ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]A Interdependência entre Energia e Água[:]

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A produção de energia depende da água, principalmente para o resfriamento de usinas termelétricas, mas também na produção, transporte e processamento de combustíveis fósseis. Além disso, cada vez mais a água é usada na irrigação de culturas para produção de biomassa de uso energético. Por outro lado, a energia é vital para o funcionamento de sistemas que coletam, transportam, distribuem e tratam a água, garantindo seu fornecimento para seus diversos usos.

Tanto a energia como a água são recursos que enfrentam demandas e restrições crescentes em muitas regiões como consequência do crescimento populacional, do desenvolvimento socioeconômico e das mudanças climáticas. Sua interdependência tende, portanto, a amplificar a mútua vulnerabilidade.

Para o setor da energia, as restrições à água podem pôr em causa a confiabilidade das operações das usinas termelétricas existentes, bem como a viabilidade física, econômica e ambiental de futuros projetos. Igualmente importante em termos de riscos relacionados à água enfrentados pelo setor energético, o seu uso para a produção de energia pode afetar os recursos de água doce, tanto na sua quantidade como na sua qualidade. Por outro lado, a dependência dos serviços de abastecimento de água da disponibilidade de energia afetará a capacidade de fornecer água potável e serviços de saneamento às populações.

O World Energy Outlook WEO 2016, lançado pela Agência Internacional de Energia (IEA) em 16 de novembro de 2016, tem um capítulo dedicado ao nexo entre energia e água e analisa como as complexas interdependências entre esses dois recursos se aprofundarão nas próximas décadas. Esta análise atualiza o trabalho anterior realizado em 2012 e avalia as necessidades atuais e futuras de água doce para a produção de energia, destacando potenciais vulnerabilidades e pontos-chave de estresse. Além disso, pela primeira vez, o WEO 2016 observa a relação energia-água, analisando as necessidades energéticas para diferentes processos no setor de água, incluindo abastecimento, distribuição, tratamento de águas residuais e dessalinização. As principais conclusões foram divulgadas no Global Water Forum, na COP22, em 15 de novembro de 2016.

As interdependências entre energia e água deverão ser intensificadas nos próximos anos, uma vez que as necessidades desta no setor energético e as necessidades energéticas do setor de água crescem simultaneamente. A água é essencial para todas as fases da produção de energia: este setor é responsável por 10% das retiradas mundiais de água, principalmente para o funcionamento das centrais termelétricas, bem como para a produção de combustíveis fósseis e biocombustíveis. Estas necessidades aumentam, especialmente para água que é consumida (isto é, que é retirada, mas não devolvida a uma fonte). No setor de energia há uma mudança para tecnologias avançadas de resfriamento que retiram menos água, mas que, por sua vez, consomem mais.

O crescimento da procura por biocombustíveis aumenta o consumo de água e uma maior utilização da energia nuclear aumenta os níveis de retirada e de consumo. No outro lado da equação energia-água, a análise do WEO 2016 fornece uma primeira estimativa global sistemática da quantidade de energia usada para fornecer água aos consumidores. Em 2014, cerca de 4% do consumo global de energia elétrica foi utilizado para extrair, distribuir e tratar água e esgoto, juntamente com 50 milhões de toneladas de óleo equivalente de energia térmica, principalmente diesel, usado para bombas de irrigação, e gás em usinas de dessalinização.

Durante o período até 2040, a quantidade de energia usada no setor de água é projetada para mais do que o dobro. A capacidade de dessalinização aumenta acentuadamente no Oriente Médio e no Norte da África e a demanda por tratamento de águas residuais (e níveis mais altos de tratamento) cresce especialmente nas economias emergentes. Em 2040, 16% do consumo de eletricidade no Oriente Médio está relacionado ao fornecimento de água.

A gestão das interdependências água-energia é crucial para as perspectivas de realização bem-sucedida de uma série de metas de desenvolvimento e de mitigação das mudanças climáticas. Há várias conexões entre os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDG) sobre água limpa e saneamento (SDG 6) e energia limpa e acessível (SDG 7) que, se bem geridos, permitam alcançar os dois conjuntos de metas.

Existem também muitas oportunidades economicamente viáveis para economias de energia e água que podem aliviar as pressões sobre ambos os recursos, se considerados de forma integrada. Os esforços para combater as alterações climáticas podem exacerbar o estresse hídrico ou serem limitados pela disponibilidade de água em alguns casos. Algumas tecnologias de baixas emissões de carbono, como a energia eólica e solar, requerem muito pouca água, mas quanto mais uma via de descarbonização se baseia nos biocombustíveis, concentrando a energia solar, a captura de carbono ou a energia nuclear, mais água é consumida.

Possivelmente, a gestão combinada e harmônica da energia e da água seja o maior desafio para uma efetiva transição para uma economia de baixo carbono, requerida pela mitigação das mudanças climáticas. Tendo em vista que a gestão desses recursos tem um forte componente transnacional, os efeitos geopolíticos dessa transição se tornarão cada vez mais pronunciados.

Note-se, finalmente, que a água do mar é um recurso praticamente inesgotável. Seu efetivo uso, entretanto, depende da disponibilidade de energia abundante e a baixo custo para dessalinização e posterior transporte e distribuição para os locais carentes em água doce. Isto abre um amplo campo para a aplicação da dessalinização em grande escala, para a qual a energia nuclear seria uma alternativa viável.

Com efeito, a energia nuclear já está sendo usada para dessalinização e tem potencial para um uso muito maior. A dessalinização nuclear é muito competitiva em termos de custos e somente os reatores nucleares são capazes de fornecer as copiosas quantidades de energia necessárias para projetos em grande escala no futuro.

