ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Percepção e realidade: chineses mais nacionalistas e menos beligerantes

Na medida em que as disputas territoriais e marítimas se acirram na região da Ásia-Pacífico, paralelamente cresce uma percepção de que Governos e pessoas estão alinhados quanto à defesa das demandas de seus países. Mas nem sempre isso é verdade. O fato é que muitas vezes essas percepções estão em oposição entre si ou não se alinham totalmente. Uma recente pesquisa sobre as percepções do povo chinês quanto as disputas de territórios no Mar do Sul da China e das Ilhas Diaoyutai-Senkaku acabou por revelar aspectos que reforçam esta afirmação.

Sinólogos e pesquisadores de diversas áreas apontam que, desde final da década de 90, o nacionalismo substituiu o comunismo-marxismo como ideologia dominante na China. Na medida em que o enriquecimento de parcelas da população e regiões foram sendo consolidados pelas reformas iniciadas nos anos 70, houve um “relaxamento” doutrinário-ideológico por parte dos aparelhos do PC Chinês. Houve, segundo alguns estudiosos, uma espécie de “acordo tácito” entre o Governo e população em que o primeiro promoveria o crescimento econômico permitindo o enriquecimento da segunda e a mesma, por sua vez, não demandaria mudanças políticas no país[1]. Esse acordo só foi quebrado em dois contextos. O primeiro nas manifestações estudantis que levaram ao desfecho do que acabou por ficar conhecido como “Massacre da Paz Celestial”, em referência à Praça Tiananmen, em Beijing, em 1989.  Também conhecido na China como “Incidente do Dia 4 de Junho”, levou milhares de estudantes, professores e profissionais liberais às ruas demandando maiores liberdades civis. Tomados pela emoção da morte do moderado Ex-Secretário Geral do Partido Comunista (1982-1987), Hu Yaobang, as manifestações acabaram por incorporar demandas democráticas mais abrangentes, que levaram a ser brutalmente suprimidas pelas Forças Armadas levando à morte de 300 a 400 pessoas[2].

O segundo contexto, na verdade são “contextos”, uma vez que estes vêm se reproduzindo em diferentes situações. Refiro-me às manifestações e protestos por parte de setores mais nacionalistas chineses em relação às disputas marítimas que a China mantém com vários de seus países vizinhos. As disputas com os japoneses sobre o controle das Ilhas Senkaku (Japão) e Diaoyutai (China), assim como as disputas com Vietnã, Taiwan, Malásia e Filipinas sobre as Ilhas Paracel e Spratly, tem-se revelado como catalisadoras de explosivas manifestações nacionalistas que em vários momentos resultaram em depredações e ataques a empresas e embaixadas dos países rivais, principalmente  japonesas[3].

Os episódios de nacionalismo chinês acabaram por acompanhar a dinâmica econômica e também o consequente ganho em capacidade técnico-militar que as forças militares chinesas adquiriram nos últimos 20 anos, tornando-se uma das maiores máquinas de guerra no continente. Esse ganho de capacidade naturalmente levou a uma maior confiança dos setores mais nacionalistas de que o país poderia e deveria ser mais agressivo ao tratar as questões relativas à soberania dos territórios disputados[4].

Com este histórico, não só a mídia ocidental, mas também de vários países asiáticos, passaram a ver o nacionalismo chinês como a maior ameaça à região. A dimensão da China e o receio de um país com mais de 1 bilhão de habitantes explodir em fúria nacionalista levou alguns especialistas a ver o PC Chinês como o mais adequado meio para conter essa onda, dado que em um contexto democrático, mas com um governo fraco, o cenário de um caos social e político poderia se consolidar na China e afetar toda a região tão dependente da saúde e da estabilidade da economia chinesa[5].

No entanto, um estudo conduzido pela Perth USAsia Centre e pela University of Western Australia delineou linhas menos dramáticas com relação ao temido nacionalismo chinês. A pesquisa envolveu entrevistas com mais de 1.400 pessoas nas cidades chinesas de Beijing, Shanghai, Guangzhou, Chengdu e Changsha. Embora confirmando que os setores que mais enriqueceram nas últimas décadas estão, sim, mais nacionalistas em suas posições, o estudo apontou que a atual geração é menos beligerante em sua disposição de resolver as complexas disputas com os países do sudeste asiático e com o Japão[6].

A geração pós-1990, identifica as disputas em que a China está engajada como uma questão de “dignidade e respeito à soberania[7], mas, ao mesmo tempo, se mostraram propensos a uma solução consorciada com os outros países para resolver as disputas[7]. É importante notar que esta geração é a que compõe a maior parte dos usuários de redes sociais chinesas, como o “Sina weibo” e o “Renren”, que é utilizado por quase 30% dos 540 milhões de usuários de internet na China[8]. Dentro do weibo e Renren, assim como em outras plataformas e em outros países, as pessoas tendem a se sentir mais seguras em manifestar opiniões mais ácidas no que concerne questões nacionalistas. Mas a pesquisa demonstrou que embora mais intensa nestas demonstrações, as redes sociais não representam o que a maioria da população pensa a respeito das disputas marítimas e territoriais, embora reconheça seu poder de captar a atenção e até mesmo influenciar outros setores da sociedade.

Este estudo aponta para uma direção oposta, indicada por um outro levantamento anterior feito pela Pew Researcher Center sobre como os países asiáticos veem seus vizinhos. Para 74% dos vietnamitas, a China é a maior ameaça para a sua segurança. Logo em seguida, aparecem os japoneses, com 68%, e filipinos, com 58%, demonstrando que para estes países, existe uma clara conexão entre demonstrações nacionalistas e disposição dos chineses de deflagrar um embate militar que a pesquisa conduzida pela Perth USAsia Centre e pela University of Western Australia não confirmou[9]. De fato, mais de 50% dos entrevistados chineses se mostraram amplamente favoráveis a soluções que incluíssem arbitragem internacional conduzida pelas Nações Unidas e Acordos Bilaterais do que uma eventual intervenção militar.

Muito embora humores nacionalistas estejam sempre ao sabor do momento, esta pesquisa  trabalha com a última fronteira de estudos que as disputas marítimas ainda possuem, que é o papel que as populações dos países demandantes podem desempenhar. Desde os anos 70, mais de 12 mil títulos, entre artigos e livros, foram publicados somente sobre as disputas no Mar do Sul da China. Em sua maioria, estes artigos e livros discorrem sobre cenários estratégico-militares; impacto econômico e impacto de suprimento energético de um possível conflito na região; e estratégias que os países estão ou poderiam adotar para defender suas demandas do ponto de vista do direito internacional[10]. Uma parcela menor destes títulos, embora significante, trata das questões ambientais de exploração dos recursos naturais. Desta forma, o papel que as sociedades civis podem desempenhar, sejam como elementos inflamáveis, ou como contendores dos ímpetos militares de suas elites políticas, ainda não foi devidamente explorado por especialistas, sejam em relações internacionais, em ciência política, em geografia política e em outras áreas correlatas.

