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A expansão das Smartcities

O conceito de cidade inteligente (conhecido popularmente pela nomenclatura em inglês: Smart City) começou a se desenvolver nos anos 90, sendo hoje em dia uma poderosa ferramenta para o planejamento e execução das políticas e planos de desenvolvimento em diversas cidades, de diferentes dimensões, no mundo inteiro.

Embora não exista um modelo padrão de cidade inteligente, ou de projeto de smartcity, há um conjunto de questões inerentes ao desenvolvimento e gestão das dinâmicas e processos urbanos, dentro das especificidades de cada cidade, com a possibilidade de implementar projetos diferentes conforme a realidade local.

Sendo assim, um projeto implementado na Ásia dificilmente poderá ser reproduzido da mesma forma na América Latina, já que cada cidade possui suas próprias características e seu próprio modo de funcionar, o que configura a base do conceito de Smartcity, que é uma racionalização das dinâmicas intrínsecas dos espaços urbanos e a aplicação de tecnologia e processos para o bom funcionamento da cidade e aumento da qualidade de vida dos seus habitantes.

Certo é que existem cidades tais como Barcelona, Londres, Cingapura, Vancouver ou Dubai que servem como exemplo de cidades inteligentes, porém, é um erro acreditar que basta copiar os processos e as políticas aplicados nesses contextos urbanos para resolver os problemas locais, ou que os projetos de cidades inteligentes requerem grandes intervenções urbanas e investimentos tecnológicos.

Diversas questões impossibilitam que exista um modelo global para tanto. Fatores geográficos, sociais, culturais, políticos, econômicos e tecnológicos influenciam nas dinâmicas e dimensões de um espaço urbano, e mesmo dentro de um país, com um mesmo contexto jurídico e econômico, ainda restam fortes assimetrias entre as suas cidades.

Dessa forma, podemos dizer que não somente não existe um modelo de Smartcity, ou projeto global, como também não há uma meta ou conceito estático, pois a realidade dos espaços urbanos e aglomerações populacionais muda constantemente, gerando novas dinâmicas e novas demandas, fazendo com que o projeto de cidade inteligente seja um processo em contínua construção.

Certo é que existem dimensões que devem ser consideradas nos projetos de smartcities que são comuns a todos os projetos existentes no mundo, tais como a tecnologia, a sustentabilidade, as interações sociais e relações de poder, a produção, o consumo e os serviços. Sem embargo, a disposição e papel de cada uma dessas dimensões nas dinâmicas das cidades varia conforme a sua composição.

Dimensões das cidades inteligentes

Na última década houve uma proliferação de projetos de cidades inteligentes em todos países do mundo, embora alguns sejam apenas fruto da propaganda, ou discurso político, ou formas de nomear uma política de desenvolvimento público primária, onde, de fato, não existe a consolidação das dinâmicas urbanas e nem um projeto “inteligente”. No entanto, as tentativas de gerar Smartcities se transformou em uma tendência local e internacional, gerando um desgaste do termo.

Para que uma cidade possa implementar um projeto dessa natureza é necessário realizar um estudo criterioso dos fatores que compõem sua realidade e as interações inerentes dos atores que participam nos mesmos (dinâmica urbana), sendo a cidade o ponto focal para o planejamento eficiente.

Depois de conhecer as dinâmicas de uma dada localidade, as disposições dos atores e as forças endógenas e externas podemos de fato gerar um projeto eficiente e eficaz, levando em consideração as dimensões que fazem ou promovem a geração de inteligência.

Conceitos tais como Smart Governance (governança inteligente), Smart Health (Saúde inteligente), Smart Mobility (mobilidade inteligente), Smart Industry (Indústria inteligente), entre outros, somente são viáveis após profundo conhecimento da cidade e avaliação da mesma, havendo atualmente ferramentas capazes de avaliar essas dimensões, como as recolhidas no livro Intelligent City Evaluation System, de Zhiaqiang Wu, e até mesmo o índice coeficiente de inteligência da cidade.

Sendo assim, ocorre um uso inadequado do conceito de Smartcity, já que nem todos os projetos são de fato inteligentes (mesmo quando aplicada uma tecnologia de ponta), sendo mais uma forma de iludir os atores locais implementando algo que não irá produzir uma melhoria substancial, ou mudança em uma dinâmica urbana, mas apenas um gasto desnecessário e um ônus para a cidade. 

