ANÁLISES DE CONJUNTURAAvaliação de CenárioESTUDO

Um Sócrates muçulmano

Um ano após a tentativa de Golpe de Estado, Erdogan parece ter consolidado seu poder além do que se podia esperar. O estado de exceção se tornou o “novo normal” na Turquia. Uma mídia paranoide e uma repressão sem precedentes desde a época dos regimes militares, com demissão e prisão de milhares de oponentes criaram a atmosfera que permitiu o “êxito” do referendo em abril. Uma nova Constituição formalizará a transição para o autoritarismo. Sem dúvida, o governo AKP* conseguiu mobilizar vastas reservas de conservadorismo e nacionalismo, explorando uma tendência de ver complôs em cada lugar. Contudo, não sejamos severos demais. Mesmo que a conexão da Hizmet com terrorismo seja fantasmagórica, ainda é verdade que a Turquia tem nos últimos anos sofrido com vários ataques terroristas mortíferos (provavelmente jihadistas). A reação popular turca não é muito diferente daquela que se observa na Europa ou nos EUA: reforça-se o poder do executivo às custas das liberdades individuais e dos controles jurídicos.

No primeiro aniversário da tentativa de Golpe, três observações se impõem:

  1. Em primeiro lugar, apesar das aparências, da repressão e do referendo, Erdogan está longe de ter silenciado seus oponentes. A oposição democrática na Turquia ainda está bem viva. Testemunho é a maciça “marcha da justiça” que no mês passado (em 9 de julho) mobilizou centenas de milhares de demonstrantes. Isto confirma que, ao invés de ter unificado o povo turco acerca do líder e de seu programa, a “tentativa de golpe” – sobre o qual ainda não sabemos tudo – deixou uma ferida aberta. Também no Ocidente as diásporas turcas permanecem dilaceradas entre correntes pró e contra Erdogan. A perseguição contra a Hizmet não consegue mascarar um país profundamente dividido.
  2. Em segundo lugar, a comunidade internacional se mantêm cética em relação à versão oficial dos acontecimentos do ano passado (2016), e crítica frente às violações de direitos dos cidadãos pelo Governo turco. Mesmo neutros no que diz respeito às responsabilidades pela tentativa de Golpe, governos, tais como o alemão, não aceitam facilmente as prisões políticas e a censura. Além do mais, os europeus se preocupam com as tentativas de Ancara para controlar as comunidades turcas radicadas em seu território, consideradas uma intromissão indevida. A Holanda e a Áustria bloquearam a entrada de ministros turcos que iriam comemorar com turcos locais a “vitória” do 16 de julho. Na mídia internacional, a Turquia está sendo doravante associada aos Estados onde se afirma que a democracia se erode ou é reduzida a formalidades propagandísticas, tais como a Rússia, a Venezuela, o Irã, ou Hong Kong. Nesse sentido, esvaziou-se a percepção que se tinha de a Turquia ser um modelo que combina islã e democracia, uma visão popular, até poucos anos.
  3. A terceira novidade provem do próprio Fethullah Gülen, que declarou há três semanas (conforme notícia divulgada em 12 de julho) que não mais procurará evitar sua extradição a um governo turco que, sem dúvida, prefere enforcá-lo após um processo político. Isto se entende melhor se lembrarmos as tentativas de intermediários de Erdogan em obter o aval de conselheiros do presidente Trump, ou à extradição, ou até a um sequestro de Gülen.

Embora seja reduzida a probabilidade de um destes cenários se realizar, a nova posição de Gülen mostra coragem e sabedoria política. Aos 79 anos, ele deve ter chegado à conclusão de que enfrentar abertamente seus detratores e até morrer mártir por suas convicções, constituiria o último serviço que ele ainda pode prestar aos ideais que defende. Como um Sócrates muçulmano, não foge das leis injustas de seu país. Preferiria voluntariamente o autossacrifício “útil” a um exílio que deixa planar dúvidas na mente de um vasto grupo indeciso.