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Imagem 1Flag of the International Atomic Energy Agency (IAEA), an organization of the United Nations” / “Bandeira da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), uma organização das Nações Unidas” (Tradução Livre) (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Agência_Internacional_de_Energia_Atómica

Imagem 2Capa do Sumário Executivo do World Energy Outlook WEO 2016” (Fonte):

https://www.iea.org/publications/freepublications/publication/WorldEnergyOutlook2016ExecutiveSummaryEnglish.pdf

Imagem 3Marrakesh COP22” (Fonte):

http://www.cop22-morocco.com

Imagem 4Metas do Desenvolvimento Sustentável” (Fonte):

http://www.un.org/sustainabledevelopment/sustainable-development-goals/

Imagem 5Dessalinização Nuclear” (Fonte):

https://www.oecd-nea.org/ndd/workshops/nucogen/presentations/8_Khamis_Overview-nuclear-desalination.pdf

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]SMARTBIKES da China podem revolucionar o transporte, as relações de consumo e a matriz energética mundial[:]

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Nas décadas de 1970 e 80, a China era famosa pela quantidade de bicicletas. Naquela época, andar de bicicleta não era nem elegante, nem “descolado”, nem tampouco politicamente correto ou ambientalmente sustentável: o carro era o símbolo máximo de status do sistema capitalista de produção. A China comunista e superpopulosa tinha a bicicleta como o meio de transporte mais popular.

O conceito de “smartbike” começou como um mero serviço de locação de bicicletas públicas, instaladas próximas a pontos turísticos e estações de trem do metrô, que são retiradas e devolvidas automaticamente pelos usuários. O pagamento também é realizado de forma eletrônica. A ideia era dispensar a mão-de-obra e incentivar populações a usarem menos os automóveis, com o compartilhamento de um meio de transporte popular que passa a maior parte do tempo parado. O projeto teve início na França e foi implementado pelo grupo de publicidade Clear Channel Communications em 1998, e rapidamente se espalhou pela Europa. Países como o Brasil já a utilizam em campanhas publicitárias. O pagamento do serviço de locação, atualmente, é realizado por meio de aplicativos (softwares) de smartphones. 

Com o advento da Internet, surgiu em 1999, pela boca do diretor do MIT Media Lab o termo Internet of Things (IoT), para definir a integração da rádio frequência à Internet para identificação de produtos, estoques, transporte e logística. A Internet das Coisas é nada mais que a integração entre os produtos e a tecnologia de informação pela Internet, onde objetos como refrigeradores alertariam seus donos pelo smartphone que falta leite ou cerveja, por exemplo.

O próprio smartphone, o “telefone inteligente”, na versão em Português, não deixa de ser um bom exemplo de IoT, em que foram instalados computadores de bordo nos aparelhos de telefonia móvel, conectados à Internet. Revolucionou conceitos de consumo e negócios. A portabilidade de um computador que cabe no bolso e sua conexão com a rede mundial de computadores permitiram o surgimento e a criação de vários programas de computador adaptados a esses minicomputadores, os chamados aplicativos, sendo a maioria deles com funções de marketing. Em suma, um produto conectado à Internet – de novo, a IoT – revolucionou o mercado porque facilitou a venda de produtos e serviços.

Com mais tempo próximo de um computador e da Internet, bilhões de pessoas passaram a consumir informação, produtos e serviços disponíveis nas infinitas promoções de vendas. Sites de músicas, jornais e revistas passaram a entregar conteúdo online grátis e softwares como Uber, Airbnb, Alibaba, de fácil instalação nos dispositivos móveis, diminuíram a distância entre fornecedores de produtos e serviços e os consumidores finais. A Internet e os smartphone alteraram profundamente as relações comerciais, erodindo indústrias e criando outras. Internet, automação e robótica baseada em softwares robôs transferiram investimentos do capitalismo industrial para o capitalismo conceitual[1], um capitalismo baseado em marcas, patentes, design e na capacidade de divulgação e distribuição de produtos.

Se, antes, a riqueza era medida pelo número de fábricas ou empregados, e o sucesso nas vendas dependeria de que cada consumidor comprasse ao menos um produto para uso pessoal, individual e próprio (o “seu” carro, a “sua” bicicleta), na nova economia a maioria das empresas mais bem-sucedidas nas Bolsas de Valores ao redor do planeta produzem apenas informação, conteúdo, mídia ou simplesmente conectam produtores aos clientes ou interconectam consumidores, incentivando possuidores a compartilharem produtos e serviços com outros usuários. As antigas cidades industriais passaram a ser cidades de serviços. E ainda estamos só no começo.   

Conforme salientamos em Nota Analítica intitulada “Cybereconomia’ e ‘Crescimento Verde’: Principais Agendas da China”, de 15 de julho de 2016, muitos itens desse novo modelo de negócio baseado na Internet, automação e robótica de computadores são alvo da estratégia econômica de governos (Alemanha, Israel e China) e disputas acirradas de mercado.

No caso da China, a smartbike concorre com a impressora 3D como o produto conectado à Internet alvo das indústrias de tecnologia de ponta. A primeira chamando a atenção, inclusive da administração pública das megalópoles chinesas, devido aos problemas de superprodução e uso inadequado.

Mas, as smartbikes da China não são bicicletas inteligentes apenas no sentido da locação automática e compartilhamento iguais as da França no início do uso do rádio com a Internet: são um novo conceito de smartbikes, conectadas à Internet e que podem gerar mais informação acerca do consumo e do tráfego de populações nas grandes cidades. Marcas como Mobike, Ofo, Youôn, Ubike, WeChat e, mais recentemente, a Bluegogo, todas, assim mesmo, marcas com inscrições ocidentais, cada uma com design e cor característicos, tem seus produtos e serviços à venda ou locação via smartphone. Essas bicicletas estão invadindo calçadas, ruas, ciclovias e até latas de lixo.   

