AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

Um panorama bipolar para o Oriente Médio

A tensão instaurada em um Oriente Médio já combalido por guerras civis e cisões étnicas ganha profundidade e complexidade com a derrocada nas relações diplomáticas entre o Emirado do Qatar com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Egito, Iêmen e Líbia, um posicionamento que pode revelar muito mais do que uma simples discordância entre atores vizinhos.

Presidente Trump e o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud durante reunião dos líderes do GCC, no King Abdulaziz Conference Center, em Riad, Arábia Saudita

O momento atual do Oriente Médio converge com a chegada de Donald Trump à Casa Branca e essa releitura das tensões no subcontinente abre precedentes para dividir o quadro conjuntural da região em dois: de um lado, Estados Unidos e membros do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC na sigla em inglês), sob o protagonismo da Arábia Saudita; e, de outro lado, o Irã.

Com a sua primeira viagem como Presidente ocorrendo em Riad, Trump concordou com a Monarquia saudita no que tange ao papel do Irã como desestabilizador da região, porém sofreu críticas de observadores internacionais que insinuaram que sua presença em solo saudita tenha provocado ainda uma divisão entre os árabes do Golfo.

Embora haja concordância a respeito da influência iraniana na geopolítica do Oriente Médio, o objeto de debate no âmbito do Conselho de Cooperação do Golfo é que faz diferirem as ações que cada Estado pretende tomar.

Ministros das Relações Exteriores do P5+1 antes do anúncio final

Nesse sentido, para especialistas na região, o acordo consolidado nas negociações nucleares entre o P5 + 1 (Estados Unidos, China, Rússia, França, Reino Unido, mais Alemanha) e o Irã foi o propulsor na divisão dessas ações.

Sob a liderança da Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, atores céticos com o acordo, a preocupação se dá pela elevação do grau de influência que gerou para os iranianos o afrouxamento das tensões entre o ocidente e o Irã. Contudo, outros atores, incluindo Omã e o Emirado de Dubai esperavam capitalizar o acordo e forjar novas parcerias comerciais. O Kuwait e o próprio Qatar, pelo histórico recente, se posicionaram no meio, ou seja, anseiam pela contenção do país persa, porém também desejam a diminuição dos desequilíbrios, uma vez que compartilham interesses com Teerã, a incluir campos de gás e outras fontes de comércio.

Por apresentar uma posição histórica ambígua nas relações exteriores, Doha ganhou o protagonismo. Em meado dos anos 1990 flertaram com Saddam Hussein, Irã e Israel, bem como com a oposição saudita através das transmissões da Al Jazeera.

Em tempos mais recentes, o Qatar mantém boas relações com Hezbollah e apoia abertamente o Hamas, além de ser acusado de apoiar grupos islâmicos radicais na Síria, bem como a Irmandade Muçulmana em todo o Oriente Médio, fator preponderante para o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi intervir e apoiar a crescente pressão sobre os qataris.

Em Washington, a posição neutra apresentada pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, e pelo Departamento de Defesa contrasta com o desconforto pelo vínculo existente de Doha com diversos grupos jihadistas.

Entretanto, fora dos registros oficiais, Washington concorda que o vínculo com grupos como Hamas, Taliban e a Al-Qaeda atenuaram as posições desses grupos, tornando-os mais acessíveis às negociações, tal  como em 2014, quando o Qatar persuadiu o Taliban a libertar o soldado estadunidense Bowe Bergdahl, ou quando ajudou a garantir meses depois a liberdade de Peter Theo Curtis, jornalista detido pela filial da Al-Qaeda na Síria, a Frente Al-Nusra.

Para observadores, analistas e membros do Governo estadunidense algo deve ser feito sobre as políticas de Doha, dada a divergência entre o posicionamento do presidente Trump e o que as agências de segurança nacional acreditam. Nesse sentido, uma das alternativas veiculadas é utilizar do Kuwait como negociador para o fim do impasse no Golfo.

