ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a agenda de pesquisa em Relações Internacionais[:]

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Apesar do grande impacto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) nas agendas locais, nacionais e internacional, estranha-se a baixa quantidade de trabalhos acadêmicos em periódicos especializados em Relações Internacionais que tenham tratado do assunto. Além disso, o Brasil foi um país que se destacou no alcance dos objetivos, principalmente ponderando os esforços na integração das esferas subnacionais e no estímulo às boas práticas.

Considerando o tempo transcorrido desde o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e as inúmeras oportunidades de pesquisa em Relações Internacionais, mostra-se necessário observar os temas quentes da literatura internacional sobre os objetivos, assim como possíveis desenhos de pesquisa.

O primeiro objetivo – e o mais desafiador – consiste em erradicar a pobreza. O tema, considerado o mais transversal entre os 17 ODS, carrega infinitas possibilidades de estudos no campo das Relações Internacionais, em termos qualitativo e quantitativo. No âmbito qualitativo, há possibilidades de avaliar comparativamente as estratégias nacionais de redução da pobreza, o peso de países como Brasil, Índia e China na diminuição da pobreza mundial, as diferentes estratégias lançadas por instituições financeiras internacionais tradicionais (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Bancos Regionais) e as instituições de países emergentes (ex: BNDES, Novo Banco de Desenvolvimento).

No universo dos estudos de caso, a China possui um dos eventos mais emblemáticos, considerando que, entre 1981 e 2005, o país foi responsável por 98% da pobreza global, considerando-se a linha da pobreza a situação de viver com US$ 1 por dia. De acordo com Andy Sumner, a própria discussão sobre a pobreza global tem sofrido alterações nos últimos anos, pois a maioria da população mais pobre no mundo não vive mais em países pobres, mas em países de renda média. Isso ocorre em função das melhores condições de vidas em países emergentes, mas que não implicaram na devida distribuição da renda.

Para os adeptos das análises quantitativas, os dados e as metodologias tem tornado as análises de regressões mais robustas, assim como as variedades de indicadores. Os indicadores podem ser até os mais simples, como é o caso do P0 (headcount index) – que busca mensurar a proporção da população classificada como pobre. Vale destacar também a estreita relação existente entre os estudos sobre pobreza e sobre desigualdade. Dessa forma, o ODS 10 trata especificamente da redução das desigualdades dentro dos países e entre eles.

Entre os indicadores, surgem também o ratio para compreender a diferença de renda ou de gastos entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, o índice de Palma – que destaca o ratio entre os 10% mais ricos e os 40% mais pobres, o Coeficiente de Gini – que representa numericamente o grau de equidade de uma sociedade, além de outros.

Em questões de direitos humanos, assim como os direitos mais específicos, como o direito humano à alimentação adequada, à saúde, à educação e à igualdade de gênero, os ODS também promovem inúmeras interfaces para estudos comparados e estudos de casos nas Relações Internacionais, mediante os ODS 2 (fome zero e agricultura), ODS 3 (saúde e bem estar), ODS 4 (educação de qualidade), ODS 5 (igualdade de gênero) e do ODS 16 (paz, justiça e instituições eficazes).

Em alguns temas, o Governo brasileiro está relativamente à frente dos demais, permitindo a elaboração de estudos focados na transferência e/ou difusão de políticas brasileiras mediante o emprego da Cooperação Sul-Sul. Em outros temas, como naqueles voltados para o meio ambiente, o Brasil ainda possui muitos desafios, desde o processamento de dados até à implementação de políticas. Dessa forma, abre-se espaços para estudos sobre o papel das boas práticas internacionais sendo incorporadas e/ou adaptadas à realidade brasileira, assim como nas iniciativas internacionais, tais como no Fundo Amazônia (Brasil e Noruega) e no Áreas Protegidas da Amazônia (Brasil e Alemanha), ambas relacionadas à defesa dos ecossistemas terrestres (ODS 15). Em outros casos, os estudos voltados para o desenho institucional em perspectiva comparada podem traçar as estratégias brasileiras e de outros países em temas como mudança climática (ODS 13), governança dos oceanos e vida na água (ODS 14).

Sob o guarda-chuva da Nova Agenda Urbana, aprovada na Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável, faz-se possível também avaliar as estratégias locais das grandes metrópoles mundiais em questões relacionadas à sustentabilidade e urbanização, mediante a análise dos ODS 6 (gestão de recursos hídricos), ODS 7 (acesso à energia), ODS 8 (crescimento sustentável e inclusivo), ODS 9 (infraestrutura resiliente) e ODS 11 (cidades e comunidades sustentáveis).

Por fim, o ODS 17 (parcerias e meios de implementação) traz a agenda mais diretamente relacionada às Relações Internacionais, com discussões que envolvem o financiamento do desenvolvimento, o papel da ajuda externa e da cooperação para o desenvolvimento, a sustentabilidade da dívida de longo prazo dos países, os regimes internacionais a favor da promoção de investimentos, a melhoria das atuais modalidades de cooperação, a difusão de tecnologias, a efetividade das políticas, a promoção dos fóruns multilaterais para ampliar o comércio global, entre outros. No caminho da Agenda 2030, já há discussões sobre os instrumentos de monitoramento e avaliação da cooperação brasileira, em perspectiva comparada.

Enfim, há possibilidade de estreitar os grandes temas em torno dos ODS com os estudos em Relações Internacionais no Brasil. Considerando o sucesso nacional dos ODM e a possibilidade de realizar estudos em perspectiva comparada, acredita-se que há um grande potencial para incorporar a interdisciplinaridade inerente às Relações Internacionais (a economia, a política, o direito e a antropologia) nos estudos sobre Agenda 2030. Tal atividade é importante, pois gera resultados na prática das relações internacionais, uma vez que cria possíveis orientações para a formulação de políticas públicas.

