AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Equador: a Revolução Cidadã um ano depois do fim do mandato de Rafael Correa

A chamada “Revolução Cidadã” iniciada em 2007 por Rafael Correa, quando assumiu o cargo de Presidente da República do Equador, completa dez anos em meio a incertezas e expectativas quanto à sua sobrevivência.

Antecede a Revolução a crise econômica que se abateu sobre o Equador no final dos anos 90, e que teve como resposta do governo a adoção de medidas impopulares como o confisco e congelamento de saldos bancários e a substituição do imposto de renda pelo imposto sobre movimentações bancárias, similar à brasileira CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Apesar do crescimento do PIB bruto, o PIB per capta da década de 90 foi igual ao da década de 80, razão pela qual ficaram conhecidas como “décadas perdidas”.

Em 2006, no auge da instabilidade política marcada pela sequência de três Presidentes que não concluíram o mandato, descrença nos partidos e  insatisfação generalizada, Correa, que não era político de carreira, criou o Partido Aliança País e  se elegeu com a promessa de mudanças que compunham  um projeto de governo que levou as mesmas iniciais do seu nome: Revolución Ciudadana, ou Revolução Cidadã, em português.

No início da sua gestão, em 2007, o Congresso Nacional foi dissolvido e substituído pela Assembleia Nacional, por um grupo de constituintes que elaborou uma nova Constituição. Aproveitando-se da valorização do petróleo, ele realizou obras de infraestrutura e fez investimentos sociais, notadamente em saúde e educação, que aumentaram o nível de aprovação do seu governo, fortaleceram o seu partido e facilitaram a reeleição em primeiro turno em 2013.

Embora não fosse identificado como um típico militante de esquerda, o Presidente Equatoriano era comparado a lideranças como Hugo Chávez e Evo Morales em razão da gestão personalista e carismática e do posicionamento antagonista frente aos Estados Unidos. O acolhimento de Julian Assange, do Wikileaks, na Embaixada do Equador em Londres (2012) e o episódio envolvendo o pedido de asilo de Edward Snowden (2013) são exemplos desses tensionamentos com Washington.

Jorge Glas, Rafael Correa e Lenín Moreno na campanha 2017

Nas eleições de 2017, o seu partido, Aliança País, elegeu em 2º turno Lenín Moreno à Presidência da República. Moreno fora Vice-Presidente no primeiro período do seu antecessor e apoiador (2007-2013). Esperava-se que a sucessão garantiria a continuidade da denominada Revolução Cidadã e até especulou-se que se estava alçando “Lenín Moreno ao Governo e Rafael Correa ao Poder”*.

Surpreendentemente as relações entre os dois começaram a se deteriorar desde o início da gestão de Moreno, culminando no rompimento e na saída de grande parte dos correistas do partido Aliança País e na formação de um grupo opositor. As divergências políticas e denúncias de corrupção fizeram com que vários aliados de Correa fossem afastados do governo ao longo deste primeiro ano (maio de 2017 até maio de 2018). A nova gestão é identificada como mais alinhada ao liberalismo e tem buscado reforçar a relação comercial com os Estados Unidos.

Lenín Moreno queixa-se de ter recebido um Estado altamente endividado, com economia combalida, obras inacabadas e alto desemprego, e justifica que está buscando resolver os problemas com uma postura mais aberta ao diálogo. Reconhece as tensões internas do partido, mas minimiza a oposição de Correa como a de um simples cidadão. Os correistas acusam-no de ter traído a Revolução Cidadã e de ter promovido de maneira inconstitucional um referendo com sete perguntas de temas de interesse nacional, cujo resultado desfavoreceu a Correa, inclusive o veto à reeleição.

Marca do Movimento Acordo Nacional

Completando um ano de Presidência em maio de 2018, Moreno já caiu mais de 30 pontos e passou da aprovação majoritária para minoritária, segundo o El País. Correa, em 2015, ainda no Executivo, havia lançado um livro, cujo título em português é “Equador: da noite neoliberal à Revolução Cidadã”, no qual trata dos desafios e avanços do movimento que liderou. Dois anos depois (2017), uma biografia não autorizada escrita por duas jornalistas equatorianas e intitulada “El Séptimo Rafael”, (ainda não traduzido para o português),   suscitou polêmica e trouxe o tema de volta no final  do seu governo. 

O ex-mandatário, que atualmente vive na Bélgica, terra da sua esposa, mesmo impedido de ser candidato e sem partido, em recente pronunciamento exortou os equatorianos a defender as conquistas alcançadas no seu mandato. Enquanto isso, seus correligionários, que ao abandonarem o Aliança País criaram o movimento Revolución Alfarista, seguem na luta para obter registro do partido sob o nome de Movimiento Acuerdo Nacional (MANA). O MANA, que tem como slogan “por la Revolución Ciudadana”, será um bom termômetro para se avaliar a força do legado de Correa e a sua capacidade de formar seguidores que mantenham vivo o movimento.

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Nota:

* O link leva a um vídeo de uma mesa redonda sobre Rafael Correa e a Revolução Cidadã, promovida pela Casa America da Espanha, em 24/05/2018, com 4 participantes, na qual o Professor Simón Pachano (Flacso Ecuador) menciona que por ocasião da eleição de Moreno “todo mundo pensava que seria Lenín Moreno ao governo, Rafael Correa ao poder”, entre os minutos 20:30 a 21:00.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Rafael Correa e a Revolução Cidadã” (Fonte Foto do Facebook):

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Imagem 2 Jorge Glas, Rafael Correa e Lenín Moreno na campanha 2017” (Fonte Foto do Facebook):

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Imagem 3 Marca do Movimento Acordo Nacional” (Fonte Foto do Twitter):

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ANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

O Mar: janela de oportunidade para a energia nuclear

Depois dos eventos de 11 de março de 2011, quando um terremoto e tsunami levaram ao colapso três dos seis reatores nucleares na usina de Fukushima Dai-Ichi, no Japão, poderíamos ser induzidos a pensar que a energia nuclear e a água do mar não se combinam. Entretanto, isso não é verdade. Usinas nucleares no oceano ao invés de em terra, flutuando na superfície, ancoradas abaixo dela ou fixas nos fundos marinhos, são alternativas técnicas bastante interessantes.

