ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Xi Jinping promete criar um sistema de saúde pública robusto para garantir a estabilidade da China

O Presidente da China, Xi Jinping, prometeu construir um forte sistema de saúde pública, afirmando que é crucial para a estratégia de desenvolvimento e a segurança nacional da China. Xi assumiu o compromisso em um discurso de alto perfil no Grande Salão do Povo, em Pequim, na terça-feira (2 de junho de 2020), em uma reunião a portas fechadas com vários dos principais especialistas em medicina e saúde pública, incluindo o especialista em doenças respiratórias, Zhong Nanshan, informa o jornal South China Morning Post.

Na reunião, Xi se comprometeu a direcionar recursos para criar uma rede de saúde pública que vincule governos centrais e locais, agências de controle e prevenção de doenças, laboratórios, hospitais e institutos de saúde de base, bem como escolas de saúde pública para garantir identificação e respostas rápidas a surtos de novas doenças infecciosas. Também ordenou a persecução de melhor coordenação e disciplina para que as brechas técnicas sejam suprimidas. “A segurança das pessoas é a pedra angular da segurança nacional … Um sistema de prevenção de doenças é … importante para garantir a estabilidade econômica e social”, apontou o Mandatário chinês.

Enfermeira atendendo paciente no Hospital Hubei TCM, em Wuhan

É a declaração mais recente de Xi para mostrar sua liderança na revisão do sistema de saúde da China, após a emergência da pandemia de coronavírus, que matou 380.000 pessoas em todo o mundo (até 5 de junho de 2020).

Xi realizou vários discursos sobre o fortalecimento do sistema de saúde pública, com os detalhes mais recentes sobre as ações tomadas pelo governo. “Um mecanismo de investimento estável no sistema de saúde deve ser estabelecido para melhorar a infraestrutura do sistema de controle e prevenção de doenças”, afirmou o Chefe de Estado chinês. Para Xi, os centros de controle de doenças e hospitais também devem “estabelecer um mecanismo para compartilhar informações, recursos e supervisionar uns aos outros”, enquanto várias escolas de saúde pública de alto nível devem ser estabelecidas para promover a experiência em pesquisa de patógenos, epidemiologia e testes laboratoriais.

Yanzhong Huang, pesquisador sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores, de Washington, observou: “O investimento pós-Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS)* da China em suas capacidades de vigilância e resposta a doenças realmente valeu a pena, como mostra sua capacidade de concluir a sequência do genoma da Covid-19 em um período muito curto. Mais investimentos nessa área ajudariam a corrigir as brechas no sistema de saúde pública.

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Notas:

* A Síndrome Respiratória Aguda Grave, causada pelo vírus Sars-Cov-1, é uma doença identificada pela primeira vez na China, que ocasionou uma pandemia global entre 2002 e 2004, infectando 8.098 pessoas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da China, Xi Jinping” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Xi_Jinping_at_Great_Hall_of_the_People_2016.jpg

Imagem 2 Enfermeira atendendo paciente no Hospital Hubei TCM, em Wuhan”(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=hospital+wuhan&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:A_nurse_measuring_the_body_temperature_for_outpatients_in_Hubei_TCM_Hospital.jpg

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Infância, violência e pandemia no continente africano

Os efeitos socioeconômicos da pandemia do Covid-19 em países em desenvolvimento e de menor desenvolvimento relativo realçou a vulnerabilidade da infância e juventude em situações de crise. Além das questões que incluem a dificuldade de acesso a serviços básicos e suprimentos, o aumento da violência contra crianças se soma nesta perspectiva.

As Organizações Internacionais Save The Children e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, sigla em inglês para United Nations Children’s Fund) divulgaram conjuntamente dados que salientam o caráter emergencial e humanitário da juventude mundialmente. Segundo a pesquisa, até o final do ano de 2020 serão 86 milhões de crianças vivendo em lares empobrecidos em decorrência da pandemia. Cabe destacar que tal acréscimo será mais expressivo na África Subsaariana e na Ásia Meridional.

Dentro das implicações relacionadas com a pandemia, como já mencionado, as diferentes expressões da violência contra a criança se tornam alarmantes. Ações como a agressão física, abuso sexual e psicológico, exploração, negligência e violência relacionada à comunidade na qual estão inseridas compõem o amplo espectro de abusos que as crianças e jovens experienciam. Em virtude do isolamento social e da interrupção das atividades escolares, o mecanismo de identificação e denúncia de abusos contra crianças e adolescentes, realizado por educadores, também foi severamente afetado.