Espera-se, obviamente, que o inspirador do movimento Hizmet nunca chegue a este fim. Mas a mera vontade de se oferecer não deixa de impressionar, e encorajará as forças, dentro e fora da Turquia, que militam em prol de um futuro de pluralismo, diálogo e compaixão.

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* AKP é o Partido da Justiça e Desenvolvimento, em turco, “Adalet ve Kalkınma Partisi”, cuja abreviação é “AK Parti”, ou AKP.

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Angola lança a Bolsa de Solidariedade Social

O Governo angolano lançou o programa intitulado Bolsa de Solidariedade Social, que tem como objetivo criar meios para reduzir a pobreza e a vulnerabilidade social. O programa será gerido pelo Ministério da Assistência e Reinserção Social e o auxílio à comunidade partirá de diferentes setores. O Ministro da Assistência e Reinserção Social, Gonçalves Muandumba, destacou que o objetivo é ser um meio de promover o empoderamento da população vulnerável, possibilitando que futuramente os mesmos se tornem colaboradores da Bolsa.

Manuel Vicente, Vice-presidente de Angola

As metas que compõem as diretrizes do projeto consistem em criar Bancos de Alimentos em todas as províncias; desenvolver a comunicação e a colaboração dos produtores agropecuários locais para a disponibilidade de seus excedentes; e instalar cozinhas comunitárias, lojas sociais e Banco de Medicamentos. Outra área que pretende abordar é o voluntariado, desenvolvendo meios de incentivo para a integração da comunidade e instituições locais na prestação de trabalho voluntário em centros de saúde e lares para crianças e idosos.

No lançamento, o Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, afirmou que a verba destinada para a área social tem aumentado, totalizando 38,03% do Orçamento Geral do Estado. Dentre os segmentos que o Governo busca impulsionar para auxiliar na superação da pobreza encontra-se a diversificação econômica, o desenvolvimento da agricultura e a produção autossuficiente de alimentos. Vicente também ressaltou que o período pacífico vivenciado pelo país é um incentivo para buscar o desenvolvimento e complementa destacando o papel de uma população atuante para a realização do programa.

Angola possui a fome como um dos desafios a serem vencidos, somado a pobreza. O Estado enfrenta longos períodos de secas que implicam diretamente na produção de alimentos, que passam a ser importados. Desse modo, o Governo vem desenvolvendo políticas públicas e programas de cooperação que se somam à estratégia proposta pela Bolsa de Solidariedade no combate à pobreza. Um exemplo dessas medidas é a cooperação com o Programa de Alimentação Mundial para a transmissão de experiências e tecnologias na área de segurança alimentar e nutricional.

Logo do Programas das Nações Unidas para o Desenvolvimento

Sob este cenário, o país pôde galgar o aumento no seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que no ano 2000 era 0,391 e passou para 0,533, em 2016. Tais dados foram apresentados no mês março de 2017, no lançamento do Relatório do Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Apesar deste avanço, o Secretário de Estado e do Planeamento, Pedro Fonseca, destaca que o país enfrenta outros desafios e que os ganhos obtidos advém da estratégia angolana de desenvolvimento a longo prazo, denominada Angola 20/25, que tem por objetivo coordenar quantitativa e qualitativamente as ações governamentais para o desenvolvimento populacional.

A Bolsa Solidariedade é uma ação que vem fornecer a conexão entre os setores sociais vulneráveis às instituições e programas existentes e a sua implementação possui um caráter adicional às demais medidas tomadas pelo Governo. Nota-se que a pauta sobre a erradicação da pobreza permanecerá em discussão no país, tendo em vista as eleições presidenciais que ocorrerão em agosto de 2017. O partido de oposição, o Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA) reforça que a temática é priorizada na sua proposta de governo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira de Angola” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ta%C3%A7a_de_Angola#/media/File:Flag_of_Angola.svg

Imagem 2 Manuel Vicente, Vicepresidente de Angola” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Domingos_Vicente#/media/File:Manuel_Vicente_2014.jpg

Imagem 3 Logo do Programas das Nações Unidas para o Desenvolvimento” (Fonte):

http://www.br.undp.org/content/dam/brazil/img/logos/undp-br-logo-about-2016.jpg

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Projeto entre Alemanha e Moçambique para a regularização de garimpos

A relação de Moçambique com a extração de ouro e outros minérios é observado desde seu período colonial, marcando a fase inicial das atividades mercantis portuguesas no território. A abundância dos recursos naturais manteve a atividade garimpeira contemporaneamente e o Estado tem se utilizado desse meio de produção para impulsionar o desenvolvimento. Contudo, tal processo também refletiu no adensamento da ação de garimpos ilegais e o crescimento do contingente de mão de obra imigrante e infantil. 

