AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURA

O papel dos EUA no conflito entre Israel e a Palestina

Em meados de junho iniciou-se um novo capítulo de tensões entre o Estado de Israel e a Autoridade Nacional Palestina (ANP). Essa nova escalada de violência entre israelenses e palestinos deu início ao conflito que já dura mais de duas semanas, contabilizando, aproximadamente, 550 mortos e mais de 100 mil refugiados[1]. Esse cenário carrega tensões de origem histórica,  que envolvem antagonismos que precedem o século XX, mas que se acentuam com nascimento do Estado de Israel, particularmente após 1967, quando a parte oriental de Jerusalém, território palestino, é ocupada pelos israelenses.

Os Estados Unidos da América (EUA) reconheceram o Estado de Israel no dia 14 de maio de 1948, durante a administração do ex-presidente Harry Truman. Alguns analistas apontam que desde então os EUA apoiam o Governo israelense, tanto em termos financeiros quanto em termos diplomáticos, e, portanto, privilegiam os seus interesses nas tentativas de forjar um Acordo de Paz com a Palestina[2].

Assim, afirmações como as feitas pelo presidente norte-americano Barack Obama de que os laços entre Estados Unidos e Israel são inquebráveis, reflete o quão intrínseca é essa aliança, independentemente de um governo republicano ou democrata[3]. Essa é uma das críticas feitas aos Estados Unidos, que tem seu papel questionado ao falhar em mais uma tentativa de articular um Acordo de Paz entre Israel e palestinos.

Com o final da Guerra Fria e a vitória na Guerra do Golfo, em 1991, os Estados Unidos consolidaram a hegemonia necessária para implantar o projeto de estabilizar o Oriente Médio[4]. Assim, a partir dos anos 90 do século passado, o Governo norte-americano (republicanos ou democratas) buscou promover um processo de paz entre ambos.

A primeira tentativa foi feita em 1993, através dos Acordos de Oslo, quando Bill Clinton, Ex-Presidente dos EUA, buscou mediar as negociações para acordar uma resolução que colocaria fim ao conflito, num prazo limite de até cinco anos. No entanto, diversos eventos antagonistas entre israelenses e palestinos postergaram as negociações. Mais tarde, em 1999, houve uma tentativa de reviver os Acordos de Oslo, mas, novamente, não houve progresso e a Segunda Intifada, em 2000, pôs fim às esperanças de um Acordo[5].

Em 2002, foi a vez de George W. Bush assumir a segunda tentativa que previa a criação de um Estado Palestino até 2005, também fracassada pela falta de progresso e pelas diferenças nos diálogos. Mais tarde, em 2007, Bush mediou uma nova tentativa de resolução, reunindo em Annapolis (EUA) israelenses, palestinos e os aliados árabes dos EUA para buscar um compromisso conjunto. No entanto, o Hamas, que no presente controla a região da Faixa de Gaza, afirmou que não aceitaria o resultado das negociações. Mais uma vez o Acordo não obteve consenso e, por fim, em dezembro de 2008, a Palestina se retirou das negociações após a operação militar israelense na Faixa de Gaza[6].

Em 2010, já sob o comando do presidente Barack Obama, surgiram outras esperanças de se estabelecer um novo processo de paz. Contudo, a interrupção dos diálogos acerca dos “assentamentos israelenses” em partes da Cisjordânia e no Leste de Jerusalém, território que é reivindicado pelos palestinos, encerrou os diálogos novamente[7]. Por fim, em julho de 2013, John Kerry, Secretário de Estado norte-americano, assumiu o compromisso de mediar mais uma negociação, que tinha como data limite 29 de abril de 2014.

Ainda no início deste ano, o processo de paz já demonstrava sinais de esfacelamento. O próprio John Kerry afirmou que os Estados Unidos iriam reavaliar seu papel no Conflito Israel-Palestina, ressaltando que “há limites para a quantidade de tempo e esforços que os EUA podem dedicar, se as duas partes não estão dispostas a tomar medidas construtivas para que possam existir progressos[8]. Os eventos que ocorreram posteriormente apenas ressaltaram a impotência dos EUA em mediar esse processo de paz. 

Em meados do mês de abril, os Estados Unidos demonstravam-se desapontados com a decisão do Fatah, partido vinculado à Organização pela Libertação da Palestina (OLP),e do Hamas, de formarem um pacto de união, uma vez que esse pacto poderia prejudicar as negociações de paz entre Israel e a Palestina.De fato, em seguida, o Governo israelense declarou que cancelaria as negociações[9].

Alguns analistas apontam que o fracasso das negociações deve-se ao fato de que as mesmas não foram promovidas de forma direta, ou seja, entre os líderes dos dois lados,(“Netanyahu e Abbas não se encontraram, não há um nível de confiança[10]) e, nesse sentido, torna-se “evidente que um acordo entre israelenses e palestinos em um futuro próximo não será alcançado[10]. Para Robert Serry, Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio,“a inação pode transformar este momento em uma crise. Por isso devemos fazer uma reflexão conjunta sobre como chegamos a este impasse e as formas de superá-lo[11].

Assim, ainda em meio às tentativas de Paz, deu-se início à escalada de tensões, que posteriormente resultaria no conflito em si.  Essa escalada da violência, particularmente no último final de semana, chamou a atenção da comunidade internacional, que mais uma vez clama por esforços para alcançar um cessar-fogo. Segundo Philip Luther, Diretor para o Oriente Médio e Norte da África da Anistia Internacional,“Sob as leis do direito humanitário internacional, todas as partes do conflito têm a obrigação absoluta de proteger as vidas de civis, que foram surpreendidos pela intensificação do embate[12].

Ainda no começo do conflito, o Governo norte-americano assumiu o papel de buscar esforços para estabelecer um cessar-fogo[13]. Na última segunda feira, 21 de julho, Barack Obama destacou que seu país está preocupado com o aumento das mortes de civis ereiterou ainda que os Estados Unidos tem “sérias preocupações sobre o crescente número de mortes de civis palestinos e a perda de vidas israelenses. Por isso, nosso foco, e da comunidade internacional, tem que ser conseguir um cessar-fogo, que termine o conflito e pare as mortes de civis inocentes[14].