Embora isso não signifique que todos os projetos em andamento de Smartcity estejam fadados ao fracasso, ou que não possa haver uma conversão entre uma política de desenvolvimento local para um projeto de Cidade Inteligente, é necessário implicar a sociedade nesses processos, gerar impacto real no espaço urbano e em suas dinâmicas, sem centralizar os resultados ou concentrar os mesmos, caso contrário teremos polos de concentração tecnológica e desenvolvimento frente a regiões degradadas ou afetadas pela gentrificação* e segregação social. Ter um condomínio ou bairro Smart não necessariamente implica em uma cidade inteligente.

É fundamental que exista uma rede capaz de integrar os diferentes atores das diferentes dimensões presentes no contexto local e gerar de fato processos inteligentes para a cidade. Caso contrário, não podemos falar em projeto de smartcity.

Na atualidade, praticamente todas as capitais do Brasil possuem algum projeto ou iniciativa de Smartcity, assim como nos demais países da América Latina, ressaltando-se que o último continente a aderir a essa tendência foi à África, porém, a mesma já conta com diversos projetos, como o novo departamento urbano sendo construído no Cairo (Egito), o polo tecnológico de Nairóbi (Quênia), passando pelos projetos aplicados na Cidade do Cabo (África do Sul), dentre muitos outros.

Segundo informe da Smartcities World, o setor aumentou significativamente em países emergentes, embora muitos projetos estejam ainda longe de se concretizar como um espaço inteligente.

Cartilha publicada pelo BNDES, que recolhe boas práticas e projetos de Smartcity no Brasil

No Brasil, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) lançou uma cartilha para as cidades inteligentes, além de existirem diversos projetos nas diferentes esferas de poder com a implicação de atores privados, tais como a empresa IBM, além de outras.

O que marcará a diferença entre os projetos não será o capital aplicado, nem o excesso de tecnologia, mas, sim, o impacto real nos espaços urbanos e no dia a dia de seus habitantes, bem como a capacidade dos atores implicados de interpretar as dinâmicas de suas próprias cidades. Afinal, um processo só é smart quando gera soluções inteligentes para problemas reais da cidadania.

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Nota:

* Gentrificação é um processo de transformação de centros urbanos através da mudança dos grupos sociais ali existentes, onde sai a comunidade de baixa renda e entram moradores das camadas mais ricas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Cingapura, referência mundial de Smartcity” (Fonte): https://www.theonlinecitizen.com/2019/10/03/imd-smart-cities-index-2019-singapore-tops-new-citizen-centric-global-smart-city-index/

Imagem 2Dimensões das cidades inteligentes” (FonteBy Universidad Deusto): https://blogs.deusto.es/master-informatica/wp-content/uploads/sites/22/2019/01/smart-cities-infrastructure-iot-wide.jpg

Imagem 3Cartilha publicada pelo BNDES, que recolhe boas práticas e projetos de Smartcity no Brasil” (Fonte): https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/imprensa/noticias/conteudo/bndes-lanca-cartilha-sobre-uso-da-internet-das-coisas-na-criacao-de-cidades-inteligentes

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

A cooperação brasileira e a Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável

Entre os dias 20 e 22 de março de 2019, Buenos Aires sediará a Segunda Conferência de Alto Nível das Nações Unidas sobre a Cooperação Sul-Sul, aproximadamente 40 anos após a primeira conferência, quando os Estados assinaram o Plano de Ação de Buenos Aires (PABA). A segunda conferência, também denominada PABA+40, revisará as lições aprendidas pelos países do Sul nos últimos 40 anos e dará ênfase ao papel da cooperação sul-sul na implementação da Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável.