Segundo o fabricante da bicicleta inteligente “dobrável” QiCycle, a Xiaomi, esse meio de transporte é “perfeito para as cidades lotadas da China”. São bicicletas que medem o torque e a força bruta do usuário, e ajustam a rotação do motor ao estilo de pedalada de cada um, com baterias com até 45 quilômetros de autonomia. O mais fantástico é a integração da QiCycle a um aplicativo de smartphone que informa a localização da bicicleta, permite navegação por GPS, informa velocidade, distância, nível de bateria e até a quantidade de calorias queimadas. Custa 2.999 ienes, o equivalente a R$ 1,5 mil.

A título de comparação, o modelo mais comum de bicicleta elétrica do Brasil, a Lev, ainda não tem conexão com a Internet. Em sua página promocional na Internet a marca faz uma declaração que brinca com a realidade e a ficção, “Pensar em bicicleta elétrica no Brasil, no ano de 2008, era como pensar em pessoas usando discos voadores […]. Em viagem à China, um dos fundadores da Lev se encantou por uma das ‘magricelas elétricas’, como os chineses chamavam as bicicletas. Elas rodavam por todos os lados em Pequim, levando as pessoas de forma prática, sem ruídos ou poluição”. A bateria da versão brasileira tem autonomia de apenas 30 Km. O preço? R$ 5.490,00. Registre-se que a marca Lev é brasileira, porém suas bicicletas elétricas são fabricadas na China (!).

O Big Data como o conceito por trás da Internet das Coisas (IoT)

Voltando à aplicação da IoT nas bicicletas elétricas, que, a exemplo dos smartphones, qualquer cidadão de classe média possa comprar, imaginemos a seguinte situação: O fabricante da bicicleta inteligente instala Internet, sensores e aplicativos no quadro da bicicleta, que passa a produzir dados e informações sobre horários de maior uso, rotas, paradas, locais de abastecimento (corrente elétrica), pontos de estacionamento de maior período para identificação de locais de trabalho, lazer e consumo e, com ou sem o consentimento do usuário, possa vender esses megadados para governos e companhias diversas.

Quase tudo isso já é possível por meio dos smartphones, mas, por meio do deslocamento dos usuários de bicicletas podemos medir, analisar e até prever o comportamento de transporte e tráfego humano. Governos implementariam políticas habitacionais e de deslocamento mais adequadas. O Big Data, os megadados formados a partir dos dados de usuários de smartbikes, em um contexto de cidades Pequim, Shangai e outras megalópolis fora da China, ajudaria governos e empresas com o planejamento estratégico a partir da análise da mobilidade urbana. O Big Data das bicicletas inteligentes ajudaria na implementação do conceito de Cidades Inteligentes com predições, previsões de deslocamento populacional com base nos locais de emprego, renda e lazer. São dados úteis aos governos e às empresas das industrias elétricas, da construção civil e fast-food.

Smartbikes, o início do fim da indústria do petróleo

Difícil imaginar como um meio de transporte individual, porém compartilhável, não poluente e redutor de problemas de saúde pode ter adversários. As smartbikes têm. Muito mais baratas e menos poluentes que as motocicletas e motonetas movidas à combustíveis fósseis, as bicicletas inteligentes que convergem força bruta com torque e tração elétrica proporcional e estão integradas à Internet – leia-se aos smartphones – são uma aposta bastante provável de tomar conta das cidades inteligentes, tais como os telefones inteligentes tomaram conta do mercado e revolucionaram as relações de consumo.

Terça-feira, dia 27 de dezembro de 2016, o Comitê de Transporte da cidade de Shenzhen, na China, baixou um decreto para regulamentar o aluguel, o uso e o estacionamento dessas bicicletas, com responsabilização direta das companhias que as comercializam e alugam, por causa dos acidentes que vem sendo causados pela massa de novos usuários desses modelos de transporte. Segundo a administração de Shenzhen, os usuários das bicicletas inteligentes “não seguem as regras para o tráfego de veículos. O caos de estacionamento e outro mau comportamento representa um problema para a administração da cidade”.

A adoção do conceito de transporte individual compartilhável e movido a eletricidade por governos e populações de grandes cidades acendeu a luz vermelha das fábricas de carros e motocicletas e representa grave risco à indústria do petróleo, a mais poderosa indústria do mundo e da qual governos e empresas dependem especialmente em casos de conflitos armados.

A matriz energética, especialmente as de combustíveis fósseis, e sua influência em questões de estratégia governamental e política, são assuntos em pauta de jornais de relações internacionais, universidades e companhias. Segundo o Doutor em Ciência Política pela Universidade de Campinas (Unicamp) e Professor do pós-doutorado de História na Universidade Federal Fluminense (UFF), José Alexandre Altahyde Hage, o melhor livro sobre esse assunto é o Petróleo: Poder e Glória, de Daniel Yergin, publicado no Brasil em 1992. Ele demonstra os esforços de potências como os Estados Unidos da América e o Reino Unido para manter e regular a oferta de petróleo e o poder[2].  

Portanto são governos de países como Estados Unidos da América, Reino Unido e Rússia e toda a indústria do petróleo, com todas as companhias que integram a cadeia de produção de petróleo, que sofreriam perdas financeiras decorrentes da adoção de conceitos como “cybereconomia” e “crescimento verde”, atuais agendas da China. E o gigante asiático parece não perder tempo. A popularização das bicicletas elétricas chinesas é um exemplo disso.

A mudança da matriz energética “petróleo” para a matriz de energia elétrica ou eletromagnética, hidroelétrica ou solar, dependem da mudança de paradigma de comportamento do consumidor e seu status. Somente em modelo mental (mentalidade) “verde”, amparada em forte comunicação social “menos é mais”, ou “ser é melhor que ter”, conduziria o cidadão a comprar menos produtos individuais poluentes e a consumir mais serviços de compartilhamento de produtos ecologicamente sustentáveis.

