ANÁLISES DE CONJUNTURANOTAS ANALÍTICAS

COMUNICADO DE SEMANA SANTA AOS LEITORES

Caros Leitores do CEIRI NEWSPAPER

Informamos que, devido ao feriado da Semana Santa,  a partir de quinta-feira, dia 24 de março (Quinta-Feira Santa), não serão publicadas Notas Analíticas, nem Análise de Conjuntura. Voltaremos às atividades no dia 28 de março, segunda-feira, com as respectivas Notas Analíticas e Análise de Conjuntura agendadas para esta data, retomando as atividades normais para a semana.

Ao longo deste período, iniciando no dia 24 de março, manteremos as consultas e, caso ocorram fatos que exijam acompanhamento mais intenso, assim o faremos, postando Notas Analíticas Extras sobre os  acontecimentos, e/ou Análises de Conjuntura Extras.   

Agradecemos à gentileza de todos os que têm contribuído direta e indiretamente com a reflexão e o estudo dos Colaboradores do Site, bem como com a avaliação dos acontecimentos e a disseminação da informação, de maneira a cooperar com o esclarecimento da sociedade e o seu desenvolvimento.

Antecipadamente, desejamos a todos uma Semana Santa com muita paz, amor e cordialidade, especialmente neste momento de tanta tensão em que vivemos no Brasil.

Fraternalmente,

Conselho Editorial do CEIRI NEWSPAPER

 

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

“Raqqa Está Sendo Sacrificada em Silêncio”: A Exemplaridade do Jornalismo Cidadão no Combate ao Estado Islâmico

Situada no centro-norte da Síria, Raqqa caiu em poder do Estado islâmico em inícios de 2014, tornando-se a capital do autoproclamado Califado. Desde então, a sua população é tutelada pelos radicais islâmicos. Por outro lado, frequentemente, os seus museus têm sido saqueados por diferentes grupos irregulares que lutam na Guerra Civil Síria. A violência e as punições aplicadas pelos militantes do Estado islâmico transformaram aquela cidade num ambiente hostil à população local e num dos ambientes mais perigosos para os jornalistas, à escala mundial. Consequentemente, a falta desses profissionais no terreno, tanto nacionais como internacionais, contribuiu para a formação de uma cortina de silêncio em torno de Raqqa, que vem sendo destruída silenciosamente. Como alternativa para romper com a devastação praticamente ignorada pelo mundo, em agosto de 2014, foi fundada, por um grupo de jovens sírios, a organização Raqqa Está Sendo Sacrificada em Silêncio (RBSS) – em inglês: Raqqa is Being Slaughtered Silently, que consiste num esforço de jornalismo cidadão destinado a expor as violações do Estado Islâmico (EI) no âmbito dos Direitos Humanos, na cidade-mártir e seus arredores, mostrando a difícil realidade cotidiana dos cidadãos[1].

Atualmente, a RBSS é uma das poucas fontes de informação fiáveis em Raqqa mas, para que isto aconteça, uma pequena equipe de jornalistas formada por 18 pessoas que trabalham em Raqqa e 10 que atuam em outras cidades, arrisca as suas vidas diariamente em prol da verdade e em defesa da cidadania. O grupo de Raqqa é responsável por enviar todo o material para os jornalistas colaboradores que se encontram fora da cidade. O trabalho é feito cuidadosamente, na medida em que os jornalistas são alvo de perseguições e ameaças. Possuindo duas únicas armas, que são a coragem e a inteligência, estes profissionais da comunicação social veem denunciando ao mundo e informando os seus compatriotas acerca da real situação de Raqqa.

Através das redes sociais, de um sítio web e de uma revista, eles divulgam informações que, de outro modo, o mundo jamais teria conhecimento. Para que a população local tenha acesso a essas notícias sem que elas sejam interceptadas pelos insurgentes do Estado Islâmico, o grupo criou a revista Dabea, cuja capa é semelhante à da revista Dabiq – “publicação mensal do Estado islâmico. Através desses meios de comunicação é possível saber acerca do “aumento dos preços da comida, água e combustível na cidade, a procura incessante dos militantes do Daesh [Estado Islâmico] por Viagra, as festas que o ISIS organiza para fazer lavagens cerebrais à população ou a forma como o grupo terrorista treina as crianças locais para as transformar em soldados”.

O trabalho realizado pelo grupo se insere numa dimensão que está além de uma visão imediata da realidade, mas centrada num objetivo maior que vai para lá do combate exclusivo ao Estado Islâmico ou ao atual regime sírio. Eles não pretendem mais guerras e, neste sentido, são conscientes de que não basta a aniquilação dos militantes islâmicos. Um dos integrantes da RBSS declarou que “lutamos contra a ideologia do extremismo. Se conseguíssemos  derrotar o ISIS amanhã ou depois, o problema voltaria a surgir com uma nova geração”.  Em novembro de 2015, Raqqa Está Sendo Sacrificada em Silêncio recebeu, em Nova Iorque, o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa, atribuído pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Porém, esta distinção não serviu para preservar a vida de jornalistas da RBSS. Alguns deles têm fugido para a Turquia a fim de evitarem ser capturados pelos extremistas islâmicos. Mas esta atitude não tem sido suficiente, uma vez que o Estado Islâmico parece ter ramificações em diferentes partes do planeta. Em 30 de novembro de 2015, um dos ativistas da RBSS de Raqqa, Ibrahim Abd al-Qader e um amigo, Fares Hammadi, foram abatidos na casa em que viviam, na cidade turca de Urfa, por membros do Estado Islâmico. Numa entrevista concedida à NBC News, em 2014, al-Qader afirmou ter sido preso e torturado pelo Estado Islâmico, em Raqqa – foi açoitado, espancado e ficou em confinamento solitário. Ele deixou Raqqa quando o Estado Islâmico assumiu o controle total da cidade, transferindo-se para a Turquia, onde terminou os seus dias.

De acordo com informações prestadas pela RBSS, os profissionais da imprensa, em Raqqa, são constantemente perseguidos. Na sua conta do Twitter, no dia 27 de dezembro de 2015, ela anunciou que Naji Jerf, 38 anos, o seu diretor cinematográfico, foi assassinado em Gaziantep, Turquia, com tiros disparados por uma pistola com silenciador. Casado e pai de duas filhas pequenas, Jerf era conhecido pela oposição tanto ao Presidente Bashar al-Assad, quanto ao Estado Islâmico. Segundo o Middle East Eye, um apoiante do Estado Islâmico anunciou, na imprensa social, que o grupo fundamentalista matara o “herege” Naji Jerf. Em 6 de janeiro deste ano, Ruqia Hassan, uma jornalista síria de origem curda, acusada de espionagem pelo EI, foi executada. Abu Mohammed, um dos fundadores da RBSS, divulgou no Twitter as últimas palavras de Ruqia Hassan: “Estou em Raqqa e recebi ameaças de morte, e quando o Estado Islâmico me prender e me matar não será mau, porque me cortarão a cabeça e tenho dignidade, é melhor isto do que viver sob a humilhação do Estado Islâmico”.