Mapa mostrando o epicentro do terremoto e a posição das centrais nucleares afetadas

Tal ideia vem sendo vista com respeito. As usinas nucleoelétricas terrestres são estruturas customizadas ao local onde são instaladas, construídas pelas técnicas de construção civil, nas quais cada uma é um pouco diferente da outra e equipes de especialistas entram e saem de acordo com a fase do projeto. Usinas marítimas, ao contrário, poderiam ser produzidas em série em fábricas usando, se não as mesmas técnicas de linha de montagem, ao menos as técnicas de construção naval de estaleiros, com equipes permanentes.

Tal condição tornaria as usinas marítimas mais baratas do que as em terra e a eletricidade produzida por elas poderia custar pelo menos um terço a menos do que a de uma equivalente terrestre. Isso também as tornaria mais seguras. Um reator ancorado no fundo do mar nunca teria falta de resfriamento de emergência, problema que causou o colapso de Fukushima. Tampouco precisaria ser protegido contra o risco de terroristas lançarem uma aeronave contra ela. Seria à prova de tsunami também. Embora os tsunamis se tornem ondas grandes e destrutivas quando chegam em águas rasas, no oceano aberto eles são meras ondulações. De fato, se fosse ancorada em profundidade o suficiente (cerca de 100 metros), tal reator submarino não seria afetado por tempestades passageiras.

Usina nuclear flutuante da Rússia

Todas essas razões tornam as usinas nucleares marítimas uma ideia que vale a pena investigar. O Naval Group, empresa de equipamento naval francesa, projeta reatores que permanecerão fixos no fundo do mar ao invés de se movimentarem em um barco. O plano é envolver um reator e um turbo-gerador elétrico em um cilindro de aço com o comprimento de um campo de futebol e com um peso de cerca de 12.000 toneladas.

Todo o sistema, chamado de Flexblue, seria ancorado no leito do mar entre cinco e 15 km da costa, longe o suficiente para garantir a segurança em caso de emergência, mas próximo o suficiente para ser reparado facilmente. A eletricidade gerada (até 250 megawatts, suficiente para 1 milhão de pessoas) seria transmitida para terra por um cabo submarino. Para reabastecimento e manutenção, o cilindro seria levado à superfície com ar injetado em seus tanques de lastro. E, quando uma estação chegasse ao fim de sua vida útil, poderia ser rebocada para uma instalação especializada para ser desmontada com segurança.

O Naval Group ainda não atraiu nenhum cliente por seus projetos, mas uma abordagem um pouco menos ambiciosa dos reatores marinhos – ancorando-os na superfície e não abaixo dela, se concretizou na Rússia. A primeira usina nuclear flutuante, Akademik Lomonosov, foi construída. Ela foi lançada recentemente, rebocada para Murmansk para o carregamento de combustível, e daí será transportada para Pevek, um porto no Extremo Oriente da Rússia, onde começará a gerar energia em 2019.

O Akademik Lomonosov consiste em dois reatores de 35 MW montados em uma barcaça. Os reatores são versões modificadas daqueles usados nos quebra-gelos da classe Taymyr. Como tal, eles são projetados para serem capazes de operar em tempestades do Oceano Ártico. Para aumentar sua segurança, a barcaça que os transporta será ancorada a cerca de 200 metros da costa, atrás de um quebra-mar resistente a tempestades e tsunamis.

Ao todo, a Akademik Lomonosov custou cerca de US $ 480 milhões para ser construída e instalada, ou seja, muito menos do que teria que ser gasto construindo uma usina nuclear equivalente em terra em um ambiente tão remoto e hostil. Planos para uma segunda planta semelhante estão sendo lançados.

Corporação Nuclear da China divulgou conceito de sua primeira usina nuclear flutuante Foto: Divulgação

Mas a Rússia não está sozinha no planejamento de reatores flutuantes. A China tem ambições semelhantes, embora os destinos dos dispositivos envolvidos sejam mais controversos que os da Rússia. Especificamente, o governo chinês pretende, durante a década de 2020, construir até 20 usinas nucleares flutuantes, com reatores com potência de 200MW, para fornecer energia a ilhas artificiais que estão sendo construídas como parte de seu plano para impor a reivindicação do país a grande parte do Mar do Sul da China, uma reivindicação contestada por todos os outros países da região.

As empresas envolvidas neste projeto pretendem testar alguns de seus reatores à prova de tsunamis, da mesma forma que os franceses, colocando-os em águas suficientemente profundas para a formação de enormes ondas de tsunami. No entanto, como estão na superfície, isso não os protegerá das tempestades, e localizá-los longe da costa significa que a abordagem russa de construir quebra-mares de proteção também não funcionará. Os tufões no Mar da China Meridional podem elevar as ondas com uma amplitude superior a 20 metros.

Para resistir a essas tempestades, as barcaças terão âncoras presas a “torres de amarração” giratórias. Isso fará com que uma barcaça se comporte como um cata-vento, sempre apontando para o vento. Como essa é a direção da qual as ondas vêm, ela permanecerá alinhada àquelas ondas, dando-lhe a melhor chance de escapar de qualquer tempestade. Os cascos das barcaças também serão construídos altos, para cortar as ondas. Desta forma, eles serão capazes de sobreviver a uma “tempestade de 10.000 anos”.

O navio Arctic Sunrise – Greenpeace

O Mar da China Meridional também é uma área movimentada para o transporte marítimo. Portanto, qualquer usina nuclear flutuante precisará suportar um impacto direto de uma embarcação de carga pesada viajando a uma velocidade de, digamos, 20 nós (37,04 Km/h), seja essa colisão acidental ou o resultado de ação hostil. Uma maneira de fazer isso seria instalar as barcaças com zonas externas de deformação feitas de materiais como aço corrugado e madeira. Nem todos estão satisfeitos com a ideia de energia nuclear naval. O Greenpeace argumenta que as usinas offshore poderiam ser invadidas por piratas ou terroristas, ser atingidas por um iceberg ou escapar de regras de segurança que são difíceis de aplicar no mar, chegando a chamá-las de “Titanic nuclear” e “Chernobyl dos mares”.

