ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

O novo governo e novas agendas políticas para o Iraque

No último dia 7 de maio, o Parlamento do Iraque realizou, através de votação, a escolha de Mustafa Al-Khadimi como novo Primeiro-Ministro do país, bem como deu posse ao seu gabinete.

A nomeação de um novo Primeiro-Ministro ocorre seis meses após a renúncia de Adil Abdul-Mahdi do cargo, em 29 de novembro de 2019. Desde então, o Parlamento iraquiano não conseguiu apontar um novo governo para o país. Dois Chefes de Governo foram apontados pelo presidente iraquiano Barham Salih, mas renunciaram antes que o órgão legislativo pudesse votar sua condução ao poder.

Abdul-Mahdi renunciou em meio a uma profunda turbulência política, que levou a quase 2 meses consecutivos de violentos protestos nas ruas do país e à polêmica em torno da violenta repressão por parte do governo, resultando em pelo menos 500 manifestantes mortos e mais de 19 mil feridos até dezembro de 2019.

Ao contrário das expectativas, a renúncia de Mahdi não chegou a produzir um arrefecimento dos protestos, que ocorreram com mais e menos intensidade até a imposição de medidas de quarentena, em 17 de março, reduzindo a presença da população nas ruas visando diminuir os efeitos da pandemia causada pela Covid-19.

A dificuldade em encontrar objetivos comuns entre os distintos grupos políticos do Iraque e a dificuldade em encontrar um nome que agradasse às ruas levou ao longo processo de escolha. Al-Khadimi, antigo chefe da inteligência no país, e jornalista de formação, apareceu como uma alternativa “técnica” frente à dificuldade de formar um governo. O novo Primeiro-Ministro iraquiano se propôs a formar um governo com pessoas consideradas especialistas em suas áreas e salientando que buscou escolher figuras “não associadas a partidos políticos”.

Apesar da formação de um novo governo representar um ponto positivo, existem claras barreiras a serem superadas por al-Khadimi. Apesar do ânimo de parte do Parlamento, o novo Chefe de Governo empossou um gabinete com 7 posições vagas – entre elas as de Ministro do Petróleo de das Relações Exteriores.

O novo governo do Iraque, reunido em sessão oficial – Página oficial do Governo do Iraque

O atual governo assume em um período bastante desafiador. No âmbito econômico, o país já enfrentava uma alta taxa de desemprego, sobretudo entre jovens, e a dificuldade em manter a liquidez do dinar iraquiano, a qual se acrescenta o risco de necessitar imprimir moeda para pagar salários do funcionalismo público.

De acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a exportação da commodity corresponde por 68 bilhões de dólares (R$ 378 bilhões de reais, segundo cotação do dia 22/05) em um total de 98 bilhões (R$ 530 bilhões, segundo a mesma cotação do dia 22/05) exportados anualmente pelo país.  A recente queda dos preços do petróleo, aliada à falta de expectativa de um retorno do valor do barril a um patamar mais alto, produz um desafio às receitas.

O novo governo também herda de seu antecessor a grave crise política e a escalada dos problemas de segurança internos. A agenda de segurança e a recuperação do diálogo com a população devem ser prioridades no próximo período.

Al-Khadimi ressaltou após a primeira reunião de seu governo que buscará “compensação e justiça” para as famílias dos manifestantes martirizados pelas forças de segurança. Prometendo, inclusive, punição aos envolvidos em eventos de repressão mais violenta e a libertação dos 98 manifestantes que permanecem presos. Apesar do direcionamento do governo, as cortes de justiça do Iraque ainda relutam em libertar estes presos.

Além das já esperadas resistências de grupos políticos e milícias locais, o recém-empossado Primeiro-Ministro enfrentou uma série de protestos no fim-de-semana que seguiu a sua posse. O maior destes levou centenas de manifestantes à praça Tahrir, no centro de Bagdá, exigindo mudanças políticas por parte do novo governo.