Logo da UNICEF

A título de compreensão, o Grupo das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável utilizou o surto do Ebola, de 2014, em seu relatório sobre o impacto do Covid-19. Ainda que sejam extremamente diferentes, o Ebola fornece um parâmetro para elucidar a vulnerabilidade da infância e juventude em emergências sanitárias e humanitárias.

Para tanto, durante essa epidemia, aproximadamente 16,6 mil crianças perderam um de seus pais ou cuidadores. Apenas em Serra Leoa houve o aumento de 11% da gravidez entre meninas de 12 a 17 anos; a retomada das atividades escolares entre meninas na faixa etária citada acima decaiu para 34%. De modo complementar, a restrição da renda familiar causada pelo Ebola agravou os casos de desnutrição em 3,5%. Como efeito, o trabalho e o casamento infantil também foram agravados durante a epidemia.

Trabalho infantil no campo

A UNICEF alerta para punições de caráter disciplinador que são comumente utilizadas na África Central e Ocidental – antes mesmo do surto do Covid-19.  Estima-se que este tipo de medida educacional violenta seja aplicado em uma a cada três meninas (entre crianças e adolescentes). Do mesmo modo, o casamento infantil ocorre em quatro de dez jovens adultas (entre 20 e 24 anos) que tiveram seus casamentos realizados antes dos 18 anos.

Com a alarmante dimensão que a atual pandemia adquiriu, a UNICEF lançou em abril de 2020 a Agenda de Ação voltada para a proteção infantil, composta por 6 tópicos principais que tratam, em síntese, sobre manutenção da saúde, alimentação, educação e segurança de crianças e familiares em risco. Nesse quadro, 41 Estados Africanos assinaram a Agenda de iniciativas para a proteção da infância.

A Covid-19 exacerbou fenômenos que já ocorriam cotidianamente, e em outros processos de crise humanitária. Medidas adotadas no âmbito exterior, como a Agenda da UNICEF, podem representar um ponto relevante do debate sobre a garantia dos direitos humanos aplicada a esse segmento tão vulnerável da sociedade. Contudo, tendo em vista que o protocolo de contenção da disseminação do vírus também impactou nas redes de suporte comunitário ao combate da violência contra as crianças, se faz necessário o estabelecimento de medidas mais incisivas no âmbito doméstico para a reversão deste cenário.

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Imagem 1Crianças Somali” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/Somali_children.JPEG

Imagem 2Logo da UNICEF” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1f/UNICEF_FLAG.png

Imagem 3Trabalho infantil no campo” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Child_labour_in_Africa

ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

União entre empresas solicita retomada econômica “Verde” a líderes mundiais

Lançado em 2000, o Pacto Global trata-se de uma iniciativa do então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para as empresas alinharem estratégias no intuito de defenderem suas operações a partir de estratégias voltadas à preservação do meio ambiente e dos direitos humanos. Por outro lado, este instrumento não tem peso de código de conduta ou regulação mandatória, trata-se de um consenso voluntário de lideranças corporativas comprometidas com uma mudança profunda da gestão mundial de negócios.

Recentemente, um grupo de 155 empresas (que somam mais de 5 milhões de funcionários) assinaram um comunicado pleiteando junto aos governos um alinhamento de seus esforços na recuperação econômica frente à crise disseminada pela COVID 19, como também para enfrentar as alterações climáticas. A título de ilustração, dentre os signatários brasileiros podemos citar: Movida, Malwee, AES Tietê, Lojas Renner, Natura e Baluarte. Ao todo, construíram o documento representantes de 34 setores e de 33 países.

Estas empresas também compõem a iniciativa Science Based Targets, que é uma colaboração entre o CDP, o Pacto Global da ONU, o World Resources Institute e o WWF, cuja missão é avaliar e validar independentemente as metas climáticas corporativas em relação às mais recentes ciências climáticas. Assim, busca-se desenvolver junto aos governos e líderes mundiais políticas que aumentem a resistência a choques futuros.

Sobretudo, os esforços conjuntos traçam como meta manter o aumento da temperatura global até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, em linha com o alcance de emissões líquidas zero antes de 2050.

#ÉHoraDaNatureza! – Fonte: UNEP

Segundo Lila Karbassi, chefe de programas do Pacto Global da ONU e membro do Conselho da Science Based Targets, “os governos têm um papel fundamental a desempenhar, alinhando políticas e planos de recuperação com a mais recente ciência climática, mas não podem conduzir apenas uma transformação socioeconômica sistêmica. Para lidar com as crises interconectadas que enfrentamos, precisamos trabalhar juntos como uma comunidade internacional para entregar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris”.