É mais provável que o futuro das usinas nucleares marítimas dependa do futuro da energia nuclear como um todo do que das ações de grupos anti-nucleares como o Greenpeace. Observando-se tecnicamente, o urânio tem um papel importante a desempenhar na geração de eletricidade nas próximas décadas, sendo uma resposta satisfatória à questão do potencial de mudança climática decorrente da queima de combustíveis fósseis. Muitas novas usinas nucleares serão então necessárias. E se isso acontecer, colocar essas usinas no mar pode ser uma solução.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Projeto da usina nuclear flutuante Academician Lomonosov Divulgação” (Fonte – PUBLICADOS BRASIL):

http://publicadosbrasil.blogspot.com/2015/05/rosatom-constroi-primeira-usina-nuclear.html

Imagem 2 Mapa mostrando o epicentro do terremoto e a posição das centrais nucleares afetadas” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Acidente_nuclear_de_Fukushima_I#/media/File:JAPAN_EARTHQUAKE_20110311.png

Imagem 3 Usina nuclear flutuante da Rússia” (Fonte):

https://russian.lifeboat.com/blog.images/russia-has-launched-a-floating-nuclear-power-plant-critics-are-calling-nuclear-titanic.jpg

Imagem 4 Corporação Nuclear da China divulgou conceito de sua primeira usina nuclear flutuante Foto: Divulgação” (Fonte OESP):

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,china-comecara-a-construir-sua-primeira-usina-nuclear-flutuante,10000019156

Imagem 5 O navio Arctic Sunrise Greenpeace” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Greenpeace#/media/File:Arctic_Sunrise_Greenpeace_Rijeka_14042013_2_roberta_f.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A estratégia econômica da Rússia para o Ártico

Considerado um dos lugares mais inóspitos e inacessíveis do planeta, o extremo norte da Federação Russa é banhado pelo Oceano Glacial Ártico, que cobre cerca de 60% dos mais de 37,6 mil quilômetros de litoral dessa nação, e, possuindo em sua plataforma marítima uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, este oceano está transformando o país na potência dominante da região, segundo estudos do Instituto Sueco para os Assuntos Internacionais.

Região do Ártico

Nos últimos anos, a Rússia vem consolidando uma série de pesquisas e investimentos na área de prospecção de recursos naturais em ambientes extremos, que vão desde o lançamento de robôs para exploração submarina em grandes profundidades, até a criação de novos tipos de materiais resistentes ao frio extremo do Ártico, os quais serão utilizados nas plataformas de petróleo. Todo esse recurso empregado, que atingirá somas bilionárias, tem o objetivo de explorar depósitos em áreas litorâneas, com capacidades estimadas em 28 bilhões de barris de petróleo, 31 bilhões de barris de gás natural liquefeito, além dos incríveis 356 bilhões de metros cúbicos de gás, segundo estudos do United States Geological Survey (USGS).

A pesquisa também demonstra que a capacidade estimada total, ainda inexplorada para o Ártico, irá atingir mais de 90 bilhões de barris de petróleo, abrangendo não só os já citados depósitos da Federação Russa, mas, também, áreas do Estado norte-americano do Alasca, áreas do Canadá, Groelândia, Noruega, além de pontos ultramarinos não pertencentes à nação alguma, representando cerca de 20% do total da capacidade mundial.

Putin no Ártico

De olho nesse vácuo geopolítico das regiões inexploradas, a Federação Russa já vem reivindicando desde  2001 uma ampliação de suas fronteiras marítimas em 1,2 milhão de quilômetros quadrados para melhor exploração dos recursos naturais, pois, atualmente, de acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (norma da ONU de 1982), um país pode explorar economicamente os recursos naturais e os combustíveis fósseis que estiverem até 370 quilômetros de sua costa, sendo que, se essa nação apresentar evidências geológicas de que sua plataforma continental* se estenda além desta distância, poderá reivindicar o direito de ampliação do território a ser explorado. Em 2015, a ratificação do pedido de estender sua fronteira marítima foi suportada por testes sísmicos, exames de solo e outros dados científicos apresentados à Comissão da ONU de Limites da Plataforma Continental (CLCS – Commission on the Limits of the Continental Shelf), considerando que a cordilheira Lomonosov e o cume Mendeleiev são continuação da plataforma continental da Sibéria, que se encontra dentro do território russo.

Outro ponto importante na exploração econômica da região seria a ampliação de rotas marítimas comerciais no Mar do Norte, que se configura como uma alternativa à tradicional travessia pelo Canal de Suez, no Egito. Com o aquecimento global, as calotas de gelo que cobrem o extenso litoral ártico da Rússia tiveram sua espessura consideravelmente reduzida, permitindo um tráfego de navios de uma maneira muito mais fluída. Tomemos, como exemplo, uma viagem comercial, via Canal de Suez, entre Roterdã, na Holanda, até Ulsan, na Coreia do Sul, com aproximadamente 20 mil quilômetros de distância e um tempo de travessia em torno dos 70 dias. A mesma viagem, pela rota do Ártico, percorreria uma distância de 14,8 mil quilômetros (26% menor) e levaria em torno de 60 dias para chegar ao destino. Isto posto, além da economia de combustível, entre outros insumos, também poderia evitar o número de casos de pirataria, tão comuns na região entre a Indonésia, Malásia e costa da Somália. Em termos comerciais, levaria à uma redução considerável dos fretes e muito provavelmente a um aumento no número dessas trocas comerciais.

Rota marítima do Ártico

Com o intuito de reforçar sua soberania na região e colocar regras de navegação comercial ao longo da Rota Marítima do Norte, o presidente russo Vladimir Putin assinou uma nova lei que irá mudar o transporte de petróleo no Ártico, onde somente navios russos terão direito exclusivo de utilização do percurso. Esta norma entrará em vigor em 31 de dezembro de 2018. A partir desta data, a rota será fechada para os navios com bandeiras estrangeiras. No entanto, isso não significa que a Rússia esteja fechando completamente a entrada para empresas de outros países. Uma empresa estrangeira, se for registrada sob a bandeira russa, poderá passar ao longo da rota como em qualquer outra parte do Ártico.

