intuito de contribuir para o processo de paz na região, tendo em vista a utilização do futebol como ferramenta. Segundo Javier Faus, vice-presidente econômico do Barcelona e responsável pela condução das negociações para a realização da “Peace Tour”, esta viagem foi pensada apenas por razões institucionais, não visando objetivos comerciais. Apesar de reconhecer que a “Peace Tour” ajudaria a promover o nome do clube junto aos povos árabe e judeu, Jaus ressalta que as razões determinantes foram baseadas na intenção de poder auxiliar, mesmo que de forma mínima, no processo de paz entre ambos os povos e na de mostrar como o esporte pode ser utilizado para construir pontes entre os povos.

Tornada concreta após sete meses de conversar e quatro visitas a ambos os Estados (Palestina e Israel), a “Peace Tour” foi iniciativa que contou com o apoio dos governos de Israel e da Palestina. Inicialmente, cogitou-se a realização de uma partida entre o Barcelona e uma equipe formada por jogadores palestinos e israelenses. Todavia, devido às complexidades políticas existentes na região à época do início das negociações, esta ideia foi rechaçada tanto pelo presidente israelense, Shimon Peres, quanto pelo presidente da “Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, segundo informam as reportagens consultadas. Destarte, tendo em vista a impossibilidade da realização da partida, o Barcelona sugeriu que houvesse duas clínicas de futebol – uma em Israel e outra na Palestina, sendo ambas de mesma duração, importância e gratuitas – para as crianças da região, o que ficou acordado entre a diretoria do clube e os governos dos dois países.

Em 3 de agosto de 2013, a delegação oficial do Barcelona (jogadores e dirigentes), liderada por Sandro Rosell, presidente do clube, iniciou viagem para o “Oriente Médio”, visando fortalecer laços institucionais com os líderes de Israel e da Palestina, bem como construir pontes para um diálogo de paz entre estes. Nesta mesma data, ao chegar na Palestina, a delegação do clube visitou, primeiramente, a “Basílica da Natividade”. Logo em seguida, foi recepcionada, com honras de “Chefe de Estado”, por Mahmoud Abbas, ocasião em que Jibril Rjoub, chefe da “Associação Palestina de Futebol”, declarou ser este um dia histórico para o povo palestino e que o esporte é a melhor forma de superar o ódio e as hostilidades. Após, os jogadores seguiram para o “Estádio Municipal de Dura”, na Cisjordânia, local de realização da primeira clínica de futebol da “Peace Tour”, com as crianças palestinas.

No dia seguinte, 4 de agosto de 2013, conforme a tratativa inicial, toda a delegação do Barcelona rumou para Israel, dando continuidade à “Peace Tour”. Em Israel o primeiro lugar visitado foi o “Muro das Lamentações”, em Jerusalém. Depois, a delegação foi recebida, em cerimônia oficial, por Shimon Peres e por Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense. Após a cerimônia, todos se dirigiram para o “Bloomfield Stadium”, em “Tel Aviv”, local de realização da segunda clínica de futebol. A se ressaltar que, como parte desta clínica, o “Ministério da Educação de Israel” anunciou o lançamento da campanha “The Other is Me” (O “Outro sou Eu”, em português), iniciativa que irá vigorar nas escolas em Israel durante o ano letivo 2013/2014 e tem por meta estimular a tolerância e a paz no sistema educacional do país.

Cumpre registrar, de forma a deixar clara a prática da “Diplomacia Futebolística” em Israel e na Palestina, levada a cabo pelo Barcelona, o discurso de agradecimento proferido por Shimon Peres, para quem o futebol auxilia, sobremaneira, nos processos de pacificação. Nas palavras de Peres: “Vocês possuem um futebol de alto nível. Mas mais do que isso, vocês tem transmitido uma mensagem de solidariedade, amizade e cuidado para com os mais fracos. Vocês são mensageiros da paz. Milhões de pessoas os amam e vocês oferecem seu próprio amor a estas pessoas. Muitíssimo obrigado[3]. Por fim, encerrada a “Peace Tour”, a delegação do Barcelona seguiu para a Ásia, mercado no qual, segundo Sandro Rosell, o clube deve buscar atingir e divulgar sua respectiva imagem, visando inúmeros interesses econômicos na região.

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* Termo cunhado, em 2010, pelo estudioso das relações entre futebol e política externa, Mario A. Santos, e originalmente utilizado na dissertação de mestrado intitulada “Esporte e Relações Internacionais: A Diplomacia Futebolística como Ferramenta de Soft Power – O Caso do Brasil”.

** Amistoso disputado entre a seleção brasileira e a seleção haitiana de futebol, em “Porto Príncipe”, no Haiti.

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ImagemO Futebol Auxiliando no Processo de Pacificação no Oriente Médio” (Fonte):

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/fc-barcelona-finalise-peace-tour-arrangements

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

BONIFACE, P. Football et Mondialisation. Paris: Armand Colin, 2010.

[2] Ver:

SANTOS, M. A. Esporte e Relações Internacionais: A Diplomacia Futebolística Como Ferramenta de Soft Power – O Caso do Brasil. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UERJ/PPGRI-UERJ. Apresentada em novembro de 2011.

[3] Ver:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/missatge-de-pau-a-israel

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Ver Também:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/fc-barcelona-finalise-peace-tour-arrangements

Ver Também:

http://gulfnews.com/sport/football/shimon-peres-praise-for-barcelona-as-peace-tour-kicks-off-in-israel-1.1216622

Ver Também:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/palestine-goes-wild-for-barca

Ver Também:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/faus-we-re-the-number-one-team-in-israel-and-palestine