Ao que parece, depois de um século XX de revoluções, guerras, fome e caos social, os chineses estão, sim, mais assertivos. Mas, como a maioria dos outros seres humanos, também querem viver em paz.

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Imagem (Fontepeacesymbol.org):

http://peacesymbol.org/tag/cnd-logo/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Chinese Nationalism and Its Future Prospects: An Interview with Yingjie Guo”:

http://www.nbr.org/research/activity.aspx?id=258

[2] Ver Albert Chang, “Revisiting the Tiananmen Square Incident: A Distorted Image from Both Sides of the Lens”:

http://web.stanford.edu/group/sjeaa/journal51/china1.pdf

[3] VerAnti-Japan Protests Mount in China”:

http://www.wsj.com/articles/SB10000872396390443720204578000092842756154

[4] VerChinas Maritime Disputes”, Council on Foreign Relations:

http://www.cfr.org/asia-and-pacific/chinas-maritime-disputes/p31345#!/?cid=otr-marketing_use-china_sea_InfoGuide

[5] Ver Michael Schoenhals, “Political Movements, Change and Stability: The Chinese Communist Party in Power”. The China Quarterly. Special Issue: The Peoples Republic of China after 50 Years. No. 159, (Sep., 1999), pp. 595605.

[6] Ver Andrew Chubb, “Exploring ChinasMaritime ConsciousnessPublic Opinion on the South and East China Sea Disputes. Perth USasia Centrepp. 1011.

[7] Idem.

[8] Ver 10 Chinese Social Media Sites You Should Be Following”, Synthesio website: http://synthesio.com/corporate/en/2013/uncategorized/10-chinese-social-media-sites-you-should-be-following/#

[9] VerHow Asians View Each Other”. Pew Research Center:

http://www.pewglobal.org/2014/07/14/chapter-4-how-asians-view-each-other/

[10] VerHans-Dieter Evers, Governing Maritime Space: The South China Sea as Mediterranean Cultural Area”. Working Paper 129. May (2014). Center for Development Research. University of Bonn. p. 1.

AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

A importância do engajamento político por parte de atletas

Eu não consigo respirar[1], foram as últimas palavras de Eric Garner quando este foi morto em New York, nos Estados Unidos, em julho de 2014. Infelizmente, esta não foi a única morte causada por ação policial, silenciadas pela justiça estadunidense que inocentou os membros do aparato repressivo do Estado, de acordo com o que foi disseminado pela mídia. Os movimentos sociais através do mundo saíram às ruas para protestar contra estes excessos de violência recorrentes contra minorias étnicas, uma vez que o problema não se resume somente aos Estados Unidos[2].

A frase “Eu não consigo respirar[3] estava estampada em diversas camisetas de atletas ao redor do mundo, mais especificamente nos Estados Unidos. Eles a utilizaram de maneira a protestar contra a morte de inocentes que, supostamente, foram atacados devido ao pertencimento a uma minoria étnica, destacando-se que são atletas que pertencem a diversos níveis esportivos, com destaque a Lebron James e Ariyana Smith[3].

Conforme a opinião de observadores, dentre eles o escritor esportivo Dave Zirin e a assumida neste artigo, o protesto que teve maior impacto foi justamente o desta jogadora de basquete de nível universitário. Ao chegar na quadra, ela ficou um minuto e quarenta e sete segundos deitada no chão dela, em memória da absurda uma hora e quarenta e sete minutos que o jovem Michael Brown ficou esperando por socorro no dia de sua morte.

Para analistas, este protesto pode e deve ser colocado no mesmo patamar dos protestos de atletas como Tommy Smith e John Carlos (em 1968) e de Mohamed Ali e Mahmoud Abdul-Rauf, que tiveram participação ativa em movimentos sociais e lutas em seus respectivos períodos[4].

Protestar para que ocorram melhorias políticas para minorias étnicas e também para outras minorias que são colocadas de lado ou vistas com preconceito é algo entendido como prioritário no mundo contemporâneo, por essa razão, trouxe satisfação coletiva que em 2014 tenha ocorrido o retorno do fato de atletas se posicionarem publicamente com críticas abertas contra essas situações, além de lutarem como podem para que existam mudanças essenciais na sociedade.

A título de exemplo do grau de significação de ações como essas, pode ser citado o caso da Argélia. Quando de sua independência, ocorreram manifestações extremamente importantes no país, destacando-se à deserção de jogadores argelinos de seus times franceses durante o ano de 1958 para formar a seleção da Frente de Liberação Nacional (FLN), o partido político que lutou contra a França para tornar a Argélia independente[5].

A relevância destes atos de atletas demonstrando suas opiniões políticas, tal qual aquela de atletas escolhendo jogar por um time com o objetivo de tonar efetiva a primeira representação oficial de seu “país”, foi ser vista na mídia social após a manifestação destes desportistas no ano passado. Como consequência, falou-se muito mais sobre o tema nas mídias sociais e, por isso, também se falou mais sobre o assunto nos jornais impressos e audiovisuais.

A criação de discussões sobre tais assuntos sempre se mostra importante para que mudanças possam ocorrer. Inclusive, durante os protestos em Ferguson, nos Estados Unidos, foi criada uma corrente de solidariedade entre os habitantes da Palestina e os habitantes de Ferguson, pois, na avaliação deles, também sofrem de abuso, tal qual se deu nos EUA, uma vez que o comparam o que passam com aparato militar do Estado de Israel com o que chamam de abusos sofridos por segmentos populares estadunidenses, causados pelas autoridades estadunidenses.