Para garantir a efetividade das operações sob condições tão extremas de frio, tanto para a exploração dos recursos naturais, como para a utilização da nova rota marítima, os russos estão construindo a maior e mais forte frota de quebra-gelos do mundo. Em maio de 2015, eles tinham pelo menos 14 quebra-gelos em construção e mais outros em planejamento. Um dos projetos, o LK-60, com 173 metros de comprimento, um navio quebra-gelo movido a energia nuclear, será o maior navio do gênero no mundo, e será capaz de romper camadas de gelo com três metros de espessura. A Rússia está planejando a construção de, pelo menos, dois destes navios, com datas operacionais esperadas para o final de 2019 e final de 2020, respectivamente. Outro projeto em andamento é o LK-25, que será o maior navio quebra-gelo movido a diesel do mundo, capaz de atravessar calotas de gelo com dois metros de espessura. No geral, a Federação Russa tem mais de 40 quebra-gelos, significativamente mais do que qualquer outro país. Os Estados Unidos, por comparação, têm apenas um quebra-gelo pesado operacional em serviço.

Todo o processo de desenvolvimento econômico da região do Ártico será acompanhado também pelo reforço e modernização da infraestrutura militar russa no local, pois, apesar de ser o detentor da maioria do espaço geográfico e dos recursos de infraestrutura, a Rússia não estará sozinha nesta empreitada, tendo como “competidores” países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que cada vez mais estão interessados na exploração não só das riquezas da região, como também na localização estratégica que o Ártico apresenta.

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Notas:

* Em oceanografia, geomorfologia e geologia, chama-se plataforma continental à porção dos fundos marinhos que começa na linha de costa e desce com um declive suave até o fundo marinho mais pronunciado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Plataforma de petróleo russa no Ártico” (Fonte):

http://only-paper.ru/_fr/202/1218585.jpg

Imagem 2 Região do Ártico” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/DNtjRhcUMAAtBx4.png:large

Imagem 3 Putin no Ártico” (Fonte):

https://sputniknews.com/russia/201703301052132811-putin-franz-joseph-land/

Imagem 4 Rota marítima do Ártico” (Fonte):

https://guerraearmas.wordpress.com/tag/polo-norte/

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Eleições na Venezuela apontam perdas políticas para Maduro

Conforme vem sendo disseminado na mídia internacional, o resultado das eleições venezuelanas gerou mais perda de credibilidade e de legitimidade ao governo do atual presidente Nicolás Maduro.

Inicialmente, a realização do processo eleitoral se deu contra as solicitações da Oposição que, desde o ano passado (2017), tentou negociar um pacto de garantias mínimas para o que chamam de “Eleições Livres”, com a libertação dos presos políticos, a possibilidade de supervisão internacional aprovada pelos adversários envolvidos, a autorização para propaganda eleitoral equilibrada, o funcionamento dos partidos sem perseguição e a certeza da renúncia do uso da maquina pública a favor do governante.

No entanto, conforme afirmaram os opositores, isto não foi conseguido, tanto que abandonaram as negociações, e citam que um dos atos contra essas solicitações foi a antecipação do pleito, algo decidido pelo governo, impedindo a organização adequada tanto do processo eleitoral quanto dos envolvidos na disputa, razão pela qual estes boicotaram-no não apresentando candidatos e pedindo a abstenção dos cidadãos. Além disso, alega-se que as eleições também se deram contra o que o que foi acertado pelo Governo com os adversários que participaram delas. Por essa razão, o resultado está sendo amplamente rejeitado internamente e as eleições estão sendo consideradas ilegítimas pela comunidade internacional.

Henri Falcón, o segundo colocado, com 21,2% dos votos*, não reconheceu a vitória de Maduro, afirmando ter recebido 900 denúncias de ilegalidades e acusou ter ocorrido “compra de votos” e “chantagem”, mediante o uso de ameaças explícitas e também veladas sobre o cumprimento dos programas sociais, além do oferecimento de bônus que seria dado para o eleitores beneficiários desses programas, se estes apresentassem o “Carnet de la Pátria” (Carteira da Pátria)**, antes de votarem, em locais colocados a 200 metros dos lugares de votação, os denominados “Pontos Vermelhos”***, tudo feito com a autorização do Conselho Nacional Eleitoral (CNE)*.

Como consequência, Falcón também está exigindo a ocorrência de uma nova eleição no final do ano (2018), quando, ressalte-se, era o momento para qual estava programado o pleito eleitoral, que foi precipitado pelo governo, primeiro para abril, depois acordado com parte da oposição para ser transferido para o dia 20 de maio, domingo passado, tal qual se deu.

Como era esperado, a comunidade internacional reagiu negativamente e de forma dura se se pronunciou a respeito. O Governo dos EUA, independentemente do que ocorreria no dia 20, já tinha anunciado que não iria reconhecer o resultado e aplicaria novas sanções contra o Governo bolivariano.

No dia seguinte, 21 de maio, segunda-feira, tanto o vice-presidente Mike Pence, quanto o secretário de Estado, Mike Pompeu, declararam que a eleição foi fraudulenta e haveria respostas dos norte-americanos, pois, conforme as palavras de Pence, “As eleições na Venezuela foram uma farsa. Os Estados Unidos estão contra a ditadura e com o povo da Venezuela pedindo eleições livres e justas. O presidente tomou medidas enérgicas (…) e há mais por vir. (…). Os EUA não ficarão de braços cruzados enquanto a Venezuela é esmigalhada. (…). Todos os dias, milhares de venezuelanos fogem da opressão brutal e da pobreza extrema. O regime de Maduro deve permitir a ajuda humanitária (…) e deve permitir que a sua gente seja escutada”.

O Presidente Donald Trump, acompanhado do Vice-presidente Mike Pence, exibe assinatura de Ordem Executiva, isso em maio de 2017

Além disso, por meio de um Decreto Executivo assinado por Donald Trump, já na segunda-feira, anunciaram a proibição de “indivíduos ou entidades agindo nos Estados Unidos de comprar dívidas do governo venezuelano, assim como bens dados em garantia de empréstimos”.

Como também já era declarado, os países membros do Grupo de Lima**** não reconheceram o resultado, assinaram declaração conjunta sobre os procedimentos que tomarão e anunciaram que adotarão medidas financeiras, afirmando que vão “intensificar e ampliar, por meio dos mecanismos existentes, o intercâmbio de informações de inteligência financeira sobre as atividades de indivíduos e empresas venezuelanos que possam estar vinculados a atos de corrupção, lavagem de dinheiro ou outras condutas ilícitas passíveis de procedimentos judiciais para sancionar tais atividades criminosas, como congelamento de ativos e aplicação de restrições financeiras”.