Do ponto-de-vista estratégico chinês, o impulsionamento de uma economia digital “verde” com ênfase em impressoras 3D de tecnologia de ponta e bicicletas inteligentes elétricas compartilháveis não somente reduziria a poluição na China como também diminuiria sua dependência do petróleo. Produtos feitos em impressoras 3D consomem plástico (petróleo) nos países consumidores dessas máquinas, e as smartbikes não usam combustíveis fósseis, senão energia elétrica – ou solar, futuramente –, e somente em quantidade necessária, quando o usuário não está pedalando, praticando exercícios físicos que reduzem o consumo de energia e melhoram a saúde.

Não bastassem as vantagens estratégicas internas da China em uma economia digital e “verde”, testadas e aprovadas por potências como Alemanha – com a qual a China mantêm conversações nesse sentido, há mais de 10 anos consecutivos –, ao mesmo tempo em que fortalecem sua economias, os países da vanguarda da Era Digital enfraquecem as potências do Império Anglo-Estadunidense formado pelo bloco dos “FIVE-EYES”, composto por Estados Unidos da América, Canadá, Reino Unido, Austrália e Noza Zelândia, conforme denúncia do ex-analista de Inteligência da Agência Nacional de Segurança dos EUA, Edward Snowden. Assim como a Rússia, o poder desse bloco está intimamente vinculado à indústria do petróleo e ao controle de zonas produtoras e distribuidoras.

Em um mundo cada vez mais digital e conectado, em que as lojas físicas perdem mercado para lojas de compras virtuais em sites de Internet, alugar bicicletas e dividir carros por meio do smartphone parece mais inteligente que comprar veículo de transporte próprio, e a informação e o volume de dados gerados pelo consumidor representam um “ativo” a ser trabalhado e explorado. O software robô (servo, em Tcheco) é o novo Golem e a “Revolução das Máquinas” começou agora que o Big Data e a Internet das Coisas (IoT) ativaram os efeitos imprevisíveis dos smartphones, impressoras 3D e smartbikes dos habitantes das “Smart Cities”.     

O petróleo ainda é indispensável, mas, a pergunta é: Até quando?

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Imagem 1Xiaomi apresenta bicicleta inteligente” (FonteDivulgação/Xiaomi):

http://olhardigital.uol.com.br/noticia/xiaomi-apresenta-bicicleta-inteligente/59612

Imagem 2A Internet das Coisas conecta os aparelhos e veículos usando sensores eletrônicos e a Internet” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Internet_das_coisas

Imagem 3Linha de produção de carros” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Engenharia_de_produção

Imagem 4Motoneta e bicicleta elétrica recarregando baterias na China” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bicicleta_elétrica#/media/File:Wuchang_Garment_District_-_charging_batteries_-_P1040874.JPG

Imagem 5Roda da Cidade Inteligente” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Roda_da_cidade_inteligente#/media/File:Roda_da_Cidade_Inteligente.png

Imagem 6Refinaria de petróleo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Refinaria#/media/File:ShellMartinez-refi.jpg

Imagem 7Uma das cúpulas geodésicas situadas na base RAF Menwith Hill, usadas para esconder a direção de antenas e equipamentos do sistema Echelon” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Segurança_UK-USA#/media/File:Menwith-hill-radome.jpg

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:                                                 

[1] Capitalismo conceitual é o termo aqui cunhado para designar um capitalismo pós-industrial em que há prevalência dos serviços de marketing, do desenho industrial e da tecnologia da informação, enfim, em que conceitos prevalecem sobre a produção de bens de consumo duráveis e não duráveis. N. do A.

[2] Resenha de “A Tirania do Petróleo: A mais Poderosa Indústria do Mundo e o que Pode ser feito para Detê-la”, de Antonia Juhasz, por José Alexandre Altahyde Hage.

Fonte: http://www.ibri-rbpi.org/?p=12381

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AMÉRICA LATINAANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

[:pt]Acordo de Paz na Colômbia é ameaçado por parte dissidente dos guerrilheiros das FARC[:]

[:pt] O ano de 2016 foi marcado pelas intensas negociações de Paz entre o Governo colombiano e os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Entretanto, como diria Mahatma Gandhi, “Não existe um caminho…

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]O julgamento de Ratko Mladic no Tribunal Penal Internacional e sua reta final[:]

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Vinte um anos após a assinatura dos Acordos de Dayton, que findaram as guerras de dissolução da antiga República Socialista Federativa da Iugoslávia, o Tribunal Internacional para a Antiga Iugoslávia (ICTY, na sigla em inglês) vem, desde 1993, buscando dar uma resposta aos crimes ocorridos durante os conflitos balcânicos da década de 1990. Essas transgressões, em sua grande maioria, são atentados aos preceitos das Convenções de Genebra – como genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

O último mês de 2016 foi um marco para a busca de justiça para as vítimas da Guerra da Bósnia, quando o “açougueiro dos Bálcãs”, Ratko Mladic – então Coronel e Comandante do Exército da República Srpksa, entre 1993 e 1995 – ouviu os comentários finais de acusação e defesa em seu julgamento, que se estende desde maio de 2012, no ICTY.

Mladic foi indiciado por onze crimes, entre eles: a morte de bósnios de origem croata e muçulmana dentro das Áreas de Segurança construídas durante a guerra; o genocídio em Srebrenica, que acabou vitimando 7 mil homens e meninos muçulmanos; a detenção de milhares de bosníacos (bósnios muçulmanos) e bósnios-croatas em precárias condições; perseguições, extermínio, duas vezes por assassinato, deportação, transferência de civis por via forçada durante o cerco a Sarajevo, durante 44 dias, em 1994; terrorismo em Sarajevo; ataques à civis; e sequestro de membros das forças de paz das Nações Unidas.