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ImagemLebron James com camiseta em homenagem (e protesto contra violência policial) antes de um jogo de seu time no Brookyln, em dezembro” (Fonte):

http://www.lequipe.fr/Basket/Actualites/Lebron-james-soutient-i-can-t-breathe/520938

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[1] Notícia sobre a morte de Eric Garner, ver:

http://gawker.com/i-cant-breathe-asthmatic-father-dies-after-nypd-chok-1607277393;

Ver também:

https://br.noticias.yahoo.com/manifestantes-protestam-ny-homic%C3%ADdio-pai-fam%C3%ADlia-negro-193819871.html

[2] Notícia sobre abuso de poder na França, disseminadas pela Amnesty International, ver:

http://www.amnesty.fr/node/1467

[3] Notícia sobre o protesto de Ariyana Smith, ver:

http://www.galesburg.com/article/20141204/News/141209906

[4] Textos sobre Ariyana Smith, escritos por Dave Zirin:

https://www.oximity.com/article/From-Rams-to-Ariyana-Smith-Athletes-Ho-1;

Entrevista:

http://www.thenation.com/blog/193401/interview-ariyana-smith-first-athlete-activist-blacklivesmatter

[5] Artigo sobre o assunto no CEIRI:

https://ceiri.news/a-utilizacao-do-futebol-na-independencia-da-argelia/

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Ver TambémVídeo: protesto de Ariyana Smith”:

https://www.youtube.com/watch?v=9wtBFiBlSy4

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Campanhas populares na Inglaterra contra possíveis contratações de jogadores de futebol: o caso de Ched Evans

O ano desportivo de 2015 apenas começou e, na Inglaterra, teve início com polêmicas, dentre as quais mostra-se necessário destacar a recusa de dois times profissionais contratarem um jogador de futebol que foi preso por dois anos e meio, após grande pressão popular, além da pressão realizada por parte de torcedores e  membros das diretorias desses clubes.

Emerge à pergunta sobre a relação que pode ter com a sociedade brasileira este caso do jogador inglês que foi preso, pois algo parecido foi discutido ao longo dos últimos anos no Brasil, envolvendo a vontade de alguns clubes brasileiros contratarem o goleiro Bruno, preso pelo assassinato de sua ex-amante. Além deste caso, há também a questão envolvendo à contratação pelo São Paulo do zagueiro Breno, que foi preso na Alemanha por ter incendiado a sua casa[1].

Neste caso inglês, em 2010, o atacante Ched Evans foi acusado e sentenciado a cinco anos de prisão pelo estupro de uma garota num hotel na Inglaterra. A posição do jogador e de seus defensores foi de que, como a garota estava alcoolizada, não ocorreu o estupro, tendo a relação sexual sido, por isso, consensual. Tal consideração traz, porém, uma posição extremamente controversa, uma vez que esta perspectiva é aceita por parte da sociedade inglesa[2]. Isto, no entanto, não impediu que ele cumprisse a metade de sua pena (pois, obteve a redução da sentença devido a considerada boa conduta na prisão), mas também não impediu que jogador continuasse com sua posição de inocente, bem como continuasse à procura de trabalho em sua profissão, o futebol.

Quando foi noticiado pela imprensa inglesa que o seu antigo clube, o Sheffield United, aceitou que ele participasse de treinos para voltar à forma física, o que levaria talvez a ser contratado pelo mesmo, diversos movimentos sociais, organizações de torcedores e inclusive membros da equipe dirigente do time, tal como Jessica Ennis, medalhista de ouro nos jogos de Londres, em 2012, iniciaram uma campanha para que o clube não contratasse o jogador.

Porém, após a recusa do Sheffield em efetivar a assinatura, um outro clube demonstrou interesse em contratar o atacante: o time de Oldham, que luta para não cair na League Two (Quarta Divisão Inglesa)[3]. Novamente, torcedores e diversos movimentos sociais iniciaram uma campanha para que ele não fosse contratado e, ao que parece, este clube também vai desistir de efetivar o negócio com o jogador[4].

A questão sobre se todo ser humano merece uma segunda chance, tratada no âmbito filosófico, não cabe neste texto, mas somente levantar a discussão sobre o assunto, pois, conforme apresentam estudiosos no tema, a tese deste merecimento traz como necessário o arrependimento sobre o crime por parte daquele que o comete, algo que, conforme tem sido noticiado, não é o caso deste jogador que continua defendendo a perspectiva de sua inocência, apesar da sua condenação e cumprimento da pena. Ademais, como apontam especialistas, o fator “arrependimento” é também um elemento importante para a reinserção, a qual só pode estar disponível no caso de o “arrependimento” também estar presente.

Outro ponto a ser considerado diz respeito à posição por parte da sociedade sobre a possibilidade de se conceder a todos uma oportunidade para um recomeço. Parte expressiva e importante dos posicionamentos é de que, neste caso, não deve ser dado, ressaltando-se que tal postura tem de ser considerada sem discriminações de classe, pertencimento étnico, ou religioso. No episódio de Ched Evans, destaca-se que foi importante a posição dos torcedores, os quais decidiram protestar contra a possível contratação do jogador.

Conforme é visto por alguns analistas, situações como essas na Inglaterra podem, principalmente, gerar falsos inocentes, os quais são encobertos pela sociedade inglesa que ainda caminha para entender e resolver os seus problemas relacionados às questões do alcoolismo.

Destaca-se também, que é importante acatar a consideração que a direção do clube teve com os seus torcedores, podendo ser este caso um modelo para outros times profissionais ao redor do mundo, incluindo no Brasil, já que há situações em solo brasileiro para as quais a situação e postura inglesa pode ser replicada.  

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ImagemChed Evans, quando ainda jogava pelo Sheffield United” (Fonte):

http://www.ibtimes.co.uk/nine-people-arrested-relation-ched-evans-twitter-335590

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Fontes Consultadas:

[1] Notícias sobre os casos Bruno, ver:

http://g1.globo.com/minas-gerais/julgamento-do-caso-eliza-samudio/noticia/2013/03/bruno-e-condenado-prisao-por-morte-de-eliza-ex-mulher-e-absolvida.html

Sobre o caso Breno, ver:

http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-alemao/noticia/2011/09/breno-do-bayern-e-preso-por-suspeita-de-incendiar-propria-casa.html

[2] Sobre o caso Ched Evans, ver:

http://www.lancenet.com.br/minuto/Ched-Evans-condenado-prisao_0_686331501.html;

Ver Também:

http://www.mirror.co.uk/all-about/ched-evans;

Ver Também:

http://www.bbc.com/news/uk-wales-17781842

[3] Sobre a possível contratação de Ched Evans pelo Oldham Athletic, ver: http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-2896468/Ched-Evans-facing-setback-Oldham-reconsidering-furious-backlash.html

[4] Sobre o depoimento do clube no dia 5 de janeiro, acerca da possível contratação do jogador, ver:

http://www.oldhamathletic.co.uk/news/article/club-statement-ched-evans-2184275.aspx

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Argentina avanza en la elección directa de Parlamentarios del MERCOSUR

El partido político en gobierno, Frente para la Victoria (FPV), tras numerosos intentos frustrados en los últimos 5 años, logró que la Cámara de Diputados de la República Argentina dé media sanción a un Proyecto de Ley que aprobó la elección directa de parlamentares del Parlamento del MERCOSUR (PARLASUR) a partir de las próximas elecciones nacionales, que se celebrarán en octubre de 2015.