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Imagem 1 Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” (Fonte):

http://www.itamaraty.gov.br/images/ed_desenvsust/objetivos_port.png

Imagem 2 A redução da pobreza é um dos eixos da agenda de desenvolvimento pós2015. Crianças na favela de Kallayanpur, uma das favelas urbanas em Daca, Bangladesh” (Fonte Foto: ONU/Kibae Par):

https://nacoesunidas.org/pos2015/

Imagem 3 Desigualdade de renda no mundo medida pelo Coeficiente de Gini de acordo com dados do Banco Mundial (2014)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Coeficiente_de_Gini#/media/File:2014_Gini_Index_World_Map,_income_inequality_distribution_by_country_per_World_Bank.svg

Imagem 4 Relatório Anual de Atividades do Fundo Amazônia 2015” (Fonte):

http://www.fundoamazonia.gov.br/FundoAmazonia/fam/site_pt

Imagem 5 Conferencia sobre Vivienda y Desarrollo Urbano Sostenible Hábitat III” (Fonte Foto:amvapmg.org.br):

http://www.larepublica.ec/blog/economia/2016/08/05/gobierno-ultima-preparativos-conferencia-habitat-iii/

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ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]Dilemas políticos e econômicos povoam o ano de 2017 em Moçambique[:]

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No horizonte que se desenha em 2017, despontam obstáculos à estabilidade social em Moçambique. Principalmente de natureza política e econômica, tais obstáculos trazem consigo um cenário de insegurança quanto à conjuntura moçambicana, minando a confiança dos agentes econômicos e, com isso, a taxa de investimento e crescimento da economia.

Os “níveis de desenvolvimento” almejados pelo Estado e pelos formuladores de políticas públicas, que incluem no planejamento uma mudança gradativa de uma economia primária para uma economia industrial, permanecerão imutáveis enquanto dois pontos específicos não forem resolvidos em 2017. O primeiro deles é o problema da crise política que se instaurou no país entre os dois maiores Partidos políticos. O segundo é o problema da dívida pública e da fuga de capitais dela decorrente.

Crise Política. A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), partido governista, e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) têm uma história de relações tensas. Entre 1976 e 1992, os braços armados de ambos os grupos travaram uma sangrenta guerra civil, quando mais de um milhão de moçambicanos foram mortos. Desde o fim do conflito, as tensões entre ambos os grupos passaram a ser meramente políticas. No entanto, a partir de 2015, a memória dos conflitos voltou a protagonizar na mente dos moçambicanos.

Reivindicando uma maior participação de partidos da oposição nos principais organismos públicos do país, bem como o direito da RENAMO de governar seis províncias após as eleições de 2014, Afonso Dhlakama, líder do Partido, instalou uma base militar de treinamento de veteranos da guerra civil em Gorongosa, ainda em 2012. Foi a partir deste episódio que a temperatura voltou a crescer entre os dois principais Partidos do país, e os embates alternaram-se com ações físicas, violência e mortes. A morte de Manuel Bissopo, antigo Secretário Geral da RENAMO, em janeiro de 2016, marcou o ponto alto do confronto.

A evolução dos conflitos, os quais se concentram principalmente na parcela norte e central do país, vêm incentivando a migração de moçambicanos às nações adjacentes. O Malauí, por exemplo, tem sido o principal destino de pessoas afetadas pelos choques entre os braços armados dos partidos. Ao todo, somente no ano de 2016, 15 mil moçambicanos migraram para o Malauí e para o Zimbábue em busca de melhores condições de vida.

Com vistas a atenuar a situação, organismos internacionais, como a União Europeia, vêm atuando em conjunto com os partidos para a resolução do problema. No início deste mês, a RENAMO anunciou uma trégua de dois meses, a fim de melhor discutir com o presidente Filipe Nyusi uma solução política para o conflito. O anúncio traz consigo a esperança da população e de analistas quanto ao fim do embate e o retorno da estabilidade política no país. Entretanto, diálogos anteriores entre as duas partes não foram exitosos em pôr fim às mortes – cujo número total ainda não foi publicado oficialmente –, o que incita cautela quanto à significância desta trégua.

A dívida pública. Ainda que os dados oficiais para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) moçambicano para o ano de 2016 sejam desconhecidos, pode-se esperar um valor significativamente menor, se comparado aos anos anteriores. Isto porque o indicador trimestral referente ao período de junho a agosto de 2016, o qual apresentou uma expansão de 3,7% do PIB, foi o menor para o período nos últimos dez anos.

Expressivas dívidas contraídas pelo Estado moçambicano foram desveladas em abril do ano passado (2016), totalizando uma dívida de, aproximadamente, 1,4 bilhão de dólares. O episódio, ocultado deliberadamente pelo Governo, conforme argumentam os organismos financeiros internacionais, minou a confiança entre investidores externos quanto à capacidade de o Estado arcar com o pagamento de suas dívidas. Um dos principais resultados desta crise de confiança foi a expressiva depreciação do valor dos títulos públicos moçambicanos, os quais, a fim de manterem a sua atratividade, tiveram de ter a taxa de retorno incrementada: no dia 10 de janeiro deste ano (2017), os juros dos títulos da dívida moçambicana com vencimento em 2023 bateram o recorde histórico, atingindo uma taxa de retorno anual de 26%.

A gradativa expansão da taxa de juros dos títulos moçambicanos apresenta-se como uma antecipação dos próprios investidores a um possível rebaixamento do grading moçambicano por parte das principais agências classificadoras de risco. No início deste mês (janeiro de 2017), a Moody’s anunciou que Moçambique está entre os países africanos que mais sofrerão com problemas de liquidez neste ano, o que indica que a qualquer momento a organização pode reduzir a sua nota quanto à capacidade de solvência do Governo moçambicano.

Essa conjuntura econômica incitou uma abrupta fuga de capitais do país ao longo do ano passado, causando uma profunda desvalorização do metical (moeda local). Se compararmos o câmbio metical/dólar de 31 de dezembro de 2016 com o valor de 1° de janeiro de 2016 veremos uma desvalorização total de, aproximadamente, 55%, uma das maiores entre as nações do globo Sul. Como resultado direto da desvalorização do metical, a inflação acelerou consideravelmente no país, dado que importantes produtos importados, como máquinas e equipamentos, tiveram o seu valor encarecido.

Em última instância, os principais dilemas econômicos enfrentados por Moçambique atualmente – inflação e fuga de divisas – são resultados diretos da composição da dívida pública. Esta, por sua vez, vem crescendo desde 2012 e demanda, por sua vez, um plano de reestruturação, a fim de enquadrar os gastos do Governo à dinâmica de recebimentos. Porém, boa parte do orçamento do Estado – aproximadamente 25% – ainda depende de doações internacionais, o que traz duas consequências negativas: a primeira diz respeito à dependência do Governo moçambicano ao fluxo de doações, os quais podem ser afetados por crises políticas ou econômicas nos países ricos; a segunda, refere-se a que a total emancipação institucional de deliberações feitas em instâncias internacionais segue comprometida, dado que os gastos com políticas públicas devem ser reportados às agências financiadoras externas.