Neste momento, Raqqa está isolada do mundo. Uma cortina de ferro foi construída em torno da cidade pela ideologia religiosa extremista do Daesh e apenas os jornalistas da RBSS, solitariamente, estão tentando destruir de maneira pacífica a muralha do silêncio e mostrar ao mundo que os Direitos Civis e Humanos estão sendo violados. Através de um ato heroico, estes jornalistas pedem socorro e clamam pela vida de seus irmãos sírios que, sem liberdade, estão sendo obrigados a renunciar à própria condição de cidadãos.

Em áreas controladas pelo Estado Islâmico,  falar com a mídia ocidental, é punido com morte por decapitação. Os habitantes de Raqqa também são proibidos de viajar sem permissão, assistir aos canais de televisão internacional ou falar ao telefone. A população da cidade está sob a vigilância constante por parte dos militantes que circulam pelas ruas em busca de espiões. De acordo com a RBSS, Raqqa era uma cidade idêntica a qualquer outra cidade do mundo. Com o compromisso de devolver a liberdade à cidade, o grupo de jornalistas segue empenhado em revelar a atual condição de vida dos seus residentes. Durante a cerimônia de entrega do Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa, Abdalaziz Alhamza, que falou em nome da RBSS, fez o seguinte pronunciamento: “Talvez nós não sejamos jornalistas profissionais, talvez nós sejamos apenas ‘jornalistas cidadãos’. Nós não nos importamos muito com etiquetas. Nós só queremos provar a nós próprios, no terreno, o nosso valor como uma força que enfrenta o regime mais brutal, Assad, e a organização mais perigosa, o Estado Islâmico”.

É com um elevado grau de consciência de cidadania e respeito pelos Direitos Humanos que os jornalistas da RBSS procuram disseminar mais do que notícias, denunciando os desmandos dos radicais islâmicos e do regime político de seu país. Eles lutam pelos direitos inalienáveis à condição humana, que são a vida e a liberdade, alertando simultaneamente o mundo para a resistência de Raqqa, assim como para a necessidade da sua libertação.

———————————————————————————————–

ImagemNaji Jerf tinha acabado de obter o visa para se deslocar a França com a família. Ele foi abatido um dia antes de efetuar a viagem” (Fonte):

http://static.independent.co.uk/s3fs-public/thumbnails/image/2015/12/27/19/Naji-Jerf.jpg

———————————————————————————————–

Fontes Consultadas:

[1] A organizaçãoRaqqa Está Sendo Sacrificada em Silêncioestá presente nos seguintes órgãos da mídia social.

Sítio web:

http://www.raqqa-sl.com/

Facebook:

https://www.facebook.com/Raqqa.Sl?fref=ts

Twitter:

https://twitter.com/raqqa_sl

YouTube:

https://www.youtube.com/channel/UCV2CjutnQ9wSCHH-1iZ4VlA

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Presença, no México, do Missionário da Misericórdia e da Paz

Na sequência das seis viagens pontifícias anteriores – cinco, efetuadas por Santo João Paulo II, em 1979, 1990, 1993, 1999 e 2002, e uma, de Bento XVI, em 2012 –, o Papa Francisco realizou, entre 12 e 18 de fevereiro, sua décima segunda viagem apostólica internacional, ao México, país da América Central com 1.964.380 km2 e 126.460.963 habitantes, dos quais cerca de 50% têm origem ameríndia, sendo, portanto, descendentes diretos das vítimas da política de tabula rasa levada a cabo pelos colonizadores europeus[1]. De acordo com o programa oficial da visita, o responsável máximo da Igreja Católica optou por se deslocar, na geografia do país, aos locais mais conflituosos. Antes, porém, ele manteve um encontro, em Cuba, com o Patriarca Kirill, da Igreja Ortodoxa. Numa mensagem de vídeo divulgada dias antes do início da viagem, que teve como lema “Papa Francisco, Missionário da Misericórdia e da Paz”, o sumo Pontífice declarou: “Quero estar o mais próximo possível a vocês, mas especialmente daqueles que sofrem, abraçá-los e dizer-lhes que Jesus os ama, que Ele está sempre ao seu lado”. Por outro lado, Francisco confidenciou ao povo mexicano: “Qual é um dos meus maiores desejos? Poder visitar a casa da Virgem Maria. Como um filho, me aproximarei da Mãe e colocarei aos seus pés tudo o que levo em meu coração. É bom poder visitar a casa materna e sentir a ternura de sua presença bondosa. Ali, quero olhar para ela e pedir para que nos olhe com misericórdia, porque ela é nossa Mãe do Céu”.

O encontro do Papa com o Patriarca de Moscou e de Toda a Rússia, qualificado como “uma etapa importante nas relações” entre as Igrejas Católica e Ortodoxa e, também, “um sinal de esperança para todas as pessoas de boa vontade”, decorreu numa sala VIP do Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, durante a tarde do dia 12[2], após anos de planejamento secreto e alguns meses de negociações pormenorizadas. Assessorados pelo Cardeal Dom Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e o Metropolita Hilarion, Presidente do Departamento de Relações Eclesiais Exteriores do Patriarcado de Moscou, assim como pelos respectivos tradutores, os dirigentes da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa Russa se reuniram 962 anos após o Grande Cisma do Oriente, de 1054, que separou as duas confissões religiosas. No final do encontro foi assinada uma Declaração Comum, de índole pastoral. Nela, de entre outras matérias relevantes, podemos ler: “Nesta época preocupante, é indispensável o diálogo inter-religioso. As diferenças na compreensão das verdades religiosas não devem impedir que pessoas de crenças diversas vivam em paz e harmonia. Nas circunstâncias atuais, os líderes religiosos têm a responsabilidade particular de educar os seus fiéis num espírito respeitador das convicções daqueles que pertencem a outras tradições religiosas. São absolutamente inaceitáveis as tentativas de justificar ações criminosas com slôganes religiosos”. Neste sentido, declararam Francisco e Kirill, “nenhum crime pode ser cometido em nome de Deus, ‘porque Deus não é um Deus de desordem, mas de paz’ (1 Cor 14, 33)”.

