ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

O futuro dos BRICS: o brasileiro Marcos Troyjo é eleito para presidir o New Development Bank

Ao final do mês de maio deste ano (2020), o diplomata, economista e cientista político brasileiro Marcos Troyjo foi eleito como o Presidente do New Development Bank (NDB), popularmente conhecido como Banco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A instituição foi fundada em 2014 na Cúpula de Fortaleza (Brasil) e teve o início de suas operações no ano seguinte. Sete (7) dos 59 projetos aprovados pelo NDB foram destinados ao Brasil, totalizando o montante de US$ 1,5 bilhão (aproximadamente, 7,57 bilhões de reais, conforme cotação de 15 de junho de 2020) e perpassando diversos setores: transporte, desenvolvimento sustentável, energias renováveis, desenvolvimento urbano etc.

O Banco possui capital autorizado de US$ 100 bilhões (em torno de 504,81 bilhões de reais, de acordo com a mesma cotação), podendo realizar empréstimos anuais de até US$ 34 bilhões (próximo de 171,64 bilhões de reais, ainda segundo esta cotação) e tendo como objetivo estimular o desenvolvimento sustentável em países emergentes. A contribuição financeira e o poder de voto de cada país são divididos de forma igualitária. A sede do Banco está localizada em Xangai, na China, com um escritório regional em Johannesburgo, África do Sul. Ao final de 2019 foi aprovado um projeto legislativo para a criação de um escritório regional do NDB em São Paulo e um escritório de representação em Brasília.

Marcos Troyjo, o novo Presidente do NDB

Marcos Troyjo deixa o cargo que ocupava enquanto secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia para suceder o indiano Kundapur Vaman Kamath na presidência do NDB. Troyjo deverá exercer a função por um mandato de cinco anos e enfrentando uma conjuntura especialmente desafiadora: um cenário internacional de instabilidade geopolítica, com o acirramento de tensões entre Estados Unidos e China, além das incertezas sobre os impactos que a crise do coronavírus acarretará para as estruturas da governança global.

A sigla dos BRICS foi originalmente lançada como BRIC (na época, apenas Brasil, Rússia, Índia e China), pelo economista Jim O’Neill, em 2006, como um acrônimo designando países com potencial de crescimento, nos quais valeria a pena investir. Surgiu como uma sigla de investimentos e foi posteriormente adotada pelos respectivos corpos diplomáticos dos países membros como uma iniciativa de cooperação internacional. Através dos anos o grupo foi ganhando materialidade e institucionalização, realizando cúpulas anuais, cooperação ministerial nos mais diversos temas e consolidando-se definitivamente com a criação do NDB.

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Por muitos anos apontou-se a heterogeneidade dos Estados membros como um dos entraves para a cooperação, mas a experiência tem demonstrado a habilidade e o pragmatismo dos corpos diplomáticos de forma a negociar e cooperar entre si, apesar das grandes divergências culturais e de regime político entre os membros. Entretanto, existe outra dificuldade premente que poderá impactar a concertação de interesses e a cooperação futura: instabilidades domésticas nos países membros.

O Brasil enfrenta a sua maior crise econômica desde 1929, além disto, a África do Sul também enfrenta problemas neste sentido. A Índia e a China continuam a manter altas taxas de crescimento nos anos recentes e embora não se possa dizer o mesmo da Rússia, este país continua sendo um ator importante na geopolítica global, devido ao seu poder militar e sua capacidade de projeção de influência através da Eurásia. 

Chefes de Estado dos BRICS na ocasião da Cúpula de 2019

A tendência parece apontar para uma crescente disparidade econômica, com a China decolando rapidamente à frente dos outros membros, o que talvez provoque assimetrias nos recursos de poder disponíveis para a negociação entre os BRICS. A próxima reunião de Cúpula foi adiada e deverá ocorrer em São Petersburgo, na Rússia, em Outubro (2020), se a pandemia de Covid-19 permitir. A Rússia ocupa a Presidência rotativa do grupo no ano de 2020, tendo sucedido o Brasil, que a ocupou no ano passado (2019). 