Esferas conectadas. Neste sentido, a crise política alimenta a crise econômica moçambicana, à medida que os conflitos reduzem a confiança dos agentes econômicos quanto a segurança de investir em suas atividades. Da mesma maneira, a crise econômica alimenta a crise política, uma vez que a inflação incentiva a migração de moçambicanos aos países vizinhos, tencionando ainda mais as regiões já abaladas pelos conflitos armados.

Para 2017, podemos esperar um ano em que as discussões sobre a reestruturação da dívida moçambicana e os planos para a solução da crise política dominarão as principais manchetes e a vida social no país. Isto porque, somente a partir de avanços nestes dois pontos Moçambique terá condições de voltar a auferir expressivos indicadores de crescimento econômico e redução da pobreza.

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Imagem 1Localização de Moçambique” (FonteWikipedia):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mozambique#/media/File:Location_Mozambique_AU_Africa.svg

Imagem 2Bandeira atual da Frente de Libertação de Moçambique” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Frente_de_Libertação_de_Moçambique#/media/File:Mz_frelimo.png

Imagem 3Bandeira da Resistência Nacional Moçambicana” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Resistência_Nacional_Moçambicana#/media/File:Mz_renamo3.PNG

Imagem 4 “50 Meticais Frente” (Fonte):

http://www.wikiwand.com/bs/Metikal

Imagem 5 “Maputo, capital e maior cidade do país” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moçambique#/media/File:Maputo_from_the_CFM_building_-_Maputo_do_predio_do_CFM_-_2.jpg

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ANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISEUROPA

[:pt]Parlamento Europeu em cena[:]

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A cada cinco anos os cidadãos europeus vão às urnas para eleger seus representantes no Parlamento Europeu (PE). A eleição parlamentar europeia mais recente foi realizada em maio de 2014, selecionando os atuais 751 representantes populares para a oitava legislatura desde que se iniciaram as eleições diretas para esta instituição, em 1979.

Nesta semana, foi destaque na política europeia a renovação da Mesa Diretora do PE. Anteontem e ontem, dias 17 e 18 de janeiro, foram realizadas eleições de meio-termo da atual legislatura para escolher os novos ocupantes da Presidência, das 14 Vice-Presidências e dos cinco Questores*. O mandato para estas posições é de dois anos e meio, renovável por igual período.

A atual disputa pela Presidência da única instituição europeia cujos integrantes são eleitos por sufrágio universal contou com um fator extra de acirramento. Martin Schulz, atual Presidente do PE anunciou em novembro de 2016 a sua saída da política europeia para dedicar-se às eleições gerais alemãs, convocadas para setembro de 2017. Ele é cotado para concorrer a uma cadeira no Bundestag pelo Partido Social-Democrata (PSD) e, tendo em conta seu capital político, pode figurar entre os concorrentes de Angela Merkel para a função de Chanceler Federal.

A Eurocâmara elege seu Presidente por maioria absoluta (346 votos), em um processo eleitoral que pode atingir até quatro turnos. Caso a disputa chegue ao quarto turno, ele é realizado somente entre os dois mais votados no turno anterior e, neste caso, a maioria simples é o suficiente para eleger o novo líder do Parlamento. Somente em duas ocasiões na história do Parlamento Europeu o processo se estendeu até o quarto turno. Uma em 1982 e outra, agora, em 2017, na eleição desta semana.

A saída de Schulz do cenário sucessório favoreceu a pulverização das candidaturas. Dos oito grupos políticos presentes no Parlamento sete apresentaram pré-candidatos à Presidência. Não entrou na disputa o grupo “Europa da Liberdade e da Democracia Direta”, que reúne principalmente os representantes dos polêmicos UK Independence Party (UKIP) e MoVimento 5 Stelle. Os pré-candidatos foram:

  1. Eleonora Forenza – Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde (CEUE/EVN), Itália;
  2. Jean Lambert – Verdes/Aliança Livre Europeia (Verdes/ALE), Reino Unido;
  3. Gianni Pittella – Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D), Itália;
  4. Laurenţiu Rebega – Europa das Nações e da Liberdade (ENF), Romênia;
  5. Helga Stevens – Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), Bélgica;
  6. Antonio Tajani – Partido Popular Europeu (PPE), Itália;
  7. Guy Verhofstadt – Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE), Bélgica.

Antes que o primeiro turno fosse iniciado, Guy Verhofstadt, ex-Primeiro Ministro da Bélgica e atual negociador-chefe da Eurocâmara para o Brexit, retirou-se do pleito. O movimento denotou que o Grupo pode ter optado por sair da disputa direta, entendendo que suas chances eram reduzidas, para ficar em uma posição mais flexível na fase final do processo eleitoral, valorizando assim seus termos nos diálogos de coalização com os eventuais líderes.

Resultados da eleição para Presidente do Parlamento Europeu

1º Turno 2º turno 3º turno 4º turno
Total de Votos 718 725 719 713
Votos Válidos 683 691 690 633
Antonio Tajani (PPE) 274 287 291 351
Gianni Pittella (S&D) 183 200 199 282
Helga Stevens (ECR) 77 66 58
Jean Lambert (Verdes/ALE) 56 51 53
Eleonora Forenza (CEUV/EVN) 50 42 45
Laurentiu Rebega (EFN) 43 45 44

Fonte: Dados do Serviço de Imprensa do Parlamento Europeu, elaboração própria.

Os três turnos iniciais do processo não trouxeram definição, mas contribuíram para confirmar que a disputa seria travada entre o candidato dos socialistas&democratas e o dos populares europeus – os dois maiores grupos parlamentares. A fragmentação de candidaturas persistiu durante todo o pleito.

Os seis candidatos que se apresentaram no primeiro turno mantiveram suas candidaturas até o terceiro turno, com pouca variação entre a quantidade votos recebidos entre os turnos. A exceção ficou por conta da candidata Helga Stevens (ERC), que viu seus votos caírem de 77 para 58 do primeiro para o terceiro turno (queda de 25,3%).  É possível que alguns de seus eleitores tenham migrado para o candidato do PPE, Antonio Tajani, devido a alinhamentos temáticos entre os grupos.