Ao discursar ante os Bispos mexicanos, na Catedral da Cidade do México, no dia 13, Francisco exortou os Prelados para aquela que deve ser a atuação correta na nova etapa da vida coletiva do país, após a violência que o assolou até recentemente: “Sede bispos de olhar límpido, alma transparente, rosto luminoso; não tenhais medo da transparência; a Igreja não precisa da obscuridade para trabalhar. Vigiai para que os vossos olhares não se cubram com as penumbras da névoa do mundanismo; não vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões sedutoras dos acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa confiança nos ‘carros e cavalos’ dos faraós de hoje, porque a nossa força é a ‘coluna de fogo’ que irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande rumor (Ex 14, 24-25)”. Por outro lado, o Papa, se referindo ao primado da technê sobre a multidimensionalidade da pessoa humana, ou seja, ao individualismo que tem, como fundamento último, os valores aquisitivos, considerou que, “à prepotente ideia do ‘cogito’, que pelo menos não negava que houvesse uma rocha acima da areia do ser, sobrepôs-se hoje uma concepção da vida – no dizer de muitos – mais vacilante, vaga e caótica do que nunca, porque carece de um substrato sólido. As fronteiras, tão intensamente exigidas e sustentadas, tornaram-se permeáveis à novidade dum mundo em que a força de alguns já não pode sobreviver sem a vulnerabilidade dos outros. A hibridação irreversível da tecnologia aproxima o que está afastado, mas, infelizmente, torna distante o que deveria estar perto”. Neste sentido, para Francisco, somente “uma Igreja que saiba proteger o rosto dos homens que vêm bater à sua porta, será capaz de lhes falar de Deus. Se não decifrarmos os seus sofrimentos, se não nos dermos conta das suas necessidades, nada poderemos oferecer. A riqueza de que dispomos flui somente quando encontramos a pequenez daqueles que mendigam, encontro esse que se realiza, precisamente, no nosso coração de pastores”. No final da tarde do dia 13, durante a missa celebrada na Basílica de Guadalupe, localizada na Cidade do México, na presença de uma multidão de fiéis e peregrinos, ante a padroeira do México e das Américas, Francisco, tendo presente o sofrimento multissecular daquele povo, defendeu que “as lágrimas daqueles que sofrem, não são estéreis”. Por outro lado, de acordo com a análise da Rádio Vaticano, os momentos de meditação silenciosa do Papa diante da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, a “Morenita”, “retratam a profundidade espiritual dessa viagem, onde o Vigário de Cristo fez com que um país inteiro parasse com ele diante da ‘Mãe mexicana’. Foram 28 minutos inesquecíveis de silêncio e oração”.

Em Ecatepec de Morelos, cidade integrante da Zona Metropolitana da Cidade do México, que se caracteriza pelo elevado grau de violência contra a vida humana e os bens materiais, no final da missa que decorreu no dia 14, Francisco apelou aos mexicanos no sentido de recordarem os sofrimentos do passado para, assim, poderem construir oportunidades significativas para um país melhor. Disse o Papa: “Queremos como povo fazer memória, queremos ser povo com a memória viva da passagem de Deus por meio do seu povo, no seu povo. Queremos olhar os nossos filhos, sabendo que herdarão não só uma terra, uma língua, uma cultura e uma tradição, mas herdarão também o fruto vivo da fé que recorda a passagem certa de Deus por esta terra; a certeza da sua proximidade e da sua solidariedade. Uma certeza que nos ajuda a levantar a cabeça e, com vivo desejo, esperar a aurora”. Neste sentido, o Papa recomendou: “Desejo convidar-vos hoje a estar na vanguarda, a ‘primeirear’ em todas as iniciativas que possam ajudar a fazer desta abençoada terra mexicana uma terra de oportunidades; onde não haja necessidade de emigrar para sonhar; onde não haja necessidade de se deixar explorar para ter emprego; onde não haja necessidade de fazer do desespero e da pobreza de muitos ocasião para o oportunismo de poucos”.

No dia 15, Francisco discursou no Centro Desportivo Municipal, em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, ante as comunidades indígenas. Neste Estado, o mais meridional e menos católico dos Estados do México, que faz fronteira com a Guatemala, durante a homilia, o Papa reiterou a denúncia contra o eurocentrismo que, naquele país, excluiu e eliminou as populações autóctones. Para Francisco, “alguns consideram inferiores os vossos valores, a vossa cultura e as vossas tradições. Outros, fascinados pelo poder, o dinheiro e as leis do mercado, espoliaram-vos das vossas terras ou realizaram empreendimentos que as contaminaram. Que tristeza! Como nos seria útil a todos fazer um exame de consciência e aprender a pedir perdão!”. A liturgia que, além do espanhol, foi celebrada em três línguas indígenas, constituiu, para lá de um grito de alerta contra as injustiças cometidas contra as populações ameríndias, mais uma denúncia de Francisco contra as arbitrariedades praticadas pela economia globalizada[3]. Com efeito, o Papa considerou que “o mundo de hoje, espoliado pela cultura do descarte, necessita de vós. Os jovens de hoje, expostos a uma cultura que tenta suprimir todas as riquezas e características culturais tendo em vista um mundo homogêneo, estes jovens precisam que não se perca a sabedoria dos vossos anciãos. O mundo de hoje, prisioneiro do pragmatismo, tem necessidade de voltar a aprender o valor da gratuidade”. Por outro lado, o Papa Francisco sublinhou, nesta oportunidade, o uso, pelos povos indígenas, do livro sagrado dos maias, o Popol Vuh[4], assinalando o anseio de eles viverem “em liberdade; um anseio que tem o sabor da terra prometida, onde a opressão, os maus-tratos e a degradação não sejam moeda corrente. No coração do homem e na memória de muitos dos nossos povos, está inscrito o anseio por uma terra, por um tempo em que o desprezo seja superado pela fraternidade, a injustiça seja vencida pela solidariedade e a violência seja cancelada pela paz”.

