ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Caos político na Espanha e o avanço da separação da Catalunha

O ano de 2015 foi um ano complexo para a política espanhola. Se, por um lado, o país recuperou-se da crise financeira, atingindo um crescimento do PIB superior a 3%, por outro lado teve que lidar com a crescente instabilidade política e o desgaste da população, além das críticas da União Europeia e da comunidade internacional, em relação ao elevado índice de desemprego ainda registrado no país e às políticas adotadas pelo Governo de Madrid.

A Espanha teve três importantes eleições ao longo de 2015, sendo visível em cada uma delas as tensões políticas e sociais causadas por diversos fatores, tais como: a queda da qualidade de vida, devido aos anos de austeridade econômica; o impacto do processo nacionalista catalão e a situação da unidade territorial da Espanha; por último, os efeitos da crescente ameaça terrorista.

As eleições gerais realizadas no dia 20 de dezembro de 2015 culminaram no ápice do caos político existente no Estado ibérico e, mesmo com a vitória do Partido que já ocupava a Presidência (o Partido Popular – PP), o país, até o momento, não possui um Presidente instituído, mas um Chefe de Governo em funções. Isso se deve ao fato de que a Espanha é uma Monarquia Parlamentar, sendo a votação feita por Legenda e não por candidatos. Para ser instituído como Líder do Governo é necessário que o Partido vencedor das eleições tenha maioria absoluta na Câmara, seja mediante número proporcional de votos, seja mediante uma aliança com outro Partido, o que não ocorreu nas ultimas eleições. Dessa forma, um Partido pode ganhar as eleições, mas isso não implicará,  necessariamente, que um determinado candidato desse Partido presidirá o país. 

O problema que enfrenta o Presidente reeleito da Espanha é que nenhum Partido parece disposto a negociar e formar uma aliança de governo. Há, então, a possibilidade da formação de uma coligação da oposição que some maioria e acabe por governar o país, designando um Presidente diferente de Mariano Rajoy, ou institua um poder paralelo.

Talvez, o maior paradoxo da atual situação espanhola é que o Presidente em funções, Mariano Rajoy, enfrenta a mesma situação que enfrentou durante 3 meses o Presidente da região separatista da Catalunha, o Sr. Artur Más. Ambos venceram as eleições, mas, não conseguindo obter maioria absoluta na respectiva Câmara, não assumiram seu cargo.

No caso da Catalunha, o Governo decidiu instituir outro candidato da aliança nacionalista formada pela “CUP” e pelo “Juntos por el Si” (Juntos pelo Sim), sendo escolhido o Prefeito da cidade de Girona, o Sr. Carles Puigdemont, como Presidente do Governo Autonômico. Após assumir a Presidência do Palácio da Generalitat, Carles Puigdemont afirmou que continuará com o processo de separação da região, que deve durar 18 meses, criará o Banco Central da Catalunha e seu próprio sistema fazendário, além das demais instituições necessárias para a formação de um novo Estado. O Ex-presidente Artur Más será o responsável por negociar em âmbito internacional e regional o processo separatista.

O Governo Central de Madrid mantém uma postura contrária ao procedimento nacionalista, mas a falta de um Presidente instituído enfraquece sua ação política. Ainda assim, o Presidente em funções, Mariano Rajoy, voltou a ameaçar a região da Catalunha com o disposto pela Constituição espanhola, no Artigo 155, que prevê o uso de todas as ferramentas do Governo Central em caso de uma ameaça à unidade territorial da Espanha, sendo possível, em tese, destituir o Governo da Catalunha e suas instituições e, em último caso, responder militarmente à ameaça.

A Europa e as Nações Unidas seguem de perto o processo da Catalunha, que, até o momento, seguiu as diretrizes previstas pelo direito internacional e europeu. Por outro lado, a Espanha continua sem Presidente e a beira do precipício institucional e político, podendo gerar um profundo paradoxo dentro da União Europeia.

A divisão social e política que vive a Espanha é um reflexo da mudança de paradigmas que enfrentam diversos países europeus, principalmente os afetados pela crise, e das oscilações do panorama regional e internacional. Existe um abismo cada vez maior entre a realidade das pessoas e as movimentações governamentais, havendo uma crescente dificuldade em consolidar o pacto social e legitimar o Governo. A Espanha não é o primeiro país a refletir esse sintoma causado pela falta de diálogo político e, possivelmente, não será o último na região.

