ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Moshe Ya’alon renuncia e Lieberman é anunciado Ministro da Defesa de Israel

No último 20 de maio, em entrevista coletiva à imprensa, o então Ministro da Defesa israelense, Moshe Ya’alon, anunciou sua renúncia ao cargo e ao mandato no Parlamento. Sob o argumento de que o Governo de Israel está tomado “por elementos perigosos e extremistas, e que não é mais possível confiar no Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, o Ministro anunciou que “se retirava da vida política para um descanso”. Ele falou também sobre ética na política e disse “temer pelo futuro de Israel”. A saída de Ya’alon se dá em meio a manobras políticas do Primeiro-Ministro para ampliar sua coalizão de governo e depois de seu cargo ter sido oferecido a um rival de extrema direita, Avigdor Lieberman, do partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu.

Ya’alon era considerado uma voz moderada no Governo, líder sênior do conservador partido Likud, mas, constantemente, suas declarações sobre o papel das Forças Armadas israelenses eram mais moderadas e entravam em choque com as de Netanyahu. Por exemplo, ele já vinha tendo divergências com o Primeiro-Ministro por ter estimulado os oficiais a sempre dizerem o que pensam, mesmo que suas declarações fossem contrárias às ideias de seus superiores ou dos dirigentes políticos.

A tensão entre os dois se acirrou nos últimos dias, quando Ya’alon defendeu o direito de um de seus funcionários expressar suas opiniões livremente sobre as Forças Armadas. Na ocasião, o General Yair Golan fez associações entre as últimas ações de Israel e eventos na Alemanha nazista.

Outro ponto de tensão ocorreu em março, quando um soldado israelense foi flagrado em um vídeo atirando na cabeça de um agressor palestino que já estava ferido e rendido em Hebron. Ya’alon defendeu que o soldado fosse processado por assassinato, por ter violado o código militar. No entanto, membros do Governo defenderam a ação do militar.

Segundo o agora Ex-Ministro, a maior parte da população de Israel é tolerante e almeja por uma sociedade liberal e democrática. “No entanto, para minha grande infelicidade, elementos extremistas e perigosos tomaram Israel e o partido Likud [governista], ameaçando a população”, reportou a Folha de São Paulo.

Ele afirmou em seu discurso de renúncia: “Recentemente, tive fortes discordâncias em assuntos morais e profissionais com o premiê, diversos ministros e membros do Knesset [Parlamento]. (…). Lutei com todas as minhas forças contra manifestações de extremismo, violência e racismo na sociedade israelense, que ameaçam sua solidez. (…). Infelizmente, políticos do país escolheram o caminho da incitação e segregação de partes da sociedade israelense, em vez de unificá-las e acolhê-las. É insuportável para mim que o cinismo e a ânsia pelo poder estejam nos dividindo… [expressando] preocupação honesta sobre o futuro da sociedade israelense e das próximas gerações”.

Na quarta-feira, 25 de maio, Netanyahu nomeou Avigdor Lieberman, que havia sido por duas vezes Ministro das Relações Exteriores. Ele é um antigo aliado do Premiê, mas não possui experiência militar, em forte contraste com as credenciais de Ya’alon. Fontes dão conta que o cargo já teria sido oferecido por Netanyahu, o que efetivamente teria causado a renúncia de Ya’alon, tendo havido especulações de que, se Lieberman se juntasse ao Governo, a Ya’alon seria oferecido o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Esta possibilidade foi efetivamente sepultada com seu pedido de renúncia do cargo, bem como de seu mandato no Parlamento, que aconteceu dois dias depois de Lieberman ter afirmado que seu partido ultradireitista, Yisrael Beiteinu, poderia entrar na coalização governamental do Likud, caso fossem cumpridas diversas exigências. Estas incluíam sua nomeação, reformas no plano de pensão e a defesa da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo. A medida era exigida como condição para que seu partido entrasse na coalizão governamental.

Diante do acontecido, o líder de um partido membro da coalizão, o Kulanu, já declarou que este se oporia a qualquer forma de legislação que permitisse tribunais, militares ou civis, estabelecerem sentença de morte. “É uma ideia inadequada de ambos os pontos de vista, moral e prático”, afirmou um alto funcionário do Partido.

De acordo com fontes do jornal israelense Haaretz, Palestinos acusados de crimes terroristas são julgados em tribunais militares israelenses, enquanto os judeus acusados de crimes semelhantes contra os palestinos geralmente são julgados em tribunais civis israelenses. Assim, a defesa feita por Lieberman da pena de morte contra árabes condenados por terrorismo em cortes militares não se aplicaria a judeus condenados por terrorismo. Ressalte-se que Israel já possui a pena de morte em seus livros estatutários, mas esta só se aplica em casos de genocídio e a crimes contra a humanidade, tendo executado até hoje apenas o ex-oficial nazista Adolf Eichmann, condenado à forca, em 1962, por genocídio.

No momento, Netanyahu governa com a maioria mais apertada na história do Knesset (o Parlamento Israelense), com uma vantagem de um assento na instituição parlamentar de 120 membros. Com a entrada do partido Yisrael Beiteinu na coalizão, o Primeiro-Ministro expandirá a base de 61 assentos para 67. Netanyahu declarou procurar ampliar sua coalizão desde que foi empossado para seu quarto mandato, em março de 2015, acrescentando que a melhor coisa para o país é um Governo tão amplo quanto possível.

Lieberman é uma das figuras políticas mais controvertidas em Israel e a Oposição declarou que trazê-lo “ao governo levaria a políticas que estão à beira da loucura”, conforme disseminado pela Al Jazeera. No passado, ele já expressou sua descrença em relação a um acordo de paz com os palestinos, exigiu a derrubada do Hamas (grupo insurgente que governa a Faixa de Gaza), a derrocada da Autoridade Palestina e a transferência de palestinos que vivem em Israel para áreas ocupadas na Cisjordânia e Gaza. Ele, que mora em um assentamento na Cisjordânia ocupada, também pediu a anexação de assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada e assinou legislações controversas, como o “juramento de lealdade que seria exigido dos cidadãos de Israel para manterem sua cidadania.

Netanyahu declarou que, mesmo após a nomeação de Lieberman, o Governo irá se esforçar para retomar o processo de paz com os palestinos, com a ajuda de agentes regionais. Visando mostrar abertura e vontade de diálogo em meio às tensões que antecederam a renúncia de Ya’alon, em 17 de maio, o Primeiro-Ministro comentou com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi que “Israel está pronto para participar com o Egito e outros países árabes no avanço, tanto do processo diplomático como da estabilidade na região”. A Casa Branca respondeu à partida de Ya’alon dizendo que está ansiosa para trabalhar com o próximo Ministro da Defesa, acrescentando: “Nossos laços de amizade são inquebráveis, e nosso compromisso com a segurança de Israel permanece absoluto”.

Ya’alon era um político bastante popular e respeitado entre a população israelense e visto como figura moderada dentro do Likud. Foi cortejado assiduamente por Netanyahu em um esforço para transmitir uma imagem da liderança do Likud como responsável, motivada por valores e liberal. Ao longo dos anos, se tornou uma figura aceita e admirada do partido – ainda que, como ministro da Defesa, tenha supervisionado a guerra israelense de 51 dias em Gaza, em 2014, na qual mais de 2.000 palestinos foram mortos, um quarto dos quais eram crianças.

Críticos às recrudescidas políticas de Netanyahu questionam se o Primeiro-Ministro não estaria colocando suas próprias motivações pessoais à frente do interesse do Partido e da população israelense. “Em Israel, jogamos a política de jogo duro”, declarou Gadi Wolfsfeld, professor de comunicação política no Interdisciplinary Center. “Por outro lado, mesmo na escala de jogo duro, da política cínica, este foi um choque”. O negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, alertou que a nomeação de Lieberman para o cargo “resultaria em apartheid, racismo e extremismo religioso e político”.

Netanyahu assume uma grande aposta ao nomear Lieberman para chefia das Forças de Defesa Israelenses (IDF), porque a partida de Ya’alon do Likud, oficialmente, o torna um partido de extrema-direita, muito semelhante ao ultranacionalista HaBayit HaYehudi, presidido por Naftali Bennett. Moshe Ya’alon, Dan Meridor, o ministro das finanças Moshe Kahlon e Gideon Saar eram todos considerados figuras liberais, moderadas e imponentes do Likud. Na ausência desses membros principais – que deixaram o partido nos últimos anos – a liderança do Likud atual é em grande medida voltada para a extrema direita e para os colonos. Em outras palavras, o Likud está se tornando menos atraente para aqueles que se identificam com a chamada “direita soft”. Na verdade, Netanyahu disputará agora o mesmo conjunto de eleitores com Bennet e Liberman – a “direita hard-core”, os colonos e os radicais. Nas palavras de Mazal Mualem, colunista do Al-Monitor, Ya’alon é a “mais quente mercadoria política na prateleira da política centrista”. Em qualquer cenário, ele tem um forte apelo para a direita liberal que o Likud representou outrora.

Para alguns analistas, a nomeação de Lieberman e inclusão do Yisrael Beiteinu na base governista não podem ser vistos diretamente como um sinal de caminhar mais à direita. Netanyahu tem estado desesperado para encontrar uma maneira de ampliar sua coalizão, tendo até mesmo considerado um acordo com a oposição dita de centro-esquerda, a União Sionista, antes de finalmente se voltar para Lieberman.