Nesse sentido, dois grandes pontos merecem destaque nessa análise: o lugar da cooperação na Agenda e como a cooperação tem incorporado elementos da Agenda. A Agenda 2030 é um plano de ação concebido através de consultas públicas com povos de todas as nações, funcionários das Nações Unidas e Estados soberanos, e busca a junção do desenvolvimento social, econômico e sustentável em torno de cinco eixos, denominados os cinco P’s: paz, pessoas, planeta, prosperidade e parcerias. Nesse sentido, a Agenda atenta para a necessidade de não deixar ninguém para trás e, assim, assegurar o desenvolvimento pleno de grupos marginalizados, tais como: crianças, jovens, pessoas com deficiência, pessoas vivendo com HIV/AIDS, idosos, grupos indígenas, refugiados, pessoas deslocadas internamente e migrantes. Além disso, a Agenda estimula o apoio a países em situações especiais, tais como países menos desenvolvidos (Least Developed Countries – LDCs), países em desenvolvimento sem litoral (Landlocked Developing Countries – LLDCs) e pequenos Estados insulares em desenvolvimento (Small Island Developing States – SIDS).

Para garantir a aplicabilidade, o monitoramento e a avaliação deste plano de ação, a Agenda 2030 conta com o suporte operacional dos ODS, com 17 objetivos e 169 metas. A cooperação está fortemente presente no ODS 17, com o lema de “fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável”. Para isso, este objetivo destaca a importância da cooperação Norte-Sul, Sul-Sul e triangular regional e internacional para: i) melhorar (…) o acesso à ciência, tecnologia e inovação, e aumentar o compartilhamento de conhecimentos em termos mutuamente acordados (meta 17.6); e ii) reforçar o apoio internacional para a implementação eficaz e orientada da capacitação em países em desenvolvimento (meta 17.9).

Além do destaque dado às diferentes formas de cooperação nos campos da ciência & tecnologia e no fortalecimento de capacidades, o ODS 17 também menciona o papel das parcerias na melhoria das finanças, do comércio, da coerência política entre os atores, das parcerias multissetoriais e da transparência (dados, monitoramento e prestação de contas). No entanto, a análise da cooperação fornecida por países do Sul não pode ser limitada às metas e aos indicadores do ODS 17, uma vez que tais países contribuem – em diferentes graus – para a melhoria de outros objetivos, como no compartilhamento de políticas de proteção social, na melhoria da infraestrutura urbana ou nas técnicas de manejo florestal, a citar, os ODS 1, 11 e 15, respectivamente. Este ponto abre o segundo item da análise: o papel da Agenda 2030 na cooperação fornecida pelos Estados. Nesta análise, o foco recai sobre as contribuições brasileiras para os seus parceiros e os respectivos ODS relacionados às iniciativas de cooperação.

Para avaliar como a cooperação brasileira tem contribuído para o alcance dos ODS pela comunidade internacional, utiliza-se aqui dos dados da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (COBRADI): Levantamento 2014-2016, elaborados pelo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Para evitar anacronismo, a análise utilizará apenas as informações de 2016, primeiro ano de implantação da Agenda 2030.

Embora os dados originais não possuam informações relativas aos ODS, analisou-se aqui as 2.095 atividades registradas em 2016 e discriminou-se o objetivo que melhor ilustrasse a atividade do ator, da instituição executora ou do organismo regional/internacional parceiro. Por exemplo, as atividades desempenhadas pelo Ministério da Saúde foram todas catalogadas como ODS 3, referente à saúde e bem-estar. No caso das iniciativas de cooperação técnica da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), as atividades foram registradas a partir da instituição executora parceira da agência ou do nome do projeto. Por exemplo, as iniciativas com a Agência Nacional de Águas (ANA) foram designadas como ODS 6, referente à água e ao saneamento; e aquelas com o Ministério do Trabalho foram classificadas como ODS 8, trabalho decente e crescimento econômico. Nos casos dos organismos regionais e internacionais, todas as iniciativas poderiam ser classificadas como ODS 17, isto é, como parcerias globais para o desenvolvimento. No entanto, para evitar este viés, esta análise buscou outro objetivo que melhor representasse suas ações. Por exemplo, as contribuições para o Tribunal Penal Internacional como ODS 16 (paz, justiça e instituições sólidas), para a Comissão Internacional da Baleia como ODS 14 (vida na água) e para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura como ODS 2 (fome zero e agricultura sustentável). Quando as atividades não eram facilmente identificadas ou eram voltadas para as finanças, para processos de integração regional ou questões sistêmicas, manteve-se o ODS 17.

