ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

[:pt]O contraponto russo no cenário internacional[:en]The Russian counterpoint in the international scenario[:]

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Com frequência, os posicionamentos da política externa russa são entendidos no cenário internacional como concorrentes dos principais interesses das potências ocidentais, principalmente dos Estados Unidos. Antagonismo este que cresceu ao longo do século XX e tem como uma das suas fundamentações o histórico de disputas travadas entre o antigo Bloco Socialista, liderado pela então União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e o Bloco Capitalista, comandado pelos Estados Unidos da América, no contexto da Guerra Fria.

Nos anos 1990, esse antagonismo foi amenizado pela queda da URSS e consequente dissolução do Bloco Socialista, seguido pelo fortalecimento do processo capitalista como principal regente da ordem internacional contemporânea.

Desde então a Rússia, herdeira política da URSS, vem buscando uma fórmula para gerenciar esse passado e, simultaneamente, projetar-se no cenário internacional como um dos polos de poder na ordem internacional. Esforço que nos últimos 20 anos enfrentou intensos desafios internos e externos.

O longo processo interno ao qual a Rússia submeteu-se para entrar na lógica da economia de mercado certamente drenou bastante energia de toda a nação. Paralelamente, as reiteradas expansões da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sobre sua antiga área de influência, além da ascensão política e econômica da China, reduziram ainda mais a margem de manobra da política externa russa na busca do reforço do seu papel na arena internacional.

A despeito desses desafios, tradicionalmente a Rússia pauta sua presença internacional pelos anseios de autonomia, segurança regional e poder de influência nos assuntos globais, como pode ser notado no documento Concepção da Política Externa da Federação Russa, sancionado em 2008, pelo seu então presidente Dmitry Medvedev.

Em 2014, com estes anseios no horizonte e muito pressionada pela constante expansão da UE e da OTAN, os conflitos políticos relacionados com a Ucrânia foram transformados em estandarte da defesa dos interesses russos sobre a ordem mundial. A partir desta ocasião, a Rússia vem aparecendo mais frequentemente no noticiário ocidental como um contraponto firme às ações das principais potências ocidentais na política internacional.

Passados dois anos, desde o epicentro dos confrontos da Praça de Maidan, na Ucrânia, os indícios de que este momento pode ser interpretado como um ponto de viragem na postura da política externa russa começam a ganhar corpo.

Atualmente, duas são as frentes diplomáticas em que a Rússia e as potências ocidentais travam disputas mais acirradas. A elevada tensão na Ucrânia, por exemplo, irradia instabilidade e incertezas do Báltico ao Mediterrâneo, deixando a OTAN em um nível de alerta equivalente aos vistos nos anos 1990 durante as guerras entre as repúblicas oriundas da hoje extinta Iugoslávia. Os países da Escandinávia, por sua vez, também se remoem com preocupações e dúvidas sobre as pretensões e movimentações diplomáticas da Rússia acerca da região. Outro fronte latente de atrito tem como palco a Síria. Lá, os Estados Unidos e alguns aliados ocidentais têm ações para tentar reestabelecer um mínimo de segurança para a região e combater um dos principais centros de promoção do terrorismo na atualidade. Contudo, eles veem a saída de Bashar Al Assad da Presidência síria como elemento vital nesse processo, ao passo que a Rússia atua em linhas similares só que conta com a permanência de Al Assad, seu tradicional aliado, na liderança do país.

Nesses dois casos, a vertente militar já se encontra nos planos de ação das partes, ainda que em nenhum momento tenha havido confronto direto entre elas. No caso da Síria as forças armadas ocidentais e russas atuam intensamente no terreno, lutando cada uma ao lado de seus parceiros militares ou paramilitares locais. No caso da Ucrânia, o confronto armado fica, a princípio, mais caracterizado como uma guerra civil que opõe grupos militares da Ucrânia e insurgentes ucranianos pró-Moscou. Nesse caso, a participação de tropas russas ou ocidentais ocorre de maneira mais pontual e, muitas vezes, velada.

Orbitando esses dois polos nevrálgicos de conflito na política internacional, encontram-se ainda questões como: i. o embargo econômico da União Europeia e Estados Unidos à Rússia, e a consequente retaliação russa nos mesmos termos; ii. gradual e persistente aproximação entre Rússia e China; e iii. questões relacionadas a geração e distribuição de energia.

Por outro lado, o momento internacional parece oferecer uma vantagem para a posição russa no curto prazo, pois as principais potências ocidentais encontram-se com processo eleitoral em andamento, ou prestes a começar, sendo que as pautas internas como economia, segurança e imigração prometem se sobrepor às urgências da política internacional.

Enfim, observando os últimos dois anos pode-se dizer que a percepção do potencial de influência exercida pela Rússia em áreas sensíveis para o ocidente cresceu. Isso veio à tona, por exemplo, com a célere reaproximação entre a Rússia e a Turquia, que, recentemente, surpreendeu muitos analistas internacionais e deixou a União Europeia em alerta, ou na inédita liberação por parte do Irã para que a força aérea russa pudesse utilizar as suas bases nas operações de bombardeio contra o Estado Islâmico realizadas em território sírio.

Ao que tudo indica, o contraponto russo tem boas chances de continuar se fazendo notar no cenário internacional. Fato que pode gerar rearranjos específicos no equilíbrio de poder da ordem internacional no curto prazo, tornando mais desafiadora a busca de soluções para questões globais e possibilitando a aceleração da ascensão de polos de poder global e regional localizados na Ásia.

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Imagem (Fonte):

http://en.putin.kremlin.ru/

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The position Russia holds in its foreign affairs are often understood in the international scenario as divergent from the main interests of Western powers, mainly the United States. This antagonism grew throughout the twentieth century and has as its foundations the historical disputes between socialist bloc, led by the then Union of Soviet Socialist Republics (USSR), and the capitalist bloc, led by the United States, in the context of the Cold War.