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

O empoderamento feminino e a situação das mulheres em regiões de confronto

Os impactos duradouros dos conflitos de 2014 em Gaza ainda deixaram marcas profundas, sobretudo para as meninas e mulheres. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), relatado no último dia 7 de janeiro, através do site da Instituição.

As maiores dificuldades que elas vem passando são associadas à discriminação de gênero no interior da sociedade palestina, onde barreiras impedem o acesso das mulheres à propriedade e ao mercado de trabalho. A vulnerabilidade da situação foi piorada com a intensificação do confronto.

Os números das meninas e mulheres nessa posição são preocupantes, pois muitas foram mortas durante a hostilidade entre Gaza e Israel. Entretanto, vale destacar, a maioria está deslocada, vivendo em condições de risco, seja com famílias anfitriãs, seja em abrigos improvisados, tendas ou em meio aos destroços de suas casas.

Outro entrave para o acesso dessas mulheres a uma melhor qualidade de vida refere-se a tradicional divisão dos afazeres, já que jovens e esposas devem ser responsáveis pela administração do lar, o que vem dificultando o seu retorno ao mercado de trabalho. Em Gaza, apenas a minoria das que estão em idade ativa participam na força produtiva do território, sendo este um dos fatores que barram o desenvolvimento econômico e na produtividade da região. No entanto, vale destacar, há algum tempo o empoderamento feminino vem tomando conta dos discursos de alguns movimentos sociais e da sociedade civil em geral. Mas, o que isso significa e o que pode refletir para a sociedade, sobretudo para as mulheres?

Quando o conceito for alicerçado na sociedade, será o início da mudança de mentalidade sobre as mulheres e sobre sua condição de risco na escala mundial. A ONU, através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), já abriu espaço para a discussão do tema. O PNUD vai além, quando se volta para a igualdade de gênero e para o empoderamento das mulheres, não apenas como direitos humanos, mas também porque é o caminho para alcançar os objetivos do milênio e do desenvolvimento sustentável.

O empoderamento feminino é pautado por alguns princípios criados pela ONU Mulheres e pelo Pacto Global, visando auxiliar a comunidade empresarial a inserir em seus negócios valores e práticas que propõem a igualdade de gêneros e a inserção correta das mulheres.

Apesar de ser um assunto que vem encabeçando as manchetes ao redor do mundo, este ainda é um tabu, razão pela qual tem convergido as posições de analistas de que é urgente e importante falar sobre dar poder as mulheres, principalmente em uma sociedade globalizada como a atual. O assunto parece ser novo, mas já vem sendo debatido há muito tempo.

Vale ressaltar que, conforme tem sido defendido por experts, este movimento não deve ficar apenas nos limites sociais e políticos, devendo ir muito além. A sociedade como um todo já reconhece o papel da mulher como fundamental e como agente do desenvolvimento econômico, social e cultural. Assim sendo, não se pode restringir a discussão a esta ou aquela área, devendo ser pensada em todos os setores da sociedade.

Conforme tem sido apontado, a discriminação e as barreiras impeditivas do desenvolvimento profissional e pessoal não estão presentes apenas nas empresas. A própria sociedade muitas vezes desenvolve tais mecanismos sem perceber. Sendo assim, a tendência é continuar a ampliar a discussão do empoderamento feminino em todas as camadas e setores sociais, e em todos os cantos do planeta. Conforme afirmou o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no seu discurso durante o dia internacional da mulher, realizado no ano de 2013: “Empoderar a mulher não é apenas a coisa certa a fazer – é a coisa inteligente a ser feita. Quando as mulheres obtêm êxito, as nações são mais seguras e mais prósperas”.

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Relações Rússia-Ucrânia frente a aproximação ucraniana com a União Europeia

Desde que a crise política ucraniana teve início, no segundo semestre de 2013, há uma busca por parte do novo Governo da Ucrânia em concretizar um alinhamento com a União Europeia, saindo da zona de influência da Federação Russa. Desde então, Moscou tem alertado que essa decisão poderia impactar nas relações comerciais e na manutenção das aberturas alfandegarias existentes, que configuram parte expressiva da histórica relação russo-ucraniana, a qual, por determinantes geográficos, é de interesse tanto da Rússia como da Ucrânia.

