ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]O Papa Francisco na Armênia: Servo do Evangelho, Mensageiro da Paz[:]

[:pt]

Após São João Paulo II ter visitado a Armênia, entre 25 e 27 de setembro de 2001, o Papa Francisco se deslocou àquele país, entre 24 e 26 de junho passado, em sua 14.ª viagem apostólica internacional, intitulada “Visita ao primeiro país cristão”. A presença do Vigário de Cristo naquela República da Ásia Menor, com uma área de 28.203 km2, hoje com 3.017.712 habitantes[1] e 1 milhão de cidadãos vivendo na diáspora, se deveu a um convite de Karekin II, Patriarca e Catholicos de Todos os Armênios[2], das autoridades políticas e da Igreja Católica.

Nesta oportunidade, o Papa desejou sublinhar, no país do Cáucaso, o primeiro a acolher o cristianismo como religião oficial, em 301 d. C., como resultado da obra de evangelização de São Gregório, o Iluminador, a profunda fé, o desejo de paz e os sofrimentos daquele povo. No dia 22, o Papa enviou uma mensagem ao povo armênio, na qual destacou: “A história e as vicissitudes de seu povo amado causam em mim admiração e dor. Admiração porque vocês encontraram na cruz de Jesus e em sua inteligência a força de se reerguer sempre, até mesmo dos sofrimentos que estão entre os mais terríveis que a humanidade recorda. A dor pelas tragédias que os seus pais viveram em sua carne”.

No dia 25, o Papa visitou, em Yerevan, a capital armênia, o Memorial dedicado às vítimas do “Metz Yeghern”, ou “Grande Carnificina[3], local onde prestou homenagem aos mortos no Massacre dos Armênios. Outrossim, a posição de Francisco foi afirmada, pela primeira vez, em 12 de abril de 2015, quando presidiu, na Basílica de São Pedro, ao lado do Catholicos Karekin II, Bispos e fiéis de toda a diáspora, a uma missa para os fiéis do Rito Armênio, evocativa do centenário do Grande Massacre. Na altura, aquele evento trágico foi qualificado, por Francisco, como um enorme e louco extermínio.

Na Armênia, após ter depositado uma coroa de flores no Memorial de Tzitzernakaberd, construído em 1967, durante a era soviética, o Papa rezou longamente, em especial, durante uma oração ecumênica realizada em memória das vítimas do Massacre dos Armênios. Num derradeiro momento significativo durante esta cerimônia, Francisco se encontrou com 10 descendentes de alguns dos 400 refugiados armênios que foram acolhidos no Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, na década de 1920, durante o Pontificado de Bento XV.

No final do dia, no Encontro Ecumênico e Oração pela Paz, que reuniu católicos e ortodoxos na Praça da República, em Yerevan, o Papa ressaltou: “Como são grandes, hoje, os obstáculos no caminho da paz, e trágicas as consequências das guerras! Penso nas populações forçadas a abandonar tudo, especialmente no Médio Oriente onde muitos dos nossos irmãos e irmãs sofrem violências e perseguição por causa do ódio e de conflitos sempre fomentados pelo flagelo da proliferação e do comércio de armas, pela tentação de recorrer à força e pela falta de respeito pela pessoa humana, especialmente os vulneráveis, os pobres e aqueles que pedem apenas uma vida digna”.

Ao finalizar a visita à Armênia, antes da oração proferida no Mosteiro de Khor Virap, o Papa Francisco e Sua Santidade Karekin II assinaram uma declaração conjunta na Santa Etchmiadzin, centro espiritual de Todos os Arménios. O documento assinado pelos dois dignitários religiosos tem, como linha norteadora, em termos políticos e sociais, o alcance que o problema dos refugiados possui, hoje em dia: “Estamos a ser testemunhas duma tragédia imensa que se desenrola diante dos nossos olhos: inúmeras pessoas inocentes que são mortas, deslocadas ou forçadas a um exílio doloroso e incerto devido a contínuos conflitos por motivos étnicos, económicos, políticos e religiosos no Médio Oriente e noutras partes do mundo”. Daqui decorre uma realidade com profundas implicações religiosas, sobretudo para as minorias que se tornaram “alvo de perseguição e tratamento cruel, a ponto de o sofrimento por uma crença religiosa se tornar uma realidade diária. Os mártires pertencem a todas as Igrejas e o seu sofrimento é um ‘ecumenismo de sangue’ que transcende as divisões históricas entre os cristãos, convidando-nos a todos a promover a unidade visível dos discípulos de Cristo”. No entanto, apesar dos esforços da comunidade internacional levados a cabo no sentido da proteção das minorias étnicas e religiosas, Francisco e Karekin II assinalaram o escasso alcance de tais iniciativas: “Insistimos que é necessário muito mais, por parte dos líderes políticos e da comunidade internacional, em ordem a garantir o direito de todos a viver em paz e segurança, para defender o estado de direito, proteger as minorias religiosas e étnicas, combater o tráfico de seres humanos e o contrabando”.

Antes de finalizar sua visita à Armênia, o Papa esteve no Mosteiro de Khor Virap, um dos lugares sagrados da Igreja armênia, situado aos pés do Monte Ararat. No Mosteiro, um dos símbolos nacionais do país, o Sumo Pontífice rezou ante o “Poço de São Gregório”, local onde, durante 13 anos, São Gregório, o Iluminador, permaneceu encarcerado por ordem do Rei Tirídates III, um feroz perseguidor dos cristãos que, mais tarde, se converteu àquela confissão religiosa.

Se, no dia 24, o Sumo Pontífice referiu o Genocídio dos Armênios durante o encontro com as autoridades civis e o Corpo Diplomático, no dia seguinte ele apelou à reconciliação entre a Armênia e a Turquia, assim como à solução do problema do enclave armênio de Nagorno-Karabakh, no Arzebaijão, negando, assim, a “força ilusória da vingança”. Entrementes, na entrevista coletiva concedida durante o voo de regresso a Roma, Francisco voltou a abordar o tema do genocídio de 1915. Ele disse: “Eu sempre falei dos três genocídios do século passado, sempre três. O primeiro, o arménio; depois, o de Hitler; e, por último, o de Estaline. Os três. Há outros menores. Houve um em África [Ruanda]. Mas, na órbita das duas Grandes Guerras, são estes três”.

Outra referência ao Genocídio dos Armênios se encontra, igualmente, na Declaração Conjunta assinada por Francisco e Karekin II. O Governo turco reagiu prontamente à utilização, por Francisco, da palavra “Genocídio”, tendo Nurettin Canlikli, o Vice-Primeiro Ministro turco, acusado o Papa de agir com “a mentalidade das Cruzadas”. Se manifestando em relação ao incidente, o Padre Frederico Lombardi, SJ, Porta-Voz do Vaticano, garantiu que “o Papa não está em nenhuma Cruzada. Ele não está tentando organizar guerras ou construir muros, mas ele quer construir pontes. Ele não disse uma palavra contra o povo turco”.

A Armênia, o 22.º país visitado pelo Papa Francisco desde sua eleição, foi a primeira etapa de uma visita mais ampla ao Cáucaso, visto que, em setembro, o Sumo Pontífice também visitará a Geórgia e o Azerbaijão. Esta viagem apostólica, marcada pela aproximação entre a Igreja Católica e a Igreja Apostólica Armênia[4], constituiu “uma peregrinação marcada pelo ecumenismo e pelo esforço de Roma e Armênia em caminharem juntas à plena união”. Entrementes, a paz, o outro pilar desta visita papal, requer, segundo o Papa, “grande tenacidade e passos contínuos, começando pelos pequenos e devagar fazendo-os crescer, indo um ao encontro do outro. Por isso, o meu desejo é de que todos e cada um deem a sua contribuição para a paz e a reconciliação”. Contudo, este objetivo é tanto mais difícil de alcançar quanto uma Europa, atualmente epicentro de múltiplas crises, constitui o âmago de um malogro coletivo, com contornos ainda inimagináveis de intuir.

