AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Um inimigo em comum: EUA e Irã lutam contra Estado Islâmico

Em junho de 2014, tanto os Estados Unidos da América (EUA), quanto à República do Irã sinalizaram disposição para cooperar na luta contra o grupo jihadista  Estado Islâmico (EI). O EI é um grupo de atuação transnacional, que almeja a criação de um Califado (unidade político-religiosa extinta) no Iraque e na Síria. Na época, líderes dos dois governos manifestaram o interesse na cooperação para deter o Estado Islâmico, no entanto, as desconfianças históricas e a oposição interna dos dois países inviabilizaram o estabelecimento de uma cooperação[1].

É preciso observar que as relações entre Estados Unidos e Irã foram rompidas em 1979, quando ocorreu a Revolução Iraniana, colocando os até então aliados em lados opostos. A partir de então uma série de acontecimentos, como a inclusão do Irã no chamado Eixo do Mal, em 2005, o desenvolvimento do Programa Nuclear Iraniano, os interesses e alianças divergentes no Oriente Médio, estabeleceram uma forte competição estratégica entre os dois países. Esse quadro de competição foi amenizado em 2013 quando Hassan Rouhani, Presidente do Irã, buscou promover um diálogo de reaproximação com o Ocidente, particularmente com os EUA, a fim de pôr fim no isolamento do país e abrandar as sanções ocidentais que sufocam a economia iraniana há décadas[2].

No presente, o avanço do Estado Islâmico no Oriente Médio pode ser, segundo alguns analistas, um ponto de convergência entre Estados Unidos e Irã, haja vista que as preocupações dos dois governos transcendem as fronteiras do Iraque e incluem interesses de ambas as partes na região como um todo. Desse modo, o contexto geopolítico favorece à cooperação entre os Governos norte-americano e iraniano[3]. Contudo, é necessário observar que o Irã é inimigo de dois tradicionais aliados norte-americanos: Israel e Arábia Saudita. Além disso, os EUA apoiam os rebeldes sírios que tentam derrubar Bashar al-Assad, que é aliado do Irã.

Posto isso, é preciso ter em mente que os objetivos políticos do Governo norte-americano para o Oriente Médio giram em torno de eixos principais: garantir a segurança de Israel; impedir que o Irã tenha acesso a armas nucleares; manter boas relações com as potências regionais Turquia e Arábia Saudita; conter grupos islâmicos radicais[4]. No entanto, a complexidade do atual quadro na região, que engloba distintos grupos e interesses, tem gerado diversas contradições. Segundo afirma Hall Gardner, professor de política internacional na Universidade Americana de Paris, os Estados Unidosse encontram num dilema e não sabem o que fazer, pois existem muitos interesses conflitantes e contraditórios entre os sauditas, os iranianos, o governo iraquiano, o governo sírio e todas as outras forças envolvidas[5].

Em vista disso, apesar do Irã e dos Estados Unidos compartilharem um inimigo em comum, os dois países não estabeleceram uma cooperação para combater o EI. Entretanto, para muitos analistas, essa cooperação ocorre de forma extraoficial. De acordo com Houschang Hassan Yari, professor de ciência política da Academia Militar Real do Canadá (RMC-C), “Washington tem conhecimento de todas as atividades iranianas no Iraque. Claro que o Irã não precisa pedir permissão aos EUA para agir no Iraque, mas Teerã não agiria no Iraque sem antes informar os EUA. Afinal, ambos têm o mesmo objetivo: derrotar o ‘Estado Islâmico’[6].

Em dezembro de 2014, John Kirby, porta-voz do Pentágono, confirmou pela primeira vez que o Irã realizou recentemente bombardeios aéreos contra posições do Estado Islâmico no leste do Iraque, no entanto, negou qualquer envolvimento dos Estados Unidos na operação feita pelo Irã[7]. Segundo Kirby,  “temos indicações de que houve bombardeios com aviões F-4 Phantom nos últimos dias[8]. Todavia, o Governo iraniano negou qualquer tipo de envolvimento em ataques contra o EI em território iraquiano e assinalou ainda que não há cooperação com a coalizão liderada pelos EUA[9].

Vale lembrar que o Irã foi o primeiro país a se prontificar em auxiliar o país vizinho no combate ao grupo jihadista  enviando equipamentos e assistência em campo. O Irã também enviou ao país vizinho caças Sukhoi Su-25 para ajudar na defesa do país. Além disso, as milícias xiitas treinadas pelo Governo iraniano que lutam contra o EI no Iraque são um importante apoio ao fragmentado exército iraquiano[10]. Assim, de acordo com Mohammad Javad Zarif, Ministro do Exterior do Irã, o Governo iraquiano deve ser ajudado na luta contra o terrorismo[11]. Nesse sentido, cabe ressaltar que o Irã tem buscado ampliar sua influência no Iraque há anos, um exemplo disso é atuação da Força Quds, um braço da Guarda Revolucionaria Iraniana no país vizinho.

Apesar de muitas especulações sobre uma possível cooperação entre o Irã e os Estados Unidos, os dois governos negam a sua existência. No entanto, John Kerry, Secretário de Estado dos EUA, declarou que o Iraque tem autonomia para fazer o que quiser no seu espaço aéreo[12], mas salientou que “se o Irã está enfrentando o ‘Estado Islâmico’, isso é positivo, mas não terá nenhum tipo de coordenação com os Estados Unidos[13].

Desse modo, ao que indica, existem duas forças combatendo o Estado Islâmico, uma liderado pelos EUA e outra pelo Governo iraniano. Segundo Hassan Hashemian, especialista em assuntos iranianos, “o Irã quer formar sua própria coalizão contra os terroristas do EI. Ao dar seu apoio na luta contra o EI, assim como é feito pelos países ocidentais, o governo em Teerã pretende assegurar que os curdos se tranquilizem[14]. Em contrapartida, o governo dos Estados Unidos lideram desde o ano passado uma Coalizão Internacional que inclui aproximadamente 60 países e três organizações (OTAN, UE, Liga Árabe).

Alguns analistas argumentam que o Oriente Médio e o atual quadro é importante demais para que não haja um diálogo entre os principais atores da região[15]. Apesar da necessidade de coordenação entre as Forças da Coalizão e o Irã, até mesmo para se evitar um possível choque aéreo, os dois negam qualquer tentativa de aproximação nesse sentido. Todavia, analistas acreditam que nos bastidores o Governo iraquiano age como intermediário dos dois lados[16].

O Irã é um relevante ator no Oriente Médio, devido à sua importância geopolítica, capacidade de influência regional e à relativa estabilidade. Em vista disso, e, para não fragilizar ainda mais as tentativas de reaproximação entre os dois países, Barack Obama, Presidente dos EUA, enviou, em outubro de 2014, uma carta ao aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo Iraniano, a fim de salientar que os ataques aéreos no Iraque não eram um desafio à influência iraniana no país[17]. Por fim, cabe ressaltar que mesmo que haja uma cooperação nos bastidores na luta contra o Estado islâmico, é muito provável que ela se restrinja apenas ao Iraque, uma vez que na Síria as alianças e o contexto interno levam EUA e Irã a lados opostos.