Na prática, contudo, a sua adição ao Governo cimentaria ainda mais a natureza extremista da coalizão de Netanyahu e tornaria mais moroso o processo de paz com os palestinos. Uma nova Conferência, agendada para 3 de junho em Paris, reunirá chanceleres de 20 países, incluindo Egito, Arábia Saudita e Jordânia, sem os israelenses e palestinos presentes. Posteriormente, uma outra Conferência, a ser realizada no Outono europeu*, contará com a presença de israelenses e palestinos. O objetivo seria retomar as negociações que estão congeladas desde que uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos entrou em colapso, em abril de 2014.

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* No hemisfério sul, corresponde ao período da Primavera (final se setembro; outubro; novembro; até o final de dezembro).

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ImagemMoshe Yaalon anuncia sua renúncia do cargo de ministro da Defesa de Israel, em Tel Aviv, alegando crescimento do extremismo em Israel. O primeiroministro Benjamin Netanyahu alega que a demissão aconteceu porque o Yaalon foi convidado a participar do ministério das Relações Exteriores” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Moshe_Ya%27alon

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

O Papa Emérito Bento XVI e a “Crise Profunda” da Igreja Pós-Conciliar

Nascido Joseph Aloisius Ratzinger, Bento XVI foi Papa da Igreja Católica e Bispo de Roma entre 19 de abril de 2005 e 28 de fevereiro de 2013, quando oficializou a sua abdicação*. Esta foi uma medida inusitada entre os sucessores de São Pedro desde que, em 4 de julho de 1415, o Papa Gregório XII renunciou para pôr termo ao Grande Cisma do Ocidente[1]. Em 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI anunciou que deixaria o Pontificado no dia 28 do mesmo mês[2]. Ele comunicou sua renúncia em discurso pronunciado, em latim, durante um consistório convocado para anunciar três canonizações. “No mundo de hoje”, disse, “sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida e para a fé, para governar a barca de Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário vigor, tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu de tal modo em mim que devo reconhecer a minha incapacidade de administrar bem o ministério a mim confiado”.

No entanto, além da idade e dos problemas de saúde, outros motivos despoletaram o fim do Papado de Bento XVI. O chamado caso VatiLeaks, que diz respeito aos documentos secretos que vazaram do Vaticano, revelou a existência de uma rede de corrupção, nepotismo e favoritismo. O termo VatiLeaks foi criado pelo responsável da Sala de Imprensa do Vaticano, Padre Federico Lombardi, SJ**, em 2012, numa alusão direta ao WikiLeaks, uma organização sem fins lucrativos, com sede na Suécia, fundada em 2006 que, em seus sítios web, divulga, a partir de fontes anônimas, documentos, fotos e informações secretas e reservadas, de governos e empresas[3]. Paolo Gabriele, o Mordomo de Bento XVI desde 2006, repassou ao jornalista Gianluigi Nuzzi[4] informações sensíveis que feriram de morte o Pontificado do Papa alemão. Condenado a 3 anos de reclusão, reduzidos para 18 meses em função da ausência de antecedentes criminais, Gabriele, que reconheceu ter traído a confiança do Vigário de Cristo, foi perdoado por este, através de um indulto natalino, em dezembro de 2012.

Recluído no mosteiro Mater Ecclesia, nos Jardins do Vaticano, onde reside, desde sua abdicação, o Papa Emérito é, atualmente, em função de sua avançada idade, “como uma vela que lenta e serenamente vai se apagando, como acontece com uma pessoa idosa. No entanto, ele é sereno, lucidíssimo e em paz com Deus, consigo mesmo e com o mundo. Ele se interessa por tudo o que acontece e mantém seu humor fino e sutil; mantém também sua paixão por dois gatos, Contessa e Zorro”. Ainda assim, Bento XVI continua a defender, com a determinação e a solidez intelectual que lhe são características, a centralidade da missão eterna da Igreja Católica.

Ele disse: “A Igreja é o lugar da transmissão da fé e o lugar no qual, pelo batismo, fomos imersos no mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, que nos liberta da prisão do pecado, nos concede a liberdade de filhos e nos introduz na comunhão com o Deus trinitário. Ao mesmo tempo, somos imersos na comunhão com os outros irmãos e irmãs de fé, com todo o Corpo de Cristo, libertados do nosso isolamento[5]. Contudo, o aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), que pretendeu renovar a missão espiritual da Igreja, dando aos leigos um maior protagonismo, nomeadamente através de sua inserção nas Pastorais sociais, Movimentos e Novas Comunidades, não conseguiu trazer, ao catolicismo, tempos de paz e de concórdia. Nas últimas décadas, escândalos como o do Banco Ambrosiano[6] e o dos abusos sexuais por eclesiásticos, problemas como o da Teologia da Libertação, o do celibato dos sacerdotes, o da negação dos métodos contraceptivos artificiais, o da reprodução tecnicamente assistida, a par do dos meios profiláticos que a Igreja considera como inadequados para o tratamento do HIV/AIDS, abalaram profundamente a relação dos fiéis com a Igreja Católica.

Recentemente, no dia 16 de março, o diário Avvenire, órgão da Conferência Episcopal Italiana, publicou uma entrevista concedida pelo Papa Emérito, escrita em alemão e traduzida pelo jesuíta belga Jacques Servais. Antes, as declarações de Bento XVI foram divulgadas pelo Arcebispo Dom Georg Gänswein, Prefeito da Casa Pontifícia e Secretário Particular do Papa Emérito, no Congresso Por Meio da Fé. Doutrina da Justificação e Esperança de Deus na Predicação dos Exercícios Espirituais, realizado na Reitoria da Igreja del Gesù, em Roma, entre 8 e 10 de outubro de 2015, na altura em que decorria a XIV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos.

Bento XVI, que raramente concede entrevistas públicas, falou acerca da “crise profunda” que a Igreja enfrenta, desde o Concílio Vaticano II. Outrora, lembrou o Papa Emérito, a Igreja acalentou a crença da possibilidade da perda da salvação eterna ou, por outras palavras, defendeu a hipótese de as pessoas irem para o Inferno. Ou seja, consistiu um dos pilares norteadores do catolicismo, durante séculos, a ideia de que fora da Igreja não há salvaçãoextra Ecclesiam nulla salus. De acordo com a análise levada a cabo por Bento XVI, “os missionários do século XVI estavam convencidos de que a pessoa que não foi batizada se condena eternamente. Na Igreja Católica, depois do Concílio Vaticano II, tal convicção foi definitivamente abandonada”, o que originou, segundo o Sumo Pontífice, “uma crise profunda em duas vertentes”. Na verdade, “isto parece tolher qualquer motivação para um futuro compromisso missionário”; entretanto, inquiriu o Papa, “por quê tentar convencer as pessoas a aceitarem a fé cristã, quando elas podem salvar-se sem ela”? Para os cristãos surgiu, portanto, uma questão fundamental: atualmente, “ficou incerta e problemática a obrigatoriedade da fé e da sua forma de vida”. Refletindo acerca da evolução do dogma, no período situado entre a Idade Média e o Renascimento, que caracterizou o início do embate entre a tradição, a modernidade e a secularização, na Europa e no mundo, Bento XVI refere que, se na medievalidade, se podia aceitar que, “na substância, o gênero humano se tornara católico e que o paganismo existia agora somente nas margens, a descoberta do Novo Mundo, no início da era moderna, mudou radicalmente as perspectivas”.

Entrementes, considera Sua Santidade, “na segunda metade do século passado se desenvolveu completamente a consciência de que Deus não pode deixar ir para a perdição todos os não batizados e que, também, uma felicidade puramente natural não representa, para essas pessoas, uma resposta real à questão da existência humana”. Bento XVI rejeita a ideia do cristão anônimo, elaborada por Karl Rahner, SJ, tal como a doutrina relativista de que todas as religiões são igualmente válidas para alcançar a vida eterna, na medida em que “seriam meios de salvação e, neste sentido, devem considerar-se equivalentes em seus efeitos”.

Aludindo às ideias do Cardeal Dom Henri de Lubac, SJ, e de alguns outros teólogos acerca da suposta “substituição vicária de Cristo[7], o Pontífice alemão recomenda, em nossos dias, uma “reflexão” acurada. No que diz respeito à relação do ser humano com a tecnologia e o amor, Bento sublinha a importância do afeto, afirmando que, “na dureza do mundo tecnológico, no qual os sentimentos já não contam, aumenta a expectativa de um amor salvífico que seja doado gratuitamente”, ou seja, urge a “misericórdia de Deus e sua delicadeza” numa época em que a racionalidade tecnológica parece ter ofuscado o papel da sensibilidade e do querer.

Adversário do relativismo que assola as sociedades ocidentais, atitude que, genericamente, tem vindo a designar-se por pós-modernidade, Joseph Ratzinger viveu grande parte das convulsões que mudaram o curso da História, no século XX e, também, neste século. Ordenado sacerdote em 1951, ele teve a oportunidade de, em diversas oportunidades, manifestar o empenho em termos quer doutrinais, quer litúrgicos. Bento XVI, no livro A Fé e o Futuro, publicado em 2008 e ainda inédito no Brasil, previu tempos difíceis para a Igreja Católica. Ele escreveu: “A igreja diminuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplificação que atravessou, da capacidade renovada de olhar para dentro de si. Por que os habitantes de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. E descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo”.