Por outro lado, há o aspecto geopolítico da atual administração que já elegeu o Irã como o inimigo a ser combatido para sua política externa no Oriente Médio e, nesse sentido, os acordos comerciais de cooperação militar firmados na viagem a Riad são os meios para materializar o enfraquecimento do Estado persa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente Trump e a PrimeiraDama Melania Trump sendo recebidos pelo Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, no Aeroporto International Rei Khalid” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/whitehouse/33975154893/in/photolist-TLgxSD-UWd5Yu-bPPABZ-RnEj3L-UN4vxF-S8YKn8-8YwT7n-NpH67r-V2jqtE-V3PXXT-88oN54-9bFEc7-UZLwWi-cLxZTJ-UQo2cy-TLgxKp-RtH8ug-TRUDC3-cLy1Xs-cLy7ko-cLy6jw-VokkRp-bTRAzz-cLy5m1-cLy4hw-cLya5Q-cLy8ij-cLy35y-bYQL73-74Em8v-8ybXSR-RkJAgw-Rh3EHU-Hmht7q-AKWYCC-4Npn2X-UR4F3K-dN4HM-HzSNzS-Jm21sg-C9T6V5-N12wQu-Npoa8a-TFhn3F-RaZizp-yuskc9-LV1wdk-EqDPMf-vTokWX-wnM6Wq

Imagem 2Presidente Trump e o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud durante reunião dos líderes do GCC, no King Abdulaziz Conference Center, em Riad, Arábia Saudita” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/whitehouse/34031493273/in/photolist-TRfij2-rdNe5A-edBueJ-edo9zf-e9gAup-ea9c5S-8uVrja-hL1KZC-dMQzyX-hL2pXZ-rtmq7F-hL1YU5-TRfidk-paY1My-hL1oyR-azh1r4-pj3Rk5-hyxXSf-efk6H2-f2BK19-rrrxaG-Tpyypp-hL1TmS-edvX7V-8uVhLn-hL2c21-ouVnZF-TY3w1y-5uS6kX-8vBVTe-hL1YEq-hL2Dmn-ejBSxe-e6BRzB-8vEXjo-ea9cfh-hL2BEN-8vEXd9-hL2dPN-8vBWaH-8uVbxt-ei4fPM-edRRXA-hL2a1g-8vEXtU-8vEXmG-hL1TEr-9W2P8p-hL2Ryj-pDrBgb

Imagem 3Ministros das Relações Exteriores do P5+1 antes do anúncio final” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/P5%2B1#/media/File:Iran_Talks_Vienna_14_July_2015_(19067069963).jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

As novas metas da União Europeia

A União Europeia (UE) continua seu projeto de integração e reformulação visando sair fortalecida e preparada para um novo posicionamento geopolítico. Tal postura está sendo mantida, mesmo após 10 anos de crise econômica e de enfrentar uma crescente instabilidade política e social, causada tanto pelos reflexos das políticas de austeridade como por assuntos sociais, tais como a imigração e o terrorismo. Além disso, deve-se acrescentar a crise provocada pela saída de uma das principais economias da região, bem como ter de enfrentar a ameaça de outras desistências, alimentadas por um crescente populismo.

A saída do Reino Unido, os atritos com a gestão Trump e com a Rússia, as novas tendências globais e as novas ameaças promoveram uma reflexão e reposicionamento da União. Atualmente, o Bloco voltou a negociar com o Mercosul e acredita que um acordo seja assinado até o final de 2017; as negociações com o Canadá também evoluem rapidamente; assim como a retomada das solicitações de adesão ao Bloco Europeu.

A retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris fortaleceu a posição da União Europeia como maior promotor de cooperação internacional para o desenvolvimento, sendo o grupo responsável por mais de 60% de todos os recursos dedicados a esta atuação.

Conselho Europeu

A Comissão Europeia e o Parlamento Europeu assinaram na semana passada o chamado Consenso Europeu sobre o desenvolvimento”, no qual os países membros do Bloco se comprometem em manter o fluxo de recursos e ações para a cooperação internacional e intensificar as atividades que promovem o desenvolvimento das regiões mais carentes. Dessa forma, grupo europeu deseja transmitir ao mundo uma mensagem de coesão e futuro, focados no desenvolvimento e preservação do meio ambiente.

Atualmente, a Europa oferece subvenções e financiamentos, além de projetos de investimento social para todas as regiões do planeta, destacando-se que empresas e instituições interessadas podem participar em seus editais disponíveis no site da Europeaid.