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Imagem (Fonte):

https://isape.wordpress.com/2014/01/03/eua-ira-e-siria-possibilidades-de-reconfiguracao-geopolitica-no-oriente-medio/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.dw.de/eua-e-ir%C3%A3-sinalizam-disposi%C3%A7%C3%A3o-de-cooperar-na-crise-do-iraque/a-17710542

[2] Ver:

https://ceiri.news/aproximacao-e-impasses-entre-estados-unidos-e-ira/

[3] Ver:

https://www.stratfor.com/analysis/iraq-united-states-and-iran-align-against-islamic-state

[4] Ver:

http://www.dw.de/objetivos-conflitantes-dificultam-pol%C3%ADtica-dos-eua-para-o-oriente-m%C3%A9dio/a-17735417

[5] Ver:

Idem.

[6] Ver:

http://www.dw.de/os-interesses-do-ir%C3%A3-na-luta-contra-o-estado-isl%C3%A2mico/a-18108852

[7] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/03/internacional/1417595652_440291.html

[8] Ver:

Idem.

[9] Ver:

https://isape.wordpress.com/2014/12/04/ira-e-eua-cooperam-para-combater-estado-islamico/

[10] Ver:

Idem.

[11] Ver:

http://www.dw.de/os-interesses-do-ir%C3%A3-na-luta-contra-o-estado-isl%C3%A2mico/a-18108852

[12] Ver:

https://isape.wordpress.com/2014/12/04/ira-e-eua-cooperam-para-combater-estado-islamico/

[13] Ver:

Idem.

[14] Ver:

http://www.dw.de/os-interesses-do-ir%C3%A3-na-luta-contra-o-estado-isl%C3%A2mico/a-18108852

[15] Ver:

http://www.dw.de/opini%C3%A3o-ir%C3%A3-contra-o-ei-o-inimigo-do-meu-inimigo-%C3%A9-meu-amigo/a-18108434

[16] Ver:

Idem.

[17] Ver:

Idem.

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Segurança e Energia no México

Recentemente, um relatório do Centro de Estudos Internacionais Woodrow Wilson (Wilson Center) avaliou a região nordeste do México, em especial os Estados de Veracruz e Tamaulipas, sobre a relação entre as preocupações do setor petroleiro e de segurança. O Informe afirma que os esforços do Governo mexicano para melhorar a segurança nos dois Estados que contém as maiores reservas de gás e petróleo do país beneficiará primeiramente em curto prazo aos investimentos estrangeiros, ignorando planos em longo prazo para melhorar a segurança[1].

A partir de mudanças constitucionais e legislativas nos últimos dois anos que permitem investimento privado nos setores de petróleo e gás, maiores oportunidades foram disponibilizados para exploração[2].  Mesmo que os riscos geopolíticos no México sejam baixos, a violência relacionada com cartéis e outras atividades criminosas continuam a gerar grande preocupação para empresas petroleiras internacionais. Homicídios, sequestros, extorsões, ataques em indústrias e movimentos sociais desafiam governantes regionais e podem potencialmente afetar a cadeia de comércio petroleiro e de gás.  Preocupações com segurança acabam ficando nas mãos de autoridades e da sociedade civil, enquanto as empresas se preparam para a exploração[2].

Veracruz e Tamaulipas receberão maior parte do investimento estrangeiro incluindo a criação de uma grande rede de transporte do gás, colocando as regiões como os Estados mais importantes em termos de energia do país[1].  No entanto, estes dois Estados também são casa de dois dos grupos criminosos e de tráfico de drogas mais poderosos do país, os Zetas e seus concorrentes, o Cartel do Golfo[1]. Os dois grupos estão em conflito desde 2010, quando, desde então, a região possui o maior índice de sequestros do México[1]. Estas organizações criminosas não somente procuram atingir os seus inimigos, mas também o Governo mexicano, militares, civis e algumas vezes estrangeiros que estão a trabalho na região[2].

O Centro Wilson ainda ressalta que os dois grupos têm criado a prática de roubar gás e petróleo de empresas exploradoras para vender tanto nacionalmente como internacionalmente, ao mesmo tempo, os dois Estados em destaque sofrem com o maior índice de roubo destes produtos no país inteiro[2]. A deterioração da segurança em ambos os lugares levou ao envio de tropas militares para a proteção de empresas petroleiras e dos estrangeiros trabalhando em operações de exploração, extração e refinamento[2][3].

Especialistas do Wilson Center afirmam que as atividades criminosas “aumentam o custo de realizar negócios na região. (…). Para companhias maiores não chega a ser um grande problema, mas para empresas de porte menor é sim um problema que tem que ser considerado[4].  Empresas pequenas possuem pouca experiência operando em ambientes de grande risco e podem acabar se decidindo por operar em outros países[5].

As preocupações com segurança se estendem não somente a patrulhas e equipes de segurança, mas também com relação a grandes extorsões e problemas de corrupção. Os Zetas e o Cartel do Golfo exploram as fraquezas das empresas petroleiras. Ambos os grupos possuem os recursos para subornar e intimidar trabalhadores, ao revelar vulnerabilidades das redes de tubulação, por exemplo. Estas mesmas capacidades também são utilizadas para dissuadir o governo local e equipes de segurança que possam chegar a intervir em atividades de roubo dos produtos[1][6]. A rede de tráfico de petróleo e gás roubados é tão desenvolvida que inclui barcos para o armazenamento, caminhões tanque e postos de gasolina comandados pelos cartéis[2].

A intersecção entre segurança pública e o desenvolvimento da infraestrutura da indústria energética significa que empresas terão de investir em estratégias de segurança no México tanto quanto eles desenvolvem em outras partes do mundo, afirma o Wilson Center[2].  No entanto, é importante salientar que a nova ação do Estado Mexicano em abordar a segurança nos estados de Tamaulipas e Veracruz significa que os grupos criminosos têm enfrentado significativas interrupções nas suas atividades e a presença de tropas federais e policiais levanta preocupações sobre o entendimento do papel dos cidadãos na segurança pública e no estado de direito[1][2].

Especialistas afirmam que, para o sucesso dos projetos energéticos do México, seria indispensável considerar “uma estratégia mais completa e integrada que inclua o engajamento da comunidade e uma aproximação ao modelo de segurança baseada na comunidade. Isto em combinação com tentativas de uma reforma da justiça e da polícia para garantir a implementação do estado de direito[1][2].