Mustafa Al-Khadimi também indicou que pretende adotar mais restrições e medidas mais duras de controle sobre as milícias, sobretudo grupos que possuam relações diretas com o Irã. Peças importantes na derrota do Estado Islâmico no Iraque, grupos como as Forças de Mobilização Popular (FMP) são hoje considerados grandes desafios para o estabelecimento de um governo central e Estado funcional.

Membros das Forças de Mobilização Populares distribuem mantimentos para afetados pela pandemia causada pelo novo Coronavírus – Página Oficial das FMP no Facebook @WarMediaTeam

Existem denúncias severas quanto à atuação violenta destes grupos contra manifestantes, principalmente nas regiões majoritariamente xiitas do Iraque. Um relatório recente da Missão de Assistência das Nações Unidas no Iraque (Unami) informou que atores armados infra-estatais (frequentemente identificados como “milícias”) estiveram envolvidos no desaparecimento e tortura de pelo menos 123 indivíduos em manifestações entre outubro de 2019 e março de 2020.

Em protesto ocorrido no dia 10 de maio, na cidade de Basra, região majoritariamente xiita no sul do país, manifestantes que pediam a renúncia do governador da província, Assad al-Eidani, além de pessoas que fazem parte da elite local entraram em confronto com membros da milícia local Thar Allah al-Islami. Um manifestante faleceu e outros quatro ficaram feridos no confronto. Por ordem direta do Primeiro-Ministro, conforme divulgado pela conta oficial do governo no Twitter, as forças de segurança locais invadiram a sede da milícia no dia seguinte. As forças policiais prenderam todos os presentes – incluindo o líder da milícia, Yusif Sawani – e recolheram armamento no local.

Com poucos dias à frente do escritório, a postura de al-Khadimi aponta para um endurecimento da ação governamental, visando centralizar o uso da Força e colocar controle sobre as milícias pelo Iraque. Forças governamentais também prenderam no dia 21 de maio Maytham al-Okaili, líder da Saraya al-Khorasani – uma facção pró-Irã associada às FMP. O Primeiro-Ministro chegou a apresentar um plano para a incorporação das milícias às forças de segurança regulares, impondo o controle governamental e novas leis para reger suas operações. No dia 16 de maio, ele realizou uma visita ao quartel-general das FMP em Bagdá, onde se reuniu com lideranças do grupo para “diminuir a tensão”, segundo a mídia local.

Apesar do Estado Islâmico não possuir mais amplo controle territorial sobre o Iraque, ondas de mobilização do grupo permanecem uma ameaça constante, bem como outros grupos terroristas. A associação das milícias ao Irã pode representar um desafio ao lidar com o poderoso vizinho. Os grupos também contam com simpatia da população após o combate contra o EI e tem efetivo controle territorial de muitas regiões.

O novo governo do Iraque deve enfrentar uma acirrada desconfiança da população, dificuldades para estabilizar o país economicamente e a maior crise sanitária da história recente. Em meio a este cenário, o Primeiro-Ministro busca também a solução do que é considerado um dos maiores problemas estruturais do Estado iraquiano. Apesar de constituir uma agenda política que representa um elemento necessário à estabilidade do governo, há um risco grande em desafiar a popularidade de grupos políticos instituídos e criar frentes desafiadoras, em meio a um período já turbulento para o país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O PrimeiroMinistro do Iraque, Mustafa AlKhadimi, em pronunciamento oficial Página oficial do gabinete do PrimeiroMinistro do Iraque no Twitter. @IraqiPMO” (Fonte):

https://twitter.com/IraqiPMO/status/1264616581629444097/photo/1

Imagem 2 O novo governo do Iraque, reunido em sessão oficial Página oficial do Governo do Iraque” (Fonte):

Imagem 3Membros das Forças de Mobilização Populares distribuem mantimentos para afetados pela pandemia causada pelo novo Coronavírus Página Oficial das FMP no Facebook @WarMediaTeam” (Fonte): https://www.facebook.com/WarMediaTeam

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China abandona meta de crescimento econômico para 2020, devido à pandemia

A China não estabelecerá uma meta de crescimento para 2020, constituindo um acontecimento inédito. O primeiro-ministro Li Keqiang confirmou o fato no Congresso Nacional do Povo, em Pequim, na sexta-feira (22 de maio de 2020). A medida já era esperada por alguns observadores, com a economia se contraindo 6,8% no primeiro trimestre de 2020, sob enorme pressão da pandemia de coronavírus, informa o jornal South China Morning Post.