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ImagemO Papa Francisco e Karekin II, o Catholicos de Todos os Armênios, regam a árvore plantada na escultura de uma Arca de Noé durante um encontro ecumênico e oração pela paz na Praça da República, em Yerevan, em 25 de junho de 2016” (Fonte):

http://thepeninsulaqatar.com/images/Pope%20Francis%20and%20Catholicos%20of%20All%20Armenians%20Karekin%20II%20water%20a%20tree%20planted%20in%20a%20Noahs%20Ark%20sculpture%20during%20an%20ecumenical%20meeting%20and%20a%20prayer%20for%20peace%20in%20Republic%20Square%20Yerevan%20on%20June%2025%202016%20AFP%20TIZIAN.jpg

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Notas e Fontes bibliográficas:

[1] Ver:

United Nations, World Population Prospects: The 2015 Revision, s. l., Population Division – Department of Economic and Social Affairs, julho de 2015 [File POP/1-1: Total population (both sexes combined) by major area, region and country, annually for 1950-2100 (thousands)].

[2] O título Catholicos (em grego: Καθολικος; em latim: Catholicus) é inerente à autoridade máxima em algumas Igrejas orientais. No caso da Igreja Apostólica Armênia, o Catholicos é mais importante do que o Patriarca.

[3] Levado a cabo pelo Governo do Império Otomano, formado pelos Jovens Turcos, o Massacre Armênio, que teve início em 24 de abril de 1915, prolongou-se até 1923, tendo causado entre 800.000 e 1.500.000 mortos. A Turquia contesta os números apresentados pelos historiadores, negando que as mortes tenham sido sistematicamente orquestradas, constituindo, portanto, um massacre. O país também sustenta que, naquela ocasião, muitos muçulmanos turcos foram igualmente mortos.

[4] No caminho rumo à unidade, somos chamados a ter a coragem de deixar as nossas convicções rígidas e os interesses próprios, em nome do amor de Cristo”, afirmou Francisco ao finalizar sua viagem. No entanto, frisou o Papa,  a unidade entre católicos e apostólicos não é “submissão de um ao outro, nem absorção, mas um acolhimento de todos os dons que Deus deu a cada um

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAArtigo Convidado

[:pt]Pintora russa é uma ponte entre o Catolicismo e Ortodoxia: Chegar à compreensão através da arte[:ru]Через искусство к взаимопониманию. Русская художница - мост между католицизмом и православием [:en]Pintora russa é uma ponte entre o Catolicismo e Ortodoxia: Chegar à compreensão através da arte[:]

[:pt]

Por Larisa Zelentsova

Presidente da Aliança Internacional de projetos estratégicos dos BRICS

 

 

Natália Tsarkova é uma pintora misteriosa e pouco conhecida na sua pátria, a Rússia. Ela encontrou o seu lugar sob o sol em Roma. É a primeira mulher a receber o título de retratista oficial do Papa, ressaltando-se que ela é ortodoxa, por isso, o nível do respeito do Vaticano para com a russa é incrível.

Ela nunca teve problemas por não ser católica, pois isso não interferiu na forma como foi considerada e respeitada em sua arte. Ademais, como mencionou em algumas ocasiões, ela sempre sentiu a arte como o elemento de ligação que faltou nas relações entre as confissões e expressou tal consideração em sua atividade.

Nasceu em 1967, em Moscou. Estudou na Escola da Arte Krasnopresnenskaya, depois continuou no Liceu Acadêmico de Arte de Moscou. Ao mesmo tempo, entrou na Academia de Ilhia Glazunov e, estudando no curso de Glazunov, era a única mulher, mas distinguiu-se como a melhor estudante na turma de retrato. Atualmente, desde 1994, vive e trabalha em Roma.

No início, ninguém na Itália sabia o seu nome, mas, umas pinturas que ela levou consigo atraíram atenção dos italianos e imediatamente se dispersaram para as coleções privadas. Logo começaram a aparecer encomendas para retratos de aristocratas, políticos, artistas e italianos ricos. Porém, a verdadeira glória em sua carreira ocorreu depois de pintar dois retratos do Papa João Paulo II.

O Vaticano os reconheceu como as imagens oficiais do Pontífice. Assim, a artista russa Natália Tsarkova tornou-se única no mundo da pintura, pois teve o privilégio de pintar os retratos de três Papas: João Paulo I (subiu ao trono em 1978 e morreu 33 dias depois); João Paulo II (Pontificado de 1978 a 2005) e Bento XVI (Pontificado de 2005 a 2013). Agora, a artista está trabalhando em um retrato do Papa Francisco (Início do Pontificado em 19 de março de 2013).

Por uma coincidência incrível, o estúdio de Natália Tsarkova está localizado em um dos bairros mais “russos” de Roma, perto de praça Barberini. A dois passos fica a casa em que viveu Gógol (escritor realista russo – 1809/1852), quando trabalhou em “Almas Mortas”. Do outro lado da rua fica o apartamento de Karl Briullov, que pintou em Roma “Os Últimos Dias de Pompéia”. Da mesma forma, dois outros grandes nomes da arte russa também viveram perto de Barberini: Alexander Ivanov (pintor russo do neoclassicismo – 1806/1858) e Orestes Kiprensky (retratistas russo – 1782/1836).

O lugar central do estúdio dela, completamente decorado com pinturas, é dedicado a obra “A Última Ceia”. Este trabalho, no entanto, Natalia não quer vender, apesar das ofertas inúmeras de museus e colecionadores privados. É uma obra monumental, com dimensão de 2,20 x 1,50, que se tornou um marco no seu trabalho.

A Última Ceia por Natalia Tsarkova

A Última Ceia por Natalia Tsarkova

A pintura surpreende com a sua solução artística de um dos acontecimentos mais famosas no mundo religioso. A esta imagem da artista russa foi dada uma honra especial: sua primeira “Mostra” oficial foi realizada no refeitório de Santa Maria delle Grazie, em Milão, ao lado da obra famosa “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci. A primeira vez que a obra foi apresentada, no entanto, deu-se em Roma, antes da Páscoa, e foi abençoada como a mensagem de paz pelo Papa João Paulo II.

Na cerimônia em Milão, o tecido vermelho foi arrancado pela artista Tsarkova e pelo Curador da Biblioteca e dos Arquivos da Igreja Católica Romana, o cardeal George Maria Mejia, que foi ao Vaticano especialmente para isso. Depois, ele elogiou as virtudes do quadro e observou uma conexão espiritual entre os dois autores das versões de “A Última Ceia”: o grande Leonardo da Vinci e a mulher russa, Natália Tsarkova.

Na Itália, a pintura foi chamada “A Última Ceia do Terceiro Milênio”. No Afresco de Leonardo, Cristo olha para o pão, enquanto o Cristo dos outros pintores olha para o céu. Na pintura da Tsarkova, Cristo olha para o mundo, com um olhar triste, mas cheio de amor. Ele olha para cada um de nós! Ele olha dentro das nossas almas!

Tsarkova retratou a si mesma no canto esquerdo de quem olha para a pintura, como uma criada a olhar através da porta aberta. Isto é incompatível com os cânones tradicionais da “Ceia”, mas ela queria, assim, enfatizar a conexão da obra com os dias de hoje. Isto é o olhar do terceiro milênio.

Os papeis dos apóstolos foram desempenhados pelos amigos e conhecidos italianos de Natália. Por exemplo, a pessoa posando o Cristo é Peppi Morja, light-designer (designer de iluminação / desenhista de luz). Foi ele quem criou a iluminação para a Fonte de Trevi. Judas é o estilista Gillermo Mariotto. O advogado Vittore Cordella dou o seu perfil nobre e cabeça com cabelos grisalhos para St. André. São João foi representado pelo conde Andrea Marini. Filipe, pelo professor de arquitetura, o conde Dário del Bufalo. Os modelos para as imagens de Simão, Tadeu e Tomás foram, respectivamente, o Grão Prior da Ordem de Malta, Franz von Lobshtayn; o conde Romano del Forno e o príncipe Nicolo Borghese.

Em 2008, ela recebeu a encomenda para pintar o retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano. Esta pintura foi abençoada pelo Papa no Vaticano e foi colocada na igreja de Santa Maria del Mars, em Beirute, onde ficam as relíquias do Santo.

Retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano

Retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano

Como visto, Tsarkova não é apenas uma retratista, tendo sido requisitada para pintar imagens de Beatos e Santos e, entre as suas obras conhecidas deste tipo, o lugar muito significativo pertence ao retrato da freira missionária italiana Beata Assunta Marchetti. Ela contribuiu para a fundação da Organização das Irmãs Missionárias de São Charles Borromeo e suportou a obediência no Brasil, tendo sido beatificada em São Paulo, no dia 25 de outubro de 2014. Seu retrato está pendurado na Catedral de São Paulo. Ela é uma artista multilateral, que, além de retratar Papas e Santos, também retratou Chefes de Estado, famílias reais e temas bíblicos.