Nesse sentido, em vista das fracassadas tentativas de promover o acordo de paz entre israelenses e palestinos, é natural que se questione o papel desempenhado pelos EUA no conflito.  Para alguns analistas como Allen Weiner, Diretor do Programa de Direito Internacional e Comparado de Stanford, o processo de paz já é difícil com a mediação do Governo norte-americano, sem a presença deste, ele certamente estaria quase que fadado ao fracasso[15]. Outros analistas assinalam que é preciso uma mudança da opinião pública norte-americana quanto à situação dos palestinos, para que haja uma pressão interna e consequentemente uma reformulação na postura norte-americana em mediar o conflito[16].

Desse modo, obviamente que a condução do processo de paz depende da aproximação do diálogo entre as israelenses e palestinos, pois “a construção da paz exige que as partes comecem a estabelecer padrões de comportamento que lhes permitam acreditar que a confiança mútua é possível. As partes devem reconhecer as perdas que um acordo imporá a ambos os lados para que possam garantir os benefícios da paz[17]. E, nesse sentido, talvez caiba uma reavaliação do papel e da forma como os EUA conduzem essa mediação, a qual, entre retomadas e interrupções, carrega ainda problemas basilares observados nas propostas de 1993.

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Imagem (Fonte):

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/9685336/Gaza-conflict-shows-how-the-power-of-the-Arab-Spring-was-underestimated.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140721_gaza_israel_entenda_rb.shtml

[2] Ver:

http://www.foreignpolicyjournal.com/2013/12/02/the-u-s-role-in-the-israeli-palestinian-conflict/

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2012/nov/19/us-public-opinion-israel-palestine-gaza

[4] Ver:

OLIC, Nelson Bacic; CANEPA, Beatriz. Oriente Médio e a questão da Palestina. São Paulo: Moderna, 2003.

[5] Ver:

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/le-monde/2014/07/15/eua-ja-fracassaram-cinco-vezes-ao-propor-paz-entre-israel-e-palestinos.htm

[6] Ver:

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/le-monde/2014/07/15/eua-ja-fracassaram-cinco-vezes-ao-propor-paz-entre-israel-e-palestinos.htm

[7] Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/kerry-anuncia-retomada-de-dialogo-entre-israel-palestinos-9101411

[8] Ver:

http://www.dw.de/eua-diz-que-vai-reavaliar-seu-papel-no-processo-de-paz-no-oriente-m%C3%A9dio/a-17546076

[9] Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/eua-temem-que-acordo-entre-hamas-fatah-inviabilize-negociacoes-de-paz-12274144

[10] Ver:

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2014/06/15/analistas-dizem-que-eua-erraram-ao-promover-paz-entre-israel-e-palestina.htm

[11] Ver:

http://www.onu.org.br/para-representante-da-onu-conflito-entre-israel-e-palestina-vive-hora-da-verdade/

[12] Ver:

http://anistia.org.br/direitos-humanos/blog/israel-gaza-conflitos-se-agravam-todos-os-lados-devem-proteger-civis-2014-07-1

[13] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140711_gaza_israel_eua_fl.shtml

[14] Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/foco-agora-cessar-fogo-dizem-eua-sobre-conflito-entre-israel-palestinos-13323648

[15] Ver:

http://codinomeinformante.blogspot.com.br/2013/03/por-seu-papel-de-mediador-eua-sao.html

[16] Ver:

http://www.worlddialogue.org/content.php?id=239 

[17] Ver:

http://codinomeinformante.blogspot.com.br/2013/03/por-seu-papel-de-mediador-eua-sao.html

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Outras Situações de Violência no Triângulo Norte da América Central

Outras Situações de Violência (OSV) é a expressão frequentemente utilizada por instituições de ajuda humanitária, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), em regiões e países onde a violência é tão alta que se pode comparar a um conflito armado tradicional. Durante a última década, a violência urbana e a violência relacionada às drogas e a atividades criminais têm adquirido cada vez mais impacto e visibilidade.

Esta é a realidade em diversos países, principalmente na América Central, ou mais precisamente, no Triângulo do Norte Centro Americano (Honduras, Guatemala e El Salvador)[1]. A região é casa para diversas gangues altamente violentas que apresentam um grande desafio a governos já enfraquecidos[2]. O diretor da Instituição Brasileira de Pesquisa Igarapé, Robbert Muggah, afirma que “as gangues podem não estar procurando usurpar do Estado, como em guerras civis convencionais, mas elas frequentemente têm sucesso em cooptá-lo[2].

Uma das maiores problemáticas na região em termos de OSV se refere ao tráfico de drogas e a “batalha” travada pelos Estados contra os traficantes, que incluem desde a “Guerra contra as drogas do México”, em 2006, até a adoção de políticas de “mano dura” e estratégias de militarização. Estratégias de combate ao tráfico de drogas não somente deixaram muitos mortos e milhares presos, mas também desestabilizaram o equilíbrio de poder dos grupos criminosos e gangues. Esta mudança de poderes na região fez com que estes atores criminosos aumentassem os enfrentamentos entre eles e fortalecessem sua organização com armamento mais pesado e controle territorial[1].

Os custos sociais e econômicos, consequências de OSV, somente adicionam aos altos índices de pobreza, desigualdade e desemprego. Acresce ainda a isso, a falta de oportunidades locais, a mobilidade social, o crescimento urbano e as transformações das famílias que muitas vezes são substituídas por maras e outros grupos criminosos que usam, por exemplo, as escolas como vitrines para o recrutamento de novos membros[1]. Todos estes fatores, unidos ao porte de armas de fogo e ao consumo de drogas não somente propiciam o ambiente para uma catástrofe humanitária como impulsionam a violência.