O relatório de trabalho do Congresso enfatizou: “Não estabelecemos a meta específica do produto interno bruto principalmente devido à pandemia global e às grandes incertezas na economia e no comércio”, acrescentando que a China estava enfrentando uma época “imprevisível”. O governo chinês, no entanto, estabeleceu uma meta de criar 9 milhões de novos empregos urbanos, em comparação com 11 milhões em 2019, e uma taxa de desemprego urbana avaliada em torno de 6%, em comparação com 5,5% em 2019. No ano passado (2019), a China gerou 13,52 milhões de novos empregos urbanos.

Pequim estabeleceu uma cota de títulos especiais de 3,75 trilhões de yuanes (aproximadamente 2,9 trilhões de reais, de acordo com a cotação do dia 22 de maio de 2020). Emitirá 1 trilhão de yuanes (aproximadamente 775,5 bilhões de reais) em títulos especiais do Tesouro, visando um déficit fiscal de 3,6%.

Rua deserta em Wuhan, durante a quarentena por causa da pandemia de coronavírus, em janeiro de 2020

O relatório de trabalho também frisou: Devemos deixar claro que os esforços para estabilizar o emprego, garantir os padrões de vida, eliminar a pobreza e prevenir e neutralizar os riscos devem ser sustentados pelo crescimento econômico; portanto, garantir um desempenho econômico estável é de importância crucial”.E continuou: “Precisamos perseguir a reforma e a abertura como um meio de estabilizar o emprego, garantir o bem-estar das pessoas, estimular o consumo, energizar o mercado e alcançar um crescimento estável. Precisamos abrir um novo caminho que nos permita responder efetivamente a choques e sustentar um ciclo de crescimento positivo”.

O vírus inicialmente interrompeu grandes setores da economia chinesa, prejudicando as cadeias de suprimentos e as exportações do país. Mas, agora fechou vários dos principais mercados da China, o que significa que a economia está enfrentando uma segunda onda de choque no desaparecimento da demanda por seus produtos no exterior. O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu um crescimento de 1,2% da economia chinesa para 2020, após a paralisia causada pelo coronavírus. Isso seria um mínimo anual histórico, porém ainda é maior do que algumas previsões do setor privado.

Enquanto isso, a inflação ao consumidor disparou durante o segundo semestre de 2019 e no início de 2020, principalmente devido à escassez de carne de porco decorrente de um surto de peste suína africana, que causou a morte de mais de 100 milhões de porcos. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) chinês, que é o preço ponderado de uma cesta de mercadorias, subiu 5,2% em fevereiro de 2020, uma alta de oito anos. A taxa de inflação caiu, desde então, para 3,3% em abril de 2020, com os consumidores reduzindo os gastos após a pandemia de coronavírus, enfraquecendo as pressões sobre os preços.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 PrimeiroMinistro da China, Li Keqiang, em Pequim” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=Li+Keqiang&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1&searchToken=5hqdtot4dqvil71y67jkmn3o5#%2Fmedia%2FFile%3ALi_Keqiang%2C_Chinese_and_foreign_press_conference.jpg

Imagem 2 Rua deserta em Wuhan, durante a quarentena por causa da pandemia de coronavírus, em janeiro de 2020” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=20&offset=40&profile=default&search=Wuhan+pandemic&advancedSearch-current={}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Huiming_road_,Wuhan_during_2019-nCoV_coronavirus_outbreak.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

Rússia e China recusam-se a participar de videoconferência do Conselho de Segurança da ONU

Em abril deste ano (2020), a Organização para a Interdição das Armas Químicas (OIAC) publicou um relatório pioneiro, que apontou o governo de Bashar al-Assad como responsável por três ataques químicos ocorridos em 2017, na Síria. A OIAC recebeu novas atribuições em 2018 para investigar as ofensivas químicas no país, vez que a Rússia, alegadamente, bloqueava investigações independentes desses ataques. As conclusões do relatório comporiam a pauta da reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, realizada em 12/05/2020, a qual foi boicotada pela Federação Russa e pela China.