Garimpeiros

As regiões onde se concentram os garimpos ficam ao norte de Moçambique, nas províncias de Niassa e Cabo Delgado, e ao centro, em Manica e Tete. A extração do minério ocorre tanto através de minas terrestres quanto no processo de levigação (método de separação de matérias sólidas de densidade diferente por meio da água). Outra característica desse setor é seu caráter artesanal, fator que dificulta o controle estatal da atividade. Como resultado, observam-se o grande número de acidentes de pessoas decorrentes do risco que envolve esse exercício e a degradação do meio ambiente, devido a utilização do mercúrio na extração de ouro dos rios.

Economicamente, a mineração é destacada como um dos potenciais do país, juntamente com a agroindústria e o turismo. Apresentando crescimento econômico nos anos anteriores, ultimamente passou por um período de retração, devido a questões políticas da dívida pública. Somado a esse panorama encontra-se socialmente altos incides de pobreza e níveis não satisfatórios de desenvolvimento humano, saúde e saneamento.

Chanceler alemã Angela Merkel e o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi

Em decorrência dos fatos mencionados, o Instituto Federal de Geociências e Recursos Naturais da Alemanha começou a desenvolver um projeto juntamente com o Ministério dos Recursos Minerais e Energia de Moçambique (MIREM). A sugestão alemã para a superação das consequências da ação dos garimpos ilegais é auxiliar nas relações entre garimpeiros e o Estado. Para isso, o projeto visa a criação de mecanismos de coordenação entre os setores governamental, empresarial e os trabalhadores, incentivando o diálogo no que tange a extração mineral legalizada. Também é enfatizado pelo projeto o caráter regulador que o Governo moçambicano deve adotar, em contrapartida, seria utilizado o conhecimento da população na área para impulsionar os ganhos.

As relações entre Alemanha e Moçambique são observadas desde o processo de independência moçambicana, em 1975. Nesse período, a República Democrática da Alemanha iniciou diversas iniciativas envolvendo áreas como a mineração, produção têxtil e comércio. Essas relações também são marcadas pela forte migração de mão de obra do país para a Alemanha. Mais recentemente, ambos vem desenvolvendo outros meios de cooperação e evidenciando o caráter histórico de suas relações diplomáticas. A título de exemplo, durante o mês me março de 2017 foram iniciados projetos de cooperação financeira e educacional.

A perspectiva moçambicana quanto aos impactos ambientais geradas pelos garimpos é amplamente discutida. Sob essa perspectiva, no início do mês de junho foi lançado o Plano Nacional do Setor de Mineração Artesanal de Pequena Escala, com objetivo de incentivar a diminuição gradual da utilização de mercúrio no processo de extração. Dentre outras medidas tomadas, incluem a repressão da atividade ilegal pelo Comando-Geral da Polícia da República de Moçambique, que já realizou apreensões de cargas de ouro, esmeralda e rubis.

Bandeira da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDOS)

Nesse sentido, o representante da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDOS) em Moçambique, Jaime Comiche, concorda com a necessidade dessa iniciativa e destaca que o processo deve aliar-se à formalização dos trabalhadores e à criação de outras maneiras de geração de renda. Enfatiza que a atração pelo tipo ilegal de trabalho vincula-se a sua pouca oferta e à necessidade de meios para subsistência.