El proyecto fue revisado en la Cámara de Senadores en 29 de diciembre pasado. Cabe recordar que la Argentina ha sido convertido en el segundo país del MERCOSUR donde los ciudadanos cuando sufragan eligen a sus parlamentarios regionales, compromiso que han asumido los Estados en 2006 y que al momento solo Paraguay realiza.

En las últimas semanas la discusión sobre las funciones, el alcance y la legitimidad del PARLASUR ha entrado a la agenda pública de la Argentina debido a que, con el expreso apoyo del Poder Ejecutivo a cargo de Cristina Fernández de Kirchner, el oficialismo ha logrado aprobar el último 16 de diciembre en la Cámara de Diputados el Proyecto de Ley que permitiría que en las próximas elecciones nacionales los ciudadanos voten a los parlamentarios del MERCOSUR[1].

Las críticas de los partidos políticos opositores estuvieron focalizadas en dos cuestiones. Primero, que los “fueros parlamentarios[2] – privilegios e inmunidades – de los legisladores nacionales serían extendidos a los regionales. Al respecto, Pablo Tonelli, Diputado de Propuesta Republicana (PRO) advirtió que “no corresponde hacer extensivas las inmunidades que tienen hoy los diputados y senadores nacionales a los parlamentarios del Mercosur[2]. Segundo, se teme que la presidenta Fernández de Kirchner, que ya no puede aspirar a un tercer mandato por las normas constitucionales vigentes, sea candidata al PARLASUR.

La estrategia fue rotundamente negada por representantes del FPV, pero sus consecuencias serían múltiples. Por un lado, gozaría de fueros parlamentarios, lo que dificultaría posibles procesos judiciales en su contra. Pero más profundamente, su nombre como candidata figuraría en todas las boletas del país, lo que colaboraría en atraer más votos al partido que actualmente está en el Poder Ejecutivo (del que es su máxima representante).

A pesar de estas discusiones, el Proyecto de Ley confeccionado por los diputados Landau y Larroque obtuvo media sanción con 140 votos a favor, 72 en contra y 18 abstenciones[3]. De acuerdo a éste, la elección de los 43 parlamentarios del PARLASUR se realizará acordando un régimen mixto: un legislador representando a cada una de las 23 provincias, uno al distrito de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires (CABA), y los 19 restantes considerando al país como distrito único nacional (al igual que como se realiza para la elección del Presidente)[4].

En su exposición, Larroque recordó que “Néstor Kirchner y Lula Da Silva decidieron firmar un acuerdo con el que se ponía un punto de partida, entre otras cosas, a la refundación de este Mercosur, con un Parlamento que fuera elegido por la voluntad popular[1]. En este mismo sentido, Landau remarcó que el proyecto es “la conclusión de una etapa iniciada en 2005 cuando Néstor Kirchner suscribió el Protocolo Constitutivo del Mercosur[1].

El tema fue tratado y aprobado al día siguiente en la Comisión de Asuntos Constitucionales de la Cámara de Senadores, paso previo necesario a la discusión en Sesión Plenaria. Sin embargo, no obtuvo el apoyo necesario2/3 de los votos de los allí presentes – a ser tratado el día 18. Por esto  el senador del FPV Pichetto solicitó una Sesión Especial el día 30 de diciembre, celebrada el 29, donde fue discutido el Proyecto y  decidido su promulgación[4].

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Imagen Con 140 votos a favor, la Cámara de Diputados avala el Proyecto de Ley oficialista para la elección directa de parlamentarios del MERCOSUR” (Fuente – ARG Noticias):

http://www.argnoticias.com/politica/item/21582-media-sanci%C3%B3n-para-el-proyecto-para-elegir-miembros-de-parlasur

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Fuentes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.telam.com.ar/notas/201412/89050-camara-de-diputados-ultima-sesion-del-ano-parlasur-argentina-digital.html

[2] Ver:

http://www.lanacion.com.ar/1748705-polemica-por-los-fueros-a-los-diputados-del-parlasur

[3] Ver:

http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-262143-2014-12-17.html

[4] Ver:

http://www.infobae.com/2014/12/17/1615787-la-ucr-trabo-el-senado-la-votacion-expres-la-eleccion-los-legisladores-del-parlasur

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Células radicais financiam o Hezbollah a partir do Sul do Brasil

O Hezbollah (Partido de Deus), fundado como milícia, em 1982, no Líbano, durante a Guerra Civil, é, hoje, uma força islâmica xiita preeminente no combate a Israel e ao Ocidente. A sua estrutura é semelhante à de um Exército, formada por um grupo paramilitar que tem se notabilizado em várias frentes de combate, inclusive nos conflitos travados contra Israel. Ao longo dos anos, o Hezbollah também conquistou destaque na política libanesa e chegou ao Parlamento do país. Atualmente, os seus combatentes estão atuando na Guerra Civil da Síria em defesa do presidente Bashar al-Assad, ao lado do Irã.

Autor de vários atentados, incluindo aquele que foi perpetrado contra a Embaixada de Israel, na Argentina, em 1992, o Hezbollah é considerado pelo Ocidente uma organização terrorista. Com grande capacidade de ação e logística complexa, o grupo necessita de financiamento e de aliados que não estão restritos ao Oriente Médio, tendo a América Latina se destacado ao longo do tempo no apoio e financiamento ao Hezbollah através de suas células radicais. No Brasil, o Hezbollah mantém ligações com a maior organização criminosa do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que atua em praticamente todo território nacional[1].

Esta foi uma descoberta realizada pela Polícia Federal mas, desde 2006, o Departamento de Tesouro dos EUA já havia emitido um alerta acerca da cooperação do Hezbollah com os cartéis do crime na América do Sul, com forte presença na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai)[2]. Na época, todos os Governos do continente foram notificados, mas os de esquerda não deram atenção ao aviso, tendo o Governo brasileiro negado o fato. No entanto, o Drug Enforcement Administration (DEA) pressionou o Governo brasileiro e insistiu sobre a presença de integrantes do Hezbollah em território nacional[3].