In the 1990s, this antagonism was offset by the collapse of the USSR and the subsequent dissolution of the socialist bloc, followed by the strengthening of capitalism as principal conductor of the contemporary international order.

Since then Russia, political heir of the USSR, has been seeking a formula to manage its Soviet past and, simultaneously, to project itself on the international scenario as one of the power poles in the international order. Effort that, in the last 20 years, has faced intense internal and external challenges.

The comprehensive internal process, in which Russia engaged in to fit the rule of a liberal market, certainly drained plenty of energy from the whole nation. Concurrently, the successive expansion of the European Union (EU) and the North Atlantic Treaty Organization (NATO) over Russia’s former influence zone, besides the political and economic rise of China, has further reduced political leeway that Russia had to strengthen its international role.

Despite these challenging events, Russia always kept the basis of its international presence by yearnings of autonomy, regional security and power to influence global affairs, as highlighted in the document “The Foreign Policy Concept of the Russian Federation”, sanctioned in 2008 by its then President Dmitry Medvedev.

In 2014, guided by these desires and pushed by the constant expansion of EU and NATO, the political conflicts related with Ukraine were transformed into a symbol of the defense of Russian interests on the international order. Henceforth, Russia has been appearing more frequently in the West’s news coverage as a firm counterpoint against the Western powers’ actions in international politics.

Two years after the epicenter of the Maidan Square clashes, in Ukraine, the evidence shows that this moment can be seen as a turning point in the Russian foreign policy stance.

At the moment, there are two main diplomatic fronts on which Russia and the Western powers wage the fiercest disputes. The high strain in Ukraine, for instance, irradiates instability and uncertainty from the Baltic to the Mediterranean. The situation pushes NATO to alert levels unseen since the 1990’s, due to the clashes and riots in the countries that arose from the former Yugoslavia. In turn, Scandinavian countries also brood concerns and doubts about Russian’s claims and diplomatic movements in their own region. Another latent front of friction has been occurring in Syria. There, the United States and Western allies have implemented actions aiming to restore a minimum-security level in that area and fight against one of the main focuses of terrorism nowadays. However, they understood the need for the resignation of Bashar Al Assad from the Presidency of Syria as a vital element in this process, while Russia operates in similar terms but working for the permanence of Al Assad, its traditional ally, in the country’s leadership.

In both cases, the military component is already in the action plans of the parties, although direct confrontations between them have not been registered yet. In the case of Syria, Western and Russian armed forces act intensively on the ground, each one fighting alongside their own military partners or local paramilitaries. In the Ukraine, on the other hand, the armed clashes are, in principle, more characterized as a civil war between Ukrainian official military groups and Ukrainian insurgents pro-Moscow. The participation of Russian or Western troops occurs in a more discreet manner and are often veiled.

Orbiting these two nerve centers of conflict in international politics are still questions such as: i. the economic embargo imposed for European Union and United States to Russia and the consequent Russian retaliation in the same terms; ii. gradual and marked rapprochement between Russia and China; iii. issues related to energy generation and distribution.

On the other hand, the international situation seems to offer an advantage to the Russian position in the short term, as the main Western powers are already undergoing electoral process, or they are about to start next year, and, as usual, internal matters such as economy, security and immigration promise to overlap emergencies in international politics.

Finally, analysing the past two years it can be said that the perception with the potential of influence exerted by Russia grew in critical areas in the West. This came about, for example, by the rapid rapprochement between Russia and Turkey, which recently, astonished many international observers and left the European Union on alert, or by the unprecedented Iranian’s authorization to the Russian air force, to use their air bases in bombing operations against Islamic State’s held positions in Syrian territory.

It seems the Russian counterpoint has good chances to keep enhancing its presence in the international scene. In the short term, this situation may result in specific rearrangements in the international balance of power, which would make it more challenging to reach common solutions to global issues and, as a side effect, would enable a faster rise of global and regional power poles in Asia.

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]ONU alerta mundo sobre demonização aos refugiados[:]

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Recorrentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) vem alertando o mundo sobre a crescente demonização que sofrem os refugiados. No último dia 12 de agosto, a ONU repudiou uma pesquisa de opinião global, organizada pela Ipsos MORI, a qual aponta que 60% das pessoas entrevistadas acreditam que extremistas islâmicos estão fingindo ser refugiados. De acordo com a pesquisa, foram ouvidas mais de 16 mil pessoas em 22 países, dentre eles Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. Ainda segundo a pesquisa, cerca de 40% das pessoas entrevistadas querem que as fronteiras de seus países sejam fechadas e esse ponto teve maior apoio em países como Hungria, Índia e Turquia.

Em seguida à divulgação dos levantamentos, a Organização das Nações Unidas repudiou a pesquisa. Conforme já mencionado, ela vem chamando a atenção do mundo sobre a crescente demonização que sofrem os refugiados e alerta para a preocupante situação dessas pessoas, que se configura como a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. De acordo com relatório das Nações Unidas, lançado em junho de 2016, o número de pessoas deslocadas devido a conflitos e perseguições em todo o mundo chegou a 65,3 milhões, no final do ano passado (2015). Assim, para a Organização, as guerras, violações dos direitos humanos, catástrofes naturais, são algumas das razões que estão levando um contingente de pessoas a abandonar seus lares. O maior número desses refugiados vem de países como Síria, Iraque, Sudão do Sul, Afeganistão e Iêmen, que estão sofrendo intensos conflitos. Já a Agência Refugiados destaca que uma a cada 113 pessoas no mundo é refugiada, requerente de asilo ou deslocada interna. Em vista disso, tanto a ONU quanto suas agências ressaltam a necessidade urgente em expandir programas de reassentamento e de ajuda humanitária.

A própria Agência da ONU para Refugiados (a ACNUR) já fez recomendações dessa ordem, alertando para que os refugiados não se tornem bodes expiatórios. Em novembro de 2015, por exemplo, logo após o atentado de Paris, Melissa Fleming, porta voz da ACNUR, afirmou durante uma coletiva de impressa em Genebra, que “Estamos profundamente perturbados com a linguagem que demoniza os refugiados como um grupo. Isto é perigoso, uma vez que contribuirá para a xenofobia e o medo. Os problemas de segurança que a Europa enfrenta são altamente complexos. Os refugiados não devem ser transformados em bodes expiatórios e nem se tornar vítimas secundárias destes trágicos acontecimentos”.

