ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Choque de gerações: mudanças socioculturais na China

A sociedade chinesa vem mudando rapidamente. Além da impressionante trajetória de crescimento econômico e desenvolvimento social que tirou 800 milhões de pessoas da linha de pobreza nas últimas décadas, é extremamente relevante que seja analisada a mudança de comportamentos e hábitos das novas gerações, que passam a dominar o mercado de trabalho e despontam como o futuro da China.

As pessoas que cresceram durante o período da Revolução Cultural, nos anos 1960, têm dificuldade em entender a nova geração de chineses que possuem comportamentos mais individualistas e têm maiores desejos de consumo. Adicionalmente, os jovens estão altamente conectados à cultura ocidental e têm maior consciência acerca dos acontecimentos e notícias internacionais.

Em seu livro China’s Millennials*: The Want Generation (“Os Millennials na China: a geração do querer”), o autor Eric Fish, jornalista e também um Millennial, viveu em território chinês por sete anos e documenta as mudanças comportamentais que vêm ocorrendo no país. Estima-se que existam 400 milhões de Millennials na China e 90% destes possuem o seu próprio smartphone.

Confúcio, filosofo chinês

Por outro lado, pressões oriundas dos valores chineses tradicionais ainda recaem fortemente sobre estes jovens. Nomeadamente, a pressão para que se consiga um casamento com uma pessoa de uma família bem-sucedida é enorme, e a pressão para que os jovens tenham filhos cedo, além de altos salários, são também constantes nas famílias chinesas.

O acesso à educação superior nas instituições mais renomadas do país é extremamente competitivo. O Gaokao, exame nacional de ingresso ao Ensino superior, está crescentemente vinculado com o aumento das taxas de depressão entre jovens. O prestígio associado às carreiras públicas ainda existe, não obstante, os jovens chineses buscam cada vez mais empregos no setor privado e/ou planejam abrir as suas próprias empresas.

Dois terços dos detentores de passaportes na China têm menos de 36 anos de idade. Os millennials chineses estão crescentemente procurando oportunidades de estudo no exterior, uma vez que o renome das universidades norte-americanas e europeias é visto como um diferencial no currículo, sobretudo no nível de pós-graduação.

Imagem de uma millennial de origem asiática

Mesmo considerando as dificuldades e a disparidade de renda entre o meio rural e as grandes cidades da costa leste, existe uma percepção generalizada entre os jovens de que a prosperidade e o bem-estar material estão ao alcance daqueles que se esforçam o suficiente em suas vidas acadêmicas e profissionais.

Vários Millennials vêm de famílias cujos pais não tiveram acesso à educação superior e bons empregos. A geração que alcançou a maioridade nos anos 1960-1980 ocupava majoritariamente empregos de baixa remuneração, na agricultura ou na indústria. Os filhos desta geração, por outro lado, estão crescentemente inseridos em instituições de Ensino superior e mesmo pós-graduação.

O país ainda não se adaptou totalmente a este salto econômico e as consequências disto refletem nas diferenças entre o comportamento dos mais velhos e das novas gerações. A renda per capita de sua população passou de menos de US$ 1,000.00 em 1978 para mais de US$ 8,800.00 ao final de 2017, sendo agora um país de renda média, contando com uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas.

Pirâmide etária da China em 2016

Neste sentido, existe um importante desafio ligado ao envelhecimento dos chineses, pois a população economicamente ativa do país deverá ter uma redução da ordem de 21 milhões de pessoas na próxima década. A China possui atualmente 150 milhões de indivíduos com mais de 65 anos. Seguindo valores confucianos tradicionais encapsulados no conceito de devoção aos pais (do inglês “filial piety”, ou “Xiào” em piniyn, ou mandarim simplificado), caberá aos millennials dedicar os cuidados adequados aos seus genitores.

Um assunto importante reside no tratamento às pessoas LGBT, visto que 94% dos chineses declaradamente LGBT tenha menos de 34 anos de idade. Pesquisas apontam que este grupo é constituído por mais de 70 milhões de indivíduos na China. No entanto, estima-se que apenas 5% destas pessoas sintam-se confortáveis para demonstrar abertamente a sua orientação em ambientes profissionais, com receio de sofrer represálias.