No dia 17 de janeiro, à 21h (horário de Bruxelas), 12 horas após muita negociação e especulação, Antonio Tajani foi eleito para a Presidência da Eurocâmara. Conhecido aliado do polêmico ex-Primeiro Ministro italiano Silvio Berlusconi e membro do Partido Forza Italia, o eurodeputado está no seu quarto mandato e ocupava até ontem uma da 14 vice-presidências da Eurocâmara. Entre 2010 e 2014 ele ocupou o posto de Vice-Presidente da Comissão Europeia responsável pela Indústria e o Empreendedorismo.

Com a eleição de Tajani, os três principais cargos da União Europeia se unificaram nas mãos da centro-direita, a qual já ocupava a Presidência da Comissão Europeia (Jean-Claude Juncker) e do Conselho Europeu (Donald Tusk). Esse fato não passou despercebido pelos grupos de esquerda e centro-esquerda que integram a Eurocâmara. Havia um acordo tácito para que Schulz fosse substituído por um representante da centro-direita quando seu mandato terminasse, mas não era esperado que fosse de modo tão abrupto e nem que isso resultasse na concentração do poder diretivo europeu nas mãos da centro-direita.

Esta conjuntura pode gerar turbulências no final do atual mandato de Donald Tusk, no próximo mês de maio. A ala dos socialistas&democratas pode pressionar por uma redistribuição de poder dentro da direção das instituições, exigindo concessões que podem chegar até o extremo de indicar um sucessor para Tusk já para este ano (2017). O que soaria estranho, uma vez que o mandato dele ainda pode ser prorrogado e a não renovação poderia indicar desaprovação da sua gestão.

Vice-Presidentes e Questores

Na quarta-feira, dia 18 de janeiro, foi a vez de eleger os 14 Vice-Presidentes e cinco Questores. Os Vice-Presidentes foram selecionados em duas rodadas de votações, nas quais aqueles que atingissem maioria absoluta seriam eleitos. Foi um processo relativamente rápido. O grupo político com mais vice-presidentes eleitos foi o S&D com cinco representantes, seguido do PPE (4), ALDE (2), CEUE/EVN (1), ECR (1) e Verdes/ALE (1). Os questores foram eleitos por aclamação. Dois pertencem ao PPE, um ao S&D, um à ALDE e um à ECR.

Nos próximos dias o Parlamento Europeu vai se concentrar na escolha dos integrantes das 22 Comissões que trabalham na casa e no início das atividades legislativas.

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* Questor é um posto integrante da mesa diretoria do Parlamento Europeu que tem como missão a gestão das tarefas administrativas e financeiras diretamente relacionadas com os deputados, incumbindo-lhes, por exemplo, colocar à disposição destes instalações e serviços gerais. Atuam ainda fornecendo apoio consultivo às atividades da mesa diretora.

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Imagem 1 Brasão do Parlamento Europeu” (Fonte):

https://fr.wikipedia.org/wiki/Parlement_europ%C3%A9en#/media/File:Europarl_logo.svg

Imagem 2 Martin Schulz” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Schulz#/media/File:Martin_Schulz_par_Claude_Truong-Ngoc_juin_2013.jpg

Imagem 3 El hemiciclo del Parlamento Europea en Estrasburgo durante la sesión plenaria de 2014 ” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Parlamento_Europeo#/media/File:European_Parliament_Strasbourg_Hemicycle_-_Diliff.jpg

Imagem 4 Antonio Tajani” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Tajani#/media/File:Members_of_the_Presidency_(9290654981).jpg

Imagem 5 Sala de Reuniões para Comissões Parlamentares” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Parlamento_Europeo#/media/File:EP_Auswaertiger_Ausschuss.jpg

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]Park Geun-hye e seu futuro incerto à frente da Coreia do Sul[:]

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Em 2015, ela foi uma das pessoas mais poderosas do mundo; em 2016 uma das mulheres mais poderosas; porém, em 2017, poderá ser a primeira Presidente impichada na Coreia do Sul. A presidente sul-coreana Park Geun-hye tem sua vida ligada a política de seu país, incialmente por ser filha de Park Chung-hee, Presidente da Coreia do Sul, entre 1963 e 1979; além disso, por ter vivido sua infância em meio as tensões entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Em1974, com 22 anos perdeu sua mãe, Yuk Young-soo, em um atendado norte-coreano contra a vida de seu pai. Após a morte de sua mãe, a jovem Park teve que entrar para a política, assumindo o papel de Primeira Dama em exercício da nação, adaptando-se bem ao mundo político.

Durante os anos em que seu pai foi Presidente do país, houve um grande desenvolvimento econômico devido a exportações e aos investimentos feitos em infraestrutura e educação por toda a Coreia do Sul, aliado ao comprometimento de Seul em manter boas relações com potenciais parceiros econômicos ao redor do mundo. Na Coreia, aquele momento foi nomeado como Milagre do Rio Han, devido aos feitos que são lembrados até hoje, mas que teve um fim trágico na época, quando Park Chung-hee foi assassinado em 1979 por um dos agentes da inteligência sul-coreana.

Park Geun-hye manteve-se no mundo da política sul-coreana desde aquele período, passando por importantes cargos e tendo assumido a Presidência do Partido Saenuri, entre os anos de 2004 e 2006, ainda sob o antigo nome Grande Partido Nacional (GNP, na sigla em inglês). Antes de vencer as eleições presidenciais de 2012, ela era membro da Assembleia Nacional da Coreia do Sul, na qual foi legisladora desde 1998, preservando uma boa rede de contatos que lhes foram úteis na corrida eleitoral que viria a disputar.

Em 2012 o mundo passava por uma grande crise econômica, muitos países tiveram líderes reeleitos, mas não foi assim na Coreia do Sul. Moon Jae-in havia sido derrotado por Park, algo que surpreendeu vários especialistas na época. O professor de estudos coreanos da Universidade de Tufts, Sung-Yoon Lee, via Park em um conflito de opiniões populares nas cidades coreanas, pois numerosos cidadãos a tomavam como a filha de um ditador, embora outros a vissem como a filha do Presidente que contribuiu com o desenvolvimento econômico sul-coreano.

