ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável Nº 4: Educação de Qualidade[1][2]

Conforme estabelecido na 70ª Reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas, o quarto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) busca “assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos”. Tendo em vista a análise dos três primeiros ODS (pobreza; fome; e saúde), este traz inúmeras discussões sobre o que é possível mudar e como operacionalizar.

Entre as metas a serem alcançadas, chama-se a atenção para a igualdade de condições e acessos para homens e mulheres, ressaltando a equidade de oportunidades. Por exemplo, espera-se garantir que todas as meninas e meninos completem o ensino primário e secundário, equitativo e de qualidade; que todos tenham acesso a um desenvolvimento de qualidade na primeira infância (isto é, cuidados e educação pré-escolar); que seja assegurada a igualdade de acesso para homens e mulheres à educação técnica, profissional e superior de qualidade; que todos os jovens e proporção substancial de adultos estejam alfabetizados e que tenham adquirido o conhecimento básico de matemática. Por fim, há também uma meta específica, voltada para “eliminar as disparidades de gênero na educação” e garantir o acesso para os mais vulneráveis, como pessoas com deficiência, povos indígenas e as crianças vulneráveis. É uma situação preocupante, pois, por exemplo, de acordo com um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, de 2010 a 2015, cerca de 70 países registraram ataques a escolas e instituições de ensino médio com o objetivo de impedir que meninas estudem.

As outras metas incluem também a melhoria das instalações físicas para educação, a ampliação global no número de bolsas de estudo para países em desenvolvimento e o aumento substancial no contingente de professores qualificados, por meio da cooperação internacional.

Contudo, um problema se torna relevante neste cenário: a preocupação com o quantitativo e a indefinição com o qualitativo. Por exemplo, do ponto de vista quantitativo, as metas possuem ações como garantir, assegurar, aumentar, eliminar, melhorar e ampliar, mas sem o mesmo nível de detalhamento existente nas metas relacionadas à saúde. No caso da educação, elas se resumem ao estabelecimento dos anos, como prazo final para o alcance da meta. Desta maneira, as metas que buscam “assegurar” e “garantir” se tornam frágeis, tendo em vista que se resumirão a alcançar ou não a meta. Sem um meio termo, não há como calcular os avanços parciais. Da mesma forma ocorrer com a ideia de eliminar, que não possui meio termo. Além disso, os verbos aumentar, melhorar e ampliar não são acompanhados de indicadores que permitam avaliar os avanços e os desafios.

Ao mesmo tempo, elas ressaltam também que o ensino deve ser “de qualidade”, sem qualquer menção ao instrumento ou indicador a ser utilizado para assegurar o modus operandi necessário. Por exemplo, de acordo com o portal UOL, ao analisar isoladamente o item educação no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), o Brasil subiu de 0,279 (em 1991) para 0,637 (em 2010), sendo a dimensão que mais avançou nos últimos anos. Contudo, a melhoria nos indicadores quantitativos não foi acompanhada nos patamares adequados de qualidade.

Para além das metas ideais propostas, quantitativa e qualitativamente, cabe a todos assumir um compromisso em prol da educação de qualidade, caso acreditem que algo deve ser feito para combater a injustiça social e o acesso discricionário à educação. Para os atores internacionais, espera-se um real engajamento e a promoção de iniciativas factíveis e do compartilhamento de experiências exitosas em outros países. Em relação aos governos, espera-se o comprometimento orçamentário e a preocupação em oferecer um serviço público eficiente para os contribuintes. A sociedade civil – por meio do engajamento de indivíduos, grupos de interesses e Organizações Não-Governamentais (ONGs) – assume o papel de fiscalizador.

Vive-se em uma era marcada pelo fácil acesso à comunicação e ao choque de histórias impactantes por todo o globo, como, por exemplo, a da jovem Malala Yousafzai, que venceu o Nobel da Paz 2014 aos 17 anos, após desafiar o grupo armado Talibã porque lutava pelo direito de meninas estudarem no país dela, o Paquistão. No seu discurso na tribuna das Nações Unidas, Malala afirmou que uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo e que a educação é a única solução. Tal argumento em prol da educação, bem como os eu exemplo, mostram o poder que um único indivíduo pode alcançar, mesmo quando se parece pequeno perante os outros, reafirmando a lógica da sabedoria popular, na qual: “ninguém sabe tanto que não possa aprender e nem tão pouco que não possa ensinar”.

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Fonte da Imagem:

https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2015/09/ods4.png

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[1] Esta nota analítica é resultado de uma atividade voluntária exercida pelo autor para a ONU Voluntários (UNV), no projeto “Desarrollar contenido de opinión em redes sociales sobre los ODS”, com o objetivo de disseminar informações, debates e reflexões sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na América Latina e no país de origem do voluntário. Por esta razão, agradeço à diretoria do CEIRI NEWSPAPER (CNP) por ceder espaço na disseminação deste projeto. Os pontos de vistas expressados aqui são de inteira responsabilidade do autor, não representando as posições da UNV e do CNP.

[2] O CEIRI NEWSPAPER posiciona–se em abrir espaço e defender o direito legítimo e democrático que tem intelectuais sérios e responsáveis de se posicionarem, bem como em respeitar suas perspectivas. Especialmente, manifesta apoio pleno e disposição para auxílio necessário a todos os programas e atividades da Organização das Nações Unidas (ONU), que trabalha constantemente na busca de um mudo mais equilibrado, justo e pacífico.

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Objetivo de Desenvolvimento Sustentável Nº 3: Como Assegurar Vida Saudável e Bem-Estar?[1][2]

Tão multidimensional quanto a erradicação da pobreza, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável Nº 3 tem como título a “saúde de qualidade” e busca “assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades”. Mas, como alcançar este bem-estar coletivo?

Apesar da característica multifacetada deste ODS, as metas são claras. Por exemplo, elas se destinam à redução da mortalidade materna em relação aos nascidos vivos; à diminuição da mortalidade neonatal e de crianças menores de 5 anos; à redução da mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, via prevenção e tratamento; à redução de mortes e ferimentos por acidentes em estradas; à prevenção e ao tratamento do abuso de substâncias, tais como drogas entorpecentes e álcool em altas dosagens; à cobertura universal de saúde, incluindo o acesso a medicamentos e vacinas; ao acesso universal aos serviços de saúde sexual e reprodutiva; e à redução no número de mortes e doenças por produtos químicos perigosos, contaminação e poluição do ar e água do solo.