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ImagemTubulação perfurada para roubo no México” (Fonte):

http://www.insightcrime.org/news-analysis/why-success-of-mexico-oil-security-plan-may-not-matter

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[1] Ver:

http://www.insightcrime.org/news-analysis/why-success-of-mexico-oil-security-plan-may-not-matter

[2] Ver:

http://www.wilsoncenter.org/sites/default/files/Addressing%20the%20Concerns%20of%20the%20Oil%20Industry_3.pdf

[3] Ver:

http://www.insightcrime.org/news-briefs/rising-oil-theft-points-to-criminal-collusion-with-foreign-businesses

[4] Ver:

http://www.bloomberg.com/bw/articles/2014-06-19/mexicos-drug-cartels-scare-oil-and-gas-investors

[5] Ver:

http://www.forbes.com/sites/nathanielparishflannery/2014/08/18/will-security-problems-hamper-mexicos-energy-boom/

[6] Ver:

http://www.mcclatchydc.com/2014/12/02/248706/mexico-thieves-stealing-billions.html

[7] Ver:

http://res.dallasnews.com/interactives/border_energy/

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Estado Islâmico: ações, projetos e políticas contra a barbárie

Conforme vem sendo apresentado por analistas na mídia, a rotina de barbárie imposta pelo autoproclamado Estado Islâmico (ou Daesh) nas linhas de combate na Síria e no Iraque já ultrapassou os limites de eventuais contornos diplomáticos em vista do alto grau de desprezo pela vida humana e pela forma degradante como a estrutura política do grupo insurgente interfere no cotidiano dos territórios ocupados.

Com uma proposta de implementar a Sharia, Lei Islâmica sem os preceitos interpretativos do Alcorão, abrem-se precedentes para adoção de doutrinação social que insira punições de lesa humanidade reprováveis e passíveis de penalidade de acordo com as normas do Direito Internacional definidas pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), enquadrando as ações do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Islamic State of Iraq and al-Sham – ISIL, na sigla em inglês) em qualquer umas das denominações de crimes internacionais, ou seja, Genocídio, Crimes contra a Humanidade, Crimes de Guerra e Agressão.

No curso das ações, o autoproclamado Califado Islâmico idealizado por Abu Bakr Al Baghdadi já conseguiu enraizar nas regiões ocupadas um modelo fundamentalista que não cederá tão facilmente aos planos ocidentais de enfraquecimento das linhas de combate. Até o presente momento, a retórica da coalizão liderada pelos Estados Unidos, aliada as poucas incursões aéreas e ao suporte ao Exército Curdo, conhecido como Pershmergas, pouco fez para que o EI retrocedesse, apesar das pesadas baixas. A ideologia wahhabita do Estado Islâmico, que agrega ainda exploração de imagens e edições bem elaboradas como propaganda de recrutamento, dá a dimensão de que a organização está bem preparada para suportar as pressões internacionais por um longo período.

Para analistas militares ouvidos pelo New York Times (NYT), as últimas semanas podem indicar uma reviravolta do conflito, uma vez que forças iraquianas, formadas majoritariamente pela etnia xiita, curdos e o apoio aéreo da coalizão norte-americana fez retroceder os avanços do EI, eliminando combatentes, destruindo equipamentos e interrompendo as comunicações nas cadeias de comando, impedindo, assim, maiores movimentos.

Dentro dessa ótica, oficiais militares americanos deslocados para o Iraque confiam que o Exército Iraquiano repaginado e novamente organizado estaria pronto para grandes operações visando retomar o controle das regiões dominadas pelos insurgentes nos próximos 4 a 8 meses. As forças de segurança já obtiveram ganhos nas cidades de Baiji e Samarra, cortando apoio pela principal estrada que liga a Mossul, cidade que concentra grandes bacias petrolíferas que servem como uma das fontes de financiamento para investimentos no conflito.

Concomitantemente aos feitos até aqui produzidos, mas que ainda carece de maior assertividade por parte da coalizão internacional, alguns pontos levantados devem ser agregados como parte de um plano estrutural maior para eliminar os combatentes do ISIL e toda sua estrutura de comando. Nesse sentido, como vem sendo identificado nas análises apresentadas na mídia, é fundamental:

  1. Intensificar os ataques aéreos. A campanha de bombardeios promovidos pela coalizão internacional (formada oficialmente por Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Arábia Saudita, Bahrain, Qatar, Jordânia e Emirados Árabes Unidos) deve superar os até agora contabilizados 632 ataques aéreos, tendo caído apenas 1.700 munições no Iraque e na Síria. Bombardeios desconexos não irão promover qualquer resultado duradouro.
  2. Encerrar a proibição de tropas em solo. O presidente Obama não indicou a permissão de que Forças Especiais (isso não significa que as mesmas já não estejam atuando) e Controladores Aéreos Avançados sejam incorporados na massa militar que combate os milicianos do Estado Islâmico. A falta de apoio nesse nível dificulta a precisão nos bombardeios. Com uma participação terrestre mais efetiva, a eficácia nos ataques seria mais relevante e com resultados mais rápidos, sem contar a diminuição na incidência de “fogo amigo”.
  3. Aumentar o tamanho do engajamento dos Estados Unidos. Segundo dados militares, a força atual é de 2.900 homens, considerada inadequada pela dimensão e complexidade do conflito. De acordo com o General Anthony Zinni, estima-se como adequado tropas em torno de 10 mil a 25 mil homens, incluindo Forças Especiais, Controladores Aéreos, em parceria com efetivo local, bem como logística, inteligência, seguranças e contingentes aéreos em apoio.
  4. A aliança com todo o Iraque e facções moderadas na Síria. Analistas de política internacional acreditam que seria de grande valia trabalhar ao lado dos Pershmergas, tribos sunitas, Exército Sírio Livre e elementos das Forças de Segurança Iraquianas (ISF, na sigla em inglês). Os Estados Unidos devem aliar-se a tribos sunitas com estabelecimento de bases operacionais na Província de Anbar e aumentar a coordenação com o Exército Sírio Livre, além de planos para treinar os combatentes na Síria.
  5. Comandos de Operações Especiais (Joint Special Operations Command – JSOC, na sigla em inglês). Unidades de SEALS e Delta Force foram fundamentais na segmentação da rede Al Qaeda no Iraque. Esses Comandos Especiais responderam pela eficiência em reunir informações, interrogar prisioneiros e ações clandestinas. O deslocamento dessas unidades novamente para o Oriente Médio auxiliaria na mesma temática passada.
  6. Participação turca na guerra. O presidente Obama deve buscar maior apoio de Ancara na campanha militar. O Exército Turco poderia empurrar o ISIL a ponto de fomentar zonas de segurança para os membros moderados da Oposição síria. Porém, a participação turca esbarra no desejo do presidente Recep Tayyip Erdogan de que Washington cumpra o compromisso de derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad, já que Ancara o considera como o precursor das instabilidades na região.
  7. Mobilizar tribos sunitas. Tribos sunitas tanto em território iraquiano quanto sírio tendem a apoiar tacitamente o Estado Islâmico, ao menos não resistir as ingerências do grupo insurgente. Os sunitas iraquianos são ressentidos com os Estados Unidos por apoiar a dominação xiita em Bagdá através do antigo primeiro-ministro Nouri al-Maliki. O novo primeiro-ministro Haidar al-Abadi, que também é xiita, porém mais moderado e disposto a unir novamente os povos no Iraque, pode reverter a situação, senão colocar as tribos sunitas subordinadas novamente aos desejos dos xiitas de Bagdá.