Na missa realizada no Estádio Venustiano Carranza, na cidade de Morelia, com Sacerdotes, Religiosas e Religiosos, Consagrados e Seminaristas, na manhã do dia 16, o Papa, autor de O Nome de Deus é Misericórdia[5], livro recentemente publicado, incitou os presentes a considerarem a misericórdia como eixo norteador de suas vidas. No decurso da homilia, Francisco propôs aos consagrados: “Não queremos ser funcionários do divino; não somos, nem o queremos ser jamais, empregados da empresa de Deus, porque fomos convidados a participar na sua vida, fomos convidados a encerrar-nos no seu coração, um coração que reza e vive dizendo: Pai Nosso”. Por outro lado, Francisco instou aqueles que o escutavam a não se submeterem à resignação. Com efeito, disse o Papa, “à vista desta realidade, pode vencer-nos uma das armas preferidas do demónio: a resignação. ‘E que podes tu fazer? A vida é assim’. Uma resignação que nos paralisa e impede não só de caminhar, mas também de abrir caminho; uma resignação que não só nos atemoriza, mas também nos entrincheira nas nossas ‘sacristias’ e seguranças aparentes; uma resignação que não só nos impede de anunciar, mas impede-nos também de louvar, tira-nos a alegria, o prazer do louvor”. Se a resignação consiste na atitude própria de quem vive no plano da justificativa e do consolo – portanto, no passado assumido como fonte do imobilismo que ancora a vida presente –, então, é a “resignação que nos impede não só de projetar, mas também nos trava na hora de arriscar e transformar”. Mais tarde, no encontro com os jovens, celebrado no Estádio José María Morelos y Pavón, igualmente situado em Morelia, e retransmitido para os jovens reunidos na Praça São João Paulo II, em Guadalajara, Francisco se mostrou radicalmente contra o narcotráfico e o crime organizado. Após ter reiterado, aos jovens, o papel que lhes está reservado na construção da Esperança – “Vós sois a riqueza do México, vós sois a riqueza da Igreja” –, Francisco adiantou que “muitas vezes se torna difícil sentir-se tal riqueza, quando nos vemos continuamente sujeitos à perda de amigos ou familiares nas mãos do narcotráfico, das drogas, de organizações criminosas que semeiam o terror. É difícil sentir-se a riqueza duma nação, quando não se tem oportunidades de trabalho digno […], possibilidades de estudo e formação, quando não se sentem reconhecidos os direitos levando-vos depois a situações extremas”. Na verdade, interpelou o Papa, “a principal ameaça é quando uma pessoa sente que tudo aquilo de que precisa é ter dinheiro para comprar tudo, inclusive o carinho dos outros. A principal ameaça é crer que, pelo facto de ter um grande ‘carro’, és feliz. Será verdade isto? Por teres um grande carro, és feliz?”. Em alternativa à vida concebida como espaço e tempo dedicados à aquisição e à fruição de bens materiais, obtidos por via ilícita, afirmou Francisco, “talvez não tenhais à porta o último modelo de carro, […] não tenhais a carteira cheia de dinheiro, mas tereis algo que ninguém vos poderá jamais roubar: a experiência de vos sentirdes amados, abraçados e acompanhados”. Apelando ao primado da sensibilidade e do querer, que se concretiza na vivência dos afetos, Francisco referiu a importância do “encanto de apreciar o encontro, o encanto de sonhar com o encontro de todos. É a experiência de vos sentirdes família, de vos sentirdes comunidade. E é a experiência de olhar o mundo, olhos nos olhos e de testa erguida, sem o carro, sem o dinheiro, mas de testa erguida: a dignidade”.

No dia 17, Francisco visitou Ciudad Juárez, localidade que faz fronteira com El Paso, no Texas, e que é conhecida como o “epicentro da dor” mexicana. Entrevistado pela Rádio Vaticano, o Padre José Manuel Félix Chacón, natural de Zacatecas, caracterizou o drama da imigração deste modo: “A situação por que passa todo o país é um pouco triste, com violência e incertezas. Infelizmente, nos últimos anos se desencadeou a violência devido à questão do narcotráfico. Há também muita migração. Às vezes, as oportunidades para se obter um emprego são poucas e então muitas pessoas emigraram para os Estados Unidos, populações inteiras. Há cidadezinhas onde tem mais gente em Los Angeles, na Califórnia, do que na própria cidade”. Durante o sermão proferido durante a missa que decorreu na Área da Feira de Ciudad Juárez, o Papa sublinhou o fato de que, “aqui em Ciudad Juarez, como noutras áreas fronteiriças, concentram-se milhares de migrantes da América Central e doutros países, sem esquecer tantos mexicanos que procuram também passar para ‘o outro lado’. Uma passagem, um caminho carregado de injustiças terríveis: escravizados, sequestrados, objetos de extorsão, muitos irmãos nossos acabam vítimas do tráfico humano”. Atualmente, recordou o Sumo Pontífice ante as centenas de milhares de pessoas que participavam na cerimônia religiosa dos dois lados da fronteira, a migração forçada se tornou “um fenômeno global. Esta crise que se pode medir em números, queremos medi-la por nomes, por histórias, por famílias. São irmãos e irmãs que partem, forçados pela pobreza e a violência, pelo narcotráfico e o crime organizado. No meio de tantas lacunas legais, estende-se uma rede que apanha e destrói sempre os mais pobres. À pobreza que já sofrem, vem juntar-se o sofrimento de todas estas formas de violência. Uma injustiça que se radicaliza ainda mais contra os jovens: como ‘carne de canhão’, eles vêem-se perseguidos e ameaçados quando tentam sair da espiral de violência e do inferno das drogas. E que dizer de tantas mulheres a quem arrebataram injustamente a vida?”.

Relativamente ao combate ao Zika Vírus, uma preocupação mundial que também é, em grande medida, um problema latino-americano, o Papa, no voo de regresso a Roma, traçou, para os católicos, a linha vermelha no âmbito das medidas de combate à doença. Para Francisco, “o aborto não é um ‘mal menor’. É um crime. Matar uma pessoa para salvar a vida de outra é o que a máfia faz. É um crime, é um mal absoluto. Em relação ao ‘mal menor’: ao evitar a gravidez estamos falando de um conflito entre o quinto[6] e o sexto mandamentos[7]. Paulo VI – o grande! – numa situação difícil, em África, permitiu que as freiras usassem os anticoncepcionais para os casos de violência”. Explicitando sua posição acerca da interrupção voluntária da gravidez, encarada como meio profilático para os casos de microcefalia causados pelo Zika Vírus, entretanto diagnosticados nas grávidas, Francisco esclareceu, mais uma vez, que “o aborto não é um problema teológico: é um problema humano, é um problema médico. Mata-se uma pessoa para se salvar outra – no melhor dos casos – ou para passar bem. É contra o Juramento de Hipócrates que os médicos agem assim”. O aborto, considerou o Papa à luz dos preceitos defendidos pela Igreja Católica, “é um mal em si próprio, mas não é um mal religioso, no início, não, é um mal humano. E, evidentemente, como é um mal humano – como cada morte – é condenável. Em vez disso, evitar a gravidez não é um mal absoluto e, em certos casos, como aquele que eu mencionei, do Beato Paulo VI, era claro”. Naquela oportunidade, o Papa fez, ainda, um pedido veemente aos prestadores de cuidados de Saúde: “Gostaria de exortar os médicos que façam de tudo para encontrar vacinas contra estes  dois mosquitos e as doenças que carregam”.