Por exemplo, em relação à taxa de mortalidade materna por 100 mil nascimentos, os indicadores apresentaram bons resultados nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), apesar de não atingirem a meta de reduzi-la em três quartos entre 1990 e 2015. De acordo com os dados do Banco Mundial, a taxa mundial caiu de 385, em 1990, para 216, em 2015 (Tabela 1). No Brasil, a queda foi de 57%, caindo de 104 mortes para 44 no mesmo período.

A segunda meta, relacionada à redução da mortalidade neonatal, busca diminuir para 12 mortes por mil nascidos vivos. Como parâmetro, utilizamos a taxa de mortalidade infantil (para criança até 1 ano de vida). No período, quando comparado às taxas mundial e da América Latina e Caribe, o Brasil apresentou a maior queda, de 71%, e reduziu para 14,6 mortes a cada mil nascidos vivos. Na América Latina, a redução foi de 65% e alcançou 15,9 em 2015. A taxa global apresentou uma redução de apenas 49,5% no período 1990-2015, caindo de 62,8 para 31,7 mortes a cada mil nascidos vivos.

Tabela 1Indicadores sobre a Mortalidade materna e infantil, 19902015

Indicador Unidade de Análise 1990 2000 2015
Taxa de Mortalidade Materna por 100 mil nascimentos Mundo 385 341 216
América Latina e Caribe* 138 101 69
Brasil 104 66 44
Taxa de mortalidade infantil 1 mil nascimentos Mundo 62,8 53,1 31,7
América Latina e Caribe* 46,1 28,1 15,9
Brasil 50,9 28,1 14,6
Taxa de mortalidade infantil, menor de 5 anos, por 1 mil nascimentos Mundo 90,6 75,9 42,5
América Latina e Caribe* 58,4 34 18,8
Brasil 60,8 32 16,4

Fonte: World Bank Data.

Em relação à mortalidade infantil de crianças com até 5 anos, a meta é de reduzir para, pelo menos, 25 mortes por mil nascidos vivos. A taxa global alcançou 42,5 óbitos por mil nascidos vivos, com uma redução de 53% de 1990 para 2015. Entretanto, a taxa na América Latina e Caribe e no Brasil já se encontra abaixo do estipulado, sendo 18,8 e 16,4, respectivamente, em 2015.

Apesar das diferentes tendências e do alcance de metas no nível global, regional e nacional, algumas políticas brasileiras já possuem respaldo internacional, sendo compartilhadas por meio da Cooperação Sul-Sul. Por exemplo, a Fiocruz destaca a experiência brasileira em bancos de leite humano, composta por uma rede com 212 bancos e 121 postos de coleta em todo o país. O caso brasileiro auxiliou na conscientização sobre a importância da amamentação e na qualidade de vida dos recém-nascidos, impulsionado a expansão do modelo brasileiro em diversos países da região Iberoamericana.

Em relação ao acesso a serviços e medicamentos, o Ministério da Saúde destacou que o número de pessoas em tratamento de HIV e AIDS no Sistema Único de Saúde aumentou em 97%, no período 2009 a 2015, passando de 231 mil para 455 mil pessoas. Além disso, outro avanço foi destacado no último relatório: “91% dos brasileiros adultos vivendo com HIV e Aids, em tratamento há pelo menos 6 meses, já apresentam carga viral indetectável no organismo”. Ainda de acordo com a nota, isto significa que essas pessoas não transmitem mais o vírus para outras, e que os antirretrovirais fizeram efeito.

Diante da expertise na área de medicamentos antirretrovirais, o Governo brasileiro, por meio da Fiocruz, projetou uma fábrica de medicamentos anti-AIDS em Moçambique. No país, 41% dos infectados não possuem acesso ao tratamento e, aproximadamente, 80 mil pessoas morrem em decorrência da AIDS, representando a principal causa de morte entre adultos.

Apesar dos avanços em algumas áreas, a situação sanitária não vive um bom momento no Brasil. O crescimento incontrolável do Zika vírus, a recente correlação com os casos de microcefalia e o cenário caótico da saúde pública em alguns Estados, como no Rio de Janeiro e no Distrito Federal, colocam em xeque as recentes conquistas para a almejada “vida saudável e bem-estar para todos”.

Entre erros e acertos, a diversidade de temas relacionados à saúde de qualidade toma forma quando analisadas a partir de metas e indicadores. Assim como nos lemas referentes à redução da pobreza e da fome, a “saúde de qualidade” é um alvo fácil dos céticos, considerando a amplitude do que significa uma vida saudável e o bem-estar para todos. Contudo, após uma leitura atenta sobre as metas e os possíveis indicadores, constata-se a possibilidade de acompanhar e avaliar os avanços sob diferentes perspectivas.

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Imagem (Fonte):

http://vamosdialogar.com/wp-content/uploads/2016/01/ODS-3.png

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[1] Esta nota analítica é resultado de uma atividade voluntária exercida pelo autor para a ONU Voluntários (UNV), no projeto Desarrollar contenido de opinión em redes sociales sobre los ODS”, com o objetivo de disseminar informações, debates e reflexões sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na América Latina e no país de origem do voluntário. Por esta razão, agradeço à diretoria do CEIRI NEWSPAPER (CNP)por ceder espaço na disseminação deste projeto. Os pontos de vistas expressados aqui são de inteira responsabilidade do autor, não representando as posições da UNV e do CNP.

[2] O CEIRI NEWSPAPER posicionase em abrir espaço e defender o direito legítimo e democrático que tem intelectuais sérios e responsáveis de se posicionarem, bem como em respeitar suas perspectivas. Especialmente, manifesta apoio pleno e disposição para auxílio necessário a todos os programas e atividades da Organização das Nações Unidas (ONU), que trabalha constantemente na busca de um mudo mais equilibrado, justo e pacífico.

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Como a Cooperação Sul-Sul Brasileira pode contribuir para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável?

Nos últimos anos, a Cooperação Sul-Sul (CSS) reemergiu no cenário internacional, servindo de complemento às tradicionais ajudas externas dos países doadores tradicionais (Ajuda Oficial para o Desenvolvimento – AOD). Nesse período, países emergentes – tais…

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Ao final de 2015, 1.437 pessoas foram presas nos EUA, por tráfico humano

O Tráfico de Seres Humanos é um dos principais problemas nos dias atuais e encontrar uma solução para eliminar esse mal, que abrange todo o Sistema Internacional, parece estar longe de ter um fim. No entanto, isso não significa que as autoridades se acomodaram diante desse quadro e deixaram de ajudar e/ou fazer justiça por aqueles que sofrem, direta e indiretamente, com o Tráfico de Pessoas. A exemplo disso, no último ano (2015), os EUA prenderam mais de 1.437 pessoas acusadas por este crime.