Por fim, a retomada aclamada pelas empresas vai ao encontro do preparo sanitário e do apoio governamental dos Estados, no intuito de proteger os trabalhadores e o meio ambiente interconectado a todas as atividades econômicas. Para maiores informações, as ações do Pacto Global estão disponíveis neste link.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Recuperação econômica verde Foto: Pixabay” (Fonte):

Imagem 2 “#ÉHoraDaNatureza! Fonte: UNEP” (Fone):

https://www.unenvironment.org/pt-br/regions/america-latina-e-caribe-brasil

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

A preparação digital na América Latina

Um estudo realizado pela Cisco Systems, e divulgado no início de 2020, avaliou a prontidão digital de 141 nações. Dentre os 21 países latino-americanos avaliados pelo Digital Readiness Index 2019,  os três melhor posicionados são o Chile (34º), o Uruguai (41º) e a Costa Rica (47º) e os três piores são a Nicarágua (97º), a Venezuela (100º) e o Haiti (134º).

Outro estudo denominado Speedtest Global Index, da Ookla, atualizado em abril de 2020, classifica 174 países, por ordem decrescente de classificação, em velocidade de internet fixa banda-larga e internet móvel. Singapura lidera o ranking de banda-larga fixa, e na América Latina (A.L.) aparecem o Chile (30º), o Panamá (35º), o Brasil (56º) e em seguida o Uruguai (61º). Os piores desempenhos ficaram com Cuba (172º) e Venezuela (173º).

Em termos de internet móvel, a liderança mundial é da Coreia do Sul, a Jamaica (50º) é a primeira nação latino-americana e a Venezuela (138º) é a de pior desempenho. Singapura e Chile detêm a liderança mundial e regional, respectivamente, no ranking do Digital Readiness Index e no Speedtest Global Index em velocidade de internet fixa banda-larga. Entretanto, observa-se, entre os dois índices, variação significativa na classificação de outros países. Isto porque a infraestrutura tecnológica medida também pelo Speedtest é importante, porém é apenas um dos fatores do Digital Readiness Index.

Já a escola de negócios suíça IMD publicou, em final de 2019, o seu Ranking Global de Competitividade Global com 63 países analisados. São três os fatores avaliados, a saber:   Conhecimento, Tecnologia e Prontidão Futura. No trabalho da IMD, Singapura ocupa a 2ª posição, perdendo apenas para os EUA, e Chile (42ª) é o primeiro da A.L., seguido de México (49ª) e Brasil (57ª).

A Cisco desenvolveu um modelo de análise para definir, mensurar e descobrir as intervenções-chave que os Governos podem adotar para evoluírem na jornada de prontidão digital. A metodologia se utiliza de uma abordagem holística para compor um panorama completo da preparação do país, baseada em sete fatores: 1) Necessidades Básicas; 2) Investimentos Empresariais e Governamentais; 3) Facilidade de Fazer Negócios; 4) Capital Humano; 5) Ambiente de Startup; 6) Adoção de Tecnologia; 7) Infraestrutura Tecnológica.

Os Sete Fatores do Readiness Index 2019 da Cisco

A partir dessa análise, os países foram classificados em um dos três estágios a seguir: Ativação, Aceleração e Amplificação. Em Ativação está o grupo que se encontra nos primeiros passos da jornada digital e em Aceleração os que avançaram um pouco mais, porém com espaço bastante para aceleração ou melhoria. Este grupo intermediário foi subdividido em Aceleração Baixa (abaixo da média do grupo Aceleração) e Aceleração Alta (acima da média citada). Em Amplificação estão os mais avançados, porém essa posição não garante liderança no processo no longo prazo.

O Apêndice A do relatório mostra todos as nações, em ordem alfabética, com a nota obtida em cada um dos sete fatores. A média mundial é equivalente a 11,90 e os três primeiros colocados da A.L. superaram essa média com as seguintes notas: Chile (14,80), Uruguai (13,88) e Costa Rica (13,58).  Já os três últimos tiveram notas bastante inferiores à média global: Nicarágua (9,91), Venezuela (9,52) e Haiti (5,96).

