AMÉRICA LATINAANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]A cooperação brasileira para o desenvolvimento vista pelo retrovisor[:]

[:pt] Ainda em 2014, o historiador Amado Cervo, em parceria com Antônio Carlos Lessa, considerou que as Relações Internacionais do Brasil atravessavam um declínio relativo durante o primeiro mandato da Presidente Dilma Rousseff, comparado à…

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

[:pt]A Despedida Ecumênica das Vítimas da Associação Chapecoense de Futebol[:]

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Na noite do dia 28 de novembro, o avião da LaMia – Línea Aérea Merideña Internacional de Aviación –, um BAe 146 Avro RJ-85 que transportava a equipe de futebol da Associação Chapecoense de Futebol, de Santa Catarina (Brasil), técnicos do clube e jornalistas que iriam fazer a cobertura do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, despenhou-se em Cerro Gordo, uma área montanhosa e de difícil acesso, na Colômbia, poucos minutos antes de aterrar no Aeroporto Internacional José María Córdova, em Rio Negro, Medellín, numa viagem que teve início em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Dos 77 ocupantes do voo CP-2933, houve 6 sobreviventes: 4 passageiros e 2 tripulantes. A tragédia que envolveu a equipe de Chapecó e seus acompanhantes ultrapassou, em muito, a dimensão esportiva do acontecimento. Por outro lado, as causas do acidente – provável erro humano, do Comandante da aeronave[1] e do pessoal de terra[2] – contribuíram, em muito, para tornar absurdo um episódio triste que decisões prudenciais teriam evitado.

A exaltação da memória dos falecidos e a solidariedade em torno dos familiares dos vitimados foram duas constantes nas homenagens que tiveram lugar. Nos eventos realizados, ao longo da semana seguinte, várias confissões religiosas se uniram para, ao fazerem uso da palavra consoladora, manifestarem o papel do sagrado ante a insuficiência humana em face dos absurdos vitais. Por outro lado, os muitos milhares de adeptos, da Chapecoense e de outros clubes, que se congregaram em diversos estádios de futebol, atribuíram uma dimensão metafísica às vidas precocemente ceifadas em território colombiano.

No dia 30 de novembro, à hora em que iria decorrer o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, entre o Clube Atlético Nacional e a Chapecoense, milhares de pessoas se reuniram no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín, e na Arena Condá, em Chapecó, para homenagear os desaparecidos. Naquela ocasião, no estádio da Chapecoense, líderes cristãos levaram o conforto aos milhares de assistentes à cerimônia religiosa. Os Pastores Claudir e Bartolomeu e o Padre Igor, adepto confesso do clube enlutado, proferiram algumas palavras durante o ato ecumênico.

Bartolomeu, o líder da Igreja Batista Central de Chapecó, referiu: “O que mais nós precisamos é de esperança. Não qualquer esperança, não uma mera esperança, mas a esperança que está em Deus”. Por outro lado, acrescentou o Pastor Bartolomeu, “a esperança que não falha, a esperança que dá força para caminharmos mesmo com o vento soprando de maneira contrária. Às famílias que estão aqui: Deus vai consolar o coração de vocês, Deus vai limpar de seus olhos toda a lágrima, porque Ele é bom”. O Padre Igor, se dirigindo aos familiares dos mortos, disse: “A minha oração é que o Espírito Santo venha confortar o coração dos familiares. Um Deus que nós servimos, um Deus que é fiel, que por mais que eu e você possamos estar abalados, ainda está no controle”.

O velório coletivo dos jogadores e dirigentes da Chapecoense, que teve lugar no sábado, dia 3 de dezembro, sob uma chuva impenitente, foi marcado por uma forte comoção coletiva. Ante um estádio praticamente lotado e uma cidade transformada em bancada de apoio incondicional aos falecidos no acidente aéreo na Colômbia, o Prefeito da cidade, Luciano Buligon, agradecendo ao povo colombiano e aos torcedores do Atlético Nacional, aludiu a um aforismo publicado na Internet: “Vieram por um sonho, voltaram como lendas”. “E lendas não morrem!”, completou o político.

Cid Moreira, cristão adventista, ex-Jornalista da Rede Globo, fez uma leitura da Bíblia que emocionou os presentes no estádio. O Bispo da Arquidiocese de Chapecó, Dom Odenir José Magri, leu, na cerimônia, uma mensagem do Papa Francisco: “Consternado pela trágica notícia do acidente na Colômbia – escreveu o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Dom Pietro Parolin –, o Papa pede que sejam transmitidas suas condolências e sua participação na dor de todos os enlutados. Ao mesmo tempo, pede ao céu conforto e restabelecimento para os sobreviventes e coragem e consolação para todos os atingidos pela tragédia”.

Alguns dias antes, em 30 de novembro, na Audiência Geral levada a cabo no Vaticano, o Sumo Pontífice destacou as semelhanças que existem entre o acidente aéreo que vitimou a Chapecoense e aquele que, no dia 4 de maio de 1949, enlutou a cidade de Turim, em Itália, quando a aeronave em que seguia a equipe de futebol do Torino F. C. colidiu com a Basílica de Superga, devido ao nevoeiro. Francisco disse: “Eu também gostaria de recordar hoje a dor do povo brasileiro pela tragédia do time de futebol e rezar pelos jogadores mortos, pelas suas famílias. Na Itália, sabemos bem o que isso significa, pois lembramos o acidente aéreo de Superga, em 1949. São tragédias duras. Rezemos por eles”.

A tragédia do voo da LaMia não teria ocorrido se ele tivesse obedecido à gestão prudencial, do voo, do combustível disponível e, também, da gestão aeroportuária boliviana. Falamos, em boa medida, da prudência prática tão ao gosto de Aristóteles[3] que sucumbiu, neste caso, em face da tentação do lucro fácil e da mercantilização das pessoas, tantas vezes denunciadas pelo Papa Francisco. Entrementes, a solidariedade que se gerou em torno do clube de Santa Catarina revela que o espírito de entreajuda e o altruísmo se sobrepõem, entre os seres humanos, às pequenas disputas que animam nosso cotidiano[4], fazendo de todos nós criaturas melhores e mais disponíveis ante a dor e o sofrimento alheios.