Nota-se que a exploração dos recursos minerais afeta não apenas as dimensões econômicas e o destino do comércio ilegal do ouro extraído, pode-se também observar o impacto social da mão-de-obra que, pela não adequação nas qualificações exigidas pelos trabalhos formais, acabam se inserindo em um mercado que lhes fornece risco. A iniciativa alemã, somada aos estímulos de Organizações Internacionais apresenta uma alternativa para o início da mudança de cenário. Todavia, esse processo demandará tempo e esforços do Estado, haja vista que os objetivos para que seja obtido os ganhos da cooperação dependem diretamente da maior atuação reguladora do Governo, o que se mostrará desafiador devido à proximidade das eleições autárquicas*, em 2018, e presidências, em 2019.

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Nota:

* As eleições autárquicas referem-se às eleições das autarquias locais, como os membros das Assembleias, Conselhos Municipais e Postos Administrativos nas Províncias. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Localização de Moçambique” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_da_Independ%C3%AAncia_de_Mo%C3%A7ambique#/media/File:LocationMozambique.svg

Imagem 2Garimpeiros” (Fonte):

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Imagem 3 Chanceler alemã Angela Merkel e o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi” (Fonte):

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Imagem 4 Bandeira da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDOS)” (Fonte):

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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Líbano aprova nova Lei Eleitoral

No último de 16 de junho de 2017, o Governo libanês aprovou e ratificou uma nova Lei Eleitoral para o país. A aprovação, após um longo debate legislativo, pavimenta o caminho para novas eleições parlamentares a serem promovidas em 6 maio de 2018. Críticos, contudo, ressaltam as insuficiências da nova Lei.

Ela foi proposta pelo membro do parlamento George Adwan, das Forças Libanesas. O primeiro-ministro Saad Hariri elogiou o ocorrido, afirmando que foi uma “conquista histórica”. O presidente Aoun saudou o projeto como uma “grande conquista”, acrescentando que o sistema de votação atual não prevê uma representação justa.

O país agora será dividido em 15 distritos eleitorais principais, compostos por 27 subdistritos, com os 128 deputados divididos entre eles. Partidos e grupos ainda apresentarão uma lista de candidatos de todas as seitas, mas, em oposição ao antigo sistema de “o vencedor leva tudo”, o novo processo alocará os lugares proporcionalmente nas listas.

Cidadãos libaneses da diáspora agora poderão votar em embaixadas, consulados ou outros locais designados pelas autoridades competentes, correspondendo a 6 votos. Os assentos da diáspora serão divididos entre três cristãos e três muçulmanos, de acordo com o Artigo 112 da nova Lei Eleitoral.

O Líbano é um dos lugares com maior diversidade religiosa do Oriente Médio

Em um país que reconhece oficialmente 18 diferentes seitas religiosas, a maioria dos partidos políticos concorda com a necessidade de reformar o sistema atual, denominado por “Lei de 1960”, mas discorda sobre o arranjo que deveria substituí-lo. De acordo com a Al Jazeera, a nova legislação substituirá o atual sistema de votação plural por representação proporcional e reduzirá o número de distritos eleitorais. Diversos grupos reformistas vinham demandando um aumento na representatividade parlamentar, saliência distrital das minorias e maior composição sectária dos blocos parlamentares para reduzir o sectarismo e conferir maior participação a diferentes partidos. O alvo das críticas sempre foram os tradicionais líderes locais que tinham sua vitória virtualmente garantida.

A Lei atual é sectária, baseada nas confissões religiosas do país. E, projetada para reduzir a concorrência inter-sectária, atribui um número de assentos parlamentares a diferentes seitas religiosas em cada distrito. No entanto, o sistema é majoritário e o candidatos em um determinado círculo eleitoral devem alcançar a pluralidade do voto total para serem eleitos, independentemente da confissão. Isto levava ao estabelecimento de alianças estratégicas sectárias locais que conferiam aos líderes locais a maioria relativa em quase todos os distritos, práticas frequentemente condenadas como compras de votos. A demanda por eleições proporcionais, por esta razão, já vinha sendo feita por diversos setores da sociedade e da política libanesas. Com amplas mudanças demográficas e ausência de um censo atualizado desde 1932, a Lei Eleitoral era considerada injusta e não representativa da composição sectária atual dos distritos.