Em 2016, o Brasil despendeu cerca de R$ 3,1 bilhões, o equivalente a 0,05% do Produto Interno Bruto (PIB). Este valor é bem abaixo daquele estabelecido para os países desenvolvidos, isto é, 0,7% do PIB. No entanto, vale destacar que a cooperação brasileira não é baseada em fluxos financeiros, mas em compartilhamento de experiências. Além disso, o patamar é exclusivo para os tradicionais doadores e serve apenas de parâmetros. Em termos de compartilhamento de tecnologias, 92,5% dos recursos foram viabilizados no nível das Nações Unidas e de outras entidades e organismos no âmbito regional e internacional, fato que corrobora o compromisso brasileiro com o fortalecimento do sistema multilateral e de parcerias multissetoriais, o que reforça o compromisso com o ODS 17.

Ao todo, 45% das atividades foram classificadas como contribuição como ODS 17, representando 76% dos gastos com a cooperação brasileira em 2016. Estas atividades são, majoritariamente, executadas através das contribuições a organismos internacionais e, em menor grau, pelas participações do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e suas subsidiárias na disseminação e compartilhamento de experiências em C&T, da ABC e de suas parcerias na gestão e difusão da cooperação técnica e, por fim, por alguns itens da cooperação humanitária (Figura 1).

Figura 1: Proporção de cada objetivo nas atividades da cooperação brasileira em 2016

Na sequência, 26% das atividades executadas pelo governo federal foram destinadas para a melhoria da educação e da cultura dos parceiros. Parte dela no provimento de bolsas de estudo ou capacitação técnica, como aquelas coordenadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Divisão de Temas Educacionais do Ministério das Relações Exteriores (DCE/MRE), como também pelas contribuições a organismos internacionais voltadas para o tema, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

O ODS 3, saúde e bem-estar, foi o terceiro principal objetivo promovido pelo governo brasileiro na cooperação internacional. Na cooperação técnica, as atividades foram desempenhadas pelo Ministério da Saúde, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela ABC. Na cooperação humanitária, a ABC coordenou as doações de medicamentos – que outrora estivera sob a tutela da extinta Coordenação-Geral de Cooperação Humanitária e Combate à Fome (CGFOME). O destaque recai sobre a importância do sistema multilateral na promoção deste ODS: dois terços dos gastos foram canalizados via Nações Unidas. As contribuições foram canalizadas via Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Centro Pan-Americano de Febre Aftosa (PANAFTOSA) e Organização Mundial de Saúde Animal (OIE).

Juntos, os ODS 17, 4 e 3 respondem por 81% das atividades executadas pelo Governo Federal brasileiro em 2016. Na sequência, as iniciativas voltadas para o combate à fome e o incentivo à agricultura familiar (ODS 2) representaram 8% do total. Os demais objetivos, somados, representam 11% das atividades.

Em relação à preocupação das Nações Unidas em não deixar ninguém para trás, o Brasil demonstrou um bom engajamento com países em situações especiais (LDCs, LLDCs e SIDS). Contabilizando apenas as iniciativas bilaterais, constatou-se que o país colaborou com algum país em situação especial em 34,5% das 1.235 iniciativas. A cooperação com países menos desenvolvidos ocorreu em 22,5% dos casos, com países insulares em desenvolvimento em 12,6% e com países sem acesso ao mar em apenas 4,3%.

Mais do que identificar as métricas financeiras da cooperação brasileira, os dados da cooperação brasileira servem de base para entender como o Governo Federal executa a sua política externa, sob quais vias (bilateral, trilateral, multilateral) e, agora, de que forma estas iniciativas estão alinhadas à Agenda 2030. O passo seguinte consiste em monitorar, acompanhar e avaliar as políticas para assegurar decisões baseadas em evidências.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável” (Fonte): https://ceiri.news/desagregar-para-alcancar-agenda-2030-como-nao-deixar-ninguem-para-tras/

Imagem 2 Adaptado: Microdados da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional Levantamento 20142016 (IPEA, 2018)” (Fonte): Elaboração do próprio autor

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Robôs são aposta para coleta e reciclagem de lixo no mundo

A utilização de robôs para coleta e reciclagem de materiais é uma das três tendências mais fortes de solução para o problema da crescente produção de resíduos no planeta. Projetos que aliam tecnologias de robótica e de inteligência artificial vem sendo desenvolvidos em diversos países com esse objetivo.