É comum que pessoas LGBT se casem com pessoas do gênero oposto, de modo a agradar à família ou às expectativas sociais. Mesmo assim, existe flagrante progresso em relação à aceitação dos LGBTs se comparado, por exemplo, ao período anterior à abertura e às reformas econômicas iniciadas nos anos 1970. Especialistas apontam que esta tendência deverá continuar crescendo, à medida que as novas gerações atinjam a idade economicamente ativa.

O Partido Comunista da China (PCC) está enfrentando o desafio de adaptação da economia nacional para um modelo mais fortemente pautado pelo consumo, com direcionamento para os setores de tecnologia e serviços qualificados. Será importante observar as mudanças no país nas próximas décadas, à medida que os Millennials assumirem importantes postos de comando político e econômico.

Por fim, será interessante observar a evolução deste processo de transformação dialética entre os valores chineses tradicionais, a tecnologia e o individualismo das gerações contemporâneas. A estabilidade institucional do PCC dependerá, em certa medida, de sua habilidade de navegar neste complexo e dinâmico cenário social, onde os novos profissionais valorizam crescentemente a liberdade e as suas próprias experiências. 

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Nota:

* O termo Millennials é usado para designer a geração de pessoas nascidas entre 1980-2000, que estão alcançando a idade adulta por volta das primeiras décadas do século XXI. Embora o termo não descreva um grupo demográfico preciso, a característica mais marcante desta geração é o contato com o meio digital, visto que estas pessoas cresceram cercadas pelos recentes avanços tecnológicos. Este termo foi criado inicialmente para a realização de análises de mercado, designando um grupo de consumidores. Devemos salientar que existem diversos recortes adicionais que podem ser realizados, considerando a diversidade socioeconômica, étnico-racial, de gênero, de credo religioso entre outros aspectos que contribuem para a diversidade dos Millennials. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Imagem de uma chinesa com um bebê” (Fonte): https://pixabay.com/pt/humanos-idade-jovens-beb%C3%AA-av%C3%B3-721364/

Imagem 2 Confúcio, filosofo chinês” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Konfuzius-1770.jpg

Imagem 3 Imagem de uma millennial de origem asiática” (Fonte): https://www.pexels.com/photo/blur-chairs-earphone-fashion-371163/https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Deng_Xiaoping.jpg – /media/File:Deng_Xiaoping.jpg

Imagem 4 Pirâmide etária da China em 2016” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png#/media/File:Bev%C3%B6lkerungspyramide_China_2016.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

Situação econômica mundial e perspectivas para 2019

A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) e o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (DESA) elaboraram em conjunto com as cinco Comissões Econômicas Regionais da ONU (África, Ásia e Pacífico, América Latina e Caribe, Europa, Oeste Asiático) o Relatório “Situação Econômica Mundial e Perspectivas para o ano de 2019*. Lançado no final de janeiro deste ano (2019), o documento fundamentalmente debate a sustentabilidade do crescimento da economia global frente aos emergentes desafios nas esferas financeiras, sociais e ambientais. 

Especialista em assuntos econômicos do DESA, Helena Afonso

Segundo Helena Afonso, especialista em assuntos econômicos do DESA, a previsão para o referido crescimento é de 3% no ano atual, repetindo-se o patamar alcançado em 2018. As aparentes robustez e estabilidade, no entanto, não se legitimam diante do enfrentamento de riscos que podem desacelerar a economia no curto prazo e o desenvolvimento no longo. 

Para ilustrar este cenário de possível retrocesso podem ser elencados os seguintes fatores: diminuição de atividades de cooperação multilaterais, elevando-se as tensões comerciais entre países; vulnerabilidades financeiras que podem se associar ao endividamento dos Estados (principalmente dos países em desenvolvimento) e a intensificação dos danos provocados pelas mudanças climáticas.

Em se tratando de meio ambiente e desenvolvimento econômico, a ideia debatida pelo documento é a da criação de uma transição para padrões de consumo e produção mais sustentáveis para o planeta. Nesse sentido, faz-se mister utilizar menos energia proveniente de combustíveis fósseis a partir de regras mais claras de eficiência energética e de preços específicos para o carbono, por exemplo.

Também, em relação à tensão comercial, deve-se salientar que o impacto na economia mundial se concretiza em uma queda significativa de investimentos, no aumento dos preços ao consumidor e no declínio na confiança e no sucesso dos negócios. Logo, podem-se agravar as fragilidades financeiras, especialmente das economias emergentes, resultando em diminuição da produtividade e do acesso a tecnologias.