A possibilidade de uma engenharia política com acordos de autonomia dentro da estrutura federal, tal como é contemplada pelos curdos ao norte, pode facilitar a inserção das tribos na luta contra o Califado autoproclamado.

Todavia, críticas ao modelo deverão surgir à medida que tal estratégia se torne demasiadamente cara e empurraria novamente Washington para uma nova guerra terrestre no Oriente Médio. Segundo dados extraoficiais, o custo financeiro com o destacamento de 10 mil soldados para região poderia alcançar a soma de US$ 10 bilhões/ano, além das potenciais baixas nas forças militares. Por outro lado, a estratégia minimalista tem escassa possibilidade de sucesso, aumentando o potencial de sucesso do ISIL e abrindo precedente para expandir suas operações para regiões como Líbano, Jordânia, Arábia Saudita, além do Sudeste Asiático.

O envolvimento norte-americano mais acentuado, juntamente com Turquia, tribos sunitas iraquianas e sírias poderia suavizar a possibilidade de uma incursão terrestre sem precedentes, ao passo que se mantiver a linha estratégica, os danos à Segurança Internacional serão cada vez maiores.

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Fonte (Imagem)

http://newshour-tc.pbs.org/newshour/wp-content/uploads/2014/09/IS_beheading.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.nytimes.com/2015/02/04/opinion/isis-is-losing-in-iraq-but-what-happens-next.html?smprod=nytcore-iphone&smid=nytcore-iphone-share&_r=1

Ver:

https://csis.org/publication/war-against-islamic-state-challenge-civilian-casualties

Ver:

https://news.vice.com/article/propaganda-photos-show-the-islamic-state-allegedly-redistributing-un-aid

Ver:

http://thediplomat.com/2015/02/islamic-state-goes-official-in-south-asia/

Ver:

http://www.cfr.org/iraq/defeating-isis/p33773

Ver:

http://blogs.cfr.org/danin/2015/02/03/jordans-isis-challenge/

Ver:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/execucao-de-piloto-e-serio-desafio-a-jordania-2489.html

Ver:

http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/01/crime-e-castigo-existe-alguma-diferenca-entre-arabia-saudita-e-estado-islamico/

Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150204_estadoislamico_analise_hb

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,coalizao-para-reagir-ao-estado-islamico-esta-sob-avaliacao-imp-,1629772

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

“Quem tem fome, tem pressa”, principalmente em um campo de refugiados

Em conformidade com o pensamento do sociólogo brasileiro Herbert José de Sousa, o Betinho: “Quem tem fome, tem pressa”. Agora, além da fome e da pressa, adicione a este cenário grupos de indivíduos que se refugiaram em outros países com o objetivo de sobreviver às atrocidades derivadas de Golpes de Estado e Milícias. Infelizmente, esta situação ocorreu recentemente nos campos de refugiados no leste africano. Em 14 de novembro de 2014, Paul Turnbull, Deputado Diretor do Programa Mundial de Alimentos no Quênia, anunciou um corte de 50% no fornecimento de comida para os campos de refugiados de Dadaab, Kakuma e em Nairóbi, o que deixou parte da comunidade internacional em alerta sobre o impacto desse racionamento[1]. Em primeiro lugar, a comida já não era considerada suficiente para alimentar a população situada nos três campos de refugiados. Em segundo lugar, isso significa que mais de meio milhão de pessoas estavam com suas vidas em riscos, mesmo após conseguir encontrar abrigos nos campos. Por último, o instinto de sobrevivência que marcou a história de cada um daqueles refugiados retoma em um momento de escassez.

O Programa Mundial de Alimentação (PMA) contabilizou em US$ 38 milhões o aporte financeiro necessário para suprir novamente os campos com 100% de comida, isto porque o provimento de 9,7 mil toneladas de alimentos para os refugiados no Quênia alcança um custo mensal de US$ 10 milhões[2]. Diante do esforço conjunto do PMA e do Governo do Quênia, no fim de 2014, os órgãos arrecadaram US$ 45 milhões em doações e puderam anunciar a retomada total no início de janeiro[3]. Entretanto, nesse intervalo de dois meses – novembro e dezembro –, a busca pela sobrevivência, o desespero e os crimes tomaram fôlego nos campos. Infelizmente, a fome “alimentou” o crime nos grandes campos de refugiados do país[4].

O primeiro ponto observado retrata as condições existentes nos dois principais campos de refugiados – Dadaab e Kakuma –, assim como os eventos que os levaram a tomar as atuais proporções. Dadaab, o maior campo de refugiados do Quênia, localizado no nordeste do país, funciona a mais de 20 anos. A Agência da ONU para os Refugiados – o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) – administra o complexo de Dadaab, com início entre outubro de 1991 e junho de 1992, em decorrência da Guerra Civil na Somália, em 1991. Naquele período, a queda de Mogadishu e do Governo Central da Somália resultou em um deslocamento de aproximadamente 90 mil somalis. Entretanto, os números já alcançaram 463 mil refugiados em 2012, incluindo 10 mil que já fazem parte da terceira geração de nascidos dentro do campo[5]. Em 2015 foram contabilizados aproximadamente 350 mil refugiados e 3,5 mil buscando asilo, sendo sua maioria composta por somalis[6].

Mais ao oeste, o Campo de Refugiado de Kakuma acolhe as pessoas que foram deslocadas a força de seus países devido às guerras e às perseguições, principalmente do Sudão e, mais recentemente, do Sudão do Sul. Curiosamente, Kakuma significa lugar nenhum (nowhere) em swahili, isto é, um lugar indefinido e desconhecido para aqueles que fogem de suas casas sem saber aonde irão chegar[7]. Estabelecida desde 1992 para os refugiados sudaneses, Kakuma tem se expandido e abarcado refugiados de inúmeros países da região ao longo dos anos. Entretanto, ao mesmo tempo em que livra os refugiados das zonas de guerras, inúmeros outros problemas surgem no dia a dia.