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ImagemEscudo da Associação Chapecoense de Futebol” (Fonte):

https://logodownload.org/wp-content/uploads/2016/09/Chapecoense-logo-escudo-1.png

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] O Comandante Miguel Alejandro Quiroga Murakami, um antigo piloto militar, de 36 anos, era um apaixonado pela aviação. Graduado pela Academia de Aviação da Bolívia, em 2002, retomou a carreira de piloto comercial há 5 anos. Ele era casado com Daniela Pinto – filha de Roger Pinto, Senador boliviano oposicionista – e tinha três filhos, com idades compreendidas entre os 4 anos e os 5 meses.

Além de piloto da LaMia, ele era um dos donos da empresa, juntamente com Marco Antonio Rocha.

Segundo declarações de Denise Pinto, familiar do Comandante tragicamente desaparecido, ao jornal colombiano El Tiempo, ele “sempre estava ajudando, preocupado em solucionar problemas”.

Entrementes, de acordo com Reymi Ferreira, Ministro da Defesa da Bolívia, “o capitão Quiroga, que era o piloto do avião acidentado, tinha um julgamento pendente com a Força Aérea Boliviana, tendo, inclusive, um mandado de prisão”.

[2] Várias zonas-sombra envolvem o acidente com o avião da LaMia. A partir dos últimos 11 Minutos de conversas do Comandante Miguel Quiroga com a torre do controle do Aeroporto Internacional José María Córdova ficamos a saber que, muito provavelmente, a aeronave se despenhou por falta de combustível.

De acordo com uma reportagem realizada pelo Globo Esporte, o reabastecimento do voo malogrado “teria um custo adicional de cerca de R$ 10 mil se decidisse por parar no Aeroporto de Bogotá para realizar um abastecimento, segundo especialista consultado pela ‘Folha de S. Paulo’. O valor inclui combustível e taxas aeroportuárias”.

Celia Castedo Monasterio, funcionária da Aasana, a Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares à Navegação Aérea da Bolívia, “questionou o piloto Miguel Quiroga sobre a autonomia do avião para o trajeto. Ela alertou que a capacidade de armazenamento de combustível da aeronave não era adequada para o plano de voo determinado e que faltava um plano alternativo, pois a quantidade de combustível seria insuficiente em caso de emergência.

A principal observação da funcionária teria sido com o tempo de voo entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín. Celia alertou a um despachante da companhia que a duração era igual à autonomia de combustível da aeronave. […] O tempo de rota era de 4H22Min, assim como a autonomia. Em resposta, o despachante disse ter conversado com o piloto, que insistiu na realização do voo, afirmando que a autonomia era suficiente e que faria a viagem em menos tempo […].

– Não, senhora Celia, essa autonomia, me passaram, é suficiente. Assim, não apresento mais nada. Vamos fazer em menos tempo, não se preocupe. É assim, fique tranquila, está bem”.

[3] Parece ser sensato aquele que tem o poder de deliberar corretamente acerca das coisas que são boas e vantajosas para si próprio, não de um modo particular, como, por exemplo, acerca das coisas que são boas em vista do restabelecimento da saúde, ou da obtenção do vigor físico, mas de todas aquelas qualidades que dizem respeito ao viver bem em geral. Um indício disto é dado pelo fato de, ao falarmos daqueles que são sensatos, dizermos que são capazes de calcular de modo correto a forma de chegarem a obter um certo objetivo final sério, fim este que não se encontra entre os produtos de qualquer perícia. Assim, aquele que delibera é alguém absolutamente sensato. Porque ninguém delibera acerca daqueles entes que não podem ser nunca de outra maneira, nem acerca daquelas coisas sobre as quais não tem o poder de agir”, ARISTÓTELES, Eth. Nic., 1140a-30.

[4] Presente na Arena Condá, para dar o último adeus a seus heróis, Jacir Tolotti, torcedor da Chapecoense sintetizou o sentimento coletivo preponderante no dia 3 de dezembro: “Nós somos um time pequeno, cara. Não queríamos ser conhecidos no mundo todo como agora. Não desse jeito. Só queríamos ganhar a Sul-Americana

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ANÁLISE - FÓRUNS INTERNACIONAISANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalMEIO AMBIENTEPOLÍTICAS PÚBLICAS

Políticas Públicas Ambientais: A Contextualização das Políticas quanto ao Cerrado Brasileiro e o que Esperar da COP-22

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Entre os dias 7 e 18 de novembro de 2016, ocorrerá em Marrakesh, no Marrocos, a Conferência das Partes (COP-26) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e a 12ª Reunião das Partes no Protocolo de Kyoto (MOP-12). A expectativa é significativa, principalmente por esse encontro ser o primeiro após o Acordo de Paris.

O Brasil, no contexto das negociações internacionais quanto ao meio-ambiente, tem tido um papel importante, principalmente no que se refere à Amazônia. Por outro lado, apesar de alguns expressivos avanços, percebe-se uma diminuta atenção e enfoque quanto a outros biomas que estão em áreas de expansão agrícola, como é o caso do Cerrado.

Em 2003, foi estabelecido pelo Ministério do Meio Ambiente o Grupo de Trabalho do Bioma Cerrado (GT Cerrado), que tinha como função o estabelecimento de uma proposta de programa de conservação e uso sustentável do cerrado brasileiro. Como resultado, foi constituído o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável do Bioma Cerrado – Programa Cerrado Sustentável, que foi formalizado pelo Decreto 5.577/2005.

A partir do GT Cerrado, foi colocada a Iniciativa Cerrado Sustentável para a implementação de parte dos objetivos e das diretrizes preconizados pelo Programa Cerrado Sustentável. Dessa forma, objetiva-se promover o aumento da conservação da biodiversidade e melhorar o manejo dos recursos ambientais e naturais por meio do apoio a políticas e práticas apropriadas. É desenvolvido com recursos do Global Environment Facility (GEF) e do Governo brasileiro, como contrapartida. A iniciativa é composta por quatro projetos sob a tutela do Ministério do Meio Ambiente; do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade; do Governo do Estado de Goiás e do Governo do Estado do Tocantins.

