ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O Desastre Aéreo da Ukraine International Airlines

Um grave acidente aconteceu em 8 de janeiro, aproximadamente à meia-noite (horário de Brasília)*, no aeroporto Imam Khomeini, no Irã. O voo PS752 da companhia aérea Ukraine International Airlines (UIA) com destino a Kiev foi alvejado a cerca de 30 km ao sul de Teerã. 176 pessoas faleceram, sendo 167 passageiros e 9 tripulantes de sete países: 82 iranianos, 63 canadenses (a sua maioria com dupla nacionalidade, canadense e iraniana), 10 suecos, 4 afegãos, 3 britânicos e 11 ucranianos (incluindo a tripulação). A aeronave, um Boeing 737-800 com a matrícula UR-PSR, tinha três anos de uso, embora esse tempo, em si, não seja considerado um fator preponderante para avaliar as condições de segurança da mesma.

A narrativa iraniana

As primeiras imagens do local do acidente mostraram danos na fuselagem, cujas avarias ocorreram antes do choque do avião com o solo. Em vídeo publicado logo após o acidente é possível ver o avião em chamas ainda no ar. Não havia como Teerã negar mais que alvejou o Boeing. Em 11 de janeiro, o governo iraniano admite erro humano na operação do sistema de defesa. A justificativa do governo se deu porque a aeronave teria se voltado para um “centro militar sensível” da Guarda Revolucionária Islâmica. As tensões ocorridas com os EUA deixaram as forças armadas iranianas em seu mais alto nível de prontidão e serviram de justificativa para o Ministro das Relações Exteriores, Javad Zarif, que declarou: “Um erro humano em tempos de crise causada pelo aventureirismo americano levou ao desastre (…) nosso profundo pesar, desculpas e condolências ao nosso povo, às famílias de todas as vítimas e a outras nações afetadas”.

Erro e reconhecimento

Apesar de não ser algo corriqueiro, acidentes fatais e tragédias em guerras são mais comuns do que se imagina. Os EUA, p.ex., durante a Guerra Irã-Iraque em 1988 abateram um avião comercial proveniente do Irã, um Airbus A300 da Iran Air, com destino a Dubai, com 290 passageiros. Este e outros casos foram reconhecidos como erros humanos, justificados em meio à tensão da guerra. O mais recente que também envolveu a Ucrânia foi o MH17 da Malásia Airlines, abatido em 2014 quando voava de Amsterdã a Kuala Lumpur. Assim como os iranianos hoje, os russos inicialmente rejeitaram as acusações de que o míssil utilizado tinha sua procedência, enquanto que o governo ucraniano acusava os rebeldes do Donbass, apoiados por Moscou, de derrubar a aeronave. Mas, diferentemente do governo iraniano que assumiu seu erro posteriormente, as autoridades russas ainda negam qualquer envolvimento e se recusam a participar das investigações. Esta é outra característica desses casos, mesmo em países com alto grau de transparência pública e respeito à atividade jornalística, as investigações nem sempre resultam em consenso.

Antecedentes, repercussões e consequências

Justin Trudeau, Primeiro-Ministro do Canadá, segundo país com a maioria das vítimas no voo, pediu respostas às suas famílias; Volodymyr Zelensky,Presidente da Ucrânia, exigiu um pedido de desculpas com total responsabilização pela tragédia, bem como indenização para os familiares; e Hassan Rouhani, Presidente do Irã, classificou o ocorrido como “erro imperdoável” e afirmou que as investigações irão continuar. Mas, se por um lado, o Líder Supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, também assumiu o erro de seu país, por outro defendeu a atuação da Guarda Revolucionária, responsável pelo ataque, porque “manteve a segurança” do Irã.

No início do ano (2020), o conflito entre EUA e Irã após a morte de Qassam Suleimani, o chefe da Guarda Revolucionária do Irã, o braço armado do regime dos aiatolás, foi um duro golpe na hierarquia de comando do país, o que levou à retaliação de Teerã lançando mísseis contra bases americanas no país vizinho, o Iraque. Em meio a essa tensão e esperando a possível retaliação americana na capital iraniana, o oficial responsável pela defesa provavelmente se equivocou atirando em uma aeronave, cujo padrão de voo não correspondia a um procedimento de ataque.

Cabe lembrar que o governo iraniano foi alvo de uma série de protestos iniciada em novembro de 2019 contra a situação econômica, aumento do preço dos combustíveis, a corrupção e, também, contra a própria República Islâmica. As manifestações foram duramente reprimidas e deixaram, pelo menos, 180 mortos. Nesse contexto, a queda do avião com a morte de passageiros, inclusive iranianos e outros com dupla nacionalidade também iraniana, serviu como um revival de motivos pelos quais o governo atual do país não defenderia e, portanto, também não representaria sua população, o que realmente levou a novos protestos. Além dos motivos reconhecidos acima, há um sentimento geral anti-governista que se expande coma disseminação de teorias as mais variadas, inclusive de claro teor conspiratório: “O assassinato de Soleimani foi um verdadeiro choque para nós. Ele foi o herói da Revolução Islâmica. E agora existem muitas teorias sobre sua morte – alguns até acreditam que foi planejado. O sentimento se intensificou quando se soube que o Irã havia alertado sobre sua resposta. Diz-se que essa morte desviou a atenção dos assassinatos de manifestantes em novembro durante comícios contra o aumento dos preços dos combustíveis”.

Se a repercussão política deste acidente afetou Teerã, o mesmo ocorreu com Kiev. Enquanto o Ocidente protestava e acusava o Irã pelo feito, o governo ucraniano manteve prudência em não endossar, inicialmente, a versão do míssil, postura essa que, em meio a toda tensão, obviamente lhe trouxe críticas por seu silêncio. Após tantos revezes com o Irã se recusando a entregar a caixa preta da aeronave e não ter isolado a área da queda, foi proposta uma indenização de 80.000 dólares (aproximadamente 347.773 reais, no câmbio de 14 de fevereiro de 2020) às famílias dos passageiros. Zelensky considerou a quantia insuficiente e as relações entre os países têm se deteriorado. O vazamento de um áudio entre o aeroporto e o piloto do Boeing foi considerado como um dos motivos desta piora na cooperação entre os dois países. Segundo Hassan Rezaifar, diretor de investigação de desastres da Organização de Aviação Civil Iraniana, “Este arquivo foi um dos materiais fornecidos a um painel de especialistas que investigou o desastre. [A publicação do arquivo de áudio] pelo lado ucraniano indica que não iremos mais repassar nenhum material para eles”.