A expressão de Natália Tsarkova para a pintura russa e mundial demonstra como  a arte pode ser uma porta, uma janela, um elo entre culturas, sociedades, povos e líderes.

Suas pinturas têm uma energia profunda especial que não deixa ninguém indiferente. São um reflexo vivo da alma russa, sempre em busca de auto-expressão e da criação de pontes entre os povos do mundo.

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Para ler o artigo original em russo clique aqui

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Imagens (Fonte):

Fotos de Larisa Zelentsova e Natália Tsarkova

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Fonte Consultada:                                                                                                                    

Entrevista de Larisa Zelentsova, Presidente da Aliança Internacional de projetos estratégicos dos BRICS

[:ru]Лариса Зеленцова

Международный Альянс Стратегических Проектов БРИКС

 

Наталья Царькова – та самая таинственная и малоизвестная на Родине, в России, художница, которая нашла свое место под солнцем в солнечном Риме; первая женщина, удостоившаяся звания официального портретиста Папы Римского. А если учесть, что она православная, то степень уважения, оказанная Ватиканом русской художнице, поистине не имеет границ. Тот факт, что она не католичка, никогда не порождал проблем. Как замечает сама художница, она чувствовала, что через искусство она могла бы стать тем связующим звеном между православием и католицизмом, которого так давно не хватает этим двум конфессиям.

 

Родилась в Москве в 1967 году. Училась живописи в Краснопресненской художественной школе, потом в МСХШ при Институте им. Сурикова. Параллельно поступила в только что открывшуюся Академию Ильи Глазунова. На курсе у Глазунова она была единственной девочкой, лучшей по классу портрета. Живет и работает в Риме с 1994-го. Когда она впервые приехала в Италию, навестить подругу, ее имя не было известно никому. Несколько картин, которые она захватила с собой, быстро обратили на себя внимание итальянцев и моментально разошлись по частным коллекциям. Вскоре стали появляться заказы на портреты от аристократов, политиков, деятелей искусства и просто состоятельных итальянцев.

Но настоящая слава и взлет в карьере произошли после написания двух портретов  Папы Иоанна Павла II, которые Ватикан признал официальными изображениями римского понтифика. Так, русская художница, москвичка Наталья Царькова стала единственной  в мире живописи, которой удалось написать портреты трёх римских  пап: Иоанна Павла I (взошёл на престол в 1978 году и умер спустя 33 дня), Иоанна Павла II и  Бенедикта XVI. Сейчас художница работает над портретом Папы Франциска.

По удивительной случайности студия Натальи Царьковой находится в одном из самых “русских” кварталов Рима, возле площади Барберини. В двух шагах дом, в котором жил Гоголь и писал “Мертвые души”. Напротив, через дорогу, у “четырех фонтанов”, располагалась квартира  Карла Брюллова, написавшего в Риме “Последний день Помпеи”. Неподалеку от Барберини жили Александр Иванов и Орест Кипренский.

Центральное место в ее студии, сплошь увешанной картинами, отведено “Тайной вечери” – с этой работой Наталья пока не хочет расставаться, несмотря на многочисленные предложения от частных коллекционеров и музеев. Монументальное полотно, 220х150 см, стало еще одной заметной вехой в ее творчестве.

 

A Última Ceia por Natalia Tsarkova

A Última Ceia por Natalia Tsarkova – Тайной вечери

Картина поражает неожиданным ракурсом и художественным решением одного из самых  известных религиозных сюжетов. Этой картине российской художницы была оказана особая честь: ее первый официальный показ состоялся в трапезной Санта Мария Делла Грацие в Милане рядом с известным шедевром “Тайная вечеря” Леонардо да Винчи. Впервые картину Царьковой показали перед Пасхой в Риме, и ее, как послание мира, благословил сам Папа Римский Иоанн Павел II. На церемонии в Милане вместе с художницей пурпурное  покрывало с полотна сдернул специально приехавший  из Ватикана хранитель архивов и библиотеки Римско-католической церкви кардинал Джордже Мария  Мейа, который потом в пространной речи очень лестно отозвался о достоинствах картины и даже проследил духовную связь между авторами версий «Тайной вечери»  — от великого Леонардо до этой миниатюрной русской женщины Натальи Царьковой.

В Италии эту картину назвали «Тайной вечерей третьего тысячелетия». На фреске Леонардо да Винчи Христос смотрит на хлеб, у других авторов — на небо. На картине Царьковой Христос повернулся и смотрит на мир трагическим взглядом, с укором и в то же время с любовью, пониманием. Смотрит на каждого из нас. В душу.

В углу полотна в образе служанки она изобразила себя, смотрящую через приоткрытую дверь. Это несовместимо с традиционными канонами “Вечери”, но таким образом художница хотела подчеркнуть связь с днем сегодняшним. Это взгляд из 3-го тысячелетия.

В роли апостолов Наталья  решила изобразить своих итальянских друзей и знакомых. Например, человек, позировавший ей Христа, – это граф Пеппи Морджа, по профессии лайт-дизайнер. Это он создал подсветку для римского фонтана Треви и купола базилики Святого Петра. «Иуда» – стилист миланской моды Джилермо Мариотто; блистательный римский адвокат Витторе Корделла, благородный профиль и густая копна длинных седеющих волос которого представляют на картине св. Андрея Первозванного. Св. Иоанна Наталья писала с графа Андреа Марини, Филиппа — с профессора архитектуры графа Дарио дель Буфало. А моделями для образов Симона, Фаддея и Фомы послужили соответственно великий приор Мальтийского ордена Франц фон Лобштайн, граф Романо дель Форно и принц Николо Боргезе.

В 2008 году художнице, по случаю Канонизации Блаженного Отца Джакомо из Ливана, был заказан его официальный многофигурный портрет. Эта картина была благославлена Папой Римским в Ватикане и помещена в церкви Санта-Мария-дель-Марсе в Бейруте, где находятся мощи святого.

 

Retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano

Retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano (Официальный портрет – Блаженного Отца Джакомо из Ливана)

 

Царькова не просто портретист, она также пишет и лики святых. Среди ее известных работ подобного рода  весьма значимое место занимает портрет итальянской монахини-миссионерки Беаты Ассунты Марчетти (Beata Assunta Marchetti, 18711948), содействовавшей основанию организации сестер-миссионерок св. Карла Борромео, несшая послушание в Бразилии, была причислена к лику блаженных в СанПауло 25 октября 2014 года. Ее портрет висит в Соборе Сан-Паулу (Catedral da Sé) и почитается бразильцами как икона.

Наталья Царькова – художник многопрофильный и разносторонний. С одной стороны, она пишет портреты Пап и лики канонизированных святых, а с другой, – портреты первых лиц государства, королевские семьи и библейские сюжеты. Ее картины несут особую глубокую энергетику, которая не оставляет равнодушным ни одного созерцателя ее шедевров, которые являются ярким отражением и воплощением глубокой русской души, находящейся в вечном поиске самовыражения и наведении мостов между народами мира.

 

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Изображения (источник):

Фото Ларисы Зеленцова и Наталья Царькова

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Консультировались источник:

Интервью Лариса Зеленцова, президент Международного альянса БРИКС стратегических проектов.

Международный Альянс Стратегических Проектов БРИКС, автономная неправительственная организация, была зарегистрирована пятью учредителями стран БРИКС в России в феврале 2016 года. Ее целями являются:

  • Содействие реализации решений, принятых в рамках международной платформы БРИКС
  • Содействие сотрудничеству в экономическом росте и развитии путем объединения усилий представителей гражданского общества, бизнеса и власти стран БРИКС.
  • Продвижение социальной справедливости, устойчивого развития и повышения качества жизни в странах БРИКС.
  • Достижение прогресса путем развития образования и обмена передовыми гуманитарными, социальными и технологическими инновациями и знаниями в странах БРИКС
  • Налаживание контактов с другими межгосударственными союзами и объединениями, включая ШОС, ЕврАзЭС, МЕРКОСУР, СААРК, САДК и другие, членами которых являются страны-члены БРИКС.
  • Сотрудничество между регионами БРИКС для повышения эффективности дву- и многостороннего взаимодействия отдельных территорий государств-участников БРИКС в сфере экономического, торгового и социо-культурного сотрудничества.