O número assemelha-se ao de 2014 que, segundo dados da ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas), houve 987 investigações com resultado de 1.770 acusados detidos e 440 vítimas identificadas. Assim como em 2014, um total de 400 vítimas também foram encontradas em 2015, algumas delas crianças que tinham suas fotos divulgadas em sites pornográficos encontrados na parte obscura da internet, a deep web, o que ajudou as autoridades que faziam investigações desde 2010, dentre elas o monitoramento destes sites.

Dois fatos destacaram-se durante as investigações de 2015 até a prisão dos 1.437 acusados pelos tráficos. O primeiro deles foi a detenção de 29 pessoas em oito Estados diferentes do território norte-americano, acusados de traficar mais de 13 mulheres, dentre elas meninas, do México e da América Central para encaminhá-las à prostíbulos do Sudeste dos EUA. O segundo fato foi a prisão de um dos fugitivos mais procurados, Paulino Ramírez-Granados, que, com ajuda de familiares e uma rede de colaboradores, dedicava-se a encontrar mulheres para seduzi-las com propostas de “um futuro melhor” no México. Como resultado, às forçava à prostituição e, em seguida, as encaminhava à Nova York para a continuação dos abusos. Neste caso, 26 vítimas foram identificadas, juntamente com 19 traficantes.

Infelizmente, como Ramírez, ainda existem muitos que também precisam ser detidos. Por conta disso, janeiro foi intitulado como o Mês Nacional da Prevenção da Escravidão e do Tráfico Humano, proclamado pelo presidente norte-americano Barack Obama (2013). Desde então, todo ano, neste mês, o ICE intensifica suas campanhas de conscientização entre a população.

Segundo a diretora do ICE, Sarah R. Saldaña, os agentes especiais trabalham incansavelmente para acabar com as redes de traficantes e para ajudar as vítimas, porém isso não é o suficiente, ainda resta muito a fazer. Apesar dos esforços das forças de segurança, a população precisa ser educada a reconhecer os sinais de um possível tráfico humano.

Segundo o ICE, o tráfico de pessoas é um dos crimes mais cruéis que existem, visto que adquire a configuração de uma escravidão moderna. Diante disso, é possível identificar o Tráfico Humano em diversas áreas, principalmente nas que envolvem prostituição, trabalho escravo e até tráfico de órgãos, uma área do tráfico que vem crescendo consideravelmente no mercado negro.

Segundo um relatório do Governo dos EUA em 2013, e atualizado em 2015, existem 21 países com maior ocorrência de tráfico humano. Entre eles encontram-se a China, o gigante da economia global; o Congo; Cuba; Coreia do Norte; Rússia; Irã e EUA.

Em sua maioria, as vítimas pagam para serem levadas ilegalmente para os Estados Unidos e, uma vez ali, sem documentos, e rodeadas por cultura e linguagem diferente, tornam-se reféns dos seus traficantes, vindo a trabalhar com prostituição, a executar trabalho forçado, além de outras formas de servidão para pagarem as dívidas que contraíram em sua travessia perigosa.

Em muitos casos, as vítimas são crianças que temem por sua vida e, por isso, vivem às sombras, sem poder denunciar os abusos e o medo que sofrem. Visando tal situação, o ICE mantém campanhas públicas que pedem à sociedade que as pessoas fiquem alerta e avisem as autoridades, caso vejam algum tipo de atividade suspeita ao redor.

Ainda que seja um assunto delicado para alguns, a gravidade dele existe e, segundo relatórios das Nações Unidas de 2010-2012, há no mundo 510 fluxos de tráfico de pessoas de diversas nacionalidades, 152 delas identificadas em mais de 124 países. Segundo o mesmo relatório, 49% das vítimas são mulheres, 18% homens e 33% crianças. 

Diante disso, e pelo fato de as autoridades nem sempre estarem lá para ajudar quem sofre com o tráfico, em face de tal realidade, por mais difícil que seja, a conscientização da sociedade internacional da necessidade de denunciar o crime ainda é uma ação viável e executável, dentre as várias que são necessárias.

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Imagem (Fonte):

http://revistamarieclaire.globo.com/MC-Contra-o-Trafico-Humano/noticia/2013/03/escravizadas-na-italia-pais-e-um-dos-principais-destinos-de-vitimas-do-trafico-humano.html

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Objetivo do Desenvolvimento Sustentável nº 1: é possível erradicar a pobreza até 2030? [1][2]

Após 15 anos de discussões, projetos e resultados oriundos da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, uma nova agenda é lançada: os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), compostos por 17 Objetivos e 169 Metas. O primeiro dos objetivos, e o mais desafiador de todos, busca “Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares”. Contudo, como combater algo multidimensional, que ora é causa, ora é consequência de outros problemas?

Durante as negociações para a elaboração dos ODS, o Governo brasileiro considerou a erradicação da pobreza, em todas as suas manifestações, como primeira prioridade nas iniciativas para o desenvolvimento sustentável, permeando o conjunto das ODS na forma de eixo central e reconhecendo que este é o maior desafio global da atualidade – requisito indispensável para se alcançar o desenvolvimento sustentável.

Em uma pesquisa realizada por 35 pesquisadores e representantes de Organizações Não Governamentais (ONG) e Organizações Internacionais, a pobreza surge como elemento transversal, isto é, que aparece em inúmeros objetivos, ora como causa, ora como consequência. Por exemplo, do ponto de vista ambiental, o desmatamento, a degradação de terra e a perda da diversidade exacerbam a pobreza e a desigualdade, assim como os desastres naturais, como secas, enchentes, deslizamentos de terra e furacões. Do ponto de vista da agricultura e da segurança alimentar, o acesso à terra é até hoje uma das maiores causas de conflitos, insegurança humana e pobreza. Desse modo, a disponibilidade de recursos naturais acaba se tornando um catalizador para o aumento das desigualdades sociais e econômicas, nos níveis local, regional e global. Além disso, a desigualdade na oferta de serviços de saúde, educação, cultura e bem-estar possui forte vínculo com os indicadores de pobreza.

Porém, se é tão complexo pensar na pobreza, por que insistir neste tema? Apesar das inúmeras dificuldades na operacionalização e no enquadramento de ações para mitigar a pobreza, muitas experiências bem sucedidas foram realizadas nos últimos anos, permitindo ao mundo ver os inúmeros caminhos traçados, do nível local ao internacional.

Para várias Organizações Internacionais, a pobreza extrema é caracterizada pelo indivíduo que vive com menos de US$ 1,25 por dia. Isto significa US$ 37,5 ao mês, ou, no Brasil, R$ 151,87, conforme a paridade do dia 19 de janeiro de 2016. Não há fórmula mágica, mas os países têm buscado estratégias próprias, ou transferido modelos bem sucedidos.