Um recente relatório redigido pela instituição baseada em Genebra, Assessment Capacity Project (ACAPS), examinou as consequências humanitárias da violência do Triangulo Norte Centro Americano e como os atores humanitários podem contextualizar e responder a OSV na região[1]. O Relatório salienta que alguns atores humanitários têm começado a criar consciência da realidade na região e estão tomando decisões para ampliar as ações humanitárias para ajudar as vitimas de OSV[1].

Entre os desafios encontrados para responder a estas situações de violência estão as problemáticas de conceito e de práticas. Pelo fato de que violência de gangues e traficantes não está categorizada como conflito armado, o Direito Internacional Humanitário não se aplica a ela. Juan Pedro Schaerer, Chefe da Delegação Regional do CICV para México, América Central e Cuba, salienta que este fator, em particular, limita muito o trabalho do CICV de um ponto tanto legal como judicial.

Schaerer explica os dois argumentos quando se discute se o OSV deve ser definido como conflito armado: “definindo OSV como conflito armado ajudaria a garantir o fluxo de ajuda para programas de prevenção da violência, por outro lado, isto iria prover às gangues organizadas certa legitimidade e daria potencialmente o poder legal de governos matarem combatentes – membros de gangues[2].

Outro fator ainda mais preocupante para uma atuação efetiva de atores humanitários em OSV é salientada por Muggah: “os governos são relutantes em definir a violência no Triangulo Norte como uma crise humanitária, porque desta maneira eles estariam admitindo o seu fracasso em controlar a situação[2]. Em vez disso, Governos frequentemente se voltam para políticas de mão-dura e de militarização, as quais irão se concentrar nas causas da violência sem se preocupar com outros fatores humanitários[2]. Muggahsalienta que este posicionamento dos Estados faz com que “atores humanitários tenham menos espaço para intervir, levando a muitos atores humanitários a focar em temas menos politizados e a não atuar diretamente na violência[2].

Instituições humanitárias como o CICV e a Comissão Europeia em Ajuda Humanitária e Proteção Civil (ECHO) já atuam na região da América Central em temas e situações de OSV. Schaerer justifica a atuação do CICV: “apesar de que as causas destas situações de violência possam variar em caráter das dos conflitos armados, as consequências humanitárias são muito frequentemente as mesmas, tanto em forma como em complexidade e intensidade[2].

Destaca-se que a atuação do CICV conta com atividades que incluem a promoção e a integração do direito internacional e do direito internacional humanitário nas forças armadas e de segurança; a assistência a famílias de desaparecidos; o restabelecimento de contatos familiares e proteção para migrantes; bem como as visitas a presos políticos e atividades de proteção a comunidades afetadas por OSV[3].

Virgine Andre, Chefe do Departamento de América Central para o ECHO, ainda enfatiza que “leva tempo para atores ajustarem, adaptarem e responderem. Nós precisamos aprender como fazer e dar aos atores humanitários as ferramentas e condições para atuar[2][3].

O estudo da ACAPS propõe, em meio a estas dificuldades, uma estratégia para medir melhor o impacto da violência no Triangulo Norte da América Central de maneira a determinar melhor as políticas que deveriam ser adotadas pelos Estados e a resposta humanitária. A proposta da ACAPS inclui determinar mais precisamente os efeitos da violência na população, examinar o acesso da população afetada a assistência humanitária, e  medir a capacidade de resposta, tanto do Estado como de atores não-governamentais[2].

Observadores apontam que mais informações poderiam também aumentar a capacidade de ONGs locais e pressionar Estados a reconhecer a severidade da situação. O reconhecimento por parte dos Estados é essencial, já que, atualmente, como assinala Andre, a ajuda humanitária se direciona mais a crises imediatas e “há uma necessidade de soluções em longo prazo, endereçando às raízes dos problemas[2], as quais somente poderão ser implementadas pelo Governo de cada país[2].

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Imagematividades de ajuda humanitária em comunidades afetadas por OSV realizadas pelo CICV na América Central” (Fonte):

http://www.icrc.org/eng/where-we-work/americas/mexico/index.jsp

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://acaps.org/resourcescats/downloader/otras_situaciones_de_violencia_en_el_triangulo_del_norte_centroamericano_impacto_humanitario_mayo_2014/229

[2] Ver:

http://www.insightcrime.org/news-analysis/is-central-americas-gang-violence-a-humanitarian-crisis

[3] Ver:

www.icrc.org/eng/assets/files/2014/mexico-delegation-activities-eng.pdf

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Ver:

http://www.icrc.org/eng/where-we-work/americas/mexico/index.jsp

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A China por ela mesma: aspectos culturais de defesa territorial

Recentemente, a região do Sudeste Asiático se viu apreensiva depois que um navio chinês foi flagrado instalando um “anel de contenção” em ilhas disputadas com Vietnã. Os vietnamitas reagiram numa explosão de ódio e nacionalismo que resultou em ataques indiscriminados a instalações de empresas chinesas, taiwanesas e até mesmo da Cingapura.

As questões no Mar do Sul da China, assim como em outras disputas territoriais em que a China está envolvida, sempre realçam alguns paradoxos sobre seu o comportamento, pois, apesar dos conflitos em que está envolvida, há um lado que demonstra estar voltado para uma diplomacia que exalta a necessidade de se manter a “harmonia”, voltada para o dever de buscar a resolução de conflitos “de forma apropriada”, bem como direcionada para a procura do multilateralismo, o que nos traz a necessidade de entender estas prováveis contradições.

É possível abordar a questão de diversas maneiras. Inicialmente, pode-se delinear alguns elementos para oferecer ao leitor uma visão mais holística sobre como a China se vê e como ela entende suas disputas e conflitos. Seja em matérias de economia, de segurança ou de política, a cultura é um fator determinante para se analisar qualquer tipo de ação chinesa, já que o “culto de defesa chinês” tem como base três conceitos filosóficos, com os seguintes elementos centrais dessa tradição militar: (1) os chineses são um povo pacífico e amável; (2) não são agressivos ou expansionistas e (3) somente usa a força em legítima defesa. Esse conjunto de crenças, embora possivelmente refutáveis do ponto prático, são claramente identificáveis no comportamento defensivo da China. Em complemento a estes três conceitos, podemos destacar ainda a intensa reverência pela unidade nacional e um reforçado senso de ameaça permanente*.