Cargueiro – Foto: Jhon Henriano/Shutterstock.com

Desta forma, embora tenha havido progresso substancial do desenvolvimento econômico e social nas últimas duas décadas, mais de 700 milhões de pessoas encontram-se abaixo da linha de pobreza, sendo mais da metade delas presentes no continente africano. Por este motivo, o documento sustenta que a economia mundial estritamente integrada faz com que instituições e regras sejam vitais para se assegurar o bom funcionamento dos mercados, a resolução dos desentendimentos e a garantia da estabilidade.

Por fim, ressalta-se que muitos dos desafios dispostos na Agenda para o Desenvolvimento Sustentável de 2030 são globais por natureza e necessitam de ação e cooperação coletiva. Em síntese, apoiando-se em estatísticas complementares oriundas do Banco Mundial, o diagnóstico** para alguns dos principais atores do sistema econômico em 2019 é o seguinte:

– Para os Estados Unidos, a projeção é de avanço econômico de 2,5%, frente a 2,9% em 2018.

– Para a Zona do Euro, a expectativa é de avanço de 1,6% (diante de 1,9% em 2018) e, para o Japão, de 0,9% na comparação com 0,8% no ano passado.

– Para o Brasil, o organismo internacional projeta crescimento econômico de 2,2% em 2019 e de 1,2% no ano passado. Já para a China, o PIB deve subir 6,2%, frente a estimados 6,5% em 2018.

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Notas:

* O Relatório da Situação Mundial da Economia e Perspectivas para 2019 (em inglês) pode ser conferido neste link.

** O Relatório do Banco Mundial (Global Economic Prospects) pode ser conferido na íntegra (em inglês).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Capa do World Economic Situation Prospects” (Fonte): https://www.un.org/development/desa/dpad/wp-content/uploads/sites/45/WESP2019_BOOK-web.pdf

Imagem 2 Especialista em assuntos econômicos do DESA, Helena Afonso” (FonteONU NEWS): https://news.un.org/pt/interview/2019/01/1656352

Imagem 3CargueiroFoto: Jhon Henriano/Shutterstock.com (Fonte): https://nacoesunidas.org/banco-mundial-alerta-para-piora-da-economia-global-em-2019/

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

O novo radar da marinha chinesa e a dinâmica securitária no sudeste asiático

No dia 8 de janeiro de 2019, o Governo da China anunciou que cientistas militares do país avançaram no desenvolvimento de um radar Over the Horizon (OTH) compacto e com capacidade para patrulhar uma área equivalente ao território indiano. O projeto se tornou público após Liu Yongtan, pesquisador líder do programa receber o maior prêmio científico da nação asiática pelas mãos do Presidente Xi Jinping. De acordo com Liu, “os equipamentos de vigilância e monitoramento chineses atuais cobrem apenas 20% do nosso território marítimo. Com o novo sistema, poderemos cobrir tudo” 

Conforme destaca Andrew Tate, oficial da reserva da marinha britânica, radares convencionais são limitados pelo horizonte, isto é; pelo ponto no qual a curvatura do planeta impede que as ondas transmitidas naveguem em linha reta. Radares OTH, por outro lado, emitem e captam ondas eletromagnéticas que são refletidas pela ionosfera terrestre e, por conta disso, são capazes de cobrir áreas muito maiores. Em contrapartida, eles consomem vastas quantidades de energia e precisam estar fixados em terrenos abertos e planos.

A inovação do radar OTH produzido pela equipe de Liu Yongtan consiste em seu tamanho compacto, o qual permitirá seu comissionamento em porta-aviões e garantirá a mobilidade necessária para os navios de guerra da China realizarem missões de patrulha em águas azuis. O aumento na demanda por energia das embarcações poderá ser suprido pelo novo gerador de 20-megawatt anunciado pela China Shipbuilding Industries no dia 25 de dezembro de 2018.

Radar OTH posicionado nos Estados Unidos

O anúncio do novo equipamento ocorre em uma conjuntura de acirramento das disputas de soberania no Mar do Sul da China. Nesse contexto, o radar OTH é fundamental para garantir a superioridade informacional das forças militares chinesas no perímetro territorial que o país reivindica. No entanto, é importante notar que a China não é a única a dominar essa tecnologia. Conforme destaca o South China Morning Post, a empresa Raytheon, contratada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, recebeu licença de patente para iniciar o desenvolvimento de equipamento similar em 2016.