As relações econômicas entre os dois países constituem mais uma situação de necessidade que uma opção, principalmente na perspectiva energética, onde pode ser observado que o consumo de gás natural na Ucrânia é crescente e a Rússia, que detém a maior reserva de gás natural do mundo, e é seu maior vizinho fronteiriço, possui capacidade de fornecimento por muitos anos, acrescentando-se que de forma muito superior ao fornecimento proveniente de quaisquer outras reservas de gás natural existentes no mundo.

Entretanto, a Ucrânia tem tido problemas para a negociação dos débitos derivados de compras de gás da Rússia, que, antes, por serem realizadas em “modelo pago pelo consumo”, geraram abertura de dívidas crescentes ao longo da crise econômica que o país sofreu após 2008, adicionado do problema gerado com o extravio de gás destinado a países do Bloco Europeu, que era realizado por estatais ucranianas. Esse débito passou por um processo de negociação ao longo de 2014 e 2015 e propostas por parte da Rússia vem consolidando novas formas de pagamento para aquisição do gás, sendo, desde o final de 2014, usado o “modelo pré-pago”, com flexibilização para o pagamento dos débitos existentes e para o qual a Federação Russa aceitaria prestações mais brandas que as praticadas pelo próprio Fundo Monetário Internacional (FMI).

O Governo ucraniano, no entanto, não tem observado a Federação Russa como um parceiro estratégico na área energética e não enxerga como prioridade o encerramento dos débitos existentes, tanto que, no final de 2015, decretou a proibição de importação de gás e petróleo da Rússia, por parte de suas estatais, e utilizou como principal argumento ser mais barata a aquisição de gás e petróleo através dos parceiros na União Europeia.

Outra perspectiva que  indica o afastamento da Ucrânia em relação à Federação Russa é a sua adesão ao Tratado de Livre Comércio Europeu, com a qual abre as fronteiras comerciais existentes com os países da União Europeia, resultando, tal atitude, na suspensão automática do Livre Tratado Russo-Ucraniano, por parte do Kremlin. Na época, o Governo russo comentou a suspensão como decorrente de circunstâncias excepcionais que afetam os interesses e segurança econômica da Rússia, exigindo uma ação imediata.

Em realidade, a Ucrânia se movimentou em busca deste cenário desde que iniciaram os protestos no país, em 2013. O distanciamento político da Rússia não se deu com base numa postura estratégica de “equidistância pragmática”, pois foi preservada uma expressiva postura de rivalidade política com a Rússia, a qual, pela conjuntura atual, atrelou-a aos interesses dos países da União Europeia. Contudo, em prospecções de cenários de longo prazo, analistas especulam que essas decisões não são tão ardilosas e irão afetar a população diretamente, tanto dos ucranianos, como dos russos e dos separatistas no território leste da Ucrânia, que, até então, possuem um acordo com o Governo central, em Minsk, para manterem três anos de autonomia governamental.

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ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Desafios para o Governo Brasileiro na Agenda do Desenvolvimento Internacional no pós-2015

Em 2015, a Agenda do Desenvolvimento Internacional foi constantemente debatida entre Chefes de Estado, acadêmicos, jornalistas e consultores, tanto pela quantidade de grandes encontros – tais  como a 3ª Conferência Internacional para o Financiamento do Desenvolvimento, a 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas e a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 21) – quanto pela importância destinada aos resultados destes, gerando, respectivamente, a Agenda de Ação de Addis Abeba (AAAA), os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o Acordo de Paris. Portanto, questiona-se: quais os desafios que serão encarados pelo Governo Brasileiro diante dos compromissos internacionais assumidos em 2015?

O primeiro evento, destinado à busca de soluções financeiras para erradicar a pobreza no mundo, dividiu opiniões. Para as Nações Unidas, o acordo foi considerado histórico. Entretanto, para um grande número de instituições participantes, o acordo ficou aquém do esperado e abriu muitas dúvidas sobre as reais capacidades estatais para financiar o crescimento econômico nos próximos anos.