Estudos da Organização das Nações Unidas (ONU) demonstram que a produção de resíduos tem aumentado numa proporção três vezes maior que o crescimento populacional e o problema preocupa governos no mundo inteiro. O crescente consumo de produtos, potencializado pela obsolescência programada, faz crescer os volumes de descarte, especialmente do chamado lixo eletrônico.

Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, essa preocupação deu origem a uma campanha de consumo consciente baseada no Princípio dos 3Rs: Reduzir, Reutilizar e Reciclar. 

Pôster do filme Wall-E, de 2008

Em 2008, o cinema americano produziu o filme de animação Wall-E que conta a história de um robô criado num futuro distante para recolher o lixo acumulado na Terra pelo consumo desenfreado que forçou a humanidade a buscar refúgio noutro planeta. Na vida real, entretanto, os robôs já estão sendo utilizados na tarefa de coletar e selecionar o lixo.

Com foco no “R” de Reciclar, a empresa finlandesa Zen Robotics começou a produzir em setembro de 2012 o Zen Robotics Recycler (ZRR), um robô inteligente que faz a separação de materiais recicláveis com eficiência. O software do ZRR funciona de modo semelhante ao cérebro humano e consegue separar materiais, aprendendo com os próprios erros e aprimorando o seu desempenho com a prática. A empresa tem investido no aperfeiçoamento dos produtos e já opera em 4 continentes.

Nos EUA, o Carton Council, conselho que congrega os 4 maiores fabricantes de embalagens de papelão, em associação com a AMP Robotics e a Alpine Waste & Recycling, desenvolveu em 2016 um sistema robótico denominado “Clarke que utiliza de inteligência artificial para fazer separação de materiais. Os sistemas robóticos baseados em inteligência artificial tem a capacidade de aprender e “pensar de modo semelhante aos seres humanos. 

Estudantes da Universidade Salvador (Unifacs), localizada em Salvador, estado da Bahia, no Brasil, desenvolveram um robô capaz de recolher lixos em parques e fazer a seleção de recicláveis sólidos. Com a criação do robô, batizado de Amazon-e, os estudantes venceram uma competição internacional de robótica.

Quando se trata de reciclagem, costuma-se dizer que um dos primeiros passos é saber o que pode ser reciclado e qual a destinação a ser dada a estes materiais. No Canadá, por exemplo, a cidade de Vancouver está utilizando plástico reciclado em mistura com o asfalto para a pavimentação de ruas e avenidas.

Uma das vantagens do uso de robôs para a reciclagem, em substituição a seres humanos, é a sua capacidade de fazer a triagem com rapidez e a segurança no tocante a acidentes e contaminação por agentes danosos à saúde. A evolução dos modelos, a descoberta de novas tecnologias e o aumento de produção tenderão a permitir a redução dos custos de fabricação. Já em 2012, a ONU alertava para a urgência de se enfrentar a “crise global do lixo” e tudo indica que os robôs inteligentes serão uma “tropa de elite” no combate a este problema mundial.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mão de robô imagem no Facebook da Zen Robotics” (Fonte):

https://scontent.fssa17-1.fna.fbcdn.net/v/t31.0-8/14409630_1499987806694705_5075675218437018008_o.jpg?_nc_cat=0&oh=16cefe49493e31dc6ac800993b254cfb&oe=5B5F7D86

Imagem 2 Pôster do filme WallE, de 2008” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/WALL%C2%B7E#/media/File:WALL-E.jpg

ÁFRICAAGÊNCIA DE COOPERAÇÃO BILATERALAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

O setor algodoeiro como novo instrumento de soft power na Cooperação Sul-Sul Brasileira

Após a expansão nacional e o alcance internacional de suas boas práticas, a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano ganhou notoriedade na comunidade internacional com o recebimento do Prêmio Sasakawa – concedido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – em 2001, em decorrência do impacto do programa na redução da mortalidade infantil. Além disso, as políticas de combate à fome, segurança alimentar e nutricional e proteção social ganharam enorme visibilidade, principalmente com países Africanos, rendendo inúmeras trocas de experiências com diferentes níveis de profundidade, desde a visita de missões, organização de seminários, compartilhamento de experiências, até a formalização de acordos de cooperação.