Dois dias antes da aprovação, em 14 de junho, o mandato do atual Parlamento foi prorrogado pela terceira vez, por 11 meses adicionais, até a data das próximas eleições parlamentares, que deveriam ter sido realizadas em 2013 – o Parlamento atual foi eleito para um mandato de quatro anos em 2009. Elas foram adiadas outras duas vezes pelo Governo. A primeira em 31 maio de 2013, por 17 meses, e a segunda em 5 de novembro de 2014, por 31 meses, até 20 junho de 2017. Preocupações de segurança ligadas à instabilidade política e à guerra na vizinha Síria foram apontadas como justificativas pelo Governo libanês.

Michel Aoun – atual Presidente do Líbano

As eleições parlamentares estavam agendadas para o mês passado (maio), mas, com os deputados incapazes de decidir sobre a nova Lei Eleitoral, o país caminhava em direção a um vácuo político que ameaçava desafiar o acordo político que permitiu a indicação de Michel Aoun como Presidente do país, em outubro de 2016, após 29 meses consecutivos de vacância do cargo. Em abril, o Presidente suspendeu as atividades parlamentares durante um mês para impedir que os legisladores estendessem o mandato e pudessem ter mais tempo para concordar com uma Lei Eleitoral, sem a necessidade de mais uma extensão.

Conforme reporta Bashir el Khouri para o Al Monitor, para Zeina el-Helou, secretária-geral da Associação Libanesa para Eleições Democráticas, “este é definitivamente um passo positivo, mas insuficiente. Os partidos no poder minimizaram o efeito da representação proporcional e sustentaram o confessionalismo através do número e divisão dos distritos. Isto sem mencionar que várias reformas essenciais, como a quota feminina, redução da idade de votação de 21 a 18 ou a criação de uma autoridade independente não foram incluídas na lei”.

Para Ramez Dagher, na forma como foi desenhada, a nova Lei Eleitoral é, em sua essência, majoritária, assim como a Lei anterior de 1960 (e confirmada em 2008, no acordo de Doha), “com um toque de representação proporcional”. O novo desenho dos distritos sectários permanece profundamente sectário, e não representa grandes inovações. No longo prazo, escreve Dagher, “é uma atualização indutora de Guerra Civil que provavelmente reorganizará os blocos parlamentares de uma maneira sectária previsível, mantendo os Zuamas dominantes [líderes políticos feudais] nas mesmas cadeiras que eles ocupam há décadas”.

Com a programação das próximas eleições para maio de 2018, ativistas da sociedade civil já se organizam para participarem do pleito, com demandas de base, contra a ampla corrupção no país, contra o sistema confessional e os partidos tradicionais. A lançarem-se como independentes ou parte de movimentos civis, figuras proeminentes e ativistas já se organizam para demandar políticas e reformas econômicas, sociais e ambientais. Atuando, dentre outros, pelo Partido Saaba, pelo You Stink e pelo Movimento Take Back Parliament. Esta proliferação de movimentos sociais e de partidos anti-establishment ganhou força ano após ano desde a crise do lixo na capital do país, no verão de 2015, quando alternativas de coleta e reciclagem foram desenvolvidas pela própria sociedade civil.

Tanto como foi para as eleições municipais de 2016, as eleições parlamentares de 2018 terá como desafio uma maior coesão e plataforma comum dos movimentos, além da real oposição a partidos tradicionalmente vitoriosos. Mas, conforme argumentou Nadine Moussa, membro ativo da sociedade civil libanesa que participará das eleições como candidata independente, a tentativa parece promissora. De acordo com a Lebanon Statistic: “47% dos libaneses dizem que não votarão em nenhum dos partidos políticos no poder após anos de vácuo político recorrente e paralisia, recessão econômica, aumento da corrupção e, o mais importante, duas extensões ilegais do mandato do parlamento”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Parlamento libanês” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BeirutParliament.jpg

Imagem 2 O Líbano é um dos lugares com maior diversidade religiosa do Oriente Médio” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADbano#/media/File:ChurchMosque.jpg

Imagem 3 Michel Aoun atual Presidente do Líbano” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Aoun

 

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

Um panorama bipolar para o Oriente Médio

A tensão instaurada em um Oriente Médio já combalido por guerras civis e cisões étnicas ganha profundidade e complexidade com a derrocada nas relações diplomáticas entre o Emirado do Qatar com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Egito, Iêmen e Líbia, um posicionamento que pode revelar muito mais do que uma simples discordância entre atores vizinhos.