O discurso da UE surge na semana de aniversário do maior projeto de mobilidade acadêmica do planeta, o programa Erasmus, que, após 30 anos, teve mais de 9 milhões de participantes e 1 milhão de bebês que nasceram entre os participantes durante o programa, sendo o mesmo ampliado para terceiros países, tais como o Brasil.

O Erasmus, assim como os projetos de cooperação internacional compõem a agenda estratégica da União Europeia e os pontos chaves do Programa Horizon 2020, nos quais se planeja superar as metas e compromissos contraídos na comunidade internacional e na agenda internacional.

Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos

A Europa, dessa forma, busca voltar à liderança, mas através do softpower de suas ações, tomando a iniciativa em setores promissores e inovadores que aos poucos estão ganhando notoriedade mundial e que, no futuro, podem pautar novamente a balança de poder, tais como a distribuição de recursos hídricos, o desenvolvimento agropecuário, o meio ambiente e as energias renováveis.

Embora o cenário político de alguns países continue instável, como no caso da Espanha, o crescimento econômico da região e os resultados das eleições na França ajudaram a retomada da agenda internacional do Bloco, e mesmo com as futuras eleições na Alemanha, a União Europeia aos poucos parece encontrar seu novo caminho no panorama mundial que se desenha, ou, ao menos indica que nas altas esferas do grupo europeu já existe um consenso.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Parlamento Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/11/European-parliament-strasbourg-inside.jpg

Imagem 2Conselho Europeu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/84/European_Commission.svg/2000px-European_Commission.svg.png

Imagem 3Mapa das áreas do EuropeAID. Confirmadas a cada 17 anos” (Fonte):

https://ec.europa.eu/europeaid/sites/devco/files/blending-worldmap-2015_2285x1405_300dpi_v2.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURANOTAS ANALÍTICAS

COMUNICADO CEIRI NEWSPAPER DE CORPUS CHRISTI

Caros Leitores do Jornal do CEIRI (CEIRI NEWSPAPER)

Informamos que devido ao feriado de Corpus Christi, hoje, quinta-feira, dia 15 de junho, não serão publicadas Notas Analíticas nem Análise de Conjuntura. Voltaremos às atividades no dia 16, sexta-feira, com as respectivas Notas Analíticas e Análise de Conjuntura agendadas para esta data.

Como é nosso padrão, ao longo do dia manteremos as consultas e, caso ocorram fatos que exijam acompanhamento mais intenso, assim o faremos, postando Notas Analíticas Extras sobre os acontecimentos, e/ou Análises de Conjuntura Extras.   

Agradecemos à gentileza de todos os que têm contribuído direta e indiretamente com a reflexão e o estudo dos Colaboradores do Jornal, bem como com a avaliação dos acontecimentos e a disseminação da informação, de maneira a cooperar com o esclarecimento da sociedade e o seu desenvolvimento.

Desejamos a todos um excelente feriado.

Fraternalmente,

Conselho Editorial do CEIRI NEWSPAPER

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalParadiplomacia

Smartcity III, o profissional do setor

Os projetos de Smartcities são uma tendência crescente no cenário internacional e nacional. Ainda assim, existem diversas dúvidas em relação a natureza desses projetos e aos órgãos implicados, bem como aos profissionais que atuam no setor.

Alguns centros de formação no Brasil já oferecem instrução na área, porém, apesar da excelente qualificação dos professores, poucos são os que realmente possuem experiência profissional ou empírica, refletindo novamente as próprias dúvidas que geram os projetos de Smartcity.

Inovação, tecnologia e política são os setores nos quais os centros acadêmicos concentram sua oferta formativa, o que acaba limitando todo o potencial da área e gera uma especialização excessiva e perniciosa, já que, mesmo sendo importante contar com profissionais qualificados para a gestão desses projetos, os mesmos não podem ser limitados a apenas algumas áreas.

É vital compreender que o projeto de uma cidade inteligente envolve a todos os profissionais que atuam nas dinâmicas internas e intrínsecas da cidade, pois é dessa interação entre os diferentes atores presentes no espaço urbano que surge a inteligência e conhecimento para promover mudanças reais e obter resultados. De forma que é preciso separar a figura do especialista ou gestor de projetos de Smartcity dos demais profissionais que participam ativamente dos projetos Smart e que são de outras áreas.