De acordo com um dos diplomatas presentes na reunião, que foi realizada por videoconferência em virtude da COVID-19, as janelas da Rússia e da China apareceram vazias no ecrã. Mais tarde, durante uma conferência de imprensa virtual, o embaixador russo para as Nações Unidas, Vassily Nebenzia, afirmou que Moscou pediu que a interação fosse conduzida de maneira aberta e salientou que: “Infelizmente, nossos parceiros ocidentais e seus aliados insistiram em conduzir essa reunião a portas fechadas, em ambiente informal, apesar dos slogans de abertura e transparência do Conselho de Segurança. Tal abordagem é inaceitável para nós, porque prejudica as prerrogativas dos Estados quanto à Convenção de Armas Químicas”.

Logotipo da Organização para a Interdição das Armas Químicas

Essa visão não é corroborada pela Missão Diplomática do Reino Unido para as Nações Unidas, que defendeu o formato fechado da reunião como uma maneira dos membros do Conselho de Segurança e da República Árabe da Síria manterem um diálogo franco sobre o relatório. Em comunicado, a Missão britânica afirmou categoricamente que: “Uma recusa em comparecer à reunião e engajar com a OIAC sobre suas descobertas é desconcertante e indicativo da preferência de alguns membros do conselho em sabotar a proibição do uso das armas químicas por atacar as pessoas e instituições encarregadas de protegê-la”.

Cabe lembrar que a OIAC é responsável por salvaguardar a Convenção de Armas Químicas de 1997, e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2013. Ao ser imbuída do poder de imputar responsabilidade sobre ataques químicos em 2018, suas atribuições foram questionadas por Pequim e Moscou, que as consideraram ilegítimas e propuseram que tais assuntos passassem pelo crivo do Conselho de Segurança da ONU. Em resposta, representantes dos Estados Unidos e do Reino Unido na Organização consideraram a posição dos governos citados uma “hipocrisia pungente”, nas palavras do enviado americano para a OIAC, Kenneth Ward.

Entre as conclusões apresentadas pelo relatório estavam evidências da culpabilidade de Damasco em investidas químicas contra a população síria utilizando bombas de gás sarin e cloro, entre 24 e 30 de março de 2017, que vitimaram cerca de 106 pessoas, incluindo crianças. Pesquisadores do Instituto Global de Política Pública de Berlim, em conjunto com parceiros sírios e internacionais compilaram cerca de 345 ataques substanciais pela Síria, e concluíram que 98% dos ataques foram pelas mãos de Bashar al-Assad e o resto foi imputado ao Estado Islâmico. Ainda que enfrentando tais acusações, a Federação Russa, principal aliada do regime sírio, defende o país parceiro sustentando que a Síria cessou seu programa de armas químicas, destruiu seu arsenal e parou de produzi-las.

Armas químicas

De fato, desde o ano dos bombardeios aéreos (2017), China e Rússia tem dificultado a ação do Conselho de Segurança da ONU ao vetar resoluções de sanção à Síria quanto às armas químicas. A Anistia Internacional chegou a dizer que ambos os países “demonstraram um insensível desrespeito pelas vidas de milhões de sírios” ao se posicionarem de tal maneira. Na ocasião, as duas nações clamaram por escrutínio e investigação internacional objetiva e imparcial antes de imputar a culpa em uma ou outra parte. No entanto, quando um órgão independente e prestigiado (OIAC) assumiu as investigações e apresentou suas descobertas, o Kremlin, endossado pela China, recusou-se a participar das discussões, o que coloca em evidência suas postulações.

