ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONALORIENTE MÉDIO

[:pt]ONU questiona comprometimento dos EUA na busca por solução política na Síria[:]

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Durante encontro que ocorreu em Genebra, na Suíça, em meados de fevereiro deste ano (2017), Staffan de Mistura, enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Síria, questionou o grau de comprometimento dos Estados Unidos da América (EUA) na busca por uma solução política para o conflito sírio. Depois de três sessões em 2016, que não resultaram em nenhum avanço, no dia 22 de fevereiro de 2017, as delegações rivais sírias se reuniram na Suíça, onde iniciou-se uma nova rodada de negociações com mediação da ONU, a fim de se encontrar uma solução pacífica para a guerra que perdura há 6 anos no país.

Em março de 2011, eclodia em Da’ra, na região sul da Síria, manifestações que pediam reformas políticas, ações para encerrar o estado de emergência e medidas contra a corrupção no país. A demanda pela abertura do regime, no entanto, teve início no começo dos 2000, quando Bashar al-Assad assumiu a Presidência da Síria, após a morte de seu pai, e teve a legitimidade outorgada pelo partido Baas. Os protestos pela saída de Assad adotaram um caráter violento depois da prisão e tortura de adolescentes que pintaram mensagens em apoio à derrubada do Governo. Assim, ao passo que as manifestações assumiam esse novo caráter e se alastravam pelo norte do país, a represália promovida pelo Exército também se tornava mais violenta.

Logo, o país foi se encaminhando para uma guerra civil: brigadas de rebeldes foram formadas a fim de fazer frente ao Governo e a luta pelo controle de cidades e regiões estratégicas passou a ser prioridade. Em pouco tempo, a situação da crise adquiria enorme complexidade e já não era formada apenas por aqueles que apoiavam ou se opunham ao Governo Assad, mas também era forjada por grupos sectários, entre eles sunitas e xiitas. Tal cenário permitiu a ascensão de grupos jihadistas que expandiram seu controle não apenas na Síria, mas nos países vizinhos. Além disso, o agravamento do conflito levou à guerra proxy (guerra por procuração), envolvendo, assim, o apoio e a ação de países regionais e globais em um dos lados do conflito.

O conflito sírio deixou mais de 16 milhões de deslocados e milhares de mortos. Em julho de 2015, Ban Ki-moon, Secretário da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou que a guerra civil síria havia deixado mais de 250 mil mortos.  Dados do Centro Sírio de Pesquisa Política, divulgados em fevereiro de 2016, apontam que o número de mortos no conflito passava dos 470 mil, segundo divulgado no The Guardian. Mais recentemente, em setembro do ano passado (2016), o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) divulgou que o número de vítimas chegava a 300 mil.

Em discurso de boas-vindas, Staffan de Mistura ressaltou às delegações que um novo fracasso trará consequências, ou seja, mais mortes, mais sofrimento, mais atrocidades, mais terrorismo e mais refugiados. Segundo o enviado da ONU, não há uma solução militar para crise síria, somente uma solução política. As responsabilidades sobre o agravamento da guerra síria também foi ressaltada por Ban Ki-moon, durante o encontro de emergência do Conselho de Segurança da ONU, ocorrido no último dia 13 de dezembro. Para o secretário-geral da ONU, “a história não nos absolverá facilmente, mas esse fracasso nos obriga a fazer ainda mais para oferecer ao povo de Aleppo nossa solidariedade nesse momento”.

Já Paulo Sérgio Pinheiro, diplomata brasileiro e Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria na ONU, afirmou, conforme destaca o DW, que os dois lados desrespeitaram tratados internacionais e os países que apoiam o conflito também cometeram crime de guerra, e são responsáveis pela morte e deslocamento de milhares de pessoas. Staffan de Mistura pediu a implementação da Resolução 2254 do Conselho de Segurança, que prevê o engajamento dos dois lados em processo formal de negociação para uma transição política.

O enviado da ONU se reuniu com representantes da Oposição e do Regime para definir uma nova agenda de negociações. O Alto Comitê de Negociação (HNC), liderado por Nasr al-Hariri, que representa a Oposição, declarou que desejava estabelecer negociações diretas com o regime, cuja delegação é chefiada por Bashar Jaafari, diferentemente do que ocorreu nas negociações de abril de 2016, quando Mistura atuou como interlocutor. Um dos principais pontos de divergência entre os dois grupos refere-se à permanência de Assad no poder. No entanto, cabe pontuar que a situação alterou-se consideravelmente com relação às negociações do ano anterior, pois o regime de Assad retomou o controle sobre parte da cidade de Aleppo, um dos principais redutos dos rebeldes. 

Ainda em fevereiro deste ano (2017), durante a Conferência sobre Segurança, ocorrida em Munique, Alemanha, Staffan de Mistura havia chamado a atenção para o comprometimento dos países envolvidos no conflito, particularmente os Estados Unidos. O enviado das Nações Unidas chegou a questionar: “Onde estão os Estados Unidos em tudo isso? Não posso dizer, porque não sei. Para Mistura, conforme ressalta a ANGOP, é compreensível as três prioridades do Governo estadunidense na região: combater o Estado Islâmico, limitar a influência de certo ator regional (Irã) e, ainda, não colocar em perigo seus tradicionais aliados na área, mas ele enfatiza que somente se alcançará o primeiro objetivo quando se acordar uma solução política crível.