Um médico pode estar envolvido em um projeto de Smartcity da mesma forma que um advogado ou um funcionário público, pois todos formam parte da dinâmica da cidade e todos podem contribuir para a implementação de novos processos, desenvolver novas soluções, gerar sinergia com outras áreas, gerar inteligência. 

BID – Smartcities

Os setores nos quais se desenvolvem as ações dos projetos de Smartcity (E-government, E-Health, inovação, meio ambiente, energias renováveis, mobilidade etc.) contemplam essa multidisciplinaridade e dependem da mesma, de modo que todo profissional pode atuar em um projeto de Smartcity.

No caso daqueles que desejam atuar na gestão ou como especialista em projetos de Smartcity é fundamental reiterar a necessidade de uma visão global, multidisciplinar e integradora, além da capacidade de planejamento a longo prazo.

Mais do que formação, o profissional deve compreender as dinâmicas que existem na cidade, suas interações, reconhecer seu potencial, seus desafios, deve possuir ferramentas capazes de lhe colocar em contato com a inteligência gerada pelos atores e fatores próprios da cidade.

Cursos são importantes para lhe oferecer formação teórica sobre o assunto, além de lhe proporcionar ferramentas e metodologias científicas de análises quantitativas e qualitativas. Porém, a visão do implicado em relação a sua cidade e suas dinâmicas e processos é um fator chave nessa transformação derivada dos projetos de Smartcity, já que da mesma pende a diferenciação entre uma intervenção isolada e uma dinâmica inteligente que irá impactar em toda a cidade.

Projeto de ação Smartcity

O profissional interessado em projetos de Smartcity deve conhecer vários fatores, a citar: conhecer bem a economia da região analisada, suas dinâmicas (social, política, cultural), fatores externos e internos que impactam na mesma, dentre vários. Dessa forma, ele pode desenvolver a intervenção indicada, a qual pode ser um projeto de startup, uma parceria pública privada, um curso de formação, a criação de um cluster das empresas locais, a inovação de uma tramitação pública, a gestão de uma política pública ou de um projeto privado etc. Tudo depende do nível de participação e da área de atuação do mesmo. Caso seja um gestor, seu papel será justamente o de organizar, desenvolver e fomentar esses fluxos inovadores que existem ou que podem vir a existir.

Ao contrário do que muitos acreditam, os projetos de Smartcity não são projetos unicamente focados na política, inovação, tecnologia ou engenharia, mas projetos cuja multidisciplinaridade é fundamental. Não é um setor para especialistas exclusivos, mas sim para todos aqueles que saibam integrar, promover, estimular, criar um projeto funcional, transformando as dinâmicas de uma cidade em um processo inteligente.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Foto de Smartcity” (Fonte):

https://www.pexels.com/search/smart%20city/

Imagem 2BID Smartcities” (Fonte):

http://servicesaws.iadb.org/wmsfiles/images/0x0/-39723.jpg

Imagem 3Projeto de ação Smartcity” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Smart_City_Roadmap_by_Dr._Sam_Musa.jpg

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

A retirada dos EUA do Acordo de Paris

A preocupação em torno do aquecimento global, das mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável tem sido pauta da agenda de discussões de países, de diferentes organizações não governamentais e de grupos civis. Na contramão desse debate, Donald Trump, atual Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), já chegou a afirmar durante sua campanha eleitoral que o aquecimento global era uma farsa e que retiraria o país do Acordo para enfrentar as mudanças climáticas. Para o Presidente dos EUA, que são o segundo maior emissor de dióxido de carbono do mundo, atrás apenas da China, as leis ambientais reprimem o crescimento econômico, além de serem responsáveis pelo desemprego nos EUA. Assim, no último dia 1o de junho, Trump anunciou a retirada dos norte-americanos do Acordo de Paris.

Logo da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Fonte: Nações Unidas

Este Acordo é resultado dos trabalhos da 21ª Conferência das Partes (COP21), que ocorreu em Paris, entre novembro e dezembro de 2015. Ele foi aprovado pelos 195 países da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês). A UNFCCC foi adotada durante a Cúpula da Terra do Rio de Janeiro, em 1992, e entrou em vigor em março de 1994, quando foi ratificada pelos 196 Estados que constituíam as “Partes” da Convenção. A UNFCCC caracteriza-se por ser uma convenção universal de princípios, que reconhece a existência das mudanças climáticas antropogênicas – ou seja, que ocorrem em função da ação humana – e atribui maior responsabilidade no seu combate aos países industrializados. As decisões sobre a convenção são deliberadas anualmente pela COP.