Para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, muito embora as ameaças à segurança sejam uma preocupação pertinente, as pessoas que estão fugindo dos seus países por conta de perseguição ou de conflitos precisam ser protegidas. Em entrevista à Thomson Reuters Foundation, William Spindler, porta-voz do Acnur, afirmou quecomo em qualquer população, há pessoas que são criminosas, e a lei deveria ser aplicada a elas. Ninguém está acima da lei, seja você um refugiado ou não”. Assim, ressaltou que “não deveríamos esquecer que a grande maioria dos refugiados respeita a lei, e não deveríamos demonizá-los ou vê-los todos como criminosos e terroristas, porque não é este o caso”.

Nesse mesmo sentido, António Guterres, Alto Comissário da ONU para Refugiados, pontuou que “nós ressaltamos a importância de preservar a integridade do sistema de refúgio. Refúgio e terrorismo não são compatíveis uns com os outros. A Convenção de 1951 é clara a respeito do tema, e exclui de seu alcance de proteção as pessoas que cometeram crimes. A preocupação da Organização e das agências das Nações Unidas diz respeito às reações que alguns países possam vir adotar em razão dos ataques e do crescente medo. Segundo a ACNUR, o receio é de que os países adotem medidas que possam acabar com programas que estão sendo implementados ou ainda que se criem impedimentos aos compromissos assumidos para gerir as crises de refugiados, tais como fechamento de fronteiras.

Em março deste ano (2016), durante abertura de uma conferência das Nações Unidas, Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, declarou que a maior crise de refugiados do mundo, requer o aumento exponencial da solidariedade global. Naquele momento, representantes de 90 países discutiram uma distribuição mais equitativa dos refugiados sírios no mundo. O secretário geral da ONU ressaltou que dos 4,8 milhões de refugiados sírios, a maioria deles estão em países vizinhos, como Turquia, Líbano e Jordânia, sendo que o Líbano acolheu mais de um milhão de refugiados sírios, a Turquia aproximadamente 2,7 milhões, e Jordânia cerca de 600 mil. O Iraque, que também enfrenta uma profunda crise, abrigou 250 mil. No que tange aos refugiados sírios, Fleming, pontuou que é preciso compreender que muitas dessas pessoas estão fugindo justamente do extremismo e do terrorismo, assim, um mundo que acolhe refugiados sírios pode derrotar o extremismo, mas um mundo que os rejeita, especialmente aos refugiados mulçumanos, fomentará ainda mais a propaganda extremista.

Em vista disso, a Organização tem ressaltado a necessidade dos países acolherem um maior número de refugiados. No entanto, para a Agência de Refugiados é preciso que os países adotem medidas de inserção dessas pessoas na sociedade, concedendo vistos de estudante, como ocorre em Portugal; através de reagrupamento familiar, como na Suíça; ou ainda por meio de programas humanitários, como tem acontecido na Alemanha, França e também no Brasil. Por fim, vale destacar que, no próximo dia 19 de setembro, a Assembleia Geral da ONU reunirá os líderes mundiais para debater justamente esses desafios que grandes movimentos de refugiados e migrantes representam.

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Imagem (Fonte):

http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/deslocamento-forcado-atinge-recorde-global-e-afeta-uma-em-cada-113-pessoas-no-mundo/

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]O Caso VatiLeaks II ante a Justiça do Estado do Vaticano[:]

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O escândalo que envolveu documentos do Vaticano e arrastou o pontificado de Bento XVI para o seu fim prematuro surgiu na sequência das revelações feitas por Paolo Gabriele, o Mordomo pessoal do Papa bávaro. Na ocasião, tornaram-se públicos documentos secretos que envolviam corrupção, nepotismo e chantagem a membros da Igreja com conduta homossexual. Publicamente, aquele Papa alegou: “Minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino”.

O termo VatiLeaks[1] foi criado pelo responsável da Sala de Imprensa do Vaticano, Padre Federico Lombardi, SJ*, em 2012, numa alusão direta ao WikiLeaks, uma organização sem fins lucrativos, com sede na Suécia, fundada em 2006 que, em seus sítios web, divulga, a partir de fontes anônimas, documentos, fotos e informações secretas e reservadas, de governos e empresas.

Em 2 de novembro de 2015, Monsenhor Lucio Ángel Vallejo Balda, um sacerdote e jurista espanhol especialista em assuntos econômicos, que servia como Secretário da Pontifícia Comissão referente ao estudo e guia sobre a organização da Estrutura Econômico-Administrativa da Santa Sé (COSEA)[2] –, foi preso pela Polícia do Vaticano; juntamente com Vallejo Balda foi detido Nicola Maio, Secretário Executivo daquela Comissão e Assistente de Monsenhor Lucio Vallejo Balda e, ainda, Francesca Immacolata Chaouqui, uma leiga italiana especialista em redes sociais e de comunicação.

Sobre eles impendiam acusações graves, relacionadas com o roubo e divulgação de documentos confidenciais relativos à reforma econômica da Santa Sé. Três dias mais tarde, em 5 de novembro, dois livros então publicados deram conta do enfrentamento que, sotto voce, decorre no Vaticano, no âmbito da luta pelo poder: Via Crucis, da autoria do jornalista Gianluigi Nuzzi[3], e Avarizia, do também jornalista Emiliano Fittipaldi[4]. O escândalo, entretanto gerado[5], conhecido como “VatiLeaks II, ou VatiLeaks 2015”, gerou profundas repercussões internacionais.