Em 2009, o Ministério do Meio Ambiente lançou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas do Cerrado (PPCerrado), que é análogo ao PPCDAM, estabelecido anteriormente para a Região Amazônica. A primeira fase do PPCerrado foi de 2010 a 2011 e a segunda fase correspondeu ao período de 2014 a 2015.

No mesmo ano, em 2009, durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP-15), o Governo brasileiro apresentou os compromissos voluntários para a redução das emissões de gases de efeito estufa projetadas até 2020, com a promessa de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 40% até 2020, atribuída ao PPCerrado.

Ainda em 2009, após os anúncios do Governo do Brasil na COP-15, foi estabelecida a Lei 12.187, de 29 de dezembro de 2009, instituindo a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC). Esta lei reiterou as obrigações nacionais voluntárias como ações de mitigação das emissões e estabeleceu os planos de ação para prevenção e controle do desmatamento nos biomas brasileiros.

Para a consolidação de uma política contínua de redução do desmatamento do cerrado, as ações do PPCerrado não podem ocorrer de forma isolada, sendo de grande importância o trabalho conjunto com os governos estaduais. É neste contexto que se deve avaliar a implementação de políticas específicas de preservação e desenvolvimento socioeconômico e social, principalmente quando se fala em grandes projetos, como a expansão agrícola para a região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

Com o término da segunda fase do PPCerrado em 2015, os resultados estão sendo analisados e servirão de subsídios para a construção de novas estratégias de proteção do bioma, observando os compromissos assumidos pelo Brasil na 21ª Conferência das Partes para Mudanças Climáticas (COP-21) e observando os desdobramentos da implementação do Código Florestal, que tem como um dos principais instrumentos de execução o Cadastro Ambiental Rural (CAR), fundamental para a regularização ambiental de propriedades e posses rurais.

Adicionalmente, com a COP-21, o Brasil divulgou o estabelecimento de metas ambiciosas, cuja forma de se alcançar e de se financiar será apresentada na 22ª Conferência das Partes para Mudanças Climáticas (COP-22), que ocorrerá em Marrakesh (Marrocos), agora, em novembro de 2016. Essas metas, denominadas NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida), foram estabelecidas individualmente pelos governos participantes da COP-21, sendo consideradas metas viáveis para o cumprimento do Acordo, a partir dos níveis sociais e educacionais de cada região.

Em relação às NDCs do Brasil, a redução das emissões de gases de efeito estufa está prevista para ocorrer no contexto de um aumento contínuo da população e do Produto Interno Bruto, bem como da renda per capita. Assim, as NDCs do Brasil deverão ser implementadas a partir de 2017 e prevê um corte de 37% nas emissões do país em 2025 com o indicativo de redução de 43% até 2030 (em ambos os casos, em relação aos níveis de 2005). Para isso, o Governo elencou uma série de políticas, como a restauração de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, o reflorestamento de 12 milhões de hectares e o fim do desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. Há também compromissos com medidas nas áreas de transportes, indústria e energia – como expandir o uso de fontes renováveis de energia e aumentar a oferta de etanol.

É importante destacar que o Acordo de Paris propõe a criação de um mecanismo de revisão, que fará avaliações a cada cinco anos dos esforços globais para frear as mudanças do clima.

Expectativas para a COP-22

No Marrocos, a expectativa é de levar os resultados de reuniões temáticas ocorridas ao longo de 2016, especificamente a reunião do SBSTA, que é o Órgão Subsidiário de Assessoramento Técnico Científico; a reunião do SBI, Órgão Subsidiário de Implementação; e a primeira reunião do grupo Ad Hoc sobre o Acordo de Paris. Nestas reuniões estão sendo tratados o segundo período do Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris.

Outro aspecto que deve ter destaque na COP-22 é a discussão da ampliação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (CDM – Climate Development Mechanism) e quais lições aprendidas com ele que deverão ser consideradas no desenvolvimento do novo mecanismo de carbono da negociação de clima.

É importante destacar que esta análise e discussão sobre o CDM se deve ao fato deste ser um mecanismo de flexibilização do Protocolo de Kyoto, e que oficializou o mercado de carbono na Convenção de Clima, permitindo que qualquer país tenha autonomia em comprar e vender créditos de carbono. Ressalta-se que, até o momento, o comércio de carbono somente era permitido entre países desenvolvidos, conforme previsto no Protocolo de Kyoto. Adicionalmente, como é esperada a discussão sobre a segunda fase do Protocolo de Kyoto e o fato de o Acordo de Paris, no Artigo 6, estabelecer um mecanismo de desenvolvimento sustentável, almeja-se que ocorra uma negociação para ampliar a sua abrangência e incluir temas relativos ao uso (e mudança do uso) da terra, o que incluiria restauração, reflorestamento e o que a negociação no âmbito internacional vem chamando de revegetação.

Um elemento fundamental que se esperava da COP-21 era a arrecadação por parte dos países desenvolvidos da quantia de US$ 100 bilhões anuais em financiamento até 2020. Essa intenção de mobilização coletiva foi postergada para 2025, o que atrasa a implementação de ações concretas.  Com a COP-22, estima-se que esse tema volte a ser discutido mais detalhadamente.

REDD+

Um dos principais pontos de divergência é sobre os projetos de REDD+, uma vez que o Governo Federal brasileiro propõe que não sejam elegíveis para gerar créditos de carbono no Mecanismo de Desenvolvimento Sustentável, estabelecido no Parágrafo 4 do Artigo 6 do Acordo de Paris.

Essa resistência do Governo Federal não é nova, e um dos argumentos é de que a Amazônia não deve ser vista como um objeto à venda no mercado internacional, uma vez que seria uma maneira muito simples para os países industrializados neutralizarem suas emissões. Entretanto, verifica-se que os governos estaduais brasileiros estão engajados na implementação de políticas públicas específicas e estes gostariam que os projetos de REDD+ façam parte da contabilidade nacional de REDD+.