Em uma economia global profundamente conectada e interdependente, crises como a Covid-19 só podem ser enfrentadas através do diálogo, troca de conhecimentos e cooperação internacional. Nesse sentido, a necessidade de promover o desenvolvimento sustentável, a cooperação Sul-Sul e instituições globais mais justas são três dos principais temas que unem o grupo dos BRICS. Em relação à dimensão do desenvolvimento, a Covid-19 vem mostrando a necessidade de promover políticas industriais e fomento à ciência e tecnologia em países que não são capazes de produzir bens como respiradores e máscaras em quantidades suficientes.

Evolução da renda per capita dos BRICS entre 2000-2018

Governos e sociedades capazes de olhar além de suas fronteiras nacionais, promovendo a cooperação com parceiros estratégicos, poderão emergir desta crise como líderes na governança global que ainda está sendo moldada pelos impactos da pandemia. A atuação de Marcos Troyjo à frente do NDB poderá ser um exemplo positivo neste sentido.

Por fim, a cooperação não implica que os atores concordem com todos os termos de um determinado assunto. A cooperação exige negociação para alcançar pontos de benefícios mútuos e geralmente implica em concessões de todas as partes envolvidas. No entanto, especialistas afirmam que o resultado sistêmico ainda é mais positivo do que quando os Estados tentam buscar apenas os seus próprios interesses individuais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tipografia estilizada com as iniciais e as bandeiras dos países membros” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/31/BRICS_Typography.svg/1280px-BRICS_Typography.svg.png

Imagem 2 Marcos Troyjo, o novo Presidente do NDB” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/worldeconomicforum/39000368960

Imagem 3 Mapa demonstrando a localização dos BRICS” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bb/BRICS.svg/1280px-BRICS.svg.png

Imagem 4 Chefes de Estado dos BRICS na ocasião da Cúpula de 2019” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/7d/2019_Reuni%C3%A3o_Informal_do_BRICS_-_48142657062.jpg/1280px-2019_Reuni%C3%A3o_Informal_do_BRICS_-_48142657062.jpg

Imagem 5 Evolução da renda per capita dos BRICS entre 20002018” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/BRICS-GDP-pCapita-2000-2018.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Netanyahu confirma plano de anexação de assentamentos na Cisjordânia e Vale do Jordão para 1º de julho

O Primeiro-Ministro israelense, Benyamin Netanyahu, definiu o dia 1º de julho como data prevista para adiantamento do seu plano de anexação dos assentamentos israelenses no Vale do Jordão e na Cisjordânia, na esperança de um sinal verde de Washington. Conforme publicou o The Middle East Monitor, Netanyahu disse repetidamente que planeja “avançar anexando unilateralmente essas áreas a partir do próximo mês”. Os palestinos rejeitaram a proposta e manifestaram indignação contra a anexação sugerida por Israel.

No domingo 7 de junho, o Primeiro-Ministro israelense disse a colonos e Prefeitos da Cisjordânia que ainda pretende anexar todos os assentamentos ali estabelecidos na data de 1º de julho, o mais cedo permitido por seus acordos de coalizão. Contudo, conforme reportou o The Times of Israel, Netanyahu reconheceu que a anexação de outras terras alocadas sob o plano de paz do presidente norte-americano Donald Trump provavelmente levará mais tempo.

De acordo com o The Times of Israel, o pronunciamento de Netanyahu significaria que o governo inicialmente anexaria cerca de 3% do território da Cisjordânia, cobrindo os 132 assentamentos, lar de cerca de 450.000 israelenses. O restante dos cerca de 30% que o acordo de Trump concede a Israel – a maior parte no Vale do Jordão – seria anexado em um período posterior, quando o comitê conjunto de mapeamento EUA-Israel concluísse a determinação das divisões territoriais exatas além da chamada Linha Verde pré-1967.

Segundo analistas, o governo de Trump, dominado pela crise do coronavírus e pela onda de protestos nacionais contra abusos policiais, não teria dado a Israel o endosso para anexar os territórios para não despertar mais instabilidade doméstica. O Assessor Sênior da Presidência dos Estados Unidos e uma das principais cabeças por detrás do plano, Jared Kushner, teria dito para Netanyahu “desacelerar consideravelmente o processo” de anexação unilateral de grandes partes da Cisjordânia e do Vale do Jordão.