 [:en]

Por Larisa Zelentsova

Presidente da Aliança Internacional de projetos estratégicos dos BRICS

 

 

Natália Tsarkova é uma pintora misteriosa e pouco conhecida na sua pátria, a Rússia. Ela encontrou o seu lugar sob o sol em Roma. É a primeira mulher a receber o título de retratista oficial do Papa, ressaltando-se que ela é ortodoxa, por isso, o nível do respeito do Vaticano para com a russa é incrível.

Ela nunca teve problemas por não ser católica, pois isso não interferiu na forma como foi considerada e respeitada em sua arte. Ademais, como mencionou em algumas ocasiões, ela sempre sentiu a arte como o elemento de ligação que faltou nas relações entre as confissões e expressou tal consideração em sua atividade.

Nasceu em 1967, em Moscou. Estudou na Escola da Arte Krasnopresnenskaya, depois continuou no Liceu Acadêmico de Arte de Moscou. Ao mesmo tempo, entrou na Academia de Ilhia Glazunov e, estudando no curso de Glazunov, era a única mulher, mas distinguiu-se como a melhor estudante na turma de retrato. Atualmente, desde 1994, vive e trabalha em Roma.

No início, ninguém na Itália sabia o seu nome, mas, umas pinturas que ela levou consigo atraíram atenção dos italianos e imediatamente se dispersaram para as coleções privadas. Logo começaram a aparecer encomendas para retratos de aristocratas, políticos, artistas e italianos ricos. Porém, a verdadeira glória em sua carreira ocorreu depois de pintar dois retratos do Papa João Paulo II.

O Vaticano os reconheceu como as imagens oficiais do Pontífice. Assim, a artista russa Natália Tsarkova tornou-se única no mundo da pintura, pois teve o privilégio de pintar os retratos de três Papas: João Paulo I (subiu ao trono em 1978 e morreu 33 dias depois); João Paulo II (Pontificado de 1978 a 2005) e Bento XVI (Pontificado de 2005 a 2013). Agora, a artista está trabalhando em um retrato do Papa Francisco (Início do Pontificado em 19 de março de 2013).

Por uma coincidência incrível, o estúdio de Natália Tsarkova está localizado em um dos bairros mais “russos” de Roma, perto de praça Barberini. A dois passos fica a casa em que viveu Gógol (escritor realista russo – 1809/1852), quando trabalhou em “Almas Mortas”. Do outro lado da rua fica o apartamento de Karl Briullov, que pintou em Roma “Os Últimos Dias de Pompéia”. Da mesma forma, dois outros grandes nomes da arte russa também viveram perto de Barberini: Alexander Ivanov (pintor russo do neoclassicismo – 1806/1858) e Orestes Kiprensky (retratistas russo – 1782/1836).

O lugar central do estúdio dela, completamente decorado com pinturas, é dedicado a obra “A Última Ceia”. Este trabalho, no entanto, Natalia não quer vender, apesar das ofertas inúmeras de museus e colecionadores privados. É uma obra monumental, com dimensão de 2,20 x 1,50, que se tornou um marco no seu trabalho.

A Última Ceia por Natalia Tsarkova

A Última Ceia por Natalia Tsarkova

A pintura surpreende com a sua solução artística de um dos acontecimentos mais famosas no mundo religioso. A esta imagem da artista russa foi dada uma honra especial: sua primeira “Mostra” oficial foi realizada no refeitório de Santa Maria delle Grazie, em Milão, ao lado da obra famosa “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci. A primeira vez que a obra foi apresentada, no entanto, deu-se em Roma, antes da Páscoa, e foi abençoada como a mensagem de paz pelo Papa João Paulo II.

Na cerimônia em Milão, o tecido vermelho foi arrancado pela artista Tsarkova e pelo Curador da Biblioteca e dos Arquivos da Igreja Católica Romana, o cardeal George Maria Mejia, que foi ao Vaticano especialmente para isso. Depois, ele elogiou as virtudes do quadro e observou uma conexão espiritual entre os dois autores das versões de “A Última Ceia”: o grande Leonardo da Vinci e a mulher russa, Natália Tsarkova.

Na Itália, a pintura foi chamada “A Última Ceia do Terceiro Milênio”. No Afresco de Leonardo, Cristo olha para o pão, enquanto o Cristo dos outros pintores olha para o céu. Na pintura da Tsarkova, Cristo olha para o mundo, com um olhar triste, mas cheio de amor. Ele olha para cada um de nós! Ele olha dentro das nossas almas!

Tsarkova retratou a si mesma no canto esquerdo de quem olha para a pintura, como uma criada a olhar através da porta aberta. Isto é incompatível com os cânones tradicionais da “Ceia”, mas ela queria, assim, enfatizar a conexão da obra com os dias de hoje. Isto é o olhar do terceiro milênio.

Os papeis dos apóstolos foram desempenhados pelos amigos e conhecidos italianos de Natália. Por exemplo, a pessoa posando o Cristo é Peppi Morja, light-designer (designer de iluminação / desenhista de luz). Foi ele quem criou a iluminação para a Fonte de Trevi. Judas é o estilista Gillermo Mariotto. O advogado Vittore Cordella dou o seu perfil nobre e cabeça com cabelos grisalhos para St. André. São João foi representado pelo conde Andrea Marini. Filipe, pelo professor de arquitetura, o conde Dário del Bufalo. Os modelos para as imagens de Simão, Tadeu e Tomás foram, respectivamente, o Grão Prior da Ordem de Malta, Franz von Lobshtayn; o conde Romano del Forno e o príncipe Nicolo Borghese.

Em 2008, ela recebeu a encomenda para pintar o retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano. Esta pintura foi abençoada pelo Papa no Vaticano e foi colocada na igreja de Santa Maria del Mars, em Beirute, onde ficam as relíquias do Santo.

Retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano

Retrato oficial do Beato Padre Giacomo do Líbano

Como visto, Tsarkova não é apenas uma retratista, tendo sido requisitada para pintar imagens de Beatos e Santos e, entre as suas obras conhecidas deste tipo, o lugar muito significativo pertence ao retrato da freira missionária italiana Beata Assunta Marchetti. Ela contribuiu para a fundação da Organização das Irmãs Missionárias de São Charles Borromeo e suportou a obediência no Brasil, tendo sido beatificada em São Paulo, no dia 25 de outubro de 2014. Seu retrato está pendurado na Catedral de São Paulo. Ela é uma artista multilateral, que, além de retratar Papas e Santos, também retratou Chefes de Estado, famílias reais e temas bíblicos.

A expressão de Natália Tsarkova para a pintura russa e mundial demonstra como  a arte pode ser uma porta, uma janela, um elo entre culturas, sociedades, povos e líderes.

Suas pinturas têm uma energia profunda especial que não deixa ninguém indiferente. São um reflexo vivo da alma russa, sempre em busca de auto-expressão e da criação de pontes entre os povos do mundo.

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Imagens (Fonte):

Fotos de Larisa Zelentsova e Natália Tsarkova

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Fonte Consultada:                                                                                                                    

Entrevista de Larisa Zelentsova, Presidente da Aliança Internacional de projetos estratégicos dos BRICS

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ANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISEUROPA

Brexit e os seus efeitos

Após uma acirrada disputa, o Reino Unido votou por sair da União Europeia em seu Referendum, realizado ontem, dia 23 de junho. Longe de ser uma decisão amplamente favorável, o resultado foi disputado voto a voto, havendo 51,9% dos votantes a favor da saída, frente a 48,1% que desejavam permanecer no Bloco Europeu.

Os efeitos da saída do Reino Unido foram amplamente debatidos dentro e fora da Europa, embora alguns resultados já são visíveis, como a queda do índice das principais bolsas de valores e a reação de outros partidos eurocépticos que já solicitam a realização de um Referendum semelhante na França, Holanda e Itália. Somente após um período maior de tempo, será possível avaliar o impacto total, tanto no Reino Unido como na União Europeia.

Ainda que desconhecido para muitos, a União Europeia possui um mecanismo estabelecido desde sua constituição que contempla a saída de um país membro do grupo. O Artigo 50 do Tratado da União Europeia estabelece que um país dissidente deva notificar ao Conselho Europeu sua decisão soberana de abandonar a União, havendo um período de até 2 anos de negociações, onde são analisados os deveres contraídos através de Tratados e Acordos, as relações futuras com o Bloco e seus integrantes, além de outras questões econômicas e jurídicas.

Dois fatores foram decisivos na discussão britânica, a questão econômica e as políticas migratórias.