Nos últimos meses, o Ministério do Meio Ambiente, por intermédio das Resoluções n° 01, 02, 03 e 04 de 11 de julho de 2016, foram instituídas as Câmaras Consultivas Temáticas (CCT) para subsidiar os trabalhos da Comissão Nacional de REDD+ (CONAREDD+). Assim, foram estabelecidas três Câmaras Consultivas Temáticas composta por representantes da sociedade civil, setor privado e entidades governamentais:

1.  Salvaguardas (CCT-Salv),

2. Pacto Federativo (CCT-Pact) e

3. Captação e Distribuição de Recursos Não Reembolsáveis (CCT-CDRNR).

A expectativa das CCTs é ser uma voz ativa junto ao Ministério do Meio Ambiente para apoiar na tomada de decisão, permitindo que exista uma convergência das políticas públicas nos âmbitos Federal e Estadual.

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SITES RELEVANTES:

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Imagem (Fonte):

http://www.cop22-morocco.com

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalParadiplomacia

[:pt]O potencial da Paradiplomacia em pequenos municípios ou regiões do Brasil[:]

[:pt] Os grandes centros urbanos já utilizam a diplomacia das cidades (a Paradiplomacia) como ferramenta para promover o desenvolvimento da região, diversificar suas relações, ampliar sua presença mundial e participar mais ativamente nas decisões globais….

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AMÉRICA LATINAANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalParadiplomacia

[:pt]A ausência da Paradiplomacia nas campanhas eleitorais brasileiras de 2016[:]

[:pt]

Nos últimos 20 anos, a diplomacia das cidades tem se transformado em uma importante ferramenta pública para o incremento da competitividade dos grandes centros urbanos, promovendo uma maior exposição e agilidade nos processos globais. A Paradiplomacia também é uma forma de evitar à morosidade da diplomacia oficial e os conflitos de interesses na formulação da política externa de uma nação, já que a mesma representa os interesses locais de um ente subnacional, havendo, assim, uma maior sinergia com a realidade e com os diferentes grupos de interesses.

Cidades como Londres, Paris, Tóquio, Berlim, entre outras, possuem políticas locais para atração de investimentos estrangeiros, acordos de cooperação em diversas áreas, transferência de tecnologia com outras cidades, parcerias públicas e privadas, campanhas internacionais de promoção econômica e turística, dentre várias ações dentro desse escopo paradiplomático. No Brasil, algumas capitais já possuem uma estrutura similar que representa a política externa de um município, porém, a importância dada a mesma ainda é reduzida ou conflita com o mesmo tipo de estrutura existente na esfera estadual.

Ao não existir no Brasil uma legislação que defina as competências dos Estados da Federação e dos Municípios em relação a política externa, ou programas de relações internacionais que contemplem as três esferas administrativas do país, a paradiplomacia acaba sendo desigual e pouco desenvolvida, resumindo-se a ações políticas concretas, onde não há uma participação pública, nem interesse público.

Esse distanciamento entre a paradiplomacia dos municípios brasileiros e a população, ou a inexistência da paradiplomacia, refletiu-se ao longo das campanhas eleitorais para prefeitos e vereadores no Brasil deste último mês. Nem mesmo nos grandes municípios, tais como São Paulo ou Rio de janeiro, existe uma preocupação em trazer a pauta internacional para o debate, pois o tema parece aos candidatos e suas equipes como irrelevante para angariar os votos necessários para vencer as eleições.

A candidata à prefeitura de São Paulo pelo PMDB, Marta Suplicy, chegou a mencionar um possível projeto para solicitar o financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para realizar obras no município – algo que já fez em sua gestão como prefeita 2000-2004 – porém o tema não ganhou nenhuma repercussão ao longo da campanha.

No Rio de Janeiro, mesmo se tratando do principal polo de turismo internacional do Brasil, e após a cidade ser sede da Copa do Mundo de Futebol – FIFA e dos Jogos Olímpicos, os candidatos não possuem – ou ao menos não mencionaram – nenhuma proposta para a política externa da cidade, embora a cidade possua infraestrutura para isso, tais como a Agência de Promoção de Turismo ou a Agência de Promoção de Negócios do Município.

É necessário aproximar o debate político as relações internacionais do município, pois cada vez mais as cidades estão ganhando importância no cenário mundial, sendo esta uma realidade global.

A competitividade, produção, comunicação e fluxos migratórios, além de outros efeitos da globalização, colocaram as cidades em uma posição de destaque no panorama mundial, e aquelas que possuem ferramentas para defender seus interesses e participar dessa nova dinâmica obtêm vantagens sobre as outras.

O desenvolvimento da Paradiplomacia depende não somente da existência de um Marco Jurídico que organize suas competências, mas também da estratégia de desenvolvimento das cidades e sua política de inserção mundial, que não deve depender unicamente da diplomacia central.

Municípios portuários como Santos, ou aeroportuários como Campinas e Guarulhos, devem competir com outros hubs de comunicação da América Latina, além da própria concorrência interna de outras cidades brasileiras. As negociações a nível federal podem beneficiar um município em detrimento de outro, sendo a paradiplomacia uma saída natural para assegurar a competitividade da região e sua sobrevivência no mundo globalizado.

A população também deve entender que, atualmente, é impossível isolar seus interesses do resto do mundo, pois as multinacionais fazem a distribuição de energia ou o fornecimento de linhas telefônicas no município, os imigrantes chegam diariamente, tanto quanto os executivos e turistas de negócios, além de pesquisadores visitantes. O mundo faz parte da realidade de várias cidades, havendo interesses ou moldando interesses à raiz dessas interações, sendo vital gerar políticas que possam aproveitar tal dinâmica e promover benefícios, tanto à população como ao município. Para tanto, é necessário discutir como será feita.