Fissura na aliança com o Ocidente

E como se isso não bastasse, fissuras podem surgir entre a Ucrânia e seus aliados ocidentais, devido à sonegação de informações. Após Zelensky ter sido envolvido em um escândalo por Donald Trump contra seu potencial rival, Joe Biden,também foi pego de surpresa quando autoridades americanas vieram a público em 10 de janeiro, com informações não disponibilizadas aos ucranianos. Pavlo Klimkin, ex-ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, relatou que as autoridades ocidentais têm falhado no compartilhamento de informações com Kiev: “‘Perdemos nosso avião, perdemos nossos cidadãos’, Sr. Klimkin disse. ‘É claro que queremos que nossos amigos estejam conosco neste momento importante no sentido de compartilhar informações, no sentido de solidariedade, no sentido de simplesmente trabalhar juntos’”.

Apesar de autoridades americanas e ucranianas tentarem abafar o atrito que se formava, Anatoliy Hrytsenko, ex-Ministro da Defesa ucraniano, insinuou que a tragédia poderia estar sendo usada politicamente pelos países ocidentais: “‘Os líderes ocidentais precisam nos fornecer essas descobertas de inteligência’, disse o Sr. Hrytsenko. ‘Se assumimos o pior e eles não fazem isso, surge um grande ponto de interrogação: trata-se realmente de determinar a causa de um acidente de avião ou agora é geopolítica?’”.

Zelensky em cerimônia de homenagem aos mortos do voo PS752

A tragédia e o simbolismo político

Ainda é cedo para dizer como o presidente Zelensky se sairá dessa, com uma melhor ou pior leitura por parte de cidadãos ucranianos, mas sabe-se que além da verdade, a política conta com a propaganda, a interpretação que se dissemina entre o eleitorado e, também, muito importante, o timing das ações adotadas. Enquanto Volodymyr Zelensky assinava um Decreto de luto oficial pelas 176 vítimas do voo 737-800 da Ukraine International Airlines, com suas bandeiras hasteadas a meio mastro nos prédios das autoridades estatais e agências locais de governo, empresas, instituições e demais organizações de estado, ainda se acreditava na versão de falha do motor da aeronave. Mas a circulação de notícias na internet é rápida, as primeiras fotos, ainda não certificadas, indicavam que o avião pudesse ter sido abatido por um míssil, cujos destroços se encontravam na cidade de Parand, a cerca de 46,6 km de Teerã.

O sistema de defesa que provavelmente abateu o avião da UIA foi o Tor-M1 9K331, de fabricação russa e usado pela Guarda Revolucionária do Irã. Para quem acompanha a política ucraniana, sabe-se que a oposição ao presidente Zelensky é fortemente anti-russa. O significado desta ação pode ser transmutado simbolicamente pelos seus opositores como uma extensão do braço russo contra ucranianos. É bom lembrar que este sentimento nacionalista foi um peso contra a reeleição de seu antigo rival, Petro Poroshenko, e até então esta era a vantagem de Volodymyr Zelensky, cuja mensagem de união e tolerância entre os diferentes povos que compõem a Ucrânia tem sido vista como um antídoto contra o divisionismo, a segregação e o preconceito. A questão que emerge é saber até quando este ativo político irá durar, se mesmo eventos aleatórios são utilizados como anti-marketing, não só de seus opositores contumazes, mas, também, de aliados como os Estados Unidos, ao não agirem com total transparência com Kiev.

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Notas:

* Especificamente às 23:42 minutos do dia anterior, 7 de janeiro de 2019, enquanto que já eram 06:12 do dia seguinte, 8 de janeiro de 2019, em Teerã.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Boeing 737800 da Ukraine International Airlines” (Fonte):

Автор: BrunoA380: http://www.plane-mad.com/aviation-photos/view/ukraine-international-airlines/boeing-737-800/paris-charles-de-gaulle/54087.html,

CC BY-SA 4.0: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=50664635

Imagem 2 Zelensky em cerimônia de homenagem aos mortos do voo PS752” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Meeting_Bodies_of_Ukrainian_Citizens_from_PS752_in_Boryspil_International_Airport_56.jpg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Desigualdade e agitação social e política na América do Sul

A América do Sul desponta como uma das regiões politicamente mais efusivas do mundo. Protestos em larga escala e mudanças nos rumos políticos em importantes países mergulham o continente em um estado de difícil previsão sobre as conjunturas institucionais futuras para a região.

A partir do prisma da economia regional, a agitação social e política que marcam nações como o Chile, Equador e Bolívia, bem como a eleição de Alberto Fernandez na Argentina, pode ser lida a partir de uma análise sobre o ritmo de crescimento e desenvolvimento econômico dos últimos anos. Neste sentido, compreender a evolução da economia sulamericana entre 2010 e 2020 é essencial para, minimamente, dar conta de capturar a gênese de suas discussões políticas mais relevantes neste contexto geográfico.

De acordo com relatório publicado pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) em dezembro do ano passado (2019), o período de 2014 a 2020 será o de menor crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para a região nas últimas sete décadas. Embora os dados dos anos de 2019 e 2020 ainda estejam porvir, a previsão anunciada pela Secretária-Executiva da CEPAL, Alicia Bárcena, é de que o continente cresça, em média, 0,1% e 1,3% em 2019 e 2020, respectivamente. Se confirmados estes valores, o período de 2014 a 2020 registrará um avanço médio no PIB de somente 0,5% ao ano.