Ainda na conferência de imprensa a bordo da aeronave da companhia AeroMéxico, um Boeing 787 Dreamliner, Phil Pulella, jornalista da agência Reuters, referiu que, “numa entrevista recente um dos candidatos à Casa Branca, o republicano Donald Trump, afirmou que o Papa é um homem político, chegando a dizer que talvez seja um peão, um instrumento do governo mexicano para a política de imigração. Declarou que, se for eleito, quer construir 2.500 km de muro ao longo da fronteira; quer deportar 11 milhões de imigrantes ilegais, separando assim as famílias”. Respondendo à pergunta de Pulella – “que pensa destas acusações contra si e, se um católico norte-americano, pode votar em tal pessoa?” –, o Sumo Pontífice foi peremptório acerca de uma personalidade com a qual ele tem poucos pontos de contato, em termos econômicos e, também, sociais: “Graças a Deus, que disse que sou político, porque Aristóteles define a pessoa humana como ‘animal politicus’. Pelo menos sou uma pessoa humana! Quanto a ser um peão, bem, talvez seja melhor nem comentar… deixo isso ao vosso juízo, ao juízo das pessoas. E, depois, uma pessoa que só pensa em fazer muros, onde quer que seja, e não em fazer pontes, não é cristã. Isto não está no Evangelho. Quanto àquilo que me perguntava sobre o conselho que daria de votar ou não votar: não me intrometo. Digo apenas: se diz estas coisas, este homem não é cristão. É preciso ver se ele disse estas coisas; por isso lhe dou o benefício da dúvida”. Entrementes, os conservadores dos Estados Unidos têm vindo a refutar a posição de Francisco acerca do tratamento a dar aos emigrantes mexicanos, naquele país. Para muitos deles, à semelhança de Trump, “o México deve ser forçado a pagar a construção de um muro para manter os imigrantes longe da travessia ilegal [da fronteira] para os Estados Unidos. Sua promessa de deportar todos os trabalhadores indocumentados tem sido uma peça-chave de sua campanha presidencial”. Deste modo, assinala Dahleen Glanton nas páginas do jornal Chicago Tribune, ao considerar Donald Trump e, implicitamente, seus seguidores, como sendo anticristãos, o Papa se deixou enredar pelos argumentos do político norte-americano, tendo, deste modo, perdido na disputa com o pré-candidato republicano à presidência dos Estados Unidos.

A viagem de Francisco ao México constituiu a reafirmação da popularidade do Papa que, desde o início de seu pontificado, tem feito um esforço notável de aproximação aos fiéis. Entrementes, fazendo o balanço preliminar da sua visita ao México, a agência de notícias Russia Today afirmou que os problemas estruturais dos mexicanos – a violência, a pobreza, as migrações, o narcotráfico, o tema dos desaparecidos e as relações de violência com os indígenas – voltaram a tomar conta das pessoas. No entanto, as declarações de Maxim Baboshkin, acabadas de parafrasear, não correspondem, fielmente, àquilo que as populações tocadas pelo Papa, no México, estão vivenciando. Com efeito, a mensagem fundamental de Francisco, naquele país do Novo Mundo, foi “uma mensagem de encorajamento, de esperança e de chamada de atenção de todos à responsabilidade. Este falar, antes de tudo aos jovens, ao povo do México como um povo jovem” continuará a ecoar, nos tempos vindouros, no coração dos protegidos pela Virgem de Guadalupe.

———————————————————————————————–

ImagemO Papa Francisco foi recebido, em sua chegada ao Aeroporto Internacional Benito Juárez, Cidade do México, com mariachis (música tradicional do país) e multidões de fiéis nas ruas”  (Fonte):

http://www.mancheteonline.com.br/wp-content/uploads/2016/02/PLRM_Papa-Francisco-durante-visita-ao-Mexico-2016_13022016003.jpg

———————————————————————————————–

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

  1. M. DE BARROS DIAS, “Espanha e Ibero-América, do Século XVI aos Nossos Dias: Relatos de Vida, Apatia e Esperança”, in FRANCISCO MARTINS RAMOS, et al. (Coordenação), Homenagem ao Professor Augusto da Silva, Évora, Évora, Universidade de Évora –   Departamento de Sociologia, 2000, págs. 105-116.

[2] Nas últimas décadas foram levadas a cabo várias tentativas de aproximação entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. Neste contexto, é de destacar o encontro mantido entre o Beato Paulo VI e Atenágoras I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, em Jerusalém, em 7 de dezembro de 1965. Deste evento resultou a Declaração Conjunta Católica-Ortodoxa de Sua Santidade o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecumênico Atenágoras I. Disponível online, em:

https://w2.vatican.va/content/paul-vi/en/speeches/1965/documents/hf_p-vi_spe_19651207_common-declaration.html.

Por outro lado, também devemos salientar a carta do Santo Papa João Paulo II a Sua Santidade Aleixo II, Patriarca de Moscou e de Toda a Rússia, Vaticano, 25 de agosto de 2004. Disponível online, em:

http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/2004/documents/hf_jp-ii_let_20040828_alessio-ii.html

[3] No encontro mantido com o mundo do trabalho, dia 17, no Colegio de Bachilleres del Estado de Chihuahua, Ciudad Juárez, o Papa foi peremptório: “O lucro e o capital não são um bem superior ao homem, estão ao serviço do bem comum. E, quando o bem comum é forçado a estar ao serviço do lucro, e o capital é o único ganho possível, isso tem um nome, se chama exclusão, e assim se vai consolidando a cultura do desperdício: Desperdício! Excluído!”.

[4] Traduzido literalmente da língua quiché como Livro da Comunidade, ou dos Conselhos, o Popol Vuh é um repositório da criação do mundo e da cultura maia, redigido no século XVI. O Popol Vuh pode ser consultado, online, no seguinte endereço web:

http://www.samaelgnosis.net/sagrados/pdf/popol_vuh.pdf

[5] Ver:

FRANCISCO, O Nome de Deus é Misericórdia, São Paulo, Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Catarina Mourão, 141 págs. [Uma conversa com Andrea Tornielli].

[6] Ver:

Não matarás o inocente nem o justo” (Ex 20, 13; Ex 23, 7).

[7] Ver:

Não cometerás adultério” (Ex 20, 14).

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

O dilema das migrações e da cidadania

A migração é um processo presente em toda a história da humanidade e responsável pelo desenvolvimento da mesma, pois, graças as migrações, os humanos foram capazes de ocupar as regiões produtivas do planeta, promover a troca de produtos e conhecimentos, promover a expansão cultural, dentre outros avanços. Com o advento da globalização contemporânea, o ritmo dos fluxos migratórios aumentou consideravelmente, gerando uma série de desafios em âmbito local e internacional.