Presidente Trump e o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud durante reunião dos líderes do GCC, no King Abdulaziz Conference Center, em Riad, Arábia Saudita

O momento atual do Oriente Médio converge com a chegada de Donald Trump à Casa Branca e essa releitura das tensões no subcontinente abre precedentes para dividir o quadro conjuntural da região em dois: de um lado, Estados Unidos e membros do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC na sigla em inglês), sob o protagonismo da Arábia Saudita; e, de outro lado, o Irã.

Com a sua primeira viagem como Presidente ocorrendo em Riad, Trump concordou com a Monarquia saudita no que tange ao papel do Irã como desestabilizador da região, porém sofreu críticas de observadores internacionais que insinuaram que sua presença em solo saudita tenha provocado ainda uma divisão entre os árabes do Golfo.

Embora haja concordância a respeito da influência iraniana na geopolítica do Oriente Médio, o objeto de debate no âmbito do Conselho de Cooperação do Golfo é que faz diferirem as ações que cada Estado pretende tomar.

Ministros das Relações Exteriores do P5+1 antes do anúncio final

Nesse sentido, para especialistas na região, o acordo consolidado nas negociações nucleares entre o P5 + 1 (Estados Unidos, China, Rússia, França, Reino Unido, mais Alemanha) e o Irã foi o propulsor na divisão dessas ações.

Sob a liderança da Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, atores céticos com o acordo, a preocupação se dá pela elevação do grau de influência que gerou para os iranianos o afrouxamento das tensões entre o ocidente e o Irã. Contudo, outros atores, incluindo Omã e o Emirado de Dubai esperavam capitalizar o acordo e forjar novas parcerias comerciais. O Kuwait e o próprio Qatar, pelo histórico recente, se posicionaram no meio, ou seja, anseiam pela contenção do país persa, porém também desejam a diminuição dos desequilíbrios, uma vez que compartilham interesses com Teerã, a incluir campos de gás e outras fontes de comércio.

Por apresentar uma posição histórica ambígua nas relações exteriores, Doha ganhou o protagonismo. Em meado dos anos 1990 flertaram com Saddam Hussein, Irã e Israel, bem como com a oposição saudita através das transmissões da Al Jazeera.

Em tempos mais recentes, o Qatar mantém boas relações com Hezbollah e apoia abertamente o Hamas, além de ser acusado de apoiar grupos islâmicos radicais na Síria, bem como a Irmandade Muçulmana em todo o Oriente Médio, fator preponderante para o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi intervir e apoiar a crescente pressão sobre os qataris.

Em Washington, a posição neutra apresentada pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, e pelo Departamento de Defesa contrasta com o desconforto pelo vínculo existente de Doha com diversos grupos jihadistas.

Entretanto, fora dos registros oficiais, Washington concorda que o vínculo com grupos como Hamas, Taliban e a Al-Qaeda atenuaram as posições desses grupos, tornando-os mais acessíveis às negociações, tal  como em 2014, quando o Qatar persuadiu o Taliban a libertar o soldado estadunidense Bowe Bergdahl, ou quando ajudou a garantir meses depois a liberdade de Peter Theo Curtis, jornalista detido pela filial da Al-Qaeda na Síria, a Frente Al-Nusra.

Para observadores, analistas e membros do Governo estadunidense algo deve ser feito sobre as políticas de Doha, dada a divergência entre o posicionamento do presidente Trump e o que as agências de segurança nacional acreditam. Nesse sentido, uma das alternativas veiculadas é utilizar do Kuwait como negociador para o fim do impasse no Golfo.

