ANÁLISES DE CONJUNTURAEsporte

China investirá bilhões em cidade para E-Sports

O mercado dos esportes eletrônicos, conhecidos popularmente como e-Sports, tem crescido exponencialmente com um número cada vez maior de jogadores, surgimento de novos campeonatos locais e internacionais, bem como o aumento expressivo nos prêmios distribuídos para os vencedores.

Esta projeção também foi bastante alavancada pela inclusão dos e-Sports como modalidade demonstrativa na edição de 2018 dos Jogos Asiáticos, em Jacarta, onde a China saiu como grande campeã em League of Legends (LOL) e Arena of Valor, além de figurar na segunda posição em Clash Royale.

De acordo com uma matéria publicada pela revista Forbes, a indústria dos esportes eletrônicos deve arrecadar cerca de US$ 1,65 bilhão[1] até 2021 ao redor do mundo, oriundos de ingressos de partidas, patrocínio, anunciantes, compradores de conteúdo, direitos de mídia etc.. Sozinha, a China é responsável por 18% destas entradas.

Diante do panorama, o governo chinês anunciou o investimento bilionário no valor de US$ 2,22 bilhões[2] no setor de infraestrutura na cidade de Hangzhou e promete finalizar as obras até 2022, ano em que Hangzhou irá sediar a próxima edição dos Jogos Asiáticos – a primeira em que os e-Sports serão considerados modalidades oficiais da competição, valendo medalhas.

Campeonato Mundial de LOL, um torneio conhecido por rodar diferentes cidades entre os maiores países a cada ano

O novo complexo na “cidade dos jogos eletrônicos” terá 14 novas instalações voltadas para a prática do esporte, distribuídos em 17.000 metros quadrados. Dentre as novidades estarão um hotel temático, hospital para os jogadores, centro acadêmico de e-Sports, business center e até mesmo um parque de diversões. A expectativa do governo é atrair cerca de 10.000 aspirantes a jogadores, gerando uma receita fiscal de US$ 140 milhões[3].

Os números levantados pela Unibet traduzem este processo que transformou os games – do hobby à profissão regulamentada – na última década, atraindo novos jogadores e espectadores ao redor do mundo. Segundo o relatório, a final de League of Legends de 2016 foi assistida por mais pessoas do que o último jogo das finais da NBA (36 milhões de dólares em comparação com 31 milhões)[4]. As cifras das premiações concedidas aos times vencedores também cresceram vertiginosamente, chegando a quadruplicar, comparando os anos de 2013 (US$ 21,4 milhões ) e 2016 (US$ 93,3 milhões)[5].

Apesar de ser superada pelos Estados Unidos da América (EUA) em número de jogadores em atividade – 2.891 contra 1.001 em 2016 –, a China defende sua supremacia absoluta em competições de e-Sports pelo período de 5 anos, chegando a somar US$ 19,348,915.00[6] em prêmios em 2016 (contra US$ 14,703,143.00[7] dos EUA, o segundo no ranking). Historicamente, esta vantagem financeira permanece a favor dos times chineses, que totalizaram US$ 52,5 milhões[8], em face aos US$ 47,9 milhões dos EUA (2016)[9].

No que tange ao jogo mais lucrativo, Dota 2 dispara na frente dos concorrentes no gráfico dos jogadores que mais faturam, anotando “71 dos 100 melhores jogadores, dos quais 29 são da China. As equipes chinesas ficaram em primeiro ou segundo lugar nas duas últimas competições internacionais, garantindo ao país mais de US$ 18 milhões[10] somente com as quatro colocações de equipe”.

The International (2012): a grande final entre Na’Vi (esquerda) e iG (direita)

Vale ressaltar a faixa etária dos jogadores: três atletas da equipe campeã do torneio de 2016 tinham apenas 21 anos à época da disputa. Sem embargo, a idade média em que os jogadores profissionais chegam ao ápice financeiro é de 25 anos. Após esta marca, nota-se uma leve queda no gráfico, acentuada na faixa entre 31 e 33 anos, voltando a subir entre 34 e 36 anos.

Por fim, o retorno de todo este investimento do governo chinês parece estar muito bem planejado: além da atração dos 10.000 novos jogadores mencionada anteriormente, pretende-se contar com mais 2 milhões de turistas, 1.000 empresas e instituições voltadas ao e-Sports, bem como a organização de 1.000 competições da modalidade até 2022. Desta forma, o país asiático larga na frente em direção a se tornar um ícone e se consolidar ainda mais como referência internacional ao ser o primeiro a lançar mão de uma cidade projetada aos e-Sports.

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Notas:

[1] O cálculo aproximado em reais tem como cotação Dólar – Real a relação de: U$ 1.00 para cada RS$ 3,65770, usando a cotação de 1o de fevereiro de 2019. O valor, de 1,65 bilhão de dólares corresponde a pouco mais de 6 bilhões de reais. Doravante, todas correspondências em Reais seguirão a mesma cotação.

[2] Cerca de 8,10 bilhões de reais.

[3] 512 milhões de reais, aproximadamente.

[4] R$ 131.677.000,00 e R$ 113.389.000,00, respectivamente.

[5] Aproximadamente, R$ 78.274.800,00 e R$ 341.263.000,00, respectivamente.

[6] Próximos de R$ 70.772.500,00, na cotação citada.

[7] Em torno de R$ 53.779.700,00, seguindo a mesma cotação.

[8] Aproximadamente, R$ 192.029.000,00.

[9] Próximos de R$ 175.204.000,00.