Quando vistos sob parâmetros externos, estas crenças e conceitos se evidenciam nas afirmações chinesas de que seu país: a) luta somente guerras justas e b) a China é adepta, de mente e de coração, ao conceito estratégico dedefesa ativa”.

Sob a perspectiva doméstica, tais apreciações se baseiam, primeiro, em um profundo medo de desestabilização social e caos interno e, segundo, em uma convicta ênfase na primazia do grupo (comunidade) sobre o indivíduo.

Este conjunto de crenças que estão arraigadas na personalidade militar chinesa é consistente com as clássicas considerações pacifistas presentes no pensamento confucionista de uma civilização avessa a guerra** e orientada para um cultura de guerra essencialmente defensiva (Yao, 2004). A história mostra, no entanto, que estes elementos nunca foram suficientes para evitar conflitos com seus vizinhos por motivos variados (alguns agressivos), além dos defensíveis, evidenciando as contradições entre a cultura pacifista e as politicas de defesa e segurança adotadas pelos governantes chineses através do tempo (Scobell, 2007:23).

Tendo este aspecto cultural como pano fundo, alguns elementos da política de defesa contemporânea da China e suas contradições ficam mais compreensíveis, principalmente, quando são observados os Cinco Princípios de Coexistência Pacifica, elementos basilares da sua política de segurança e defesa. 

Desde que foi proclamada por Zhou Enlai, em 1953, como base para um Tratado de Paz com a Índia, os “Cinco Pontos” passaram a fazer parte permanente, não só da política de segurança nacional, mas também como parte integrante da política externa durante quase todo o século XX .

Baseado neste princípio, todos os documentos oficiais de defesa e segurança proclamam suas políticas de segurança como “pacíficas por natureza”, “essencialmente defensivas” e “focadas na proteção de seu território” (Cordesman & Keiber,2007:7). Outro aspecto presente na retórica é o conceito de “ascensão pacífica” (Peaceful Rise), cunhado pelo teórico do Partido Comunista Chinês, Zheng Bijan, que em muito responde à ideia da “ameaça chinesa” largamente utilizado pela mídia e em alguns círculos acadêmicos norte-americanos.

Na ideia deascensão pacífica”, Pequim sustenta que é da natureza de sua política não buscar hegemonismo e nunca interferir nas questões internas de qualquer país. A doutrina também ressalta o conceito doprimeiro uso”, ou  seja, que a China assume o compromisso de nunca ser a primeira a usar armas nucleares e de destruição em massa em um eventual conflito militar e reafirma sua posição contrária àmilitarização do espaço siderale à desestabilização do atual sistemas defesa de mísseis” (Fischer, 2008:7). Ainda de acordo com a doutrina da ascensão pacífica, a China assevera que também não tomará parte em corridas armamentistas, como destacado nos Informes de Defesa de 2006 e 2010. Assim, os objetivos e ações de Defesa Nacional para as próximas décadas foram definidas no último Informe da seguinte maneira:

• Deve-se salvaguardar a soberania, segurança e interesses nacionais em todo o território.

• É função do Estado chinês se opor e conter forças separatistas por uma “Taiwan independente” e eliminar as forças separatistas do Turquestão no Tibete .

• Deve-se manter a harmonia e a estabilidade social, bem como a paz e a estabilidade mundial (baseados nos Cinco Princípios de Coexistência Pacifica).

Fora do discurso oficial, pode-se acrescentar mais 4 pontos cruciais para a politica de segurança do país: 1) Assegurar a sobrevivência do Partido Comunista e de seu regime; 2) manter a estabilidade interna e a unidade nacional; 3) Sustentar altas taxas de crescimento econômico, focadas na criação de empregos, aumento da renda e aceleração da modernização econômica e 4) Assegurar acesso a fontes de energia e alimentos para a manutenção da estabilidade e crescimento econômico do país (Mulvenon, 2006:6).

Baseado nos conceitos descritos acima, Beijing é quase incapaz de se perceber como agressiva, uma vez que a defesa do território é vista como um dever sagrado. Mas, mais do que isto, as disputas no Mar do Sul da China, pelas Ilhas Senkaku-Diaoyutai ou quaisquer outras, são vistas sempre a partir do prisma defensivo.

Da perspectiva do Partido Comunista Chinês, estes territórios foram retirados do controle da China em momentos de fragilidade política, portanto, isso é classificado como um ataque à soberania do país, o que lhe dá o direito natural de recuperá-los, não importando se a perda ocorreu há muitos séculos ou como consequência da Segunda Guerra Mundial. Suas ações se dão, por isso, para  “recuperaçãoourecomposiçãoda pátria-mãe chinesa e, consequentemente, não podem ser vistas*** como ações ofensivas.

Neste cenário, para a China, o atual status quo do leste e sudeste asiático, no que tange a seus territórios, devem ser reajustados a fim de refletir sua composição original para a qual várias partes de território marítimo e terrestre devem retornar aos chineses recompondo totalmente aquilo que já foi chamado de “Império do Meio”.  O problema é que tal comportamento afeta diretamente os interesses de vietnamitas, filipinos, japoneses, taiwaneses, norte-americanos entre vários Estados diretamente vinculados aos problemas da região, levando a aceitar que a tendência será de gerar mais conflitos.

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* E de vitimização, algo que será tratado em outro momento.

** Pelo menos contra outros Estados, uma vez que internamente o império sempre se viu em crises intermitentes.

*** Do ponto de vista de Beijing.

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Imagem (Fonte):

Visão do futuro chinês em propaganda do partido comunista em 1982. 

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Fontes Consultadas:

Bibliografia citada no próprio texto.

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Novo pleito eleitoral decidirá futuro da paz na Colômbia

Em 25 de maio de 2014, foram realizadas eleições presidenciais na Colômbia. O principal ponto que guiou a escolha por algum dos candidatos foram as suas respectivas posições a respeito do processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)[1].