Bandeira da China

Poucos são os países favoráveis ao resultado, os quais estão vinculados direta ou indiretamente com a Venezuela por razões econômicas, por necessidades de política internacional, ou por motivos ideológicos. No primeiro caso, posiciona-se mais expressivamente a China, que tem investimentos no país de 20 bilhões de dólares, forneceu empréstimos e tenta reaver este montante por meio da aquisição de petróleo; no segundo estão Irã e especialmente a Rússia, que atua diante do fato de estar sendo isolada internacionalmente e, por isso, precisa garantir que peças do tabuleiro geopolítico e geoestratégico mundial sejam preservadas, mesmo que não tenham simpatias por elas, para manter sua própria posição no cenário internacional e garantir sobrevivência, ressaltando-se que ainda precisa recuperar o empréstimo de 3 bilhões de dólares que fez à Venezuela em 2011 e este ainda não foi pago; no terceiro estão os países ainda sob governos ideologicamente aliados ao bolivarianismo, como, por exemplo, Cuba, Bolívia e El Salvador.

Logo presidencial de Nicolás Maduro

O resultado de 68% dos votos para Maduro foi comemorado no país mais pelos opositores do que pelo governante, pois tal volume se deu diante de uma abstenção de 54%, a maior já ocorrida para o pleito presidencial no período bolivariano, com denúncias de fraude, compra de votos e mascaramentos do verdadeira abstenção, e foi considerada uma vitória da solicitação da Mesa de Unidade Democrática (MUD), principal frente de oposição que se dedicou ao boicote do processo eleitoral.

No entanto, como também vem sendo apontado pelos analistas internacionais, as peças do jogo político interno não sofreram alterações, da mesma forma que não houve acréscimo no isolamento internacional a que o Governo venezuelano está submetido, o qual já vem ocorrendo muito antes de 20 de maio e é realizado tanto por países quanto por instituições financeiras internacionais.

Logo da Mesa de Unidade Democrática

No entanto, aspectos outros emergiram, sendo uma expressiva novidade ter ficado indiscutível e transparente a grande perda de legitimidade de Nicolás Maduro em todo o processo, algo que não tem como negar ou mascarar, já que apostava que conseguiria colocar muitos eleitores nas urnas e sonhava superar Hugo Chávez no número de votos recebidos, mas, agora, depois do corrido, ficou claro que retrocederam e estão propensos a abandoná-lo alguns segmentos do bolivarianismo, por isso, o mandatário estará mais submetido a riscos e contestações, especialmente vindas de seus aliados. Não se pode esquecer, por exemplo, que antes de ser uma defecção da MUD, Falcón foi uma defecção do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), o partido chavista de Maduro, e, doravante, aumentou a probabilidade de que outros façam igual, trazendo consequências para a liderança do Presidente e mais contestação dentro do PSUV ao seu posto.

Observadores apontam também que a Oposição ganhou mais elementos em sua luta, porém, conforme tem ficado claro, até mesmo pelas notícias na mídia, ela ainda sofre com a ausência de uma pauta comum, bem como de uma liderança unificada, e as divisões internas são tão grandes quanto os posicionamentos e escolhas de estratégias para a ação política, sendo um exemplo, novamente, o fato de Henri Falcón ter saído da MUD para concorrer na eleição do dia 20.

No entanto, verificadas as reações na Venezuela, as perdas para Maduro são maiores do que ele esperava, de forma que a tendência de esvaziamento de sua estratégia de permanência no poder tende a aumentar, mas, em curto prazo, as previsões dos analistas são de que haverá o aumento da repressão e da violência, logo da crise humanitária venezuelana, gerando mais reflexos na região, os quais devem ir além da questão da massa de refugiados do país que diariamente tem pedido ajudo aos Estados vizinhos.

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Nota:

* Conforme informado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), um dos cinco dos poderes do Estado venezuelano, que é responsável pela organização e reconhecimentos dos pleitos eleitorais.

** O “Carnet de la Patria” (Carnê da Pátria, ou Carteira da Pátria) é o documento através do qual se garante os benefícios e auxílios governamentais, ou seja, é por meio deste que os cidadãos têm acesso aos programas sociais.

*** Tais “pontos” consistem em tendas onde estão presentes aliados do chavismo, membros do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), e, nelas, os cidadãos que possuem o “Carnet de la Patria” (Carnê da Pátria, ou Carteira da Pátria) apresentam-no antes de votar, para garantirem o benefício prometido pelo governo. 

**** Fazem parte do Grupo: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colombia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai e Perú, unindo-se posteriormente Guiana e Santa Lúcia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Estação de voto em Caracas no dia da eleição” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Eleição_presidencial_da_Venezuela_em_2018#/media/File:2018_Centro_electoral_Venezuela.jpg

Imagem 2 O Presidente Donald Trump, acompanhado do Vicepresidente Mike Pence, exibe assinatura de Ordem Executiva, isso em maio de 2017” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mike_Pence#/media/File:President_Trump_is_joined_by_Vice_President_Pence_for_an_Executive_Order_signing_(33803971533)_(2).jpg

Imagem 3 Bandeira da China” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/fa/Flag_of_the_People%27s_Republic_of_China.svg/320px-Flag_of_the_People%27s_Republic_of_China.svg.png

Imagem 4 Logo presidencial de Nicolás Maduro” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Eleição_presidencial_da_Venezuela_em_2018#/media/File:Logo_campaña_presidencial_Venezuela_2018.png

Imagem 5 Logo da Mesa de Unidade Democrática (MUD)” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Mesa_de_la_Unidad_Democrática#/media/File:MUD-Logo.png

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Eleições venezuelanas tendem a esvaziar e destruir a estratégia de Maduro

A realização das eleições na Venezuela, ocorrida ontem, domingo, dia 20 de maio de 2018, pode acarretar em significativa perda política para o atual presidente venezuelano Nicolás Maduro, em seu projeto de continuidade no poder, ao menos até o início de 2025, já que esta eleição se deu para o mandato cujo início será em 2019, com duração de seis anos, mesmo que o pleito tenha ocorrido agora, no meio 2018.

O mandatário é contestado em várias instâncias nacionais e internacionais desde que assumiu o poder no país, afirmando-se ter ascendido ao cargo sob condições suspeitas, ou mesmo por meios fraudulentos na eleição que o galgou ao cargo em 2013, apesar de seus partidários afirmarem terem lhe dado votos suficiente, os quais permitiram-no chegar de forma legítima à função. A questão é que o pleito do qual participou foi visto pela Oposição, por analistas internacionais e autoridades de vários países como inadequadas ou frágeis, no que refere às exigências mínimas para garantir lisura, dentro de um regime democrático.