Em 16 de setembro de 2010, na entrevista concedida durante o voo ao Reino Unido, o então Vigário de Cristo reiterou que “uma Igreja que procura sobretudo ser atraente já estaria num caminho errado, porque a Igreja não trabalha para si, não trabalha para aumentar os próprios números e, assim, o próprio poder. A Igreja está ao serviço de um Outro: não serve a si mesma, para ser um corpo forte, mas serve para tornar acessível o anúncio de Jesus Cristo”, dado que ela só terá sentido se for em Cristo, por Cristo e com Cristo.

Corroborando a posição assumida por Bento XVI a respeito da crise que a Igreja Católica está vivendo, Dom Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, considerou, em declarações prestadas a Le Journal du Dimanche, que “nosso combate é Cristo, nossa referência é o Evangelho. Eu penso que a grande crise que nós atravessamos é uma crise antropológica que tem vindo a minar os fundamentos do Ocidente”. Deste modo, o Cardeal guineense defende que “uma sociedade sem Deus, uma sociedade secularizada, não pode responder às necessidades do ser humano. O bem-estar material não pode satisfazer suas necessidades”.

Apesar de a Igreja Católica ter como fundamento um conjunto de preceitos que se insere na abertura à transcendência, após o Concílio Vaticano II, às vezes sem um rumo claramente definido, ela tem tentado a popularidade desde o relativismo mundano, chegando a minorar o peso da mensagem da qual é a guardiã. Bento XVI, à luz da pædagogia perennis que o orienta, tem advertido religiosos e leigos para o desejo de ver a Igreja de hoje retomar os rumos da Igreja de sempre. Sua voz, que não é isolada, é, no entanto, uma voz minoritária num tempo em que o sentido festival da existência humana, alicerçado no Carpe Diem, parece coroar os atos e as intenções de grande parte dos seres humanos, incluindo os católicos.

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* Alguns analistas consideram que, no caso da Igreja, o termo seria “renunciou”, já que o ele é chefe de uma Instituição religiosa. Abdicação seria aplicada apenas em referência ao seu afastamento da Chefia do Estado do Vaticano, onde ele é monarca. Sendo assim, aconselhariam o uso dos dois termos, “abdicou” e “renunciou” para tratar do ato de Bento XVI. No que diz respeito à “abdicação”, no entanto, deve-se esclarecer que o Papa é, além de responsável pelos destinos da Igreja Católica, o último monarca absolutista da Europa. Por isso, os familiares dos Papas falecidos, as chamadas “famílias papais”, são, na Europa, aqueles que detêm uma dignidade nobiliárquica superior à de qualquer outra família nobilitada. Adota-se aqui o uso apenas do termo “abdicou”, seguindo a explicação, ao invés de “abdicou” e “renunciou”, como sugerem alguns.

** O SJ refere-se à Companha de Jesus (do Latim, Societas Iesu, resultando em S.J., SJ, ou SI). Ou seja, significa membro da Companhia de Jesus.

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ImagemPapa Emérito Bento XVI” (Fonte):

https://imagens.publico.pt/imagens.aspx/444492?tp=KM&db=IMAGENS

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] Ver:

RICHARD P. McBRIEN, Os Papas. Os Pontífices, de São Pedro a João Paulo II, 2.ª ed., São Paulo, Edições Loyola, 2004, trad. do inglês por Barbara Theoto Lambert – revisão de Renato da Rocha Carlos, págs. 258-260.

[2] Declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”.

[3] Ver:

PAUL KREINER, “Seiner Heiligkeit Untreuer Kammerdiener”, Der Tagesspiegel, Berlim, 30.05.2012.

Disponível online:

http://www.tagesspiegel.de/weltspiegel/vatileaks-seiner-heiligkeit-untreuer-kammerdiener/6686532.html

[4] Ver:

GIANLUIGI NUZZI, Sua Santidade. As Cartas Secretas de Bento XVI, Rio de Janeiro, Leya, 2012, trad. do italiano por Maria João Vieira – revisão de Fabíola Mattos, 301 (2) págs.

[5] Ver:

BENTO XVI (Organização de Giuliano Vigini), Minha Herança Espiritual, São Paulo, Paulus, 2013, trad. do italiano por José Bortolini – revisão de Cícera Gabriela Sousa Martins e Tiago José Risi Leme, pág. 46.

[6] O Banco Ambrosiano (posteriormente renomeado como Banco Ambrosiano Veneto, na sequência da fusão com o Banco Católico do Veneto) foi um dos principais Bancos privados católicos italianos, tendo, como principal acionista, o Instituto para as Obras de Religião. No começo do Pontificado de São João Paulo II, o Instituto para as Obras de Religião e o Banco Ambrosiano financiaram o Solidarność, sindicato polaco criado durante as revoltas de Gdansk, e os Contras, da Nicarágua.

Em início da década de 1980, no âmbito da Guerra das Malvinas, a Argentina procurou adquirir, no mercado negro, mísseis Exocet. Após a Inteligência britânica ter detectado um depósito de duzentos milhões de Dólares do Banco Andino de Lima – subsidiário e propriedade integral do Banco Ambrosiano – no Banco Central do Peru, soube-se que a soma havia sido provida pela Ambrosiano Holdings. O Ambrosiano, que na altura se encontrava em processo de falência, ainda não havia fechado as suas portas porque o Instituto para as Obras de Religião se comprometeu respaldá-lo. Entre os materiais sequestrados pelo juiz encarregado do caso havia um contrato de provisão de cinquenta e dois mísseis Exocet pelo preço unitário de novecentos e oitenta e cinco milhões de dólares. A transação esteve a cargo do Capitão de Mar-e-Guerra Carlos Alberto Corti, um dos argentinos membros da Loja P-2. No centro das operações que levaram à ruína do Banco estava o seu principal executivo, Roberto Calvi, os seus companheiros da Loja Maçônica P2 (Propaganda Due). Após a morte repentina do Papa João Paulo I, em 1978, surgiram rumores de que haveria ligações com as operações ilegais daquela instituição (hipótese explorada no filme The Godfather, Parte III). A empresa Touche Ross, de Londres, foi a liquidatária do Banco Ambrosiano.

Ver:

Horacio Verbitsky, “A las Malvinas en Subte”, Página 12, Buenos Aires, 25.03.2012. Disponível online:

http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-190366-2012-03-25.html

Ver:

JOHN CORNWELL, Nos Corredores do Vaticano. A Morte de João Paulo I, Lisboa, Edições 70, s. d. [1990], trad. do inglês por Carlos Santos – revisão de Moura Pimenta, 402 págs.

[7] Segundo o conceito de “substituição vicária”, a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, não salvaria as almas fora dela, pelo simples fato de sua existência. Contudo, de acordo com Bento XVI, esta é outra maneira de dizer que as almas podem salvar-se sem o concurso da fé, o que é impossível.

AGÊNCIA DE COOPERAÇÃO BILATERALANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

Primeira Cúpula Humanitária Mundial: o que será debatido e o que esperar?

Pela primeira vez, em 70 anos de história, a Organização das Nações Unidas (ONU) preparará uma Cúpula Humanitária Mundial. A razão é simples: o mundo está enfrentando a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra…

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ANÁLISES DE CONJUNTURANOTAS ANALÍTICAS

COMUNICADO DE FERIADO CORPUS CHRISTI

Caros Leitores do CEIRI NEWSPAPER

Informamos que, devido ao feriado da Corpus Christi, a partir de quinta-feira, dia 26 de maio, não serão publicadas Notas Analíticas, nem Análise de Conjuntura. Voltaremos às atividades no dia 30 de maio, segunda-feira, com as respectivas Notas Analíticas e Análise de Conjuntura agendadas para esta data, retomando as atividades normais para a semana.

Como é nosso padrão, ao longo deste período, iniciando no dia 26 de maio, manteremos as consultas e, caso ocorram fatos que exijam acompanhamento mais intenso, assim o faremos, postando Notas Analíticas Extras sobre os  acontecimentos, e/ou Análises de Conjuntura Extras.   

Agradecemos à gentileza de todos os que têm contribuído direta e indiretamente com a reflexão e o estudo dos Colaboradores do Site, bem como com a avaliação dos acontecimentos e a disseminação da informação, de maneira a cooperar com o esclarecimento da sociedade e o seu desenvolvimento.

Antecipadamente, desejamos a todos um feriado com muita paz, amor e cordialidade.

Fraternalmente,

Conselho Editorial do CEIRI NEWSPAPER

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Líbano promove eleições para os 26 municípios do país

No último domingo, 8 de maio de 2016, o Líbano promoveu as primeiras eleições municipais desde 2010. Apesar do aumento de candidatos de base, em resposta à crise do lixo em Julho de 2015, em Beirute, os tradicionais e já estabelecidos grupos políticos demonstraram confiança com relação aos resultados, fazendo jus aos resultados esperados para a primeira fase das eleições. O Movimento Futuro, do sunita Saad Hariri, anunciou vitória em Beirute, enquanto o Hezbollah reivindicou vitória no Vale do Bekaa.

Outras três rodadas de votação ocorrerão nas próximas semanas em outras partes do país para preencher os mais de 10.000 assentos locais em Conselhos Municipais. As eleições municipais em quatro estágios tiveram início em Beirute e no distrito de Bekaa-al-Hermel, no dia 8, enquanto as eleições no Monte Líbano serão realizadas em 15 de maio. Eleições no sul do Líbano, nos arredores xiitas da capital libanesa e em Nabatieh ocorrerão em 22. No norte do Líbano e em Akkar, em 29 de maio.