Compete lembrar, entretanto, que, no começo de 2014, os Estados Unidos, a Rússia e a ONU tentaram implementar o Comunicado de Genebra de 2012, um Acordo com apoio internacional para a criação de um Governo de Transição na Síria. Esse Acordo tinha como base o consentimento mútuo das partes, mas que acabou fracassando. Em meados de 2014, os EUA entraram no conflito, apoiando os rebeldes moderados, com suporte de uma Coalização Internacional composta por 60 países. As Forças da Coalizão já realizaram diversos ataques aéreos, tanto na Síria quanto no Iraque.

A entrada dos EUA e da Rússia no conflito sírio também aumentaram as tensões. Haja vista que Rússia e Irã apoiam o regime Assad, já a força da Coalizão buscava atacar o Estado Islâmico, e também enfraquecer o Governo. Além disso, a atuação da Arábia Saudita e Turquia mantém ligações com grupos rebeldes oposicionistas. Houve diversas tentativas de cessar-fogo e de estabelecer soluções políticas, muitas vezes lideradas pelos Estados Unidos e pela Rússia, mas nada de concreto resultou dessas interações. Embora, cabe pontuar, que o último cessar-fogo foi acordado entre Turquia e Rússia, em dezembro de 2016.

O novo Presidente americano, Donald Trump, publicou um comunicado no dia 28 de janeiro, pelo qual dava ao Pentágono trinta dias para elaborar um plano para acelerar a luta contra o Estado Islâmico. O combate contra o grupo extremista, até o presente momento, parece ser o eixo central da atuação dos EUA na Síria sob o comando de Trump, que se diferencia da posição da administração de Barack Obama, que, além do Estado Islâmico, também tinha como foco a saída de Assad. Em relação ao posicionamento dos EUA, Rex Tillerson, Secretário de Estado Norte-Americano, afirmou apenas que o Governo Trump apoiará uma solução pacífica, pois uma solução militar isolada não conduzirá à paz.

Durante o período que antecedeu às negociações, António Guterres, Secretário-Geral da ONU, destacou a importância de soluções políticas para o conflito, soluções internas, e assinalou que o mundo atual vive uma crescente falta de confiança. Essa falta de confiança e o aumento das tensões mais uma vez refletiram-se sobre as negociações em torno do conflito, que novamente permaneceram no impasse e não resultaram em ações concretas. Conforme ressaltou Mistura, o conflito sírio lançou uma grande sombra sobre toda a região e a ordem internacional e, ao que parece, perdurará ainda por um longo tempo.

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Imagem 1Staffan de Mistura em setembro de 2015” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Staffan_de_Mistura#/media/File:Staffan_de_Mistura_September_2015_(21108901363).jpg

Imagem 2 Blindados do regime Assad destruídos na cidade de Azaz, no norte da Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria#/media/File:Azaz,_Syria.jpg

Imagem 3 Paulo Sergio Pinheiro” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_S%C3%A9rgio_Pinheiro#/media/File:Paulo_Sergio_Pinheiro,_Comisionado_2004-2011_(5136492937).jpg

Imagem 4 Um caça americano F18 Super Hornet decolando do USS Dwight D. Eisenhower para executar missões na Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Interven%C3%A7%C3%A3o_militar_na_S%C3%ADria#/media/File:An_F-A-18E_Super_Hornet_launches_from_USS_Dwight_D._Eisenhower._(27859769842).jpg

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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

[:pt]O Novo Oriente Médio[:]

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O Oriente Médio, palco de muitas batalhas e cenário geoestratégico para muitos atores internacionais, na sequência da Primavera Árabe foi sacudido por mudanças que, ao contrário de muitas análises da época, não significaram a democratização da região nem, sequer, melhores condições de vida.

As mazelas sociais, fruto da alienação de regimes políticos autoritários e corruptos resultou, em dezembro de 2010, na morte de Mohamed Bouazizi, um jovem tunisino desempregado que, impedido pelas autoridades de seu país de vender legumes para garantir a sobrevivência, ateou fogo ao próprio corpo. O ato desencadeou uma onda de protestos em vários países do Oriente Médio e culminou na queda de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, Hosni Mubarak, no Egito, e Muammar al-Gaddafi, na Líbia.

Na Síria, as contestações ao regime de Bashar al-Assad levaram à guerra. As consequências que, desde então, têm atingido a região contrariam as perspectivas ocidentais feitas naquele momento, de um mundo mais alinhado ao modelo de democracia ocidental. No auge dos acontecimentos, muitos analistas ignoraram o fato de que essas sociedades, após anos de submissão e desemprego, poderiam tomar uma direção diferente daquela esperada por quantos se encontravam no comando dos centros de decisões globais.

As revoltas que, para o Irã, foram denominadas de despertar islâmico, tomando como base a própria revolução iraniana de 1979, talvez, nos dias de hoje, tenham mais sentido se, partindo do pressuposto de que, paralelamente a um Oriente Médio desestabilizado, pode-se dizer que há sinais de um poder iraniano ascendente na região, bem como a ascensão do extremismo religioso.