A Sala de Imprensa do Vaticano, dias antes da publicação das obras de Nuzzi e Fittipaldi, sublinhou que “é necessário dizer claramente que, também nesta ocasião, como no passado, [aqueles livros] são fruto de uma traição grave à confiança do Papa e, no que se refere aos autores, uma operação para tirar proveito de um ato gravemente ilícito de entrega ilegal de documentação reservada”. Por outro lado, como a Sala de Imprensa referiu, a publicação de, tanto Via Crucis, quanto Avarizia, configuram “uma operação cujas implicações jurídicas, e possivelmente penais, que estão a ser objeto de estudo pelo Gabinete do Promotor, tendo em vista eventuais procedimentos adicionais, nos quais se recorrerá, se for necessário, à cooperação internacional”. De referir, ainda que, para o Vaticano, “as publicações deste tipo não contribuem de nenhuma maneira para a clareza e a verdade, mas, mais propriamente, a gerar confusão e interpretações parciais e tendenciosas. É preciso evitar absolutamente o erro de pensar que [elas] sejam uma maneira de sustentar a missão do Papa”.

Processados pelo Vaticano, em 21 de novembro de 2015, Monsenhor Lucio Ángel Vallejo Balda, Francesca Immacolata Chaouqui, Gianluigi Nuzzi, Emiliano Fittipaldi e Nicola Maio foram levados a julgamento. No passado dia 7 de julho, Giuseppe Dalla Torre, o Presidente do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano, leu a sentença, que refere a “existência, radicada e garantida pelo direito divino, da liberdade de manifestação do pensamento e da liberdade de imprensa no ordenamento jurídico do Vaticano”.

Enquanto Monsenhor Lucio Angel Vallejo Balda “foi condenado a 18 meses de prisão, por furto e divulgação de documentos reservados da Santa Sé”, permanecendo em semiliberdade na medida em que “não pode sair do Vaticano, mas pode comunicar. Isto, à espera de entender se será ou não apresentado um apelo”, Francesca Immacolata Chaouqui, “que tem um bebé de três semanas, foi condenada a 10 meses de pena suspensa”. No entanto, os jornalistas e Emiliano Fittipaldi e Gianluigi Nuzzi foram absolvidos, tal como Nicola Maio, “pelo fato delituoso não subsistir”.

Em relação aos dois jornalistas, o Tribunal considerou não ter jurisdição sobre ambos, na medida em que não trabalham no Vaticano. Reagindo à decisão do Tribunal, Emiliano Fittipaldi mostrou estar “completamente surpreendido” com a decisão judicial, enquanto Gianluigi Nuzzi declarou que “este foi um julgamento que nunca deveria ter acontecido. Esta sentença reconhece a independência dos jornalistas ao dizerem a verdade. A opinião pública estava do nosso lado, as pessoas compreenderam o valor destes livros”.

A conclusão do processo judicial relativo ao caso VatiLeaks II pôs um ponto final nos aspectos legais relacionados com a divulgação ilegal de informações confidenciais e, mesmo até, secretas. Contudo, as notícias divulgadas em finais de 2015, que deram origem ao VatiLeaks II, continuam sem terem sido negadas. Acrescem a esta variável escândalos de não pouca importância, de entre os quais são de referir as críticas, veladas e abertas, de membros da hierarquia católica ao Papa Francisco, o descontrole das finanças do Vaticano, o financiamento da reforma do apartamento do Cardeal Dom Tarcisio Bertone, no Vaticano, e, mais recentemente, as alegações de acobertamento de pedofilia pelo Cardeal Dom George Pell.

A estes estrangulamentos morais, o Vaticano tem respondido com um silêncio, se não letal, pelo menos comprometedor. Se vai longe a época em que a Igreja Católica defendia que, “se a Escritura Divina mente numa coisa, é suspeita em todas[6], o clima de suspeita que, hoje em dia, domina a sensibilidade preponderante é prejudicial para o catolicismo que, em seus comportamentos concretos, não consegue afastar a desconfiança que se abateu sobre ele, de modo desintegrador e, mesmo até, apocalíptico.

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* O SJ refere-se à Companha de Jesus (do Latim, Societas Iesu, resultando em S.J., SJ, ou SI). Ou seja, significa membro da Companhia de Jesus.

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ImagemBasílica de São Pedro, Cidade do Estado do Vaticano, vista desta a Via San Pietro, Roma” (Fonte):

http://www.rometourstravel.com/wp-content/uploads/2014/10/rome-in-a-day-vatican-and-colosseum.jpg

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Notas e Fontes Consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

Cf. Paul Kreiner, “Seiner Heiligkeit Untreuer Kammerdiener”, Der Tagesspiegel, Berlim, 30.05.2012. Disponível online:

http://www.tagesspiegel.de/weltspiegel/vatileaks-seiner-heiligkeit-untreuer-kammerdiener/6686532.html

[2] A COSEA foi criada pelo Papa Francisco, por intermédio de um quirógrafo com data de 18 de julho de 2013. Ela tinha, como objetivo, estudar a reforma do Instituto das Obras Religiosas (IOR) sendo constituída, em sua quase totalidade, por leigos.

Os integrantes da COSEA, indicados no documento papal, eram: Dr. Joseph F.X. Zahra (Malta), Presidente; Monsenhor Lucio Angel Vallejo Balda (Secretário da Prefeitura dos Assuntos Econômicos), Secretário; Jean-Baptiste de Franssu (França); Dr. Enrique Llano (Espanha); Dr. Jochen Messemer (Alemanha); Francesca Immacolata Chaouqui (Itália); Jean Videlain-Sevestre (França); George Yeo (Singapura).

PAPA FRANCISCO, Chirografo del Sommo Pontefice Francesco per L’Istituzione di uma Pontificia Commissione Referente di Studio e di Indirizzo sull’Organizazione dela Strutura Economico-administrativa dela Santa Sede, Cidade do Estado do Vaticano, 18.07.2013:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/letters/2013/documents/papa-francesco_20130718_chirografo-commissione-economica.html

Vide, também, Andrea Gagliarducci, “La COSEA: Che Cosa Era, Quale è Stato il Suo Lavoro”, Acistampa, Lima, 02.11.2015:

http://www.acistampa.com/story/la-cosea-che-cosa-era-quale-e-stato-il-suo-lavoro-1889

[3] Ver:

Gianluigi Nuzzi, Via Crucis, Milão, Casa Editrice ChiareLettere, 2015, 321 págs.