De acordo com o think tank britânico Overseas Development Institute (ODI), 63% da população do Vietnã vivia com menos de US$ 1,25 por dia em 1993. Entretanto, nos últimos anos, o Governo tem realizado inúmeros investimentos para mitigar a pobreza. Na área social, o Governo destinou 21% do orçamento para a educação – uma das maiores taxas na Ásia. Na agricultura, o país investiu na infraestrutura das áreas rurais. Para a economia, o Governo adotou abordagens não-ortodoxas na economia – ao abrir o mercado doméstico para a competição internacional apenas em alguns setores, enquanto protege as indústrias nacionais em áreas estratégias – e quadruplicou o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Estas ações reduziram a população em extrema pobreza a 2% da população em 2012.

A Etiópia apresenta outro caso de progresso multidimensional que tem reduzido acentuadamente a pobreza extrema. Atualmente, o país tem dedicado 70% do orçamento para cinco setores estratégicos para combater a pobreza, tais como educação, saúde, distribuição de água, infraestrutura de transporte e agricultura. Deste orçamento, 21% destina-se à agricultura, contrastando com a média do continente africano de 4%. Além disso, o país tem mantido o maior programa de proteção social na África, cobrindo 1,5 milhão de famílias.

Contudo, a redução da pobreza foi diferenciada nas regiões do mundo entre 1990 e 2011. Na América Latina, a redução foi de 12% para 4,6% da população no período. Na África Subsaariana, a redução foi de 56,6% para 46,8%, o que representa muito pouco para os padrões da região. No Sul da Ásia, área que engloba países como Índia, Afeganistão, Paquistão, Nepal, Butão, Sri Lanka e Bangladesh, a pobreza extrema caiu de 53,2% para 24,5%. O sucesso, principalmente em termos relativos, deve-se à redução da pobreza no Leste Asiático e Pacífico, envolvendo países como China, Indonésia e Filipinas. Na região, a extrema pobreza caiu de 58,2% da população em 1990 para 7,9% em 2011.

De acordo com o Banco Mundial, de 1990 a 2009, 1 em cada 2 pessoas que saíram da pobreza na América Latina e no Caribe era brasileira. Segundo o Banco, o bom desempenho ocorreu a partir de três motivos: 1) pelo crescimento econômico e estável vivenciado pelo país a partir de 2001; 2) pelas políticas públicas com foco na erradicação da pobreza, como Bolsa Família e Brasil sem Miséria; e 3) pelo mercado de trabalho nacional que alcançou 60% de empregos formais em 2012.

No Brasil, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) ressaltou recentemente a retomada do ciclo da redução da extrema pobreza, apesar da desfavorável conjuntura econômica nacional. Mesmo através de diferentes linhas de análise para mensurar a extrema pobreza, a queda varia de 63% a 68,5% no período 2004-2014. Durante os Objetivos do Milênio, o Brasil conseguiu reduzir o número de pessoas vivendo em extrema pobreza de 25,6% da população em 1990 para 4,8% em 2008, e depois para 3,5% em 2012. Dessa forma, o país diminuiu a 1/7 a população na extrema pobreza, superando a meta global de reduzir à metade e a meta nacional de reduzir a um quarto.

O Programa Bolsa Família é uma das tecnologias sociais brasileiras consideradas caso de sucesso para a redução da pobreza. Em 2013, o programa recebeu o Prêmio Award for Outstanding Achievement in Social Security, concedido pela Associação Internacional de Seguridade Social, e que equivale a um “Nobel Social”.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), 63 países já enviaram equipes para Brasília para conhecer melhor o programa, com destaque para 25 países da África e 20 da América Latina. Até o momento, Estados Unidos, El Salvador, Gana, Quênia e África do Sul criaram programas baseados no Bolsa Família. Outros países têm estudado e avaliado o modelo brasileiro como inspiração, inclusive países desenvolvidos, tais como o Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Reino Unido, Alemanha e Noruega.

Em suma, a pobreza é um problema multidimensional, o que torna a sua resolução complexa. Dada a sua importância, foi integrada aos ODS como eixo central, permeando todos os outros Objetivos. Apesar de não existir fórmula mágica para a redução da pobreza, há casos de sucesso, a exemplo do Programa Bolsa Família, no Brasil, que tem atraído a atenção de outros países.

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Imagem (Fonte):

http://cdn.globalgoals.org/2015/07/gg-1nopoverty-portuguese.png

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[1] Esta nota analítica é resultado de uma atividade voluntária exercida pelo autor para a ONU Voluntários (UNV), no projeto “Desarrollar contenido de opinión em redes sociales sobre los ODS”, com o objetivo de disseminar informações, debates e reflexões sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na América Latina e no país de origem do voluntário. Por esta razão, agradeço à diretoria do CEIRI Newspaper por ceder espaço na disseminação deste projeto. Os pontos de vistas expressados aqui são de inteira responsabilidade do autor, não representando as posições da UNV e do CNP.

[2] O CEIRI NEWSPAPER posiciona-se em abrir espaço e defender o direito legítimo e democrático que tem intelectuais sérios e responsáveis de se posicionarem, bem como em respeitar suas perspectivas. Especialmente, manifesta apoio pleno e disposição para auxílio necessário a todos os programas e atividades da Organização das Nações Unidas, que trabalha constantemente na busca de um mudo mais equilibrado, justo e pacífico.

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OIM: Total de Refugiados e Imigrantes na Europa ultrapassa 1 milhão em 2015

De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o número de refugiados e imigrantes ilegais que chegaram por terra e mar à Grécia, Bulgária, Itália, Espanha, Malta e Chipre ultrapassou a marca de 1 milhão em 2015. Foi registrado um crescimento de 365% no número de refugiados ou imigrantes ilegais que entraram na Europa, em relação ao mesmo período no ano passado. Do total de 1.005.504 pessoas que chegaram ao continente até 21 de dezembro, 821.008, ou 82%, desembarcaram na Grécia por mar e por terra, consolidando este país como principal ponto de entrada à Europa – posto antes ocupado pela Itália, que este ano (2015) contou com 105.317 refugiados.

Quase todos aqueles que chegaram à Europa vieram pelo mar Mediterrâneo ou Egeu, e metade era de sírios fugindo da guerra. O segundo maior contingente era oriundo do Afeganistão, com 186 mil (18,5%), seguido por Iraque (8%) e Eritreia (4%), de acordo com declaração conjunta da OIM e da Acnur, agência de refugiados da ONU. No Afeganistão, a população foge do aumento da ingerência do Talebã, enquanto na Eritreia fogem dos altos índices de repressão e da precária qualidade de vida nos campos de refugiados. A organização contabiliza 3.695 pessoas que morreram tentando chegar ao continente europeu por mar. Das mortes, 2.889 eram pessoas que viajavam do norte da África para a Itália, 706 morreram afogados ao tentar atravessar o Mar Egeu para a Grécia e outros 72 morreram tentando chegar à Espanha.