No âmbito diplomático, por sua vez, o radar OTH chinês implica um aumento na percepção de ameaça dos países membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), bem como um desafio direto para presença naval dos Estados Unidos na região. Essa tensão ficou evidenciada no dia 2 de outubro de 2018, quando uma embarcação chinesa e um destroier estadunidense estiveram próximos de colidir acidentalmente no Mar do Sul da China.   

Xi Jinping, Presidente da China

Desse modo, o desafio que se impõe à política externa da China consiste na conciliação de dois imperativos estratégicos. Em primeiro lugar, sustentar um contínuo processo de aprimoramento tecnológico para que suas forças navais estejam sempre operacionalmente capacitadas para enfrentar a marinha estadunidense em uma eventual crise. Em segundo lugar, garantir um ambiente estável no sudeste asiático, o que requer a manutenção de relações diplomáticas amistosas com países os quais ela possui disputas territoriais em aberto.  

No curto prazo, a conciliação entre os dois objetivos parece plausível em função da interdependência econômica existente na região e pela errática política externa perseguida pelo governo dos EUA nos últimos dois anos. No entanto, no médio prazo, a taxa de crescimento chinês deve desacelerar e a influência política de Trump poderá desaparecer após as eleições presidenciais de 2020.

Neste novo cenário, o radar OTH projetado por Liu será, ao mesmo tempo, um importante componente da estratégia de defesa de Beijing e uma justificativa legítima para o recrudescimento da cooperação militar entre Washington e os demais países que possuem reivindicações territoriais no Mar do Sul da China. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1PortaAviões chinês realizando operações no pacífico ocidental” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/rhk111/42032620622

Imagem 2Radar OTH posicionado nos Estados Unidos” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Over-the-horizon_radar#/media/File:ROTHR_USNavy_a.png

Imagem 3Xi Jinping, Presidente da China” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/15/Xi_Jinping_%282017-07-07%29.jpg/800px-Xi_Jinping_%282017-07-07%29.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Itália e França travam uma crise diplomática histórica

Itália e França estão protagonizando uma crise, até o momento, diplomática. Após o vice-Primeiro-Ministro, Luigi Di Maio, ter se encontrado com líderes do movimento conhecido como Coletes Amarelos, em Paris, no dia 5 de fevereiro (2019), o Presidente da França, Emmanuel Macron, ordenou o retorno do embaixador Cristian Masset a Paris, na última quinta-feira, 7 de fevereiro (2019). Os Coletes Amarelos são manifestantes franceses assim conhecidos por usarem coletes dessa cor durante os protestos. Este movimento começou no final de 2018, em função do elevado preço do combustível veicular na França e se estendeu para outras demandas a partir de então.

Esta é a primeira vez que isso ocorre desde o final da Segunda Guerra Mundial, terminada em 1945. O encontro do governante italiano com os franceses foi apenas o estopim de uma recente tensão entre esses países europeus iniciada em junho de 2018, quando a coalizão formada por partidos de direita na Itália ascendeu ao poder. No início, as questões migratórias foram os principais pontos de divergência entre os governos, como quando o governo italiano recusou o recebimento de migrantes encontrados no mediterrâneo.

Protesto dos Coletes Amarelos em novembro de 2018

Recentemente, houve uma troca de acusações entre os representantes governamentais a respeito da pobreza na África e a atuação francesa no processo de colonização e manutenção desse status colonial nos dias de hoje. Matteo Salvini, o outro vice-Primeiro-Ministro da Itália, também teria alegado que a França fomentou a instabilidade na Líbia a fim de beneficiar a empresa de petróleo francesa Total, competidora da italiana ENI; e ainda declarou ter desejado a derrota de Macron nas próximas eleições europeias em maio (2019).

Na contraofensiva, o Presidente da França minimizou as declarações dos políticos italianos e disse que lidaria somente com o Primeiro-Ministro do país, Giuseppe Conte, que, por sua vez, atestou as reais intenções eleitorais dos seus compatriotas que estariam adotando esta estratégia de enfrentamento com Macron. Ainda assim, Conte alertou que a França deveria tratar melhor sobre três questões consideradas importantes por ele: a política de retornar migrantes para a Itália – cuja prática é antiga –; a checagem de fronteiras; e o asilo concedido a políticos de esquerda que permanecem na França.