Tanto os projetos relacionados aos Bancos de Leite Humano, quanto aqueles relacionados ao desenvolvimento social e combate à fome foram importantes ferramentas de soft power utilizadas pela diplomacia brasileira, seja como política legitimada internacionalmente, seja como conhecimento a ser compartilhado via Cooperação Sul-Sul (CSS).

No entanto, os seguidos cortes orçamentários ao longo dos anos têm minimizado a expansão do soft power brasileiro mediante a propagação de boas práticas na CSS. Exceto, por um setor: o algodoeiro. Em 2016, a iniciativa liderada pelo Governo brasileiro recebeu o primeiro Prêmio S3 Award de Cooperação Sul-Sul para Desenvolvimento Sustentável, organizado pelo escritório regional do Programa das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (RBLAC), com apoio do Escritório de Apoio a Políticas e Programas/Cooperação Sul-Sul, de Nova Iorque.

Como iniciativas, a começar tem-se o Projeto Cotton 4, que envolveu a troca de experiências sobre controle biológico de pragas, manejo integrado do solo e a gestão de variedades de algodão com Benin, Burkina Faso, Chade e Mali. Diante dos resultados alcançados, o projeto recebeu novo apoio, levando à criação do Cotton 4 + Togo, inserindo um novo país ao grupo. Neste projeto, os objetivos repousam sobre o aumento da competitividade da cadeia produtiva do algodão nestes países, na adaptação de tecnologias competitivas para o cultivo do produto em pequenas propriedades e no suporte às instituições parceiras para desenvolver soluções adequadas às suas respectivas realidades.

Em paralelo ao Cotton 4 + Togo, o Governo brasileiro expandiu a troca de experiências no setor algodoeiro em outros três projetos. O primeiro deles, iniciado em 2015, tem sido desenvolvido em Moçambique e no Malauí, em uma parceria da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), com os governos do Malauí e de Moçambique, e o financiamento do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA). Baseado nas experiências do Cotton 4, o projeto Cotton Shire Zambeze contempla a região das Bacias do Baixo Shire e Zambeze e visa a ampliação da capacidade institucional e de recursos humanos nacionais de ambos países africanos.

Na Bacia do Lago Victoria, o projeto Cotton Victoria articula e fortalece a difusão de tecnologias mais avançadas de produção de algodão, em consonância com as devidas realidades e costumes locais. O projeto é desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Lavras (UFLA) e conta com o apoio do IBA em três países da África Oriental, sendo eles, Quênia, Burundi e Tanzânia.

Recentemente, a ABC, o IBA e o Centro de Excelência contra a Fome, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, assinaram o projeto “Alternativas de escoamento dos subprodutos do algodão e culturas acessórias na África”. Este projeto servirá de complemento às iniciativas citadas anteriormente – Cotton 4 + Togo, Cotton Victoria e Cotton Shire Zambeze – ao apoiar pequenos produtores de algodão e instituições públicas de países africanos selecionados no escoamento da produção dos seus subprodutos (ex: óleo e torta) e de produtos advindos da produção associada de algodão (ex: milho, sorgo e feijão).

Uma condição necessária, mas não suficiente para explicar a relevância e a difusão de projetos de CSS no setor algodoeiro, reside no apoio financeiro concedido pelo IBA, fruto das atividades previstas no memorando de entendimento entre Brasil e Estados Unidos.  A história começa em setembro de 2002, quando a representação brasileira na OMC solicitou consultas com o Governo dos Estados Unidos, com o objetivo de questionar a legalidade de leis e as regulamentações referentes aos subsídios, créditos, doações e assistências concedidas à indústria americana do algodão.

Apesar da OMC ter concedido ao Brasil o direito de retaliar comercialmente os Estados Unidos, ambas partes chegaram ao seguinte acordo: os norte-americanos pagariam, anualmente, US$ 147,3 milhões ao IBA para gerir os recursos e contribuir para o fortalecimento da cotonicultura brasileira.