David Straub, diretor de estudos coreanos na Universidade de Standford, havia dito em entrevista à PBS que a sua vitória havia sido pela sua linha conservadora, algo que, na Coreia do Sul, significava dar prioridade aos negócios e não apenas enfatizar os temas ligados à Coreia do Norte. Park sempre foi bem rígida quando o tema era Pyongyang, mesmo sendo a favor da reunificação da Península.

Após assumir o cargo de Presidente de uma das principais potências da Ásia e uma das grandes economias globais, a Forbes classificou-a como uma das mulheres mais poderosas e influentes em 2015 e 2016. Mas, em seu país, a opinião pública sempre foi muito dividida, variando conforme os temas que mais abalavam a Coreia do Sul, pois a sua classificação por entidades estrangeiras e a opinião de outros líderes globais não são tão relevantes para os sul-coreanos.

Com a abertura do Processo de Impeachment contra a presidente Park, em dezembro de 2016, a opinião pública coreana já tinha 67% de pessoas pedindo a sua renúncia. Ter seu nome envolvido em casos de corrupção abalou completamente a imagem da Presidente, que hoje está afastada.

Segundo a promotoria que conduz o Processo de Impeachment, Park está ligada a um enorme esquema de extorsão de empresas sul-coreanas, conspirando com uma de suas amigas de infância, Choi Soon-sil, em um caso que envolve grandes empresas do país, dentre elas a Samsung. A amiga de Park e o herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong, um dos líderes da gigante coreana, estão sendo ouvidos pelas autoridades competentes. Choi já está em cárcere e Lee está aguardando autorização da justiça para sua prisão ser efetivada.

Choi e outras pessoas investigadas dizem que Park Geun-hye não tem envolvimento no caso de corrupção, mas opositores da Presidente fazem de tudo para afastá-la em definitivo. Eles tentaram até aumentar as acusações contra ela, em casos que envolvem crime de responsabilidade à segurança nacional, conforme já notificamos em Notas Analíticas no CEIRI NEWSPAPER, mas isso não abala o país tanto como o caso de propina envolvendo-a com as grandes corporações sul-coreanas.

Park entrou para a história como a primeira mulher a assumir à Presidência na Coreia do Sul e poderá ser a primeira a ser impichada no país, sendo que, no ano de 2004, o então presidente Roh Moo-hyun havia passado por um Processo de Impeachment. Sua acusação era por pedir apoio eleitoral durante as eleições parlamentares, algo que é proibido na Coreia do Sul, mas a Corte Constitucional entendeu as acusações como insignificantes e Roh retornou de seu afastamento, cumprindo o mandato.

Diferente do caso de Park, a população havia realizado fortes manifestações em apoio a Roh Moo-hyun durante o tempo em que o pedido de impeachment era analisado e julgado. No caso atual, a opinião pública está contrária à permanência da Presidenta afastada e os indícios são de que aqueles favoráveis a sua permanência no comando do país estão desanimando.  Muito está a ser investigado, mas, indiferentemente do resultado, a opinião do povo coreano com sua líder não mudará, talvez até o fim de seu mandato. No entanto, a pressão de opositores tende a ser redobrada.

Park Geun-hye, antes vista como filha de um dos grandes líderes do país, ou de um dos grandes ditadores, pode se tornar uma das mentes corruptas para o povo sul-coreano e, com isso, manchar o seu legado. 2017 não será um ano fácil para a Coreia do Sul, pois terá de lidar com as ameaças da Coreia do Norte, com as divergências territoriais com os japoneses e com as incertezas sobre o futuro das relações Seul-Washington, além disso, diante desse cenário, a Coreia do Sul está queimando muitas energias com a crise política, algo que pode significar uma porta de entrada para oportunistas domésticos e para os inimigos da parte norte da península.

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Imagem 1 Presidente Park Geunhye, em 2013” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_de_impeachment_de_Park_Geun-hye#/media/File:Park_Geun-hye_(8724400493)_(cropped).jpg

Imagem 2 Park Geunhye e Park Chunghee” (FonteKim Hongji / ReutersArquivo histórico):

http://justgopoppi.com.br/wp-content/uploads/2016/11/familia.jpg

Imagem 3 Park Geunhye em seu discurso de posse, 2013” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Park_Geun-hye

Imagem 4 Protesto contra Park Geunhye em Seul, 29 de outubro de 2016” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_de_impeachment_de_Park_Geun-hye#/media/File:Mass_protest_in_Cheonggye_Plaza_02.jpg

Imagem 5 Protesto realizado em novembro de 2016” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_de_impeachment_de_Park_Geun-hye

Imagem 6 Roh Moo-hyun, ExPresidente da Coreia do Sul” (Fonte):

http://a5.files.biography.com/image/upload/c_fit,cs_srgb,dpr_1.0,h_1200,q_80,w_1200/MTE4MDAzNDEwMTU4NjUwODk0.jpg

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPATecnologia

[:pt]Relações Rússia-EUA após o caso do ataque cibernético durante as Eleições Presidenciais norte-americanas de 2016[:]

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Em 2016, as Eleições Presidenciais estadunidenses tiveram como característica central a polarização política, e isto configura uma situação que vai além da perspectiva tradicional de embates entre o Partido Democrata e o Partido Republicano, os quais representam o ápice do sistema eleitoral dos Estados Unidos da América (EUA). Neste embate de 2016, as visões de mundo dos respectivos candidatos chocaram-se em diversos momentos ao longo da campanha e contribuíram para acentuar a polarização da sociedade.

Na disputa observou-se a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, a qual possuiu uma plataforma com ênfase na defesa de direitos de minorias étnicas, sexuais, culturais, religiosas e ambientais.

Do lado Republicano, Donald Trump apresentou uma plataforma voltada à defesa dos direitos da maioria, que, por motivos histórico-culturais é branca, protestante e liberal. O seu discurso abordou valores em que a concepção de liberdade humana não seria arbitrária, e, sim, decorrente da aceitação da existência de uma linguagem universal na esfera político-social e econômica. Após um período de intensos debates e comícios, Donald Trump, como vencedor, assumirá o cargo nesta semana, em 20 de janeiro de 2017.  Porém, em meio à turbulência polarizada das eleições, emergiu o relato de que o Diretor de Campanha do Partido Democrata, John Podesta, foi vítima de um hacker, o qual capturou informações importantes de sua conta de e-mail e estas foram publicadas no site Wikileaks.