Muitos sãos os fatores que caracterizam a migração e muitas são as dúvidas que pairam sobre a mesma, havendo diferentes formas de classificar o processo, conforme sua relação com o espaço, período de tempo, tomada de decisão, com a lei, além das novas classificações que surgem devido ao avanço tecnológico.

Sendo assim, o processo de migração não somente se refere à movimentação de pessoas entre diferentes países, como habitualmente é retratada, mas também, dentre os vários processos que existem, também se refere ao êxodo rural crescente no mundo inteiro, às migrações intranacionais, às migrações forçadas e às mudanças promovidas por períodos de trabalho e tempo, como trabalhar em uma lavoura, um projeto, um cruzeiro ou em um intercâmbio. Mas, se por um lado, o procedimento migratório, desde a formação das primeiras sociedades, foi um dos fatores que permitiu o avanço da humanidade, que, por sinal continua avançando, por outro, sempre gerou uma série de problemas oriundos da dinâmica social e da política dos locais implicados.

Desde a chegada dos Hebreus, conforme relatos bíblicos, passando pelo Império Romano e pelos Impérios Coloniais Europeus, culminando na Revolução Industrial e em plena expansão nos dias de hoje, os problemas derivados da movimentação de pessoas são cada vez mais visíveis, pois a comunidade autóctone precisa assimilar esse novo fator demográfico, que, por sua vez, modificará a dinâmica social, as relações políticas e econômicas, podendo causar benefícios, caso haja uma integração efetiva, ou gerar conflitos, caso essa integração não seja realizada.

Não existe nenhum local do globo que não tenha sido testemunha da movimentação de pessoas, porém a construção dos chamados Estados Nacionais, bem como o surgimento das Identidades Nacionais, aumentou as formalidades e as barreiras para tal movimentação, sendo um processo crescente e proporcional ao aumento da mobilidade humana e ao decorrer da evolução política.

A Europa talvez seja um dos exemplos mais paradoxais que podem ser vistos para entender a evolução do processo de migração, poiso continente foi terra de passagem de diversas civilizações (gregos, fenícios, romanos, muçulmanos, bárbaros etc.) e também fonte de movimentos que colonizaram e posteriormente industrializaram o mundo, mas, aos poucos, foi se fechando, ao mesmo tempo que se transformava em um novo palco de migrações, conforme se processou o desenvolvimento da União Europeia.

Os Estados Unidos, por outro lado, constituem uma nação cujos alicerces se baseiam na imigração (com importantes colônias de ingleses, africanos, escoceses, irlandeses, italianos, espanhóis, mexicanos, japoneses, chineses, judeus, dentre outros), mas cuja cidadania se fundamentou em uma identidade nacional própria e local, reforçada pelo “American Way of Life”. Mesmo que o país continue sendo um importante cenário para as migrações (de todos os tipos), as tensões sociais, fruto do acúmulo do processo, são cada vez mais visíveis.

Dentro da complexa realidade do processo migratório, surge um novo fator gerador de tensões e polêmicas: Os refugiados.  Embora o termo migrante e refugiado sejam usados como sinônimos, existem diferenças que vão além da semântica, pois o refugiado corre perigo real de morte e não opta pelo processo de migração, sendo o mesmo compulsório, já que não lhe resta outra alternativa. Embora essa divisão seja bastante aceita e divulgada pela ACNUR, ainda são levantadas discussões na Comunidade Internacional, seja pela divisão de perspectivas, seja por novos processos, tais como a mudança climática e o aumento dos desastres naturais, que geram novos conceitos dentro dessa já complexa classificação.

Nos Estados Unidos a migração é um tema importante durante as eleições. Atualmente,  as declarações do pré-candidato republicano Donald Trump ganharam visibilidade devido ao extremismo imbuído em suas promessas eleitorais. Por outro lado, todos se lembram de como Barack Obama se dirigiu à comunidade latina em espanhol, durante as eleições em 2012, com o objetivo de obter o apoio de mais de 40 milhões de cidadãos que moram no território norte-americano e são fruto de processos migratórios recentes. O país volta a discutir o tema nestas pré-eleições, sendo uma grande fonte de polêmicas, onde até mesmo o Papa Francisco já deu seu parecer.

Na Europa, a situação é complexa, pois as políticas de integração do Bloco e de livre circulação dos cidadãos não contemplou os frequentes fluxos migratórios e as comunidades estabelecidas. Sendo assim, um cidadão estrangeiro que resida legalmente na Espanha não pode estabelecer residência permanente na Alemanha, por exemplo. Embora participe do ciclo econômico do Bloco, pagando seus impostos, para migrar dentro da União é preciso ser cidadão nacionalizado de algum dos países.

Até mesmo para cidadãos de Estados que pertencem à União Europeia (UE) existem diferentes graus de integração e aceitação. Como exemplo, países da Europa do Leste normalmente sofrem com as restrições impostas aos imigrantes extracomunitários.

Esse panorama complexo enfrentado pela UE foi agravado por dois novos fatores: a chegada dos refugiados do Oriente Médio e a crescente ligação entre comunidades de origem estrangeira estabelecidas em diversos países, como Bélgica, França, Holanda e Espanha, gerando uma profunda crise migratória no continente e ameaçando candidaturas políticas e alinhamentos entre Estados.

A integração do imigrante e do refugiado deve contemplar a dinâmica social, política e econômica dos países implicados e ocorrer nos diferentes níveis que formam o prisma da cidadania. Uma integração somente por fatores econômicos, ou uma somente por fatores históricos aumentará as tensões e não funcionará. Por outro lado, é importante derrubar construções sociais que formam a identidade nacional e nutrir a cidadania mediante sua nova realidade e mediante novos símbolos e meios de coesão social, já que, independente da altura do muro, ou das restrições políticas e econômicas que se coloque, o processo migratório é irrefreável e está dentro da essência da humanidade.

———————————————————————————————–

Imagem (Fonte):

https://paxchristiusa1.files.wordpress.com/2011/06/dsc05675.jpg

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

Um ensaio progressista na política norte-americana

As eleições primárias nos Estados Unidos historicamente apresentam candidatos cujos ideários políticos transcendem muitas vezes o conteúdo programático de suas campanhas. Com falas eloquentes, carregadas de simbolismo ideológico, os debates, comícios e discursos produzidos e reproduzidos de todas as formas e em todas as mídias disponíveis funcionam como estratégias iniciais, um termômetro para mensurar o quão aceitável é aquele formato discursivo diante das massas e, por conseguinte se o futuro Plano de Governo poderá ser estruturado de acordo com as prerrogativas da aceitabilidade social.