O Campo está sob a jurisdição do Governo do Quênia e do Departamento de Relações sobre Refugiados. Do ponto de vista do ambiente, o campo de Kakuma se encontra em uma região de deserto semiárido com tempestades de areia, altas temperaturas que chegam aos 40 graus Celsius, é o habitat de aranhas venenosas, cobras, escorpiões e apresenta surtos de malária, cólera e outras enfermidades. Devido às condições legais, os refugiados não podem gerar atividades laborais para a obtenção de renda. Assim, apesar de ser uma pequena cidade, viver dentro do campo se equipara a uma prisão e um exílio. Uma vez admitidos, os refugiados não tem liberdade para se mover pelo país, nem podem buscar educação ou emprego fora do campo[8].

Sem a oportunidade de se integrar à sociedade queniana e tendo suas vidas resumidas ao campo de refugiados, algumas atrocidades passaram a fazer parte da realidade, tais como crimes aos direitos humanos, principalmente a violência sexual e aquela baseada no gênero[9]. Devido à chegada de aproximadamente 43 mil mulheres e crianças do Sudão do Sul, sem pais ou maridos para assumir a proteção, estes grupos acabaram se tornando vulneráveis a estas violências[10].

O segundo ponto corresponde à incidência de crimes em decorrência da diminuição de alimentos nos campos[11]. Durante o corte de 50%, os refugiados do campo de Kakuma sentiram rapidamente o medo e a busca pela sobrevivência. Refugiada do Sudão do Sul, Nyachot afirmou à UNHCR que até novembro era possível cozinhar duas vezes ao dia. Entretanto, com o corte, a comida não estava durando o tempo que deveria – duas semanas. Stephen afirmou que ele e sua família estavam comendo apenas uma vez ao dia e que a comida poderia acabar nos cinco dias após a entrevista ao ACNUR. Inclusive, ele confessou que os refugiados do local estavam cogitando voltar para suas casas, tendo em vista o desespero. Nyapel revelou que ela poderia não dar o café da manha para seu filho de 11 meses com problemas médicos, pois ela teria que vender parte de suas porções de comida – já escassas – para comprar leite para o filho. Do contrário, ele não teria como sobreviver[11].

De acordo com Mohammed Abdi Musa, líder do subcampo de refugiados Ifo, a incidência de crimes e prostituição surgiu nos meses de novembro e dezembro – quando o PMA cortou o fornecimento – e declinou desde o início de janeiro. Para Mohammed Musa, os refugiados situados em Kakuma não tinham certeza se os relatos de roubo e ataques a lojas eram relacionados aos cortes de comida, mas não consideravam coincidência que nem um único incidente de crime tivesse ocorrido em janeiro, após a regularização no fornecimento[4]. No curto período de racionamento, as crianças exibiram sintomas de desnutrição. Por essa razão, ele abordou um tema alarmante: muitos parentes facilmente recorreriam ao crime e, até mesmo, engajariam na prostituição para conseguir alimentar seus filhos[4].

Os resultados da guerra civil do Sudão e o êxodo na vida de milhares de jovens do Sudão são retratados em inúmeras obras, como o livro Lost boys of Sudan que conta inúmeras histórias de adolescentes forçados a fugir das tribos do sul do país[12]. Em decorrência dos ataques de milícias no sul do Sudão durante as décadas de 1980 e 1990, várias crianças e adolescentes fugiram em meio aos assassinatos de seus pais. Recentemente, o filme “The Good Lie” (A Boa Mentira) retratou a vida de crianças sudanesas após a morte de seus pais, o longo caminho percorrido até o campo de Kakuma no Quênia e as longas esperas por uma oportunidade de sair de lá[13].

Em suma, a crise alimentar ocorrida nos campos de refugiados do Quênia trouxe à tona uma importante ligação entre os debates sobre migrações, refugiados e desenvolvimento econômico. Enquanto os campos servem como soluções de curto prazo para as vítimas dos grupos armados, no médio e longo prazo o refúgio se torna um exílio, ou até mesmo uma prisão. As crianças que ali chegaram vão se tornando adultas e, por sua vez, passam a constituir famílias. Portanto, apenas dois fatores são fortes para manter as esperanças: o alimento e a segurança.

Em apenas dois meses, a comunidade internacional pôde observar como a redução na oferta da comida se relacionou diretamente com a incidência de crimes. Apesar de a bola de cristal não se caracterizar como um instrumento de investigação científica, o olhar cuidadoso sobre o passado e a compreensão dos desafios presentes deve servir como ferramenta para análise e prevenção de riscos contra futuras subversões nos campos de refugiados. Em um caso mais longo, o atraso de US$ 37 milhões em doações pode gerar juros acima da inflação.

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Imagem (FonteUNHCR):

http://www.unhcr.org/thumb1/529475f36.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver CEIRI Newspaper:

https://ceiri.news/programa-mundial-de-alimentos-corta-pela-metade-o-fornecimento-de-ajuda-no-quenia/

[2] Ver SABAHI Online:

http://sabahionline.com/en_GB/articles/hoa/articles/newsbriefs/2014/11/14/newsbrief-04

[3] Ver SABAHI Online:

http://sabahionline.com/en_GB/articles/hoa/articles/newsbriefs/2014/12/30/newsbrief-02

[4] Ver SABAHI Online:

http://sabahionline.com/en_GB/articles/hoa/articles/features/2015/01/20/feature-01

[5] Ver UNHCR:

http://www.unhcr.org/4f439dbb9.html

[6] Ver UNHCR, “Dadaab Refugee Camps, Kenya”, UNHCR BiWeekly Update. 1631 January, 2015. Disponível em:

http://data.unhcr.org/horn-of-africa/region.php?id=3&country=110

[7] Ver Seeds of South Sudan:

http://www.seedsofsouthsudan.org/index.php/about/kakuma-refugee-camp

[8] Ver Kanere:

http://kanere.org/about-kakuma-refugee-camp/

[9] Ver Jesuit Refugee Service (JRS):

http://en.jrs.net/news_detail?TN=news-20150113072410

[10] Ver UNHCR:

http://www.unhcr.org/pages/49e483a16.html

[11] Ver UNHCR:

http://www.unhcr.org/54aff3a99.html

[12] Ver Lost Boys Chicago:

http://www.lostboyschicago.com/LostBoys.htm

[13] Ver The Good Lie – Movie:

http://www.thegoodliemovie.com/

AMÉRICA DO NORTEAMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Os efeitos da normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos

Em 17 de dezembro de 2014, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, do Partido Democrata (PD), fez um discurso na Casa Branca (Washington), em que tratou do reestabelecimento das relações entre o país que comanda e Cuba. Em sua fala inicial sobre o tema ele disse que a mudança no relacionamento com o povo cubano, era, ainda, uma das mudanças mais significativas também na política do país em mais de cinquenta anos[1]. Na mesma data, o líder cubano Raul Castro saudava o diálogo respeitoso entre os países e agradecia o apoio do Vaticano, na figura do Papa Francisco, além do apoio do Governo canadense para a realização das negociações secretas, que duraram aproximadamente dezoito meses[2].