A expressão Novo Oriente Médio foi usada pela primeira vez em 2006, por Condoleezza Rice, Secretária de Estado dos EUA, em “substituição ao termo mais antigo e mais imponente, Grande Oriente Médio”, que coincidiu com a inauguração do Terminal Petrolífero Baku-Tbilissi-Ceyhan (BTC) no Mediterrâneo Ocidental e, também, com a guerra entre Israel e o Líbano.

Os elementos que justificaram o propósito daquela designação para a região, não assumiram os contornos esperados pelos EUA e a Grã-Bretanha, cuja intenção era redesenhar as fronteiras regionais sob a alegação de resolver os problemas do Oriente Médio atual. Porém, os acontecimentos que se sucederam ao longo dos últimos anos não permitiram a concretização dos objetivos anglo-americanos e se opondo aos interesses dessas duas potências ocidentais hoje, as antigas e as novas forças políticas tentam definir áreas de influência que poderão resultar numa nova ordem regional.

As presenças do Irã, da Rússia e da Turquia na Guerra na Síria, por exemplo, somadas aos episódios dos últimos seis anos, provocados por aquele conflito, no rescaldo da Primavera Árabe, aponta um novo direcionamento das lideranças mundiais para questões mais recentes. Demandas tradicionais, como a criação do Estado palestino, não saíram da agenda, mas estão em segundo plano. De acordo com as informações recentemente veiculadas, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou o rompimento de uma relação histórica dos EUA relativamente ao conflito israelo-palestino.

A Palestina que, por muitas décadas, foi o epicentro de várias contendas envolvendo Israel, o mundo árabe e o Ocidente, parece que deixou de o ser. Esta é uma das evidências que dividem o antigo Oriente Médio e o novo. Ao longo dos anos, a região tem sido remodelada e, para o bem ou para o mal, os EUA estiveram sempre presentes. Quando o Presidente Trump afirmou: “Olho para a solução com dois estados e com um estado e gosto do que israelenses e palestinos gostarem. Aceito as duas opções”, de fato a sua administração não tem interesse no problema. No entanto, ele não cogitou, até hoje, a saída das tropas norte-americanas da Síria.

Segundo informações, o Oriente Médio continua a ser relevante para os norte-americanos. Os Oficiais aposentados dos Serviços Estrangeiros afirmam que configuram interesse prioritário as áreas da “Turquia ao Irã, através da Península Arábica – que definem o novo panorama da política externa americana no Oriente Médio”. Neste contexto, os EUA não estão deixando a região, mas, se o fizerem, emergirá a pergunta sobre quem será o líder do novo Oriente Médio. Muitas coisas serão definidas no futuro, mas as alterações já são perceptíveis no presente.

Foi noticiada, pela BBC, no início deste mês, a possibilidade de uma guerra que envolva Israel no novo Oriente Médio, a partir da Síria, que alterou o mapa estratégico da região. Em conformidade com uma notícia recente, o que mais assusta Israel são as vitórias no Norte da Síria pelas forças de Bashar al-Assad e de seus aliados, o Irã e o Hezbollah. Para o Professor Asher Susser, do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv, “as mudanças na Síria, trouxeram o Irã para mais perto das fronteiras de Israel do que nunca”, situação que origina “a possibilidade da cooperação entre o Irã e o Hezbollah não apenas ao longo da fronteira entre Israel e Líbano, mas também ao longo da fronteira entre Israel e a Síria”. Para o Professor, isto corresponde a “um potencial perigoso para uma longa fronteira do Mediterrâneo, através do Líbano e da Síria, com o Hezbollah e o Irã muito perto de Israel, que nunca enfrentou esse tipo de situação em sua fronteira norte”.

Vários aspectos vêm sendo alterados na parte mais conturbada do planeta. Uma nova configuração geoestratégica começa a tomar forma. O antigo Oriente Médio está a ser substituído gradativamente pelo novo, no qual a Palestina passou a ocupar o segundo plano na agenda internacional, enquanto que a Síria é a pauta do momento. Isto porque este país árabe concentra as mais variadas forças regionais e estrangeiras jamais vistas num conflito de mesma natureza, o que modifica as estruturas do passado. Este status quo já está sendo alterado nos Montes Golã, cuja fronteira foi, em tempos, considerada a mais pacífica de Israel. Praticamente todos os acontecimentos e notícias sobre o cotidiano da Síria convergem para a construção de um novo Oriente Médio e de novas políticas para a região, que ainda estão por definir, mas já estão em curso.

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Imagem 1 Mapa do Oriente Médio” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/13/Middle_east.jpg

Imagem 2 Mohamed Bouazizi” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Suicide_of_Mohamed_Bouazizi#/media/File:Mohamed_Bouazizi.jpg

Imagem 3 Oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Oleoduto_Baku-Tbilisi-Ceyhan

Imagem 4 Dois caças Su-25 na base aérea russa em Lataquia, na Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Intervenção_russa_na_Guerra_Civil_S%C3%ADria

Imagem 5 Conflito israelo-palestino: Central de Israel ao lado da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, 2007” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_israelo-palestino

Imagem 6 Lago Ram próximo ao monte Hérmon (ao fundo), no nordeste das colinas de Golã” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Colinas_de_Golã

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ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPAORIENTE MÉDIO

[:pt]A Federação Russa e sua Influência no Oriente Médio[:]

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O ano de 2016 foi para boa parte do mundo uma grande prova de resiliência, países enfrentaram crises humanitárias de refugiados, crises em suas políticas domésticas, atentados terroristas, guerra e crises políticas internacionais. A Federação Russa não fica de fora de nenhum destes cenários, sendo que, de todos estes, a guerra em que tomou partido na Síria foi a que manteve sua presença quase semanal nos tabloides de notícias internacionais ao longo de todo ano de 2016 e, certamente, mudará o seu protagonismo no Oriente Médio pela próxima década.