Na atual disputa, dois candidatos destacam-se, justamente pela eloquência e por defenderem cada qual um espectro político específico. São eles: Bernie Sanders, Senador Democrata pelo Estado de Vermont, e Donald Trump, candidato pelo Partido Republicano. Contudo, o fenômeno produzido pelos atuais dois protagonistas é fruto de uma abordagem mais extremada, que outros dois candidatos, anteriormente considerados favoritos na disputa presidencial, Hillary Clinton (Democrata) e Jeb Bush* (Republicano), não puderam e não poderão adotar, pelo fato de representarem duas das famílias mais poderosas de Washington e com históricos recentes que os classificam como de centro no espectro político. Sendo assim, um movimento abrupto para qualquer dos lados, tornando tanto Sanders quanto Trump possíveis “Sheepdogging”, soaria falso e perigoso no decorrer das respectivas campanhas.

Ao confeccionar suas estratégias, Donald Trump e Bernie Sanders interpretam e exploram que o modelo político estadunidense com a presença das tradicionais oligarquias políticas está saturado e desgastado para grande parte da sociedade, que clama por mudanças profundas nos âmbitos econômico e social, principalmente a classe média, a fatia da sociedade mais prejudicada pela crise de 2008.  Nesse sentido, com base em suas convicções políticas trazidas desde a juventude, o candidato democrata, por exemplo, tem conseguido atrair a atenção da sociedade neste início, principalmente dos jovens, com uma proposta mais revolucionária, cuja similaridade não era vista desde as eleições de 1972, quando o senador democrata por Dakota do Sul, George Mcgoven (1922-2012), com um modelo político semelhante ao de Sanders, perdeu as eleições para Richard Nixon (1969-1974).

Ao traçar o perfil político de Bernie Sanders, especialistas discutem no âmbito da ciência política o enquadramento ideológico do candidato que explora a equidade social e o fim dos privilégios à classe mais abastada como requisitos de salvaguarda para um novo modelo capitalista, impondo em sua fala uma reflexão à sociedade, algo que, até o presente momento, tem ganhado relevância. O recente relatório sobre desigualdade global produzido pela organização inglesa Oxfam é um exemplo pertinente, pois gerou análises a respeito das mazelas sociais internacionais, servindo de ferramenta para, implicitamente, chancelar os discursos do democrata em suas viagens de campanha por todo o país.

Todavia, por ser ao mesmo tempo inovadora a condução da campanha do candidato democrata, as barreiras com as quais o referido se depara são grandes e enraizadas, por irem de encontro a indivíduos, instituições e conceitos formados quando o país se tornou a potência preponderante do atual sistema internacional. O modelo capitalista defendido pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial cumpriu e vem cumprindo uma modalidade de produção que é criticada pelo atual candidato, que a interpreta como usurpação para a atual realidade, uma vez que perpetua a exclusão, reproduz a desigualdade e a apropriação da produção social da riqueza por poucos.

No cerne desta ótica crítica, as consequências para sua campanha já foram destacadas por especialistas em política que foram consultados. Para que haja um ensaio progressista na política estadunidense em ano de sufrágio é fundamental a adoção de mecanismos, principalmente nos meios de comunicação que sejam justos a todos, porém, pesquisas apontam que é limitada e parcial a cobertura das principais redes americanas de TV (ABC, CBS, NBC) para a campanha de Bernie Sanders, se comparado o tempo desprendido para as campanhas de Hillary Clinton e Donald Trump, personificando, através dos dois candidatos, a orientação conservadora da mídia estadunidense.

Com o surgimento do que pode ser considerado um movimento antiestablishment nos Estados Unidos, é possível conjecturar que há uma tendência global para que a coordenação da comunidade internacional ganhe novos paradigmas políticos. A Espanha, através do Partido de Esquerda Podemos, e o Reino Unido, pela nova roupagem do Partido Trabalhista, encabeçado por Jeremy Corbyn,respondem a tal tendência, com um recorte político que foi iniciado na América Latina e que, agora, toma forma nos países que enfrentaram dificuldades econômicas nos últimos dez anos, dentre os quais, os Estados Unidos. Os norte-americanos estão aprendendo a dar voz a essa nova viabilidade política e intelectual, ou seja, através das classes populares há um estado de atenção em relação ao desenvolvimento econômico e financeiro modelado por conglomerados corporativos, que, além disso, em relação ao processo eleitoral, privatizam-no, ao ponto de parte considerável dos candidatos a cargos políticos poderem receber todo o dinheiro que suas campanhas conseguem arrecadar. Conforme vem sendo atestado, com base nessa liberalização monetária em processos eleitorais é possível que os representantes do 1% mais ricos da sociedade possam controlar e persuadir os representantes da massa eleitoral.

Por apresentar um discurso voltado à defesa social, alinhado com uma nova tendência mundial, Bernie Sanders vem apresentando disposição para criar bases sólidas. A corrida rumo a  predileção dos delegados do Partido Democrata, com uma proposta de cunho social-democrata, abrirá possibilidades para que instrumentos para redistribuir alguma riqueza, a fim de beneficiar os norte-americanos mais desfavorecidos, permite idealizar para a história do país a modalidade político-econômica mais progressista já desenvolvida por um candidato presidencial.

———————————————————————————————–

* Jeb Bush, candidato republicano, suspendeu sua campanha, ao serem divulgados os números das primárias na Carolina do Sul.

———————————————————————————————–

Imagem (Fonte):

http://media.jrn.com/images/b99660308z.1_20160129113530_000_gite9m9v.1-0.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável Nº 5: Igualdade de Gênero[1][2

De acordo com a ONU Mulheres, a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, a luta pela igualdade e o empoderamento das mulheres assume dois caminhos dentro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): ora como meta a ser atingida, ora como meio para o alcance de outras metas. Em outras palavras, esta igualdade deve ser buscada através de suas metas específicas e também serve de instrumento para alcançar outras, tais como a saúde materna (ODS 3) e o acesso universal à educação, para meninos e meninas (ODS 4).

Neste sentido, o ODS nº 5 tem como lema: “alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”. A primeira meta se destina à eliminação de “todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas em todas as partes”. Para ilustrar o desafio no alcance desta finalidade específica, até 2014, 143 países tinham garantido a igualdade entre os dois gêneros em suas Constituições, uma cifra recorde, segundo a ONU Mulheres. Contudo, 52 países ainda não tinham adotado mudanças no nível jurídico e legislativo para garantir os direitos das mulheres. Além do aspecto legal, o maior desafio em vários países reside na mudança de hábitos, uma vez que a discriminação de gênero está enraizada nas normas sociais e nos ambientes políticos e econômicos.