Para o Brasil, o debate sobre o financiamento do desenvolvimento é ressaltado pelo panorama doméstico. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está sendo investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito e sua atuação como ator chave no financiamento do desenvolvimento nacional tem sido duramente criticada nos últimos anos. Em depoimento à CPI, o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, ressaltou que o repasse de títulos públicos ao Banco, a partir de 2009, ajudou a segurar os investimentos das empresas nos últimos anos. A saber, o saldo de empréstimos saltou de R$ 43,2 bilhões em 2008 para mais de R$ 450 bilhões em 2014, impulsionado, principalmente, pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que financia a compra de máquinas e equipamentos, investimentos em inovação e exportações. Contudo, há dúvidas sobre a manutenção desse crescimento nos próximos anos, tanto devido à atual crise orçamentária brasileira, quanto à investigação em andamento.

Outro desafio consiste na adequação das soluções propostas por instituições financeiras internacionais, de acordo com os interesses brasileiros e os programas oferecidos por cada Banco. Por exemplo, o país pode aumentar a carteira de projetos assumidos com o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Além disso, o país pode buscar mais apoio junto à Corporação Andina de Fomento/Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF). Em 2016, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), fruto da parceria dos países dos BRICS, iniciará suas operações, o que poderá promover novas linhas de crédito e recursos especiais.

Há também a questão da articulação entre instituições públicas, privadas, Organizações Não-Governamentais e os diferentes níveis de Governo, para que os ODS sejam incorporados, normativa e operacionalmente, na agenda pós-2015 do país. Para a Carta Capital, o principal indicador sobre o real interesse do Governo em honrar os compromissos assumidos na Assembleia Geral seria o alinhamento da Agenda 2030 com o Plano Plurianual. Esta ação serviria para legitimar o enquadramento dos compromissos internacionais no orçamento e no planejamento estratégico dos próximos anos. Este argumento reitera os esforços envidados durante a promoção dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e a intensa articulação e premiação de boas práticas para o alcance das metas no país. Parte do sucesso dos ODM no Brasil deveu-se principalmente à adaptação das metas internacionais às políticas nacionais.

Por fim, o Acordo de Paris, mesmo sendo alvo de várias críticas, traz à tona o comprometimento de vários líderes com o meio ambiente. No caso brasileiro, a recente tragédia ambiental na cidade de Mariana e a falta de explicações têm colocado em cheque o poder de resposta do Governo brasileiro aos crimes ambientais, inclusive pela própria ONU. Com o aumento exponencial da população à informação, o tempo de resposta às tragédias ou outras atividades ambientais, assim como a eficácia das ações, serão fatores preponderantes para determinar o comprometimento de Governos com estas causas. Portanto, tópicos como energia solar/eólica, desmatamento das florestas, queimadas ilegais, construção de novas hidroelétricas, assoreamento dos rios, desertificação dos solos e gestão de resíduos sólidos ocuparão com mais intensidade os debates políticos nos próximos anos, em decorrência do aumento dos preços da energia, do aumento da sensação térmica, da oferta de alimentos e dos constantes alagamentos nas regiões metropolitanas.

Passado o ano de formalização de compromissos internacionais, o ano de 2016 deve ser encarado a partir da operacionalização das metas, nos aspectos conceituais, orçamentários e burocráticos. Com o lema, “Ninguém deixado para trás” (No one left behind), a ONU tem reiterado em cada evento que o desenvolvimento social, econômico e ambiental é para todos. Para tanto, o engajamento não pode ser seletivo e a sociedade deve fazer parte dessa discussão.

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O desafio escandinavo: a realidade social diante da onda de refugiados na Europa

Os países escandinavos localizam-se no norte europeu e são aqueles que contém língua semelhante, originária do nórdico antigo, e uma cultura comum, proveniente da herança viking. Os principais Estados são Noruega, Suécia e Dinamarca, que representam, na atualidade, uma das maiores referências de bem-estar econômico e social do mundo.

Em 2014, os três países possuíam no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) as variáveis de 0,944, 0,907, e 0,923, respectivamente, o que lhes facultam a 1a, 14a e 4a posição no ranking global. A função do IDH auxilia na mensuração da classificação da qualidade de vida das nações e sua atribuição de valores varia entre 0 e 1 na medição dos extremos sociais. Isto significa que, quanto menor o número, mais alta é a carência, e quanto maior o número, menor é a carência populacional. 