Nenhum país do mundo obteve a nota máxima (25), Singapura, que ficou em primeiro lugar obteve nota 20,26. Segundo o relatório da Cisco, o grau de maturidade digital, de certa forma, espelha o desenvolvimento econômico de cada país e está fortemente correlacionado com outros indicadores tais como PIB per capita e meio-ambiente saudável.

O relatório traz considerações sobre os fatores de maior impacto, citando o Capital Humano como crítico em todos os estágios para formar uma força de trabalho capaz de utilizar e criar tecnologia. Para os que estão no estágio de Ativação recomenda-se investir fortemente em Necessidades Básicas e desenvolvimento de Capital Humano. Em Aceleração, recomenda-se atuar em Facilidade de Fazer Negócios. Mesmo para os em Amplificação, geralmente com excelente pontuação em Necessidades Básicas e Facilidade de Fazer Negócios, é necessário continuar investindo nestes componentes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa de Prontidão Digital da Cisco” (Fonte):

https://www.cisco.com/c/en/us/about/csr/research-resources/digital-readiness/_jcr_content/Grid/category_atl_b054/layout-category-atl/anchor_info_e4d7.img.jpg/1579075233174.jpg

Imagem 2 Os Sete Fatores do Readiness Index 2019 da Cisco” (Fonte):

https://alln-extcloud-storage.cisco.com/blogs/1/2020/01/Digital-Readiness-graphic-1024×444.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURADireito Internacional

ACNUR alerta para “Trajetória Migratória” no Mediterrâneo

Organizações internacionais estatais, como o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados), e não governamentais, como a SOS Mediterranée, dentre outras, manifestaram-se em conjunto no último dia 14 de maio de 2020, sobre a situação trágica dos migrantes no Mar Mediterrâneo. Alertam para o agravamento da crise migratória nesta região, devido à pandemia, que provocou o fechamento de portos e a interrupção das missões estatais de resgate humanitário de migrantes.

O enviado especial do ACNUR para o Mediterrâneo Central, Vincent Cochetel, declarou que “se não existirem resgates no mar e os países continuarem a protelar decisões para resgatar e desembarcar as pessoas, acabaremos com situações humanitárias bastante graves”. No mesmo sentido, a diretora-geral da ONG francesa SOS Méditerranée, Sophie Beau, afirmou que a atual situação é “verdadeiramente dramática”, e constata violações ao Direito Marítimo Internacional, que prevê o socorro, o mais rápido possível, a qualquer pessoa que esteja em perigo no mar.

Além da ONG SOS Mediterranée, outras instituições não governamentais se somam a este grupo de vozes que buscam obter apoio mundial para a causa do resgate humanitário de migrantes na região. A importância desse crescente movimento se deve não só à suspensão dos resgates humanitários pelas autoridades estatais, mas, também, à recente proibição das ações humanitárias que eram empreendidas pelas ONG Sea-Eye, alemã e outra do País Basco, com suas embarcações “Aita Mari” e “Alan Kurdi”, além do navio “Ocean Viking”, da SOS Mediterrranée. Sophie Beau declarou a respeito que “agora, como não há testemunhas, não conhecemos a extensão da possível tragédia” que está ocorrendo no Mediterrâneo, desde o começo de maio, quando foram canceladas as operações destes navios.

A rota migratória entre a Líbia e a Tunísia, para a Itália e para o País Basco, é uma das mais volumosas no mapa global das migrações, conforme informa o ACNUR. A pandemia intensificou este fluxo, por fatores como o desemprego, conforme aponta o ACNUR, ao informar que cerca de 75% dos migrantes e refugiados na Líbia perderam o trabalho desde as medidas de contenção em razão do COVID-19, e das medidas de Lockdown no país, durante os meses de março e abril últimos. Neste contexto, as partidas da Líbia quadruplicaram em relação a 2019, conclui Cochetel. Dados de 25 de maio do ACNUR registram que chegaram nos territórios da Itália, Espanha, Chipre, Malta e Grécia, 19.573 refugiados e migrantes através do mar e estimam que 182 estão desaparecidos ou mortos.