Por outro lado, há o aspecto geopolítico da atual administração que já elegeu o Irã como o inimigo a ser combatido para sua política externa no Oriente Médio e, nesse sentido, os acordos comerciais de cooperação militar firmados na viagem a Riad são os meios para materializar o enfraquecimento do Estado persa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente Trump e a PrimeiraDama Melania Trump sendo recebidos pelo Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, no Aeroporto International Rei Khalid” (Fonte):

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Imagem 2Presidente Trump e o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud durante reunião dos líderes do GCC, no King Abdulaziz Conference Center, em Riad, Arábia Saudita” (Fonte):

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Imagem 3Ministros das Relações Exteriores do P5+1 antes do anúncio final” (Fonte):

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ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

As novas metas da União Europeia

A União Europeia (UE) continua seu projeto de integração e reformulação visando sair fortalecida e preparada para um novo posicionamento geopolítico. Tal postura está sendo mantida, mesmo após 10 anos de crise econômica e de enfrentar uma crescente instabilidade política e social, causada tanto pelos reflexos das políticas de austeridade como por assuntos sociais, tais como a imigração e o terrorismo. Além disso, deve-se acrescentar a crise provocada pela saída de uma das principais economias da região, bem como ter de enfrentar a ameaça de outras desistências, alimentadas por um crescente populismo.

A saída do Reino Unido, os atritos com a gestão Trump e com a Rússia, as novas tendências globais e as novas ameaças promoveram uma reflexão e reposicionamento da União. Atualmente, o Bloco voltou a negociar com o Mercosul e acredita que um acordo seja assinado até o final de 2017; as negociações com o Canadá também evoluem rapidamente; assim como a retomada das solicitações de adesão ao Bloco Europeu.

A retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris fortaleceu a posição da União Europeia como maior promotor de cooperação internacional para o desenvolvimento, sendo o grupo responsável por mais de 60% de todos os recursos dedicados a esta atuação.

Conselho Europeu

A Comissão Europeia e o Parlamento Europeu assinaram na semana passada o chamado Consenso Europeu sobre o desenvolvimento”, no qual os países membros do Bloco se comprometem em manter o fluxo de recursos e ações para a cooperação internacional e intensificar as atividades que promovem o desenvolvimento das regiões mais carentes. Dessa forma, grupo europeu deseja transmitir ao mundo uma mensagem de coesão e futuro, focados no desenvolvimento e preservação do meio ambiente.

Atualmente, a Europa oferece subvenções e financiamentos, além de projetos de investimento social para todas as regiões do planeta, destacando-se que empresas e instituições interessadas podem participar em seus editais disponíveis no site da Europeaid.

O discurso da UE surge na semana de aniversário do maior projeto de mobilidade acadêmica do planeta, o programa Erasmus, que, após 30 anos, teve mais de 9 milhões de participantes e 1 milhão de bebês que nasceram entre os participantes durante o programa, sendo o mesmo ampliado para terceiros países, tais como o Brasil.

O Erasmus, assim como os projetos de cooperação internacional compõem a agenda estratégica da União Europeia e os pontos chaves do Programa Horizon 2020, nos quais se planeja superar as metas e compromissos contraídos na comunidade internacional e na agenda internacional.

Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos

A Europa, dessa forma, busca voltar à liderança, mas através do softpower de suas ações, tomando a iniciativa em setores promissores e inovadores que aos poucos estão ganhando notoriedade mundial e que, no futuro, podem pautar novamente a balança de poder, tais como a distribuição de recursos hídricos, o desenvolvimento agropecuário, o meio ambiente e as energias renováveis.

Embora o cenário político de alguns países continue instável, como no caso da Espanha, o crescimento econômico da região e os resultados das eleições na França ajudaram a retomada da agenda internacional do Bloco, e mesmo com as futuras eleições na Alemanha, a União Europeia aos poucos parece encontrar seu novo caminho no panorama mundial que se desenha, ou, ao menos indica que nas altas esferas do grupo europeu já existe um consenso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Parlamento Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/11/European-parliament-strasbourg-inside.jpg

Imagem 2Conselho Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/European_Commission.svg/2000px-European_Commission.svg.png

Imagem 3Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos” (Fonte):

https://ec.europa.eu/europeaid/sites/devco/files/blending-worldmap-2015_2285x1405_300dpi_v2.jpg