A partir do registro histórico do crescimento econômico para os países sulamericanos e caribenhos, levantado pela própria CEPAL, é possível observar que a taxa de 0,5% é expressivamente inferior à menor que havia sido registrada até agora – referente ao intervalo de 1986-1992, momento em que os países da região presenciaram um avanço anual médio no PIB de 2,2%. Os anos “gloriosos” de crescimento, por sua vez, foi o período entre 1951 e 1978, quando a taxa média anual esteve em 5,5%. Embora alguns países do continente vivenciem, atualmente, intensa desaceleração econômica, tal como a Venezuela e a Nicarágua, podendo pesar a média continental para baixo, o valor registrado para 2014-2020 não é mera casualidade, mas, sim, um sintoma efetivo de um esgotamento sistêmico no modelo de crescimento adotado pelas nações.

Obviamente, a desaceleração das economias não pode ser apontada como único fator causal para os diferentes casos de manifestação social e política que se espraiaram pelo continente, especialmente a partir do final do ano passado. A Bolívia, por exemplo, que teve o seu ex-Presidente eleito Evo Morales deposto no final de 2019, foi um dos países que mais cresceram nos últimos anos – de acordo com dados do Banco Mundial, o PIB nominal boliviano, entre 2008 e 2018, avançou 141%. Dessa maneira, é importante levar em consideração que disputas políticas entre diferentes coalizões de poder apresentam uma dinâmica interna e institucional própria, constituindo-se assim como relevante dimensão explicativa a possíveis câmbios no jogo político.

CEPAL discute o futuro das economias sulamericanas dado o atual contexto de desaceleração econômica e altos níveis de desigualdade

Da mesma forma, não basta evidenciar o claro processo de desaceleração econômica no continente como único vetor fundamental nas mudanças significativas no rumo das nações sul-americanas. Compreender esta relação de interdependência passa por uma análise atenta à distribuição dos rendimentos e benefícios econômicos entre diferentes estratos da população. Ou seja, uma leitura completa sobre o impacto da economia na política do continente deve levar em consideração a evolução nas taxas de desigualdade socioeconômica.

De acordo com a organização não-governamental Oxfam, a América do Sul é uma das regiões mais desiguais de todo o planeta. Segundo a sua calculadora da desigualdade, os dados são alarmantes. No Peru, por exemplo, a renda de um multimilionário é 795 vezes maior do que 20% da camada mais pobre da população peruana; na Colômbia, esta proporção é de 880 vezes, ao passo que no Brasil é de 914 vezes (fazendo do país, nestes termos, o mais desigual do continente). No Equador, país que presenciou intensa manifestação dos povos indígenas contra o governo de Lenín Moreno, a fortuna dos 280 multimilionários que existem no país supera em 7,8 vezes o investimento público em educação. Enquanto isso, o Chile, onde persiste reivindicações populares em prol de um acesso mais amplo e igualitário aos sistemas educativos e de saúde pública, uma pessoa em condição de pobreza teria que trabalhar 103 anos para ganhar por mês o mesmo que um multimilionário.

A expressiva desigualdade de renda entre as diferentes classes dos países sulamericanos demonstra que o modelo econômico da maioria dos países da região tem falhado em elevar o nível de rendimentos de todos os estratos sociais. Neste sentido, analistas argumentam que a crença de formuladores de políticas públicas no “efeito gotejamento” (trickle-down effect) – onde crê-se que um crescimento quantitativo do PIB produz um efeito encadeado na elevação das condições de vida das classes mais pobres – se fez totalmente infundada mediante a ausência, em boa parte das nações, de ações estruturadas de distribuição de renda, tributação de grandes fortunas e implementação de políticas públicas de acesso gratuito à educação, saúde e ao sistema de seguridade social.

Para o economista e ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2001, Joseph Stiglitz, a intensa agitação política no continente é produto de uma desigualdade estrutural e histórica, bem como de “déficits democráticos” em termos de acesso a espaços de participação social e construção coletiva de políticas públicas. Neste sentido, compreender politicamente o continente passa por entender as diferenças de renda e oportunidades entre os estratos sociais. “Historicamente, a América tem um alto nível de desigualdade. Em alguns países, houve avanços na redução da desigualdade por um longo período. O Brasil, com os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, e a Argentina, com os Kirchner, tiveram reduções significativas na desigualdade, e também a Bolívia. Mas o nível de desigualdades ainda é muito alto. (…). Em diferentes países, o descontentamento pode assumir diferentes formas. Mas é completamente compreensível que haja descontentamento”, afirmou o economista.

Na mesma linha argumentativa, Bárcena, ao divulgar a previsão da CEPAL sobre a economia sulamericana para os anos 2019 e 2020, afirmou que é necessário que a política de austeridade fiscal adotada por diversos países sulamericanos, seja substituída por políticas públicas socialmente inclusivas: “Diante desse cenário [de redução do crescimento econômico], a região não suporta políticas de ajuste e requer políticas para estimular o crescimento e reduzir a desigualdade. As condições atuais precisam que a política fiscal se concentre em retomar o crescimento e em responder às crescentes demandas sociais”. Podem ser apontadas, como exemplos recentes de políticas de austeridade orçamentária no continente, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55/2016, no Brasil – mais conhecida como PEC do Teto de Gastos – e o corte de gastos em 400 bilhões de pesos (à época, cerca de 40 bilhões de reais) no orçamento do governo argentino em 2019, conduzido pelo governo do ex-presidente Mauricio Macri.