O Reino Unido desde sua entrada na União Europeia manteve um status diferenciado em relação à circulação de pessoas – O país não participava no Tratado de Schegen – fato que durante muito tempo sofreu críticas dos demais países do Bloco por dificultar a sonhada integração total do continente. Nos últimos anos, transformou-se no destino de diversos jovens europeus vindos de economias em crise do resto do Bloco, tais como Espanha e Portugal, pressionando o já delicado equilíbrio fiscal e os serviços sociais. Por último, a União Europeia pressionava o Reino Unido em relação aos refugiados, tema que proporcionou força aos partidos de extrema direita.

Na área econômica o Reino Unido não integrava a Zona do Euro. A flexibilização dessa política ficou conhecida como “Europe a la carte, havendo outros Estados que também optaram por esse modelo. Além disso, o elevado grau de financeirização da economia britânica sempre lhe outorgou uma maior autonomia econômica em relação à Europa, o que por um lado pode ajudar o Reino Unido a se recuperar economicamente, mas, por outro, pode afetar suas empresas que se beneficiavam das vantagens de participar do Mercado Comum.

Outro tema discutido durante os debates prévios ao Referendum foi a segurança internacional e o combate anti-terrorismo. Perante essas duas questões não existe consenso, já que o Reino Unido participa da OTAN e possui um histórico considerável de participação no sistema global de segurança, mas por outro lado, ao não integrar a União Europeia, deverá negociar com a mesma as políticas usadas no combate ao terrorismo.

Não somente a União Europeia e o Reino Unido serão afetados pela separação. A economia europeia passa por um momento delicado e o alto grau de internacionalização da mesma, fará com que o impacto financeiro seja distribuído pelo globo. O fluxo produtivo de grandes multinacionais serão afetados, assim como o equilíbrio do mercado de consumo europeu e de países que dependiam da demanda britânica e vice-versa.

Perante esse panorama, e admitindo sua derrota, o primeiro-ministro David Cameron anunciou sua demissão e líderes de toda Europa temem um efeito cascada que leve o Bloco a uma total desintegração.

A União Europeia alcançou o auge da integração regional, nenhum outro Bloco conseguiu desenvolver um projeto semelhante, porém as assimetrias existentes no continente e outros fatores não contemplados durante sua criação, frutos da própria evolução do projeto, levaram-na a um ponto decisivo, onde ou a União Europeia se reformula, ou, aos poucos, os membros que buscam maior autonomia vão abandonar o barco.

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Imagem (Fonte):

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAOCEANIAPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rodrigo Duterte, O Adversário Filipino da Igreja Católica

Colônia de Espanha até o final do império ultramarino daquele país europeu, em 12 de junho de 1898[1], as Filipinas tiveram seu século XX marcado pela ocupação norte-americana, a ditadura de Ferdinando Marcos (1965-1986) e, também, as atividades terroristas do grupo insurgente Abu Sayyaf, ativo desde 1991. O país, atualmente com 100 milhões e 699 mil habitantes[2], onde oito em cada dez cidadãos possuem, como sua, a fé católica, tem a maior concentração de católicos de todo o continente asiático.

Nascido em 1945, Rodrigo Duterte é um advogado e político filipino que, ao longo dos últimos 22 anos, serviu como Prefeito de Davao, a terceira maior cidade do país, na ilha de Mindanao, onde se popularizou por suas políticas implacáveis em relação a criminosos, traficantes de droga e outros fora-da-lei. Acredita-se que Duterte esteve envolvido em centenas de execuções extrajudiciais de elementos socialmente indesejados. Posicionado contra a elite que governou o país ao longo das últimas três décadas, o líder filipino, popularmente conhecido através do apelido Digong[3], foi eleito, no dia 9 de maio, Presidente do país, na sequência de uma campanha eleitoral repleta de provocações. Em seu último comício, Duterte asseverou: “Esqueçam as leis sobre os direitos humanos”; “Se for eleito Presidente, farei exatamente o que fiz como Prefeito. Vocês, traficantes, assaltantes e canalhas, seria melhor que fossem embora, porque vou matá-los”.

Também conhecido, entre seus concidadãos, como o Justiceiro[4], Duterte protagonizou uma campanha eleitoral em que o grande adversário foi, não os opositores políticos – Mar Roxas e Grace Poe –, mas sim a Igreja Católica, que o acusa de ser mulherengo. Em 30 de novembro do ano passado, num discurso proferido na qualidade de candidato do partido PDP-Laban às eleições presidenciais de 2016, Rodrigo Duterte amaldiçoou o Papa Francisco devido ao fato de, durante a viagem apostólica do Sumo Pontífice às Filipinas, em janeiro de 2015, ele ter ficado retido no trânsito de Manila. Aludindo ao incidente protagonizado por Duterte, o Arcebispo Dom Socrates Villegas, Presidente da Conferência dos Bispos Católicos das Filipinas (CBCP), declarou que a “vulgaridade é a corrupção”, tendo lamentado que as pessoas se tornem “brutais e bárbaras”, ainda que achem engraçadas declarações como as de Digong. O Arcebispo sublinhou que, “quando um homem reverenciado, amado e admirado, como o Papa Francisco, é amaldiçoado por um candidato político e o público ri, somente posso curvar minha cabeça e lamentar envergonhado. Meus compatriotas foram até à última gota” no plano da dignidade, referiu o Prelado. Alguns meses mais tarde, o Papa recebeu, com aparente cordialidade, uma carta de Duterte, que foi respondida pelo Arcebispo Dom Giovanni Angelo Becciu – o substituto do alto funcionário para os Assuntos Internos do Vaticano – que, com a missiva, colocou ponto final no desaguisado[5].

Na sequência da desaprovação de sua candidatura, pela CBCP, Duterte, no campus da Universidade das Filipinas, em Iloilo City, retomou seus ataques à Igreja Católica. No dia 18 de abril, se dirigindo aos fiéis católicos, ele garantiu “a todos os católicos romanos: escutem o vosso Bispo. Não votem em mim ou vocês irão para o inferno”. Digong fez a observação um dia depois de Dom Socrates Villegas ter publicado, em sua conta numa rede social, um vídeo do candidato presidencial, em que ele gracejava acerca do estupro coletivo de Jaqueline Hamil, uma missionária australiana que foi assassinada durante a tomada de reféns numa prisão de Davao, em 1989. Comentando o vídeo que motivou a polêmica, o Presidente da CBCP escreveu: “Julgue por si mesmo se esta é a escolha certa. Vou manter o meu julgamento pessoal para mim. Este vídeo pode ajudar”. Por outro lado, o Arcebispo de Cebu, Dom Jose Palma, referiu aos repórteres, em 18 de abril: “Quando elegemos alguém, nós esperamos que eles sirvam mas, ao mesmo tempo, eles também devem se relacionar com outras pessoas de muitas partes do mundo”. Palma aproveitou para inquirir: “E se esse tipo de brincadeira se espalhar para pessoas de diferentes partes do mundo? Podemos nos sentir à vontade com esse tipo de pessoa?”.

Rodrigo Duterte é adepto do planejamento familiar, opção que contribui para o colocar em rota de colisão com a Igreja Católica. Falando aos jornalistas, Digong afirmou que, se nas Filipinas, “o programa de planejamento do Governo não avança, isso se deve ao fato de os líderes do país sempre se reportarem à Igreja Católica”. Em contrapartida, no município de Davao, onde os contraceptivos são fornecidos gratuitamente, o planejamento familiar se encontra “vigorosamente implementado”. Para o país, destacou Duterte, o objetivo consiste na adoção de uma política de 3 filhos por família. Entrementes, naquela oportunidade, o Presidente eleito das Filipinas anunciou: “Eu sou cristão mas sou realista e nós temos que fazer algo quanto à superpopulação”. Tendo afirmado que poderia ofender os setores religiosos com suas asserções, Digong acentuou que “as crenças fundamentais já não conseguem resolver o problema de nosso país”, pelo que “eu tenho uma visão diferente; eu desafio a opinião ou a crença da Igreja”. Optando por uma hermenêutica literal da Bíblia, Duterte defende, portanto, que as ideias que constam no Antigo e no Novo Testamento foram “escritas há 2000 anos e não estão relacionadas, ou encontram relevância, com nossa sociedade”, pelo que, para o político, as posições do catolicismo já não são relevantes. Tendo, a respeito dos valores sagrados, uma vivência pós-moderna sustentada numa relação direta e individual com Deus, Duterte descartou, publicamente, o papel da religião naquela relação. Segundo ele, “a melhor coisa é preparar-se, apenas para rezar a Deus quando você está sozinho numa sala silenciosa”. Deste modo, acrescentou, “eu tenho essa fé profunda e duradoura em Deus. Mas isso não significa que você tenha que ter uma religião ou seguir alguém”. Num entendimento imanente, do mundo e da vida, Duterte considera não dar “muita importância para o espiritual; não vai ajudar, para dizer a verdade. Você deve se preocupar com o que você sofre, aqui neste planeta”, concluiu o político, para quem “a instituição mais hipócrita é a Igreja Católica”.