Emmanuel Macron, Presidente da França, no Fórum Econômico Mundial de 2018

Em uma resposta aos Coletes Amarelos, o Parlamento francês aprovou, em sua Câmara baixa, uma lei que estabelece novas regras para os protestos no país. A partir do momento em que seja colocada em prática, a legislação determinará que autoridades administrativas, e não necessariamente judiciais, possam proibir determinados indivíduos de seu direito de protestar se estes forem considerados uma ameaça à ordem pública. Evidentemente que esta decisão veio acompanhada de críticas, sendo que um dos deputados a comparou ao Regime de Vichy, que passou a vigorar após a invasão alemã na Segunda Guerra Mundial e foi um período de muitas restrições ao povo francês.

O momento em que esta crise se estabelece é crucial para a integração europeia. Ao mesmo tempo ocorre o Brexit, processo de saída do Reino Unido da União Europeia; assim como o aceno do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, a uma diminuição aos esforços da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Ademais, a crise na Venezuela demonstra como os países europeus não estão alinhados ao discurso norte-americano enquanto Bloco, e nem entre eles mesmos, ao não conseguirem fechar questão acerca da autoproclamação de Juan Guaidó à Presidência do país sul-americano. Nesse sentido, não por acaso, França e Itália estão em lados opostos: enquanto os franceses reconhecem o pleito de Guaidó, os italianos impediram que um pronunciamento conjunto dos países europeus fosse realizado.

Ainda assim, é importante colocar em contexto a situação. A crise que se estabelece é de ordem governamental e não estatal, o que significa dizer que as relações entre os países não estão necessariamente estremecidas, mas sim a de seus representantes. Tal situação pode significar problemas futuros, até mesmo de ordem estatal, mas isto deve ser acompanhado ao longo dos mandatos dos governantes e as eleições para o Parlamento Europeu, em maio (2019), serão um interessante “termômetro” para sentir a resposta política dos europeus no atual cenário.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeiras de Itália e França” (Fonte): https://pixabay.com/pt/fran%C3%A7a-amizade-pavilh%C3%A3o-3938928/

Imagem 2Protesto dos Coletes Amarelos em novembro de 2018” (Fonte): https://es.m.wikipedia.org/wiki/Archivo:ManifGiletsJaunesVesoul_17nov2018_(cropped).jpg

Imagem 3Emmanuel Macron, Presidente da França, no Fórum Econômico Mundial de 2018” (Fonte): https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Special_Address_by_Emmanuel_Macron,President_of_France(39008127495).jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A migração de “não-imigrantes”: a atração de trabalhadores estrangeiros ao Japão

O envelhecimento da população japonesa tem motivado uma série de mudanças na sociedade, legislação e economia do país. Com o encolhimento de aproximadamente 1 milhão de pessoas em 5 anos (de 2012 a 2017), o Japão, com 127 milhões de habitantes e expectativa de vida de 85,5 anos, procura atrair mão de obra com o intuito de frear a contração do Produto Interno Bruto (PIB), estimada em 25% nas próximas quatro décadas, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para tanto, um Projeto de Lei foi aprovado ano passado (2018) a fim de facilitar a migração de trabalhadores estrangeiros, flexibilizando os requisitos de visto e nível de proficiência da língua ao criar duas novas categorias de visto, uma permitindo permanência por 5 anos para pessoas com nível de qualificação mais baixo, e outra possibilitando o pedido de residência após esse período para os de qualificação mais alta. Atualmente, a expectativa é de atrair 300.000 trabalhadores até 2025. As áreas com maior déficit são a de construção civil, enfermagem, construção naval, transporte, hotelaria e agricultura.

Anteriormente já existia um programa “fast-track” de visto para profissionais altamente qualificados, em que o processo de concessão era realizado em 10 dias. Segundo o Governo, de maio de 2015 a janeiro de 2018, o número de estrangeiros nesse grupo aumentou 97%; de 2008 até 2017, a quantidade de estrangeiros trabalhando pulou de 500 mil para 1,28 milhão.