A política libanesa é regida por uma democracia consociativa do tipo confessional que busca estabelecer um frágil equilíbrio entre o Estado moderno e as diferentes comunidades religiosas tradicionais no país. O Poder Executivo estabelece constitucionalmente que o Presidente deve ser um cristão (na prática, um maronita), o Primeiro-Ministro um muçulmano sunita, o Presidente ou Porta-Voz do Parlamento um muçulmano xiita, e os Vice-Primeiro-Ministro e Vice-Presidente do Parlamento, um ortodoxo oriental. O poder legislativo unicameral é exercido por uma Assembleia Nacional de 128 membros. A composição confessional da legislatura, conforme o acordo de Taif de 1989, é a seguinte: 34 maronitas, 27 sunitas, 27 xiitas, 14 gregos ortodoxos, 8 gregos católicos, 8 drusos, 5 armênios ortodoxos, 2 Alauitas, um armênio católico, um protestante, e 1 de minoria cristã. Esta rígida distribuição de assentos parlamentares obedece à proporção de 50% de cadeiras cristãs e 50% muçulmanas.

Desde 2005, após o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, o Líbano está polarizado entre, de um lado, a Aliança 8 de Março, liderada pelo Hezbollah, contendo o Amal, o Movimento Patriótico Livre, o Partido Socialista Progressista e outros, apoiada por Teerã e Damasco; e, de outro lado, a Aliança 14 de Março, liderada por Saad Hariri, apoiada por Riad e Washington, e composta pelo Movimento Futuro, as Forças Libanesas, o Partido Kataeb, dentre alguns outros.

As eleições municipais no Líbano ocorrem a cada seis anos, com os partidos políticos muitas vezes formando listas conjuntas de candidatos, frequentemente orientados em linhas sectárias e liderados por antigos senhores de guerra. De acordo com Amanda Rizkallah, doutoranda em Ciência Política na Universidade da Califórnia, Los Angeles, historicamente, as eleições municipais no Líbano têm sido dominadas por membros de famílias políticas tradicionais aliados a partidos sectários nacionais. As eleições municipais são frequentemente desprovidas de competição significativa. Os vencedores são geralmente aqueles associados aos polos tradicionais de poder, sejam partidos ou famílias poderosas. Uma vez eleitos, os representantes servem como mais um ponto de conexão para os cidadãos que tentam navegar no sistema de nepotismo de “wasta” do Líbano, sob o qual quem você conhece é a chave para conseguir o que quer. Os candidatos para as eleições municipais raramente apresentam plataformas programáticas e agendas concretas para o desenvolvimento local – ainda que os novos movimentos de base e independentes pretendam mudar este cenário.

Para agravar este contexto, a grande maioria dos cidadãos libaneses só pode votar em sua cidade natal de origem – e não no município em que vivem, segundo a Lei de 1926 instaurada pelo mandato francês. Essa restrição ao direito de voto tem implicações de longo alcance em um país onde a migração rural-urbana e mudanças demográficas induzidas pela guerra são generalizadas. Para Beirute, este sistema é particularmente importante: apesar de ser o lar de pouco menos de dois milhões de habitantes, a capital tem apenas 470.000 eleitores registrados, muitos dos quais vivem no exterior. Isto significa que a maioria das pessoas que vivem na cidade não tem direito efetivo ao voto, mas alhures.

As eleições parlamentares, que deveriam ter sido realizadas em 2013, foram adiadas duas vezes pelo Governo, citando preocupações de segurança ligadas à instabilidade política, exacerbada pelo conflito sírio. O Legislativo já estendeu seu mandato por duas vezes, a primeira em maio de 2013, por 17 meses, e a segunda em novembro de 2014, por 31 meses, com previsão de ir até junho de 2017. O país está sem um Presidente há dois anos, desde maio de 2014, e não promove eleições legislativas desde 2009. O parlamento também não promove sessões legislativas desde novembro de 2015, já que os partidos cristãos Movimento Patriótico Livre (ou Partido Aounista, liderado por Gebran Bassil) e as Forças Libanesas (antiga milícia durante a guerra civil e liderada por Samir Geagea) se recusam a participar de qualquer sessão legislativa cuja agenda não inclua a votação de uma nova lei eleitoral.

Sob forte esquema de segurança, milhares de libaneses foram às urnas em 8 de maio para as eleições municipais em Beirute, no vale do Bekaa e em Baalbek-Hermel. Os residentes de Beirute elegeram um Conselho Municipal de 24 lugares para administrar os assuntos da cidade pelos próximos seis anos. Todos os 24 assentos foram para a lista “Beirutes”, liderada por Jamal Itani e apoiada pelo “Movimento Futuro”, do ex-primeiro-ministro sunita Saad Hariri, que normalmente domina as eleições na capital. As listas apoiadas por Hariri ganharam na maioria das áreas sunitas; as listas apoiadas pelo druso Walid Jumblatt ganharam nas aldeias drusas. Na cidade de maioria cristã de Zahleh, na Bekaa, uma lista de candidatos dos partidos cristãos Movimento Patriótico Livre, Forças Libanesas e Partido Kateb ganhou todos os assentos no Conselho. Na capital, a lista conjunta dos “Beirutes” foi apoiada por uma coligação dos principais partidos políticos do Líbano, incluindo o Movimento Futuro, o Partido Socialista Progressista, Al-Jamaa Al-Islamiya, o Movimento Amal, Kataeb, as Forças Libanesas e o Movimento Patriótico Livre. Os blocos rivais se uniram em Beirute para apoiar a mesma lista “Beirutes” contra o recém criado grupo independente, o “Beirut Madinati”.

A vitória dos partidos tradicionais em Beirute desafiou o movimento independente e secular “Beirut Madinati” que buscava galvanizar votos dos eleitores irritados com a paralisia política no país. A votação de 8 de Maio é a primeira desde que a crise do lixo de dez meses em Beirute provocou protestos maciços anti-governo. A crise é decorrente do fechamento do principal aterro da cidade, Naameh, ocorrido em meados de julho de 2015, devido ao excesso de capacidade. Montanhas de lixo amontoaram-se na capital do país e nas montanhas circundantes, enquanto a falta de alternativas adequadas para depósitos do lixo estimulou protestos contra o fracasso do Governo em encontrar uma solução. Os políticos continuam a debater sobre como lidar com a situação, enquanto ativistas, organizações não governamentais e municípios tomam iniciativas próprias, como reciclagem local e tratamento de resíduos. Desde então, organizações de base e outros grupos tradicionalmente excluídos desafiam o establishment político dominante, amplamente visto como corrupto e inapto.

O movimento Beirut Madinati, em português, “Beirute, minha cidade”, promete limpar a política – e as ruas – da cidade. A aliança secular e apartidária é composta por professores, empresários, artistas, educadores, engenheiros e pescadores como a conhecida diretora de cinema Nadine Labaki. O novo movimento foi fundado em 2015, logo após a crise do lixo no verão daquele ano, exigindo uma inspeção nas paralisadas instituições governamentais. Sua lista de 24 candidatos independentes era dividida igualmente entre homens e mulheres, muçulmanos e cristãos, e prometia endereçar questões de trânsito, lixo e corrupção.

A campanha “Beirut Madinati” opõe-se aos partidos arraigados e à classe política tradicional profundamente enraizada. Seus candidatos acessaram seus eleitores através de reuniões em salões na cidade, comícios e captadores de recursos, mas muitos questionam se os tecnocratas independentes podem ter sucesso em um sistema dominado por políticos vitalícios e por uma lógica institucionalmente sectária.

A nova iniciativa popular ganhou 40% dos votos nas eleições municipais na capital libanesa (que é dividida em três zonas), apesar de todos os assentos do Conselho terem ido para a classe política estabelecida. Os independentes ficaram em segundo lugar, e os vitoriosos do “Beirutes”, apoiados pelos partidos políticos arraigados, ficaram com cerca de 48% dos votos e todos os assentos. Os votos restantes foram para duas outras listas, como a secular “Cidadãos em um Estado” da qual o ex-ministro do trabalho Charbel Nahas faz parte. Os resultados oficiais emitidos pelo Ministério do Interior mostraram que a lista dos “Beirutes”, liderada por Jamal Itani, ganhou cerca de 15.000 votos a mais do que “Beirute Madinati”. Yusra Sidani, concorrendo com os Beirutes, conseguiu angariar a pontuação máxima, com 47.465 votos, em comparação com os 31.933 votos obtidos por Ibrahim Mneimneh, que lidera a lista do Beirute Madinati. A lista “Beirutes”, com o maior número de votos, obteve todos os assentos, já que as eleições municipais são majoritárias e os vitoriosos obtém todas as cadeiras.

O vice-chefe do Hezbollah, Sheikh Naim Qassem, declarou vitória e antecipou o sucesso de sua lista “Lealdade e Desenvolvimento” em 60 municípios da região do Vale do Beka, para o distrito oriental de Baalbek, e para a cidade fronteiriça de Brital. A lista “Lealdade e Desenvolvimento” é formada pelo Hezbollah, pelo “Movimento Amal” e outros partidos da coalizão “8 de Março”. O Hezbollah e seus aliados concorreram em 80 municípios, dentre 143 no Vale do Bekaa, tendo recebido quase todos os assentos, e tendo vencido nas cidades de Hawsh Sneid no Bekaa, Hawsh al-Nabi, Miqraq, Qarha, Hlabta, al-Labweh e Majdaloun. Em Beirute, o Hezbollah somente apoiou prefeitos de bairros, não tendo apoiado nenhum candidato às eleições municipais na cidade.