A participação na guerra Civil Síria pela Rússia tem maior relevância pelo fato de que este conflito interno, desde 2011, gerou uma das maiores crises humanitárias de refugiados de nossa história recente; criou uma crise política no Bloco da União Europeia (UE), dentre os vários fatores, devido a questão dos refugiados, que também influenciou a opinião pública do Reino Unido a pedir a retirada do país do Bloco, através de um Referendo; produziu um espaço para o estabelecimento de grupos terroristas como o Estado Islâmico (EI), ou Daesh, que promoveram atentados por toda a Europa através de suas células, e desestabilizaram países vizinhos, como o Iraque, que passaram, assim como a Síria, por uma guerra interna.

A Guerra na Síria foi capaz de desencadear uma reação em cadeia global em um espaço curto de tempo e lançou a questão do envolvimento da Federação Russa nessa situação, gerando ainda a pergunta sobre se o conflito é uma questão pontual de Bashar Al Assad com sua população, ou se é uma questão que envolve a religião, algo que a mais de mil anos faz com que o poder nessa região do Oriente Médio seja disputado entre as vertentes do Islã (Sunita e Xiita) e o Cristianismo. A resposta a ser apontada tende para esta última alternativa.

O conflito na Síria é ancestral, a comunidade islâmica no país era politicamente ativa e movimentava-se por respeito aos valores de sua fé, enquanto Bashar Al Assad caminhava por tornar o país mais voltado a um Estado modernizado e tendendo a ser secular. Analistas chegaram a afirmar que essa perspectiva gerou o protesto de 2011, o qual, motivado  pela Primavera Árabe vivenciada na Líbia, situação que teve apoio do EUA, levou a Oposição síria a acreditar que, talvez, viesse a ocorrer o mesmo apoio norte-americano em seus país, caso se insurgissem contra Assad. No entanto, o conflito se estendeu sem uma resolução. Ao longo do processo, a Federação Russa permaneceu ao lado de Assad, mesmo com a construção pela mídia de uma imagem demoníaca do Presidente sírio perante a comunidade internacional, principalmente no caso das armas químicas que foram utilizadas pelos rebeldes, mas disseminadas de forma a tentar incriminar Assad, conforme foi posteriormente divulgado na imprensa internacional.

Agora, com a vitória do Exército Sírio em Aleppo, certamente a Federação Russa ganha mais protagonismo internacional e se torna um dos global players de maior influência no Oriente Médio, mostrando que sua estrutura social (e capacidade de colocar a opinião pública a favor de suas ações), força política interna (apoio doméstico para suas ações globais), aptidão econômica (recursos para atuar em projetos internacionais) e potencial militar (capacidade de emprego bélico global), são adequadas para suportar e superar os percalços da guerra, sobrepujando, inclusive, o trauma da antiga União Soviética no Afeganistão.

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Imagem 1Batalha de Heraclius e persas sob o Khosrau II D.C.” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/93/Piero_della_Francesca_021.jpg

Imagem 2Soldados Russos em Base Aérea na Síria” (Fonte Governo Russo):

http://mil.ru/images/upload/2015/kel_3529_kel_sbori_na_Vostok-900.jpg

Imagem 3Tropas soviéticas em combate no Afeganistão” (Fonte Governo Russo):

http://mil.ru/files/files/85vdv/images/2b68340a-3cc9-4106-a3a5-96cddb6463e0__3-18_s.jpg[:]

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

[:pt]Abstenção dos EUA diante de resolução da ONU causa indignação no Estado israelense[:]

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Na penúltima sexta-feira, dia 23 de dezembro, foi aprovado no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) um projeto de Resolução que visa acabar com a construção de moradias de Israel em territórios tidos como palestinos. Os pontos “chaves” da construção são na Cisjordânia, onde encontram-se cerca de 430 mil israelenses, atualmente, e Jerusalém Oriental, que abriga outros 200 mil, de acordo com a agência de notícias francesa France Presse.

Conforme vem sendo disseminado nas principais mídias internacionais, a ONU alertou a Israel, por diversas vezes, sobre a colonização no território palestino, avisando que isso seria um empecilho para os esforços de paz entre aquele povo e os Israelenses. No entanto, constatou-se que há alguns meses a construção de casas no território palestino aumentou, o que fez as Nações Unidas tomarem novas e mais rígidas medidas, como a Resolução aprovada do dia 23.

Esta proposta de Resolução foi apresentada pelos países: Senegal, Malásia, Venezuela e Nova Zelândia. A princípio incluía também o Egito, mas, por pressão de Israel e do presidente-eleito dos Estados Unidos (EUA), Donaldo Trump, o mesmo recuou, ficando apenas os quatro em questão.