Migrantes em situação de resgate – Foto exibida no sítio virtual de Frontline Club

Diante da pandemia, e na ausência de navios humanitários no Mediterrâneo, 160 migrantes encontram-se atualmente bloqueados em mar a bordo de dois navios Captain Morgan de turismo, o que é objeto de preocupação externado pelo ACNUR, que requer aos Estados Europeus a solução deste problema, visto que já cumpriram o período de quarentena. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar rege a obrigação dos Estados em prestar assistência aos que estiverem em situação de risco no mar. O respeito aos direitos humanos e ao direito humanitário também devem orientar os Estados em situações como a descrita, que, entretanto, não é absoluta, sobretudo em situações complexas, como a que é vivenciada ao longo da pandemia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Resgate Humanitário no Mar Mediterrâneo – Mediterranean 2017 © Maud Veith/SOS Méditerranée. Disponível através do website da organização não governamental Médicos sem Fronteiras” (Fonte):

https://www.doctorswithoutborders.org/sites/default/files/styles/crop_7x3_full_width_hero/public/image_base_media/2018/08/MSF213615.jpg?h=35939e54&itok=Q5PrRc5_

Imagem 2 (A) e (B) “Imagens de campanhas de ONG pela liberação das atividades dos navios de resgate humanitário Aita Mari” (Fontes):

http://solasean.com/blog/hipocresia-a-la-europea/ e https://sea-eye.org/en/

Imagem 3Migrantes em situação de resgate Foto exibida no sítio virtual de Frontline Club” (Fonte):

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

O novo governo e novas agendas políticas para o Iraque

No último dia 7 de maio, o Parlamento do Iraque realizou, através de votação, a escolha de Mustafa Al-Khadimi como novo Primeiro-Ministro do país, bem como deu posse ao seu gabinete.

A nomeação de um novo Primeiro-Ministro ocorre seis meses após a renúncia de Adil Abdul-Mahdi do cargo, em 29 de novembro de 2019. Desde então, o Parlamento iraquiano não conseguiu apontar um novo governo para o país. Dois Chefes de Governo foram apontados pelo presidente iraquiano Barham Salih, mas renunciaram antes que o órgão legislativo pudesse votar sua condução ao poder.

Abdul-Mahdi renunciou em meio a uma profunda turbulência política, que levou a quase 2 meses consecutivos de violentos protestos nas ruas do país e à polêmica em torno da violenta repressão por parte do governo, resultando em pelo menos 500 manifestantes mortos e mais de 19 mil feridos até dezembro de 2019.

Ao contrário das expectativas, a renúncia de Mahdi não chegou a produzir um arrefecimento dos protestos, que ocorreram com mais e menos intensidade até a imposição de medidas de quarentena, em 17 de março, reduzindo a presença da população nas ruas visando diminuir os efeitos da pandemia causada pela Covid-19.

A dificuldade em encontrar objetivos comuns entre os distintos grupos políticos do Iraque e a dificuldade em encontrar um nome que agradasse às ruas levou ao longo processo de escolha. Al-Khadimi, antigo chefe da inteligência no país, e jornalista de formação, apareceu como uma alternativa “técnica” frente à dificuldade de formar um governo. O novo Primeiro-Ministro iraquiano se propôs a formar um governo com pessoas consideradas especialistas em suas áreas e salientando que buscou escolher figuras “não associadas a partidos políticos”.

Apesar da formação de um novo governo representar um ponto positivo, existem claras barreiras a serem superadas por al-Khadimi. Apesar do ânimo de parte do Parlamento, o novo Chefe de Governo empossou um gabinete com 7 posições vagas – entre elas as de Ministro do Petróleo de das Relações Exteriores.

O novo governo do Iraque, reunido em sessão oficial – Página oficial do Governo do Iraque

O atual governo assume em um período bastante desafiador. No âmbito econômico, o país já enfrentava uma alta taxa de desemprego, sobretudo entre jovens, e a dificuldade em manter a liquidez do dinar iraquiano, a qual se acrescenta o risco de necessitar imprimir moeda para pagar salários do funcionalismo público.

De acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a exportação da commodity corresponde por 68 bilhões de dólares (R$ 378 bilhões de reais, segundo cotação do dia 22/05) em um total de 98 bilhões (R$ 530 bilhões, segundo a mesma cotação do dia 22/05) exportados anualmente pelo país.  A recente queda dos preços do petróleo, aliada à falta de expectativa de um retorno do valor do barril a um patamar mais alto, produz um desafio às receitas.

O novo governo também herda de seu antecessor a grave crise política e a escalada dos problemas de segurança internos. A agenda de segurança e a recuperação do diálogo com a população devem ser prioridades no próximo período.

Al-Khadimi ressaltou após a primeira reunião de seu governo que buscará “compensação e justiça” para as famílias dos manifestantes martirizados pelas forças de segurança. Prometendo, inclusive, punição aos envolvidos em eventos de repressão mais violenta e a libertação dos 98 manifestantes que permanecem presos. Apesar do direcionamento do governo, as cortes de justiça do Iraque ainda relutam em libertar estes presos.