Apesar da popularidade do Hezbollah na cidade de Baalbek, famílias notáveis formaram a lista “Baalbek Madinati” para desafiar a lista “Desenvolvimento e Lealdade, apoiada pelo Hezbollah e seu aliado Amal, os dois principais partidos xiitas do país. Listas semelhantes foram formadas não somente no Bekaa, mas em outras áreas também predominantemente xiitas, como os subúrbios de Beirute e o Sul do Líbano – em meio à crescente insatisfação com a governança local. Residentes locais têm formado suas próprias listas, alheias à partidos políticos. Ainda que o Hezbollah e o Amal devam ser vitoriosos na maioria dos municípios em que estão concorrendo, o Hezbollah pela primeira vez na história pediu aos seus apoiadores que votassem em suas listas. “Não podemos deixar a questão das eleições municipais para as famílias”, disse Nasrallah, no último 6 de maio de 2016, em referência a um número de listas eleitorais em todo o Bekaa, compostas por candidatos de notáveis em suas respectivas cidades, insatisfeitos com os conselhos locais regidos pelo Hezbollah e pelo Amal, eleitos na votação de 2000.

Com respeito ao comparecimento às urnas, em Beirute foi reduzido, com 20,14% de participação relatada. Contudo, este não é um número historicamente baixo. Em 2010, 18% dos moradores de Beirute votaram; em 1998, pouco mais de 30%. Números ligeiramente superiores são registrados nas votações parlamentares na cidade: 33%, em 2009. O comparecimento às urnas em outras regiões foi maior para votação nos novos Conselhos Municipais e Mukhtars, ou funcionários do governo local, tendo atingido 52,6% em Zahle, 43,5% em Rashaya, 42% no Oeste do Bekaa, 62% em Baalbek, e 45% em Hermel.

A Associação Libanesa para Eleições Democráticas (LADE), grupo de monitoramento eleitoral, relatou grande aumento das irregularidades em comparação com a última eleição, incluindo a compra de votos, violência e relatório de um funcionário interferindo na votação para beneficiar um grupo. O grupo de observação disse que 647 irregularidades foram registradas em Beirute e no vale do Bekaa, em comparação com 314 nas mesmas duas áreas, em 2010. O monitoramento observou um declínio significativo no padrão do processo eleitoral, com locais de votação mal preparados e caos na triagem e transporte das cédulas de voto.

Os resultados eleitorais em Beirute mostraram, de acordo com o editorial do l’Orient le Jour Daily, que “membros da sociedade civil não podem explodir um establishment político, não importa o quão degenerado ele seja”. Mas completou: “o que Beirute Madinati fez é fundamental: ele semeou um grão que irá contribuir grandemente para uma mudança inevitável de mentalidades”. Hilal Khashan, Chefe do Departamento de Ciência Política na Universidade Americana de Beirute, disse ao Middle East Eye que a sociedade civil ainda é fraca no Líbano. “Ela se eleva contra o sistema político sectário do país. É desligada do processo político”, disse. E acrescentou que o movimento Beirute Madinati reflete uma elite cultural que ainda não conseguiu atingir o público em geral.

Ainda assim, especialistas saudaram os resultados do Beirute Madinati como uma vitória, apesar de não ter ganho nenhum dos 24 assentos do Conselho da cidade. O analista Rabee al-Haber disse que os resultados da lista da sociedade civil “não foram um fracasso, porque seis partidos se aliaram contra ela”. Além disso, o “Beirut Madinatiobteve mais do que 60% dos votos no distrito de maioria cristã de Achrafieh, sendo cerca de 30% dos votos sunitas na cidade – um número surpreendentemente elevado, tendo em conta o apoio generalizado a Hariri, entre a comunidade sunita.

Com um sistema proporcional, os independentes estariam representados no novo Conselho Municipal com, ao menos, 10 lugaresafirmou o chefe da Estatística Libanesa. Sob o atual sistema de votação, os eleitores têm tantos votos quantos sejam os lugares – em listas diferentes, se assim escolherem – e os candidatos que ganham o maior número de votos ganham as eleições. Caso se tratasse de um sistema de representação proporcional, os eleitores teriam escolhido uma lista e cada uma teria recebido assentos na proporção da sua quota global de votos obtidos, explicou. 

As eleições municipais no Líbano demonstraram a possibilidade de canalizar as energias dos protestos espontâneos e as legítimas frustrações populares na forma de uma oposição formal e institucional à elite dominante. Em um país onde o discurso sectário muitas vezes domina tanto as campanhas políticas quanto a análise política, a campanha popular de base e secular do “Beiruti Madinadi” é um lembrete poderoso de que a mudança, ainda que lenta e incremental, é possível. Neste sentido, as votações para as eleições municipais no Líbano prometem dar fôlego a esta democracia tão debilitada por instabilidades internas e turbulências externas.

No atual contexto, estas eleições são especialmente relevantes, já que manifestantes e membros da sociedade civil apelam por mais recursos fiscais e maior descentralização para os conselhos municipais. Os municípios tornaram-se a linha de frente de facto na gestão tanto da crise do lixo quanto da situação do enorme influxo de refugiados que entram no Líbano diariamente. A segunda etapa de eleições ocorreram na região do Monte Líbano, em 15 de maio de 2016. Os resultados oficiais ainda não foram disponibilizados ao público.

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ImagemMulher libanesa após votação no último Domingo 8 de Maio de 2016” (FonteAFP/Anwar Amro):

https://now.mmedia.me/lb/en/NewsReports/566962-lebanon-votes

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Terrorismo Nuclear: a soma de todos os medos

A palavra “nuclear” evoca o grande medo da humanidade na segunda metade do século 20: a terceira guerra mundial, que decorreria de um momento “quente” da Guerra Fria, como a crise dos mísseis de Cuba, e o subsequente “inverno nuclear”, que ocorreria após a “Mútua Destruição Assegurada”, MAD, em sua sigla em inglês (“Mutual Assured Destruction”), aniquilando grande parte da vida no planeta. A imagem da explosiva “nuvem cogumelo sobre Hiroxima e Nagasaki está indissociavelmente ligada a essa palavra, despertando pavor em nossos corações e mentes.

A palavra “terrorismo” evoca o grande medo desta primeira metade do século 21: um atentado em grande escala que causaria disrupção da sociedade em escala local, nacional e até mesmo global. Esse medo generalizado se instala após o paroxismo dos ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, sendo reforçado pelos ataques que se sucederam desde então. A imagem da queda das Torres Gêmeas do World Trade Center está, por sua vez, fortemente associada a esta palavra.

Colocar essas palavras juntas, na forma de “terrorismo nuclear”, cria um espectro ainda mais assustador que cada uma individualmente já desperta. Essa combinação de palavras soa como a “soma de todos os medos” da humanidade. Esse temor foi ainda reforçado recentemente, desde que as autoridades europeias revelaram que o grupo por trás dos ataques terroristas de novembro de 2015 em Paris também estava espionando um funcionário sênior do Centro de Estudos Nucleares de Möl (SCK/CEN), na Bélgica, dando concretude a essa terrível ameaça potencial.

Entretanto, o que “terrorismo nuclear” realmente significa? As matérias veiculadas pela mídia sobre o tema nem sempre explicam, e, às vezes, não conseguem distinguir entre eventos completamente diferentes um do outro e que, felizmente, nunca vieram a efetivamente acontecer até hoje. Na verdade, o “terrorismo nuclear” pode se referir a diversos eventos possíveis, com diferentes graus de probabilidade de ocorrência e de gravidade de consequências. Devemos buscar entender esses eventos para priorizar a prevenção, proteção e remediação daqueles que representam os maiores riscos. Desde já é importante saber, para reduzir a angústia gerada por esse espectro ameaçador, que o cenário mais terrível associado ao terrorismo nuclear é também o menos provável.

O terrorismo nuclear muito provavelmente não será algo como um “califa” de um autodenominado “Estado Islâmico” lançando com sucesso um míssil balístico com uma ogiva nuclear em uma grande cidade, incinerando milhões de pessoas em uma “nuvem cogumelo” gigante. Há tantas barreiras técnicas, financeiras, militares e logísticas contra isso, que seria extremamente improvável até mesmo para o grupo extremista nuclear mais obcecado ter chance de fazer isso acontecer. Entretanto, o fato do terrorismo nuclear muito pouco provavelmente teria condições de trazer o pesadelo da Guerra Fria à realidade não quer dizer que possamos relaxar a necessária vigilância permanente. Existem três tipos possíveis de terrorismo nuclear ou radiológico.

A primeira possibilidade, a mais difícil de se concretizar, mas de longe a mais devastadora caso se concretize, seria uma organização terrorista adquirir, através da compra ou roubo do arsenal de um Estado nuclearmente armado, ou construir por seus próprios meios, uma bomba nuclear, e em seguida detoná-la numa grande cidade. Seria um cenário de baixíssima probabilidade, mas de elevadíssima gravidade.

A segunda possibilidade seria a detonação de uma “bomba suja”, ou seja, uma arma feita de material radioativo ligado a explosivos convencionais, por vezes referida como um “dispositivo de dispersão radiológica”, ou RDD, da sigla em inglês “Radiological Dispersal Device”. A concretização deste cenário aparenta ser, a princípio, tão simples, que chega a ser surpreendente o fato dele nunca ter ocorrido. Seria um cenário de probabilidade relativamente alta, mas de gravidade relativamente menor.