Digong, que será empossado no dia 30 de junho, revelou que pode vir a dissolver o Congresso, instalando um Governo revolucionário. Apelando à separação estrita entre a Igreja e o Estado, o mandato do novo Presidente das Filipinas não augura tempos pacíficos para a Igreja Católica. Com suas bravatas, Rodrigo Duterte se insere no lote mundial de políticos que, admitindo uma interpretação instrumental do mundo e da vida, assume o poder a partir de uma visão supra-partidária animada pelos chamados interesses nacionais. Para este grupo de políticos, emergente no século XXI, em que se inserem o próprio Duterte, Donald Trump, nos Estados Unidos, Marine Le Pen, em França, e Jair Bolsonaro, no Brasil, a prática política é encarada como sendo peculiar ao demônio de Laplace, situado além do terreno específico da realidade político-social[6]. Para eles, e seus adeptos, a realidade se situa além da consideração a ter para com a alteridade. Para eles, tal como nos modelos que os inspiram, denunciados pela História, o destino está traçado. Ele será o domínio do confronto, tanto mais acirrado quanto mais ele se materializar contra as instituições de referência numa sociedade, como é o caso da Igreja Católica, nas Filipinas.

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ImagemRodrigo Duterte” (Fonte):

http://asiapacific.anu.edu.au/newmandala/wp-content/uploads/2016/04/Duterte-large.jpg

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Notas e Fontes bibliográficas:

[1] Após a independência, as Filipinas ficaram sob domínio dos Estados Unidos, cujos cidadãos exploraram o comércio e cujos pastores protestantes asseguraram a manutenção dos centros educacionais. Somente em 4 de julho de 1946 o Governo norte-americano reconheceu a independência do país asiático.

[2] United Nations, World Population Prospects: The 2015 Revision, s. l., Population Division – Department of Economic and Social Affairs, julho de 2015 [File POP/1-1: Total population (both sexes combined) by major area, region and country, annually for 1950-2100 (thousands)].

[3] Diminutivo de Rodrigo, tal como Drigo, Digong é, nas Filipinas, a popularização afetuosa deste nome próprio.

[4] Criado pela Marvel Comics, o personagem Punisher – conhecido em Portugal e no Brasil como Justiceiro – é um anti-herói fictício da história em quadrinhos norte-americana. O Justiceiro, a partir da prática de assassinatos, raptos, extorsões, ameaças violentas e tortura, leva a cabo sua guerra solitária contra o crime, fazendo uso dos mais diversos materiais de guerra.

[5] Diz a carta: “Sua Santidade, o Papa Francisco, recebeu sua carta de 21 de janeiro de 2016, e pediu-me para responder em seu nome. Ele apreciou os sentimentos por si expressos. O Santo Padre oferece a garantia de orações para si, como invoca sobre vós as bênçãos divinas da sabedoria e da paz”.

[6] Aquilo que, em sua prática política, os novos políticos apregoam é, precisamente, a equidistância neutra relativamente às ideologias. No entanto, não é possível denunciar uma ideologia sem se fazer uso de outro paradigma ideológico.

A matriz do problema das ideologias faz com que elas sejam consideradas como parciais ou adequadas, e não como verdadeiras ou falsas. Por outro lado, contemporaneamente, não é possível a abordagem do fenômeno político-social sem se adotar um posicionamento ideológico, na medida em que qualquer ideologia nasce de nosso desejo grupal de tornar compreensível o mundo em que vivemos. Deste modo, entender a política desde a equidistância das paixões e desejos humanos equivale ao reviver do demônio de Pierre Simon Laplace, teorizado no Ensaio Filosófico acerca das Probabilidades, segundo o qual uma inteligência que, na posse de todas as variáveis que animam a Natureza, e a situação respectiva dos seres que a compõem, ditaria os rumos do futuro, negando, assim, a possibilidade do livre arbítrio.

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Grande Imã Ahmed Mohamed el-Tayeb pede o fim do Terrorismo em encontro com o Papa Francisco

Na manhã de segunda-feira, 23 de maio, o Papa Francisco recebeu, em sua biblioteca privada, o Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb, Grande Imã da Mesquita al-Azhar e Reitor da Universidade al-Azhar[1], no Cairo. O encontro entre ambos os líderes religiosos constituiu um passo no sentido da reaproximação do islamismo sunita e o catolicismo, após o anuviamento das relações entre as duas confissões monoteístas há alguns anos. Em 12 de setembro de 2006, intervindo num Encontro com os Representantes das Ciências, na Universidade de Ratisbona, o Papa Bento XVI citou o diálogo entre Manuel II Paleólogo, Imperador bizantino, e um erudito persa, mantido em Ankara, no Inverno de 1391. A evocação daquele colóquio, que disse respeito ao cristianismo, ao islã e ao problema da verdade em ambas as religiões, desagradou profundamente aos fiéis e dignitários islamitas[2]. Por outro lado, na sequência do atentado suicida de Alexandria, contra uma igreja cristã copta, em 1o de janeiro de 2011, que matou 23 pessoas, ferindo outras 97, Bento XVI exigiu maior proteção para os cristãos naquele país do Oriente Médio. Agora, cinco anos depois do congelamento do diálogo entre al-Azhar e o Vaticano, os líderes das duas instituições voltaram a se reunir após uma comitiva da Santa Sé ter visitado o Cairo no passado mês de fevereiro.

O Grande Imã foi acompanhado por uma delegação de alto nível, integrada pelo Dr. Abbas Shouman, Subsecretário de al-Azhar; Mahmaoud Hamdi Zakzouk, membro do Conselho de Eruditos da Universidade al-Azhar e Diretor do Centro para o Diálogo de al-Azhar; o Juiz Mohamed Mahmoud Abdel Salam, Conselheiro do Grande Imã; o Dr. Mohie Afifi Afifi Ahmed, Secretário-Geral da Academia para a Pesquisa Islâmica; o Embaixador Mahmoud Abdel Gawad, Conselheiro Diplomático do Grande Imã; Tamer Tawfik, Conselheiro, e Ahmad Alshourbagy, Segundo Secretário. Seguido pelo Embaixador da República Árabe do Egito junto da Santa Sé, Hatem Seif Elnasr, o el-Tayeb foi recebido e conduzido ao encontro com o Sumo Pontífice pelo Cardeal Jean-Louis Tauran, Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, e pelo Bispo Secretário daquele Conselho, Dom Miguel Ángel Ayuso Guixot. Tendo abraçado o Grande Imã, o Papa Francisco sublinhou, ao dirigente muçulmano, o fato de, por si só, “nosso encontro ser a mensagem”. A reunião entre os dois dignitários religiosos foi caracterizada pelo Padre Federico Lombardi, SJ, Porta-Voz da Santa Sé, como tendo decorrido numa atmosfera muito cordial. Ahmed Mohamed el-Tayeb e Francisco assinalaram que o encontro, que durou 30 Minutos, decorreu “no âmbito do diálogo entre a Igreja Católica e o Islã”.

Em meio às atribulações e à desagregação em que Oriente Médio atualmente se encontra mergulhado, Ahmed Mohamed el-Tayeb e Francisco lançaram um apelo global contra o fim do terrorismo. Mais tarde, na entrevista concedida à Rádio Vaticano e ao jornal L’Osservatore Romano, publicada no dia 24 de maio, o dia seguinte ao encontro com o Papa[3], o Xeique el-Tayeb começou por interpretar o vazio do ser humano no mundo atual. O Reitor da Universidade al-Azhar destacou o fato de que, “todas as filosofias e ideologias sociais modernas, que assumiram a liderança da humanidade longe da religião e longe do Paraíso, não conseguiram fazer o homem feliz ou levá-lo para longe das guerras e do derramamento de sangue”. Com efeito, de acordo com el-Tayeb, o ser humano submetido ao puro plano material, sem desejo de transcendência em sua vida, ou seja, o “homem sem religião constitui um perigo para seu irmão homem, e eu creio que as pessoas, agora, no século XXI, começaram a olhar em seu redor para procurar guias sábios que os conduzam ao rumo correto”.