Tóquio

O Governo já tentava mitigar essa problemática com programas de treinamento de estrangeiros no Japão, contudo, algumas denúncias de exploração por parte dos empregadores surgiram, gerando críticas. A princípio, espera-se que esses trainees sejam os primeiros a serem alocados nas áreas deficitárias, conforme a nova categoria de visto. Shinzo Abe, Primeiro-Ministro japonês, foi enfático na questão do suprimento de mão de obra em setores que realmente necessitam de funcionários, na aparente tentativa de apaziguar a ansiedade perante o iminente alto número de migrantes.

É notável, em meio aos esforços de atração de mão de obra, a retórica utilizada de negação do termo “imigração” – Abe declara que as mudanças não se constituem como “política de imigração”, principalmente pelo fato de os candidatos ao visto da categoria 1 não serem autorizados a levar familiares consigo. Tal recurso serve à sua base conservadora, sem, no entanto, prejudicar o âmbito econômico. Alguns analistas comparam esta estratégia ao que foi feito na Alemanha nos anos 1950 a 1970, chamada gastarbeiter*, que estimulou a vinda de trabalhadores estrangeiros na época da reconstrução do país, mas não oferecia o status de residente**.

A nova política acarretou alguns protestos, porém, uma pesquisa realizada pela Kyodo News em novembro do ano passado (2018) indica a aceitação de um pouco mais de 50% da população e rejeição de cerca de 39%. No momento, o total de estrangeiros corresponde aproximadamente a 1% da população total.

O distanciamento em relação à imigração não é recente, uma vez que, historicamente, o Japão adotou políticas isolacionistas, como o Período Sakoku, quando cessou relações com os demais países ou teve contato extremamente controlado pelo governo (no caso, os vizinhos asiáticos), de 1639 a 1868. Em 2008, com a crise econômica e financeira, os descendentes de japoneses brasileiros e peruanos que haviam sido convidados a trabalharem no Japão foram igualmente convidados a retornarem aos seus países de origem, mediante pagamento.

A integração dessas pessoas será um grande desafio e representa uma das maiores críticas ao programa, visto que alguns consideram que o Governo não está dedicando a atenção devida a esse aspecto. O Bushidô***, antigo código de conduta muito presente na cultura, sociedade e etiqueta japonesa, pode representar uma das dificuldades de adaptação para quem for ao país. Por outro lado, lidar com a diversidade em uma população 98% da mesma nacionalidade pode ser desafiadora para os anfitriões. O Japão tem se empenhado cada vez mais em discutir e incorporar a diversidade no cotidiano, e o crescimento do turismo, que em 2018 atingiu o recorde de 30 milhões de visitantes, pode ser o impulso necessário para mudar a imagem de homogeneidade, especialmente na Olimpíada, em 2020.

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Notas:

* Trabalhador Estrangeiro”, numa tradução literal da palavra composta alemã gastarbeiter.

** Em 2005, entretanto, estipulou-se uma lei focada em residência a longo prazo e integração, tornando a Alemanha “um país de imigrantes”.

*** O Bushidô é o código de conduta dos samurais no Período Tokugawa (1603-1868), transmitido oralmente, sendo uma síntese do budismo, confucionismo e xintoísmo. Enfatiza a coragem, honra, justiça, benevolência, respeito, honestidade, dever e lealdade.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Monte Fuji” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Japan#/media/File:Chuurei-tou_Fujiyoshida_17025277650_c59733d6ba_o.jpg

Imagem 2 Tóquio” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0f/Shibuya_tokyo.jpg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Chile encabeça a lista dos melhores países da América Latina para fazer negócios

A República do Chile é o melhor país da América Latina para fazer negócios em 2019, de acordo com a lista divulgada em dezembro de 2018 pela Forbes, renomada publicação de economia e negócios dos Estados Unidos. No ranking com total de 161 países, liderado este ano pelo Reino Unido, o Chile aparece em 33º lugar, sendo o primeiro país latino-americano, seguido pela Costa Rica, em 48º, e pelo México, em 54º. 

A classificação tem sido feita nos últimos 13 anos e considera 15 fatores distintos, a saber: direitos de propriedade; inovação; taxas; tecnologia; corrupção; infraestrutura; tamanho do mercado; risco político; qualidade de vida; força de trabalho; liberdade individual; liberdade de comércio; liberdade monetária; burocracia; proteção do investidor.

A Forbes utiliza fontes diversas de informação e, no caso de taxas, proteção do investidor e burocracia os dados têm origem no relatório Doing Business do Banco Mundial. Na classificação geral do Banco Mundial, o México é o primeiro país latino-americano, figurando em 54º, seguido do Chile, em 56º, e da Colômbia, em 65º.