Segundo especialistas, o hacker em questão poderia ter feito uso de um e-mail de aparência oficial – “phishing” – com os dados de Podesta e o pedido para baixar ou clicar em um link específico, com a intenção de induzi-lo a digitar a senha, cuja execução transferiu ao hacker a oportunidade de acesso direto aos arquivos de e-mail do Diretor de Campanha.

Fato interessante aconteceu na Secure Works, uma empresa de segurança de informação, quando tiveram acesso a um erro de hackers e conseguiram interceptar uma campanha de larga escala de e-mails spear phishing contra contas do Google com uso de bitly, ou seja, de um encurtador de link o qual se expande em um domínio feito por hackers. Nesta situação, a companhia iniciou colaboração com as agências de segurança dos EUA e conseguiram observar as ações dos hackers e suas táticas de atingimento de 1800 contas do Google pertencentes a pessoas na Rússia, países do leste europeu que fizeram parte da ex-União Soviética, países da Europa e representações governamentais, diplomáticas e militares dos EUA. Ao longo da campanha presidencial, os investigadores identificaram a atuação de hackers durante a campanha de Hillary Clinton, os quais enviaram 213 links de tipo bitly para 108 contas do Google, e 16 links de tipo bitly para 9 contas do Google com resultantes respectivas de 20 cliques para o primeiro e 4 cliques para o segundo.

As notícias de espionagem ampliaram a polêmica em torno da candidatura de Trump, sobretudo com a afirmação das agências de inteligência dos EUA de que os hackers que invadiram e-mails de pessoas da campanha de Clinton seriam membros de serviços de inteligência da Rússia.

Em referência a questão, o Diretor de Inteligência Nacional – James Clapper, o Diretor da CIA – John Brennan, e o Diretor do FBI – James Comey, declararam unânimes em conversa com Trump: “Nós avaliamos que somente os funcionários mais antigos da Rússia poderiam ter autorizado os recentes furtos e divulgações de dados com base nas eleições, com base no escopo e na sensibilidade das metas”. Afirmaram ainda que a Rússia é “uma grande ameaça para o governo dos EUA, para a infraestrutura militar, diplomática, comercial e crítica e para as principais redes de recursos, devido ao seu altamente avançado programa cibernético ofensivo e táticas, técnicas e procedimentos sofisticados”.

Apesar das declarações dos oficiais de inteligência de que a Rússia seria a responsável pelos ataques com hackers, o Presidente eleito, Donald Trump, discorda dos agentes governamentais e entende a situação como uma espécie de perseguição política por ter ganho as eleições, a revés dos democratas, conforme declaração própria: “Eu ganhei mais condados nas eleições do que Ronald Reagan. Eles estão muito envergonhados com isso. Até certo ponto, é uma caça às bruxas. Eles só se concentram nisso”. Trump alega não participação russa em sua vitória e salienta: “Não houve adulteração alguma com máquinas de votação”.

Donald Trump também questiona as ações por trás da afirmação de interferência estrangeira nas eleições e cita sua suspeita na não verificação dos servidores do Partido Democrata, por meio das seguintes indagações: “O DNC não os deixaria ver os servidores. Como você pode ter certeza sobre o hacking quando você não pode chegar aos servidores?”; e “O Comitê Nacional Democrata não permitiria que o FBI estudasse ou visse suas informações de computador depois que foi supostamente hackeado pela Rússia. Então, como e por que eles estão tão certos sobre hacking se eles nunca sequer solicitaram um exame dos servidores de computador? O que está acontecendo?”.

O Presidente eleito demonstrou surpresa com a divulgação de um Relatório de inteligência para a imprensa e novamente insere seu questionamento: “Como a NBC conseguiu ‘um olhar exclusivo sobre o relatório secreto que ele (Obama) foi apresentado?’ Quem lhes deu esse relatório e por quê? Política!”, e por fim sugere que, além da Rússia, terceiros atores poderiam ter feito o ataque, seja a China ou mesmo um adolescente estadunidense: “Quer dizer, poderia ser a Rússia, mas também poderia ser a China. Também poderiam ser muitas outras pessoas. Também poderia ser alguém sentado em sua cama, que pesa 400 quilos, Ok?”.

Em meio a rumores de que a Rússia poderia ter feito uso de hackers para influenciar a decisão das eleições nos EUA, parte dos membros do Partido Republicano observam a questão com um entendimento diferente da opinião de Trump, pois a veem como uma quebra da segurança nacional e até especula-se se isto não seria um ato de guerra, conforme é evidenciado na declaração do Senador Graham (R-Carolina do Sul) sobre a ação de Obama ao expulsar do país 35 diplomatas russos: “O que Obama fez foi jogar um seixo. Estou pronto para jogar uma pedra”. Porém a situação se amenizou um pouco quando James Clapper respondeu ao Senador McCain (R-Arizona) sobre o impacto da suposta ação cibernética russa contra as eleições: “Não temos como avaliar o impacto, certamente a comunidade de inteligência não pode medir o impacto que teve sobre escolhas feitas pelo eleitorado”.

No tocante as afirmações céticas de Trump, referente as declarações dos serviços de inteligência dos EUA, o próprio James Clapper explicitou: “Há uma distinção importante aqui entre o ceticismo saudável, que os formuladores de políticas, para incluir o decisor político número um, deve sempre ter para a inteligência. Mas eu acho que há uma diferença entre ceticismo e depreciação”.

Em conformidade com a atual perspectiva geopolítica no Leste Europeu, faz-se pertinente a apresentação de uma série de eventos necessários para dar maior entendimento da perspectiva da Rússia sobre as ações dos EUA no plano internacional, e o início ocorreu durante a crise ucraniana, cujo desdobramento despertou no Governo russo o anseio de proteção de seus cidadãos na Ucrânia, os quais queixavam-se de discriminações por causa das divergências internas entre desejosos por uma política pró-União Europeia (UE) e os que queriam uma política pró-Rússia, acarretando em guerra civil naquele país.

Após a intensificação dos conflitos, os grupos separatistas apoiaram um referendo de anexação da Península da Criméia ao território russo, a revés da autoridade de Kiev, e a Federação Russa assumiu a responsabilidade pela Península. Com a consumação do fato, diversos Estados europeus começaram a criticar Moscou por suposta violação do Direito Internacional e instituíram sanções econômicas contra a Rússia, porém, de imediato, os Estados Bálticos demonstraram para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e UE sua insatisfação com a segurança regional e afirmaram que a Rússia possuía planos de invasão de seus territórios, à semelhança do que aconteceu com a Criméia. Desta forma, a OTAN reforçou sua estrutura militar e bélica nos países vizinhos da Rússia, cujas resultantes provocaram um azedamento nas relações diplomáticas entre Moscou e a UE.