Situado na análise da escalada da insurgência na região do mundo de onde é natural, o Oriente Médio, geograficamente localizado na confluência da África, Europa e Ásia, o Grande Imã afirmou: “Eu venho do Oriente Médio, onde eu vivo e eu sofro, juntamente com os outros, as consequências dos rios de sangue e cadáveres, e não há nenhuma razão lógica para esta catástrofe que estamos a viver de dia e de noite”. Reconhecendo a existência do terrorismo no seio de insurgentes que se reclamam de fiéis do Islã, el-Tayeb aproveitou a oportunidade para dizer que o Islã não tem nada que ver com este terrorismo, e isto se aplica aos Ulama[4] muçulmanos e aos cristãos e muçulmanos do Oriente”. Tal como asseverou o Xeique, “aqueles que matam muçulmanos, e também matam cristãos, não entenderam os textos do Islã ou intencionalmente, ou por negligência”.

O líder muçulmano fez, nesta ocasião, um apelo para o mundo inteiro “se unir e cerrar fileiras para enfrentar e pôr fim ao terrorismo”. Se o problema crescente do terrorismo for negligenciado, declarou Ahmed Mohamed el-Tayeb, então não será unicamente o Oriente que vai pagar um preço elevado, mas “tanto o Oriente quanto o Ocidente poderiam sofrer juntos, como já vimos”. Ao terminar o encontro com a Imprensa, ele deixou, aos ouvintes da Rádio Vaticano e aos leitores do L’Osservatore Romano, o seguinte desejo: “Eu expresso meus sinceros agradecimentos, meu apreço e esperança – que vou levar comigo – de trabalharmos em conjunto, muçulmanos e cristãos, al-Azhar e o Vaticano, para aliviar os seres humanos, onde quer que eles se encontrem, independentemente da sua religião e crença, salvando-os das guerras destrutivas, da pobreza, da ignorância e da doença”. Entrementes, na quarta-feira, 25 de maio, dois dias depois de o Estado Islâmico ter reivindicado dois ataques mortíferos levados a cabo na Síria, o Papa Francisco reforçou o desejo de paz do Grande Imã, apelando a Deus e a Nossa Senhora que convertam “o coração de quantos semeiam morte e destruição”. Durante a audiência semanal realizada na Praça São Pedro, o Papa rezou para que Deus conceda “o descanso eterno às vítimas e a consolação aos familiares” das pessoas que foram alvo do duplo atentado de Tartus e Jableh, Síria, que causou 145 mortos e mais de 200 feridos.

O Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb e o Papa Francisco se encontram entre as autoridades religiosas mundiais que estão cientes de que a violência que o mundo de hoje enfrenta não se solucionará com iniciativas regionais ou, sequer, nacionais. Ante a urgência de “unir e cerrar fileiras para enfrentar e pôr um fim ao terrorismo”, há a necessidade de se adotarem soluções que contemplem a Pátria Terra. Se, no entendimento do Grande Imã el-Tayeb, as “responsabilidades são pesadas e, ao mesmo tempo, graves”, atualmente estamos vivendo, a partir do contributo da máxima hierarquia islamita sunita e católica, um entendimento comum dos grandes problemas atuais que pressupõe a construção do diálogo, em lugar da promoção das barreiras do sectarismo e do confronto, em nome de Deus.

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ImagemXeique Ahmed Mohamed elTayeb e Papa Francisco, Cidade do Estado do Vaticano (23 de maio de 2016)” (Fonte):

http://cdn.guardian.ng/wp-content/uploads/2016/05/Pope-francis-and-Sheikh-Ahmed-al-Tayeb.jpg

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] A Universidade al-Azhar é um dos legados da dinastia Fatimida, que reinou na África do Norte, entre 909 e 1048, e no Egito, entre 969 e 1171. Anexa à Mesquita al-Azhar, a Universidade al-Azhar é a mais prestigiada instituição de Ensino Superior do islã sunita.

Criada como madrasa – escola corânica, ou centro de ensinamento islâmico – pelo Califa Al-Um’izz li-Din Allah, em 970/972, ela obteve o estatuto de Universidade em 1961. Cerca de 90.000 alunos estudam, atualmente, na Universidade al-Azhar.

[2] No sétimo colóquio (διάλεξις – controvérsia) publicado pelo Prof. [Theodore] Khoury, o imperador aborda o tema da jihād, da guerra santa. O imperador sabia seguramente que, na sura 2, 256, lê-se: ‘Nenhuma coação nas coisas de fé’. Esta é provavelmente uma das suras do período inicial – segundo uma parte dos peritos – quando o próprio Maomé se encontrava ainda sem poder e ameaçado. Naturalmente, sobre a guerra santa, o imperador conhecia também as disposições que se foram desenvolvendo posteriormente e se fixaram no Alcorão. Sem se deter em pormenores como a diferença de tratamento entre os que possuem o ‘Livro’ e os ‘incrédulos’, ele, de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável –, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: ‘Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava’. O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão ríspido, passa a explicar minuciosamente os motivos pelos quais não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. Diz ele: ‘Deus não se compraz com o sangue; não agir segundo a razão – ‘σὺν λόγω’ – é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar corretamente, e não da violência nem da ameaça…[ ’]”.

[3] O Xeique Ahmed Mohamed el-Tayeb teceu as seguintes considerações sobre o Papa Francisco, após a reunião que ambos mantiveram: “Este homem é um homem da paz, um homem que segue os ensinamentos do cristianismo, que é uma religião de amor e paz e, seguindo Sua Santidade, vimos que ele é um homem que respeita as outras religiões e mostra consideração para com seus seguidores; ele é um homem que consagrou sua vida a servir os pobres e os destituídos, e que assume a responsabilidade pelas pessoas, em geral; ele é um asceta, que renunciou aos prazeres efêmeros da vida mundana. Todas estas são qualidades que partilhamos com ele, e, portanto, queremos nos encontrar com este homem em ordem a trabalharmos juntos pela humanidade no vasto campo que nós temos em comum”.

[4] O Ulama – ou Ulema – é alguém versado na teoria e na prática das ciências do Islã. Ele é, na verdade, o mestre religioso das comunidades islamitas – teólogo (mutakallimun), jurisprudente (mufti), juiz (qadi), professor e religioso ao mais alto nível do Estado (shaikh al-Islām).

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Moshe Ya’alon renuncia e Lieberman é anunciado Ministro da Defesa de Israel

No último 20 de maio, em entrevista coletiva à imprensa, o então Ministro da Defesa israelense, Moshe Ya’alon, anunciou sua renúncia ao cargo e ao mandato no Parlamento. Sob o argumento de que o Governo de Israel está tomado “por elementos perigosos e extremistas, e que não é mais possível confiar no Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, o Ministro anunciou que “se retirava da vida política para um descanso”. Ele falou também sobre ética na política e disse “temer pelo futuro de Israel”. A saída de Ya’alon se dá em meio a manobras políticas do Primeiro-Ministro para ampliar sua coalizão de governo e depois de seu cargo ter sido oferecido a um rival de extrema direita, Avigdor Lieberman, do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu.

Ya’alon era considerado uma voz moderada no Governo, líder sênior do conservador partido Likud, mas, constantemente, suas declarações sobre o papel das Forças Armadas israelenses eram mais moderadas e entravam em choque com as de Netanyahu. Por exemplo, ele já vinha tendo divergências com o Primeiro-Ministro por ter estimulado os oficiais a sempre dizerem o que pensam, mesmo que suas declarações fossem contrárias às ideias de seus superiores ou dos dirigentes políticos.

A tensão entre os dois se acirrou nos últimos dias, quando Ya’alon defendeu o direito de um de seus funcionários expressar suas opiniões livremente sobre as Forças Armadas. Na ocasião, o General Yair Golan fez associações entre as últimas ações de Israel e eventos na Alemanha nazista.

Outro ponto de tensão ocorreu em março, quando um soldado israelense foi flagrado em um vídeo atirando na cabeça de um agressor palestino que já estava ferido e rendido em Hebron. Ya’alon defendeu que o soldado fosse processado por assassinato, por ter violado o código militar. No entanto, membros do Governo defenderam a ação do militar.