Ainda em junho, as forças israelenses fizeram incursões e promoveram demolições como em Ain Hajla, à leste de Jericó, no vale do Jordão. O Middle East Monitor reporta que moradores foram expulsos de 8 propriedades palestinas, ficando sem qualquer abrigo. Ainda que Netanyahu tenha declarado sua intenção de anexar o estratégico e fértil Vale do Jordão já durante sua campanha eleitoral em setembro de 2019, o movimento também é parte da proposta do Presidente norte-americano “Paz para a Prosperidade”, anunciada em 28 de janeiro de 2020.

Mapa das fronteiras Israel-Palestina propostas no plano de Donald Trump ‘Paz para a Prosperidade’, de 28 de janeiro de 2020. Em azul, o Estado palestino proposto

O plano foi condenado como ilegítimo pela comunidade internacional, já que anexação dos assentamentos ilegais viola o direito internacional. Os palestinos rejeitaram a proposta e manifestaram indignação contra a anexação unilateral sugerida por Israel. A Autoridade Palestina (AP) rejeitou a proposta dos Estados Unidos e disse recentemente que considera todos os acordos assinados com Israel e os EUA nulos. As Nações Unidas e a União Europeia observaram que a anexação unilateral violaria o princípio da autodeterminação dos povos e seria um golpe devastador nas perspectivas de uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino. Os planos de paz que se baseiam na solução de dois Estados reservam aos palestinos os territórios que ocupavam antes da guerra de 1967: Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Como reflexo do alinhamento da Casa Branca com Tel Aviv, em maio de 2018 os EUA transferiram sua embaixada da capital israelense para Jerusalém. Em março de 2019, Trump reconheceu a anexação israelense das Colinas de Golã ocupadas na Síria. Em junho de 2019, os Estados Unidos reduziram suas contribuições à UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos, a zero; e em fevereiro de 2020 o país excluiu o financiamento à Autoridade Palestina e cessou toda a assistência humanitária da USAID na Cisjordânia e em Gaza.

Segundo informou a agência Reuters, em 6 de junho, milhares de israelenses protestaram contra o plano do Primeiro-Ministro israelense de estender a soberania sobre partes da Cisjordânia ocupada. Em Tel Aviv, na esteira do anúncio de Netanyahu, manifestantes carregavam cartazes dizendo “não à anexação, não à ocupação, sim à paz e à democracia”. Alguns agitavam bandeiras palestinas. Os organizadores também exibiram um vídeo do senador democrata dos Estados Unidos, Bernie Sanders, apoiando a causa palestina.

Já colonos israelenses e membros da extrema-direita expressaram reservas e até objeções ao plano de anexação de Netanyahu. Conforme escreve Mazal Mualem para o Al-Monitor, opositores internos, que supostamente se beneficiariam da ocupação, argumentam que a anexação que o Primeiro-Ministro está promovendo como passo histórico “é realmente um codinome para o estabelecimento de um Estado palestino que Netanyahu também está endossando como parte do plano de paz dos EUA”. Naftali Bennett, líder do partido nacionalista Bait Yehudi, teria sido ouvido acusando Netanyahu de ocultar intencionalmente os mapas e detalhes do plano de anexação. Nas palavras de Bennett: “Ainda não sabemos os detalhes do plano e do mapa. É soberania ou Palestina?”, reportou o The Times of Israel.

A iniciativa de extensão da soberania israelense sobre 30% da Cisjordânia – que na prática normaliza a ocupação, conforme escrevem G. N. Nithya eMohammad Ayesh – enfrentou oposição inesperada dos colonos por ser supostamente acompanhada de concessões aos palestinos, incluindo o estabelecimento de um Estado árabe nos 70% restantes da Cisjordânia. Yochai Damri, membro do Conselho Yesha, organização composta por 24 chefes de conselhos de assentamento, disse ao The Washington Post: “Se formos deixados aqui assim, estaremos no mar de um Estado palestino, um Estado inimigo. […] Todos sabemos que existem árabes que querem nos matar. Eles farão tudo o que puderem para nos machucar e nos forçar a sair desta terra”.