Nicolás Maduro

Neste momento, pelos dados disseminados na mídia e pelas declarações de autoridades e participantes do processo eleitoral, a história parece se repetir em termos de questionamentos, com mais elementos sendo colocados à mesa com o objetivo de apresentar que as eleições realizadas ontem, ao invés de legitimarem a presença de Maduro no poder, apenas deslegitimarão qualquer continuidade, tanto dele, o mandatário, quanto possivelmente do bolivarianismo no país.

O Governo venezuelano apresentou ao mundo como um critério respeitável para legitimação internacional do evento a presença de 200 observadores, dentre eles o ex-presidente da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero (Partido Socialista Operário Espanhol), e de personalidades, jornalistas e políticos europeus, como o ex-presidente do Senado da França, Jean-Pierre Bel (Partido Socialista), que ocupou este cargo entre 1o de outubro de 2011 e 30 de setembro de 2014, tendo sido o representante da Presidência da França para a América Latina durante o governo de François Hollande (também do Partido Socialista), o qual, por sua vez, deve-se destacar, vem sendo figura internacional de destaque na defesa do ex-presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva. Tais quais os nomes citados, há outros convidados de renome, que são personalidades respeitadas pelo governo Maduro.

Pelo que tem sido disseminado por segmento específico da mídia, os observadores estão centrando o foco na alegação do direito de o povo votar, com uma crítica indireta à recusa por parte dos opositores de participar do pleito. Tal argumento tem sido o mais usado por Zapatero, uma personalidade com alto grau de visibilidade, que tem se apresentado também como um partidário do diálogo e da abertura da Europa com o governo Venezuelano. Um outro ponto no qual estão focando é o sistema de urnas eletrônicas que, conforme afirmam estes observadores, está entre os mais seguros e avançados do mundo, e vários têm destacado que tal modelo de urna pode ser utilizado em muitos outros países.

Exemplificando a primeira situação, Zapatero afirmou, logo após reunir-se com Maduro: “Há setores da oposição que não vão votar, os respeito profundamente. Mas agora vai falar o povo da Venezuela. É bom que os cidadãos se expressem [nas urnas]. Isso trará, sem dúvida, novas possibilidades para esse país”. Além disso, mostrando suas convicções de que a Governo venezuelano irá retomar as negociações com a Oposição, declarou: “Falamos com o presidente sobre a possibilidade de abrir uma nova etapa do diálogo depois das eleições de domingo. Não detalhamos o lugar nem quem vai participar. Em minha opinião, a participação deve ser aberta”. E, referindo-se ao diálogo com a Europa, afirmou: “a necessidade de um diálogo mais fluído. (…). Depois do dia 21 de maio, esperamos que comece uma etapa de aproximação, na qual prevaleça o diálogo em vez das sanções. (…). Uma pergunta que já fiz várias vezes é: por que a Europa dialoga com o Irã, por que é partidária do diálogo, e se comparta assim com a Venezuela?”.

No segundo caso, o foco nas urnas, um jornalista da Itália, cujo nome citado nas fontes é Luca, manifestou que “Esse é um processo eleitoral muito importante para a Venezuela e para a América Latina. O povo aqui manda uma mensagem ao mundo e também ao meu país. Na Itália, ainda votamos com cédula de papel, não temos sistema eletrônico. O sistema venezuelano é muito interessante, porque não há fraude, não há possibilidade de mudar, manipular o nome dos candidatos. É um sistema que pode ser exportado para o mundo inteiro”.

Os críticos, no entanto, trazem elementos que acrescentam fatos ao entendimento do processo, dentre eles que há mais de 14 mil centros de votação e alegam que se identificou a presença de aliados do chavismo em 85% das seções eleitorais, algo que, conforme declaram, viola o acordo realizado entre os participantes, antes das eleições, mesmo porque significaria uma forma de pressão sobre os eleitores, já que 16 milhões de pessoas dependem do assistencialismo do Estado.

Carnet de la Patria

Outra denúncia que precisa ser verificada é que, conforme consta na mídia, foram instalados “pontos vermelhos” nas ruas, perto das seções eleitorais. Tais pontos consistem em tendas onde estão presentes aliados do chavismo, membros do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), e, nelas, os cidadãos que possuem o “Carnet de la patria” (Carnê da Pátria, ou Carteira da Pátria) apresentam suas carteiras antes de votar, para garantirem o benefício prometido pelo governo.  As carteiras são o documento através do qual se garante os benefícios e auxílios governamentais, ou seja, é por meio delas que os cidadãos têm acesso aos programas sociais, e, segundo foi informado, Maduro prometeu “prêmios” a quem apresentasse a Carteira e fosse votar, razão pela qual tinham de passar por este lugares para mostrar que foram às urnas.

Segundo os denunciantes, em síntese, se não fossem votar, o que provariam mostrando a carteira nos “pontos vermelhos”, perderiam o bônus de 10 milhões de bolívares (muito dinheiro para o pobre venezuelano), além de poderem perder outros benefícios, conforme diz a Oposição. Dentre os principais acusadores estão Henri Falcón e Javier Bertucci, que disputaram contra Maduro nas eleições, destacando que Falcon, em quem se acreditava que possuía condições de enfrentar o Presidente e até mesmo vencer a disputa, foi membro do PSUV que partiu para a Oposição e, dento desta, discordou do boicote à eleição de ontem, tal qual foi decidido pela Mesa de Unidade Democrática (MUD), principal frente opositora na Venezuela. Nas palavras de Falcon: “Prometeram 10 milhões de bolívares (US$ 12, pela cotação do mercado negro, 4 vezes o salário mínimo*) a quem registrar seu voto nos ‘pontos vermelhos’. Não podemos vender nossa dignidade”.