Segundo o agora Ex-Ministro, a maior parte da população de Israel é tolerante e almeja por uma sociedade liberal e democrática. “No entanto, para minha grande infelicidade, elementos extremistas e perigosos tomaram Israel e o partido Likud [governista], ameaçando a população”, reportou a Folha de São Paulo.

Ele afirmou em seu discurso de renúncia: “Recentemente, tive fortes discordâncias em assuntos morais e profissionais com o premiê, diversos ministros e membros do Knesset [Parlamento]. (…). Lutei com todas as minhas forças contra manifestações de extremismo, violência e racismo na sociedade israelense, que ameaçam sua solidez. (…). Infelizmente, políticos do país escolheram o caminho da incitação e segregação de partes da sociedade israelense, em vez de unificá-las e acolhê-las. É insuportável para mim que o cinismo e a ânsia pelo poder estejam nos dividindo… [expressando] preocupação honesta sobre o futuro da sociedade israelense e das próximas gerações”.

Na quarta-feira, 25 de maio, Netanyahu nomeou Avigdor Lieberman, que havia sido por duas vezes Ministro das Relações Exteriores. Ele é um antigo aliado do Premiê, mas não possui experiência militar, em forte contraste com as credenciais de Ya’alon. Fontes dão conta que o cargo já teria sido oferecido por Netanyahu, o que efetivamente teria causado a renúncia de Ya’alon, tendo havido especulações de que, se Lieberman se juntasse ao Governo, a Ya’alon seria oferecido o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Esta possibilidade foi efetivamente sepultada com seu pedido de renúncia do cargo, bem como de seu mandato no Parlamento, que aconteceu dois dias depois de Lieberman ter afirmado que seu partido ultradireitista, Yisrael Beiteinu, poderia entrar na coalização governamental do Likud, caso fossem cumpridas diversas exigências. Estas incluíam sua nomeação, reformas no plano de pensão e a defesa da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo. A medida era exigida como condição para que seu partido entrasse na coalizão governamental.

Diante do acontecido, o líder de um partido membro da coalizão, o Kulanu, já declarou que este se oporia a qualquer forma de legislação que permitisse tribunais, militares ou civis, estabelecerem sentença de morte. “É uma ideia inadequada de ambos os pontos de vista, moral e prático”, afirmou um alto funcionário do Partido.

De acordo com fontes do jornal israelense Haaretz, Palestinos acusados de crimes terroristas são julgados em tribunais militares israelenses, enquanto os judeus acusados de crimes semelhantes contra os palestinos geralmente são julgados em tribunais civis israelenses. Assim, a defesa feita por Lieberman da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo em cortes militares não se aplicaria a judeus condenados por terrorismo. Ressalte-se que Israel já possui a pena de morte em seus livros estatutários, mas esta só se aplica em casos de genocídio e a crimes contra a humanidade, tendo executado até hoje apenas o ex-oficial nazista Adolf Eichmann, condenado à forca, em 1962, por genocídio.

No momento, Netanyahu governa com a maioria mais apertada na história do Knesset (o Parlamento Israelense), com uma vantagem de um assento na instituição parlamentar de 120 membros. Com a entrada do partido Yisrael Beiteinu na coalizão, o Primeiro-Ministro expandirá a base de 61 assentos para 67. Netanyahu declarou procurar ampliar sua coalizão desde que foi empossado para seu quarto mandato, em março de 2015, acrescentando que a melhor coisa para o país é um Governo tão amplo quanto possível.

Lieberman é uma das figuras políticas mais controvertidas em Israel e a Oposição declarou que trazê-lo “ao governo levaria a políticas que estão à beira da loucura”, conforme disseminado pela Al Jazeera. No passado, ele já expressou sua descrença em relação a um acordo de paz com os palestinos, exigiu a derrubada do Hamas (grupo insurgente que governa a Faixa de Gaza), a derrocada da Autoridade Palestina e a transferência de palestinos que vivem em Israel para áreas ocupadas na Cisjordânia e Gaza. Ele, que mora em um assentamento na Cisjordânia ocupada, também pediu a anexação de assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada e assinou legislações controversas, como o “juramento de lealdade que seria exigido dos cidadãos de Israel para manterem sua cidadania.

Netanyahu declarou que, mesmo após a nomeação de Lieberman, o Governo irá se esforçar para retomar o processo de paz com os palestinos, com a ajuda de agentes regionais. Visando mostrar abertura e vontade de diálogo em meio às tensões que antecederam a renúncia de Ya’alon, em 17 de maio, o Primeiro-Ministro comentou com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi que “Israel está pronto para participar com o Egito e outros países árabes no avanço, tanto do processo diplomático como da estabilidade na região”. A Casa Branca respondeu à partida de Ya’alon dizendo que está ansiosa para trabalhar com o próximo Ministro da Defesa, acrescentando: “Nossos laços de amizade são inquebráveis, e nosso compromisso com a segurança de Israel permanece absoluto”.

Ya’alon era um político bastante popular e respeitado entre a população israelense e visto como figura moderada dentro do Likud. Foi cortejado assiduamente por Netanyahu em um esforço para transmitir uma imagem da liderança do Likud como responsável, motivada por valores e liberal. Ao longo dos anos, se tornou uma figura aceita e admirada do partido – ainda que, como ministro da Defesa, tenha supervisionado a guerra israelense de 51 dias em Gaza, em 2014, na qual mais de 2.000 palestinos foram mortos, um quarto dos quais eram crianças.

Críticos às recrudescidas políticas de Netanyahu questionam se o Primeiro-Ministro não estaria colocando suas próprias motivações pessoais à frente do interesse do Partido e da população israelense. “Em Israel, jogamos a política de jogo duro”, declarou Gadi Wolfsfeld, professor de comunicação política no Interdisciplinary Center. “Por outro lado, mesmo na escala de jogo duro, da política cínica, este foi um choque”. O negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, alertou que a nomeação de Lieberman para o cargo “resultaria em apartheid, racismo e extremismo religioso e político”.

Netanyahu assume uma grande aposta ao nomear Lieberman para chefia das Forças de Defesa Israelenses (IDF), porque a partida de Ya’alon do Likud, oficialmente, o torna um partido de extrema-direita, muito semelhante ao ultranacionalista HaBayit HaYehudi, presidido por Naftali Bennett. Moshe Ya’alon, Dan Meridor, o ministro das finanças Moshe Kahlon e Gideon Saar eram todos considerados figuras liberais, moderadas e imponentes do Likud. Na ausência desses membros principais – que deixaram o partido nos últimos anos – a liderança do Likud atual é em grande medida voltada para a extrema direita e para os colonos. Em outras palavras, o Likud está se tornando menos atraente para aqueles que se identificam com a chamada “direita soft”. Na verdade, Netanyahu disputará agora o mesmo conjunto de eleitores com Bennet e Liberman – a “direita hard-core”, os colonos e os radicais. Nas palavras de Mazal Mualem, colunista do Al-Monitor, Ya’alon é a “mais quente mercadoria política na prateleira da política centrista”. Em qualquer cenário, ele tem um forte apelo para a direita liberal que o Likud representou outrora.

Para alguns analistas, a nomeação de Lieberman e inclusão do Yisrael Beiteinu na base governista não podem ser vistos diretamente como um sinal de caminhar mais à direita. Netanyahu tem estado desesperado para encontrar uma maneira de ampliar sua coalizão, tendo até mesmo considerado um acordo com a oposição dita de centro-esquerda, a União Sionista, antes de finalmente se voltar para Lieberman.

Na prática, contudo, a sua adição ao Governo cimentaria ainda mais a natureza extremista da coalizão de Netanyahu e tornaria mais moroso o processo de paz com os palestinos. Uma nova Conferência, agendada para 3 de junho em Paris, reunirá chanceleres de 20 países, incluindo Egito, Arábia Saudita e Jordânia, sem os israelenses e palestinos presentes. Posteriormente, uma outra Conferência, a ser realizada no Outono europeu*, contará com a presença de israelenses e palestinos. O objetivo seria retomar as negociações que estão congeladas desde que uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos entrou em colapso, em abril de 2014.

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* No hemisfério sul, corresponde ao período da Primavera (final se setembro; outubro; novembro; até o final de dezembro).

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ImagemMoshe Yaalon anuncia sua renúncia do cargo de ministro da Defesa de Israel, em Tel Aviv, alegando crescimento do extremismo em Israel. O primeiroministro Benjamin Netanyahu alega que a demissão aconteceu porque o Yaalon foi convidado a participar do ministério das Relações Exteriores” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Moshe_Ya%27alon