Outro aspecto, considerado um dos maiores desafios, é a violência contra as mulheres. Apesar do engajamento das Nações Unidas e da assinatura da Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres, em 1993, uma de cada três mulheres segue sofrendo violência física ou sexual, principalmente de companheiros. No Brasil, a Lei 11.340 de agosto de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, foi sancionada visando incrementar e destacar o rigor das punições na violência doméstica e familiar contra a mulher.

Ainda em relação à violência doméstica, de acordo com o Mapa da Violência 2015, 106.093 mulheres foram vítimas de homicídio no período entre 1980 e 2013. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil, passou para 4,8 em 2013, ressaltando um aumento de 111,1%. Apesar disso, após a Lei Maria da Penha, o crescimento de homicídios foi menor. À título de nota, o crescimento foi de 7,6% ao ano no período anterior à Lei (1980-2006). Durante a sua vigência (2006-2013), o crescimento anual foi de 2,6%.

A terceira meta visa à eliminação de todas as práticas nocivas, tais como os casamentos prematuros, forçados e de crianças e as mutilações genitais femininas. De acordo com dados da parceria global Girls Not Brides, mais de 700 milhões de mulheres vivas hoje se casaram antes dos 18 anos, e isto equivale a 10% da população mundial. Anualmente, 15 milhões de garotas se casam antes dos 18, ou seja, 28 garotas se casam por minuto. Esta conjuntura significa que as meninas serão dependentes de seus maridos, privadas de seus direitos fundamentais à saúde, educação e saúde – considerando que elas abandonam a escola e que estão sujeitas à complicação durante o parto.

Por exemplo, 48% das meninas com idade entre 20 e 24 anos se casaram antes dos 18 anos e 14% antes dos 15, em Moçambique. No Malauí, uma de cada duas meninas se casava antes dos 18 anos. Nas escolas, apenas 45% das meninas permaneciam após o oitavo ano. Contudo, a ONU Mulheres pressionou os membros do Parlamento para aprovar uma Lei de matrimônio, divórcio e relações familiares no país, conseguindo elevar a idade mínima de 18 anos para os matrimônios sem o consentimento dos pais. Em junho de 2015, dois meses após a aprovação da Lei, a Chefe Inkosi Kachindamoto anulou 330 matrimônios.

A quinta meta busca garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública. De acordo com publicação do Inter-Parliamentary Union, em janeiro de 2014, apenas nove mulheres eram Chefes de Estado, entre 152, e quinze são Chefes de Governo, entre 193, incluindo o Brasil, onde o cargo da Presidência acumula as duas funções. No ranking criado para avaliar a participação feminina no âmbito legislativo, o Brasil ocupou a 124ª posição, de 145. Há apenas 44 deputadas federais, em um total de 513, e 13 senadoras, de um total de 81.

No mercado de trabalho, o rendimento médio das mulheres ocupadas em relação aos homens ocupados aumentou entre os dois últimos Censos Demográficos. Em 2000, o rendimento da mulher representava 68,7% do rendimento do homem, enquanto que em 2010, este valor subiu para 73,9%, apresentando um aumento de 5,2%.

Recentemente, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), defendeu, em parceria com a ONG Promundo, o engajamento de homens e meninos na promoção da igualdade de gênero e da saúde e direitos sexuais e reprodutivos. O Documento, intitulado “Partnering with Government for Greater Impact: Report on the Mapping of Initiatives Engaging Men and Boys for Gender Equality and Sexual and Reproductive Health and Rights”, identifica boas práticas e lições aprendidas a partir de experiências realizadas em diversos países do mundo, sempre ressaltando a importância do envolvimento dos homens na conscientização e na promoção da equidade de gênero.

No cenário internacional, Antônio Patriota, embaixador representante permanente do Brasil junto à ONU, assumiu a Presidência da Comissão sobre o Estatuto da Mulher da ONU e também tem advogado a campanha #He for She (#ElesporElas), lançada pelo Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon. A campanha tem o intuito de discutir e conscientizar a população sobre os desafios inerentes à discriminação contra a mulher e reforçar as diversas estratégias para empoderar esta população.

Em suma, o ODS 5 traz enormes desafios para a implementação de suas metas, podendo ser apresentadas em duas fases. Em primeiro lugar, o desafio de garantir, legalmente, o direito das mulheres. Em alguns países, com tradições mais liberais, não há obstrução do direito à educação e à saúde. Contudo, como citado no início, 52 países ainda não garantiram juridicamente o direito das mulheres em seus territórios. Entre os fatores, destacam-se a influência de costumes, tradições e rituais religiosos.

Em segundo lugar, o desafio de operacionalizar nos hábitos diários o confronto às práticas discriminatórias. Por exemplo, o pagamento diferenciado de homens e mulheres que trabalham no mesmo cargo; a redução da presença das mulheres no mercado de trabalho, em virtude da ausência de legislação sobre licença maternidade; a utilização de mulheres, tão capacitadas quanto os homens que ali governam. Neste último caso, cita-se o atual debate sobre a eleição de uma mulher para ocupar o cargo de Secretária Geral da ONU e a decisão do Primeiro-Ministro do Canadá, Justin Trudeau, em nomear mulheres para ocupar metade de seu gabinete.

Na ocasião, Trudeau surpreendeu a todos pela simplicidade e efetividade da resposta, quando perguntaram por que a igualdade de gênero era tão importante para ele: “Porque é 2015”. Dessa forma, a ONU espera que a conscientização dos homens – por meio da campanha #HeforShe – sirva para lembrá-los um único ponto: já estamos no pós-2015.

———————————————————————————————–

Imagem (Fonte):

http://www.pnud.org.br/UNDPGlobalDesign/img/ods/E_SDG_Icons_NoText-05.jpg

———————————————————————————————–

[1] Esta nota analítica é resultado de uma atividade voluntária exercida pelo autor para a ONU Voluntários (UNV), no projeto “Desarrollar contenido de opinión em redes sociales sobre los ODS”, com o objetivo de disseminar informações, debates e reflexões sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na América Latina e no país de origem do voluntário. Por esta razão, agradeço à diretoria do CEIRI NEWSPAPER (CNP) por ceder espaço na disseminação deste projeto. Os pontos de vistas expressados aqui são de inteira responsabilidade do autor, não representando as posições da UNV e do CNP.

[2] O CEIRI NEWSPAPER posiciona–se em abrir espaço e defender o direito legítimo e democrático que tem intelectuais sérios e responsáveis de se posicionarem, bem como em respeitar suas perspectivas. Especialmente, manifesta apoio pleno e disposição para auxílio necessário a todos os programas e atividades da Organização das Nações Unidas (ONU), que trabalha constantemente na busca de um mudo mais equilibrado, justo e pacífico.