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Imagem (Fonte):

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]Observações sobre o encerramento do Departamento de Combate à Fome no Itamaraty[:]

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Após 12 anos de existência, a Coordenadoria-Geral de Ações Humanitárias e Combate à Fome (CGFome) foi extinta pelo Itamaraty, tendo suas atribuições realocadas para outras unidades do Ministério das Relações Exteriores (MRE), sendo elas, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e a Divisão de Temas Sociais (DTS). Para alguns pesquisadores e analistas, com a extinção da CGFome, “o país perde uma oportunidade de apoiar concretamente países a superar a fome, a estruturarem sistemas públicos e estratégias nacionais de desenvolvimento sustentável”, subestimando, assim, o protagonismo internacional adquirido pelo Brasil nos anos recentes.

Sem o objetivo de esgotar todas as interpretações possíveis para as causas e as consequências da extinção da CGFome, serão explorados quatro temas, considerados peças-chaves, sendo eles: 1) aspectos financeiros; 2) mudança de Governo; 3) pauta da cooperação humanitária; 4) retaliações.

Desde 2014, o orçamento do MRE tem sofrido cortes, tendo 342 terceiros-secretários sido levados a entregar uma carta de reivindicações ao – na época – chanceler Luiz Alberto Figueiredo. No início de 2015, os cortes no orçamento do Itamaraty afetaram o envio de diplomatas e outros funcionários para o exterior, gerando instabilidade política no Ministério. Em geral, a participação do MRE no orçamento caiu de 0,5% para 0,27% de 2003 a 2014. Outro exemplo da pouca importância dada à cooperação nos últimos anos é retratado nos dispêndios da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento (Cobradi), quando vemos uma queda de R$ 1,6 bilhão em 2010 para R$ 857 milhões em 2013. No caso da cooperação humanitária, os gastos despencaram de R$ 284 milhões em 2010 – no auge da cooperação com o Haiti, após o terremoto – para R$ 46 milhões em 2013. Em outras palavras, os cortes orçamentários e a realocação de recursos técnicos e logísticos não é um fato isolado e já tem afetado diretamente o MRE e os projetos ligados à cooperação brasileira.

O segundo fator, de natureza estritamente política, condiz com as reformas administrativas iniciadas desde 2015, pela ex-presidente Dilma Rousseff, e que continuam com a presidência de Michel Temer. Em meio aos cortes orçamentários, Dilma extinguiu a pasta de Assuntos Estratégicos, fundiu a Previdência e o Trabalho em um só, colocou sob o mesmo guarda-chuva a pasta de Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos e incorporou as Relações Institucionais, Secretaria Geral, Gabinete de Segurança Institucional e Micro e Pequena Empresa no novo ministério intitulado Secretaria de Governo. Enquanto isso, Temer fundou o Ministério do Desenvolvimento Agrário (ex-MDA) e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (ex-MDS) em um único Ministério, do Desenvolvimento Social. De fato, no âmbito burocrático, a extinção da CGFome é explicada a partir de dois caminhos. Por um lado, como decorrência natural da necessidade de enxugar o orçamento e os gastos com a máquina pública, que aliás, já vinha sendo empregada em outras esferas governamentais. Por outro lado, a CGFome traz consigo o rótulo do Fome Zero em suas iniciais, uma marca política da era PT e do ex-presidente Lula. Dessa maneira, as políticas brasileiras destinadas à cooperação humanitária serão desvencilhadas da imagem dos presidentes anteriores e poderão seguir um novo percurso, similar à junção do ex-MDS e que agora não possui mais o rótulo “Combate à Fome”.

O terceiro tópico está diretamente ligado à atenção dada pelos governos anteriores com a temática da segurança alimentar e nutricional. De fato, como ressaltado em estudo do Global Public Policy Institute, mesmo na cooperação humanitária, o país soube se aproveitar do campo da segurança alimentar e nutricional, considerando a aceitabilidade internacional da campanha Fome Zero, a difusão das políticas institucionais brasileiras de compras locais de alimentos e, também, por ser um dos maiores produtores e exportadores de produtos agrícolas. Além disso, a Lei nº 12.429/2011 autorizou a União a doar alimentos, por intermédio do Programa Mundial de Alimentos, legitimando a posição brasileira tanto como provedor de alimentos em situações emergenciais, como na promoção da agricultura local e na merenda escolar, como no programa Purchase from Africans for Africa. Apesar da forte institucionalidade conferida à temática, as últimas doações de alimentos entregues pelo Governo Federal não foram bem recebidas pela população, principalmente em decorrência do aumento no preço dos alimentos e dos cortes em outras políticas públicas que afetam a população brasileira, como na educação e na saúda.

De forma geral, novas administrações são levadas a interromper ciclos anteriores e propor novas ênfases ou políticas. Por essa razão, a alocação das atividades humanitárias da CGFome para a DTS e para a ABC poderá ser seguida de uma mudança de rumos. Dois grandes temas estão em debate no cenário da cooperação humanitária e poderão ser levados para a nova “agenda” humanitária brasileira. Em primeiro lugar, o tema dos refugiados no Brasil está sob a responsabilidade do Ministério da Justiça e do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) e poderia interligar com maior ênfase as ações humanitárias brasileiras. De acordo com o Relatório Cobradi 2011-2013, as antigas atribuições da CGFome estavam mais voltadas para apoiar os refugiados ainda fora do país, como nas colaborações financeiras para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) e para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Entretanto, uma vez que os refugiados estejam em solo brasileiro, eles recaem sobre o Conare, o Ministério da Justiça e o apoio da sociedade civil, como organizações não governamentais, igrejas e institutos.

Em segundo lugar, o país poderá se engajar com maior vigor nas discussões sobre a redução do risco de desastres. Por exemplo, desde 2012, o Rio de Janeiro conta com o Centro de Excelência para a Redução do Risco de Desastre (Cerrd), fruto da parceria do país com o Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNISDR), no intuito de reforçar a construção de comunidades resilientes a desastres. Considerando que os desastres têm aumentado ano após anos, assim como os seus gastos, há um extenso debate sobre a importância de alocar mais recursos para a prevenção.