Por trás dos indicadores de desigualdade existe uma estrutura que impulsiona um acesso desigual a recursos, financeiros ou não, imprescindíveis para a configuração de um estado efetivo de desenvolvimento socioeconômico. É nesta direção que a agitação social e política dos países sulamericanos emergem como reivindicações por um acesso mais igualitário a melhores condições de trabalho, de educação e qualificação, aos serviços de saúde, de acesso à terra e de uma tributação progressiva. Ao longo da história, as reivindicações populares despertaram intensas reviravoltas no jogo político estatal, o que levanta expectativas de qual será, afinal, a consequência a nível institucional das atuais manifestações.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 agitação social move as ruas das cidades sulamericanas, à medida que população reivindica maior igualdade social e direitos ainda não conquistados” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/2019_Latin_American_protests#/media/File:Marcha_Mas_Grande_De_Chile_2019_Plaza_Baquedano_Drone.jpg

Imagem 2 CEPAL discute o futuro das economias sulamericanas dado o atual contexto de desaceleração econômica e altos níveis de desigualdade” (Fonte): https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/o-periodo-2014-2020-sera-o-menor-crescimento-economias-america-latina-caribe-ultimas

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Desaceleração da inflação faz Banco Central da Rússia rever taxa de juros

Pela primeira vez, desde junho de 2018, a taxa de inflação anual da Federação Russa caiu abaixo dos 3%. Segundo o Serviço Federal de Estatística Estadual (Rosstat), nos últimos 12 meses, os preços ao consumidor no país aumentaram apenas 2,4% (patamar atingido em janeiro de 2020) expondo uma dinâmica de notável valorização da moeda russa (Rublo) ao longo do último ano.

Segundo especialistas, o fortalecimento da unidade monetária russa em 2019 teve um importante papel na desaceleração da inflação, levando a uma redução no custo de bens importados para as empresas comerciais russas. Como resultado, o crescimento dos preços dos produtos estrangeiros para cidadãos comuns está desacelerando, embora atualmente exista uma certa pressão sobre o rublo exercida pelo temor do mercado em torno do evento mundial do coronavírus (Covid-19) e pelo baixo preço do barril de petróleo no mercado mundial.

Moeda de um rublo da Rússia

Sob aspectos analíticos, a inflação recorde baixa na Rússia é uma vantagem clara para a economia do país, devido ao fato de que um aumento de preços tão contido poderá fornecer um ambiente muito mais previsível para fazer negócios, e também permite que as famílias planejem melhor suas despesas. Vale ressaltar que entre os principais fatores na desaceleração da inflação, segundo especialistas econômicos, está o enfraquecimento da demanda dos consumidores na Rússia. Conforme estimativas da Rosstat, em 2019, o crescimento da renda real disponível da população acelerou de 0,1% para 0,8%, demonstrando que, nas condições atuais, os russos até agora preferem economizar dinheiro em vez de gastar, gerando, como resultado, a problematização do aumento dos preços de venda pelos varejistas.

Histórico da taxa de juros da Rússia

Em decorrência deste cenário, o Banco Central da Rússia cortou sua taxa de referência sobre juros em 25 bps (basis points*) para 6,00% durante sua reunião de fevereiro (2020) e sinalizou que mais cortes nas taxas poderão ser efetivados em suas próximas reuniões, dizendo que as expectativas de inflação permanecem estáveis no geral, enquanto os riscos de uma substancial ameaça à desaceleração econômica global persistem. Ainda assim, os formuladores de políticas observaram que a recente flexibilização da política monetária pode ter um efeito ascendente mais forte sobre a inflação do que se pensava anteriormente, enquanto o surto de coronavírus será um fator de incerteza adicional nos próximos trimestres. Note-se que, em 2019, o Banco Central russo reduziu sua taxa-chave cinco vezes e reduziu-a de 7,75% para 6,25% ao ano, tornando seu valor o menor desde março de 2014. Especialistas acreditam que as ações do Banco Central serão capazes de fortalecer a demanda dos consumidores na Rússia. Em condições de inflação baixa, o regulador pode reduzir ainda mais sua taxa-chave. No longo prazo, a política das autoridades monetárias deve levar a empréstimos mais baratos, um aumento na demanda interna e no investimento. Assim, o Banco Central da Rússia será capaz de estimular a atividade empresarial e o crescimento econômico.

Logotipo do Banco Central da Rússia

Segundo analistas, com essa política regulatória, o mercado financeiro russo espera uma redução mais ativa das taxas de hipotecas. De acordo com os últimos dados do Banco Central, em 2019, a taxa média de hipotecas na Rússia caiu para 9% ao ano. O valor tornou-se o menor em todo o tempo de observação desse índice e, de acordo com os resultados de 2020, a taxa média do financiamento imobiliário poderá cair para os patamares entre 7-8%. Para comparação, há apenas um ano esse número estava próximo de 10%.

Outro ponto observado por esses analistas é que, com a redução da taxa de juros, poderá ser afetado principalmente o mercado de títulos do governo russo. A redução da taxa do Banco Central ao longo do tempo reduz o rendimento dos títulos federais de empréstimos OFZ (do russo: Облигации Федерального Займа – Títulos Federais de Empréstimo), de modo que os investidores estão tentando pré-comprar títulos a um preço de pechincha. Ao mesmo tempo, a corrida do fluxo de dinheiro para os OFZs russos pode apoiar a moeda nacional, pois, do ponto de vista dos investimentos, os OFZs permanecem mais atraentes do que os títulos governamentais dos países desenvolvidos. Além disso, os juros dos ativos russos são apoiados por fatores macroeconômicos: redução da inflação e da dívida pública, altas reservas internacionais e orçamento excedente. Tudo isso apoia a demanda por títulos e moedas russos.

A próxima reunião do Conselho de Administração do Banco Central está marcada para 20 de março de 2020 e, de acordo com as expectativas do mercado, a alta gestão do Banco Central russo poderá novamente reduzir a taxa, chegando aos 5,5% ao ano.

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Nota:

* Os pontos-base (bps) referem-se a uma unidade comum de medida para taxas de juros e outros percentuais em finanças. Um ponto-base é igual a 1/100 de 1%, ou 0,01%, e é usado para denotar a variação percentual em um instrumento financeiro. A relação entre mudanças percentuais e pontos-base pode ser resumida da seguinte forma: variação de 1% = 100 pontos-base e 0,01% = 1 ponto base.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Banco Central da Federação Russa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Central_Bank_of_Russia#/media/File:Moscow_RussiaCentralBank_M00.jpg

Imagem 2 Moeda de um rublo da Rússia” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Rublo#/media/Ficheiro:Rouble.jpg

Imagem 3 Histórico da taxa de juros da Rússia” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/interest-rate

Imagem 4 Logotipo do Banco Central da Rússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Central_Bank_of_Russia#/media/File:CBRF_logo.svg

ANÁLISES DE CONJUNTURASaúde

As Implicações Geopolíticas do Surto de Coronavírus

O coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (nCoV-2019) foi descoberto em Wuhan, na China, em 31 de dezembro de 2019, pouco antes do feriado do Ano Novo Lunar, o período da maior migração anual de seres humanos na Terra. O pico da nova epidemia na China pode ocorrer neste mês (fevereiro de 2019) e acarretar graves consequências geopolíticas e geoeconômicas.