Os fatores liberdade de comércio e liberdade monetária são coletados do Índice de Liberdade Econômica (Index of Economic Freedom em inglês) da Heritage Foundation e os chilenos ocupam a 18ª posição, à frente de todos os demais vizinhos regionais. O quesito liberdade individual (direitos políticos e liberdades civis) vem do Relatório Liberdade no Mundo (Freedom in the World) da Freedom House, no qual os três países latinos com melhor colocação são: Uruguai (9º lugar); Chile (21º) e Costa Rica (38º). 

O Relatório de Competitividade Global (Global Competitiveness Report) do Fórum Econômico Mundial foi a fonte dos indicadores de tecnologia, inovação e infraestrutura, no qualos primeiros países da região são: Chile (33º); México (46º) e Uruguai (53º). Com efeito, o Chile tem se destacado nessa área e vem conseguindo atrair o interesse de grandes investidores internacionais, a exemplo de IBM, Amazon e do Google, que mantém no território chileno, desde 2015, o seu único data center na América Latina.

Presidente Piñera discursa na abertura do 5° Fórum Internacional de Investimento Chile 2019

O ranking do Índice Internacional de Direitos de Propriedade (International Property Rights Index) da Property Rights Alliance foi utilizado para o quesito direitos de propriedade, no qual a região está liderada por Chile (1º lugar regional e 29º global); Costa Rica (2º; 31º) e Uruguai (3º; 43º). No que se refere à percepção de corrupção, os dados proveem do  Índice da Transparência Internacional e os três melhores desempenhos entre os latino-americanos ficam com Uruguai (23º global), Chile (27º) e Costa Rica (48). 

Em termos de qualidade de vida, as melhores posições da América Latina, baseadas no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, pertencem a Chile (44ª), Argentina (47ª) e Costa Rica (63ª).  Segundo o Mapa de Risco Político de Marsh & McLennan os maiores níveis de estabilidade (risco político) da região estão situados no Chile, Uruguai e Panamá. O tamanho de mercado foi considerado em função do PIB e a força de trabalho calculada com base em dados do Banco Mundial. Outras informações gerais e da economia das nações foram coletadas do CIA’S World Factbook.

De acordo com a lista da Forbes, Chile (33º) e Costa Rica (48º) são os únicos da região entre os primeiros 50 países. No grupo intermediário aparecem México (54), Uruguai (58), Peru (64), Colômbia (67), Brasil (73), Panamá (75), Argentina (76), Guatemala (97) e Equador (99).  No último terço da lista temos El Salvador (101), Paraguai (114), Honduras (120), Bolívia (128), Nicarágua (135) e Venezuela (143).

Entre os dias 15 a 17 de janeiro de 2019, a InvestChile, agência governamental de promoção do país como destino de Investimento Estrangeiro Direto (IED),  promoveu o 5º Fórum Internacional de Investimentos Chile 2019, com a participação de uma centena de empresas de 21 países e volume de investimentos estimados em mais de 7 bilhões de dólares.

Na cerimônia de abertura do Fórum, o presidente chileno Sebastián Piñera dedicou parte do seu discurso na conferência inaugural à atração de IED, ressaltando, dentre outras coisas, que seu país é estável política e economicamente e afirmou que há um estado de direito sólido, com regras claras e até mesmo vantagens concedidas a investidores estrangeiros que não estão disponíveis para os nacionais. 

Atenta a tais oportunidades de negócios, a TMF Group, uma corporação que se apresenta comouma expert global em negócios locais” e que detém “expertise local e o conhecimento para ajudar empresas” na sua expansão publicou, em 2018,  um artigo intitulado “Considerações culturais ao fazer negócios com o Chile” por meio do  qual orienta potenciais investidores estrangeiros.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Abertura do 5° Fórum Internacional de Investimento Chile 2019” (Fonte): https://investchile.gob.cl/wp-content/uploads/2019/01/sin-tixxtulo-16-de-267.jpg

Imagem 2 Presidente Piñera discursa na abertura do 5° Fórum Internacional de Investimento Chile 2019” (Fonte): https://investchile.gob.cl/wp-content/uploads/2019/01/sin-tixxtulo-122-de-267.jpg