Por último, o ex-coordenador da CGFome, o Ministro Milton Rondó Filho, foi pivô de um incidente diplomático no auge das discussões acerca do processo de impeachment da ex-presidente Dilma, em março. O Ministro, considerado por alguns colegas de trabalho um ferrenho defensor do governo petista, foi o responsável por enviar telegramas a todas as embaixadas e representações do Brasil no exterior, com o objetivo de alertar a comunidade sobre o risco de um golpe político no país. Desde o incidente, o diplomata foi afastado da função.

Portanto, os temas apresentados anteriormente estão, em maior ou menor medida, ligados um ao outro, compondo uma figura maior sobre questões de curto e médio prazo na cooperação humanitária brasileira. Como retratado, os cortes orçamentários – tanto no MRE quanto na cooperação brasileira – são exemplos claros de que o tema foi preterido nos anos recentes. Aliado a isto, as inúmeras reformulações no âmbito administrativo e burocrático, seja na extinção ou na fusão de pastas, mostrou também que qualquer área poderia sofrer interferências e adequações às novas realidades. Por fim, a marca do Fome Zero, da segurança alimentar e nutricional e dos ideais da era Lula e Dilma no comando do país afetam diretamente a imagem da cooperação humanitária brasileira, coibindo a margem de ação e as possibilidades do novo Governo Temer em deixar seu próprio modus operandi nesta modalidade. E na política, a regra tem sido se desfazer do legado anterior e propor novos horizontes.

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Imagem (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Itamaraty_andre_brito_2008.JPG?uselang=pt-br

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[:pt]Analistas questionam se os incentivos da China no Setor Primário do BRICS poderiam sabotar o desenvolvimento do Bloco[:]

[:pt] O setor primário é entendido como as atividades que extraem e/ou modificam a matéria-prima, transformando os recursos naturais em produtos primários. Os produtos do setor primário são considerados matérias-primas para outras industrias, destacando-se que…

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[:pt]ONU alerta mundo sobre demonização aos refugiados[:]

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Recorrentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) vem alertando o mundo sobre a crescente demonização que sofrem os refugiados. No último dia 12 de agosto, a ONU repudiou uma pesquisa de opinião global, organizada pela Ipsos MORI, a qual aponta que 60% das pessoas entrevistadas acreditam que extremistas islâmicos estão fingindo ser refugiados. De acordo com a pesquisa, foram ouvidas mais de 16 mil pessoas em 22 países, dentre eles Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. Ainda segundo a pesquisa, cerca de 40% das pessoas entrevistadas querem que as fronteiras de seus países sejam fechadas e esse ponto teve maior apoio em países como Hungria, Índia e Turquia.

Em seguida à divulgação dos levantamentos, a Organização das Nações Unidas repudiou a pesquisa. Conforme já mencionado, ela vem chamando a atenção do mundo sobre a crescente demonização que sofrem os refugiados e alerta para a preocupante situação dessas pessoas, que se configura como a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. De acordo com relatório das Nações Unidas, lançado em junho de 2016, o número de pessoas deslocadas devido a conflitos e perseguições em todo o mundo chegou a 65,3 milhões, no final do ano passado (2015). Assim, para a Organização, as guerras, violações dos direitos humanos, catástrofes naturais, são algumas das razões que estão levando um contingente de pessoas a abandonar seus lares. O maior número desses refugiados vem de países como Síria, Iraque, Sudão do Sul, Afeganistão e Iêmen, que estão sofrendo intensos conflitos. Já a Agência Refugiados destaca que uma a cada 113 pessoas no mundo é refugiada, requerente de asilo ou deslocada interna. Em vista disso, tanto a ONU quanto suas agências ressaltam a necessidade urgente em expandir programas de reassentamento e de ajuda humanitária.

A própria Agência da ONU para Refugiados (a ACNUR) já fez recomendações dessa ordem, alertando para que os refugiados não se tornem bodes expiatórios. Em novembro de 2015, por exemplo, logo após o atentado de Paris, Melissa Fleming, porta voz da ACNUR, afirmou durante uma coletiva de impressa em Genebra, que “Estamos profundamente perturbados com a linguagem que demoniza os refugiados como um grupo. Isto é perigoso, uma vez que contribuirá para a xenofobia e o medo. Os problemas de segurança que a Europa enfrenta são altamente complexos. Os refugiados não devem ser transformados em bodes expiatórios e nem se tornar vítimas secundárias destes trágicos acontecimentos”.

Para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, muito embora as ameaças à segurança sejam uma preocupação pertinente, as pessoas que estão fugindo dos seus países por conta de perseguição ou de conflitos precisam ser protegidas. Em entrevista à Thomson Reuters Foundation, William Spindler, porta-voz do Acnur, afirmou quecomo em qualquer população, há pessoas que são criminosas, e a lei deveria ser aplicada a elas. Ninguém está acima da lei, seja você um refugiado ou não”. Assim, ressaltou que “não deveríamos esquecer que a grande maioria dos refugiados respeita a lei, e não deveríamos demonizá-los ou vê-los todos como criminosos e terroristas, porque não é este o caso”.

Nesse mesmo sentido, António Guterres, Alto Comissário da ONU para Refugiados, pontuou que “nós ressaltamos a importância de preservar a integridade do sistema de refúgio. Refúgio e terrorismo não são compatíveis uns com os outros. A Convenção de 1951 é clara a respeito do tema, e exclui de seu alcance de proteção as pessoas que cometeram crimes. A preocupação da Organização e das agências das Nações Unidas diz respeito às reações que alguns países possam vir adotar em razão dos ataques e do crescente medo. Segundo a ACNUR, o receio é de que os países adotem medidas que possam acabar com programas que estão sendo implementados ou ainda que se criem impedimentos aos compromissos assumidos para gerir as crises de refugiados, tais como fechamento de fronteiras.