Além das já esperadas resistências de grupos políticos e milícias locais, o recém-empossado Primeiro-Ministro enfrentou uma série de protestos no fim-de-semana que seguiu a sua posse. O maior destes levou centenas de manifestantes à praça Tahrir, no centro de Bagdá, exigindo mudanças políticas por parte do novo governo.

Mustafa Al-Khadimi também indicou que pretende adotar mais restrições e medidas mais duras de controle sobre as milícias, sobretudo grupos que possuam relações diretas com o Irã. Peças importantes na derrota do Estado Islâmico no Iraque, grupos como as Forças de Mobilização Popular (FMP) são hoje considerados grandes desafios para o estabelecimento de um governo central e Estado funcional.

Membros das Forças de Mobilização Populares distribuem mantimentos para afetados pela pandemia causada pelo novo Coronavírus – Página Oficial das FMP no Facebook @WarMediaTeam

Existem denúncias severas quanto à atuação violenta destes grupos contra manifestantes, principalmente nas regiões majoritariamente xiitas do Iraque. Um relatório recente da Missão de Assistência das Nações Unidas no Iraque (Unami) informou que atores armados infra-estatais (frequentemente identificados como “milícias”) estiveram envolvidos no desaparecimento e tortura de pelo menos 123 indivíduos em manifestações entre outubro de 2019 e março de 2020.

Em protesto ocorrido no dia 10 de maio, na cidade de Basra, região majoritariamente xiita no sul do país, manifestantes que pediam a renúncia do governador da província, Assad al-Eidani, além de pessoas que fazem parte da elite local entraram em confronto com membros da milícia local Thar Allah al-Islami. Um manifestante faleceu e outros quatro ficaram feridos no confronto. Por ordem direta do Primeiro-Ministro, conforme divulgado pela conta oficial do governo no Twitter, as forças de segurança locais invadiram a sede da milícia no dia seguinte. As forças policiais prenderam todos os presentes – incluindo o líder da milícia, Yusif Sawani – e recolheram armamento no local.

Com poucos dias à frente do escritório, a postura de al-Khadimi aponta para um endurecimento da ação governamental, visando centralizar o uso da Força e colocar controle sobre as milícias pelo Iraque. Forças governamentais também prenderam no dia 21 de maio Maytham al-Okaili, líder da Saraya al-Khorasani – uma facção pró-Irã associada às FMP. O Primeiro-Ministro chegou a apresentar um plano para a incorporação das milícias às forças de segurança regulares, impondo o controle governamental e novas leis para reger suas operações. No dia 16 de maio, ele realizou uma visita ao quartel-general das FMP em Bagdá, onde se reuniu com lideranças do grupo para “diminuir a tensão”, segundo a mídia local.

Apesar do Estado Islâmico não possuir mais amplo controle territorial sobre o Iraque, ondas de mobilização do grupo permanecem uma ameaça constante, bem como outros grupos terroristas. A associação das milícias ao Irã pode representar um desafio ao lidar com o poderoso vizinho. Os grupos também contam com simpatia da população após o combate contra o EI e tem efetivo controle territorial de muitas regiões.

O novo governo do Iraque deve enfrentar uma acirrada desconfiança da população, dificuldades para estabilizar o país economicamente e a maior crise sanitária da história recente. Em meio a este cenário, o Primeiro-Ministro busca também a solução do que é considerado um dos maiores problemas estruturais do Estado iraquiano. Apesar de constituir uma agenda política que representa um elemento necessário à estabilidade do governo, há um risco grande em desafiar a popularidade de grupos políticos instituídos e criar frentes desafiadoras, em meio a um período já turbulento para o país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O PrimeiroMinistro do Iraque, Mustafa AlKhadimi, em pronunciamento oficial Página oficial do gabinete do PrimeiroMinistro do Iraque no Twitter. @IraqiPMO” (Fonte):

https://twitter.com/IraqiPMO/status/1264616581629444097/photo/1

Imagem 2 O novo governo do Iraque, reunido em sessão oficial Página oficial do Governo do Iraque” (Fonte):

Imagem 3Membros das Forças de Mobilização Populares distribuem mantimentos para afetados pela pandemia causada pelo novo Coronavírus Página Oficial das FMP no Facebook @WarMediaTeam” (Fonte): https://www.facebook.com/WarMediaTeam