Representantes do Grupo de Lima no Palácio de Torre Tagle (Perú) durante um encontro oficial

Além dessas questões que envolvem o processo eleitoral, que, segundo afirmam os críticos, não pôde ser coberto adequadamente pelos observadores convidados pelo Governo, há o fator do grande número de abstenções, que, de acordo com o que foi apontado pelo jornal brasileiro o Estado de São Paulo, chegou a 54%, ou seja, teve participação de 46% do eleitorado, havendo ainda fontes que chegam a afirmar que a Oposição tem elementos para declarar ter ocorrido presença de menos de 30% dos eleitores, e outras que dizem ter sido menor ainda a participação, com menos de 20%, como é o caso do Grupo de Lima**, que declara ter ocorrido a participação de apenas 17,04%, já que dizem que os observadores declaram que a abstenção foi de, ao menos, 82,96%.

Dessa forma, independentemente do percentual exato, o processo de legitimação deverá estar totalmente esvaziado, pois, confirmada que a presença na votação foi inexpressiva, mesmo que Maduro seja reeleito com percentual significativo de votos, comparativamente falando, estes terão sido obtidos dentro de margem irrelevante ou insignificante de votantes, algo que trará mais perdas para sua credibilidade internacional e apoio interno que vantagens por ter conseguido se reeleger.

Cidades-sede das Reuniões de cúpula do G20

Hoje, segunda-feira, dia 21, o G-20 (o Grupo das vinte maiores economias do mundo) está reunido em Buenos Aires, na Argentina, para debater assuntos referentes à economia mundial e já se sabe que haverá ampla contraposição ao resultado eleitoral venezuelano, ainda que assunto do Grupo não seja este, e mesmo com a posição do Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, que declarou ser favorável a Maduro. Da mesma forma, também se sabe que o resultado será recusado pelos EUA, Canadá, União Europeia, pela Colômbia e demais membros do já citado Grupo de Lima, grupo de países criado em 2017, o qual trata da crise venezuelana, e quatro deles estão presentes no G-20, além dos EUA.

Nesse sentido, a realização do pleito eleitoral, que não foi apenas para Presidente, mas para os Conselhos Legislativos das 23 entidades federais e dos 335 Municipais, deverá se constituir como mais um fator agravante da instabilidade política da Venezuela, tanto que os opositores estão declarando que seja considerada a derrota de Maduro, bem como a deslegitimação do Governo, e Falcón não está reconhecendo o resultado, afirmando que outra eleição precisa ser realizada no final deste ano (2018).

De certo, já se está desvalorizando internacionalmente todo o processo eleitoral devido a baixa participação, independentemente do que o governo apresentar como índice de presença nas urnas, mas devido também à pouca representatividade da eleição e ao fato de ter ocorrido a participação de observadores que não tiveram condições de cobrir a eleição de forma ampla, bem como graças às acusações de quebra dos acordos, uso da máquina para angariar votos e as consideradas ameaças veladas de Maduro, como ocorreu no caso em que declarou “votos o balas, paz o violencia”, quando, em discurso, queria afirmar que o caminho da pacificação era a eleição, mas usou termos que os opositores consideraram ameaçadores e discursaram dizendo que ele indicava que usará de violência, se necessário.

Além disso, o governo e o processo eleitoral vêm recebendo contraposição inclusive da centro-esquerda pela região, como foi o caso da Carta Aberta de 54 personalidades chilenas, entre elas muitos deputados do Partido Socialista, que foi assinada e disponibilizada no site do Partido Liberal do Chile, demonstrando que há uma convergência entre a centro-direita e a centro-esquerda sobre o que o Governo Maduro pode estar representando em termos políticos.

Nesse sentido, as eleições que ocorreram, mais que uma forma de garantir a continuidade de Nicolás Maduro, poderá ser um avanço maior para se chegar rapidamente no limite da sobrevida do atual Governo, que se estendeu de forma imprevisível desde que assumiu o poder, logo depois da viagem de Hugo Chávez para o tratamento de câncer, em 2012, e culminou com a sua morte, no início de 2013, quando assumiu interinamente a Presidência e depois foi em seguida eleito Presidente, sob muitos questionamentos.

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Nota:

* As informações são confusas, pois as conversões não correspondem ao que foi dito, levando-se ainda em conta que a relação com o Bolívar já não se aplica, uma vez que está vigendo o Bolívar Fuerte. Atualmente, o salário mínimo na Venezuela, de acordo com as fontes governamentais, em 30 de abril, era de 2.555,550 bolívares, ou, s 2.555,55 bolívares fortes, convertido para os valores da atual moeda. O site de conversão do Banco Central do Brasil, por exemplo, não apresenta a conversão seja para o dólar, seja para o Real brasileiro, e outros sites também não conseguem fazer a conversão.

** Fazem parte do Grupo: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colombia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai e Perú, unindo-se posteriormente Guiana e Santa Lúcia. Deram apoio as declarações do Grupo: Barbados, Estados Unidos, Granada, Jamaica e Uruguai.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira da Venezuela” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Venezuela

Imagem 2 Nicolás Maduro” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Venezuelan_presidential_election,_2018

Imagem 3 Carnet de la Patria” / Exemplo (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Venezuelan_presidential_election,_2018

Imagem 4 Representantes do Grupo de Lima no Palácio de Torre Tagle (Perú) durante um encontro oficial” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Grupo_de_Lima

Imagem 5 Cidadessede das Reuniões de cúpula do G20” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Reuniões_de_cúpula_do_G20

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A península coreana quatro meses após acordo de diálogo entre Sul e Norte

Janeiro de 2018 poderá ser considerado um marco histórico da era moderna no que diz respeito à península Coreana. O mês de maio se iniciou sem relatos de novos testes nucleares e sem novos casos que promovem a tensão entre Seul e Pyongyang, ao longo destes quatro meses, desde o acordo firmado entre os dois lados em manter o diálogo e o envio da delegação coreana para participar de jogos de inverno na Coreia do Sul.

O fato de ambos os países não estarem passando por casos de atrito é um grande feito, quando se compara com os anos de 2016 e 2017, em que o noticiário asiático era repleto de notícias pessimistas sobre a paz na península. Muitos se questionam, contudo, sobre qual o real motivo disso tudo; por que o líder supremo norte-coreano abandonou agora os testes nucleares e parou com os atritos com seu vizinho, ao sul da península.