O porta-voz da OIM, Joel Millman, ressaltou que o total de pessoas que entraram no continente europeu neste ano pode ser ainda maior, uma vez que alguns dos países citados têm dificuldades para registrar todas as chegadas. Em nota, o chefe da OIM, William Lacy Swing, pediu ação das autoridades no sentido de receberem número maior de imigrantes e refugiados, especialmente considerando o número de mortes durante a travessia.

De acordo com o relatório de 18 de dezembro do Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas (UNHCR), o número de refugiados e deslocados internos superou o recorde de 60 milhões de pessoas. O Relatório considera todos os indivíduos que foram forçosamente deslocados em todo o mundo como resultado de perseguição, conflito, violência generalizada, ou violações de direitos humanos. Estima-se que 34 milhões de pessoas tenham sido deslocadas internamente desde meados de 2015, cerca de 2 milhões a mais que o mesmo período em 2014. O Iêmen, onde uma guerra civil eclodiu em março, registrou o maior número de pessoas recentemente deslocadas em significativos 933.500.

A Síria, desde 2011, tem sido o principal impulsionador do deslocamento em massa, com mais de 4,2 milhões de refugiados sírios tendo fugido para o estrangeiro e 7,6 milhões de deslocados internos no país, desde meados daquele ano, informou a ACNUR. Juntos, os nacionais da Síria e da Ucrânia, onde uma rebelião separatista no leste eclodiu em abril de 2014, são responsáveis por metade das 839.000 pessoas que se tornaram refugiados no primeiro semestre de 2015. A violência no Afeganistão, Somália e Sudão do Sul provocou grandes movimentos de refugiados, bem como conflitos no Burundi, República Centro Africana, República Democrática do Congo e Iraque.

O enorme afluxo de imigrantes causou divergências políticas significativas dentro da União Europeia, com alguns Estados dentro da zona livre de fronteiras de Schengen implementando cercas e reinstituindo controles nas fronteiras. Hungria e a Eslováquia, por exemplo, atualmente tomam medidas legais no Tribunal Europeu de Justiça em desafio aos planos da União Europeia de partilhar os requerentes de asilo entre os Estados da organização. Enquanto isso, os milhares de imigrantes ilegais e refugiados pressionam para obterem  autorização de estabelecerem-se em países mais ricos do norte, como Alemanha e Suécia. A Alemanha registrou a entrada de cerca de 1 milhão de migrantes este ano, mas esse número inclui um grande percentual de pessoas vindas de países da Europa do Leste como dos Balcãs.

O Diretor Geral da Organização Internacional para as Migrações, William Lacy Swing, afirmou que não era suficiente apenas contar os números. “Também devemos agir”, declarou. “A migração deve ser legal, segura e assegurada para todos – tanto para os próprios migrantes como para os países que se tornarão seu novo lar”. A diretora da campanha Save the Children, Kirsty McNeill, declarou à BBC londrina: “Esta é a prova de nosso ideal europeu. Quando crianças estão morrendo à nossa porta temos de tomar medidas mais ousadas. Não pode haver maior prioridade”. O chefe da ONU para refugiados, Antonio Guterres, pediu aos países europeus que reconhecessem as contribuições positivas feitas por refugiados e migrantes e honrassem o que chamou de “valores europeus fundamentais: proteção de vidas, defesa dos direitos humanos e promoção da tolerância e diversidade”.

O fluxo migratório europeu é, contudo, muito mais manejável do que o do Oriente Médio, onde 2.291.900 milhões de refugiados sírios vivem somente na Turquia. No Líbano, 1.070.189 milhões de sírios formam cerca de um quinto da população total do país, enquanto 633.466 de sírios registrados da Jordânia compõem cerca de 15% do total de 4.390.439 refugiados sírios.

A negação de direitos básicos aos refugiados nesses países, onde quase todos os sírios não têm o direito de trabalhar, é uma das causas da crise migratória em direção a Europa. Os refugiados que viveram durante vários anos no limbo legal vão agora em direção ao continente europeu para reivindicarem os direitos a eles concedidos pela Convenção para refugiados da ONU de 1951. Como consequência da Segunda Guerra Mundial, estimadas 12 a 14 milhões de pessoas teriam sido deslocadas, um quinto do total registrado atualmente.

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Imagem Sírios e iraquianos desembarcam em Lesbos, na Grécia, depois de chegarem ao país em um barco de madeira da Turquia em 26 de outubro de 2015” (Fonte Santi Palacios/Associated Press):

http://www.huffingtonpost.com/entry/1-million-refugees-europe_56795c63e4b06fa6887e9522

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

2015 em perspectiva: a crise dos refugiados e os valores republicanos colocados em xeque

Dia após dia, Gäi Nyok descia calmamente do ônibus, por vezes segurando as compras que havia feito no mercado ou somente os seus livros, e tomava o mesmo caminho que o meu. A única diferença era que Nyok subia dois lances de escada a mais, enquanto o meu apartamento ficava no piso térreo.

Orchard Downs era um conjunto de pequenos apartamentos estudantis, demasiado longe do centro urbano, habitado em sua maioria por alunos da pós-graduação da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign. O ano era 2013 e, depois de seguirmos tantas vezes o mesmo caminho, finalmente demos início a uma conversa: a partir daquele momento, o vizinho calmo e quieto se revelaria um sujeito de uma história de vida incrível.

Nyok é, como ele mesmo disse em entrevista a mim neste mês, “filho da guerra”*. Nascido na cidade de Bor, às margens do Rio Nilo, situado hoje no país mais novo do mundo, o Sudão do Sul, sua história de vida é digna de virar um filme hollywoodiano. Na verdade, já virou: “Uma Boa Mentira” é um excelente ponto de partida para aqueles que desejam conhecer um pouco mais a história dos “Garotos Perdidos do Sudão”*.

Em setembro de 2001 – duas semanas somente após os atentados às Torres Gêmeas, em Nova York – Nyok se mudou para os Estados Unidos. Por muito tempo ele e sua família viveram no Campo de Refugiados de Kakuma, no Quênia, depois de terem fugido de sua terra natal após o início da guerra civil sudanesa.