Em março deste ano (2016), durante abertura de uma conferência das Nações Unidas, Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, declarou que a maior crise de refugiados do mundo, requer o aumento exponencial da solidariedade global. Naquele momento, representantes de 90 países discutiram uma distribuição mais equitativa dos refugiados sírios no mundo. O secretário geral da ONU ressaltou que dos 4,8 milhões de refugiados sírios, a maioria deles estão em países vizinhos, como Turquia, Líbano e Jordânia, sendo que o Líbano acolheu mais de um milhão de refugiados sírios, a Turquia aproximadamente 2,7 milhões, e Jordânia cerca de 600 mil. O Iraque, que também enfrenta uma profunda crise, abrigou 250 mil. No que tange aos refugiados sírios, Fleming, pontuou que é preciso compreender que muitas dessas pessoas estão fugindo justamente do extremismo e do terrorismo, assim, um mundo que acolhe refugiados sírios pode derrotar o extremismo, mas um mundo que os rejeita, especialmente aos refugiados mulçumanos, fomentará ainda mais a propaganda extremista.

Em vista disso, a Organização tem ressaltado a necessidade dos países acolherem um maior número de refugiados. No entanto, para a Agência de Refugiados é preciso que os países adotem medidas de inserção dessas pessoas na sociedade, concedendo vistos de estudante, como ocorre em Portugal; através de reagrupamento familiar, como na Suíça; ou ainda por meio de programas humanitários, como tem acontecido na Alemanha, França e também no Brasil. Por fim, vale destacar que, no próximo dia 19 de setembro, a Assembleia Geral da ONU reunirá os líderes mundiais para debater justamente esses desafios que grandes movimentos de refugiados e migrantes representam.

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Imagem (Fonte):

http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/deslocamento-forcado-atinge-recorde-global-e-afeta-uma-em-cada-113-pessoas-no-mundo/

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Grande Imã Ahmed Mohamed el-Tayeb pede o fim do Terrorismo em encontro com o Papa Francisco

Na manhã de segunda-feira, 23 de maio, o Papa Francisco recebeu, em sua biblioteca privada, o Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb, Grande Imã da Mesquita al-Azhar e Reitor da Universidade al-Azhar[1], no Cairo. O encontro entre ambos os líderes religiosos constituiu um passo no sentido da reaproximação do islamismo sunita e o catolicismo, após o anuviamento das relações entre as duas confissões monoteístas há alguns anos. Em 12 de setembro de 2006, intervindo num Encontro com os Representantes das Ciências, na Universidade de Ratisbona, o Papa Bento XVI citou o diálogo entre Manuel II Paleólogo, Imperador bizantino, e um erudito persa, mantido em Ankara, no Inverno de 1391. A evocação daquele colóquio, que disse respeito ao cristianismo, ao islã e ao problema da verdade em ambas as religiões, desagradou profundamente aos fiéis e dignitários islamitas[2]. Por outro lado, na sequência do atentado suicida de Alexandria, contra uma igreja cristã copta, em 1o de janeiro de 2011, que matou 23 pessoas, ferindo outras 97, Bento XVI exigiu maior proteção para os cristãos naquele país do Oriente Médio. Agora, cinco anos depois do congelamento do diálogo entre al-Azhar e o Vaticano, os líderes das duas instituições voltaram a se reunir após uma comitiva da Santa Sé ter visitado o Cairo no passado mês de fevereiro.

O Grande Imã foi acompanhado por uma delegação de alto nível, integrada pelo Dr. Abbas Shouman, Subsecretário de al-Azhar; Mahmaoud Hamdi Zakzouk, membro do Conselho de Eruditos da Universidade al-Azhar e Diretor do Centro para o Diálogo de al-Azhar; o Juiz Mohamed Mahmoud Abdel Salam, Conselheiro do Grande Imã; o Dr. Mohie Afifi Afifi Ahmed, Secretário-Geral da Academia para a Pesquisa Islâmica; o Embaixador Mahmoud Abdel Gawad, Conselheiro Diplomático do Grande Imã; Tamer Tawfik, Conselheiro, e Ahmad Alshourbagy, Segundo Secretário. Seguido pelo Embaixador da República Árabe do Egito junto da Santa Sé, Hatem Seif Elnasr, o el-Tayeb foi recebido e conduzido ao encontro com o Sumo Pontífice pelo Cardeal Jean-Louis Tauran, Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, e pelo Bispo Secretário daquele Conselho, Dom Miguel Ángel Ayuso Guixot. Tendo abraçado o Grande Imã, o Papa Francisco sublinhou, ao dirigente muçulmano, o fato de, por si só, “nosso encontro ser a mensagem”. A reunião entre os dois dignitários religiosos foi caracterizada pelo Padre Federico Lombardi, SJ, Porta-Voz da Santa Sé, como tendo decorrido numa atmosfera muito cordial. Ahmed Mohamed el-Tayeb e Francisco assinalaram que o encontro, que durou 30 Minutos, decorreu “no âmbito do diálogo entre a Igreja Católica e o Islã”.

Em meio às atribulações e à desagregação em que Oriente Médio atualmente se encontra mergulhado, Ahmed Mohamed el-Tayeb e Francisco lançaram um apelo global contra o fim do terrorismo. Mais tarde, na entrevista concedida à Rádio Vaticano e ao jornal L’Osservatore Romano, publicada no dia 24 de maio, o dia seguinte ao encontro com o Papa[3], o Xeique el-Tayeb começou por interpretar o vazio do ser humano no mundo atual. O Reitor da Universidade al-Azhar destacou o fato de que, “todas as filosofias e ideologias sociais modernas, que assumiram a liderança da humanidade longe da religião e longe do Paraíso, não conseguiram fazer o homem feliz ou levá-lo para longe das guerras e do derramamento de sangue”. Com efeito, de acordo com el-Tayeb, o ser humano submetido ao puro plano material, sem desejo de transcendência em sua vida, ou seja, o “homem sem religião constitui um perigo para seu irmão homem, e eu creio que as pessoas, agora, no século XXI, começaram a olhar em seu redor para procurar guias sábios que os conduzam ao rumo correto”.