O êxito escandinavo alicerça-se em características diversas de ordem política e econômica que contribuíram para a formação de uma sociedade igualitária, todavia, uma recente preocupação com a estrutura social sobreveio a esses Estados nacionais, devido a eclosão do intenso fluxo de refugiados que a Europa recebeu ao longo de 2015.

A concentração dos refugiados na Europa deu-se na Alemanha, graças à receptividade deste país em acolher os que buscavam asilo e, é claro, pela facilidade de locomoção ao longo do território da União Europeia (UE). Porém, no momento das dificuldades, o volume expressivo começou a cruzar a fronteira com a Dinamarca e, a partir dela, alcançou a Suécia e Noruega, de modo a provocar desafios para os atores escandinavos.

No caso norueguês, o Ministro da Integração e Imigração, Sylvi Listhaug, declarou que o país terá uma das políticas de asilo mais rígidas da Europa, por causa da necessidade do recebimento e da integração dos que chegam. A expectativa da Direção de Imigração calcula uma faixa de 10.000 a 100.000 pedidos de asilo, em 2016, e o Governo decidiu restringir as condições para visto e residência, assim como flexibilizar alguns direitos da Lei de Imigração de 2008, que garantiam maior amparo aos refugiados. Um dos maiores argumentos do ministro Listhaug encontra-se “nas consequências violentas para o sistema de bem-estar norueguês”.

Na Suécia, a política de atendimento dos refugiados tornou-se um caos devido ao excesso de requerentes, sobretudo após o episódio que ocorreu no Conselho de Migração, onde tiveram que acomodar as pessoas na própria recepção e mesmo na rua. Para amenizar a situação, o Governo aderiu à ideia de partilha dos refugiados pela UE e tomou a iniciativa de instaurar o controle fronteiriço com a Dinamarca, por meio da verificação de identificação sueca em todas as ligações de transporte, algo que poderá trazer prejuízos a cerca de 100.000 pessoas.

Na Dinamarca a tensão é dupla por causa da posição geográfica do país, que fica entre a Alemanha e a Suécia, o que torna a situação ainda mais difícil, pois é constante o ingresso de refugiados nesses Estados e, com o alto risco de não receberem asilo, os mesmos podem vir a acomodarem-se ilegalmente. Segundo a avaliação da polícia dinamarquesa, 89.600 refugiados ingressaram no país no período de 6 de setembro a 28 de dezembro de 2015. Em meio a esta questão, os políticos dinamarqueses debatem propostas de leis cujo conteúdo normatizaria a espera de 4 a 8 anos para os requerentes que tiverem suas condições de asilo negadas, com a intenção de incentivar suas saídas.

O desafio é grande para os países escandinavos que, de um lado, precisam atender a seus nacionais, e, de outro, necessitam dar assistência aos milhares de refugiados que desejam asilo em seus territórios, o que constitui objeto de uma profunda análise política e social. Entretanto, sob a perspectiva realista das relações internacionais, é preciso compreender alguns fatores importantes sobre esta temática.

O primeiro fator é o direito soberano das nações de legislarem e de decidirem sobre suas próprias políticas de refugiados, o que significa a possibilidade de negação de asilos; o segundo fator envolve as diretrizes solidárias e de direitos humanos, as quais são importantes para a preservação da vida, o que representa zelar pelo bem-estar do outro; o terceiro fator refere-se ao choque cultural e religioso, pois, em sua maioria, o contingente de refugiados professa o islamismo como crença, e isto significa que as dificuldades de adaptação podem ser intensas, sobretudo com relação as tradições cristãs e modernas; o quarto fator envolve a ignorância e xenofobia com relação aos refugiados e suas práticas, o que pode representar conflitos e hostilidades; e o quinto fator é a emergência de uma prudente política de segurança, pois, infelizmente, podem existir pessoas sem escrúpulos, as quais podem ter intenções extremistas, ou mesmo de cooptação de terceiros para fins terroristas, algo que significaria a formação e atuação de agrupamentos radicais.