De maneira alguma era uma situação confortável (…)”*, afirma Nyok, ao descrever a sua vida em Kakuma. “(…), mas nós havíamos vivido a guerra e por isso sabíamos que a nossa vida naquele momento era muito melhor do que a daqueles que haviam ficado para trás no Sudão”.

Iniciada por conflitos étnicos, religiosos e políticos, a Guerra Civil do Sudão despertou em 1983, dez anos após o Tratado de Paz de 1972. Na população situada na região sul do Sudão prevalecia a atividade pastoril como principal meio de subsistência. A região apresentava poderio bélico significativamente menor do que a parcela norte, sendo assim, esse conflito foi marcado por uma destruição sem precedentes da população pastoril, que se viu forçada a migrar a fim de garantir a sua sobrevivência.

A destruição estava por toda a parte”*, relata Nyok. Ele e sua família percorreram então centenas de quilômetros até a Etiópia, em busca de um abrigo seguro. Entretanto, o país também vivia intenso conflito armado entre as forças do general Mengistu e a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE), forçando os refugiados sudaneses a migrarem novamente para outro país, dessa vez em direção ao Quênia.

Centenas de milhares de refugiados chegaram ao campo de Kakuma, administrado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Entretanto, somente uma pequena parcela – cerca de 3.600 pessoas – efetivamente tiveram a chance de tentar uma nova vida em países como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália. Entre eles estava Nyok.

Para a nossa sorte, a nossa história (…) recebeu muita atenção nos Estados Unidos e, com isso, o governo dos EUA deu início a um processo de reassentamento, por volta de 1998-1999. Nós todos agarramos a oportunidade. Fomos entrevistados e clinicamente liberado. (…) em 25 de setembro de 2001, eu cheguei Aeroporto Internacional JFK, em Nova York.. O meu sonho havia se transformado em realidade!”*, relata Nyok.

Dois anos após o nosso último encontro, recebo a notícia de que Nyok foi aprovado pelo Serviço de Relações Exteriores dos Estados Unidos para o posto de diplomata norte-americano na Venezuela. A história do menino perdido e migrante, passando pelo estudante de mestrado em economia em umas das melhores universidades norte-americanas, chegando ao posto de diplomata, recebeu nas últimas semanas expressiva atenção na mídia internacional.

Esta atenção, por sua vez, reside na singularidade e quase improbabilidade de deparar-se com um caso como este. A história de vida de Nyok é um retrato na parede e difere-se consideravelmente da situação em que se encontram a ampla maioria dos migrantes ao redor do mundo.

O outro lado da moeda. A cidade de Calais, no norte da França, resume fidedignamente a situação geral a qual se encontra a maioria dos migrantes ao redor do mundo. Expelidos de seus locais de origem por causa de instabilidades sociais e políticas, os refugiados esperam por meses e meses em Calais por uma chance de rumarem ao Reino Unido em busca de melhores condições de vida.

Calais é uma cidade consideravelmente pacata, com pouco mais de 70 mil habitantes, cuja economia está atrelada às atividades portuárias. Se outrora a cidade era conhecida pelo Eurotúnel, atualmente o seu nome está associado com a atual crise migratória e por abrigar um campo de refugiados de 15 hectares e 6 mil pessoas, um dos maiores da Europa, tanto em dimensões quanto em termos populacionais. O campo foi apelidado de “a selva”: o apelido de alguma maneira faz ressoar as condições gerais em que se encontram os que ali habitam.

A fuga rumo ao Reino Unido é uma verdadeira epopeia, onde migrantes devem atravessar o Eurotúnel sorrateiramente dentro de caçambas ou baús de caminhões. Relatos jornalísticos demonstram como a tentativa de fuga é combatida intensamente pela polícia local. Isto porque o Reino Unido é um dos seis países, juntamente com Irlanda, Romênia, Bulgária, Croácia e Chipre, que não pertencem ao Espaço Schengen. Este espaço prevê a livre circulação entre os países membros, mas a sua legitimidade vem sendo muito questionada por autoridades europeias desde a acentuação da crise migratória, no início deste ano.

Assim, refugiados e mais refugiados acumulam-se na “selva” enquanto não conseguem superar os 38 quilômetros que os separam da “terra prometida”. Husham Osman Alzubair era um entre os tantos que ali estavam. Assim como Nyok, Alzubair era sudanês e migrava com o mesmo objetivo: o de salvar a si mesmo.

No entanto, em julho deste ano (2015) o corpo de Alzubair foi encontrado dentro do Eurotúnel, pela polícia inglesa, naquilo que talvez tenha sido uma tentativa fracassada de chegar à Inglaterra.

Nascido na região de Darfur, no Sudão, conhecida pelo processo de desertificação e pelas precárias condições de vida, Alzubair rumava à Inglaterra com dois grandes objetivos claros e pré-definidos: primeiro, o de encontrar parte de sua família que já vive no país; segundo, o de matricular-se em um curso de mestrado em engenharia civil. Objetivos que, infelizmente, não se cumpriram.

Crise Republicana. Quando se busca entender porque Nyok hoje ocupa um alto posto na sociedade estadunidense e Alzubair, seu conterrâneo, está morto, nos deparamos com uma questão profunda e irrequieta: quão forte são os valores republicanos de igualdade, de liberdade e da meritocracia perante a principal crise migratória desde a segunda guerra mundial?

Diversos especialistas já demonstraram que o número de migrantes que as principais potencias mundiais estão dispostas a aceitar é ínfimo se comparado ao fluxo esperado a estes países. O resultado de fronteiras tão restritas são campos de refugiados abarrotados, precariedade no serviço social de apoio aos migrantes e longo tempo de espera pelo aceite – ou rejeição – do pedido de acolhimento.

Do outro lado, quando ingressam, muitos migrantes deparam-se com a exclusão social inevitável de sociedades que falham em acolher tais indivíduos. A exclusão, por sua vez, tende a reforçar-se cada vez mais, à medida que ataques terroristas, como o de Paris no último mês, são utilizados por políticos locais, que a mídia identifica como sendo de extrema direita, como um repertório para reforçar a exclusão social e barrar a entrada de migrantes.

Uma vez que o indivíduo, enquanto agente econômico, não conduz suas atividades produtivas sozinho, mas a partir de um conjunto de relações sociais em que está imerso, a exclusão social reduz os postos de trabalho disponíveis ao migrante. O resultado é um nível de renda significativamente menor se comparado à média da população, consequência da informalidade econômica.

Porém, ainda despontam no território ocidental atores que defendem a abertura de fronteiras, o que é essencial para equilibrar o jogo de forças e ainda manter a esperança de que alguns serão acolhidos.