A respeito da recusa em participar da videoconferência do Conselho de Segurança e em desafio ao relatório da OIAC, o embaixador Nebenzia esclareceu ainda que Moscou conduzirá investigação própria sobre o uso de armas químicas na guerra da Síria e que compartilhará os achados com o mundo, o que igualmente contradiz a ideia de investigação independente e imparcial. Ainda não se sabe se as próximas reuniões mensais da pasta contarão com a presença dos países de Putin e Xi Jinping. Sabe-se apenas que as potências (Euro)Asiáticas oferecem resistências que impugnam mesmo elementos factuais apresentados uma e outra vez, repetidamente.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Putin em videoconferência do Conselho Supremo da Eurásia” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/63367/photos/63854

Imagem 2 Logotipo da Organização para a Interdição das Armas Químicas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:OPCW_-_Organisation_for_the_Prohibition_of_Chemical_Weapons_logo.png

Imagem 3 Armas químicas” (Fonte): https://post.parliament.uk/research-briefings/post-pn-0596/

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Disparidades entre países no combate à COVID-19 são reveladas por painel de dados do PNUD

Declarada, em janeiro de 2020, como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) – o mais alto nível de alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Covid-19 é a doença infecciosa causada pelo novo Coronavírus. Para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), mais do que uma emergência global de saúde, a pandemia trata-se de uma crise sistêmica que impacta as dimensões social e econômica de maneira inédita.

Seguindo esta perspectiva, em 29 de abril de 2020, o PNUD lançou dois painéis de dados que destacam as disparidades entre os países na capacidade de enfrentar e se recuperar das consequências da doença. Especialmente, os painéis fazem um reporte da rápida mudança de meios de vida a que as populações dos diferentes continentes têm enfrentado.

Para os países em desenvolvimento há maior número de pessoas sem acesso à comida e morrendo por conta de desnutrição; houve aumento de doenças infecciosas devido à falta de serviços de imunização; muitos estudantes não têm recebido atividades de educação regular; o desemprego aliado à falta de acesso a internet e a outras formas de comunicação colocam milhões de adultos responsáveis por núcleos familiares sem previsão de dias melhores, se as políticas de assistência de seus governos locais não apresentarem algum respaldo a este momento de grave e generalizada situação de vulnerabilidade.

Em relação ao primeiro painel (Dashboard”1) sobre Preparo apresenta indicadores de 189 países – incluindo nível de desenvolvimento, desigualdades, capacidade do sistema de atenção à saúde e conectividade de internet – para avaliar o quanto uma nação está apta a responder aos múltiplos impactos da COVID-19.

Por exemplo, os países mais desenvolvidos têm em média 55 leitos hospitalares, mais de 30 médicos e 81 enfermeiros para cada 10 mil habitantes, comparados com uma média de 7 leitos, 2,5 médicos e 6 enfermeiros em um país em desenvolvimento. Já quanto à conectividade, 6,5 bilhões de pessoas em todo o planeta (85,5% DA POPULAÇÃO GLOBAL) ainda não têm acesso a internet banda larga segura.

Trabalhadores comunitários promovem a conscientização sobre a prevenção da COVID-19 e distribuem kits de higiene para famílias urbanas pobres em Bangladesh – Foto: PNUD Bangladesh/Fahad Kaize

Em se tratando do segundo painel (Dashboard” 2) sobre Vulnerabilidades os indicadores refletem a susceptibilidade dos países aos efeitos da crise. Assim, o resultado recente demonstra que mais de 40% da população não têm nenhuma proteção social. Também, países que dependem fortemente do turismo como Maldivas (quase 60% do seu PIB), Cabo Verde e Montenegro estão sendo atingidos fortemente pelas proibições de viagens.