O surto de coronavírus coincidiu com uma desaceleração econômica, já que a China enfrenta o aumento da dívida, queda da demanda doméstica e as pesadas tarifas dos Estados Unidos. A taxa de crescimento do Produto Interno Bruto de 6,1% em 2019 aproximou-se do limite da meta de Pequim e caiu acentuadamente em relação aos 6,6% de 2018. Em 15 de janeiro de 2020, chineses e americanos assinaram um acordo comercial provisório, os primeiros passos para o fim da guerra comercial Estados Unidos-China. Mas a celebração durou pouco, pois poucos dias depois a gravidade do coronavírus começou a ficar clara.

A primeira consequência deriva do fato de Wuhan, capital da província de Hubei, localizar-se no centro do coração industrial chinês. Esta cidade encontra-se bem no meio do “Quadrilátero Industrial” do país, a área delimitada por Pequim/Tianjin, Chengdu/Chongqing, Macau/Hong Kong e Xangai. A província de Hubei abriga sete zonas econômicas cruciais: a Zona de Desenvolvimento de Alta Tecnologia do Lago Leste de Wuhan (o maior centro de produção de produtos óptico-eletrônicos da China); a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Xiangyang; a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Yichang; a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Xiaogan; a Zona de Desenvolvimento de Nova e Alta Tecnologia de Jingmen;  a Zona de Desenvolvimento de Alta Tecnologia de Xiantao; e o Parque Industrial de Alta Tecnologia de Suizhou. Wuhan também possui o maior porto fluvial da China e o maior aeroporto da China Central.

Enquanto na economia nacional chinesa houve uma desaceleração do crescimento em 2019, Wuhan teve um crescimento que atingiu o patamar de 7,8%. De acordo com o governo da Província de Hubei: “Estima-se que o valor agregado dos setores de alta tecnologia e economia digital represente 24,5% e 40% do PIB [Wuhan]”. As perspectivas de Wuhan pareciam brilhantes para 2020. O governo de Hubei também declarou: “Mais de 300 das 500 maiores empresas do mundo se estabeleceram em Wuhan. O número de empresas de alta tecnologia recém-instaladas atingiu um recorde, com um aumento líquido de cerca de 900 empresas”. O relatório de trabalho do governo, apresentado no 14º Congresso Popular Municipal de Wuhan, estimava que o PIB de Wuhan cresceria entre 7,5% e 7,8% em 2020, e haveria a geração de 220.000 novos empregos.

Se o surto se expandir, poderá interromper o tecido da economia global. Pequim já demonstrou que é capaz de mobilizar milhões de pessoas com o objetivo de conter o vírus e, simultaneamente, isolar milhões de seus cidadãos. A província de Hubei, com uma população de 58 milhões de pessoas, foi praticamente isolada de todo o país.

Segundo, o surto de coronavírus coloca em risco o crescimento do PIB chinês e, como consequência, a economia internacional como um todo. A Unidade de Inteligência da Revista The Economist (EIU, em inglês), de Londres, estima que o novo surto de coronavírus na China pode reduzir o crescimento real do PIB em 2020 entre 0,5 e 1 ponto percentual. As primeiras vítimas econômicas foram transportadoras aéreas e empresas de viagens; as indústrias de viagens e turismo serão duramente atingidas. A taxa de crescimento projetada pela EIU para a China foi de 5,9% e, se a epidemia atingir o status de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, em inglês), que atingiu o mundo nos anos de 2002 e 2003, o PIB chinês poderá cair para 4,9%. O coronavírus já infectou mais pessoas do que o SARS, mas o último foi mais letal: o SARS, em 2003, matou 9,6% dos portadores do vírus, enquanto o surto atual tem uma taxa de mortalidade de 2% dos infectados. Note-se que em 2003 o PIB chinês era de 1,66 trilhão de dólares (aproximadamente 7,13 trilhões de reais, de acordo com a cotação de 14 de fevereiro de 2019) contra 14,3 trilhões de dólares em 2019 (aproximadamente 61,42 trilhões de reais ainda de acordo com a cotação de 14 de fevereiro de 2019). Em 2003, a economia chinesa era a sétima maior; agora é a segunda maior economia do mundo. O papel da China no mercado global é indispensável.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encontra o Presidente da China, Xi Jinping (2017). O surto de coronavírus poderá enfraquecer a China na guerra comercial com os Estados Unidos

Terceiro, o coronavírus está se espalhando em meio à guerra comercial com Washington e à desaceleração geral da economia chinesa. Para enfrentar esse grande desafio, os chineses precisam mobilizar os recursos de toda a nação e seus 1,4 bilhão de habitantes. No entanto, esses recursos agora devem ser desviados para combater uma epidemia, que pode eventualmente forçar a sua economia a “hibernar” e até mesmo exigir uma retirada temporária da política mundial. Além disso, os Estados Unidos têm sido um dos grandes beneficiários do surto, apesar dos riscos que ele impõe à saúde pública. A desaceleração econômica chinesa continuará e, temporariamente, o equilíbrio de poder pode mudar em favor dos Estados Unidos. O Secretário de Comércio estadunidense, Wilbur Ross, chegou a afirmar: “Acho que isso ajudará a acelerar o retorno de empregos para a América do Norte”.

Atualmente, grupos de países soberanos lutam por políticas externas independentes, o que muitas vezes contradiz a visão dos Estados Unidos. Em particular, Irã, China, Rússia e agora a Turquia acreditam que, quando se unirem em um “grupo”, todos os membros serão capazes de resistir aos americanos e ao Ocidente em geral. Mas, se um país for expulso, especialmente do arranjo tripartite China-Rússia-Irã, o equilíbrio global de poder tenderá a favor do Ocidente. Assim, o recuo da China do cenário internacional seria um pesadelo para a Rússia e o Irã, especialmente.