Os comentários finais de defesa e acusação de Mladic foram altamente tensos – buscando cada um dos lados refutar o outro a todo momento. A defesa convocou o Tribunal para inocentar o acusado dos seus onze crimes – contra a humanidade, de genocídio e de guerra – rejeitando de maneira total a argumentação dos promotores do Tribunal.

De acordo com os defensores do general, “em todos os aspectos do caso, os Promotores não foram capazes de provar a responsabilidade dos crimes relacionados ao General Mladic”. O advogado de defesa, Dragan Ivetic, negou às alegações da promotoria que Mladic, que foi Comandante do Exército, e Presidente da República Srpska, Radovan Karadzic, empreenderam crimes conjuntamente – visando criar um novo Estado sérvio e conduzindo uma forçosa e permanente realocação e remoção de bosníacos e croatas de grande parte do território do país: “como poderia ser possível, sabendo que as relações entre os dois não eram boas em certos momentos, como isso iria colaborar em empreitadas criminais conjuntas, sabendo que não compartilhavam as mesmas convicções?”, questionou Ivetic à Promotoria.

Por outro lado, os acusadores arguiram que os argumentos de defesa foram baseados em interpretações imprecisas e ilusórias dos fatos e que lhe faltavam evidências claras para o processo de absolvição – propondo o encarceramento perpétuo de Mladic. Nas palavras do Promotor do Tribunal, Alan Tieger, “as evidências apontam que Mladic é culpado com indícios contundentes”, além disso salientou que “Mladic não é um super-homem como a sua defesa sugere, mas unicamente um homem que teve forças suficientes para atravessar a Bósnia como se tivesse atravessando queijo – usando esses poderes para cometer os crimes e destruir a comunidade”, enfatizando a facilidade e a brutalidade com que os crimes foram cometidos.

Além do mais, o Promotor levantou a parceria que Mladic e o Presidente da República Srpska à época obtinham, afirmando que os dois “trabalhavam conjuntamente com objetivos estratégicos em separar os cidadãos de origem étnica sérvia dos muçulmanos e croatas – com chance de criar um Estado puramente sérvio com poucos inimigos internamente”. 

O veredito final desse caso é esperado para novembro de 2017. O ICTY foi palco de dois importantes julgamentos durante o ano de 2016. No primeiro, o presidente Karadzic fora sentenciado a 40 anos de reclusão em Haia, no mês de março. Acusado, assim como Mladic, por genocídio em Srebrenica, além dos crimes de perseguição, extermínio, assassinato, deportação forçada, terrorismo e manter civis e militares como reféns – exatamente quando estava no auge da hierarquia política da República Srpksa e ciente de todos os processos que seu exército estava realizando. Outra figura das guerras de dissolução das Iugoslávia é o fundador do Partido Radical Sérvio (PRS), Vojislav Seselj, que foi absolvido pelos crimes a ele atribuídos pela promotoria do ICTY. Seselj tinha sido indiciado no ano de 2003, quando o Tribunal tentou provar que ele haveria movido o braço armado do PRS, assim como outros grupos paramilitares, para perseguir croatas e bosníacos com os objetivos da Grande Sérvia – empreitada que abarcaria territórios da Croácia, Bósnia, Kosovo e Sérvia para unir todos os “territórios sérvios”.

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Imagem 1Mladic em julgamento no ICTY” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Trial_of_Ratko_Mladi%C4%87#/media/File:Ratko_Mladi%C4%87_court.jpg

Imagem 2Mladic é um dos principais nomes acusados pelo massacre em Srebrenica” (Fonte):

http://www.wikiwand.com/en/Srebrenica_massacre

Imagem 3Radovan Karadzic, ex-Presidente da República Srpska, recebeu 40 anos de reclusão em Haia” (Fonte):

https://es.m.wikipedia.org/wiki/Radovan_Karadžić#/

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

[:pt]Abstenção dos EUA diante de resolução da ONU causa indignação no Estado israelense[:]

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Na penúltima sexta-feira, dia 23 de dezembro, foi aprovado no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) um projeto de Resolução que visa acabar com a construção de moradias de Israel em territórios tidos como palestinos. Os pontos “chaves” da construção são na Cisjordânia, onde encontram-se cerca de 430 mil israelenses, atualmente, e Jerusalém Oriental, que abriga outros 200 mil, de acordo com a agência de notícias francesa France Presse.

Conforme vem sendo disseminado nas principais mídias internacionais, a ONU alertou a Israel, por diversas vezes, sobre a colonização no território palestino, avisando que isso seria um empecilho para os esforços de paz entre aquele povo e os Israelenses. No entanto, constatou-se que há alguns meses a construção de casas no território palestino aumentou, o que fez as Nações Unidas tomarem novas e mais rígidas medidas, como a Resolução aprovada do dia 23.

Esta proposta de Resolução foi apresentada pelos países: Senegal, Malásia, Venezuela e Nova Zelândia. A princípio incluía também o Egito, mas, por pressão de Israel e do presidente-eleito dos Estados Unidos (EUA), Donaldo Trump, o mesmo recuou, ficando apenas os quatro em questão.

O interesse desta Resolução é encontrar um caminho para a paz entre palestinos e israelenses, pois entendem os requerentes que a colonização por meio de assentamentos – nome dado a construção de moradias – colocava em risco a viabilidade da solução entre os dois Estados, além de impedir a criação do Estado da Palestina. Outro ponto acerca da Resolução diz respeito à reação dos israelenses, em respeito a mesma. O Documento aconselha que Israel tome medidas imediatas para reverter a situação no terreno e assim prevenir atos de violência contra civis.