Em termos utilitários, a migração é defendida por muitas autoridades e especialistas a partir de um conjunto de impactos positivos que traz à economia e à sociedade. Estima-se que, na França, sem a migração, o custo previdenciário aos cofres do Estado passaria de 3% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB); Anthony Edo e Farid Toubal, da Paris School of Economics, apontam em pesquisa recente que, no longo prazo, não há uma redução do salário médio francês devido à entrada de migrantes, como defendem alguns opositores a abertura das fronteiras.

Contudo, mais do que analisar a utilidade que o acolhimento de migrantes oferece a uma nação, a abertura das fronteiras deve ser analisada a partir da ótica dos princípios. A força de valores como a liberdade e a igualdade entre as pessoas, cerne dos Estados modernos ocidentais, são essenciais para a concessão de oportunidades para que os migrantes que chegam a estes países tenham condições suficientes para desenvolver suas capacidades.

Pessoas como Nyok, cuja aprovação no Serviço de Relações Exteriores para o posto de diplomata é a cereja do bolo do desenvolvimento individual, contaram ao longo da vida com oportunidades únicas de mudarem de país, de obterem os documentos básicos, de educarem-se e de inserirem-se no mercado laboral. E é justamente nestes aspectos tão estruturais que reside a gritante diferença de vida entre Nyok e seu conterrâneo Alzubair.

A atual crise dos refugiados, assim, traz o grande desafio aos Estados ocidentais de oferecer tais condições estruturais a uma massa nunca antes presenciada. Acredita-se que, providenciá-lo é um dever republicano e se poderá testemunhar, nos próximos anos, quão fiel a tais valores estes países são. A recompensa de fazê-lo, mais do que aquela medida em termos econômicos, está nos olhos de Nyok quando perguntado sobre as suas expectativas com o mais novo trabalho: “Eu estou muito ansioso pela oportunidade que tenho pela frente, como começar a minha carreira na Venezuela. Eu sinto que será um ótimo lugar para eu expandir os meus conhecimentos e para o meu desenvolvimento pessoal”*, afirmou o ex-refugiado e hoje diplomata pelos Estados Unidos. Acreditam os observadores que, se histórias com a de Nyok deixarem de existir por causa da atual política migratória, com elas também estarão extintos os valores republicanos.

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Imagem (FonteLibération):

http://www.liberation.fr/societe/2015/12/08/calais-un-migrant-soudanais-est-mort-poignarde-dans-la-jungle_1419142

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* ANEXOENTREVISTA CONCEDIDA

ORIGINAL

1) First of all, could you tell me a little a bit about the place you born and the general life conditions there?

R: I was born in 1986 in the outskirts of Bor, a town along the Nile River in what has now become the Republic of South Sudan. Like most people in rural areas of the country, we were pastoral farmers. My family farmed and raised cattle. Cattle were the source of wealth for everyone. Prestige was derived from the herds of cattle a family has. When a young man marries, his wealth (and therefore the dowry) would be measured in the number of cattle his family is able to muster and give to the bride’s family. Life was simple, straightforward, and peaceful. It had been like this for centuries. Even though the British had ruled Sudan during the colonial era, many communities in southern Sudan (again, the Republic of South Sudan) were unaffected. Only a few kids went to school. Most children followed in the family business–farming and raising cattle. But as colonial structures crumble in the 1950s, the British left in haste and Sudan was granted independence. The country was, however, fragmented along political, religious and cultural fault lines. The government and its institutions were left in the hand of Northerners. Conversely, Southerners felt marginalized and, soon after, formed a rebel movement in 1955. The war rages but seventeen years later in 1972, a peace agreement was signed between the government of Sudan and the rebels of Southern Sudan. This peace would last only ten years and in 1983 another war broke out. This time Southern Sudan became the battleground. Our villages in the hinterlands of Southern Sudan would be engulfed in war. Destruction was everywhere. I was therefore forced to flee and seek refuge in Ethiopia in 1991. Here we found a brief respite but the Ethiopian civil war reached in its climax around that time. We were caught yet again in another brutal civil war. The Ethiopian government of Mengistu Haile Mariam was overthrown in 1992. We were on the run once again. We crossed into Southern Sudan but the war still raged, so we made our way into Kenya, settling in Kakuma Refugee Camp in Kenya, where we were housed, fed, clothed, and provided education by the UN and its agencies (UNCHCR, WFP, UNICEF, etc.).

2) How did you manage to move out from Sudan and go to the United States?

R: After we settled in the refugee camp, things returned to normal. The UN provided us with food, shelter, clothing, and education. It was by no means comfortable living, but we had known war and life for us now  was way better than for those that had remained in Southern Sudan. We took advantage of the education afforded us. We were talked English and other general education courses such as mathematics, chemistry, history and government, among many others. We could take classes from first grade to 12th grade, the end of the road for our education. Those that attain this level would then find jobs as teachers of lower levels, such as primary schools, etc. But we had bigger dreams and war was not ending back in Sudan. So we shift our eyes and hope to the West, in particular the United States, Australia, and Canada (these countries were known at the time to accept refugees). Luckily for us, our story—that of the Lost Boys of Sudan—received attention in the United States and the U.S government started the resettlement process around 1998-1999. We all jumped at the opportunity.  We were interviewed and medically cleared. The process took about two years. I was supposed to fly out of Kakuma Refugee Camp on September 15th, 2001 but the 9/11 terrorist attack happened. My flight was canceled. I would fly out the following week and on September 25th, 2001; I arrive at JFK International Airport in New York City. My dream had come to life!

Once I came to the U.S, I enrolled in High school in 2002.  I knew how lucky I was to be in such a position. I did not wanted to throw it away, so I put tremendous effort in my academic performance. My education in Kenya had sufficiently prepared me to be competent in the classroom. I had only finished six (6) years of school in Kenya, but when I came to the United States, I enrolled in ninth (9th) grade. This meant that I skipped three years of school. So I am very grateful for the education I received in Kenya. This was the foundation for all the things that I have been able to accomplish in the United States.

3) Do you still keep in touch with old friends/family that stayed in Sudan? If you do it, how would you describe the general conditions of their life, especially the people from your age?

R: The technology of mobile phones and social media has been very crucial for someone like me that is far away from friends and family. My mother and older sister have stayed behind in Africa. Many of my friends also stayed behind. But we are able to stay in touch because some of them have access (though intermittently) to mobile phones and other social media. (Mobile phones are big in Africa.)  Many of them were able to finish their high school studies in Kenya and have now gone back to South Sudan to make a living, since the civil war has ended as of 2005 (even though the country remains very unstable). Moreover, some of my friends and distant cousins have made it to Australia and have started anew there. We are literally everywhere. We are children of war, after all!