No Brasil, o caso nunca foi admitido oficialmente pelo Governo, mas a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) apurou o envolvimento de empresários de origem libanesa com o narcotráfico e com ligações ao Hezbollah. De acordo com o jornal O Globo, vários documentos esclarecem o elo entre o movimento xiita libanês e a facção criminosa do Brasil, o PCC, desde 2006, quando a associação teve início[4]. Esta união criminosa só foi descoberta em 2008, durante uma operação da Polícia Federal, na qual vários traficantes internacionais foram presos[5]. Na “Operação Camelo”, da Polícia Federal, Farouk Abdul Hay Omairi, um comerciante de origem libanesa, residente em Foz do Iguaçu, foi preso por tráfico internacional, assim como os seus dois filhos, sendo que o mais novo conseguiu fugir. O inquérito tratou somente do narcotráfico, mas Omairi fazia parte da lista de nove nomes apontados pelo Departamento de Tesouro dos EUA referente à “rede de financiamento do Hezbollah na Tríplice Fronteira[6], sendo Omairi o líder dessa força radical islâmica na região[6].

De acordo com as informações divulgadas pela imprensa brasileira, há um acordo entre as duas facções, segundo o qual os libaneses detidos nas prisões brasileiras recebem proteção do PCC e, em contrapartida, o Hezbollah trata do fornecimento de armas e explosivos ao aliado brasileiro[7]. Há indícios de que a Venezuela, em 2009, durante o Governo do Presidente Hugo Chávez, se tornou uma base aliada do Hezbollah. Neste período, ocorreu o estreitamento das relações entre a Venezuela e o movimento xiita, que tencionava praticar atentados em países da América Latina, incluindo o Brasil. Na época, recorde-se, os Serviços de Inteligência israelenses declararam que o Hezbollah pretendia atentar contra alvos de Israel no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no Peru. Segundo informações, naquele período foram criadas, na Venezuela, células ligadas ao “braço operativo” do Hezbollah, denominadas “Órgão de Pesquisas Especiais”, para praticar atentados no exterior[8].

Um relatório do Conselho Americano de Política Externa revela, também, que a Tríplice Fronteira é utilizada por redes terroristas há bastante tempo, não sendo o Hezbollah o único grupo irregular presente na região. O relatório afirma que a falta de legislação antiterrorista brasileira tem beneficiado a presença dos insurgentes no país[9]. Neste contexto, desde os anos de 1980 tem-se registrado o crescimento do movimento islâmico radical no Brasil, através do Irã. Conforme descreve o relatório, “este movimento é composto por clérigos radicais, terroristas, traficantes de influência e de lavagem de dinheiro, e articuladores que usam o país como um centro de logística para muitas de suas operações regionais que se estendem do Cone Sul aos Andes. A mais preeminente destas operações foi o bombardeio do Centro Comunitário Judaico em Buenos Aires (AMIA), Argentina, em 1994, que, em parte foi apoiado por elementos radicais islâmicos no Brasil e na Tríplice Fronteira[10]. De acordo com informações, o mentor do ataque ao AMIA, que fez oitenta e cinco vítimas mortais e cerca de trezentos feridos, foi o iraniano Moshen Rabbani, apontado por Alberto Nisman, Procurador argentino, como o responsável do regime iraniano, na América Latina, para a criação de uma “rede de radicais islâmicos[11].

Após o atentado contra o AMIA, Rabbani fugiu para o Irã, tendo a Interpol emitido um alerta, o que impossibilitou, naquele momento, o seu retorno ao Brasil. No entanto, há provas de que, mais tarde, ele viajou duas vezes ao Brasil e, em 2008, foi monitorado pela ABIN, que o seguiu no percurso entre Curitiba e a Tríplice Fronteira. Curitiba foi identificada como sendo a residência de Mohammad Baquer Razavi Rabbani, irmão mais novo de Moshen Rabbani e o responsável pelo recrutamento e a conversão de brasileiros ao Islã radical através da Mesquita Imam Ali ibn Abi Tálib e do Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos, ambos sediados em Curitiba[12].

Em 2010, Moshen Rabbani voltou ao Brasil com um passaporte venezuelano falso, usando o nome de Ali Tayvdianareial. A Interpol advertiu a Polícia Federal brasileira sobre a presença de Rabbani, mas ele já havia deixado o país. De acordo com informações, a ABIN tinha conhecimento do retorno de Rabbani ao Brasil, mas a vigilância foi abortada por motivos desconhecidos[13]. O mais jovem dos Rabbani teve o seu visto cancelado em 2011.

A conexão entre vários grupos irregulares, no Brasil e na Tríplice Fronteira, é de longa data e, dentre esses grupos, além do Hezbollah, destacam-se o Hamas, a al-Qaeda, a Jihad Islâmica egípcia e a al-Gamaa al-Islamyya, também do Egito. A facilidade em estabelecer negociações ilícitas na Tríplice Fronteira despertou o interesse dos líderes daqueles grupos radicais, necessitados de dinheiro para manter as suas organizações. Em 1995, Osama bin Laden e Khaled Sheikn Mohmmed, o idealizador dos atentados de 11 de setembro, nos EUA, visitaram a Mesquita de Foz do Iguaçu e, em 1998, retornaram para se reunirem na mesma Mesquita com outros líderes radicais[14].

Hoje, alguns analistas acreditam que a facilidade de acesso do Hezbollah e outros grupos radicais à América Latina está em decadência, devido a pequenas mudanças ocorridas na política externa do continente, desde a morte de Hugo Chávez[15] e, também, da tentativa de reaproximação entre Cuba e os EUA. Embora estas evidências sejam verdadeiras, tal não significa, de fato, uma mudança na política externa dos países de esquerda do continente. Ideologicamente, a esquerda latino-americana continua irmanada e partilha visões do mundo semelhantes. De certo modo, ela compreende os grupos radicais islâmicos como sendo parceiros de “esquerda” que, na verdade, não abdicam do fundamentalismo religioso que tem os seus próprios princípios, divergentes daquilo que conhecemos por esquerda política.

Neste sentido, vários observadores, analistas e especialistas no tema apontam que a Tríplice Fronteira permanecerá sem cobertura e os países da região continuarão a ser placas giratórias para a entrada dos insurgentes, garantindo, assim, o financiamento do Hezbollah e demais grupos irregulares, enquanto  a sociedade brasileira enfrenta o risco de uma islamização radical, sem descartar a hipótese de que um dia, por pouco provável que possa parecer, o país venha a sofrer as consequências das opções estratégicas erradas de seus dirigentes políticos.