Os resultados da primeira rodada de eleições foram: Enrique Peñalosa, do partido Aliança Verde, com 8,29% dos votos; Clara López, do Polo Democrático Alternativo (PDA) e União Patriótica (UP), com 15,23%; Martha Lucía Ramirez, do Partido Conservador Colombiano, com 15,53%; Juan Manuel Santos Calderón, da Unidade Nacional, com 25,67% e Óscar Iván Zuluaga, do Centro Democrático Mão Firme Coração Grande, com 29,26%[2].

O atual Chefe de Estado do país, Santos, e o ex-ministro Zuluaga, irão disputar uma segunda volta das eleições em 15 de junho. O tema que se acentuará nesse momento será a manutenção ou não das conversações de paz, iniciadas pelo primeiro, para dar fim ao conflito mais antigo da América Latina, que já fez muitas vítimas e deixou milhões de deslocados.

As Farc comprometeram-se a uma trégua em suas ações durante o período eleitoral, cujo primeiro turno transcorreu sem maiores ocorrências, mas que ficou marcado por uma alta abstenção*, beirando os 60%. A Missão Observadora Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (MVE/OEA, na sigla em espanhol)**, recomendou às autoridades colombianas que estudassem os motivos que levaram à alta taxa de abstenção registrada com o objetivo de evitar que o fenômeno venha a ocorrer novamente[3].

Embora considerado um Estado falido, ocupando a posição 57 no ranking do Relatório de 2013 do Fundo para a Paz (Fund for Peace, no original em inglês)[4], o Estado colombiano tem recuperado sua confiança doméstica e acredita-se que, em breve, também poderá recuperar seu prestígio internacional. Em seu informe preliminar sobre as economias da América Latina e Caribe, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) prevê um crescimento econômico maior para o país em 2014, sendo este um dos resultados das conversações de paz que tiveram lugar em Havana (Cuba) ao longo do último ano (2013), as quais contribuíram para fortalecer a confiança de investidores estrangeiros[5].

No entanto, conforme Marco Velásquez Ruiz***, assistente de pesquisa colombiano na Osgoode Hall Law School, da York University, em Toronto (Canadá), quando consideradas as negociações de paz de fato em seus pormenores há que se ter em mente que “o governo Santos jamais falou em conceder uma anistia aos guerrilheiros que haviam cometido crimes de guerra ou de lesa humanidade. Tem-se falado de uma redução das penas no âmbito do processo de justiça transicional, mas nunca em extinguir multas ou acusações penais [a esses grupos]”***.

Em outras palavras, ainda que haja muita especulação e que muitas pesquisas de opinião no país tendam a enfatizar o assunto como um divisor de águas entre as duas plataformas políticas que irão disputar o segundo turno, há detalhes na forma de execução desse processo que os aproxima.

Sobre essa questão, o pesquisador acrescenta que “é claro que a falta de informação e a estratégia de denúncia da campanha de Zuluaga faz como que muitas pessoas tenham uma concepção distorcida do que tem sido negociado em Havana [Cuba]. Nesse sentido, a eleição se vê afetada. Sem dúvida, a segunda volta mostrará um cenário no qual o processo de paz será posto à prova”***.

Conforme ele ainda aponta, um dos pontos que diferencia Zuluaga e Santos, no entanto, é, principalmente, a questão dos Direitos Humanos, ou mais especificamente, as consequências da eleição de um ou outro candidato no tratamento do tema, que para o pesquisador significaria, do lado de Zuluaga, “o regresso a guerra frontal com as Farc, de modo que a vulnerabilidade da população civil aumentaria totalmente. Sem dúvida, as operações militares cresceriam e o orçamento público seria destinado em grande medida à guerra, a qual teria consequências importantes em matéria de direitos humanos”***. Por outro lado, ele considera que, caso Santos seja eleito, “a [opção pela] paz daria a oportunidade de acabar com as violações de direitos humanos associadas ao conflito – ainda que não sejam as únicas na Colômbia –, porém os abusos com a implementação de um modelo de desenvolvimento neoliberal se consolidariam como o principal desafio nesse tema”***.

Pensando em outros constrangimentos, no caso os externos que poderiam influenciar a segunda volta das eleições, está dentre eles a histórica vinculação da política do país com os Estados Unidos. O investigador diz que “embora os Estados Unidos sempre tenha representado um papel importante na história da Colômbia e que possua algum grau de influência nos assuntos políticos e econômicos a nível regional, para o caso específico da eleição, não considero que exista alguma posição do país a favor de um ou de outro candidato. O que se pode dizer é que a posição que os Estados Unidos manifestaram em várias ocasiões foi de apoio ao processo de paz com as Farc, como uma estratégia ao fim do conflito”***.

A “Diplomacia para a Paz”, termo utilizado pelo ex-presidente Andrés Pastrana (1998-2002) é uma referência, inclusive, à época em que estava à frente da Presidência e aprofundou o relacionamento da Colômbia com o parceiro hemisfério. Conforme os pesquisadores Rafael Duarte Villa e María del Pilar Ostos, a “Diplomacia para a Paz” correspondia à tarefa de solicitação de recursos financeiros ao poder executivo norte-americano com vistas ao avanço na aproximação com os grupos guerrilheiros, além de combater o flagelo das drogas no país[6].

Assim, tanto em termos de política externa como no âmbito doméstico vê-se a predominância do tema da paz como um dos principais fatores a serem levados em conta no que tange o futuro político da Colômbia. Sobre o tema, ainda segundo Velásquez Ruiz, “é inevitável que o tema da paz seja a questão central nos debates presidenciais. Isso se deve não tanto à consolidação da paz e à finalização do conflito militar, como também implica uma etapa da pós-conflito. Ou seja, assim que se consiga alcançar essa etapa será possível implementar uma série de reformas estruturais que mudariam muitas das estruturas e relações sociais no país. (…) Em linhas gerais, se pode dizer que nesse momento, o tema da paz é como uma tela sobre a qual todos os demais assuntos de governo, desenvolvimento e justiça no país se articulam”***.