[10] Ao redor de R$ 65.838.600,00.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Centro de Convenções Internacionais de Hangzhou, China”(Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/96/Hangzhou_conference_center_night.jpg/1024px-Hangzhou_conference_center_night.jpg

Imagem 2 “Campeonato Mundial de LOL, um torneio conhecido por rodar diferentes cidades entre os maiores países a cada ano” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c0/LOL2016WorldsFinalsArena.jpg

Imagem 3 “The International (2012): a grande final entre NaVi (esquerda) e iG (direita)” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/ab/The_International_2012.jpg/1024px-The_International_2012.jpg

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Migração Esportiva: um estudo de caso sobre Wilson L. Erupe

São diversos os motivos que justificam o movimento migratório transnacional, como guerras, pobreza extrema, divergências políticas, entre outros. Existe, ainda que em menor representatividade para o fluxo total*, um fenômeno que vem ganhando bastante evidência neste século: a migração esportiva e, posteriormente, a cidadanização de imigrantes.

O esporte, entendido como instrumento de união e um dos elementos formadores de identidade nacional, enfrenta um duplo desafio ao acolher e oferecer as melhores condições para os esportistas imigrantes, que almejam representar sua nova bandeira, à medida que é necessário estabelecer um vínculo destes com a população nacional, a fim de criar uma situação de empatia.

Logo oficial da ASPIRE Sports Trust

Muitos são os esforços para desenvolver e aplicar estratégias de inclusão social para os imigrantes envolvendo o esporte. Figurando entre os principais destinos migratórios, a Europa, por meio do Comitê Olímpico Europeu, comemorou o último Dia Internacional do Migrante (18 de dezembro de 2018) com eventos esportivos e reiterou a importância do programa ASPIRE, um projeto colaborativo desportivo internacional de longo prazo, que foca sua atuação no poder inclusivo dos esportes e da atividade física.

As críticas em torno deste assunto, no entanto, concentram-se no princípio denominado “comercialização da cidadania”, onde se defende que os reais interesses para a imigração de atletas seriam meramente econômicos – visando apenas vantagens lucrativas do ponto de vista esportivo –, assim como o nacionalismo correria o risco de perder seu prestígio com a banalização da condição de cidadão.

Recentemente, um caso de dupla cidadania tomou a mídia e foi tema polêmico para os especialistas. Wilson Loyanae Erupe, nascido em 1988 na cidade de Lodwar, Quênia, finalmente obteve passaporte sul-coreano após três anos competindo pelo país e duas tentativas formais (sendo a primeira em abril de 2016). 

O maratonista também mudou seu nome, e passará a se chamar Oh JooHan, que em tradução livre para o português significa “Eu corro pela Coreia”. Os sobrenomes sul coreanos estão associados aos clãs de seus familiares ancestrais, com mais de centenas de anos, bem como às regiões de origem. Como não possui este tipo de vínculo, Oh elegeu Cheongyang para representar, já que o atleta treina desde 2015 neste condado, ao sul de Chungcheong.

Wilson Loyanae Erupe cruzando a linha de chegada em maratona na cidade de Seul (2012)

Dotado de um “talento excepcional”, Joo-Han possui marcas impressionantes, apesar de ter sido suspenso por dois anos em 2013 por testar positivo para doping. Ele ganhou a Maratona Internacional de Gyeongju em 2011, 2012 e 2015 e a Maratona Internacional de Seul em 2012, 2015, 2016 e 2018. Seu melhor tempo é de 2:05:13, em Seul, no dia 20 de março de 2016.

Repleto de controvérsias, o título de cidadão sul-coreano para Oh Joo-Han divide a comunidade de atletismo local e internacional. Por um lado, há os que defendem o fortalecimento da equipe nacional com a “importação de estrangeiros destacados em competições oficiais – considerando que a modalidade masculina nacional encontrava-se estagnada desde 2011, com marcas acima de 2:10:00 –, uma vez que suas experiências poderiam ajudar a desenvolver a técnica dos demais membros do time. Por outro lado, este fluxo migratório especializado é acusado de desestimular os atletas aspirantes nascidos na Coreia do Sul, uma vez que a concorrência para chegar à elite teria seu nível elevado.

Diante deste cenário, a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) publicou uma regulamentação no dia 27 de julho de 2018 que, dentre outras matérias, restringe a atividade do atleta que protocolar o pedido de transferência de representatividade para outro membro (país), devendo o mesmo aguardar um período de três anos para competir oficialmente. Esta medida torna Oh Joo-Han automaticamente inelegível para os Jogos Olímpicos de 2020, frustrando a expectativa do Comitê Olímpico da Coreia do Sul de reforçar sua equipe de atletismo.

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Nota:

* Em um recorte histórico após a Segunda Guerra Mundial, estima-se que os atletas olímpicos que trocaram a nacionalidade passaram de 5% para 9%.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O estádio público é o local de chegada da Maratona Internacional de Gyeongju” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/86/Korea-2008_Gyeongju_Citizens%27_Athletics_Festival-Track_and_field-02.jpg/1024px-Korea-2008_Gyeongju_Citizens%27_Athletics_Festival-Track_and_field-02.jpg

Imagem 2 “Logo oficial da ASPIRE Sports Trust” (Fonte): https://aspiresportstrust.org/wp-content/uploads/2015/06/aspiresportstrust.png

Imagem 3 “Wilson Loyanae Erupe cruzando a linha de chegada em maratona na cidade de Seul (2012)” (Fonte): http://livedoor.blogimg.jp/dope_impact/imgs/4/5/45af518d.jpg