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ImagemUm judeu argentino caminha pelas ruínas do edifício do AMIA (direita, na foto), em Buenos Aires (18 de julho de 1994): as últimas ordens recebidas pelos insurgentes do Hezbollah partiram do telefone de um morador de Foz do Iguaçu, no Brasil” (Fonte):

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/files/2013/06/terrorV2.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

[2] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/libanes-apontado-pelos-eua-como-coordenador-do-hezbollah-no-brasil-14512474

[3] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

[4] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[5] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[6] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/libanes-apontado-pelos-eua-como-coordenador-do-hezbollah-no-brasil-14512474

[7] Ver:

http://oglobo.globo.com/brasil/policia-federal-aponta-elo-entre-faccao-brasileira-hezbollah-14512269

[8] Ver:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/jornal-diz-que-hezbollah-teria-bases-na-venezuela-com-intencoes-de-atacar-ate-o-brasil/

[9] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[10] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[11] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[12] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[13] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[14] Ver:

http://almanac.afpc.org/brazil

[15] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564617-hezbollahs-glory-days-in-south-america-are-numbered

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

O Terrorismo e a Segurança Pública nas grandes cidades pelo mundo depois do “Caso Sydney”

O falecido clérigo radical iraniano Man Haron Monis (nascido Mohammad Hassan Manteghi)[1] foi o autor do sequestro em massa que resultou na Crise de Reféns em Sydney, em 2014. Eis a anatomia e o desenvolvimento do caso.

Monis solicitou e recebeu asilo da Austrália em 1996, após deixar a República Islâmica do Irã. Ele trocou seu nome e adotou o título de sheik. Fontes diferentes atestam sua saída do país após a detenção de sua esposa e filhos pelas autoridades iranianas, por causa de suas “visões liberais” sobre a religião no Irã. Outras fontes dizem que ele fugiu do país após roubar 200.000 dólares dos clientes de sua agência de turismo[2]. O chefe da polícia iraniana, Esmaeil Ahmadi-Moghaddam, confirmou que Monis era dono de uma agência de viagens na capital Teerã, que havia fugido primeiro para a Malásia, depois para a Austrália e tinha no país persa uma “longa história de crimes e fraudes[2].

De acordo com a agência de notícias oficial iraniana IRNA[3], ele era procurado pela Interpol[4] e pela Polícia iraniana na época em que recebeu asilo, mas a Polícia australiananão o extraditou mesmo depois de pedidos oficiais e do envio de relatórios que confirmavam seus crimes comuns no Irã e de seu estado de perturbação mental, pelo fato da Austrália não ter tratado de extradição com o Irã[5]. Monis nasceu numa família xiita e foi um muçulmano xiita por quase toda a vida até sua recente conversão ao sunismo “dias antes do atentado em Sydney[6]. Na Austrália, há muito havia se proclamado um sheik, apesar de seu título não ser reconhecido pela Comunidade muçulmana no país e ele era marginalizado pelas duas comunidades, xiita e sunita, devido à suas visões extremistas e personalidade problemática e beligerante.

No país, ele colecionou um longo prontuário criminal de pequenos delitos e delitos mais graves, incluindo uma acusação de cumplicidade no assassinato de sua ex-mulher, motivo pelo qual aguardava o julgamento em liberdade sob fiança; assédio sexual e uso criminoso dos correios do país para fazer ameaças e ofender soldados australianos que serviram nos países muçulmanos[6]. Em 12 de dezembro de 2014, três dias antes do atentado, ele teve seu apelo rejeitado pela Suprema Corte da Austrália. Com relação à condenação no caso dos correios[7] ele havia enviado cartas às famílias de soldados mortos no Afeganistão, chamando-os de assassinos e protestando contra a presença da Tropas australianas neste país[8].

Numa destas cartas ele comparava um soldado morto a um porco e dizia que seu corpo era “contaminado[9]. Cartas semelhantes foram enviadas à mãe de um soldado britânico morto num atentado em Jacarta, na Indonésia. Ele foi julgado e condenado à liberdade condicional com 300 horas de “prestação de serviço comunitário[10]. Em 2010, foi proibido pela Justiça de usar o serviço postal australiano[10]. Esta condenação o tinha consumido e enraivecido por anos e o sequestro no Café em Sydney se deu imediatamente após à negação de seu apelo pela Suprema Corte[11].

Na manhã de 15 de dezembro de 2014, Monis fez 17 funcionários e clientes de reféns em um Café, em Martin Place, no centro financeiro da cidade de Sydney, situado em frente do estúdio de televisão da TV7, que passou a transmitir o caso ao vivo. Para a sua atuação, que pode não ser qualificada necessariamente como terrorista, Monis poderia ter escolhido outro local com mais danos colaterais. Por exemplo, a Suprema Corte de New South Wales, o Parlamento de New South Wales, o escritório do primeiro-ministro Anthony John Abbott, o Reserve Bank of Australia, alguns dos maiores Bancos do país, que ficam algumas quadras do café. O armado Monis fez com que os reféns segurassem uma Bandeira islâmica negra com um shahādah* em árabe, que dizia: “Alá é o único Deus e Maomé é seu profeta[12].

Os edifícios vizinhos, incluindo escritórios do Governo, instituições financeiras e a estação ferroviária Martin Place, foram evacuados e bloqueados. Alguns reféns conseguiram escapar. O evento durou mais de 16 horas antes de agentes da Polícia tática invadirem o café nas primeiras horas da manhã seguinte e Monis foi morto no confronto que se desenvolveu[13]. Dois dos reféns também morreram, vários outros foram feridos e um policial sofreu ferimentos leves. 

No dia anterior ao sequestro, Monis publicou em seu site: “O Islã é a religião da paz, é por isto que os muçulmanos lutam contra a opressão e o terrorismo dos Estados Unidos e seu aliados como a Grã-Bretanha e a Austrália. Se nós permanecermos em silêncio contra os criminosos não poderemos ter uma sociedade pacífica. Quanto mais você luta contra o crime, mais pacifista você se torna. O Islã quer a paz na Terra, é por isto que os muçulmanos querem parar o terrorismo da América e seus aliados. Quando você fala contra o crime, você dá um passo adiante em direção à paz[14].

Se Monis fosse membro de uma célula jihadista, autônoma ou parte duma organização terrorista como Al-Qaeda ou Estado Islâmico (EI)**, se ele tivesse realizado um ataque mais violento, digamos com explosivos, ele poderia ter matado muito mais pessoas. Especialistas argumentam que no Caso Sydney morreram dois reféns e o sequestrador mais por causa de uma ação inadequada, bem como da incapacidade das Forças Especiais da Austrália e dos seus Serviços Secretos em trabalhar adequadamente o Gerenciamento da Segurança Pública. Exemplificando tal situação, o sequestro em Sydney coincidiu com a detenção de um homem de 25 anos no noroeste da cidade por “supostos delitos por terrorismo[15]. O detento era ligado a um plano para realizar um ataque terrorista em solo australiano e para facilitar o deslocamento de cidadãos australianos para a Síria.