O interesse desta Resolução é encontrar um caminho para a paz entre palestinos e israelenses, pois entendem os requerentes que a colonização por meio de assentamentos – nome dado a construção de moradias – colocava em risco a viabilidade da solução entre os dois Estados, além de impedir a criação do Estado da Palestina. Outro ponto acerca da Resolução diz respeito à reação dos israelenses, em respeito a mesma. O Documento aconselha que Israel tome medidas imediatas para reverter a situação no terreno e assim prevenir atos de violência contra civis.

Para a aprovação da Resolução seria preciso que o maior número de Estados representados no Conselho de Segurança a aprovassem, e que nenhum dos que possuem assentos permanentes vetassem. O número de países que compõem o Conselho são 15 e, dentre estes, 5 são os que possuem assentos permanentes e também o poder de veto, sendo eles: EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha. A Resolução foi aprovada por 14 votos a favor, mas o que chamou atenção e trouxe indignação ao Estado Israelense foi a abstenção dos EUA, que teve a chance de intervir com o poder de veto, mas não o fez.

Israel estimava que EUA interferissem na proposta, como ocorreu em 2011, quando uma Resolução semelhante foi apresentada ao Conselho de Segurança, contudo, o Governo norte-americano alegou ter dúvidas quanto à eficácia da mesma em relação as negociações de paz entre israelenses e palestinos e, por conta disso, usou seu poder de veto e impediu que a proposta fosse adiante.

Após a aprovação, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, por meio de seu Gabinete, emitiu um comunicado repudiando tal Resolução e a chamou de “vergonhosa e anti-israel”. Por conta disso, afirmou que “não irá respeitar seus termos”. Referindo-se ao Governo Obama, Netanyahu alegou que, além do mesmo não “proteger Israel contra essa conspiração na ONU”, o Governo do atual Presidente ainda “colaborou nos bastidores”. 

Para além disso, Donald Trump, Presidente-eleito dos EUA, que governará a partir deste ano (2017), também mostrou seu descontentamento com a atitude do Governo de Obama. Segundo publicado no jornal estadunidense The Washington Post, Trump divulgou mensagens em seu twitter na quarta-feira, dia 28 de dezembro, acusando o presidente Obama de prejudicar a relação dos EUA com aquele país, além de demonstrar seu apoio ao Governo de Israel, incentivando-o a “permanecer forte” até dia 20 de janeiro, quando Trump tomará posse.

Para conter as tensões entre Israel e EUA, o Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, se pronunciou, também no dia 28 de dezembro, e afirmou que a decisão estadunidense de se abster foi de acordo com os valores estadunidenses, e que, apesar da boa relação entre ambos os países, isso não significa que os EUA devam aceitar qualquer política. Segundo ele, “Amigos também precisam dizer as coisas difíceis uns para os outros.

Kerry ainda explicou os motivos pelos quais seria necessário interromper os assentamentos, dado as condições do local, onde a violência e o terrorismo cresciam das duas partes e findavam destruindo “as esperanças de paz para ambos os lados”.

Já com relação ao posicionamento da Palestina em relação a proposta de Resolução, seu negociador-chefe, Saeb Erekat, comunicou à imprensa que aquele era um “dia de vitória” também para o direito internacional, que passava a ter, daquele dia em diante, uma linguagem mais civilizada e de negociação, além também de finalmente combater a rejeição total das forças extremistas em Israel.

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Imagem 1Cartaz de um movimento pacifista: bandeiras de Israel e da Palestina e a palavra paz em Hebraica e Árabe” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_israelo-palestino#/media/File:Israel_and_Palestine_Peace.svg

Imagem 2Câmara do Conselho de Segurança da ONU em Nova Iorque” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conselho_de_Segurança_das_Nações_Unidas

Imagem 3Benjamin Netanyahu” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Netanyahu

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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]Saad Hariri anuncia apoio a Michel Aoun para Presidência do Líbano: impasse institucional pode estar perto do fim[:]

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Em 20 de outubro de 2016, o líder do “Movimento Futuro”, Saad Hariri, endossou oficialmente Michel Aoun como seu candidato à Presidência do Líbano. O anúncio representa um abandono do seu aval prévio a Sleiman Frangieh, anunciado em dezembro de 2015. Aoun é maronita e fundador do Movimento Patriótico Livre, o maior partido político cristão no Líbano, país que está sem um Presidente desde maio 2014

Falando em uma conferência de imprensa televisionada de sua residência, no centro da capital, Beirute, Hariri afirmou que tomou a decisão “para que o Líbano como um todo preservasse o Estado, suas instituições, sua estabilidade e sua segurança”, conforme reportou o The Daily Star. Classificando a decisão como um “sacrifício e não um acordo”, ele declarou ainda que “o Líbano precisa desesperadamente alcançar uma solução política e, portanto, estou formalmente endossando Michel Aoun para o cargo de presidente do país”.

Os partidos libaneses e suas coalizões têm disputado, tanto internamente, como entre si, sobre quem será o próximo Presidente, desde o término do mandato de Michel Sleiman, em maio de 2014. Sob o acordo de partilha de poder libanês, o cargo presidencial é reservado a um candidato cristão, geralmente maronita. O impasse presidencial já passa de 29 meses e ocorre em meio a outro impasse mais amplo, que também tem paralisado o Parlamento e ameaçado o trabalho do Gabinete. O Legislativo já estendeu seu mandato por duas vezes, a primeira em 31 maio de 2013, por 17 meses, e a segunda em novembro de 2014, por 31 meses, que irá até junho de 2017.