Por fim, identifica-se que a experiência reproduzida pelos painéis deve vir ao encontro da formulação de políticas de redução de vulnerabilidades e de recuperação do desenvolvimento conjunto entre os países. No entanto, como a velocidade do vírus e o enfrentamento por cada nação tem sido distinto, neste momento, faz-se impreciso dizer quando será possível vislumbrar a cooperação internacional para mitigação das consequências econômicas e sociais resultantes da pandemia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Pandemia de CoronavírusFoto: Karina Zambrana / Fonte: OPAS/OMS

(Fonte): https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875

Imagem 2 Trabalhadores comunitários promovem a conscientização sobre a prevenção da COVID19 e distribuem kits de higiene para famílias urbanas pobres em BangladeshFoto: PNUD Bangladesh/Fahad Kaize” (Fonte):

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Lockdown russo contra a COVID-19

Considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o segundo país mais afetado em termos de infecções* por COVID-19 e detentora da segunda taxa de novas infecções mais rápidas do mundo, atrás somente dos Estados Unidos, a Federação Russa, através de seus órgãos de saúde e vigilância sanitária, se valeu de tentativas de minimizar os impactos da pandemia que se alastrou em seu território.

Processos severos de isolamento social, iniciados ainda em março (2020), com o fechamento precoce das fronteiras e a quarentena obrigatória de todos os recém-chegados, aliado ao bloqueio instituído em várias regiões do imenso país, não foram suficientes para barrar a curva crescente e rápida de infecções diárias que chegou a atingir 11 mil novos casos por dia. Ressalte-se que o bloqueio se deu principalmente na capital Moscou, onde a maioria dos seus 13 milhões de habitantes foram direcionados a ficar em suas casas.

Ocorrência de casos diários da COVID-19

Processos contrários à simpatia da população moscovita reiteraram o uso de métodos de implantação de permissão oficial da Prefeitura, através de um passe para liberar as pessoas para poderem dirigir ou utilizar transporte público, tendo como objetivo rastrear e restringir o movimento da população. Milhões de pessoas enviaram seu número de identificação, motivo de viagem, número de placa do carro, ou número de seu cartão de viagem, para receber esses passes com um código de 16 caracteres para apresentar à polícia, quando solicitado.

Verificação de passe individual pela polícia em Moscou

Outro dispositivo utilizado para monitorar a movimentação popular em Moscou foi o vasto sistema de câmeras de vigilância completa, com tecnologia de reconhecimento facial, testado durante comícios anti-Kremlin no ano de 2019 para rastrear manifestantes.  As autoridades da cidade também usaram dados de localização de telefones celulares de provedores de telefonia móvel para monitorar aqueles que foram “ordenados a se autocolocar” em quarentena por duas semanas, depois de sua chegada do exterior.

Mesmo com o direcionamento por parte do presidente Vladimir Putin em realizar um relaxamento do lockdown russo a partir do último dia 11 de maio, fontes do Governo disseram que os níveis de movimentação de pessoas em viagens tanto internas como externas não voltarão ao normal (pré-pandemia) antes do início do ano de 2021. A Agência Federal de Turismo da Rússia (Rostourism) alertou que as medidas levariam a “perdas colossais para a economia” de pelo menos 300 bilhões de rublos (cerca de R$ 23,8 bilhões**) por trimestre. Para compensar essas perdas, a Rússia deve introduzir vistos de turismo de entrada múltipla válidos por até cinco anos, de acordo com as recomendações da Rostourism. As regras atuais só permitem vistos de entrada por até 30 dias para turistas.

O Rostourism também busca reduzir o tempo de processamento de vistos para três dias úteis. Os atuais portadores de vistos de turista que não puderam viajar para a Rússia devido a restrições relacionadas ao coronavírus devem ser capazes de solicitar novos vistos gratuitamente, de acordo com as recomendações relatadas pela agência. Além disso, a agência quer estender os vistos eletrônicos, que entrarão em vigor em 1º de janeiro de 2021, de 16 dias para 90 a 120 dias, e torná-los de entrada única para entrada múltipla, ou seja, o turista poderá visitar o país mais de uma vez dentro do período proposto.

Bloqueio policial em Moscou

Outro ponto nevrálgico dentro do processo de lockdown, que afetará visivelmente a saúde econômica da Rússia, é que o número de pequenas empresas que tiveram que cessar suas atividades, por conta do afastamento social, e que solicitaram empréstimos aos Bancos ou órgão financeiros para pagar salários aos seus trabalhadores, superou as expectativas do governo e muitas delas já estão dispensando grande parte de sua força de trabalho.