Para a aprovação da Resolução seria preciso que o maior número de Estados representados no Conselho de Segurança a aprovassem, e que nenhum dos que possuem assentos permanentes vetassem. O número de países que compõem o Conselho são 15 e, dentre estes, 5 são os que possuem assentos permanentes e também o poder de veto, sendo eles: EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha. A Resolução foi aprovada por 14 votos a favor, mas o que chamou atenção e trouxe indignação ao Estado Israelense foi a abstenção dos EUA, que teve a chance de intervir com o poder de veto, mas não o fez.

Israel estimava que EUA interferissem na proposta, como ocorreu em 2011, quando uma Resolução semelhante foi apresentada ao Conselho de Segurança, contudo, o Governo norte-americano alegou ter dúvidas quanto à eficácia da mesma em relação as negociações de paz entre israelenses e palestinos e, por conta disso, usou seu poder de veto e impediu que a proposta fosse adiante.

Após a aprovação, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, por meio de seu Gabinete, emitiu um comunicado repudiando tal Resolução e a chamou de “vergonhosa e anti-israel”. Por conta disso, afirmou que “não irá respeitar seus termos”. Referindo-se ao Governo Obama, Netanyahu alegou que, além do mesmo não “proteger Israel contra essa conspiração na ONU”, o Governo do atual Presidente ainda “colaborou nos bastidores”. 

Para além disso, Donald Trump, Presidente-eleito dos EUA, que governará a partir deste ano (2017), também mostrou seu descontentamento com a atitude do Governo de Obama. Segundo publicado no jornal estadunidense The Washington Post, Trump divulgou mensagens em seu twitter na quarta-feira, dia 28 de dezembro, acusando o presidente Obama de prejudicar a relação dos EUA com aquele país, além de demonstrar seu apoio ao Governo de Israel, incentivando-o a “permanecer forte” até dia 20 de janeiro, quando Trump tomará posse.

Para conter as tensões entre Israel e EUA, o Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, se pronunciou, também no dia 28 de dezembro, e afirmou que a decisão estadunidense de se abster foi de acordo com os valores estadunidenses, e que, apesar da boa relação entre ambos os países, isso não significa que os EUA devam aceitar qualquer política. Segundo ele, “Amigos também precisam dizer as coisas difíceis uns para os outros.

Kerry ainda explicou os motivos pelos quais seria necessário interromper os assentamentos, dado as condições do local, onde a violência e o terrorismo cresciam das duas partes e findavam destruindo “as esperanças de paz para ambos os lados”.

Já com relação ao posicionamento da Palestina em relação a proposta de Resolução, seu negociador-chefe, Saeb Erekat, comunicou à imprensa que aquele era um “dia de vitória” também para o direito internacional, que passava a ter, daquele dia em diante, uma linguagem mais civilizada e de negociação, além também de finalmente combater a rejeição total das forças extremistas em Israel.

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Imagem 1Cartaz de um movimento pacifista: bandeiras de Israel e da Palestina e a palavra paz em Hebraica e Árabe” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_israelo-palestino#/media/File:Israel_and_Palestine_Peace.svg

Imagem 2Câmara do Conselho de Segurança da ONU em Nova Iorque” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conselho_de_Segurança_das_Nações_Unidas

Imagem 3Benjamin Netanyahu” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Netanyahu

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

[:pt]O Elogio da Velhice, pelo Papa, no Dia de Seu 80.º Aniversário[:]

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No passado dia 17 de dezembro o Papa Francisco celebrou seu 80.º aniversário. Associado às comemorações do líder da Igreja Católica, o Vaticano disponibilizou uma conta de e-mail e uma hashtag para felicitar Francisco[1]. O primeiro ato de seu dia festivo teve lugar durante o café da manhã, servido na Casa Santa Marta, no Vaticano, para o qual convidou um grupo de oito pessoas sem abrigo, que dormiam nas proximidades da Praça de São Pedro, para se juntar a ele. Durante a refeição matutina Francisco recebeu um telefonema de felicitações do Presidente dos EUA, Barack Obama. Em seguida, às 8 horas da manhã, o Sumo Pontífice presidiu a uma concelebração litúrgica, na Capela Paulina, no Vaticano, com os Cardeais residentes em Roma. Cumprindo a rotina de um dia normal, Francisco recebeu em audiência o Presidente da República de Malta, o Prefeito da Congregação para os Bispos, o Bispo de Chur, na Suíça, e a Comunidade de Nomadelfia, fundada por Frei  Zeno Saltini. Mais tarde, às 17 horas, o Papa se conectou, via Skype, à Prisão dos Palácios, em Veneza, a convite do Capelão, o Padre Marco Pozza[2].

Em pleno Advento, a partir de sua condição pessoal, Francisco se dirigiu aos 60 Cardeais, com idades aproximadas à sua, presentes na Capela Paulina para refletir acerca da dignidade da velhice e, também, do humor que é necessário para se enfrentarem as diferentes fases e situações vitais. Tendo recebido felicitações desde quarta-feira, dia 14 de dezembro, o Papa comentou: “Na minha terra, parabenizar antes da hora dá azar, e quem dá parabéns antecipado é pé-frio”. Por outro lado, na saudação proferida no final da missa, ele disse: “Vem-me à mente aquele poema… acho de Plínio: ‘Tacito pede lapsa vetustas’ [Ovídio]: chegará a velhice recurvada com passo silencioso. É assustador! Mas quando a consideramos como uma etapa da vida que serve para proporcionar alegria, sabedoria, esperança, começamos a viver”.