Por fim, o resto do mundo está respondendo com uma onda crescente de segregação contra os chineses e, de fato, contra todos os povos do Leste da Ásia, porque muitas pessoas ao redor do mundo geralmente não fazem distinção entre as nações asiáticas. Na mídia, existem inúmeros relatos sobre a reação racista e o estigma contra a diáspora chinesa em países como os Estados Unidos, o Canadá e o Reino Unido. Em particular, cidadãos franceses de ascendência asiática se queixam de abusos no transporte público, na mídia e na internet. Isso inspirou o uso da hashtag “JeNeSuisPasUnVirus” (“Eu não sou um vírus”). Se o coronavírus não for interrompido em um futuro próximo, é alta a probabilidade de testemunharmos mais xenofobia e racismo em relação ao povo chinês, que, por sua vez, poderá inflamar o nacionalismo e o ressentimento na China.

Após a construção de diversas cadeias internacionais de valor em torno do gigante asiático durante quatro décadas, a desaceleração da segunda maior economia do mundo não deixará ninguém intocado. Mesmo que o coronavírus seja bloqueado com sucesso no resto do mundo, a economia global vai sofrer com a economia da China.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mercado de frutos do mar em Wuhan que foi fechado após o surto de coronavírus” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=20&offset=20&profile=default&search=wuhan+coronavirus&advancedSearch-current={}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Mercado_de_mariscos_de_Wuhan_cerrado_tras_detectarse_ahi_por_primera_vez_el_Nuevo_Coronavirus_.jpg

Imagem 2O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encontra o Presidente da China, Xi Jinping (2017).  O surto de coronavírus poderá enfraquecer a China na guerra comercial com os Estados Unidos”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=xi+jinping+trump&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:President_Donald_J._Trump_and_President_Xi_Jinping_at_G20,_July_8,_2017.jpg;

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=File%3AChina+Israel&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns14=1 – /media/File:Reuven_Rivlin_meeting_with_Wang_Qishan,_October_2018_(7375).jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Estruturas institucionais ainda são necessárias para o avanço do investimento de impacto

O financiamento necessário para atingir os dezessete Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) aparece constantemente como item de debate entre formuladores de políticas públicas e membros da sociedade civil. A partir de uma série de estimativas conduzidas especialmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), muito tem se discutido sobre quais mecanismos financeiros poderiam suprir o aproximado montante de 2,5 trilhões de dólares[1] necessários aos países em desenvolvimento para atingir os diferentes ODSs.

Há uma notável descrença de que os investimentos estrangeiros diretos (IEDs) se posicionarão como veículo financeiro capaz de suprir esse déficit, principalmente por duas razões estruturais. Em primeiro lugar, o volume de IED destinado às nações emergentes está praticamente estagnado desde 2009, em um montante anual que circunda os 600/700 bilhões de dólares[2], segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

Em segundo lugar, esta categoria de investimentos não necessariamente está alocada em empreendimentos com impacto social e/ou ambiental iminente, isto é, não contribuindo diretamente para a redução das desigualdades econômicas, mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, promoção da igualdade racial e de gênero ou conservação da biodiversidade. Em última instância, risco e retorno são as variáveis únicas e essenciais na alocação do capital externo que se direciona aos países em forma de IEDs.

Em estado similar de insuficiência, as doações internacionais, em especial aquelas advindas de agências internacionais de cooperação, estão muito distantes de equivalerem-se com o montante dimensionado de 2,5 trilhões de dólares[1]. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para o ano de 2018, cerca de 153 bilhões de dólares[3] foram doados dos países membros para as nações em desenvolvimento sob a forma de Assistência Oficial de Desenvolvimento (ODA).

Em uma análise temporal sobre o volume transferido de ODA em relação proporcional com a renda anual bruta de cada país membro, observa-se que o patamar executado nos anos 2010 (cerca de 0,30%) está muito distante do nível de execução da década de 1960 (aproximadamente 0,40%), bem como aquém do que foi praticado nas décadas de 1970 e 80 (algo em torno de 0,35%). Tais proporções inclusive situam-se abaixo do recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU): de acordo com o organismo, é essencial que remessas anuais de ODA representem, no mínimo, 0,70% da renda anual bruta. Em 2018, das trinta nações membros da OCDE, somente quatro delas – Suécia, Luxemburgo, Noruega e Dinamarca – executaram o mínimo recomendado pela ONU.

Devido à ineficácia de dois dos mais tradicionais veículos de transferência internacional de recursos, analistas e formuladores de políticas públicas têm olhado com entusiasmo o investimento de impacto como instrumento capaz de suprir o déficit de capital observado entre as nações em desenvolvimento. Ao passo que os agentes de IEDs observam, essencialmente, risco e retorno como variáveis centrais na análise de alocação, os investidores de impacto adicionam a contribuição socioambiental como uma terceira instância decisória para o direcionamento de recursos ou não. Esta modalidade se diferencia da filantropia ou de doações de valores não-reembolsáveis, uma vez que os agentes financeiros também se interessam na rentabilidade do capital investido.

Diferentemente da filantropia, o investimento de impacto busca não somente o retorno socioambiental do aporte de capital, mas também os rendimentos financeiros advindos com a alocação, posicionando-o como um incentivo a mais para investidores alocarem seus recursos em iniciativas que promovem o desenvolvimento

Observa-se, ao longo dos últimos anos, a formação de uma extensa rede de investidores, empreendedores, analistas, instituições de apoio, organizações não-governamentais e interessados no tema e em sua promoção na esfera global. Há um gradativo engajamento de grandes fundos de investimento e de pensão nos países desenvolvidos, os quais gerenciam um conjunto expressivo de ativos com potencial de alocação em atividades de impacto socioambiental positivo nas nações do Sul Global. Segundo dados da Global Impact Investment Network (GIIN – Rede Global de Investimento de Impacto) – uma das primeiras redes de discussão e fomento do tema –, investidores de impacto gerenciaram, em 2019, cerca de 502 bilhões de dólares[4] em ativos, demonstrando o crescente potencial de alocação deste setor.