Ao longo dos últimos anos nenhuma ação bélica ou de invasão ocorreu no Leste Europeu, todavia, diversos países europeus mantiveram suas sanções contra a Rússia e continuaram a fomentar o que os cidadãos russos no exterior chamam de russofobia, a partir de relatos originários do medo. Porém, ao invés de melhoria de relações, os russos sentem-se novamente em tensões e, desta vez, com o foco de acusação repousando na questão da intervenção cibernética nas eleições dos EUA com o objetivo de um suposto favorecimento ao Presidente eleito Donald Trump, mediante o uso de hackers e de guerra de informação (híbrida) contra o Partido Democrata e seus eleitores.

No tocante a situação, o Porta-voz do Presidente Barack Obama, Josh Ernest, disse que uma ação deste porte apenas “deveria ter sido aprovada no mais alto nível”, e salientou: “Seria muito extraordinário se o próprio Putin estivesse entre as pessoas na nossa lista”. Todavia, Ernest comunicou que o Relatório completo da inteligência dos EUA sairá até o dia 20 de janeiro.

Em negação às acusações, na Rússia, o Presidente da Comissão da Duma para assuntos internacionais, Leonid Slutsky, chamou o caso de paranoia, de sem fundamento, e acrescentou: “A histeria em curso da administração dos EUA causa prejuízos significativos às relações EUA-Rússia, ao nível dos quais era menor do que durante a Guerra Fria. No entanto, tudo isso não ajuda a mudar os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos e, em janeiro, o legítimo proprietário da Casa Branca será Donald Trump e espera-se que, com a sua chegada, o diálogo entre a Rússia e os Estados Unidos será realizado em um ambiente político mais saudável”.

Em detrimento da situação, os russos consideram uma insensatez as declarações do Presidente dos EUA, Barack Obama, de retaliação sobre o suposto ataque cibernético, afirmando que “são a resposta necessária e adequada para os esforços que visam causar danos aos interesses dos EUA em violação das normas internacionais de comportamento”.

Para findar, a exposição russa diante da negativa do episódio de ataques cibernéticos aos EUA, cujo ápice provocou um estremecimento na relações entre os dois atores, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, externou que a atribuição de culpa à Rússia pelo Governo Obama remete ao fracasso das próprias iniciativas de política externa de Washington, que acusa a Rússia de todos os problemas, inclusive de interferência a favor de Donald Trump, e, no caso da expulsão dos diplomatas, o Ministro Lavrov expressou: “Nós definitivamente responderemos a essas ações. A reciprocidade é um princípio básico da diplomacia internacional e das relações internacionais. Portanto, o Ministério russo dos Negócios Estrangeiros e colegas de outras agências submeteram uma proposta ao Presidente da Rússia para declarar ‘persona non grata’ 31 diplomatas da Embaixada dos EUA em Moscou e quatro diplomatas do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Petersburgo”.

Observa-se que, para as variáveis centrais presentes na questão de impacto nas relações entre Rússia e Estados Unidos, o ataque cibernético contra a campanha de Hillary Clinton apresenta como foco de investigação duas linhas analíticas destacadas: a política internacional e a política doméstica.

Em primeiro plano, percebe-se que a situação abrange uma disputa pelo poder, manifestada na defesa da soberania e da moral dos EUA e da Rússia diante da sociedade internacional, com ênfase na legitimidade das agências de inteligência e no relacionamento diplomático.

Percebe-se também que existe uma clara preocupação em não deixar declinar o crédito dos serviços de segurança e de espionagem de Washington, os quais tendem a transparecer absolutos no sistema de Estados, porém as declarações de incerteza do Presidente eleito, Donald Trump, estimulam a quebra da coerência discursiva, cujos atos aumentam a sensação de indignação contra ele. Entretanto, são pertinentes as críticas de que é necessária mais explicação, conforme salientou Trump, ao ressaltar a certeza das agências de inteligência e a não verificação dos servidores do Partido Democrata, visto que poderiam ser quaisquer pessoas as responsáveis pelo ataque.

No que diz respeito a Rússia, as próprias agências verificaram o uso de recursos phishing e bitly via e-mails, os quais possuíam como alvos indivíduos na própria Rússia, Europa, e mesmo dos EUA, cujo modo de operação foi semelhante na aplicação do caso dos Democratas. Sendo assim, levantou-se a questão de entender por qual razão a Rússia interviria nas eleições estadunidenses para influenciar o eleitor a votar em Trump. Poderia ser pelo acréscimo de poder? Essa pergunta se ressalta, pois Trump prometeu recuar do apoio dos EUA no mundo e isto afeta diretamente a OTAN, mas emerge outra indagação: se a Rússia, como qualquer outra potência, não poderia conseguir mais poder por outras vias?   

Em segundo plano, observa-se a intensa movimentação social em torno das eleições e o aflorar das paixões políticas, cujo desejo pela vitória poderia acarretar em ações internas de uso de guerra híbrida. Novamente, emergem os questionamentos sobre a culpabilidade de atores, mas é preciso considerar os efeitos das ações políticas, visto que informações de inteligência foram divulgadas para a imprensa, mas, surge nova interrogação: se um Relatório definitivo está em andamento para a conclusão do fato, por qual motivo o Presidente Obama declara 35 diplomatas russos como persona non gratas?

Conclui-se pela necessidade de uma visão de paciência que se espera de qualquer ator global, cujo objetivo visa inteirar-se dos fatos para a tomada de decisões e mesmo novas interpretações, pois, neste caso, o Relatório final de inteligência do Governo dos EUA ainda não teve divulgação. Sendo assim, perspectivas alternativas precisariam de observação mais intensiva e o diálogo é imprescindível para a realização de qualquer ação com finalidade de serem evitados conflitos e tensões desnecessárias.