Em abril deste ano (2018), a BBC apresentou uma reportagem de Ankit Panda sobre a decisão de Kim Jong-un em parar os testes nucleares, nela concluiu-se que o motivo foi porque o governo Kim já dominou a tecnologia nuclear. Quanto ao domínio da tecnologia nuclear pelos norte-coreanos não existem provas, porém o repórter utiliza comparativamente, para chegar a essa conclusão, até o caso da Índia e do Paquistão no final da década de 1990, quando ambos países haviam feito seis testes nucleares e hoje não realizam mais experimentos similares, pertencendo, agora, ao grupo de países detentores de armas e tecnologia nuclear.

Deve-se ressaltar que, se for avaliado o histórico das relações entre as duas Coreias, provavelmente essa paz será temporária, porém ainda pode existir esperança, não para uma Coreia unificada, mas para a paz na península. Além disso, o futuro da península coreana, das ações do jovem Kim podem por em cheque alguns dos conceitos de ditadura existentes pelo mundo, quando ela é apenas centralizada em uma única figura, em uma única personagem e não em um conjunto de elementos que compõem a administração de um país e, para tentar prever se haverá ou não futuro da paz na região, deve-se pensar sobre quem é a figura líder na Coreia do Norte.

Em dezembro de 2011, quando o antigo líder do país, Kim Jong-Il veio a falecer e Jong-un foi apontado para assumir o poder, foi traçado um perfil do então novo líder, aqui no portal do CEIRI, na época esperançoso, pois ele era uma pessoa muito ligada aos acontecimentos, costumes e esportes globais e fã de esportes estadunidenses. Entre o ano em que assumiu até 2017, no entanto, nada mudou nas relações Seul-Pyongyang. O jovem Kim manteve a mesma linha adotada por seu pai e por seus antecessores, priorizando o poder militar e não as reformas sociais, econômicas e os avanços nas relações entre as Coreias e com o Sistema e Sociedade Internacional.

Após anunciar a delegação esportiva e o grupo de autoridades para os jogos de inverno na Coreia do Sul, bem como parar com as ações e testes militares que geravam atritos com os sul-coreanos e cumprir até o momento com o que foi dito, o sistema internacional vem tomando o líder de Pyongyang como uma possível caixa de surpresas. No passado ele era visto como a pessoa que poderia abrir seu país para o mundo, iniciar novamente o diálogo e reduzir os atritos com os demais países da região, porém a troca foi apenas do Kim Jong-Il para Kim Jong-un e não a renovação da cúpula do poder.

Como um país é governado por não apenas por uma figura, mas por um sistema composto por um grupo de entidades ou pessoas que administram a sociedade, corporificando-se em parlamentos, executivos e órgãos judiciários, o governo norte-coreano não é exceção. Tudo que se relaciona ao país é focado no líder supremo, mas pouco se tem notícias sobre troca de pessoas nos principais cargos que formam o alicerce da administração norte-coreana.

Em 2016 um ou outro caso foi noticiado, como a saída do marechal Ri Yong-ho; em 2017, o foco foi nos testes nucleares e atritos com Washington e Seul. O motivo das novas medidas do governo Kim pode ser um sinal de que ele realmente está conseguindo comandar o país de fato, não sendo apenas uma figura de ilustração enquanto o país é comandado por generais e outros atores que tem influência no governo de Pyongyang.

Jong-un sempre foi ligado em esportes, principalmente basquete e já até convidou e recebeu a visita de jogadores estadunidenses em seu país e poucos se lembram de tentativas inéditas, no início de seu governo, abrindo espaço até para personagens da Disney na TV estatal KRT.  Ele era o jovem assumindo um governo composto por antigas figuras remanescentes da separação da península coreana, e o seu pensamento não era exclusivamente voltado para a guerra, vingança e domínio da península como um todo.

Com 35 anos de idade, sendo considerado muito novo para assumir tal cargo no país, ele já entrou para a história da península por protagonizar um encontro histórico com o presidente sul-coreano Moon Jae-in, na manhã do dia 26 de abril de 2018 e por caminhar e cruzar a linha de demarcação militar de mãos dadas com um presidente da Coreia do Sul, algo jamais cogitado por seus antecessores e, muito provavelmente, foi reprovado por várias das personalidades influentes no governo norte-coreano.

Kim Jong-un e Xi Jinping

Não apenas o encontro histórico com o vizinho do sul foi inovador, ele também mudou a agenda comum dos líderes antigos, que raramente saiam do país e, pela segunda vez, em menos de 2 meses, se encontrou com o presidente chinês Xi Jinping na cidade de Dalian, que fica na região de fronteira da China com a Coreia do Norte. Isso vem sendo visto como uma demonstração de que ele pode estar mudando os rumos da política externa de seu país, inicialmente dando prioridade ao reforço das relações com seus aliados e parceiros comerciais.

Alguns especialistas seguem uma linha de que ele pode estar buscando uma falsa abertura para conquistar e adquirir novos recursos e tecnologias para aprimorar tudo o que existe no campo militar e atualizar a sua tecnologia atual. Outros tendem a discutir que há uma mudança interna no poder em Pyongyang e que sua figura não é mais apenas representativa, mas sim efetiva e que está buscando meios de inserir um pouco da cultura internacional, explorando também o potencial histórico, cultural e de recursos existentes em seu território, coisas que no passado era proibido e sequer era discutido por conta dos elementos que formaram a cúpula do poder da Coreia do Norte.

Muito é e ainda será especulado sobre a nova postura do jovem Kim. Se suas ações serão positivas ou negativas ainda é muito cedo de se afirmar, mas as atuais atitudes de Pyongyang estão mudando ou podem mudar e vir a resgatar o que há de melhor na história da Coreia e a península pode voltar a ganhar força no continente asiático como em épocas passadas. Como será o futuro das famílias coreanas afastadas pela demarcação militar estará nas suas mãos, mas, além disso, em breve um ato poderá torná-lo uma das pessoas mais importantes da história moderna asiática: Kim Jong-um pode assinar o documento que ainda pendente, que nunca foi assinado, exatamente, aquele o que põe fim à Guerra da Coreia, o que selará a paz na península coreana. No próximo mês também fará a reunião histórica com Donald Trump, Presidente dos EUA, outra ação para lhe garantir destaque na história.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Kim Jongum e Moon Jaein” (Fonte):

https://veja.abril.com.br/mundo/kim-jong-un-tem-encontro-historico-com-presidente-sul-coreano/

 Imagem 2 Kim Jongum e Xi Jinping” (Fonte):

http://www.xinhuanet.com/photo/2018-05/08/1122802595_15257776232171n.jpg