Conforme pesquisa elaborada pelo Israel Democracy Institute e publicada em 3 de junho pelo The Jerusalem Post, 50,1% dos israelenses apoiam a aplicação da soberania israelense a partes da Judéia e da Samaria. Entre os que apoiam a anexação dos territórios ocupados, um quarto dos israelense (25,3%) disseram que apenas apoiariam com o endosso do governo dos Estados Unidos, e outros 24,8% disseram que apoiam a anexação mesmo sem o apoio norte-americano. 

Michael Lynk, relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, disse à Mersiha Gadzo, da Al Jazeera, que “se Israel seguir adiante com a anexação, criará um Estado com dois níveis distintos de direitos políticos, econômicos, sociais e de propriedade, equivalentes ao apartheid”. E concluiu: “Quando a poeira baixar… o mundo perceberá que há apenas um Estado que opera entre o Mediterrâneo e o rio Jordão – e esse é Israel”, disse Lynk.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 PrimeiroMinistro israelense, Benjamin Netanyahu, em discurso em julho de 2015(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Prime_Minister_Netanyahu_(22674245217)_(cropped-01).jpg

Imagem 1 Mapa das fronteiras IsraelPalestina propostas no plano de Donald Trump Paz para a Prosperidade’, de 28 de janeiro de 2020. Em azul, o Estado palestino proposto(Fonte): 

https://en.wikipedia.org/wiki/Trump_peace_plan#/media/File:Trump_Peace_Plan_(cropped).jpg.

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Xi Jinping promete criar um sistema de saúde pública robusto para garantir a estabilidade da China

O Presidente da China, Xi Jinping, prometeu construir um forte sistema de saúde pública, afirmando que é crucial para a estratégia de desenvolvimento e a segurança nacional da China. Xi assumiu o compromisso em um discurso de alto perfil no Grande Salão do Povo, em Pequim, na terça-feira (2 de junho de 2020), em uma reunião a portas fechadas com vários dos principais especialistas em medicina e saúde pública, incluindo o especialista em doenças respiratórias, Zhong Nanshan, informa o jornal South China Morning Post.

Na reunião, Xi se comprometeu a direcionar recursos para criar uma rede de saúde pública que vincule governos centrais e locais, agências de controle e prevenção de doenças, laboratórios, hospitais e institutos de saúde de base, bem como escolas de saúde pública para garantir identificação e respostas rápidas a surtos de novas doenças infecciosas. Também ordenou a persecução de melhor coordenação e disciplina para que as brechas técnicas sejam suprimidas. “A segurança das pessoas é a pedra angular da segurança nacional … Um sistema de prevenção de doenças é … importante para garantir a estabilidade econômica e social”, apontou o Mandatário chinês.

Enfermeira atendendo paciente no Hospital Hubei TCM, em Wuhan

É a declaração mais recente de Xi para mostrar sua liderança na revisão do sistema de saúde da China, após a emergência da pandemia de coronavírus, que matou 380.000 pessoas em todo o mundo (até 5 de junho de 2020).

Xi realizou vários discursos sobre o fortalecimento do sistema de saúde pública, com os detalhes mais recentes sobre as ações tomadas pelo governo. “Um mecanismo de investimento estável no sistema de saúde deve ser estabelecido para melhorar a infraestrutura do sistema de controle e prevenção de doenças”, afirmou o Chefe de Estado chinês. Para Xi, os centros de controle de doenças e hospitais também devem “estabelecer um mecanismo para compartilhar informações, recursos e supervisionar uns aos outros”, enquanto várias escolas de saúde pública de alto nível devem ser estabelecidas para promover a experiência em pesquisa de patógenos, epidemiologia e testes laboratoriais.

Yanzhong Huang, pesquisador sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores, de Washington, observou: “O investimento pós-Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS)* da China em suas capacidades de vigilância e resposta a doenças realmente valeu a pena, como mostra sua capacidade de concluir a sequência do genoma da Covid-19 em um período muito curto. Mais investimentos nessa área ajudariam a corrigir as brechas no sistema de saúde pública.