Dessa forma, o Acordo de Paris é fruto de uma caminhada de discussões sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável. Ele tem por objetivo central o fortalecimento de uma resposta global à mudança climática, além de fomentar as capacidades dos Estados em enfrentar os impactos decorrentes dessas mudanças. Por meio do acordo climático, os países assumiram o compromisso de reduzir as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), no contexto do desenvolvimento sustentável, a fim de manter a temperatura média global abaixo de 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, além de limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC. Para que esse objetivo seja alcançado, cada país desenvolveu seus próprios compromissos, a partir das chamadas Pretendidas Contribuições Nacionalmente Determinadas (INDC, na sigla em inglês). Desse modo, através do INDC cada Estado apresentou suas contribuições de redução de GEE, considerando seus próprios cenários sociais e econômicos. O Acordo de Paris entrou em vigor em novembro de 2016, quando se atingiu a segunda meta do acordo, o agrupamento de 55% das emissões de GEE, sendo que a primeira meta foi alcançada em setembro, quando 55 países que integram as Partes ratificaram o Acordo.

Em setembro de 2016, durante a reunião da cúpula do G20, grande otimismo tomou conta da comunidade internacional quando os líderes Barack Obama, então Presidente dos Estados Unidos, e Xi Jinping, Presidente da República Popular da China, anunciaram oficialmente que ratificariam o Tratado. A decisão dos dois Estados responsáveis por praticamente 38% das emissões de gases de efeito estufa era essencial para o fortalecimento do Acordo e à adesão dos demais países. Até metade de 2016, antes do anúncio das duas grandes potências mundiais, apenas 19 Estados haviam ratificado o Acordo e juntos contabilizavam cerca 0,18% das emissões globais, sendo a Noruega o único país desenvolvido a fazer parte desse grupo, já que a maioria eram pequenos países do Pacífico e do Caribe. Assim, os Estados Unidos haviam se comprometido a reduzir até 2025 as emissões de GEE entre 26% e 28%, em relação aos níveis de 2005. Enquanto que a China se comprometeu a aumentar, até 2020, em 20% a proporção de fontes de energias limpas no total de energia gerado no país.

Ex-Presidente dos EUA, Barack Obama. Fonte: Wikipedia

Naquela ocasião, Barack Obama, conforme destacou a DW, afirmou que “quando há vontade e ambição, e quando há países como China e EUA prontos para mostrar liderança e exemplo, é possível criar um mundo mais próspero. O então Presidente dos EUA reforçou ainda que “é o momento em que finalmente decidimos salvar o planeta. Esse otimismo também foi expressado por Ban Ki-Moon, então Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), conforme destacou nota da ONU Brasil: “o impulso global para que o Acordo de Paris entre em vigor em 2016 tem sido notável. O que antes parecia impensável agora não pode ser parado.  Ban Ki-Moon pediu ainda que “todos os governos e todos os setores da sociedade que implementem o Acordo na íntegra e tomem medidas urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, reforcem a resiliência do clima e apoiem os mais vulneráveis na adaptação aos impactos climáticos inevitáveis.

Em contrapartida, Donald Trump vê o Acordo de Paris como um entrave ao crescimento econômico dos Estados Unidos, pois prejudica, por exemplo, empresas de carvão, petróleo e manufatura. Ele chegou a afirmar, como ressaltou o Politico, que as mudanças climáticas são invenções dos chineses para reduzir as capacidades industriais dos EUA, além disso Trump acredita que os estudos apresentados por cientistas e organismos internacionais são extremistas. Esse posicionamento é apoiado por representantes do setor energético. Thomas Pyle, presidente da Aliança Energética Americana, como destacou a Reuters, argumenta que “permanecer no Tratado do Clima de Paris afetaria os esforços do governo Trump para proteger as famílias norte-americanos de regulações climáticas desnecessárias e pesadas”. 