Tradicionais instituições, como o Goldman Sachs e a Black Rock, já trabalham com produtos financeiros (especificamente títulos de participação em fundos) focados no fomento às iniciativas de impacto, demonstrando o emergente processo de acumulação e direcionamento de capital à esta frente. Na América Latina, por exemplo, nos anos de 2016 e 2017, foram registradas 860 alocações financeiras em iniciativas de impacto, totalizando uma movimentação de, aproximadamente, 1,4 bilhão de dólares[5].

No entanto, tendo em vista que o tripé risco, retorno e impacto direcionam o funcionamento desta indústria, duas questões emergem como principal entrave à aplicação volumosa de capital, em proporção que se aproxime do déficit estimado pelo PNUD para o cumprimento dos ODSs.

A primeira delas refere-se às metodologias existentes para a mensuração de impacto. Embora existam uma série de instrumentos analíticos concebidos para o dimensionamento – talvez a mais conhecida delas seja a métrica IRIS[6], concebida pela GIIN[7] –, em geral registra-se um ritmo escasso implementação efetiva das mesmas em campo para a identificação do nível de agregação de valor econômico, social e ambiental de uma determinada iniciativa em seu território de atuação. Analistas também argumentam a dificuldade de mensuração do impacto em si, uma vez que é difícil avaliar o tamanho da contribuição exclusivamente agregada pelo empreendimento analisado, isolando as demais variáveis externas que podem ter algum tipo de influência na promoção socioeconômica e ambiental.

Sem um conjunto claro de metodologias de avaliação e mensuração do impacto, instituições financeiras encontram dificuldade de determinar a alocação de seus ativos, uma vez que não se tem claro qual será o retorno social e ambiental de um determinado investimento. Neste sentido, um dos principais desafios consiste, justamente, na implementação de práticas difusas e correntes de dimensionamento do nível de contribuição às comunidades e territórios em que empreendimentos estão inseridos, em uma tentativa de dar visibilidade pública ao impacto gerado, o qual apresenta-se como ativo importante para a negociação do investimento desejado.

Como segunda questão elementar ao setor está a dimensão de cálculo entre risco e retorno do investimento a ser alocado nos países emergentes. Embora esta relação matemática sempre configurou como ponto central no fluxo de outros veículos de investimento externo, uma característica única referente aos negócios de impacto é que geralmente tratam-se de iniciativas de porte muito menor se comparadas àquelas que recebem algum tipo de IED, por exemplo. Uma vez assentadas em um nível de maturidade organizacional mais baixo, tais atividades possuem um longo caminho a percorrer até se converterem em iniciativas significativamente lucrativas, capazes de remunerar adequadamente seus associados e seus possíveis investidores.

Não à toa, um dos principais mecanismos para facilitar o fluxo de capital para empreendimentos de impacto, com menor grau de maturidade, é o investimento híbrido. De acordo com definição concedida pelo Fórum Econômico Mundial, tal categoria refere-se a uma combinação entre recursos reembolsáveis e não-reembolsáveis, a fim de facilitar a transição de estágios de um negócio de impacto, tomando como base uma trajetória crescente e linear de desenvolvimento organizacional. A primeira leva de recursos doados, denominado comumente como “capital semente” ou “capital anjo”, opera como um valor necessário para fundamentação do modelo de negócio, definição dos processos internos de gestão e consolidação do potencial de geração de receitas.

Olhando a partir de uma perspectiva econômica e analítica, poderia ser afirmado que uma das principais vantagens de uma abordagem híbrida em torno do investimento de impacto é que os recursos não reembolsáveis diminuem os custos de transação de um determinado negócio, posicionando-o de maneira mais competitiva nas cadeias de valor em que está inserido, ao mesmo tempo em que, com isso, aumenta gradativamente o seu potencial de geração de receitas futuras. Uma vez consolidado, o capital reembolsável opera como instrumento de alavancagem do modelo de negócio já testado e validado, retornando o recurso concedido pelo investidor, acrescida a rentabilidade da alocação.

Embora a problemática em torno da expansão do investimento de impacto possa aparentar ser meramente uma questão de gerenciamento inteligente dos recursos disponíveis, a fim de maximizar retorno e mitigar risco, outras questões – e não necessariamente de teor financeiro – emergem como fundamentais para ampliar o nível de atuação do setor no financiamento dos ODSs nos países emergentes. Tratam-se, na verdade, de desafios à consolidação de uma rede efetiva de apoio aos negócios de impacto, capazes de gerar inovações, trocas de experiência e representatividade na reivindicação de políticas públicas no mesmo nível de efetividade que setores convencionais das economias industriais – e não vinculados necessariamente com impacto – usufruem há décadas. Em relatório recentemente divulgado pelo PNUD sobre investimento de impacto no continente africano, o organismo narra a necessária formação de um “ecossistema de apoio” aos empreendimentos de impacto, isto é, ambiente formado por organizações e atores que provenham assistência técnica, ações de desenvolvimento de negócios, pesquisa e desenvolvimento e consolidação de redes de inovação com foco específico à comunidade de negócios de impacto. Ou seja, este público, em menor ou maior grau segundo o país, ainda carece de uma estrutura institucional efetiva para evolução.

A ampliação na concessão de recursos por parte do setor demanda, prioritariamente, a consolidação de uma extensa rede de instituições capazes de assessorar adequadamente a transição organizacional dos negócios de impacto. Por outro lado, relatórios técnicos também apontam a necessidade de consolidação de diferentes fundos de investimento de impacto, especialmente no que diz respeito à diversificação dos níveis de apetite de risco e retorno. Isso facilitaria a consolidação de inúmeros instrumentos financeiros à disposição dos empreendimentos segundo os seus níveis de maturidade, setor de atuação e contexto institucional de cada nação.

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Notas (Todos os valores seguem a cotação do dia 7 de fevereiro de 2020):

[1] Aproximadamente, 10,79 trilhões de reais.

[2] Algo entre 2,59 e 3,02 trilhões de reais.