O reatamento das relações, rompidas desde 1961, representou a última questão deixada como herança pela Guerra Fria no continente. O imbróglio data ainda dos tempos de brinkmanship nuclear da crise dos mísseis de Cuba (ou crise caribenha, ou crise de outubro), momento de maior tensão durante o período que opôs duas superpotências, respectivamente, Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS)[3].

O isolamento impactou profundamente a economia do país, a ponto de moldá-la, ao mesmo tempo em que influenciava a política e identidade nacional cubana. Por muito tempo, o embargo norte-americano ao Estado centro-americano foi utilizado no discurso dos governantes da ilha para justificar o pouco desenvolvimento e o grande controle sobre a sociedade.

Agora, após cinquenta e quatro anos de embargo econômico, podem ser apontadas mudanças importantes para Cuba. Para além da abertura de uma embaixada cubana nos Estados Unidos, o que representa um grande passo no que tange às relações exteriores da ilha, são as transformações econômicas, provocadas pelo turismo, investimentos e comércio, que têm sido mais observadas pelos analistas internacionais.

Isso se deve, sobretudo, ao fato de que mesmo após o fim da Guerra Fria, e Queda do Muro de Berlim, o relacionamento entre os países não mostrou avanços, ainda que os EUA tenham reestabelecido contato com nações de viés ideológico parecido com os de Cuba, como China e Vietnã. Cuba permaneceu como uma das nações com as quais Washington não manteve laços formais, junto ao Irã e Coreia do Norte[4].

Assim, há muita expectativa no que tange às transformações porvir. Entre as principais mudanças que podem ser citadas, estão, por exemplo: revisão do status de Cuba como um apoiador do terrorismo, conforme havia sido designado pelos EUA, em 1962; o aumento de licenças de viagem, em trabalhos humanitários, disseminação de informação, provenientes de institutos e fundações privadas; abertura de contas de instituições financeiras norte-americanas em instituições cubanas; aumento do limite de transferências financeiras etc.[5].

Entre as medidas já anunciadas algumas merecem destaque, como a nova política salarial para investimento estrangeiro. A nova política salarial está orientada a beneficiar mais de quarenta mil trabalhadores que atualmente trabalham em empresas mistas e de capital totalmente estrangeiro, radicadas em território cubano. A partir das Resoluções 42 do Ministério do Trabalho e Segurança Social (MTSS), aqueles que trabalham em qualquer das modalidades de investimento estrangeiro receberão o pactuado pelas empresas empregadoras e os empresários de fora do país.  Tal medida tem como objetivo atrair mais investimentos, além de tornar melhores os salários e tornar a produtividade mais eficiente e elevada[6].

Somada a esta medida, também foi aprovada, em junho de 2014, a Lei n. 118 ou Lei de Investimento Estrangeiro, que estabelece o marco legal de investimento estrangeiro no território de Cuba. A nova Lei foi aprovada com a intenção de atrair mais capital estrangeiro, além de contribuir para o desenvolvimento do país e para os planos de reforma do Governo, de atualização de seu modelo socialista. Uma das novidades da nova Lei foi incluir benefícios fiscais aos investidores estrangeiros, em setores prioritários como: indústria alimentícia, energia e minas, indústria açucareira, química, indústria farmacêutica, saúde, construção, turismo, transporte, entre outras[7].

Para o professor e pesquisador Olivier Dabène, do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc), da Science Po, a normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos, do ponto de vista do primeiro, não representou a solução de todos os seus problemas econômicos. Para ele, no campo econômico, as reformas lançadas não produziram os efeitos esperados, de modo que o país necessitava urgentemente de investimentos estrangeiros, bem como de transferências; ao passo que no nível político, o reestabelecimento de relações e respeito já era algo almejado por Raul Castro e, portanto, alcançado[8].

Além disso, é esperado um grande influxo de turistas e merchandising, consoante o reestabelecimento de laços familiares e dolarização. Com relação à imigração, Obama já havia anunciado, em 20 de novembro de 2014, uma reforma na imigração passível de beneficiar os cubanos que lá residem. O Presidente norte-americano ofereceu uma regularização provisória aos quase cinco milhões de indivíduos em situação de clandestinidade que lá residem, sem ameaça de expulsão[9].

Andrew Dugan, analista da Gallup, empresa de pesquisa de opinião com sede nos Estados Unidos, considera que a normalização do relacionamento entre os países já era algo esperado desde 1999, em que aproximadamente 60% dos norte-americanos se mostravam favoráveis ao reatamento dos laços com Cuba. No entanto, quando considerada a situação do Parlamento, em 2009, a situação divergia, uma vez que Republicanos e Democratas tinham opiniões discordantes, sendo que os últimos eram mais favoráveis à retomada das relações e fim do embargo econômico[10]

Finalmente, os efeitos do reatamento para Cuba são vários e em diferentes esferas, que vão desde as oportunidades econômicas até a melhoria de suas relações exteriores, estas tendo sido finalmente descongeladas e que, agora, despontam para o século XXI.

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Imagem La Habana” (Fonte):

http://www.freeimages.com/photo/558509

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2014/12/17/statement-president-cuba-policy-changes

[2] Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/12/1563903-veja-integra-de-discurso-de-raul-castro-sobre-a-aproximacao-entre-cuba-e-eua.shtml

[3] Ver:

http://topics.nytimes.com/top/reference/timestopics/subjects/c/cuban_missile_crisis/index.html?inline=nyt-classifier

[4] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/12/18/world/americas/us-cuba-relations.html

[5] Ver:

http://www.nytimes.com/interactive/2014/12/17/world/americas/cuba-sanctions.html

[6] Ver:

http://www.granma.cu/cuba/2014-04-16/asamblea-nacional-del-poder-popular

[7] Ver:

http://www.elmundo.es/internacional/2014/06/28/53aeecca22601df22a8b4575.html

[8] Ver:

http://www.sciencespo.fr/opalc/content/normalisation-des-relations-entre-cuba-et-les-etats-unis

[9] Ver:

http://www.lexpress.fr/actualite/monde/obama-offre-une-regularisation-provisoire-a-cinq-millions-de-sans-papiers_1624413.html

[10] Ver:

http://www.gallup.com/opinion/polling-matters/180239/americans-cuba-normalized-relations-party-divide-exists.aspx

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Da dependência à anexação: o Investimento Estrangeiro Direto na África Subsaariana

Por cima de muros derrubados, de ideologias perdidas e de ditadores cujos reinados eternos demonstram não serem tão eternos assim, a economia internacional vivencia o seu período de maior abertura em toda a história humana. Imperialismo, domínio ou dependência apresentam ser expressões cada vez mais inapropriadas para o tempo atual; incorporação, cooperação e parcerias são significados mais fieis para a economia pós-moderna, que desfruta de culturas e sistemas políticos cada vez mais similares.