Por fim, cabe reforçar o papel das alianças como um fator de impacto importante na condução do processo eleitoral colombiano. Em 4 de junho de 2014, Clara López havia anunciado seu apoio a Santos, de modo a “garantir a paz e consolidar uma democracia profunda[7] para os colombianos. Na mesma data, a coalizão Aliança Verde, em um grande ato público respaldou a reeleição de Santos, com o objetivo de que fossem reabertas as conversações não somente com as Farc, mas também com o Exército de Libertação Nacional (ELN), de modo a garantir o pleno estabelecimento da paz[8].

Zuluaga, no entanto, já havia recebido o apoio da terceira colocada na primeira rodada eleitoral, Marta Ramírez. A candidata tinha conseguido aproximadamente dois milhões de votos[9]. No entanto, mais de quarenta deputados e alguns senadores da legenda do Partido Conservador Colombiano haviam declarado serem a favor de Santos. Como o quadro atual demonstra, não há consenso nem entre os apoiadores de Santos e nem entre aqueles de Zuluaga, de modo que o segundo turno está aberto e será decisivo não somente para a questão da paz, mas também para aspectos estruturais no país, além da política colombiana.

Segundo o jornal El País, em 26 de maio de 2014, o vencedor do primeiro turno e ex-ministro da Fazenda seguia na frente nas pesquisas de intenções de voto, visto que seu discurso estava mais próximo do alcance da paz através das leis de segurança do país, o que, para os eleitores que acompanharam as muitas tentativas frustradas de Santos de negociação com esses grupos, se mostrava-se como algo muito mais efetivo para a resolução de um dos conflitos mais antigos da região[10].

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* Junto ao Chile, o país é um dos poucos que possui voto facultativo na América Latina.

** A missão esteve composta por 27 oficiais, sendo um deles o ex-ministro chileno José Antonio Vieira-Gallo (2007-2010). A partir de 25 de maio, a missão também será observadora nos próximos comícios presidenciais.

*** Em entrevista concedida a mim, em 3 de junho de 2014, exclusivamente para esta Análise de Conjuntura.

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ImagemMapa com as áreas em que operam as Farcs” (Fonte):

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:FARC_areas_of_operation.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.publico.pt/mundo/noticia/segunda-volta-define-futuro-das-negociacoes-com-as-farc-na-colombia-1637504

[2] Ver:

https://storify.com/CanalCapital/resultados-boletines

[3] Ver:

http://www.elespectador.com/noticias/politica/oea-recomienda-colombia-estudiar-fenomeno-de-abstencion-articulo-479848

[4] Ver:

http://ffp.statesindex.org/rankings-2013-sortable

[5] Ver:

http://www.cepal.org/publicaciones/xml/2/51822/BPE-Colombia.pdf

[6] Ver:

Villa, Rafael Duarte; Ostos, María del Pillar. Colômbia: evolução de sua política externa em relação aos EUA e seus vizinhos. In: Villa, Rafael Duarte; Kalil, Suzeley (Orgs.).Ensaios Latino-americanos de Política Internacional. São Paulo, Aderaldo & Rothschild, 2007. Cap. 09.

[7] Ver:

http://www.latercera.com/noticia/mundo/2014/06/678-581058-9-ex-candidata-colombiana-de-izquierda-llama-a-votar-por-santos.shtml

[8] Ver:

http://www.prensa-latina.cu/index.php?option=com_content&task=view&idioma=1&id=2751481&Itemid=1

[9] Ver:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2014-05/colombia-terceira-colocada-no-primeiro-turno-apoiara-zuluaga

[10] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/05/26/internacional/1401134912_549071.html

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

As Eleições Egípcias

Nesta semana, as eleições egípcias enfrentaram baixos índices de comparecimento às urnas. O segundo dia de eleições – a última terça-feira – foi primeiramente estendido por uma hora, além de declarado feriado nacional, a fim de estimular eleitores a comparecerem. Ao fim da terça-feira, no entanto, o período de votações foi prolongado por mais um dia, à medida em que o índice de comparecimento preocupa as autoridades[1].

Acrescentando a essas medidas, o Secretário Geral da Suprema Comissão Eleitoral, Abdel Aziz Salman, afirmou que eleitores que se abstivessem da votação sem justificativa seriam multados em valor equivalente a US$ 70, de acordo com o Artigo 43 da Comissão Eleitoral Presidencial[2].

Ontem, quinta-feira, dia 29 de maio, após o término das eleições, os resultados preliminares apresentaram uma vitória do ex-Ministro da Defesa e ex-General, Abdul Fattah al-Sisi com 93,3% dos votos[3]. De fato, observadores internacionais vinham se referindo a essas eleições como uma “corrida de um cavalo só[4], em que Sisi aparecia como vitorioso “inevitável[1]. Responsável por depor o então presidente Morsi em julho de 2013[1], ele teve como único opositor Hamdeen Sabahi, que havia ficado em terceiro lugar na eleição presidencial de 2012, ganha por Morsi[5], e tinha recebido apenas cerca de 3% dos votos naquela eleição[3].

Embora o esquerdista Sabahi oferecesse uma alternativa a jovens votantes que preferem um candidato civil a um militar, Sisi contou com o apoio de grandes empresários, assim como de um vasto grupo de partidos, desde a direita islamista até a esquerda moderada[4].

Avaliações preliminares também apresentaram um comparecimento às urnas de 46% dos 53 milhões de eleitores registrados, uma porcentagem respeitável se comparada com os índices de outras eleições após a queda de Mubarak, em 2011. Entretanto, como aponta Patrick Kingsley, do Guardian, este índice só foi alcançado com uma extensão do período de votação, com a proclamação de um feriado nacional “de última hora” e com ameaças de multa a eleitores ausentes, como mencionado acima – e, ainda assim, o comparecimento às urnas foi inferior aos 80% que Sisi havia pedido aos eleitores nos dias anteriores à votação[6].