Para Francisco, a traditio é a base da revolutio. Com efeito, só sabendo quem fomos poderemos saber quem iremos ser. Esta máxima é válida para cada um de nós. Isto é válido para a família a que pertencemos, como o é para o país que nos viu nascer. Tradição, de tradere, equivale a “entrega”, é aquilo que se passa de um a outro, trans, um conceito que é irmão dos de transmissão e de transladação. Não pode ter esperança quem não tem recordações: é o caminho percorrido que nos dá forças para completar o que falta. Podemos, contudo, rejeitar a herança; podemos aceitá-la, criticando-a; podemos, ainda, aceitá-la sem qualquer tipo de crítica. Não defendemos, contudo, que os povos sejam tábuas rasas que, sem memória de nada, criem tudo a cada momento do seu existir. De acordo com Francisco, “é próprio do amor o facto de não esquecer; é próprio do amor ter sempre sob o olhar o muito, o muito bem que recebemos; é próprio do amor olhar para a história: de onde viemos, os nossos pais, os nossos antepassados, o caminho da fé…”. Assim, assinalou o Papa, “esta memória faz-nos bem, porque torna ainda mais intensa esta expetativa vigilante do Natal. Um dia calmo. A memória que remonta ao início da eleição do povo: ‘Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão’ (Mt 1, 1)”.

Tal como o Vigário de Cristo confidenciou aos presentes na missa do dia 17, “desde há alguns dias vem-me à mente uma palavra, que parece feia: a velhice. Assusta, pelo menos, assusta… Também ontem, para me oferecer um dom, monsenhor Cavalieri ofereceu-me o De Senectute de Cícero — uma gota a mais… Recordo o que vos disse a 15 de março [de 2013], no nosso primeiro encontro: ‘A velhice é a sede da sabedoria’. Esperemos que também para mim seja isto. Esperemos que seja assim!”. Após ter citado um verso de Hölderlin, “Es ist ruhig, das Alter, und fromm” – “a velhice é tranquila e religiosa”, Francisco pediu: “Rezai para que a minha seja assim: tranquila, religiosa e fecunda. E também jubilosa”.

Se o Papa Francisco, à semelhança de seus antecessores, tem defendido a vida em sua integralidade, o certo é que atualmente, altura em que se entende o ser humano a partir da dimensão hedonista, transferiram-se para o domínio público as dimensões fundamentais da existência humana: hoje, cada vez mais seres humanos nascem e morrem em hospitais. Paradoxalmente, nesta época em que se cultuam os aspectos lúdicos subjacentes a cada um de nós, se avaliam os seres humanos pelas capacidades aquisitivas que demonstram e não pelo valor ontológico que têm. Em contrapartida, o Sumo Pontífice, defendendo os valores de sempre, e não o relativismo neoliberal deste tempo, vê na velhice a fonte de sabedoria, tal como os gregos, os romanos e grande parte da História do Ocidente o fizeram. Francisco não descarta os idosos nem qualquer outra pessoa, qualquer que seja a faixa etária em que se encontram. Afinal de contas, tal como Cícero sublinhou[3] certeiramente, e Francisco corroborou, em nossos dias, a velhice é a idade da sabedoria.

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Imagem 1Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, enquanto Arcebispo e Cardeal de Buenos Aires (2008)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5a/Conf%C3%A9rence_18_juin_2008_par_le_cardinal_Bergoglio_-9.jpg

Imagem 2Domus Sanctae Marthae” / “Casa Santa Marta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Santa_Marta

Imagem 3Vista da Praça de São Pedro do topo da Cúpula de Michelangelo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vaticano

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

email: [email protected]

hashtag: #pontifex80

[2] Acerca da relação especial que mantém com aqueles que se encontram privados da liberdade, Francisco escreveu: “Tenho um afeto especial pelos que vivem na prisão, privados da liberdade. Sempre fui muito apegado a eles, por esta consciência do meu ser pecador. Cada vez que entro numa prisão para celebração ou para uma visita, sempre me vem este pensamento: por que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que aqueles que tenho diante de mim. Assim me encontro a repetir e a rezar: por que eles e não eu? Isso pode escandalizar, mas consolo-me com Pedro que negou Jesus e apesar disso foi escolhido.”, FRANCISCO, O Nome de Deus é Misericórdia. Uma Conversa com Andrea Tornielli, São Paulo, Planeta do Brasil, 2016, trad. do italiano por Catarina Mourão, pág. 76.

[3] CÍCERO, A Velhice Saudável, in (Apresentação de Luiz Feracine), A Velhice Saudável. O Sonho de Cipião, São Paulo, Editora Escala, 2006, trad. do latim por Luiz Feracine, págs. 21-77.

A versão online de “De Senectute”, em latim, pode ser consultada em:

http://www.thelatinlibrary.com/cicero/senectute.shtml

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAEUROPA

[:pt]Fethullah Gülen, Mestre do Humanismo e do Entendimento Multicultural[:]

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Nascido em 27 de abril de 1941, em Erzurum, na Turquia, no seio de uma família humilde, filho de um Imã e de uma professora voluntária de Alcorão, Fethullan Gülen aprendeu, desde cedo, os princípios do humanismo que alimentaram a sua infância e juventude tornando-o, na atualidade, num dos pioneiros do discurso intercultural e inter-religioso, no seu país e no mundo.

Formado em Ciências Islâmicas, Gülen é, além de professor, teólogo, literato, escritor, poeta, líder de opinião e erudito islâmico, um destacado ativista pela Educação e defensor da paz em nossos tempos. Enquanto promotor dos valores espirituais, por meio da Educação e do diálogo, o líder turco tem trilhado um caminho que, para os seus seguidores e, também, para aqueles que trabalham em prol das causas humanitárias, constitui um modelo que inspira a prática cotidiana. Porém, o pensamento de Gülen, que não está apenas no plano das ideias, tem provocado o combate por parte daqueles que rejeitam a igualdade de direitos entre as pessoas e os princípios da Democracia.