Se, por um lado, os projetos de CSS do Brasil em algodão não se restringe àqueles financiados pelo IBA, tais como no projeto +Algodão na Bolívia, por outro lado, deve-se reconhecer que a atual difusão de projetos neste setor tem sido empregada com oportunismo pelo Governo brasileiro, considerando o volume de recursos financeiros do Instituto e as escassas fontes para promover a CSS brasileira a nível regional e global. Após a difusão das redes de Banco de Leite Humano e das políticas de proteção social, parece ter chegado a hora de utilizar o algodão como soft power internacionalmente.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Foto de Plantação de Algodão” (Fonte):

https://pixabay.com/en/cotton-south-alabama-agriculture-2807360/

Imagem 2 Foto de uma flor de Algodão” (Fonte):

https://fotospublicas.com/eua-pagarao-us-300-milhoes-para-brasil-encerrar-disputa-sobre-algodao/

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Smartcity III, o profissional do setor

Os projetos de Smartcities são uma tendência crescente no cenário internacional e nacional. Ainda assim, existem diversas dúvidas em relação a natureza desses projetos e aos órgãos implicados, bem como aos profissionais que atuam no setor.

Alguns centros de formação no Brasil já oferecem instrução na área, porém, apesar da excelente qualificação dos professores, poucos são os que realmente possuem experiência profissional ou empírica, refletindo novamente as próprias dúvidas que geram os projetos de Smartcity.

Inovação, tecnologia e política são os setores nos quais os centros acadêmicos concentram sua oferta formativa, o que acaba limitando todo o potencial da área e gera uma especialização excessiva e perniciosa, já que, mesmo sendo importante contar com profissionais qualificados para a gestão desses projetos, os mesmos não podem ser limitados a apenas algumas áreas.

É vital compreender que o projeto de uma cidade inteligente envolve a todos os profissionais que atuam nas dinâmicas internas e intrínsecas da cidade, pois é dessa interação entre os diferentes atores presentes no espaço urbano que surge a inteligência e conhecimento para promover mudanças reais e obter resultados. De forma que é preciso separar a figura do especialista ou gestor de projetos de Smartcity dos demais profissionais que participam ativamente dos projetos Smart e que são de outras áreas.

Um médico pode estar envolvido em um projeto de Smartcity da mesma forma que um advogado ou um funcionário público, pois todos formam parte da dinâmica da cidade e todos podem contribuir para a implementação de novos processos, desenvolver novas soluções, gerar sinergia com outras áreas, gerar inteligência. 

BID – Smartcities

Os setores nos quais se desenvolvem as ações dos projetos de Smartcity (E-government, E-Health, inovação, meio ambiente, energias renováveis, mobilidade etc.) contemplam essa multidisciplinaridade e dependem da mesma, de modo que todo profissional pode atuar em um projeto de Smartcity.

No caso daqueles que desejam atuar na gestão ou como especialista em projetos de Smartcity é fundamental reiterar a necessidade de uma visão global, multidisciplinar e integradora, além da capacidade de planejamento a longo prazo.

Mais do que formação, o profissional deve compreender as dinâmicas que existem na cidade, suas interações, reconhecer seu potencial, seus desafios, deve possuir ferramentas capazes de lhe colocar em contato com a inteligência gerada pelos atores e fatores próprios da cidade.

Cursos são importantes para lhe oferecer formação teórica sobre o assunto, além de lhe proporcionar ferramentas e metodologias científicas de análises quantitativas e qualitativas. Porém, a visão do implicado em relação a sua cidade e suas dinâmicas e processos é um fator chave nessa transformação derivada dos projetos de Smartcity, já que da mesma pende a diferenciação entre uma intervenção isolada e uma dinâmica inteligente que irá impactar em toda a cidade.

Projeto de ação Smartcity

O profissional interessado em projetos de Smartcity deve conhecer vários fatores, a citar: conhecer bem a economia da região analisada, suas dinâmicas (social, política, cultural), fatores externos e internos que impactam na mesma, dentre vários. Dessa forma, ele pode desenvolver a intervenção indicada, a qual pode ser um projeto de startup, uma parceria pública privada, um curso de formação, a criação de um cluster das empresas locais, a inovação de uma tramitação pública, a gestão de uma política pública ou de um projeto privado etc. Tudo depende do nível de participação e da área de atuação do mesmo. Caso seja um gestor, seu papel será justamente o de organizar, desenvolver e fomentar esses fluxos inovadores que existem ou que podem vir a existir.