Em setembro, as autoridades australianas elevaram o alerta terrorista para ALTO, devido à possibilidade de possíveis ataques a cargo de “uma só pessoa”, de “pequenos grupos”, ou de “grandes organizações”. Sendo parte da Coalizão liderada pelos Estados Unidos que realiza bombardeios contra o Estado Islâmico (EI), a Austrália tem aumentado suas Medidas de Segurança contra a ameaça do Terrorismo Islâmico e tenta evitar que jovens do país sejam cooptados por Grupos Extremistas. Em setembro de 2014, quinze pessoas suspeitas de planejar ataques terroristas no país foram presas. No mês seguinte, o Governo aprovou o endurecimento das leis contra os australianos envolvidos em ações terroristas.

A atuação do Man Haron Monis relembra, mas, ao mesmo tempo, é muito diferente dos outros acontecimentos terroristas encenação parecida que aconteceram nas diferentes cidades mundiais antes da “Crise de Reféns em Sydney”. Nos casos de Michael Zehaf-Bibeau (no Canadá), de Mohammed Merah (na França), de Dzhokhar Tsarnaev (em Boston) e de Michael Adebolajo (na Inglaterra), por exemplo, os perpetradores da violência aplicaram procedimentos mortais. No caso de Monis, que não é e nunca foi um terrorista do espécie “lobo solitário”, as consideradas apatia, inatividade e ineficácia das autoridades australianas, dos órgãos da Segurança Nacional, dos órgãos de Segurança Pública e dos Órgãos de Justiça da Austrália deixaram um homem com dossiê criminal amplo viver calmamente num país que mostrou a fragilização de sua Segurança Nacional.

Para ganhar a atenção internacional, em primeiro lugar das mídias mundiais e das redes sociais, Monis usou uma bandeira islâmica negra parecida com as do Estado Islâmico (EI), por que ele sabia que a organização terrorista já é conhecida mundialmente e, assim, usufruiu da conjuntura terrorista do momento sem fazer parte do grupo e sem qualquer afiliação terrorista com eles. Conforme apontam especialistas, mesmo com a tragédia das vítimas inocentes, as suas atividades não foram tão devastadoras materialmente como a sua sinistra mensagem. O alvo dele não foi um shopping, cinema ou estação do transporte público, pois, segundo consta, ele não queria matar muitas pessoas ao mesmo tempo. No entanto, com seu ato mostrou que qualquer pessoa em qualquer cidade pode fazer o que ele fez: fugir de um país com documentos falsificados, pegar um avião e cometer o mesmo crime numa outra cidade – é possível que se identifique isso como as desvantagens da globalização. Comparativamente, a América Latina é aterrorizada há muitos anos pelos atos criminosos e por sequestros – também uma forma de terrorismo, sem baseamento religioso.  

Em 7 de janeiro de 2015, em Paris, como tem sido intensamente debatido, o atentado terrorista atingiu o jornal satírico francês Charlie Hebdo, resultando em 12 pessoas mortas, incluindo membros da equipe do jornal e dois agentes da polícia nacional francesa. Durante o tiroteio, foram feridos mais outras 11 pessoas que estavam próximas ao local, caso que está sendo denominado como o Massacre do Charlie Hebdo. Conforme vem sendo amplamente divulgado, o ataque foi perpetrado pelos irmãos franco-argelinos Saïd e Chérif Kouachi, vestidos de preto e armados com fuzis Kalashnikov (AK-47), na sede do semanário, localizado no XI Arrondissement de Paris, supostamente como forma de protesto contra a edição “Charia Hebdo”, que ocasionou polêmica no mundo islâmico e foi recebida como um insulto aos muçulmanos.

No mesmo dia, outro francês muçulmano, Amedy Coulibaly, ligado aos atacantes do jornal, matou a tiros uma policial em Montrouge, nos subúrbios de Paris, e no dia seguinte invadiu um mercado kosher perto da Porte de Vincennes fazendo reféns, num novo ataque que terminou com mais quatro mortos, após a invasão do estabelecimento pela polícia francesa. No dia seguinte ao massacre, a ação foi reivindicada pela seção da Al-Qaeda baseada no Yemen[16].

Conforme se pode observar, e especialistas vem demonstrando, as falhas cometidas pelas autoridades australianas no âmbito da Segurança Nacional e Pública foram reproduzidas pelas autoridades da França. No dia 21 de dezembro de 2014, pouco mais de duas semanas antes do Massacre do Charlie Hebdo, as agências das notícias divulgaram a informação de que a segurança no território francês foi intensificada depois que funcionários da área de inteligência relataram risco de um possível ataque suicida, o que significa que as autoridades de inteligência do país tinham dados com antecedência.

O aviso veio dos Serviços de Inteligência da Argélia e, segundo informações reportadas, a bomba teria sido planejada para ser usada por uma mulher, cujos alvos seriam o Sistema de Transporte Metroviário de Paris, ou lugares de grande movimentação pública. “A ameaça de terrorismo é real, nós aumentamos nossa vigilância[17], apontou o ministro francês do interior Brice Hortefeux sem dar mais detalhes específicos. O alerta aconteceu logo após a proibição do uso dos véus que cobrem o rosto em locais públicos franceses e depois das ações do Exército Francês contra militantes islâmicos na África do Norte. As autoridades chamaram a atenção para a ameaça de um possível atentado desde o mês de julho de 2014, quando soldados franceses se envolveram em um ataque a um campo da Al Qaeda, no Mali. Em sequência, a vertente da Al Qaeda na África do Norte, a Al Qaeda no Maghreb Islâmico (AQIM, na sigla em inglês), afirmou que matará cidadãos franceses em um ato de vingança pelos guerrilheiros assassinados no campo. Como resposta às ações da França, membros da AQIM assassinaram um engenheiro francês de 78 anos, sequestrado no Níger. Além disso, outros cinco franceses foram feitos reféns na mesma região, segundo reportado pela AQIM. Com isso, as autoridades francesas aumentaram as unidades de patrulhas militar e civil em pontos turísticos, incluindo a Torre Eiffel, onde 2.000 pessoas foram evacuadas depois de uma falsa ameaça de bomba[17].