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Imagem 1 Casa Branca” (Fonte):

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Imagem 2 John Podesta” (Fonte):

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Imagem 3 James R. Clapper” (Fonte):

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Imagem 4 John Brennan” (Fonte):

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Imagem 5 James Comey” (Fonte):

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Imagem 6 Donald Trump” (Fonte):

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Imagem 7 Barack Obama e Vladimir Putin” (Fonte):

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Imagem 10 Presidente da Comissão da Duma para assuntos internacionais, Leonid Slutsky” (Fonte):

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Imagem 11 Sergey Lavrov” (Fonte):

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Imagem 12 Mundo Conectado” (Fonte):

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURATecnologia

[:pt]Os ciberataques russos e as eleições norte americanas[:]

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Nos últimos momentos de seu mandato, o presidente Barack Obama ordenou a revisão do possível envolvimento russo nas eleições norte americanas  que acabaram com a vitória do candidato republicano Donald Trump, a contragosto do Presidente democrata e de sua candidata a sucessora, Hillary Clinton.

Segundo o Porta-Voz da Casa Branca, Eric Schultz, “(o) presidente, (…), instruiu a comunidade de inteligência a realizar uma revisão completa do padrão de atividade cibernética maliciosa relacionada ao nosso ciclo de eleições presidenciais”. A ordem de Obama vem como consequência de suspeitas de ciberataques de origem russa, durante todo o ano eleitoral, que minaram a campanha da candidata Hillary Clinton, supostamente com o objetivo deliberado, segundo a comunidade de inteligência norte-americana, de favorecer o candidato republicano Donald Trump, apesar de críticas apontarem a falta de evidências para tais acusações.

Como previamente publicado no CEIRI NEWSPAPER, em junho de 2016, o Partido Democrata norte-americano foi alvo de dois grupos de hackers com supostas ligações ao Governo russo. Após conseguirem acesso aos sistemas de computadores do Partido, um desses grupos monitorou e extraiu informações da sua comunicação interna durante um ano, enquanto o outro grupo conseguiu monitorar e extrair uma parte da pesquisa partidária a respeito do candidato da oposição. 

Em um outro momento, decorrendo, aproximadamente, todo o mês que antecedeu as eleições, o site Wikileaks publicou levas e mais levas de documentos obtidos do Partido Democrata, do coordenador da campanha e do próprio servidor da candidata Hillary Clinton, alegadamente com ajuda de hackers russos.

De fato, foi publicado no dia 6 de janeiro de 2017, pelo Escritório do Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, a resposta às ordens de Obama, na forma de uma versão pública do Relatório secreto, intitulado “Avaliação de atividades e intenções russas nas recentes eleições dos EUA”. A conclusão é categórica: “Nós avaliamos que o presidente russo Vladimir Putin ordenou uma campanha de influência em 2016 com vista à eleição presidencial dos EUA”. De acordo com o relatado, “Os objetivos da Rússia eram minar a fé pública nos Estados Unidos, no Partido Democrata, denegrir a secretária Clinton, e prejudicar sua elegibilidade e Presidência em potencial. Avaliamos ainda mais que Putin e o governo russo desenvolveram uma clara preferência pelo presidente eleito Trump”.

O Relatório se alinha com as declarações da candidata Hillary Clinton, a qual, em um dos poucos pronunciamentos após sua derrota, culpa diretamente o presidente russo Vladimir Putin pelo resultado que sofreu: “O próprio Vladimir Putin dirigiu os ciberataques encobertos contra o nosso sistema eleitoral, contra a nossa democracia, aparentemente porque ele tem uma rixa pessoal contra mim”. Essa “rixa” de acordo com Clinton, seria decorrente das críticas feitas por Clinton nas eleições russas de 2011, ocasião na qual a então Secretária de Estado alegou que a eleição de Putin havia sido “injusta, não livre e ilegítima”.

Em resposta aos críticos que apontam a falta de evidências com as quais a mídia e as agências de inteligência apontam os russos como mandantes dos ciberataques, o Documento argumenta que as conclusões foram obtidas através de “fontes ou métodos sensíveis”, que não poderiam ser divulgadas na versão pública do relatório e que, portanto, “embora as conclusões do relatório estejam todas refletidas na avaliação classificada, o relatório desclassificado não inclui nem pode incluir todas as informações de apoio, incluindo informações e fontes específicas e métodos”.

Porém, vale ressaltar que o documento é uma versão pública, divulgada pela própria comunidade de inteligência, de um Relatório Secreto. Por conta disso, a falta de divulgação de informações e/ou metodologias com a exposição apenas de conclusões, obviamente vai expressar uma opinião parcial, o que, por sua vez, levanta suspeitas em relação a veracidade das informações apresentadas no texto.

Também é importante notarmos que um dos trabalhos e práticas mais comuns da comunidade de inteligência norte-americana, como de qualquer outra agência de inteligência, independente da nacionalidade, é, além da obtenção de informações estratégicas, justamente a disseminação de informações fabricadas, com o intuito de reter informações e/ou de guiar a opinião pública em diferentes cenários. É o tipo de espionagem que marcou a Guerra Fria e que sem dúvida evoluiu com as tecnologias do século XXI. 

Enquanto isso, o presidente eleito Donald Trump, vêm negando qualquer envolvimento russo nas eleições, no entanto, após uma conferência a respeito da invasão dos computadores, Trump aliviou um pouco o tom, alegando em uma declaração que a “Rússia, China, outros países, grupos externos e pessoas” realizam ciberataques contra os EUA, porém, Trump continua afirmando que “não houve absolutamente nenhum efeito sobre o resultado da eleição”.

O Relatório termina com a seguinte conclusão: “Avaliamos que Moscou aplicará as lições aprendidas em sua campanha ordenada por Putin para as eleições presidenciais dos EUA para futuros esforços de influência em todo o mundo, inclusive contra os aliados dos EUA e seus processos eleitorais”. A conclusão por sua vez, ilustra como o ciberespaço vêm se tornando cada vez mais a nova face de conflitos internacionais e levantando novos desafios para a Geopolítica e as Relações Internacionais.

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Imagem 1Capa do relatório Avaliação de atividades e intenções russas nas recentes eleições dos EUA” (Fonte):

https://www.dni.gov/files/documents/ICA_2017_01.pdf

Imagem 2Diretor de Inteligência Nacional NorteAmericana, James Clapper” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/medilldc/6797228431

Imagem 3Hillary Clinton discursando em evento da campanha em Phoenix, Arizona” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Campanha_presidencial_de_Hillary_Clinton_em_2016

Imagem 4Presidente eleito Donald Trump” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3ADonald_Trump_Approves_2016.jpg

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