O Ministro do Trabalho, Anton Kotyakov, declarou que 735.000 russos haviam aderido ao registro de desemprego nos últimos dois meses, elevando o total nacional para 1,2 milhão de desempregados. No entanto, isso não conta a história completa, pois muitos russos ganham a vida na economia informal, o que equivale a mais de 30% do PIB, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), e seu status não está registrado nas estatísticas oficiais. Kotyakov já avisou anteriormente que a recessão econômica causada pela COVID-19 poderia deixar entre cinco e seis milhões de russos desempregados, ou sete a oito por cento da força de trabalho. Tais números foram vistos pela última vez há uma década, após a Grande Crise Financeira de 2008.

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Notas:

* Casos confirmados em torno de 281.752 pessoas, conforme relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 17/05/20 >> Fonte:  https://covid19.who.int/region/euro/country/ru

** Cotação rublo russo em 15/05/20 >> 1RUB = R$ 0,0793.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Desinfecção de bancos de um parque em Moscou” (Fonte): https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/03/1-123.jpg

Imagem 2 Ocorrência de casos diários da COVID19” (Fonte): https://coronavirus.jhu.edu/data/animated-world-map

Imagem 3 Verificação de passe individual pela polícia em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

Imagem 4 Bloqueio policial em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A escalada do conflito na Líbia

Quase 7 anos após a queda de Muammar Gaddafi, o cenário político da Líbia permanece turbulento. A divisão da comunidade internacional frente a qual força política possui mais possibilidade estabilizar o país é já há muito tempo um elemento complicador na dinâmica cotidiana do país.

Em 2016, foi formado Governo do Acordo Nacional, composto através de negociações ocorridas na vizinha Tunísia e apoiado pela Organização das Nações Unidas e parte da comunidade internacional. A partir daquele momento, algumas unidades políticas da Líbia discordaram da formação do governo e reuniram seu apoio em torno do general Khalifa Haftar, formando o Exército Nacional da Líbia. A dificuldade de encontrar um denominador de unidade se reflete na constante disputa pelo controle do território da Líbia.

Em janeiro de 2020, representantes de 12 países envolvidos no conflito, da Organização das Nações Unidas, o Primeiro-Ministro líbio, Fayez al-Sarraj, e o general Khalifa Haftar, líder do Exército Nacional da Líbia, se reuniram em Berlim para a “Cúpula para a Paz da Líbia”. O encontro foi considerado produtivo pela anfitriã Angela Merkel e pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Dentre os pontos de destaque estava uma trégua no enfrentamento direto entre as partes e um compromisso dos países participantes da conferência – incluídos Estados Unidos, Rússia e Turquia – em respeitar o embargo e interromper o envio de armas, treinamento e suporte militar para as partes beligerantes. Merkel chegou a declarar na ocasião que “poderia afirmar que todos os participantes trabalharam de forma realmente construtiva”.

No dia 28 de abril, o líder do Exército Nacional da Líbia (que contesta a legalidade do governo em Trípoli) declarou que possui “mandato popular” e afirmou que é o “legítimo governante” da Líbia.

As declarações de Haftar ocorreram depois de uma série de vitórias que o Governo do Acordo Nacional obteve sobre as forças rebeldes. Após rejeitar o cessar-fogo durante o Ramadã, o governo obteve sucesso ao retomar quase todas as grandes cidades sob controle dos insurgentes, e diminuindo significativamente o território sob controle dos mesmos.

Em seguida a esta declaração, o começo do mês de maio assistiu a uma nova escalada do conflito no país. Séries de ataques iniciados por ambas as partes vitimaram uma grande quantidade de civis ao longo do mês, incluindo uma série de bombardeios sob Trípoli, visando a retomada do aeroporto de Mitiga e outras regiões da capital.

Este novo momento na crise política aumenta também a presença de forças militares na Líbia, à medida que cada mais vez mais governos estrangeiros demonstram seus interesses em se envolver nas questões internas do país.