[4] Ver:

Emiliano Fittipaldi, Avarizia, Milão, Feltrinelli Editore, 2015, 224 págs. [Tradução brasileira: EMILIANO FITTIPALDI, Avareza, São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Luis Reyes Gil, 221 págs.].

[5] Além de Lucio Ángel Vallejo Balda e Francesca Immacolata Chaouqui – libertada um dia e meio após ter sido detida, por, segundo suas próprias declarações, não estar diretamente vinculada ao vazamento dos documentos secretos –, a Justiça do Vaticano também inquiriu Gianluigi Nuzzi e Emiliano Fittipaldi pouco tempo após a publicação de seus livros, e, também, Nicola Maio, integrante da COSEA.

Vide, a este respeito, Redação, “‘Brotherhood of Crime’ to Stand Trial for Vatican Leaks”, The Straits Times, Singapura, 21.11.2015. Disponível online:

http://www.straitstimes.com/world/brotherhood-of-crime-to-stand-trial-for-vatican-leaks

[6] Ver:

FREI ÁLVARO PAIS (Estabelecimento do texto e tradução do latim por Miguel Pinto de Meneses), Colírio da Fé Contra as Heresias, Lisboa, Instituto de Alta Cultura – Centro de Estudos de Psicologia e História da Filosofia – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1956, Vol. II, pág. 43.

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

[:pt]O papel da Paradiplomacia na Internacionalização de Empresas[:]

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Durante o século XX, as empresas foram ganhando importância no panorama internacional, ao ponto de se converterem em um novo ator nas relações internacionais. A globalização permitiu o incremento da circulação do capital, assim como o desenvolvimento de uma cadeia produtiva global, gerando padrões e rotinas diferentes dos adotados pelos atores clássicos – os Estados e posteriormente as Organizações Internacionais – inserindo, dessa forma, uma nova dimensão no cenário global, caracterizada pela diplomacia empresarial, embora nem todas as empresas possuam infraestrutura ou capital necessário para atuar no cenário global, sendo este um papel concentrado nas grandes corporações e nas multinacionais.

Apesar dessa concentração, mesmo que uma empresa não esteja participando ativamente no cenário global, todas são igualmente impactadas. Desde a grande até o pequeno produtor, a competitividade internacional está presente no seu dia a dia. Quando um produtor rural participante de uma cooperativa vende seu produto no mercado local, fatores externos moldam sua realidade, seja pela competência de outros produtores internacionais que exportam o mesmo produto a um preço mais competitivo, seja por oscilações do mercado de capitais, ou até mesmo mudanças no marco legislativo em relação a importação de insumos necessários para sua atividade – como podem ser os casos dos fertilizantes –, atendendo as decisões estratégicas da nação ou as movimentações do mercado global.

Sendo assim, as pequenas e médias empresas são duplamente pressionadas, por um lado por não conseguir gerar um grupo de influência grande o bastante para exercer pressão nos formuladores políticos de seus países e, por outro lado, por não conseguir a representatividade internacional necessária para influenciar a dinâmica mundial.

Nesse contexto, a Paradiplomacia surge como uma solução para essas pequenas e médias empresas, já que um dos intuitos dos órgãos paradiplomáticos é justamente fornecer maior representação e competitividade para sua região no contexto internacional.

A Paradiplomacia permite uma maior representatividade das atividades realizadas dentro do território ou estrutura subnacional representada, fortalecendo-se nas características oriundas de cada região e permitindo com que pequenas e médias empresas possam obter maior visibilidade.

Regiões produtoras buscam uma maior participação internacional, defendendo seus interesses e buscando uma redução do impacto das grandes decisões internacionais. Outras buscam promover e procurar oportunidades. Existem associações que reúnem governos subnacionais focados em determinados temas, tais como a “Os 4 motores para Europa: Catalunha, Rhone Alps, Lombardia e Baden” ou a “mercocidades”.

Também existem agências setoriais que atuam em escala internacional, além de diversas representações de governos subnacionais e organismos ligados aos mesmos, tais como: o Governo da Catalunha, o Governo de Quebec, o Governo de Rhone Alps, o Governo de São Paulo, o Governo do Rio de Janeiro etc..

A Paradiplomacia – diferentemente da Diplomacia oficial – permite uma maior flexibilização e agilidade nos processos internacionais e ações focalizadas, formando várias áreas de atuação. Um órgão subnacional pode criar uma agência para a promoção turística de uma determinada região, uma agência setorial para defender os interesses de um ou vários setores, ou um serviço de representação com fins políticos próximos a centros de decisões internacionais, tais como Washington, Londres ou Bruxelas.

Esses Organismos paradiplomáticos também podem auxiliar a empresa em sua internacionalização, através de acordos de cooperação técnica, projetos setoriais, criação de clusters, missões empresariais, rodadas de negócios, realização de eventos, participações em feiras internacionais, dentre várias outras atividades.

A internacionalização das empresas é uma tendência crescente, porém os órgãos diplomáticos oficiais nem sempre estão preparados para atender aquelas de pequeno e médio porte, que precisam passar por todo um processo de aprendizagem para poder atuar no mercado internacional, sendo vital o papel dos organismos paradiplomáticos no processo, já que os mesmos possuem uma proximidade maior com a sua realidade empresarial e, consequentemente, uma maior sinergia com a mesma, além de que sua atuação internacional está focada na cooperação e sinergia entre regiões.

A Paradiplomacia atua então como vetor para a internacionalização de pequenas e média empresas, na medida em que busca incrementar a representatividade e competitividade de uma determinada região no contexto global, sendo também uma forma de atrair investimentos e gerar um aumento da visibilidade da região.