A “Coalizão 8 de Março” é composta pelo Hezbollah, Amal, Movimento Patriótico Livre (liderado por Michel Aoun), Movimento Marada e partidos sírios. Já a “Coalizão 14 de Março” é composta pelo Movimento Futuro, liderado por Saad Hariri, Forças Libanesas, Kataeb, Partido Socialista Progressista de Walid Jumblatt, entre outros.

As Forças Libanesas, o Hezbollah e o Movimento Patriótico Livre pedem pela eleição do parlamentar Michel Aoun, enquanto o Movimento Futuro, Walid Jumblatt e Nabih Berri – do Amal – manifestavam, até então, apoio pela nomeação do líder do Movimento Marada, Sleiman Frangieh. Ambos, Aoun e Frangieh, são membros da “Coalizão 8 de Março”. Nabih Berri, contudo, ainda não endossa o apoio a Aoun. Já o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, confirmou no último 23 de outubro que seu bloco parlamentar votará em Aoun na sessão da próxima segunda-feira, dia 31 de outubro, suspendendo, portanto, o longo período de boicote às sessões.

Aoun serviu como Chefe das Forças Armadas e brevemente como Primeiro-Ministro durante a Guerra Civil do Líbano, 1975-1990, quando era um forte opositor da presença militar síria no país. Mas ele surpreendeu muitos ao estabelecer um Memorando de entendimento com o aliado de Damasco, o Hezbollah, em fevereiro de 2006, um ano após seu retorno do exílio na França e da retirada das tropas sírias do Líbano, em abril de 2005.

Originalmente, antes de apoiar Frangieh, Hariri endossou a candidatura de Samir Geagea, das Forças Libanesas, membro de sua “Coalizão 14 de Março”. Após a desistência, em janeiro de 2016, Samir Geagea apoiou a candidatura do antigo inimigo, o general Michel Aoun, encerrando mais de duas décadas de relações amargas.

Hariri, ex-Primeiro-Ministro, pode voltar para o cargo de Premier sob um acordo de união nacional mediado com Aoun. Com um oficial de alto escalão da “Coalizão 8 de Março” como Michel Aoun na Presidência, Hariri poderia mais facilmente garantir o cargo de Primeiro-Ministro para si, já que é o líder da “Coalizão 14 de Março”, especulam especialistas. Mas este movimento de apoio a Aoun, na prática, coloca Hariri (líder do partido de maioria sunita e apoiado pela Arábia Saudita e pelo Ocidente) ao lado do Hezbollah, crítico severo das políticas sauditas, aliado do Irã e que possui membros combatendo na vizinha Síria. Hariri e seus parceiros apoiam o levante contra Bashar al Assad, enquanto o Hezbollah denuncia a presença de jihadistas no país. Ainda assim, o Hezbollah já sinalizou que aceitará Hariri como Premier, se este for o caso. O correspondente da Al Jazeera, Imtiaz Tyab, reportou que pelo menos dois membros seniores do Movimento Futuro anunciaram que se oporiam à nomeação de Aoun. A animosidade entre Hariri e Aoun remonta mais de uma década e muitos parlamentares membros do Partido Futuro como Ahmed Fatfat, Fouad Siniora, Farid Makari e Mohammad Qabbani expressaram abertamente insatisfação com a decisão de seu líder sunita.

Apesar de rivais, Hezbollah e as Forças Libanesas vinham tentando convencer o líder do Movimento Futuro, Saad Hariri, a abandonar o apoio a Frangieh e endossar Aoun, que diziam ser a única maneira de encerrar o vácuo presidencial. Os legisladores do Bloco Mudança e Reforma, do deputado Michel Aoun, junto ao bloco do Hezbollah e seus aliados, denominado “Coalizão 8 de Março”, têm frustrado qualquer quórum através do boicote às sessões parlamentares, exigindo um acordo de antemão com os seus rivais da “Coalizão 14 de Março” acerca de um candidato de consenso. O Parlamento deverá se reunir na próxima semana, em 31 de outubro, para nova tentativa de votação de um Presidente, a 46ª tentativa, desde 2014. Desta vez, a garantia de apoio em torno do nome de Aoun deve ser suficiente para a obtenção de uma maioria de 2/3 para a eleição presidencial.

Hariri fez referência à vizinha Síria como uma das principais razões por ter confirmado o apoio a Aoun, e exortou os cidadãos libaneses a se reunirem em torno do candidato. O país faz fronteira a norte e a leste com a Síria, devastada pela guerra que já gerou estimados 500.000 mortos. Como consequência, o Líbano vem registrando um alastramento no número de combatentes extremistas e grande afluxo de refugiados, deteriorando a já debilitada infraestrutura do país. A população total do país é estimada em 5,851 milhões de habitantes – excluindo o número de refugiados. Outros 1.033.513 de habitantes são refugiados sírios, conforme dados da UNHCR.