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Notas:

* A Síndrome Respiratória Aguda Grave, causada pelo vírus Sars-Cov-1, é uma doença identificada pela primeira vez na China, que ocasionou uma pandemia global entre 2002 e 2004, infectando 8.098 pessoas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da China, Xi Jinping” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Xi_Jinping_at_Great_Hall_of_the_People_2016.jpg

Imagem 2 Enfermeira atendendo paciente no Hospital Hubei TCM, em Wuhan”(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=hospital+wuhan&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:A_nurse_measuring_the_body_temperature_for_outpatients_in_Hubei_TCM_Hospital.jpg

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Infância, violência e pandemia no continente africano

Os efeitos socioeconômicos da pandemia do Covid-19 em países em desenvolvimento e de menor desenvolvimento relativo realçou a vulnerabilidade da infância e juventude em situações de crise. Além das questões que incluem a dificuldade de acesso a serviços básicos e suprimentos, o aumento da violência contra crianças se soma nesta perspectiva.

As Organizações Internacionais Save The Children e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, sigla em inglês para United Nations Children’s Fund) divulgaram conjuntamente dados que salientam o caráter emergencial e humanitário da juventude mundialmente. Segundo a pesquisa, até o final do ano de 2020 serão 86 milhões de crianças vivendo em lares empobrecidos em decorrência da pandemia. Cabe destacar que tal acréscimo será mais expressivo na África Subsaariana e na Ásia Meridional.

Dentro das implicações relacionadas com a pandemia, como já mencionado, as diferentes expressões da violência contra a criança se tornam alarmantes. Ações como a agressão física, abuso sexual e psicológico, exploração, negligência e violência relacionada à comunidade na qual estão inseridas compõem o amplo espectro de abusos que as crianças e jovens experienciam. Em virtude do isolamento social e da interrupção das atividades escolares, o mecanismo de identificação e denúncia de abusos contra crianças e adolescentes, realizado por educadores, também foi severamente afetado.

Logo da UNICEF

A título de compreensão, o Grupo das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável utilizou o surto do Ebola, de 2014, em seu relatório sobre o impacto do Covid-19. Ainda que sejam extremamente diferentes, o Ebola fornece um parâmetro para elucidar a vulnerabilidade da infância e juventude em emergências sanitárias e humanitárias.

Para tanto, durante essa epidemia, aproximadamente 16,6 mil crianças perderam um de seus pais ou cuidadores. Apenas em Serra Leoa houve o aumento de 11% da gravidez entre meninas de 12 a 17 anos; a retomada das atividades escolares entre meninas na faixa etária citada acima decaiu para 34%. De modo complementar, a restrição da renda familiar causada pelo Ebola agravou os casos de desnutrição em 3,5%. Como efeito, o trabalho e o casamento infantil também foram agravados durante a epidemia.

Trabalho infantil no campo

A UNICEF alerta para punições de caráter disciplinador que são comumente utilizadas na África Central e Ocidental – antes mesmo do surto do Covid-19.  Estima-se que este tipo de medida educacional violenta seja aplicado em uma a cada três meninas (entre crianças e adolescentes). Do mesmo modo, o casamento infantil ocorre em quatro de dez jovens adultas (entre 20 e 24 anos) que tiveram seus casamentos realizados antes dos 18 anos.

Com a alarmante dimensão que a atual pandemia adquiriu, a UNICEF lançou em abril de 2020 a Agenda de Ação voltada para a proteção infantil, composta por 6 tópicos principais que tratam, em síntese, sobre manutenção da saúde, alimentação, educação e segurança de crianças e familiares em risco. Nesse quadro, 41 Estados Africanos assinaram a Agenda de iniciativas para a proteção da infância.