Segundo o William Braniff, diretor-executivo do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e Resposta ao Terrorismo da Universidade de Maryland[18], a Al-Qaeda na Península Arábica está competindo na arena global com o Estado Islâmico. Os dois grupos querem demonstrar que são a organização líder dessa ampla rede de jihadistas violentos, bem como que são a força a ser reconhecida, para a qual as doações devem ser feitas e com a qual todos devem se unir. É a ideia de que organizações terroristas concorrentes têm de superar uma a outra para ganhar mais recursos e influência. Portanto, há a preocupação não apenas de que ocorram cópias dos ataques, mas que se desenrole uma forma de competição entre essas organizações.

Além disso, a França tem uma postura antiterrorista pró-ativa considerada muito agressiva. Conduziu operações no Norte da África contra organizações jihadistas, realizou ataques aéreos contra o Estado Islâmico e é o único aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que aprovou legislação para permitir a entrada de soldados na Síria. Também tem uma longa história colonial e pós-colonial com a Argélia e enfrentamentos entre o Governo Francês e Grupos violentos neste país[19].

Ainda no contexto terrorista mundial, o Exército da Nigéria pediu ajuda à Comunidade Internacional para poder combater o Boko Haram (“A educação ocidental é proibida”, na sigla em português), depois de centenas de pessoas serem assassinadas pelo grupo terrorista na cidade de Baga, ao nordeste da Nigéria, também no dia 7 de janeiro de 2015. Após a ação, o Exército foi duramente criticado porque os milicianos do Boko Haram mal tiveram oposição durante o ataque à cidade, já que as Forças de Segurança destacadas em uma base militar próxima fugiram após outro ataque ocorrido dias antes.

Embora não haja número oficial de mortos em Baga, as autoridades locais disseram que centenas de pessoas perderam a vida. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) informou que mais de sete mil pessoas fugiram para o Chade nos últimos dias por causa de ações na região e o Boko Haram continua a realizar sangrentos ataques, o último deles no dia 10 de janeiro de 2015, quando uma criança ateou fogo em si mesma em um mercado de Maiduguri, a capital do Estado de Borno, e matou pelo menos 20 pessoas[20].

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*A Shahadah (do árabe: الشهادة, “testemunho”) é o primeiro dos cinco pilares do Islamismo (Arkan al-Islam). 1. É uma declaração que pode ser dividida em duas partes. Texto em árabe é: لا إله إلا الله محمد رسول الله. Transliteração: lā ‘ilaha ‘illāl-lāh an Muhammadur rasūlu llāhi. Traduções em português: “Não há outro deus além de Deus; Muhammad é o mensageiro de Deus. Não outra divindade além de Deus; Muhammad é o seu profeta. Não há outro deus além de Deus; Muhammad é servo e mensageiro de Deus”. Alguns muçulmanos xiitas acrescentam o Alīyun wali Allah (“Ali é o delegado de Alá ou Ali é amigo de Alá”). A recitação da Shahadah com a máxima sinceridade é tudo quanto é necessário para que uma pessoa se converta ao Islão. É o testemunho mais estimulado no islamismo, onde se recomenda aos muçulmanos piedosos que repitam inúmeras vezes durante a sua vida. É costume que um muçulmano a proclame durante o tashahud, ao recordar-se de Deus, no seu leito de morte. São também as primeiras palavras que um muçulmano diz quando se levanta de manhã e antes de se deitar à noite; e também é proclamada quando se chama à oração (adhan); entre outros.

** Estado Islâmico (em árabe: الدولة الإسلامية, ad-Dawlah al-ʾIslāmiyyah), designado pela mídia ocidental como Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL; em inglês: Islamic State of Iraq and the LevantISIL) ou Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS, em inglês: Islamic State in Iraq and Syria – ISIS) é um grupo jihadista no Oriente Médio. Em seu Estado, autoproclamado como um Califado, afirma autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo e aspira tomar o controle de muitas outras regiões de maioria islâmica, a começar pelo território da região do Levante, que inclui Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre e Hatay, uma área no sul da Turquia. O grupo islâmico foi designado como uma organização terrorista estrangeira por Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá, Indonésia e Arábia Saudita, além de também ter sido classificado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelas mídias do Ocidente e do Oriente Médio como grupo terrorista.

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Imagem  (Fonte):

http://www.talglobal.com/radicalized-individuals-imminent-terrorist-us-threat/

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Fontes Consultadas:
[1] Ver
:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/australiaandthepacific/australia/11294514/Sydney-siege-gunman-named-as-Man-Haron-Monis.html

[2] Ver:

http://manoto1.com/news/lmp7o6/NEWS16341

[3] Ver:

http://www.irna.ir/en/

[4] Ver:

http://www.interpol.int/

[5] Ver:

http://en.mehrnews.com/detail/News/105117

[6] Ver:

http://www.abc.net.au/news/2014-04-14/spiritual-healer-arrested-for-sexual-assault/5388332

[7] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/2014/12/15/sydney-hostage-crisis_n_6327220.html

[8] Ver:

http://www.sbs.com.au/news/article/2013/09/06/sheik-says-letters-were-flowers-advice

[9] Ver:

https://www.humanrights.gov.au/publications/casenote-monis-v-queen-2013-hca-4-1

[10] Ver:

http://www.washingtonpost.com/news/world/wp/2014/12/15/before-he-took-hostages-at-a-sydney-cafe-man-haron-monis-had-been-tied-to-alleged-murder-sexual-assaults-and-offensive-letters/

[11] Ver:

http://www.theage.com.au/nsw/sydney-siege-gunman-man-haron-monis-was-on-bail-for-40-sexual-assault-charges-and-accessory-to-murder-20141215-127u1e.html

[12] Ver:

http://www.news.com.au/national/breaking-news/seven-evacuates-newsroom-near-cafe-siege/story-e6frfku9-1227156337550

[13] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-australia-30485355

Ver Também:
http://www.abc.net.au/news/2014-12-16/sydney-siege-gunman-two-hostages-dead/5969162

[14] Ver:

http://www.newsweek.com/police-name-sydney-hostage-taker-radical-cleric-man-haron-monis-291926
[15] Ver:

http://www.nationalsecurity.gov.au/Pages/default.aspx

Ver Também:
http://www.afp.gov.au/

[16] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-30708237

[17] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-30580082

[18] Ver:

http://www.start.umd.edu/
[19] Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,al-qaeda-e-estado-islamico-disputam-relevancia-imp-,1617884

[20] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-30728158

Ver Também:
http://www.bbc.com/news/world-africa-30761963