Além disso, como destaca o especialista Mohamed el Dahshan[7], a própria vitória de Sisi tem sua legitimidade questionada. Sua campanha não foi penalizada por distribuir milhares de lâmpadas econômicas, como parte de sua proposta política a respeito da crise energética do país[8]. Mais importante, sua campanha fez uso de recursos estatais, incluindo o uso de aviões para a distribuição de panfletos e do porta-voz do Exército como seu secretário pessoal[7].

Esses resultados favorecem a análise do analista Richard Wike[9], que, em recente artigo publicado no portal Foreign Policy, baseado em uma pesquisa conduzida pelo Pew Research Center[10], apontou que a suposta unanimidade em torno do nome de Sisi para a presidência não encontra respaldo nas estatísticas[9]. De acordo com a pesquisa, 54% dos egípcios se manifestaram favoráveis a Sisi, enquanto 45% se mostraram contrários ao ex-General. Embora se trate de uma maioria, esses números, no entanto, desmentem a ideia de que o “Egito está se reunindo em torno de um herói nacional[9].

Nesse contexto, o comparecimento às urnas era fundamental para a legitimação da presidência de Sisi. Como explica Kevin Connolly, da BBC, um baixo índice de comparecimento às urnas prejudicaria a autoridade de Sisi ao assumir a Presidência; além disso, seria embaraçoso se o ex-General obtivesse menos de 13 milhões de votos, número atingido por Morsi nas últimas eleições[1]. Embora Sisi tenha evitado esse constrangimento, os 46% (cerca de 24 milhões) de eleitores que compareceram às urnas figuram muito abaixo dos 40 milhões esperados e ameaçam privar o futuro Presidente egípcio de um mandato forte necessário reparar a economia do país, “que sofre com a corrupção, com um elevado índice de desemprego e com um crescente déficit orçamentário agravado por subsídios a combustíveis que poderiam custar cerca de US $ 19 bilhões no próximo ano fiscal[3].

A economia egípcia, vista como em má forma por 76% dos egípcios[9], constitui um sério desafio a Sisi. Após a queda de Mubarak, 56% dos egípcios afirmavam esperar que a economia melhoraria nos 12 meses seguintes[9]. Agora, esperam que o novo líder “cure os problemas crônicos” do país[11].

Por um lado, enquanto Sisi elaborou planos ambiciosos para desenvolver a agricultura, habitação, educação, áreas empobrecidas e emprego; ele foi vago quanto a forma como os recursos para tais transformações serão obtidos[4]. Conforme a analista Anna Boyd aponta, “o baixo índice de comparecimento às urnas torna mais difícil para Sisi a imposição de reformas econômicas dolorosas que as instituições e os investidores internacionais estão exigindo[3]. Ao mesmo tempo, muito de sua plataforma política foi mantida secreta sob a égide da “segurança nacional” e sua campanha política não contou com nenhuma aparição pública, supostamente por Sisi temer por sua vida[11].

Não obstante, dentre as mudanças de opinião entre os egípcios sobre os rumos do país, a mais perturbadora concerne a um decrescente entusiasmo pela Democracia: agora, apenas 59% dos egípcios acreditam que a Democracia é o melhor Regime Político (na pesquisa apresentada como Forma de Governo); número inferior aos 66% de 2013 e aos 71% de 2011. Mais importante, pela primeira vez, desde 2011, quando perguntados pela primeira vez, egípcios dão maior prioridade a um Governo estável (54%) do que a um Governo democrático (44%)[9].

Ironicamente, a falta de entusiasmo pela Democracia parece se refletir, precisamente, no baixo índice de comparecimento às urnas. Todavia, tais sentimentos podem vir a favorecer a ocorrência de crescentes violações de direitos humanos documentadas pela Amnesty International[12] – como restrições aos direitos de liberdade de expressão, associação e reunião e tribunais seletivos –, além de um clima de perseguição estatal à Oposição, conforme respaldado pela nova Constituição, sobretudo no que concerne a “luta contra o terrorismo[13].

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ImagemAs primeiras eleições egípcias desde a queda de Mohammed Morsi em julho de 2013 ocorrem nos dias 26, 27 e 28 de maio” (Fonte):

http://amnesty.org/en/news/egypt-post-election-fears-human-rights-impunity-holds-fast-2014-05-23

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-27593509

[2] Ver:

http://www.dailynewsegypt.com/2014/05/27/fining-abstainers-law-will-implemented-mehleb/

[3] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/05/29/us-egypt-election-idUSKBN0E70D720140529

[4] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-27475293

[5] Ver:

http://mideastafrica.foreignpolicy.com/posts/2014/05/27/turnout_low_in_the_final_day_of_egypt_s_presidential_election

[6] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/may/29/abdel-fatah-al-sisi-sweeps-victory-egyptian-election

[7] Ver:

http://www.atlanticcouncil.org/blogs/egyptsource/egyptian-elections-first-conclusions

[8] Ver:

http://www.madamasr.com/content/elections-commission-criticizes-sisi-campaign-distributing-light-bulbs

[9] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/05/23/egypt_isnt_stable_sisi_presidential_election_poll

[10] Ver:

http://www.pewglobal.org/2014/05/22/one-year-after-morsis-ouster-divides-persist-on-el-sisi-muslim-brotherhood/

[11] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-27536096

[12] Ver:

http://amnesty.org/en/news/egypt-post-election-fears-human-rights-impunity-holds-fast-2014-05-23

Ver também:

http://www.amnesty.org/en/library/asset/MDE12/028/2014/en/fae09ce0-ccee-4b40-b8ca-9272b6ce30b9/mde120282014en.pdf

[13] Ver:

https://ceiri.news/anti-terrorismo-e-a-nova-constituicao-egipcia/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPAORIENTE MÉDIO