A Covid-19 exacerbou fenômenos que já ocorriam cotidianamente, e em outros processos de crise humanitária. Medidas adotadas no âmbito exterior, como a Agenda da UNICEF, podem representar um ponto relevante do debate sobre a garantia dos direitos humanos aplicada a esse segmento tão vulnerável da sociedade. Contudo, tendo em vista que o protocolo de contenção da disseminação do vírus também impactou nas redes de suporte comunitário ao combate da violência contra as crianças, se faz necessário o estabelecimento de medidas mais incisivas no âmbito doméstico para a reversão deste cenário.

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Imagem 1Crianças Somali” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/Somali_children.JPEG

Imagem 2Logo da UNICEF” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1f/UNICEF_FLAG.png

Imagem 3Trabalho infantil no campo” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Child_labour_in_Africa

ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

União entre empresas solicita retomada econômica “Verde” a líderes mundiais

Lançado em 2000, o Pacto Global trata-se de uma iniciativa do então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para as empresas alinharem estratégias no intuito de defenderem suas operações a partir de estratégias voltadas à preservação do meio ambiente e dos direitos humanos. Por outro lado, este instrumento não tem peso de código de conduta ou regulação mandatória, trata-se de um consenso voluntário de lideranças corporativas comprometidas com uma mudança profunda da gestão mundial de negócios.

Recentemente, um grupo de 155 empresas (que somam mais de 5 milhões de funcionários) assinaram um comunicado pleiteando junto aos governos um alinhamento de seus esforços na recuperação econômica frente à crise disseminada pela COVID 19, como também para enfrentar as alterações climáticas. A título de ilustração, dentre os signatários brasileiros podemos citar: Movida, Malwee, AES Tietê, Lojas Renner, Natura e Baluarte. Ao todo, construíram o documento representantes de 34 setores e de 33 países.

Estas empresas também compõem a iniciativa Science Based Targets, que é uma colaboração entre o CDP, o Pacto Global da ONU, o World Resources Institute e o WWF, cuja missão é avaliar e validar independentemente as metas climáticas corporativas em relação às mais recentes ciências climáticas. Assim, busca-se desenvolver junto aos governos e líderes mundiais políticas que aumentem a resistência a choques futuros.

Sobretudo, os esforços conjuntos traçam como meta manter o aumento da temperatura global até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, em linha com o alcance de emissões líquidas zero antes de 2050.

#ÉHoraDaNatureza! – Fonte: UNEP

Segundo Lila Karbassi, chefe de programas do Pacto Global da ONU e membro do Conselho da Science Based Targets, “os governos têm um papel fundamental a desempenhar, alinhando políticas e planos de recuperação com a mais recente ciência climática, mas não podem conduzir apenas uma transformação socioeconômica sistêmica. Para lidar com as crises interconectadas que enfrentamos, precisamos trabalhar juntos como uma comunidade internacional para entregar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris”.

Por fim, a retomada aclamada pelas empresas vai ao encontro do preparo sanitário e do apoio governamental dos Estados, no intuito de proteger os trabalhadores e o meio ambiente interconectado a todas as atividades econômicas. Para maiores informações, as ações do Pacto Global estão disponíveis neste link.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Recuperação econômica verde Foto: Pixabay” (Fonte):

Imagem 2 “#ÉHoraDaNatureza! Fonte: UNEP” (Fone):

https://www.unenvironment.org/pt-br/regions/america-latina-e-caribe-brasil

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

A preparação digital na América Latina

Um estudo realizado pela Cisco Systems, e divulgado no início de 2020, avaliou a prontidão digital de 141 nações. Dentre os 21 países latino-americanos avaliados pelo Digital Readiness Index 2019,  os três melhor posicionados são o Chile (34º), o Uruguai (41º) e a Costa Rica (47º) e os três piores são a Nicarágua (97º), a Venezuela (100º) e o Haiti (134º).

Outro estudo denominado Speedtest Global Index, da Ookla, atualizado em abril de 2020, classifica 174 países, por ordem decrescente de classificação, em velocidade de internet fixa banda-larga e internet móvel. Singapura lidera o ranking de banda-larga fixa, e na América Latina (A.L.) aparecem o Chile (30º), o Panamá (35º), o Brasil (56º) e em seguida o Uruguai (61º). Os piores desempenhos ficaram com Cuba (172º) e Venezuela (173º).