Algumas regiões já possuem representações oficiais no exterior e agências de promoção econômica, como são os casos de Quebec, Flandres e Catalunha. No Brasil, Estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná já possuem agências focadas na atração de investimentos, mas ainda tem muito a ser feito na área de internacionalização de pequenas e médias empresas, sendo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio a Empresa), juntamente com a APEX (Agência de Promoção Exterior do Brasil), os Órgãos que concentram tal atividade, limitando, assim, a atuação de municípios e, consequentemente, afetando a representatividade internacional e o uso do potencial local de cada região que forma o Brasil.

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Imagem (Fonte):

http://www.evef.com.br/images/noticias/globalizacao.jpg

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

[:pt]O Atentado de Nice e as Raízes da Barbárie Fundamentalista na Europa[:]

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Em 14 de julho de 2016, a cidade francesa de Nice protagonizou mais um ato de terror cometido pelo islamismo radical, vitimando mortalmente 84 civis e ferindo outros 202, incluindo várias crianças. O ataque foi levado a cabo pelo tunisino Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel, de 31 anos, um residente local, que avançou 2 Km contra os espectadores que assistiam às festividades do 14 de julho, Dia Nacional de França.

Dois dias depois, em 16 de julho, o Estado Islâmico, através da Amaq, a agência de notícias ligada aos radicais, reivindicou o atentado, tendo atribuído a operação a um de seus soldados, como uma resposta aos países que fazem parte da coalizão que, neste momento, luta contra o Estado Islâmico.

Mohamed Lahouaiej Bouhlel, pai de 3 filhos e em processo de divórcio, motivado por várias agressões contra a sua mulher, não correspondia ao perfil de um religioso muçulmano, pois, de acordo com informações, ele consumia bebidas alcóolicas, drogas, não respeitava o Ramadã e não era um frequentador assíduo da mesquita. O autor do atentado, abatido pela Polícia francesa, era um desempregado e estava envolvido em crimes, tais como roubos e violência. Embora o responsável pela ação possa ser considerado um desajustado social, isto não foi impedimento para que ele se tornasse mais do que um apoiante do Estado Islâmico, sendo considerado como soldado, isto é, um dos operacionais do grupo insurgente.

Ao assumir a responsabilidade pelo atentado, o Estado Islâmico não mencionou detalhes sobre Lahouaiej Bouhlel, nem sobre o conhecimento prévio da estratégia da ação preparada pelo radical tunisino. Porém, não é possível atribuir a tragédia que se abateu sobre Nice como sendo fruto de um ato impensado, ou estando motivada pelo capricho de um impulso. Lahouaiej Bouhlel esteve presente entre a multidão, durante horas, antes de atropelar as pessoas e a data estabelecida para executar o seu plano foi, provavelmente, escolhida a partir daquilo que o evento representa para a população francesa e, também, ocidental.

A queda da Bastilha, símbolo do absolutismo europeu sepultado com a Revolução Francesa, teve, como lema, “a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade”. Atualmente, aqueles valores imperam, no Ocidente, como fundamento da Democracia Representativa, sendo questionados por aqueles que não se sentem contemplados por esses ideais, sejam eles cidadãos nacionais ou imigrantes, em França.

O distanciamento de tais convicções, provocado pela falta de esperança de jovens europeus e estrangeiros radicados no continente, é um dos fatores internos que tem contribuído para a radicalização através da adoção da ideologia islâmica extremista. Mourad Benchellali foi um dos primeiros jovens franceses a se alinhar ao terrorismo, quando tinha apenas 19 anos. Atualmente, aos 34 anos, ele diz que, por ser muito jovem, se deixou seduzir por uma mensagem radical e pelo desejo de aventura, tendo viajado para um campo de treino da al-Qaeda, no Afeganistão. Arrependido, acabou sendo preso e, somente após 4 anos, conseguiu se reestabelecer em França. Benchellali explica que, “quando não há trabalho, quando não temos um lugar na sociedade, tornamo-nos mais vulneráveis”.

Os problemas sociais, na Europa atual, afetam os cidadãos estrangeiros mais severamente, se comparados aos nacionais. O Eurostat, em boletim publicado em dezembro de 2015, revela uma estatística que comprova o processo de exclusão dos cidadãos não europeus. Em 2014, 40,1% da população dos não nascidos na União Europeia (UE) foi avaliada em risco de pobreza ou de exclusão social, em comparação com 22,5% da população nativa. A mesma pesquisa verificou que, em 2013, entre a população jovem imigrante de 16 a 29 anos, o risco de pobreza e de exclusão social era de 43,8% enquanto que, para os jovens europeus, os atingidos eram 28,1%.

Os Estados-membros da UE que apresentam as maiores discrepâncias e vulnerabilidade social no interior da sociedade com relação aos estrangeiros são, à luz dos dados publicados pelo Eurostat, a Bélgica, a Áustria, a Grécia, a Eslovênia e a Finlândia. Os maiores perigos do aumento de jovens pobres e excluídos estão na Bélgica, considerado como o país europeu com maior quantidade per capita de jihadistas. Os dados estatísticos apontam para o fato de a vulnerabilidade econômica e social da juventude estrangeira ser de 52,9%, contra 16,8% dos belgas.

As desigualdades, em termos de condição de vida digna e a falta de expectativas de futuro, somadas à discriminação e aos preconceitos, impedem a integração e promovem o distanciamento da cultura do país de acolhimento. Deste modo, não há sentido de pertença do indivíduo com a terra que ele escolheu para construir o seu futuro. O fim do sonho reforça a revolta e a ausência de compromissos para com os valores, a cultura e a História do país, que passa a ser responsabilizado pelo fracasso individual, da comunidade ou do grupo social ao qual ele pertence.