Em 1971, na sequência de um Golpe de Estado na Turquia, Fethullah Gülen foi preso permanecendo encarcerado durante seis meses sem acusação. A reprimenda aplicada ao líder humanista não foi suficientemente capaz de interromper a sua obra que continuou e se expandiu desde a criação do Movimento Gülen, ou Hizmet (Serviço), de caráter cívico-social, idealizado por ele em finais dos anos de 1960, na Turquia. O Hizmet tem como alicerce da sua existência o compromisso com a Educação, o diálogo, a paz, a justiça e a harmonia social. Este movimento traduz, na prática, as ideias de seu fundador, isto é, de que é possível alterar positivamente uma sociedade. Segundo Fethullah Gülen, “o Hizmet surgiu com a ideia de fundar instituições educacionais para formar jovens virtuosos, a fim de tentar encontrar soluções para os problemas do país”.

Numa época em que muitas famílias na Turquia, com poucas condições econômicas, não tinham muitas opções para conseguirem manter os seus filhos no Ensino Médio ou na Universidade nas grandes cidades, num ambiente propício para a formação dos jovens, Fethullah Gülen mudou esta realidade, através da criação de bolsas de estudo e de alojamentos para estudantes financiados pelas comunidades locais. O Hizmet, de fato, foi e continua a ser para muitos a crença no futuro a partir de uma Educação laica e com valores centrados no ser humano independentemente de confissão religiosa. Hoje, o movimento é transnacional e está presente em mais de 170 países, devolvendo a esperança de vida digna a milhares de pessoas. Os seus voluntários são “estudantes, acadêmicos, empresários, profissionais liberais, funcionários públicos, agricultores, homens e mulheres, jovens e velhos” que “contribuem para múltiplas formas de serviços, que se concentram em centros de ensino, escolas, faculdades, hospitais, organização de ajuda humanitária, editoras e instituições de mídia, tanto na Turquia”, quanto ao redor do mundo.

O trabalho desenvolvido por Fethullah Gülen, digno de distinção e que culminou no Hizmet, enfrenta na atualidade a oposição do Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, para quem o movimento é “um Estado paralelo” e uma “organização terrorista”. Gülen encontra-se auto-exilado nos EUA desde 1999, quando viajou àquele país para que lhe fossem prestados cuidados médicos. No Estado da Pensilvânia, onde estabeleceu residência, o erudito turco vive em um retiro “com um grupo de estudantes e médicos” e dedica-se “à leitura, escrita, ensino, oração individual e em pequenos grupos, e recebe alguns visitantes, quando sua saúde permite”. Embora distante da Turquia, ele enfrenta diversas acusações por parte do Governo turco, que tenta criminalizá-lo, tal como o Hizmet, embora nunca tenha conseguido provar envolvimento, quer de Gülen, quer do movimento que ele lidera, em nenhum crime. Mas a ausência de provas não serviu para impedir que a Procuradoria turca pedisse duas “condenações perpétuas e uma pena adicional de 1.900 anos” de prisão para ele. Gülen foi acusado de ter orquestrado o Golpe de Estado falhado de 15 de julho deste ano (2016), assim como de tentar “destruir a ordem constitucional pela força” e, também, “de formar e conduzir grupos terroristas armados”. No entanto, ele nega todas as acusações, condenando qualquer ato de violência.

Em 19 de dezembro, o assassinato a tiros do Embaixador russo na Turquia, Andrei Kharlov, durante a inauguração de uma exposição de fotografias, em uma galeria de Arte em Ancara, por um jovem ex-policial turco de 22 anos, de nome Mevlut Mert Altintas, fez com que, imediatamente, Erdoğan atribuísse a responsabilidade do crime a Fethullah Gülen. Porém, o grupo insurgente Jaysh al-Fateh, que integra a Frente da Conquista do Levante – a antiga Frente al-Nusra – assumiu a autoria do atentado que, mais tarde, foi reivindicado pelo Estado Islâmico.

A frase proferida pelo assassino antes de ser morto pela polícia, em que disse: “nós morremos em Aleppo, você morre aqui”, revela que os radicais agiram em retaliação ao apoio russo ao regime de Bashar al-Assad, na guerra na Síria e, ao mesmo tempo, inocenta Fethullah Gülen, que condenou o trágico episódio que levou a óbito o Embaixador russo. Em declaração escrita, Gülen afirmou: “Eu condeno veementemente este ato hediondo de terrorismo”.

Segundo informações, há indícios de que há radicais infiltrados nas forças policiais turcas, depois que milhares de policiais foram expurgados por suas supostas ligações com o movimento Gülen. Neste contexto, em várias ocasiões, o líder humanista Fethullah Gülen foi responsabilizado pelo Governo turco por ações levadas a cabo contra o país. Até hoje, nada se conseguiu provar, mas ante as incertezas regionais e internacionais torna-se necessário refletirmos sobre a segurança deste ser humano que persiste na defesa de valores humanísticos a partir do acolhimento e da prática enraizados no princípio do entendimento intercultural e inter-religioso que, muitas vezes, são condenados por indivíduos cuja visão estreita da realidade não concebe a liberdade e a igualdade entre os seres humanos como um direito inalienável.

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Imagem 1 Fethullah Gülen” (Fonte):

http://www.theblaze.com/wp-content/uploads/2016/02/Fethullah-G%C3%BClen.jpg

Imagem 2 Logo do Gulen Movement” (Fonte):

http://hizmetnews.com/gulen-movement/

Imagem 3 Gülen and Pope John Paul II” / “Gülen e o Papa João Paulo II” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Gülen_movement

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