[3] Em torno de 660,53 bilhões de reais.

[4] Próximos de 2,17 trilhões de dólares.

[5] Equivalente a 6,05 bilhões de reais.

[6] IRIS é o catálogo de métricas de performance que tem grande aceitação e são usadas por investidores de impacto com o objetivo de mensurar sucesso social, ambiental e financeiro de organizações, bem como fazer avaliação de acordos e para aumentar a credibilidade da ação de investimento de impacto.

[7] GIIN – Global Impact Investing Network:  A Rede Global de Investimentos de Impacto (GIIN) é a campeã global de investimentos de impacto, dedicada a aumentar sua escala e eficácia em todo o mundo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 A conservação dos recursos hídricos, da biodiversidade, a mitigação das mudanças climáticas e a redução das desigualdades estão entre os temas centrais dos investidores de impacto” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Water_drop_impact_on_a_water-surface_-_(5).jpg

Imagem 1 Diferentemente da filantropia, o investimento de impacto busca não somente o retorno socioambiental do aporte de capital, mas também os rendimentos financeiros advindos com a alocação, posicionandoo como um incentivo a mais para investidores alocarem seus recursos em iniciativas que promovem o desenvolvimento” (Fonte): https://thegiin.org/impact-investing/need-to-know/

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Clima, Refúgio e o Continente africano

As transformações que o espaço geográfico tem apresentado em decorrência das mudanças climáticas colocaram em questionamento conceitos sobre como gerir a economia mundial, a mobilidade humana e a saúde pública, em um contexto de preservação ambiental. Neste panorama, Organizações e Fóruns Internacionais assumem um papel relevante no que diz respeito à conceituação desses fenômenos e ao incentivo aos Estados na adequação a este cenário.

Os efeitos analisados por pesquisadores evidenciaram que a elevação da temperatura terrestre será responsável pela alteração na frequência pluvial, elevação nos níveis dos oceanos e pela ameaça a espécies da fauna e flora.

Como consequência, as populações mais vulneráveis (social e economicamente) experienciarão de forma mais intensa as mudanças climáticas. Observado os riscos que as comunidades ameaçadas sofrem pelos fenômenos climáticos, o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas definiu que o pedido de refúgio não pode ser negado a pessoas que se deslocam devido às consequências destas mudanças.

Ciclone Idai e Kenneth, Moçambique, março e abril de 2019

Esta decisão ocorreu no mês de janeiro de 2020, levando em consideração um caso de deportação ocorrido em 2015 na Nova Zelândia, em que o solicitante vivia no Estado insular de Kiribati, o qual estima-se que sofrerá com a elevação do nível do Oceano Pacífico.

Tal determinação representa um passo no aprofundamento do status de refúgio, ao mesmo tempo que reforça a compreensão de que o impacto causado pelas catástrofes naturais (imediatas ou de efeito lento, como, por exemplo, as secas) podem pôr em risco o direito à vida.

De acordo com a coalizão de Organizações Não-Governamentais Climate and Migration Coalition, a definição do termo refugiado climático, utilizado de forma ampla para definir esses fenômenos, é complexa. Isto se deve aos diversos fatores que permeiam as mudanças climáticas, tais como conflitos e a oferta de emprego que acabam impactando no processo de deslocamento. Em complemento, como apontam dados do International Displacement Monitoring Centre, no ano de 2018 registrou-se 17,2 milhões de deslocados, em virtude de catástrofes naturais, em uma análise realizada em 146 países.

Fronteira Etiópia e Somália

No contexto da África, estiagens prolongadas e inundações tem se tornado frequentes em diferentes partes. Pode-se tomar como exemplo o caso da região oriental do continente, onde Etiópia e Somália vivenciaram no ano de 2019 um período de seca, seguido por inundações. Em paralelo, a Etiópia concentra uma das maiores populações de refugiados e deslocados do continente africano, abrigando cerca de 26 nacionalidades, e que majoritariamente buscaram asilo devido a conflitos armados.

Somadas às adversidades causadas pelo clima, conflitos violentos, a distribuição desigual de renda e a dependência econômica de materiais fósseis como petróleo, gás e carvão, representam desafios para o estabelecimento de medidas de preservação ambiental.

Apesar de diversos fatores contribuírem para a deterioração do meio ambiente e ocasionar o deslocamento de pessoas, as questões que envolvem a energia adquirem centralidade no debate sobre preservação ambiental mundialmente.

Plataforma de petróleo

Como evidenciou o Relatório Econômico Mundial de 2020 das Nações Unidas, a adoção de energias limpas é uma medida fundamental para o clima, mas é comprometida pelo massivo investimento na extração de hidrocarbonetos.

Compreende-se o significado econômico dos hidrocarbonetos para muitas nações africanas, que pautam seus projetos de desenvolvimento em investimentos público e privado neste setor. Entretanto, deve-se ressaltar que a projeção de uma transição de matriz energética é um projeto robusto que demandaria múltiplos esforços dos Estados produtores e consumidores.

Nesse sentido, pode-se entender que o investimento na criação de mecanismos que auxiliem na resiliência perante fenômenos naturais pode ter maior relevância para estes Estados. Do mesmo modo que alianças com Organizações Internacionais Governamentais e Não-Governamentais, e entre Estados poderão adquirir maior ênfase na tomada de decisão dos agentes políticos e governamentais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Deslocamento forçado de pessoas, imagem ilustrativa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Internally_displaced_person#/media/File:Kibativillagers.jpg

Imagem 2 Ciclone Idai e Kenneth, Moçambique, março e abril de 2019” (Fonte): https://www.unicef.org/mozambique/sites/unicef.org.mozambique/files/styles/media_banner/public/Buzi-19.3%20%282%29_0.jpg?itok=3nSMZESL

Imagem 3 Fronteira Etiópia e Somália” (Fonte): https://www.msf.org/sites/msf.org/files/styles/image_mobile/public/images/ethiopia-map-25-11-2016.jpg?itok=VQEw8FgU

Imagem 4Plataforma de petróleo” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/ba/Gulf_Offshore_Platform.jpg