A terceira possibilidade, cuja probabilidade de ocorrência, quando se considera as barreiras para sua concretização, bem como a gravidade das consequências, caem em algum lugar entre as duas outras, seria a sabotagem de uma instalação nuclear, induzindo a ocorrência de um acidente severo, com liberação de material radioativo em áreas externas circunvizinhas da instalação. Seria algo como um acidente de Fukushima provocado pela ação terrorista. Seria um cenário de probabilidade e gravidade intermediárias, em relação aos anteriores.

O cenário menos provável, mas de maior gravidade: uma arma nuclear.

A razão pela qual este primeiro cenário seja altamente improvável reside na dificuldade de roubar, comprar ou construir uma arma nuclear. Embora existam cerca de 10.000 ogivas nucleares no mundo, elas são fortemente vigiadas e não são armazenadas em condições de pronto uso. Roubar uma dessas armas pronta ou suas partes para posterior montagem exigiria a cooperação de muito mais do que apenas algumas pessoas corruptas ou coagidas.

Existe a preocupação de que terroristas poderiam ser capazes de comprar uma arma nuclear de uma potência nuclear hostil aos interesses ocidentais, como talvez a Coreia do Norte ou o Paquistão. Esse medo, entretanto, parece ser exagerado. Um ataque nuclear terrorista não iria permanecer no anonimato por muito tempo e logo seria rastreado o Estado a quem pertencia a arma através das técnicas forenses nucleares (“nuclear forensics”), capazes de identificar com muita precisão a origem do material físsil empregado. Poucos líderes nacionais seriam loucos, ingênuos ou suicidas o suficiente para pensar que não seriam descobertos, ou que, se fossem, não haveria retaliações maciças contra o seu país.

Quanto à construção de uma arma com seus próprios meios, é altamente improvável que possa estar potencialmente ao alcance das capacidades de uma organização terrorista, mesmo que tecnicamente sofisticada, algo tão complexo e de longo desenvolvimento quanto as ogivas de propriedade dos Estados nuclearmente armados. Ainda mais improvável seria fazer isso de forma totalmente secreta, sem ser descoberto ao longo do processo. Não se deve, entretanto, descartar a possibilidade de um dispositivo nuclear improvisado ou IND, da sigla em inglês (“Improvised Nuclear Device”), de menor complexidade e desenvolvimento mais rápido, que poderia ser algo semelhante à bomba de Hiroxima.

No entanto, além de equipamentos e conhecimentos, a organização terrorista em busca de uma arma nuclear precisaria vencer o que seria o maior obstáculo ao seu intento maligno: obter uma quantidade significativa de plutônio “weapon grade”, ou urânio altamente enriquecido. Teoricamente, a massa crítica de uma esfera nua de urânio-235 puro (100% enriquecido) é de 52 kg num diâmetro de 17 cm. Para o plutônio-239, os valores são inferiores (10 kg; 9,9 cm). Entretanto, não é possível obter-se esses materiais na sua forma pura, sendo as quantidades necessárias na prática bastante superiores, dependendo do grau de enriquecimento do urânio e grau de “contaminação” do plutônio por seus demais isótopos superiores.

Quantidades de urânio altamente enriquecido e/ou plutônio “weapon grade” superiores a 1 kg são encontradas em apenas 24 países, de acordo com o relatório de 2016 da Iniciativa Contra a Ameaça Nuclear, NTI da sigla em inglês (“Nuclear Threat Initiative”). As condições de segurança desses materiais em cada país são avaliadas nesse relatório. Note-se que esses materiais não existem no território nacional brasileiro.

Mesmo a Al Qaeda, que na década de 1990 e início de 2000 teve grandes recursos financeiros, uma estrutura de comando centralizada, e muitos cientistas ao seu serviço, não foi capaz de adquirir material adequado e suficiente para uma arma nuclear, apesar de seus supostos esforços à época. Existem relatos recorrentes de tentativas de venda de material nuclear desviado dos Estados em países na região do Mar Negro, mas nenhuma foi bem-sucedida, na medida em que foi dado a conhecer publicamente.

Nada disto deve ser interpretado como um “relaxamento” das preocupações da comunidade internacional com arsenais nucleares do mundo. É evidente que estaríamos todos inequivocamente mais seguros se houvesse menos material físsil especial disponível e menos países possuidores de armas nucleares prontas para uso no mundo. Apenas podemos afirmar que estamos muito mais propensos a ver o segundo cenário de um ataque, uma bomba suja, do que uma explosão nuclear no futuro próximo, desde que o nível de segurança da guarda desses materiais seja mantido e continuamente melhorado.

O cenário mais provável, mas de gravidade relativamente menor: uma bomba suja.

Como então se desdobraria tal cenário? Certamente nada nem de perto parecido às consequências de um ataque com uma bomba nuclear. Uma bomba suja não é de forma alguma semelhante a uma arma nuclear. Esta última depende de fissão e/ou fusão nuclear para criar uma explosão milhões de vezes mais poderosa do que a anterior. A bomba nuclear poderia espalhar radiação ao longo de centenas de quilômetros quadrados, enquanto que uma bomba suja só poderia fazê-lo em uma área muito mais limitada. Bombas sujas têm mais em comum com a medicina nuclear do que com a guerra nuclear.

Uma bomba suja não mataria imediatamente mais pessoas do que um explosivo comum. Seria uma arma tipicamente terrorista, no sentido em que seu propósito é semear o medo, pânico e terror. Na verdade, considerando a psicologia perversa do terrorismo, a mera alegação de que a explosão de uma bomba convencional, tais como as que são usadas nos ataques recentes, teria espalhado material radioativo já teria um efeito equivalente à explosão de uma bomba suja real, pelo menos no curto prazo.

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Foto do acidente radiológico de Goiânia com Césio 137, 1987. Foto: Luiz Novaes

Dito isto, se apoderar do tipo de material radioativo necessário para fazer uma bomba suja não seria difícil para uma organização terrorista. Existem inúmeros casos de furto e roubo desses materiais, sendo aquele que acarretou as maiores e tristes consequências no mundo o acidente radiológico de Goiânia, em 1987. Existem, literalmente, milhares de locais, em mais de 100 países, que contêm o tipo de fontes radioativas necessários, que têm muitos usos na agricultura, na indústria e na medicina. Essas fontes, que contem diferentes tipos de isótopos radioativos, são amplamente utilizadas, por exemplo, em hospitais e clínicas, para fins terapêuticos e diagnósticos. O furto de uma fonte de Césio-137 num hospital encontra-se na origem do acidente de Goiânia. Evento semelhante poderia estar na origem de uma bomba suja.

Embora os riscos sejam relativamente baixos e nenhuma bomba suja ter sido detonada até o momento, os governos nacionais tem uma forte razão para se preocupar com essa ameaça, na medida em que os materiais necessários para fazê-la encontram-se em milhares de locais e muitos desses materiais encontram em circulação. Além disso, a demanda pela aplicação desses materiais é crescente em todo mundo, na medida dos avanços da medicina e dos processos industriais.

A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA, de sua sigla, em inglês, “International Atomic Energy Agency”) rastreia todo material radioativo que os governos informam terem sido perdidos, roubados, ou que de alguma outra forma passaram a estar “fora do controle regulatório” nacional, mantendo a Incident and Trafficking Database (ITDB). A fact sheet” mais recente dessa base de dados relata 2.734 incidentes entre 1993 e 2014, sendo que apenas 49 envolvem urânio ou plutônio. Mostra também ter havido um aumento anual constante de incidentes de roubo e perda desses materiais desde a década de 1990. Considerando que a ITDB é baseada no relato voluntário por parte dos Estados membros da IAEA, pode-se presumir que esses números representam apenas a ponta do iceberg.

O que aconteceria se um material deste tipo fosse espalhado numa grande cidade? A resposta depende de muitos fatores. Para um olhar destreinado, o rescaldo da explosão de uma bomba suja não parece muito diferente do que as consequências de um ataque perpetrado com explosivos convencionais, como o ataque à Maratona de Boston, em 2013, os ataques de Paris, em novembro 2015, ou atentados terroristas mais recentes em Istambul, Jacarta, Bruxelas e Lahore. As autoridades policiais fariam uma varredura do local em busca de material radioativo, mas, dependendo dos isótopos utilizados, da quantidade de fumaça e detritos no ar, e da proximidade com a explosão, a falta de provas visuais imediatas pode fazer com que a confirmação e alerta da presença de material radioativo tarde um tempo mais ou menos longo.

Uma vez que o público tome conhecimento de que a bomba continha material radioativo, torna-se difícil frear a escalada de medo e caos. As autoridades teriam de decidir se deixariam as pessoas fugirem de forma desordenada, o que poderia reduzir a sua exposição à radiação (mas que também espalharia radiação por uma área mais extensa e facilitaria a fuga dos autores de tal crime), ou começaria uma operação de evacuação controlada, enfrentando o medo e pânico das pessoas, que irão querer se afastar do local o mais rápido possível.

Tantas variáveis estariam envolvidas em um potencial ataque com bomba suja que seria muito difícil prever suas consequências. A AIEA divide materiais radioativos em cinco categorias, da Categoria 1, que é tão prejudicial que a exposição por apenas alguns minutos a uma fonte não blindada pode ser fatal, à Categoria 5, que representa um risco relativamente baixo. A primeira tarefa para os socorristas seria, portanto, descobrir exatamente que tipo de material radioativo foi utilizado.