Ao contrário do que muitos acreditam, os projetos de Smartcity não são projetos unicamente focados na política, inovação, tecnologia ou engenharia, mas projetos cuja multidisciplinaridade é fundamental. Não é um setor para especialistas exclusivos, mas sim para todos aqueles que saibam integrar, promover, estimular, criar um projeto funcional, transformando as dinâmicas de uma cidade em um processo inteligente.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Foto de Smartcity” (Fonte):

https://www.pexels.com/search/smart%20city/

Imagem 2BID Smartcities” (Fonte):

http://servicesaws.iadb.org/wmsfiles/images/0x0/-39723.jpg

Imagem 3Projeto de ação Smartcity” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Smart_City_Roadmap_by_Dr._Sam_Musa.jpg

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Smartcity II, a geração de projetos e de espaços inteligentes

No primeiro artigo sobre a série Smartcities analisamos as diferenças entre a prestação de serviços básicos e os processos inteligentes nos centros urbanos. Ao longo deste artigo o objetivo é observar a formulação de projetos e a implementação dos mesmos para a geração de novos espaços e processos inteligentes.

É importante ressaltar que embora a gestão pública seja um dos principais vetores na promoção e implementação das Smartcities, ela não é exclusiva e a iniciativa privada possui um importante papel no processo.

Dinâmicas Smart.

As empresas podem e devem participar da criação dos espaços inteligentes através da inovação e do desenvolvimento. O que não necessariamente indica a necessidade de aplicar elevados recursos em pesquisa, mas avaliar seus processos internos e promover uma reformulação dos mesmos, além de participar das transformações da cidade.

Cada centro urbano possui suas próprias dinâmicas e desafios, e as empresas inseridas nesse contexto não podem permanecer inertes, aguardando apenas as ações governamentais, mas devem participar na formulação de novas soluções e na transformação do meio.

As relações laborais e os processos produtivos também devem ser reformulados dentro de uma dinâmica inteligente e não somente como resposta a uma mudança na legislação. As empresas devem gerar valor não somente para seus produtos, mas também para o meio no qual operam, já que a competitividade global alcançou tal ponto que a especialização de uma região se transformou em um fator de competitividade e a integração dos diferentes setores promove polos ou clusters de cooperação local, onde o desenvolvimento de um dos atores influencia no resto.

Para gerar processos inteligentes é necessário contemplar a realidade e atuar sob a mesma de forma ativa. Por esse motivo as bases dos projetos de Smartcity vão além das políticas públicas e se concentram nas dinâmicas dos próprios espaços urbanos.

Sendo assim, a implementação desses projetos está sujeita a:

– Conhecer as dinâmicas sociais e econômicas do espaço urbano;

– Detectar os desafios e problemas;

– Identificar o potencial dos diferentes atores;

– Estimular a reformulação e a inovação dos processos.

Mapa Smartcities.

Desse modo, um projeto de Smartcity não necessariamente significa um alto investimento público ou privado, mas sim uma reformulação da própria dinâmica das cidades e um conhecimento mais aprofundado dos seus processos, de modo que, ao alterar um deles, toda a dinâmica da cidade é afetada (Algo diferente do que acontece com intervenções isoladas, tais como os bairros e condomínios inteligentes, ou a instalação de serviços básicos em pontos determinados, por exemplo).

Tanto o setor público quanto o setor privado possuem um papel importante nesse processo, porém a base de toda essa transformação é o próprio conhecimento que cada um dos atores detém da cidade, ou seja, é a inteligência por detrás desses processos.

E desse modo, uma cidade pode ser inteligente sem necessariamente ser um polo de alta tecnologia, ou uma metrópole, mas sim um espaço urbano onde suas dinâmicas estão integradas e harmonizadas, direcionadas para o desenvolvimento. O setor público pode incentivar a interação dos diferentes atores do cenário urbano e promover estímulos, tais como o empreendedorismo ou parcerias; já o setor privado pode promover a colaboração, novas demandas e novos processos para a cidade. A verdadeira inteligência surge da interação dos atores urbanos e não da ação isolada de um deles.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Processos inteligentes” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/44/Creative_and_Smart_City.jpg

Imagem 2 Dinâmicas Smart” (Fonte):

http://2.bp.blogspot.com/-e1xqVy7XHT8/VZ03eyqvIzI/AAAAAAAADik/zQHpfowa3mo/s320/smart%2Bcity%2B8%2Bparameters.jpg

Imagem 3 Mapa Smartcities” (Fonte):

http://icity.hccg.gov.tw/userfiles/2300/images/icf.jpg