4) Finally, what are your expectations about your future work in Venezuela?

R: I very much look forward to the opportunities that lie ahead as I start off my career in Venezuela. I feel that it will be a great place for me to expand my knowledge and develop as a person.

Well, that is it my friend. Again, thank you very much for answer them.

Best Regards,
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TRADUÇÃO (Pedro Frizo)

1) Primeiramente, você poderia me dizer um pouco sobre o lugar em que você nasceu e as condições gerais de vida lá?

R: Eu nasci em 1986 na periferia de Bor, uma cidade ao longo do rio Nilo, no que agora se tornou a República do Sudão do Sul. Como a maioria das pessoas em áreas rurais do país, que eram agricultores pastorais. Minha família criava gado. O gado era a fonte de riqueza para todos. O prestígio era derivado dos rebanhos de gado que uma família tinha. Quando um jovem se casa, sua riqueza (e, portanto, o dote) seria medido no número de gado que sua família é capaz de reunir e dar à família da noiva. A vida era simples, direta e pacífica. Tinha sido assim durante séculos. Mesmo que os britânicos tivessem governado Sudão durante a era colonial, muitas comunidades no sul do Sudão (novamente, a República do Sudão do Sul) não foram afetadas. Apenas algumas crianças iam para a escola. A maior parte delas seguiam com os negócios da família – agricultura e criação de gado. Mas, assim que as estruturas coloniais desintegraram-se na década de 1950, os britânicos deixaram o Sudão e foi concedido a independência. O país foi, no entanto, fragmentado por linhas de falhas políticas, religiosas e culturais. O governo e suas instituições foram deixados na mão de nortistas. Por outro lado, os sulistas se sentiam marginalizados e, logo depois, formou um movimento rebelde em 1955. As raivas de guerra, mas dezessete anos mais tarde, em 1972, foi assinado um acordo de paz entre o governo do Sudão e os rebeldes do sul do Sudão. Esta paz duraria apenas dez anos e, em 1983, uma nova guerra eclodiu. Desta vez, o Sudão do Sul tornou-se o campo de batalha. Nossas aldeias do interior do Sul do Sudão seria envolvido pela guerra. Destruição estava em toda parte. Eu, então, fui obrigado a fugir e procurar refúgio na Etiópia, em 1991. Aqui encontramos uma breve pausa, mas a guerra civil etíope alcançou seu clímax em torno daquele ano. Nós fomos pegos novamente em outra guerra civil brutal. O governo etíope de Mengistu Haile Mariam foi derrubado em 1992. Nós estávamos na corrida mais uma vez. Nós cruzamos para o Sudão do Sul, mas a guerra ainda acontecia, então fizemos o nosso caminho para o Quênia, fixando-nos no Campo de Refugiados de Kakuma, onde estávamos alojados, alimentados, vestidos, e provida educação pela ONU e suas agências (UNCHCR, o PAM, UNICEF, etc.).

2)  Como se deu a sua mudança do campo de refugiados para os Estados Unidos?

R: Depois que nós nos estabelecemos no campo de refugiados, as coisas voltaram ao normal. A ONU nos forneceu comida, abrigo, roupas e educação. De maneira alguma era uma situação confortável, mas nós havíamos vivido a guerra e, por isso, sabíamos que a nossa vida naquele momento era muito melhor [do que a] daqueles que haviam ficado para trás no Sudão do Sul. Nós aproveitamos da educação que nos foi oferecida. A nós era ensinado o inglês e outras disciplinas, como matemática, química, história e governo, entre outras. Nós podíamos ter aulas desde a primeira série até a 12° série, o fim da estada para a nossa educação. Aqueles que lograssem atingir este nível encontravam emprego como professores dos níveis mais baixos, tais como em escolas primárias etc. Mas, nós tínhamos sonhos maiores e a guerra ainda não havia acabado no Sudão.

Então, nós viramos os nossos olhos para o Oeste, em particular para os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá (estes países eram conhecidos na época por aceitar refugiados). Para a nossa sorte, a nossa história, a dos Garotos Perdidos do Sudão, recebeu muita atenção nos Estados Unidos e, com isso, o governo dos EUA deu início a um processo de reassentamento, por volta de 1998-1999. Todos nós agarramos a oportunidade. Fomos entrevistados e clinicamente liberado. O processo levou cerca de dois anos. Era para eu voar para fora do campo de refugiados de Kakuma, em 15 de setembro de 2001, mas o 9/11 ataque terrorista aconteceu. Meu voo foi cancelado. Eu voaria na semana seguinte e, em 25 de setembro de 2001, eu cheguei no Aeroporto Internacional JFK, em Nova York. O meu sonho havia se transformado em realidade!

Quando eu cheguei nos Estados Unidos, eu me matriculei no colegial, em 2002. Eu sabia quão sortudo eu era em estar em tal posição. Eu não queria jogá-lo fora, então coloquei tremendo esforço na minha performance acadêmica. A minha educação no Quênia me preparou o suficiente para ser alguém competente na sala de aula. Eu havia terminado seis (6) anos da escola no Quênia, mas quando eu vim para os Estados Unidos eu me matriculei na nona (9a) série. Isso significou que eu pulei três anos de escola. Portanto, eu sou muito grato à educação que recebi no Quênia. Esta foi a fundação para todas as coisas que eu tenho sido capaz de realizar nos Estados Unidos.

3) Você ainda tem contato com antigos amigos e familiares que ficaram no Quênia? Se sim, como você descreveria as condições gerais de vida deles, especificamente das pessoas da sua idade?

R: A tecnologia dos telefones celulares e a mídia social estão sendo cruciais para pessoas como eu, que vivem longe de seus amigos e familiares. A minha mãe e a minha irmã mais velha ficaram para trás na África. Muitos dos meus amigos também ficaram para trás. Mas, nós podemos nos contatar, porque alguns deles têm acesso (apesar de intermitente) à celulares e a mídia social (celulares são grandes na África). Muitos deles conseguiram terminar os seus estudos secundários e voltaram para o Sudão do Sul, desde que a guerra acabou em 2005 (ainda que o país permanece muito instável). Além disso, alguns dos meus amigos e primos distantes foram para a Austrália e começaram uma nova vida por lá. Nós estamos literalmente em todas as partes. Afinal, nós somos filhos da guerra!

4) Por fim, quais são as suas expectativas sobre o seu futuro trabalho na Venezuela?

R: Eu estou muito ansioso pelas oportunidade que temos pela frente, como começar a minha carreira na Venezuela. Eu sinto que será um ótimo lugar para eu expandir os meus conhecimentos e para o meu desenvolvimento pessoal.