Os isótopos radioativos de categoria mais nociva estão associados a um aumento na incidência de diversos tipos de câncer, mas sua relação dose-efeito é probabilística e depende da concentração e do tempo ao qual uma pessoa foi exposta. Entretanto, os materiais de Categoria 5, tais como o amerício-241 (encontrados em para-raios), ou o estrôncio-90 (usado em braquiterapia), são mais facilmente disponíveis e, se uma quantidade suficientemente grande é reunida em um só local, podem também provocar uma dose prejudicial. Note-se, porém, que a identificação da categoria e quantidade do material envolvido no ataque muito pouco afetará o medo e pânico que se estabelecerá nas pessoas afetadas nos momentos iniciais.

Diversos estudos têm sido produzidos sobre como responder a um ataque de bomba suja, e muitos deles se concentram sobre os custos de evacuação e de descontaminação. Uma bomba suja não causaria níveis catastróficos de morte e ferimentos, mas dependendo de sua composição química, forma e localização, ela pode provocar enormes prejuízos devido aos custos de evacuação, realocação e limpeza. Edifícios poderiam ter de ser demolidos e os detritos removidos. O acesso a uma área contaminada pode ser negado por anos até o local ser limpo o suficiente para atender às normas ambientais de proteção ao público. Empresas fechariam, transportes parariam, empregos seriam perdidos.

Este tipo de convulsão social faz com que as bombas sujas sejam chamadas de “armas de disrupção em massa”, em analogia com as “armas de destruição em massa” nucleares, químicas e biológicas. O estudo de caso do acidente de Goiânia pode dar uma boa ideia dos reais efeitos de uma bomba suja.

O cenário intermediário em termos de probabilidade e gravidade: sabotagem.

Pode ser que os terroristas de Bruxelas que espionavam o alto funcionário do SCK/CEN estivessem buscando este terceiro cenário, de sabotagem de uma instalação nuclear. É difícil dizer o quanto eles chegaram perto disso. A Bélgica experimentou um grande incidente de sabotagem em sua usina nuclear de Doel-4, em 2014, quando alguém abriu uma válvula que permitiu o vazamento de óleo lubrificante da turbina que aciona o gerador elétrico de modo a que ela sofresse superaquecimento e praticamente se autodestruísse. Nenhum material radioativo foi liberado, mas o custo dos danos foi estimado entre US$ 100 e US$ 200 milhões.

Durante as investigações desse ato de sabotagem, descobriu-se que um trabalhador de empresa contratada para manutenção da usina havia abandonado o emprego para ir lutar a jihad na Síria. Note-se que essa pessoa não foi, entretanto, o responsável pelo incidente da turbina. A Bélgica, desde então, reforçou a segurança nas suas centrais nucleares, mas, aparentemente, a segurança em outras instalações nucleares permaneceu a mesma.

Tal como aconteceria num ataque de bomba suja, os resultados de um ataque a uma instalação nuclear podem variar muito, dependendo de vários fatores. O número de mortos imediato não seria necessariamente além do que seria causado pelo próprio explosivo. Mas o fator medo, efeitos na saúde a longo prazo, e as consequências econômicas podem ser significativas.

São particularmente sensíveis a ações de sabotagem a usinas nucleares em operação ou que foram descomissionadas nos últimos cinco anos. Também a reatores de pesquisa com potência superior a dois megawatts, bem como a instalações de reprocessamento de combustível nuclear usado e piscinas de armazenagem de combustível usado, em especial aquelas em que o combustível tenha sido nelas disposto nos últimos cinco anos e que não estão associadas a um reator nuclear em operação. O relatório anual da NTI estabelece um índice de vulnerabilidade dessas instalações existentes no mundo.

A vulnerabilidade das usinas nucleares a quedas deliberadas de aeronaves comerciais foi muito ressaltada após os ataques de 11 de setembro de 2001 e, mais recentemente, pelo acidente de Fukushima em março de 2011. A análise dessa vulnerabilidade tem sido objeto de vários estudos específicos pelos operadores e autoridades nacionais de segurança de forma a garantir que tal ato terrorista não conduza a um acidente severo com consequências fora da área de propriedade das centrais nucleares.

Poder-se-ia construir também um cenário em que um grupo de terroristas assumisse o controle de uma instalação nuclear e executasse uma série de ações que desencadeassem um acidente severo. Para prevenir tal cenário, torna-se necessário reforçar a segurança física dessas instalações e planejar operações militares de reação rápida caso isso venha ocorrer, de forma a reassumir o controle da instalação. Isso efetivamente vem sendo feito em quase todos os países. A própria segurança intrínseca das instalações nucleares, entretanto, faz com que tal cenário potencial se desenrole numa dinâmica relativamente lenta, o que, a princípio, permitiria o sucesso na atuação de uma força de reação rápida, caso a segurança física orgânica seja suplantada num primeiro momento.

As questões de segurança nuclear relacionadas com a prevenção, detecção e resposta a roubo, sabotagem, acesso não autorizado e transferência ilegal ou outros atos dolosos que envolvam materiais nucleares e outras substâncias radioativas e os seus recursos associados são abordados nas publicações da série de Segurança Nuclear da AIEA. Estas publicações são consistentes e complementam os instrumentos legais de segurança nuclear internacionais, como a Convenção sobre a Proteção Física de Material Nuclear, o Código de Conduta sobre Segurança e Proteção das Fontes Radioativas, a Orientação Suplementar sobre a Importação e Exportação de Fontes Radioativas e as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 1373 e 1540 e da Convenção Internacional para a Supressão de Atos de Terrorismo Nuclear.

Certamente, o tema do terrorismo nuclear é algo de estrema relevância para estabilidade e segurança mundial e a comunidade internacional tem tentado responder à altura, em especial com as ações decididas pelos Nuclear Security Summit, que ocorrem bianualmente.

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Imagem (Fonte):

http://mexiconuevaera.com/internacional/eu/2016/04/1/el-mundo-en-alerta-por-terrorismo-nuclear-obama

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do DiretorGeral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Marguerite Barankitse, Prêmio Aurora 2016

O Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade foi criado em nome dos sobreviventes do Genocídio Armênio[1], e em gratidão aos seus salvadores, sendo concedido anualmente a partir de 2016, em Yerevan, capital da Armênia. O prêmio é outorgado a uma personalidade cujas ações tenham tido um impacte excepcional na preservação da vida humana e no avanço das causas humanitárias. A instituição que estabeleceu o Prêmio, 100 Lives, estipulou que o contemplado fosse agraciado com USD $ 100.000, tendo a oportunidade de nomear organizações que inspiraram o seu trabalho para receberem a soma de USD $ 1.000.000. O Prêmio deve sua inspiração a Aurora, deusa romana do amanhecer, e a Aurora Mardiganian[2], personalidade que testemunhou as atrocidades do Genocídio Armênio, tendo procurado sensibilizar o mundo para os crimes cometidos em 1915/1923 e, também, para as milhares de histórias não contadas, de coragem e de sobrevivência, durante os eventos dramáticos dos últimos cem anos.

Em 2016, a primeira edição do Prêmio Aurora contou com o concurso de mais de 200 trabalhadores humanitários. O Comitê de Seleção[3] teve que decidir entre um dos quatro finalistas: Marguerite Barankitse, fundadora da Maison Shalom e do REMA Hospital, no Burundi; Tom Catena, Diretor e Cirurgião do Mother of Mercy Hospital e o único médico presente nas Montanhas Nuba, no Sudão; Syeda Ghulam Fatima, ativista contra o trabalho forçado em olarias e Secretária-Geral da Frente de Libertação do Trabalho Forçado, do Paquistão; o Padre Bernard Kinvi, da Ordem de São Camilo e líder da Missão Católica em Bossemptele, República Centro-Africana.

A vencedora do Prêmio Aurora foi Marguerite Barankitse. Sobre a laureada, George Clooney sublinhou que, “reconhecendo a coragem, o compromisso e o sacrifício de Marguerite Barankitse, eu tenho esperança de que ela também possa inspirar cada um de nós a pensar sobre o que podermos fazer para nos levantarmos em nome daqueles cujos direitos são abusados e que têm mais necessidade de nossa solidariedade e apoio”. O Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade foi entregue no dia 24 de abril, em cerimônia realizada no Complexo de Esportes e Concertos Karen Demirchyan.