A desigualdade social, vivida por milhões de pessoas no Ocidente, tem sido um dos pontos fortes para a arregimentação de combatentes estrangeiros para o Estado Islâmico. Valendo-se de propagandas veiculadas no Youtube e em outras redes sociais, os fundamentalistas prometem o “paraíso na pátria muçulmana”. A publicidade é minunciosamente preparada, aproveitando-se da desesperança, da “perda do lar ético[1] por parte da população e dos fracassos das políticas sociais em diferentes partes do globo que, por negligência ou ineficiência governamental, não são satisfatórias. Assim, eles conseguem atrair adeptos e dar sentido às suas vidas carentes de identidade, de valores, de causas e de meios de sobrevivência que os administradores públicos não foram capazes de suprir.

No Estado Islâmico, segundo o jornal Público, “os combatentes estrangeiros e as suas famílias têm direito a habitação gratuita, serviços médicos, educação religiosa e até a uma espécie de entrega de refeições ao domicílio, de acordo com os entrevistados. Recebem salários pagos com os impostos e taxas que sobrecarregam milhões de pessoas que eles controlam”.

A promoção de uma sociedade mais justa e mais igual no contexto do mundo globalizado é, hoje, primordial no combate ao vazio existencial que tem conduzido muitas pessoas em direção ao islamismo radical, que ignora o Outro e promove a vingança contra inocentes em nome de uma justiça própria, levada a cabo em nome de um Deus particularmente implacável.

A falta de partilha de valores, de ideais e de respeito em relação à diversidade étnico-cultural, social e religiosa tem sido, na atualidade, uma porta aberta em direção ao extremismo. O especialista e estudioso do islamismo, Jochen Müller, afirma que a religião não é o motivo primordial para a radicalização dos jovens, o que vai ao encontro do comportamento de Mohamed Lahouaiej Bouhlel que, recentemente, atentou contra a cidade de Nice. Para Müller, “eles apresentam problemas sociais ou escolares, estão desempregados ou não são aceitos. Eles estão atrás de uma comunidade, de uma orientação, de respostas claras. A religião é apenas um pretexto – a possibilidade de, em nome de algo, atacar de forma gratuita”.

À semelhança de Müller, o antropólogo Scott Atran explicitou junto ao Senado norte-americano que, “o que inspira a maior parte dos terroristas que matam no mundo de hoje, é muito menos o Corão ou a doutrina religiosa, e muito mais a identificação com uma causa fascinante e uma ação que promete glória, admiração e estima dos amigos, e através deles o respeito eterno e a certeza de permanecer na memória deles”. O antropólogo também argumenta que os problemas que afetam o dia-a-dia dos jovens os movem em direção ao radicalismo, na medida em que “sentem tédio, que trabalham em subempregos, subqualificados e decepcionados. (…). A jihad é um empregador que oferece igualdade de oportunidades… é apaixonante, gloriosa e está na moda”.

As diversas estratégias enfrentadas pelas autoridades francesas e de outros países ao redor da Terra, para travar o avanço do terrorismo têm falhado em muitos aspectos, não por falta de meios sofisticados para identificar os potenciais agressores mas, talvez, pelo fato de o cerne do problema ser de natureza interna e pelo fato de o poder público não ter dado a devida atenção a esta questão.

Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel não foi detectado pelos Serviços de Inteligência franceses e, no entanto, ele constituía uma ameaça iminente e solitária no meio da multidão. Deste modo, os meios tecnológicos de investigação avançada e as armas inteligentes não têm dado conta para frear o neoterrorismo. Ao contrário do terrorismo tradicional, ideologicamente laico, cujas ações se concentravam em “sequestros, ataques a líderes políticos, negociações de prisioneiros, utilização de carros-bomba[2], o neoterrorismo “destaca-se por estar fragmentado em vários grupos e fundamentado pela ideologia religiosa islâmica, não excluindo dos seus ataques a população civil, ao mesmo tempo que o próprio ser humano se transforma em bomba[3].

Os Governos ocidentais já gastaram milhões de Dólares em pesquisas e aprimoramento de arsenais visando salvaguardar os seus países e as suas populações, mas isto não tem sido suficiente. A humanidade assistiu, em 11 de setembro de 2001, nos EUA, a aviões transformados em mísseis e, recentemente, em França, a um caminhão transformado em arma de arremesso. Foram ações insurgentes bem sucedidas e impossíveis de serem descobertas com antecedência pelos melhores Serviços de Inteligência do planeta.

Alguns seres humanos, contrários a tudo aquilo que lhes foi dado viver, encontraram na fé islâmica radical a justificativa para se transformarem em artefatos explosivos e já puseram fim a muitas vidas humanas. Estes, geralmente, não são percebidos a tempo de serem neutralizados, pelo que conseguem passar incógnitos pela vigilância das Forças de Segurança que não dão conta de manter sob controle a totalidade do universo populacional.

Não há uma receita infalível para evitar a tragédia que aconteceu em Nice e que, constantemente, tem afetado o Iraque, a Síria, a Líbia, a Bélgica, o Iêmen, a Turquia, os EUA e tantos outros países. No entanto, talvez uma solução provável consista na análise das mazelas existentes no interior de cada país. Na verdade, são elas que têm consumido os pilares da sociedade e destruído os valores que, até algum tempo atrás, eram o sustentáculo da esperança e do futuro. A pergunta que se levanta, neste momento, é: quantos Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel existem, hoje, e quando entrarão eles em ação nas partes mais improváveis do mundo, particularmente, do Ocidente?

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ImagemUma boneca jaz, no Promenade des Anglais, Nice, ao lado do cadáver de uma criança, vítima do atentado perpetrado por Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel” (Fonte):

http://s1.lprs1.fr/images/2016/07/15/5969671_nice-enfant_1000x625.jpg

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] MARCIANO VIDAL, Dicionário de Moral. Dicionário de Ética Teológica, Porto, Editorial Perpétuo Socorro, s. d. [1991], trad. do espanhol por A. Maia da Rocha e J. Sameiro, págs. 133-135.

[2] MARLI BARROS DIAS, Israel e Palestina – O Papel do Poder Político e da Ideologia na Construção da Paz, Curitiba, Juruá Editora, 2015, pág. 115.

[3] Ibidem.