Situado na análise da escalada da insurgência na região do mundo de onde é natural, o Oriente Médio, geograficamente localizado na confluência da África, Europa e Ásia, o Grande Imã afirmou: “Eu venho do Oriente Médio, onde eu vivo e eu sofro, juntamente com os outros, as consequências dos rios de sangue e cadáveres, e não há nenhuma razão lógica para esta catástrofe que estamos a viver de dia e de noite”. Reconhecendo a existência do terrorismo no seio de insurgentes que se reclamam de fiéis do Islã, el-Tayeb aproveitou a oportunidade para dizer que o Islã não tem nada que ver com este terrorismo, e isto se aplica aos Ulama[4] muçulmanos e aos cristãos e muçulmanos do Oriente”. Tal como asseverou o Xeique, “aqueles que matam muçulmanos, e também matam cristãos, não entenderam os textos do Islã ou intencionalmente, ou por negligência”.

O líder muçulmano fez, nesta ocasião, um apelo para o mundo inteiro “se unir e cerrar fileiras para enfrentar e pôr fim ao terrorismo”. Se o problema crescente do terrorismo for negligenciado, declarou Ahmed Mohamed el-Tayeb, então não será unicamente o Oriente que vai pagar um preço elevado, mas “tanto o Oriente quanto o Ocidente poderiam sofrer juntos, como já vimos”. Ao terminar o encontro com a Imprensa, ele deixou, aos ouvintes da Rádio Vaticano e aos leitores do L’Osservatore Romano, o seguinte desejo: “Eu expresso meus sinceros agradecimentos, meu apreço e esperança – que vou levar comigo – de trabalharmos em conjunto, muçulmanos e cristãos, al-Azhar e o Vaticano, para aliviar os seres humanos, onde quer que eles se encontrem, independentemente da sua religião e crença, salvando-os das guerras destrutivas, da pobreza, da ignorância e da doença”. Entrementes, na quarta-feira, 25 de maio, dois dias depois de o Estado Islâmico ter reivindicado dois ataques mortíferos levados a cabo na Síria, o Papa Francisco reforçou o desejo de paz do Grande Imã, apelando a Deus e a Nossa Senhora que convertam “o coração de quantos semeiam morte e destruição”. Durante a audiência semanal realizada na Praça São Pedro, o Papa rezou para que Deus conceda “o descanso eterno às vítimas e a consolação aos familiares” das pessoas que foram alvo do duplo atentado de Tartus e Jableh, Síria, que causou 145 mortos e mais de 200 feridos.

O Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb e o Papa Francisco se encontram entre as autoridades religiosas mundiais que estão cientes de que a violência que o mundo de hoje enfrenta não se solucionará com iniciativas regionais ou, sequer, nacionais. Ante a urgência de “unir e cerrar fileiras para enfrentar e pôr um fim ao terrorismo”, há a necessidade de se adotarem soluções que contemplem a Pátria Terra. Se, no entendimento do Grande Imã el-Tayeb, as “responsabilidades são pesadas e, ao mesmo tempo, graves”, atualmente estamos vivendo, a partir do contributo da máxima hierarquia islamita sunita e católica, um entendimento comum dos grandes problemas atuais que pressupõe a construção do diálogo, em lugar da promoção das barreiras do sectarismo e do confronto, em nome de Deus.

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ImagemXeique Ahmed Mohamed elTayeb e Papa Francisco, Cidade do Estado do Vaticano (23 de maio de 2016)” (Fonte):

http://cdn.guardian.ng/wp-content/uploads/2016/05/Pope-francis-and-Sheikh-Ahmed-al-Tayeb.jpg

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] A Universidade al-Azhar é um dos legados da dinastia Fatimida, que reinou na África do Norte, entre 909 e 1048, e no Egito, entre 969 e 1171. Anexa à Mesquita al-Azhar, a Universidade al-Azhar é a mais prestigiada instituição de Ensino Superior do islã sunita.

Criada como madrasa – escola corânica, ou centro de ensinamento islâmico – pelo Califa Al-Um’izz li-Din Allah, em 970/972, ela obteve o estatuto de Universidade em 1961. Cerca de 90.000 alunos estudam, atualmente, na Universidade al-Azhar.

[2] No sétimo colóquio (διάλεξις – controvérsia) publicado pelo Prof. [Theodore] Khoury, o imperador aborda o tema da jihād, da guerra santa. O imperador sabia seguramente que, na sura 2, 256, lê-se: ‘Nenhuma coação nas coisas de fé’. Esta é provavelmente uma das suras do período inicial – segundo uma parte dos peritos – quando o próprio Maomé se encontrava ainda sem poder e ameaçado. Naturalmente, sobre a guerra santa, o imperador conhecia também as disposições que se foram desenvolvendo posteriormente e se fixaram no Alcorão. Sem se deter em pormenores como a diferença de tratamento entre os que possuem o ‘Livro’ e os ‘incrédulos’, ele, de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável –, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: ‘Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava’. O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão ríspido, passa a explicar minuciosamente os motivos pelos quais não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. Diz ele: ‘Deus não se compraz com o sangue; não agir segundo a razão – ‘σὺν λόγω’ – é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar corretamente, e não da violência nem da ameaça…[ ’]”.

[3] O Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb teceu as seguintes considerações sobre o Papa Francisco, após a reunião que ambos mantiveram: “Este homem é um homem da paz, um homem que segue os ensinamentos do cristianismo, que é uma religião de amor e paz e, seguindo Sua Santidade, vimos que ele é um homem que respeita as outras religiões e mostra consideração para com seus seguidores; ele é um homem que consagrou sua vida a servir os pobres e os destituídos, e que assume a responsabilidade pelas pessoas, em geral; ele é um asceta, que renunciou aos prazeres efêmeros da vida mundana. Todas estas são qualidades que partilhamos com ele, e, portanto, queremos nos encontrar com este homem em ordem a trabalharmos juntos pela humanidade no vasto campo que nós temos em comum”.

[4] O Ulama – ou Ulema – é alguém versado na teoria e na prática das ciências do Islã. Ele é, na verdade, o mestre religioso das comunidades islamitas – teólogo (mutakallimun), jurisprudente (mufti), juiz (qadi), professor e religioso ao mais alto nível do Estado (shaikh al-Islām).