Marguerite Barankitse – Maggy, como ela prefere ser tratada – nasceu em 1957, em Ruyigi, no sul do Burundi, país da África Oriental, na região dos Grandes Lagos, com 28.834 Km2 e uma população de 11.179.000 de habitantes[4]. Ela estudou em Rusengo para ser Professora e, depois, fez três anos de estudos no Seminário, em Lourdes (França). Em seu regresso ao Burundi, ensinou Francês no Ensino Médio, em Ruyigi, e supervisionou as atividades dos jovens após as aulas. Depois de ter estudado Administração na Suíça, em finais da década de 1980, Marguerite foi contratada pela Diocese de Ruyigi como Secretária. Ela iniciou o trabalho humanitário na década de 1990, no começo da Guerra Civil burundiana, junto dos grupos étnicos Hutus e Tutsis[5]. Em 24 de outubro de 1993, na cidade de Ruyigi, um grupo Tutsi, desejando vingar a morte de membros de sua etnia, assaltou os edifícios do Episcopado, onde alguns Hutus se encontravam refugiados. Tentando dissuadir os revoltosos da violência que os animava, Marguerite Barankitse foi sexualmente violentada e, em seguida, amarrada a uma cadeira, de onde assistiu, impotente, ao atear de fogo aos edifícios diocesanos e, mais tarde, ao assassinato de amigos seus, com facões e canas de bambu, por membros de sua própria etnia. Algumas horas após o massacre, os filhos das vítimas começaram a sair dos esconderijos. Marguerite compreendeu, então, que sua missão consistiria, doravante, em salvar as crianças burundianas da subnutrição, da violência e da morte. Surgia, assim, a Maison ShalomCasa da Paz – e, desde 2008, o Hospital REMA, fundado e dirigido pela Maison Shalom, que constitui, em nossos dias, uma infra-estrutura essencial para o sistema de saúde do Burundi. Apesar das adversidades que enfrentou, no dealbar de sua obra humanitária, lembra Marguerite Barankitse, “não desisti. Comecei com 25 crianças. Sete meses depois eram 300. Dois anos mais tarde eram 4 mil. Mais de uma década depois, são uma multidão porque a guerra demorou muito tempo”. No início, “com a ajuda de católicos alemães e luxemburgueses, as Casas Shalom” – atualmente mais de 400 – “se estruturaram como ONG. Maggy doou a seus 10.000 filhos os terrenos de seus próprios pais, em Nyamutoto, onde se construiu uma aldeia inteira”. Duas décadas mais tarde, de seus filhos adotivos, “muitos deles hoje são médicos, engenheiros, advogados ou economistas”, declara, orgulhosa. Segundo informações, Maison Shalom salvou a vida de 30 mil crianças, enquanto que o Hospital REMA tratou, até hoje, mais de 80 mil pacientes.

Em entrevista recente ao Serviço Católico de Notícias, divulgada pela revista Catholic Herald, de Londres, Maggy destacou o papel da fé católica para conseguir cumprir a sua missão: “Se Deus não tivesse estado comigo, eu provavelmente teria tentado tirar a minha própria vida. Precisamos de nos apoiar uns aos outros como uma família humana, e para dizer ‘nunca mais!’. Não pode haver mais ditadores que oprimem o povo e recebem dinheiro e armas por parte da comunidade internacional. Como é que é possível que existam estes tiranos no século XXI? Temos que tomar as medidas adequadas”. Em maio de 2014, durante sua presença em São Paulo, onde participou no IV Fórum Momento Mulher, ao evocar o massacre de 1993, Marguerite recordou: “Das 72 pessoas que vi morrer, 62 eram de minha família entre tios, primos e sobrinhos. Mesmo assim, nunca considerei que quem fez aquilo era um criminoso. […] Mesmo assim, nunca considerei que quem fez aquilo era um criminoso”, afirmou. “Na hora, só conseguia me lembrar de minha mãe dizendo que minha vocação era distribuir felicidade”.

O Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade é, no âmbito da vida e obra humanitária de Marguerite Barankitse, mais um dos muitos reconhecimentos significativos que recebeu até hoje[6]. Chamada, em tempos, como uma santa no Inferno, o anjo do Burundi ou, até, como a louca do Burundi, a humanitarista burundiana tem dedicado sua vida às crianças vítimas das guerras tribais em seu país. O cuidado desinteressado é, para ela, a tônica dominante num país e numa região dominados, desde há muito tempo, pelo ódio e pelo sofrimento de milhões de pessoas indefesas. Deste modo, se, para Maggy, “o mal nunca terá a última palavra, é o amor que triunfa”, urge que os Sacerdotes e Bispos católicos tenham presentes as recomendações de Marguerite Barankitse a respeito das crianças e jovens necessitados, proferidas em 2009, ante a II Assembleia Especial para África do Sínodo dos Bispos, a respeito das crianças e jovens: “Tende o valor de abrir-lhes as portas de vossos Bispados, conventos e casas para oferecer-lhes identidade, o afeto da família.            Imitemos o Bispo de Os Miseráveis, de Victor Hugo, que abriu as portas de sua catedral, de noite, para oferecer hospitalidade a todos os pobres. Sim, devemos ter o valor de fazer de nossa África um lugar onde se possa ‘viver’ bem”.

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ImagemMarguerite Barankitse recebe das mãos de George Clooney, em Yerevan, Armênia, o Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade” (Fonte):

http://40.media.tumblr.com/f39b55539837e1daec888b9a6ba73182/tumblr_o66yschqMB1r83d7lo1_1280.jpg

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Notas:

[1] Levado a cabo pelo Governo do Império Otomano, formado pelos Jovens Turcos, o Massacre Armênio, que teve início em 24 de abril de 1915, prolongou-se até 1923, tendo causado entre 800.000 e 1.500.000 mortos.

[2] Aurora Mardiganian (Çemişgezek, Mamuret-ül Aziz, Império Otomano, 12 de janeiro de 1901 – Los Angeles, Califórnia, EUA, 6 de fevereiro de 1994).

Ela pertencia a uma próspera família armênia que vivia em Çemişgezek, norte de Harput, na Turquia Otomana. Aurora Mardiganian testemunhou o assassinato de membros de sua família, tendo sido forçada a fugir ao longo de mais de 2.200 Km: foi raptada e vendida no mercado de escravos da Anatólia.

Mardiganian fugiu para Tbilisi (Geórgia) e, mais tarde, para São Petersburgo (Império da Rússia), de onde viajou para Oslo (Noruega). Finalmente, com a ajuda do Near East Relief, viajou para Nova Iorque (EUA).

Em 1918, Aurora Mardiganian publicou o livro Ravished Armenia. The Story of Aurora Mardiganian, the Christian Girl, Who Survived the Great Massacres (Armênia Violentada. A História de Aurora Mardiganian, a Menina Cristã, que Sobreviveu aos Grandes Massacres). O livro foi utilizado como base para o argumento de um filme, Auction of Souls (Leilão das Almas), que foi produzido em 1919, no qual Mardiganian se representava a ela própria.

[3] Integraram o Comitê de Seleção do Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade, em sua primeira edição, as seguintes personalidades: George Clooney, ator, produtor, diretor de cinema e televisão norte-americano de origem irlandesa; Elie Wisiel, sobrevivente do Holocausto, professor da Universidade de Boston, natural da Romênia e Prêmio Nobel da Paz, de 1986; Vartan Gregorian, Presidente da Fundação Carnegie Corporation, de Nova Iorque; Leymah Gbowee, ativista liberiana para a paz e Prêmio Nobel da Paz, de 2011; Oscar Arias, ex-Presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz, de 1987; Shirin Ebadi, Advogada e ex-Juíza iraniana, Prêmio Nobel da Paz, de 2003; Gareth Evans, legislador internacional e ex-político australiano; Leymah Gbowee, ativista da paz liberiana e Prêmio Nobel da Paz, de 2011; Hina Jilani, Advogada do Supremo Tribunal do Paquistão e ativista dos Direitos Humanos, em Lahore; Mary Robinson, ex-Presidente da Irlanda e Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, entre 1997 e 2002.

REDAÇÃO, “The Armenian Genocide – A New Way to Commemorate”, The Economist, s. l., 10 de março de 2015.

Disponível online:

http://www.economist.com/blogs/erasmus/2015/03/armenian-genocide

AURORA PRIZE FOR THE AWAKENING HUMANITY, “The Selection Committee”.

Disponível online:

https://auroraprize.com/en/prize/judge/all

[4] Ver:

United Nations, World Population Prospects: The 2015 Revision, s. l., Population Division – Department of Economic and Social Affairs, julho de 2015 [File POP/1-1: Total population (both sexes combined) by major area, region and country, annually for 1950-2100 (thousands)].

[5] A Guerra Civil no Burundi eclodiu em 1993, após o assassinato de Melchior Ndadaye, o primeiro Presidente democraticamente eleito no país. O conflito durou até 2005, tendo causado mais de 300.000 mortos.

Cf. AAVV, “Burundi Civil War”, Global Security.

Disponível online:

http://www.globalsecurity.org/military/world/war/burundi.htm

[6] De entre as distinções recebidas por Marguerite Barankitse desde a fundação de Maison Shalom são de salientar as seguintes: Prix des Droits de L’Homme (governo francês, 1998); Prêmio Norte-Sul (Conselho da Europa, 2000); World’s Children’s Prize for the Rights of the Child (World’s Children’s Prize Foundation, 2003); Prêmio Juan María Bandrés para a Defesa do Direito de Asilo e a Solidariedade para com os Refugiados (Comisión Española de Ayuda al Refugiado [CEAR] e Fundación CEAR, 2003); Four Freedom (Franklin & Eleanor Roosevelt Institute, 2004); Voices of Courage Award (Women’s Commission for Women and Refugee Children, 2004); Nansen Refugee Award (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, 2004); Doutorado Honoris Causa (Université Catholique de Louvain, 2004); Opus Prize (Opus Prize Foundation, 2008); Prêmio UNESCO (UNESCO, 2008); Chevalier de la Légion d’Honneur (Presidência da República Francesa, 2009); Prêmio Frederico II (Comuna de Andria, Itália, 2010); Doutorado Honoris Causa (Université Catolique de Lille, 2011); Prêmio para a Prevenção de Conflitos (Fondation Chirac, 2011); Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade (100 Lives, 2016).