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]A escolha do Vice-Presidente na eleição norte-americana[:]

[:pt]

A agenda política dos Estados Unidos ao longo de todo o restante do ano de 2016 estará centrada no sufrágio que definirá o novo comandante-em-chefe do país. Pelo Partido Republicano, o candidato Donald Trump superou todos os prognósticos, consolidou a maioria dos delegados e irá para a Convenção Partidária apenas para ser oficializado pelos superdelegados como o candidato opositor ao atual Governo. No lado governista do espectro político estadunidense, após uma longa batalha nas primárias contra o Senador por Vermont, Bernie Sanders, a Ex-Primeira Dama e Ex-Secretária de Estado, Hillary Clinton, confirmou o favoritismo e ganhou a nomeação do Partido Democrata para suceder o presidente Barack Obama na gestão da Casa Branca.

Com a definição dos candidatos, as etapas vindouras do processo eleitoral ganham novas articulações e estratégias e, para chancelar um plano governamental e atrair o máximo de eleitores para seus respectivos núcleos políticos, tornou-se fundamental no cálculo de uma eleição a escolha do Vice-Presidente.

Na história dos Estados Unidos, a Vice-Presidência era compreendida como algo que resultaria em pouco poder e prestígio e cujas principais responsabilidades estariam centradas na Presidência do Senado, com oportunidade de voto apenas em casos de empate e, por ocasião rara de morte, substituir o Presidente.

Em contrapartida, em especial no atual século, o cargo de Vice-Presidente dos Estados Unidos ganhou um status ao menos mais participativo na administração, com envolvimento direto na elaboração das políticas de Estado, tanto no âmbito interno como no externo.

Hoje, por conta da atuação em conjunto com o mandatário, alguns analistas políticos definem os “running mates” também como “assistente do presidente”, ou “super conselheiro”, dado seu alto grau de importância no centro de poder na Casa Branca, além do papel fundamental, e por vezes decisivo, nas eleições, haja vista que sua principal função está intimamente ligada a característica política, pois preenche uma lacuna na qual o candidato presidencial não foi capaz de preencher, diante do potencial eleitorado.

Ao relacionar o papel do companheiro de chapa com a função de Vice-Presidente, três nomes aparecem na história dos Estados Unidos como sendo aqueles que desbravaram e deram uma nova conotação para o cargo.

O Presidente George H. W. Bush (1989-1993) escolheu Dan Quayle (1989-1993) como running mate em 1988. O então Senador pelo Estado de Indiana era jovem e conservador e, por conseguinte, absorvia um percentual considerável de eleitores do meio-oeste, além de ter servido no Comitê de Serviços Armados do Senado.

Em contrapartida, não exerceu grande influência nas discussões de política externa na administração Bush Sênior, exceto quando as negociações se voltavam para o Congresso, onde Quayle tinha trânsito bipartidário relevante. Por exercer influência em Capitol Hill, conseguiu, por exemplo, emplacar legislação que autorizava o uso de força militar para expulsar forças iraquianas no Kuwait, em 1991.

Outro Vice-Presidente, Dick Cheney (2001-2009), também teve papel decisivo na articulação e tomada de decisões durante as duas administrações de George W. Bush (2001-2009). Para alguns especialistas consultados, Cheney foi o responsável pelo ápice do poder de um Vice-Presidente na história dos EUA, uma vez que dirigiu todo o processo de transição política da Era Clinton, bem como incentivou a nomeação de alguns de seus principais colaboradores no alto escalão do novo Governo de Washington, a incluir: Donald Rumsfeld (no primeiro mandato de Bush – 2005-2009), para a pasta de Secretário de Defesa; Paul O’Neill, como Secretário do Tesouro; e John Ashcroft, como Procurador-Geral.

As políticas de segurança nacional também receberam forte influência de Cheney, particularmente após o 11 de Setembro. As interferências na estratégia militar e de inteligência ao longo das duas gestões de Bush o colocaram como mais importante ator em política externa, superando Condoleezza Rice, então Secretária de Estado, e Colin Powell, o Secretário de Defesa.

O Vice-Presidente ainda respondeu pelas políticas de contraterrorismo que incluíam as técnicas de detenção e interrogatório, assim como os programas de vigilância eletrônica, este último origem de grande crise diplomática com países como Alemanha, França e Brasil.

Já o atual Vice-Presidente, Joe Biden (2009-2017), remete a uma atuação distinta em comparação aos outros dois citados. Biden, Senador por Delaware, entrou para a campanha de Obama com a promessa de ser um dos principais assessores e articulador do Chefe do Executivo.

Ao longo dos dois mandatos de Obama, o Vice-Presidente se destacou nos debates em política externa, principalmente sobre o aumento de tropas no Afeganistão, medida esta que era totalmente contra.

Diante de características voltadas mais para o seio das Relações Internacionais, o atual presidente destacou o gerenciamento e a interação com países estrategicamente importantes a Joe Biden. Em muitos desses esforços diplomáticos as relações foram proveitosas, em especial com o novo Governo do Iraque, do Primeiro-Ministro Haider al-Abadi; com o ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai; e com autoridades ucranianas, após a anexação da Criméia pela Rússia.

Para as eleições de novembro, apenas Donald Trump já definiu seu companheiro de chapa, o Governador por Indiana, Mike Pence, de 57 anos, um ator, cujas características são justamente aquelas que não fazem parte do escopo de Donald Trump, ou seja, um ultraconservador cristão e que atende tanto a parte do eleitorado ainda reticente com suas propostas de campanha, como o núcleo duro do Partido Republicano.

Hillary Clinton por sua vez ainda não definiu seu par para as próximas etapas de campanha, mas, certamente, irá escolher um candidato com guinada mais à esquerda, para amenizar as críticas a sua candidatura. Já que este é o elo fraco da candidata democrata.

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Imagem (Fonte):

http://www.telegraph.co.uk/content/dam/video_previews/4/x/4xzmu0edogi5ev1_sob5kgudi9pyoyrb-large.jpg

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