O governo da Turquia vem ampliando seu envolvimento no conflito líbio. Após a aprovação de uma missão militar pela Grande Assembleia Nacional da Turquia, 2.000 soldados turcos desembarcaram no país vizinho para apoiar o governo em Trípoli. Após a recente declaração de Haftar, representantes turcos alegaram que qualquer ação dos opositores líbios pode esperar “respostas militares da Turquia”.

Funcionários da Organização das Nações Unidas distribuem comida para refugiados em decorrência dos ataques ocorridos durante o Ramadã – Página oficial do Alto Comissariado das Nações Unidas para a Líbia no Twitter – @UNHCRLibya

A Arábia Saudita, o Egito e os Emirados Árabes Unidos, por outro lado, têm mantido seu apoio às forças leais ao general Haftar. O confronto ocorrido aumenta a tensão entre os vizinhos. Hamdi Aksoy, porta-voz do Ministro das Relações Exteriores da Turquia, chegou a conclamar os Emirados a abandonar sua “política destrutiva” para a região, alegando também que os países do Golfo possuem presença no Sudão para recrutar rebeldes para lutar na Líbia.

A Rússia, apesar de ser um dos principais aliados do governo turco, possui uma proximidade e não esconde seu apoio ao Exército Nacional da Líbia. Recentemente, funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos declararam que a Rússia vem aprofundando o conflito na região com seu apoio a Haftar. Chris Robson, um oficial do governo estadunidense afirmou que a ação russa “levou a uma escalada significativa do conflito e a uma piora da situação humanitária na Líbia”.

Um relatório recente produzido por consultores independentes das Nações Unidas informou que pelo menos 1.200 soldados do Grupo Wagner, uma empresa militar privada de origem russa, operam no país. Há indícios de que o grupo levou especialistas e armamento para o terreno, também que estes militares tenham tomado parte em ações para desestabilizar o governo de Trípoli.

Os desdobramentos do conflito líbio incluem medidas que atingem duramente a população. Hassan al-Gaddafi (sem relações com a família do falecido líder líbio), prefeito da cidade Al-Chwerf e um aliado do general Haftar, se aproveitou do controle sobre um canal artificial de abastecimento para manter alguns bairros de Trípoli sem água por cerca de duas semanas em abril.

O Ministro do Interior da Líbia, Fathi Bashagha, afirmou à imprensa que os soldados do grupo Wagner conduziram ataques com armamento químico contra forças do Governo do Acordo Nacional na região Salah al-Din, ao sul de Trípoli.

Ainda que o conflito na Líbia não tenha parecido próximo de uma solução desde a queda de Muammar Gaddafi e o começo do conflito interno, em 2011, o recente momento aponta para um aumento da complexidade e da projeção de interesses na região.

Entre janeiro e março de 2020, a Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia registrou pelo menos 64 mortes de civis, um aumento de 113% com relação ao primeiro trimestre de 2019.

Há o temor por parte de países no Norte da África, no Oriente Médio e de outros, como os Estados Unidos, de que países como a Rússia e a Turquia passem a aumentar sua presença na Líbia visando obter uma plataforma para projeção de poder no Mediterrâneo e na região.

Sem uma solução para a unidade na Líbia, e com o espaço aberto para o envolvimento internacional, a complexidade do conflito tende a aumentar. Com o envolvimento de forças militares privadas e outros grupos, a tendência é que os confrontos se tornem mais acirrados.

A transformação da maneira como se vem conduzindo o combate na Líbia deve resultar em mais desabrigados, mais mortes e tornar ainda mais complexo o trabalho humanitário conduzido no terreno, abrindo um capítulo mais complexo na história da crise no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mãe e criança recebem ajuda humanitária, após serem impedidas de deixar a cidade de Bengasi por conta do conflitoAgência de Notícias das Nações Unidas” (Fonte): https://news.un.org/ar/story/2020/05/1054802

Imagem 2 Funcionários da Organização das Nações Unidas distribuem comida para refugiados em decorrência dos ataques ocorridos durante o RamadãPágina oficial do Alto Comissariado das Nações Unidas para a Líbia no Twitter@UNHCRLibya” (Fonte): https://twitter.com/UNHCRLibya/status/1256979875585495041/photo/1