Em termos de internet móvel, a liderança mundial é da Coreia do Sul, a Jamaica (50º) é a primeira nação latino-americana e a Venezuela (138º) é a de pior desempenho. Singapura e Chile detêm a liderança mundial e regional, respectivamente, no ranking do Digital Readiness Index e no Speedtest Global Index em velocidade de internet fixa banda-larga. Entretanto, observa-se, entre os dois índices, variação significativa na classificação de outros países. Isto porque a infraestrutura tecnológica medida também pelo Speedtest é importante, porém é apenas um dos fatores do Digital Readiness Index.

Já a escola de negócios suíça IMD publicou, em final de 2019, o seu Ranking Global de Competitividade Global com 63 países analisados. São três os fatores avaliados, a saber:   Conhecimento, Tecnologia e Prontidão Futura. No trabalho da IMD, Singapura ocupa a 2ª posição, perdendo apenas para os EUA, e Chile (42ª) é o primeiro da A.L., seguido de México (49ª) e Brasil (57ª).

A Cisco desenvolveu um modelo de análise para definir, mensurar e descobrir as intervenções-chave que os Governos podem adotar para evoluírem na jornada de prontidão digital. A metodologia se utiliza de uma abordagem holística para compor um panorama completo da preparação do país, baseada em sete fatores: 1) Necessidades Básicas; 2) Investimentos Empresariais e Governamentais; 3) Facilidade de Fazer Negócios; 4) Capital Humano; 5) Ambiente de Startup; 6) Adoção de Tecnologia; 7) Infraestrutura Tecnológica.

Os Sete Fatores do Readiness Index 2019 da Cisco

A partir dessa análise, os países foram classificados em um dos três estágios a seguir: Ativação, Aceleração e Amplificação. Em Ativação está o grupo que se encontra nos primeiros passos da jornada digital e em Aceleração os que avançaram um pouco mais, porém com espaço bastante para aceleração ou melhoria. Este grupo intermediário foi subdividido em Aceleração Baixa (abaixo da média do grupo Aceleração) e Aceleração Alta (acima da média citada). Em Amplificação estão os mais avançados, porém essa posição não garante liderança no processo no longo prazo.

O Apêndice A do relatório mostra todos as nações, em ordem alfabética, com a nota obtida em cada um dos sete fatores. A média mundial é equivalente a 11,90 e os três primeiros colocados da A.L. superaram essa média com as seguintes notas: Chile (14,80), Uruguai (13,88) e Costa Rica (13,58).  Já os três últimos tiveram notas bastante inferiores à média global: Nicarágua (9,91), Venezuela (9,52) e Haiti (5,96).

Nenhum país do mundo obteve a nota máxima (25), Singapura, que ficou em primeiro lugar obteve nota 20,26. Segundo o relatório da Cisco, o grau de maturidade digital, de certa forma, espelha o desenvolvimento econômico de cada país e está fortemente correlacionado com outros indicadores tais como PIB per capita e meio-ambiente saudável.

O relatório traz considerações sobre os fatores de maior impacto, citando o Capital Humano como crítico em todos os estágios para formar uma força de trabalho capaz de utilizar e criar tecnologia. Para os que estão no estágio de Ativação recomenda-se investir fortemente em Necessidades Básicas e desenvolvimento de Capital Humano. Em Aceleração, recomenda-se atuar em Facilidade de Fazer Negócios. Mesmo para os em Amplificação, geralmente com excelente pontuação em Necessidades Básicas e Facilidade de Fazer Negócios, é necessário continuar investindo nestes componentes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa de Prontidão Digital da Cisco” (Fonte):

https://www.cisco.com/c/en/us/about/csr/research-resources/digital-readiness/_jcr_content/Grid/category_atl_b054/layout-category-atl/anchor_info_e4d7.img.jpg/1579075233174.jpg

Imagem 2 Os Sete Fatores do Readiness Index 2019 da Cisco” (Fonte):

https://alln-extcloud-storage.cisco.com/blogs/1/2020/01/Digital-Readiness-graphic-1024×444.jpg