Porém, os tempos atuais estão longe de significar uma convergência nos indicadores econômicos. Se o mundo apresenta-se como um verdadeiro mercado ultramarítimo e supranacional, alguns estados-nação ainda desfrutam de posições privilegiadas dentro do comércio internacional*; o estoque de conhecimento, o capital social e uma acumulação prévia permitem que as nações pertencentes à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentem índices de produção de tecnologia significativamente maior do que outras nações menos desenvolvidas**. O iminente resultado desta conjuntura é o aumento da desigualdade em proporções globais: se em 1989, data da Queda do Muro de Berlim, a diferença do Produto Interno Bruto (PIB) per capita entre os países da OCDE e da África Subsaariana era de 17 mil dólares, em 2013 tal diferença era de expressivos 41 mil dólares[1].

Cientes da discrepância crescente, economistas e autoridades políticas africanas aproveitam da conjuntura mundial desde a crise de 2008 – marcada pela redução dos juros e no baixo crescimento econômico dos países desenvolvidos – para a emissão de títulos de dívida pública, financiando assim obras de infraestrutura que darão continuidade ao atual crescimento econômico da região[2].

Em 2007, Gana emitiu títulos de sua dívida pública com vencimento em dez anos, recolhendo cerca de 750 milhões de dólares. Sete anos depois, o Governo liderou uma nova rodada de emissão de títulos; porém, desta vez, se viu obrigado a pagar uma das maiores taxas de juros de todo o continente – cerca de 8,25% ao ano. Juntamente, assistiu ao crescimento do PIB minguar: 4,5% – marca bem abaixo para um país que havia crescido 7,1% e 8,8% em 2013 e 2012, respectivamente. O que aconteceu?

O Governo ganense acreditou que o aumento da dívida externa não seria um problema, pois as rendas de exportação seriam capazes de honrar as dívidas assumidas. Os altos preços dos combustíveis, até 2011, foi tido como um cenário imutável[2].

Contudo, dois fatores importantes aconteceram: primeiro, a entrada de petrodólares não foi tão expressiva quanto se esperava, pois a partir de agosto de 2011 esta commodity iniciou um período de baixa, o qual se estende até os dias de hoje[3]. Segundo, de acordo com fontes locais, a renda obtida com a emissão de títulos não aumentou os investimentos em educação e infraestrutura, que promoveriam as exportações no longo prazo, mas sim foi direcionada para o aumento do salário do setor público, o qual, atualmente, representa 70% dos gastos governamentais[2].

Ambos os fatores fizeram aumentar a proporção dívida externa/exportações, gerando dúvida aos especuladores sobre as reais condições do Governo ganense em pagar suas dívidas. Assim, a retirada de dólares por parte dos especuladores e o arrefecimento das rendas de exportações devido à queda dos preços das commodities causaram uma expressiva desvalorização cambialo cedi, moeda local, desvalorizou-se 39% em 2014 – desacelerando o ritmo de crescimento econômico[4]. O baixo fluxo de Investimento Estrangeiro Direto (IED) não foi capaz de equilibrar a abrupta saída de divisas[5].

Muito além de identificar as sérias consequências negativas que uma política fiscal inadequada pode trazer às nações africanas, o mais interessante a ser retirado do exemplo acima é identificar como o aumento desproporcional da dívida em relação às exportações pode ter impactos negativos sobre o crescimento econômico de nações conectadas ao mercado financeiro internacional. Na verdade, se selecionarmos treze importantes nações subsaarianas – África do Sul, Angola, Camarões, Costa do Marfim, Etiópia, Gana, Malawi, Moçambique, Nigéria, Quênia, Senegal, Tanzânia e Zâmbia – veremos que em dez delas, de 2000 a 2013, crescimento do PIB e endividamento externo/exportações obtiveram forte correlação negativa[6]. Ou seja, quando a dívida assume proporções insustentáveis o crescimento econômico diminui.

Em linhas gerais, muito além de processos meramente monetários, dívidas externas se tornam insustentáveis quando não correspondidas com um aumento das exportações. Uma queda nos preços internacionais das commodities reduz o fluxo de dólares, desvalorizando as moedas locais. Não somente o cedi ganense apresentou desvalorização em 2014. Outras moedas de nações que se endividam cada vez mais apresentaram significativa perda de valor frente ao dólar: o shilling, moeda da Tanzânia, se desvalorizou 10,8%; o kwacha zambiano se desvalorizou 15,9%; o rand, moeda sul-africana, obteve perdas de 11%[4].

Este fato demonstra que as moedas de economias mais fracas – países cuja pauta de exportação depende principalmente de bens primários –, em tempos de queda nos preços das commodities e de recuperação das economias desenvolvidas, são suscetíveis a significativas desvalorizações cambiais. Isto inevitavelmente traz consigo uma crise estrutural no balanço de pagamentos de tais nações.

Tal crise estrutural somente poderá ser financiada mediante a entrada de IED. Esta entrada de dólares tende a equilibrar o balanço de pagamentos caso ela ocorra em proporções iguais ao déficit na balança comercial. Assim, a economia pós-moderna é marcada não somente pelo fim das barreiras comerciais e pelo comércio supranacional generalizado, mas sim pela demasiada importância que os IEDs assumem dentro das economias primárias: eles não somente mitigarão os riscos de uma crise no balanço de pagamentos, como também as dívidas externas, caso as rendas de exportações se estabilizem, não se elevarão a níveis alarmantes graças aos dólares obtidos com IEDs.

Como promovê-lo? Está é a questão principal que líderes e formuladores de políticas das nações subsaarianas têm em mente. Ora, se nos tempos primários da colonização africana, no século XVI, o lastro da economia mundial era o ouro, atualmente, na era da globalização, a economia pós-moderna não encontra nenhum outro lastro senão na sua própria produção. Em outras palavras, é no próprio crescimento do consumo, impulsionado pelo avanço populacional e da renda local, que o avanço dos lucros ocorre sobre bases sustentáveis. Uma bolha especulativa é, nada mais, do que uma situação onde a expansão dos preços ou o fluxo de investimento ocorre sem que haja bases reais para o contínuo processo de expansão da renda.

Dessa maneira, a alocação de IEDs, como qualquer outra alocação de recursos, é um processo onde há, inevitavelmente, a presença de trade-off’s: aos investidores cabe selecionar, em um vasto portfólio, as companhias domésticas capazes de trazer os maiores lucros possíveis, já que tais investidores devem apresentar resultados anuais aos seus clientes e acionistas.