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ImagemGeneral Michel Aoun” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aoun.jpg

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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Moshe Ya’alon renuncia e Lieberman é anunciado Ministro da Defesa de Israel

No último 20 de maio, em entrevista coletiva à imprensa, o então Ministro da Defesa israelense, Moshe Ya’alon, anunciou sua renúncia ao cargo e ao mandato no Parlamento. Sob o argumento de que o Governo de Israel está tomado “por elementos perigosos e extremistas, e que não é mais possível confiar no Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, o Ministro anunciou que “se retirava da vida política para um descanso”. Ele falou também sobre ética na política e disse “temer pelo futuro de Israel”. A saída de Ya’alon se dá em meio a manobras políticas do Primeiro-Ministro para ampliar sua coalizão de governo e depois de seu cargo ter sido oferecido a um rival de extrema direita, Avigdor Lieberman, do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu.

Ya’alon era considerado uma voz moderada no Governo, líder sênior do conservador partido Likud, mas, constantemente, suas declarações sobre o papel das Forças Armadas israelenses eram mais moderadas e entravam em choque com as de Netanyahu. Por exemplo, ele já vinha tendo divergências com o Primeiro-Ministro por ter estimulado os oficiais a sempre dizerem o que pensam, mesmo que suas declarações fossem contrárias às ideias de seus superiores ou dos dirigentes políticos.

A tensão entre os dois se acirrou nos últimos dias, quando Ya’alon defendeu o direito de um de seus funcionários expressar suas opiniões livremente sobre as Forças Armadas. Na ocasião, o General Yair Golan fez associações entre as últimas ações de Israel e eventos na Alemanha nazista.

Outro ponto de tensão ocorreu em março, quando um soldado israelense foi flagrado em um vídeo atirando na cabeça de um agressor palestino que já estava ferido e rendido em Hebron. Ya’alon defendeu que o soldado fosse processado por assassinato, por ter violado o código militar. No entanto, membros do Governo defenderam a ação do militar.

Segundo o agora Ex-Ministro, a maior parte da população de Israel é tolerante e almeja por uma sociedade liberal e democrática. “No entanto, para minha grande infelicidade, elementos extremistas e perigosos tomaram Israel e o partido Likud [governista], ameaçando a população”, reportou a Folha de São Paulo.

Ele afirmou em seu discurso de renúncia: “Recentemente, tive fortes discordâncias em assuntos morais e profissionais com o premiê, diversos ministros e membros do Knesset [Parlamento]. (…). Lutei com todas as minhas forças contra manifestações de extremismo, violência e racismo na sociedade israelense, que ameaçam sua solidez. (…). Infelizmente, políticos do país escolheram o caminho da incitação e segregação de partes da sociedade israelense, em vez de unificá-las e acolhê-las. É insuportável para mim que o cinismo e a ânsia pelo poder estejam nos dividindo… [expressando] preocupação honesta sobre o futuro da sociedade israelense e das próximas gerações”.

Na quarta-feira, 25 de maio, Netanyahu nomeou Avigdor Lieberman, que havia sido por duas vezes Ministro das Relações Exteriores. Ele é um antigo aliado do Premiê, mas não possui experiência militar, em forte contraste com as credenciais de Ya’alon. Fontes dão conta que o cargo já teria sido oferecido por Netanyahu, o que efetivamente teria causado a renúncia de Ya’alon, tendo havido especulações de que, se Lieberman se juntasse ao Governo, a Ya’alon seria oferecido o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Esta possibilidade foi efetivamente sepultada com seu pedido de renúncia do cargo, bem como de seu mandato no Parlamento, que aconteceu dois dias depois de Lieberman ter afirmado que seu partido ultradireitista, Yisrael Beiteinu, poderia entrar na coalização governamental do Likud, caso fossem cumpridas diversas exigências. Estas incluíam sua nomeação, reformas no plano de pensão e a defesa da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo. A medida era exigida como condição para que seu partido entrasse na coalizão governamental.

Diante do acontecido, o líder de um partido membro da coalizão, o Kulanu, já declarou que este se oporia a qualquer forma de legislação que permitisse tribunais, militares ou civis, estabelecerem sentença de morte. “É uma ideia inadequada de ambos os pontos de vista, moral e prático”, afirmou um alto funcionário do Partido.

De acordo com fontes do jornal israelense Haaretz, Palestinos acusados de crimes terroristas são julgados em tribunais militares israelenses, enquanto os judeus acusados de crimes semelhantes contra os palestinos geralmente são julgados em tribunais civis israelenses. Assim, a defesa feita por Lieberman da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo em cortes militares não se aplicaria a judeus condenados por terrorismo. Ressalte-se que Israel já possui a pena de morte em seus livros estatutários, mas esta só se aplica em casos de genocídio e a crimes contra a humanidade, tendo executado até hoje apenas o ex-oficial nazista Adolf Eichmann, condenado à forca, em 1962, por genocídio.

No momento, Netanyahu governa com a maioria mais apertada na história do Knesset (o Parlamento Israelense), com uma vantagem de um assento na instituição parlamentar de 120 membros. Com a entrada do partido Yisrael Beiteinu na coalizão, o Primeiro-Ministro expandirá a base de 61 assentos para 67. Netanyahu declarou procurar ampliar sua coalizão desde que foi empossado para seu quarto mandato, em março de 2015, acrescentando que a melhor coisa para o país é um Governo tão amplo quanto possível.