No dia 31 de maio, alguns veículos internacionais, como Axios e Político, já antecipavam a decisão de Trump. Segundo a Axios, a dúvida pairava entre uma retirada formal que poderia levar aproximadamente três anos ou um rompimento com o Tratado da ONU, que seria mais rápido, mas, em contrapartida, mais radical. Essa apreensão que se disseminou no início da semana deve-se em parte às declarações de Trump ao longo do seu mandato, mas também à sua postura no último final de semana, quando participou da reunião da Cúpula do G7, na Sicília. Na ocasião, Trump não endossou o acordo climático e assinalou que necessitava de mais tempo para decidir. Enquanto que os demais países procuraram reiterar o compromisso de implementar o acordo global.

Na última quinta-feira, Trump oficializou a decisão de retirada e assinalou, segundo destacou a DW, que a sua administração interromperá todas as implantações do Acordo e os encargos econômicos draconianos ele impõe aos EUA. Como já mencionado, a decisão do Presidente já era esperada, em virtude da sua postura quanto as leis ambientais. Cabe lembrar, que em março deste ano (2017) o Governo Trump assinou um Decreto que deu fim ao Clean Power Plan, que era um plano de política ambiental estruturado pela administração de Obama, o qual determinava limites para emissões de dióxido de carbono para as usinas elétricas.

Alguns analistas apontam que a saída dos Estados Unidos do acordo climático poderá enfraquecer o pacto e induzir outros países a optar pela retirada, como já haviam ameaçado as Filipinas, antes mesmo da decisão de Trump. Segundo destacou Fred Krupp, presidente do Fundo de Defesa Ambiental, conforme apontou a DW, a eleição de Donald Trump alterou profundamente a paisagem em que se trabalhava. Isso porque, com a retirada dos EUA ficará mais difícil para países em desenvolvimento obter financiamento necessário para enfrentar as mudanças climáticas. Haja vista que o financiamento é um dos eixos basilares do acordo climático, pois possibilita limitar as emissões de dióxido de carbono e tornar suas economias mais resistentes aos efeitos das mudanças climáticas. Os Estados Unidos, por exemplo, transfeririam ao Fundo cerca de US$ 3 bilhões que seriam destinados aos países mais vulneráveis, que iriam somar-se no montante de 100 bilhões de dólares transferidos pelos países ricos anualmente.

Outro receio refere-se ao fato de que, se as empresas estadunidenses do setor de energia não forem obrigadas a adotar medidas para combater as mudanças climáticas, suas concorrentes estrangeiras também pressionarão seus países para não aderirem as medidas de restrições de emissões. Segundo destacou o Observatório do Clima, os impactos com a saída dos norte-americanos poderão ser imensos, uma vez que são um dos maiores emissores de GEE e também um dos principais financiadores do Fundo Verde do Clima. Segundo o Observatório, sem a maior potência mundial os países ficarão apenas na ambição coletiva de mudar o desfecho das mudanças. Isso porque a saída dos EUA acrescentará, segundo analistas, cerca de 3 bilhões de toneladas de CO2 emitidas na atmosfera anualmente, o que, por sua vez, implica no aumento da temperatura do planeta entre 0,1 e 0,3C até o final do século XXI. Portanto, com o afastamento dos norte-americanos os Estados que compõem o Acordo não conseguiriam manter a temperatura dentro da meta estipulada de 2º C.

Nesse aspecto, sem fundos necessários, os países que integram, por exemplo, o Vinte Vulneráveis (V20), como Nepal, Tuvalu, Bangladesh e Tanzânia, estarão ainda mais fragilizados para enfrentar efetivamente consequências das mudanças climáticas em suas sociedades. Em resposta à postura de Trump, alguns países têm reafirmado seu compromisso, a fim de assegurar a importância dos países em adotar medidas que possam contribuir para a redução das emissões, além de promover ações que foquem no desenvolvimento sustentável pautado nos objetivos da agenda 2030 das Nações Unidas. Estados como França, Alemanha, Itália e a China expressaram seu comprometimento com o Acordo de Paris. Empresas estadunidenses como Apple, Coca Cola e Tesla, também defenderam a relevância e a implementação do Acordo, e alguns Estados dos EUA, como Nova York e Califórnia, anunciaram que adotariam medidas para proteção ambiental. Por fim, cabe pontuar que a decisão de Trump não é definitiva, pois o processo de retirada pode levar em torno de quatro anos, assim, caso Donald Trump não seja reeleito, esse processo poderá ser revisto pelo próximo Presidente norte-americano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Photograph of the PresidentElect Donald Trump, ‘PE color.jpg posted to whitehouse.gov on 20 January and used in inauguration brochure prior to that” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_official_portrait.jpg