Os lucros dessas empresas locais, que aportarão os IEDs, dependerão do preço de venda e da quantidade de bens vendidos. Sem levar em consideração o primeiro – que é determinado basicamente pelo custo das matérias primas e da mão de obra – o segundo dependerá, principalmente, (I) do ritmo de incremento de renda de seus clientes, (II) da magnitude da carteira de clientes, (III) da participação que uma empresa tem em determinado nicho de mercado (IV) e do próprio preço de venda. A crise do balanço de pagamentos se acentuará e a capacidade de pagamento da dívida irá minguar caso os investidores estrangeiros percebam que estes quatro fatores são entraves ao avanço da competitividade das empresas em que pretendem investir.

Contudo, nomear este processo – a saber, a relação entre IEDs e a sanidade econômica de uma naçãode dependência é correr o risco de associá-lo ao que alguns autores na segunda metade do século XX chamavam de teoria da dependência. Ora, se por um lado os países africanos demandam excessivamente IEDs para o equilíbrio de suas contas nacionais, os países desenvolvidos, por sua vez, buscam fortalecer economicamente sua população, reduzindo a dependência que tem dos mercados externos, extremamente voláteis. O apoio ao consumo de bens produzidos dentro de suas fronteiras e o renascimento de um nacionalismo exacerbado são sintomas econômicos e sociais de parte da população que, de maneira quixotesca, defendem a hegemonia de sua nação em face da perda de sua autonomia no cenário globalizado.

Voltando ao caso da anexação de algumas das economias africanas ao mercado internacional das commodities, incentivar o IED é visto como uma viável estratégia que autoridades políticas e Bancos Centrais encontraram para evitar cíclicas crises. Não à toa, o IED foi o principal tema de debate no último encontro entre líderes africanos e o presidente Obama, em Washington D.C, em julho do ano passado (2014)[7].

Os investimentos em companhias locais, no entanto, não se sustentam de acordos políticos somente: o investidor, acima de tudo, deve ter segurança de que seu capital será retornado com uma considerável taxa de lucro em certo período de tempo, sendo os quatro fatores explicitados de suma importância.

Dessa maneira, o incremento da renda nacional, o crescimento no número de consumidores e um ambiente institucional seguro servirão como os principais incentivos para que investidores externos aloquem seus recursos nas economias subsaarianas. A recente expansão econômica na África Subsaariana é vista como um dos primeiros sintomas de que a região entrará em um período de sua história onde a renda crescerá a novos patamares. A instituição de eleições e instituições democráticas é outro fator que desperta a confiança nos investidores.

Soma-se o avanço das atividades industriais: o setor secundário ganha espaço na África Subsaariana, à medida que representou cerca de 12% das exportações totais desta região em 2013[1]. Da mesma forma o setor de serviços, exemplificado pela triplicação das rendas auferidas com o turismo de 2000 a 2012[8]. O aumento do dinamismo econômico destes dois setores tende a aumentar o poder aquisitivo da população, já que são setores que, tradicionalmente, pagam melhor do que o setor agrícola.

Além do mais, não somente o crescimento populacional serve para a expansão do número de consumidores, mas sim que tais consumidores estão adquirindo hábitos de consumo similar ao de outros habitantes ao redor do mundo. Esta convergência de padrões de compra é embalada pelo ritmo frenético com a qual as cidades africanas se tornam cada vez mais a morada da maioria de seus habitantes: se em 1960, 14% da população subsaariana vivia nas cidades, em 2013 este número aumentou para 36,6%, e tende a continuar se expandindo[1].

Tais dados apontam como a palavra dependência é inapropriada para descrever o fluxo de capital no mundo atual: o possível incremento do fluxo de investimento estrangeiro na África Subsaariana nos próximos anos se dará não devido a tratados políticos somente, mas sim por uma convergência nos padrões de produção – simbolizados pela emergência do segundo e terceiro setor – e de consumo – simbolizado pela urbanização e participação do discurso cultural global, turístico e artístico. Não se trata meramente de uma subordinação às tradicionais nações ocidentais e suas instituições, mas sim uma anexação ao seu modo de produção e cultura material.

Um modo que, inevitavelmente, apresenta uma consternação estrutural: até que as nações subsaarianas desenvolvam e comercializem tecnologia – podemos nos questionar inclusive se um dia elas o farão – as importações tendem a superar as exportações, principalmente em tempos de crise nos preços das commodities, como atualmente. Este déficit poderá ser mantido somente mediante um fluxo maior de IED, o qual demanda a reiteração do compromisso selado politicamente de respeito ao direito de propriedade privada, garantia ao livre comércio e se mantida a junção dos padrões de consumo e produção. Além do mais, a contínua emissão de títulos da dívida pública nos países subsaarianos somente poderá ser mantida em níveis sustentáveis se os IEDs garantirem a entrada necessária de dólares na economia. Para que isto ocorra, é necessário que o crescimento econômico, o avanço do setor secundário e terciário, a democratização e a convergência cultural e de valores seja mantida.

Assim, o IED é o verdadeiro edificante da economia pósmoderna nos países da África Subsaariana. O que vemos, na verdade, ser construído diante dos nossos olhos não é um sistema imperialista, como críticos afirmavam no século passado. Constata-se, acima de tudo, um estado de relações diplomáticas e econômicas que não demanda segregações territoriais, mas sim respeito a uma ideologia e cultura única. Os países estão cada vez mais próximos e seus habitantes cada vez mais parecidos, como verdadeiros membros de um único império.

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* Segundo dados do Banco Mundial, a exportação de bens de alta tecnologia dos países da OCDE não somente supera quantitativamente as exportações feitas pelos países subsaarianos, mas, sim, apresenta uma taxa de crescimento maior.

** Similar ao padrão que se observa na exportação de bens de alta tecnologia, o registro de patentes, também segundo o Banco Mundial, apresenta um ritmo de crescimento maior nos países da OCDE do que na África Subsaariana.

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Imagem (FonteGlobal Research):

http://www.globalresearch.ca/the-illusion-of-foreign-investment-growth-africa-must-break-with-the-world-capitalist-system/5390356

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Fontes Consultadas:

[1] VerEstatísticas – Banco Mundial”:

http://data.worldbank.org/

[2] VerAfrica Research Institute”:

http://www.africaresearchinstitute.org/publications/africa-debt-rising-2/

[3] VerIndex Mundi”:

http://www.indexmundi.com/commodities/

[4] VerXE Currency”:

http://www.xe.com/currencycharts/?from=USD&to=ZAR&view=2Y

[5] VerErnest & Young”:

http://www.ey.com/Publication/vwLUAssets/EY-attractiveness-africa-2014/$FILE/EY-attractiveness-africa-2014.pdf

[6] Pesquisa elaborada pelo autor, com dados do Banco Mundial. Os dados podem ser encontrados em:

http://data.worldbank.org/

[7] VerBrookings”:

http://www.brookings.edu/blogs/africa-in-focus/posts/2014/07/11-foreign-direct-investment-us-africa-leaders-summit

[8] VerThe Economist”:

http://www.economist.com/news/middle-east-and-africa/21638141-africas-growth-being-powered-things-other-commodities-twilight