Lieberman é uma das figuras políticas mais controvertidas em Israel e a Oposição declarou que trazê-lo “ao governo levaria a políticas que estão à beira da loucura”, conforme disseminado pela Al Jazeera. No passado, ele já expressou sua descrença em relação a um acordo de paz com os palestinos, exigiu a derrubada do Hamas (grupo insurgente que governa a Faixa de Gaza), a derrocada da Autoridade Palestina e a transferência de palestinos que vivem em Israel para áreas ocupadas na Cisjordânia e Gaza. Ele, que mora em um assentamento na Cisjordânia ocupada, também pediu a anexação de assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada e assinou legislações controversas, como o “juramento de lealdade que seria exigido dos cidadãos de Israel para manterem sua cidadania.

Netanyahu declarou que, mesmo após a nomeação de Lieberman, o Governo irá se esforçar para retomar o processo de paz com os palestinos, com a ajuda de agentes regionais. Visando mostrar abertura e vontade de diálogo em meio às tensões que antecederam a renúncia de Ya’alon, em 17 de maio, o Primeiro-Ministro comentou com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi que “Israel está pronto para participar com o Egito e outros países árabes no avanço, tanto do processo diplomático como da estabilidade na região”. A Casa Branca respondeu à partida de Ya’alon dizendo que está ansiosa para trabalhar com o próximo Ministro da Defesa, acrescentando: “Nossos laços de amizade são inquebráveis, e nosso compromisso com a segurança de Israel permanece absoluto”.

Ya’alon era um político bastante popular e respeitado entre a população israelense e visto como figura moderada dentro do Likud. Foi cortejado assiduamente por Netanyahu em um esforço para transmitir uma imagem da liderança do Likud como responsável, motivada por valores e liberal. Ao longo dos anos, se tornou uma figura aceita e admirada do partido – ainda que, como ministro da Defesa, tenha supervisionado a guerra israelense de 51 dias em Gaza, em 2014, na qual mais de 2.000 palestinos foram mortos, um quarto dos quais eram crianças.

Críticos às recrudescidas políticas de Netanyahu questionam se o Primeiro-Ministro não estaria colocando suas próprias motivações pessoais à frente do interesse do Partido e da população israelense. “Em Israel, jogamos a política de jogo duro”, declarou Gadi Wolfsfeld, professor de comunicação política no Interdisciplinary Center. “Por outro lado, mesmo na escala de jogo duro, da política cínica, este foi um choque”. O negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, alertou que a nomeação de Lieberman para o cargo “resultaria em apartheid, racismo e extremismo religioso e político”.

Netanyahu assume uma grande aposta ao nomear Lieberman para chefia das Forças de Defesa Israelenses (IDF), porque a partida de Ya’alon do Likud, oficialmente, o torna um partido de extrema-direita, muito semelhante ao ultranacionalista HaBayit HaYehudi, presidido por Naftali Bennett. Moshe Ya’alon, Dan Meridor, o ministro das finanças Moshe Kahlon e Gideon Saar eram todos considerados figuras liberais, moderadas e imponentes do Likud. Na ausência desses membros principais – que deixaram o partido nos últimos anos – a liderança do Likud atual é em grande medida voltada para a extrema direita e para os colonos. Em outras palavras, o Likud está se tornando menos atraente para aqueles que se identificam com a chamada “direita soft”. Na verdade, Netanyahu disputará agora o mesmo conjunto de eleitores com Bennet e Liberman – a “direita hard-core”, os colonos e os radicais. Nas palavras de Mazal Mualem, colunista do Al-Monitor, Ya’alon é a “mais quente mercadoria política na prateleira da política centrista”. Em qualquer cenário, ele tem um forte apelo para a direita liberal que o Likud representou outrora.

Para alguns analistas, a nomeação de Lieberman e inclusão do Yisrael Beiteinu na base governista não podem ser vistos diretamente como um sinal de caminhar mais à direita. Netanyahu tem estado desesperado para encontrar uma maneira de ampliar sua coalizão, tendo até mesmo considerado um acordo com a oposição dita de centro-esquerda, a União Sionista, antes de finalmente se voltar para Lieberman.

Na prática, contudo, a sua adição ao Governo cimentaria ainda mais a natureza extremista da coalizão de Netanyahu e tornaria mais moroso o processo de paz com os palestinos. Uma nova Conferência, agendada para 3 de junho em Paris, reunirá chanceleres de 20 países, incluindo Egito, Arábia Saudita e Jordânia, sem os israelenses e palestinos presentes. Posteriormente, uma outra Conferência, a ser realizada no Outono europeu*, contará com a presença de israelenses e palestinos. O objetivo seria retomar as negociações que estão congeladas desde que uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos entrou em colapso, em abril de 2014.

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* No hemisfério sul, corresponde ao período da Primavera (final se setembro; outubro; novembro; até o final de dezembro).

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ImagemMoshe Yaalon anuncia sua renúncia do cargo de ministro da Defesa de Israel, em Tel Aviv, alegando crescimento do extremismo em Israel. O primeiroministro Benjamin Netanyahu alega que a demissão aconteceu porque o Yaalon foi convidado a participar do ministério das Relações Exteriores” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Moshe_Ya%27alon