Imagem 2 Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática” (Fonte):

https://nacoesunidas.org/cop21/

Imagem 3 U.S. President Barack Obamas official photograph in the Oval Office on 6 December 2012” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Barack_Obama#/media/File:President_Barack_Obama.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalParadiplomacia

Smartcity II, a geração de projetos e de espaços inteligentes

No primeiro artigo sobre a série Smartcities analisamos as diferenças entre a prestação de serviços básicos e os processos inteligentes nos centros urbanos. Ao longo deste artigo o objetivo é observar a formulação de projetos e a implementação dos mesmos para a geração de novos espaços e processos inteligentes.

É importante ressaltar que embora a gestão pública seja um dos principais vetores na promoção e implementação das Smartcities, ela não é exclusiva e a iniciativa privada possui um importante papel no processo.

Dinâmicas Smart.

As empresas podem e devem participar da criação dos espaços inteligentes através da inovação e do desenvolvimento. O que não necessariamente indica a necessidade de aplicar elevados recursos em pesquisa, mas avaliar seus processos internos e promover uma reformulação dos mesmos, além de participar das transformações da cidade.

Cada centro urbano possui suas próprias dinâmicas e desafios, e as empresas inseridas nesse contexto não podem permanecer inertes, aguardando apenas as ações governamentais, mas devem participar na formulação de novas soluções e na transformação do meio.

As relações laborais e os processos produtivos também devem ser reformulados dentro de uma dinâmica inteligente e não somente como resposta a uma mudança na legislação. As empresas devem gerar valor não somente para seus produtos, mas também para o meio no qual operam, já que a competitividade global alcançou tal ponto que a especialização de uma região se transformou em um fator de competitividade e a integração dos diferentes setores promove polos ou clusters de cooperação local, onde o desenvolvimento de um dos atores influencia no resto.

Para gerar processos inteligentes é necessário contemplar a realidade e atuar sob a mesma de forma ativa. Por esse motivo as bases dos projetos de Smartcity vão além das políticas públicas e se concentram nas dinâmicas dos próprios espaços urbanos.

Sendo assim, a implementação desses projetos está sujeita a:

– Conhecer as dinâmicas sociais e econômicas do espaço urbano;

– Detectar os desafios e problemas;

– Identificar o potencial dos diferentes atores;

– Estimular a reformulação e a inovação dos processos.

Mapa Smartcities.

Desse modo, um projeto de Smartcity não necessariamente significa um alto investimento público ou privado, mas sim uma reformulação da própria dinâmica das cidades e um conhecimento mais aprofundado dos seus processos, de modo que, ao alterar um deles, toda a dinâmica da cidade é afetada (Algo diferente do que acontece com intervenções isoladas, tais como os bairros e condomínios inteligentes, ou a instalação de serviços básicos em pontos determinados, por exemplo).

Tanto o setor público quanto o setor privado possuem um papel importante nesse processo, porém a base de toda essa transformação é o próprio conhecimento que cada um dos atores detém da cidade, ou seja, é a inteligência por detrás desses processos.

E desse modo, uma cidade pode ser inteligente sem necessariamente ser um polo de alta tecnologia, ou uma metrópole, mas sim um espaço urbano onde suas dinâmicas estão integradas e harmonizadas, direcionadas para o desenvolvimento. O setor público pode incentivar a interação dos diferentes atores do cenário urbano e promover estímulos, tais como o empreendedorismo ou parcerias; já o setor privado pode promover a colaboração, novas demandas e novos processos para a cidade. A verdadeira inteligência surge da interação dos atores urbanos e não da ação isolada de um deles.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Processos inteligentes” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/44/Creative_and_Smart_City.jpg

Imagem 2 Dinâmicas Smart” (Fonte):

http://2.bp.blogspot.com/-e1xqVy7XHT8/VZ03eyqvIzI/AAAAAAAADik/zQHpfowa3mo/s320/smart%2Bcity%2B8%2Bparameters.jpg

Imagem 3 Mapa Smartcities” (Fonte):

http://icity.hccg.gov.tw/userfiles/2300/images/icf.jpg