Em suma, sabe-se que existe um alto grau de realismo a considerar na resolução do desafio escandinavo, contudo, é imprescindível recordar a relevância do equilíbrio social, da importância do Estado para o homem e do que constitui ser humano, sem os quais tornar-se-ia impossível a convivência e retornaríamos, consoante descreve o filósofo Thomas Hobbes no Leviatã, à “condição de guerra de todos contra todos”* (págs. 47 e 48).

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* HOBBES, T. Leviatã. (Várias edições em Língua Portuguesa)

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ImagemEscandinávia” (Fonte):

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Programa Erasmus e a Diplomacia Acadêmica

O Protocolo Erasmus – mais conhecido como Programa Erasmus – foi criado pela União Europeia em 1987, com o objetivo de gerar uma rede interuniversitária entre os país membros e associados do Bloco, promovendo o intercâmbio cultural e acadêmico entre diferentes pontos do continente Europeu.

O Programa foi batizado em honra ao filosofo holandês Erasmo de Roterdã (Desiderius Erasmus Roterodamus), que ficou conhecido por viajar a diferentes locais da Europa para ampliar seus estudos e conhecimentos. Erasmus é também uma sigla para “European Region Action Scheme for the Mobility of University Students” (ou, em português, “Esquema de Ação Regional Europeia para a Mobilidade de Estudantes Universitários”).

O Projeto se transformou no maior programa de mobilidade acadêmica do mundo, obtendo importantes resultados na área de pesquisa e desenvolvimento, e também atuou como ferramenta para a criação de uma identidade europeia, formando jovens através do multiculturalismo existente dentro do Bloco.

Embora administrado pela União Europeia, as cidades que participam do ERASMUS atuam de forma paralela ao protocolo, reforçando laços acadêmicos entre cidades que compartilham ideias, modelos produtivos, ou áreas de pesquisa semelhantes. O fato de muitas cidades da Europa administrarem suas próprias universidades transformou o Programa Erasmus em uma espécie de ferramenta paradiplomática acadêmica e também diplomática para pequenas nações associadas, tais como Andorra, Mônaco e Suíça.

Regiões industriais como Catalunha, Lombardia, Baden-Wüttemberg utilizaram o Programa para estreitar seus laços diplomáticos e gerar um ambiente homogeneizado de pesquisa e desenvolvimento. Esse movimento acabou dando origem ao grupo Four Motors for Europe (Quatro Motores para Europa) aliando interesses econômicos, regionais e sociais, através da união das forças políticas das regiões e do constante intercâmbio de profissionais e alunos, usando, dessa forma, a mobilidade acadêmica como uma amálgama em seus objetivos. Em alguns casos, a própria região criou um projeto paralelo semelhante, como o programa TecnioSpring da região da Catalunha, na Espanha, que é apoiado pela União Europeia.

O Programa foi ampliado para o âmbito global através do Erasmus Mundus, seguindo as principais tendências geopolíticas e os interesses da União Europeia em se estabelecer como centro de referência e excelência acadêmica mundial. Cidades do mundo inteiro com instituições ligadas à administração pública aderiram ao Programa, gerando uma rede de mobilidade acadêmica em âmbito global.

Dado os resultados obtidos, muitos países trataram de desenvolver projetos próprios e, dessa forma, moldar a mobilidade acadêmica às necessidades da nação. O programa brasileiro Ciências Sem Fronteiras surgiu com o intuito de suprir a crescente demanda de mão de obra qualificada no Brasil. Um programa semelhante contemplando os países BRICS também foi proposto durante a última reunião do grupo.

A américa latina, apesar de suas diferentes tentativas de integração, não possui um projeto próprio, sendo grande parte dos programas de mobilidade acadêmica gerenciados por entidades filantrópicas, tais como a Fundação Carolina, ou corporações privadas, como o Banco Santander.

Talvez, com o tempo, e uma maior integração da região, a mesma possa criar um programa “Columbus” e obter, mediante a integração acadêmica e o intercâmbio cultural, um maior dinamismo interno dentro da região e uma maior sinergia entre as cidades, que pode ser conseguido através da paradiplomacia acadêmica unindo grandes metrópoles como São Paulo e México, ou os interesses de cidades turísticas, como Rio de Janeiro e Cartagena de Índias, algo que promoverá maior mobilidade e integração através do intercâmbio acadêmico.

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