O Papa na Terra Santa: Visita Pastoral com Significado Político

Em 1964, o Papa Paulo VI inaugurou os novos passos da Igreja e, pela primeira vez, foi além dos limites do Vaticano, iniciando o ciclo de viagens ao exterior. Em 4 de Janeiro de 1964, o então Bispo de Roma chegou à Terra Santa e entrou em Jerusalém pela Porta de Damasco. Uma nova tradição foi criada e, desde aquela época, a Terra das três religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) acolheu várias visitas papais. A visita do Papa Francisco, que chegou à Terra Santa no final da semana passada, foi recebida com satisfação pela comunidade católica, apesar de muitos não terem ocultado a decepção pelo fato de ela ser curta e ter tido apenas um evento totalmente aberto ao público, realizado a Oeste do Rio Jordão. Por outro lado, parte da decepção deve-se ao fato de o Papa não incluir na sua agenda Nazaré e a Galileia, onde existe uma importante comunidade cristã[1].  O Papa Francisco chegou à Terra Santa no momento em que o número de cristãos está se reduzindo ante as dificuldades enfrentadas na região, sendo a imigração o caminho escolhido por eles[2].

A peregrinação papal teve como objetivo principal unir as Igrejas cristãs e o calendário da viagem foi muito bem ajustado pela diplomacia do Vaticano para evitar que episódios parecidos com aqueles que ocorreram em 2009, quando da visita do Papa Bento XVI, voltassem a ocorrer. Naquela altura, em Israel, o discurso do Papa não foi considerado suficientemente forte quanto à condenação do Holocausto, pois ele não responsabilizou os nazistas e não pediu perdão aos judeus. A estas questões, somou-se o equívoco cometido pelo Vaticano ao negar a participação do então Papa como membro da Hitlerjugend (Juventude Hitlerista). Quanto aos palestinos, eles ficaram satisfeitos com as críticas do Papa ao muro de contenção, mas Bento XVI foi censurado por não ter visitado Gaza e por não ter exigido, a Israel, medidas de proteção como fez em relação à Palestina[3].

Meio século após a visita de Paulo VI àquela região, nos dias 24, 25 e 26 de maio, o Papa Francisco realizou uma peregrinação apostólica de caráter ecumênico à Jordânia, aos Territórios Palestinos e a Israel. Desde o princípio, a sua viagem foi marcada por contestações por parte dos fiéis mais radicais do judaísmo. O fato de a última missa celebrada ter acontecido no Cenáculo (local da Última Ceia de Jesus Cristo com os seus discípulos), desagradou aos judeus ultra-ortodoxos, pois nesse local encontra-se, também, o túmulo do Rei Davi. Neste espaço, a visita dos peregrinos cristãos é permitida, mas as orações sejam proibidas[4]

A imprensa local abordou a dificuldade de se alcançar um possível acordo bilateral entre Israel e a Santa Sé. Segundo o jornal Ha’aretz, os “crimes de ódio[5] somados aos “protestos dos judeus ultra-ortodoxos têm empurrado essa comissão [Comissão Bilateral Permanente de Trabalho entre a Santa Sé e o Estado de Israel] para a ribalta. Por 15 anos eles têm se esforçado para negociar um acordo financeiro entre Israel e a Santa Sé sobre os direitos de propriedade da Igreja e suas obrigações fiscais”[6].

Recentemente, uma notícia a respeito de um suposto acordo que teria dado ao Vaticano a soberania sobre o Monte Sião, gerou muitos protestos por parte dos ultra-ortodoxos. O Embaixador de Israel no Vaticano, Zion Evrony, através de e-mail enviado ao Ha’aretz,comunicou que nenhum acordo foi finalizado, tendo ainda afirmado que “o Estado de Israel não tem a intenção de transferir para a soberania do Vaticano a propriedade do Cenáculo ou qualquer outra parte do complexo do Monte Sião[7].

Apesar das dificuldades iniciais, o Bispo de Roma compareceu a encontros com os representantes das três religiões monoteístas e demonstrou, através de gestos, mensagens políticas que refletem a situação vivida pelas populações locais. Em sua caminhada, ele parou para rezar em frente ao muro de contenção que separa israelenses e palestinos e manteve encontros com os representantes de Israel e da Palestina.

No encontro com o Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, o Papa obteve as informações sobre os obstáculos ao processo de paz e as dificuldades enfrentadas por muçulmanos e cristãos, que têm levado à imigração, bem como a questão dos assentamentos e de Jerusalém[8]. No encontro com o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o Papa Francisco quebrou mais um protocolo e aceitou o convite de Netanyahu para visitar um espaço de homenagem de israelenses mortos em atentados terroristas[9].

O Papa Francisco demonstrou preocupação em relação ao processo de paz, tendo pedido entendimentos entre Israel e a Palestina e implorado pelo fim do conflito na região: “Para o bem de todos, há uma necessidade de intensificar os esforços, as iniciativas e as ações que visam criar as condições para uma paz estável baseada na justiça, no reconhecimento dos direitos de cada pessoa, e sobre a segurança mútua. Chegou o momento para que cada um possa encontrar a coragem para ser generoso e criativo a serviço do bem comum, a coragem para forjar a paz que repousa no reconhecimento por todos do direito de dois Estados existirem e viverem em paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas[10].

O apelo à paz, feito pelo Papa, assim como a proposta de solução do conflito a partir da existência de dois Estados, refletem uma atitude política de um Chefe de Estado que, durante esta viagem, demonstrou empenho não somente religioso. É preciso salientar que os cristãos que vivem naquela região, de certo modo, também cobram um esforço político do líder da Igreja Católica.

Os cristãos de Iqrit, uma aldeia que fica a norte de Israel, na fronteira com o Líbano, há muitos anos reclamam o direito de retornar à terra natal. Em 1948, Israel solicitou que os 450 moradores deixassem as suas casas por duas semanas, por medida de segurança devido às operações militares no local. Porém, o retorno dos aldeões nunca aconteceu. Em 1951, a Suprema Corte de Israel determinou o retorno dos moradores, mas a decisão não foi cumprida pelo Estado e, meses depois, toda a aldeia foi destruída pelas Forças de Defesa de Israel, restando apenas a Igreja de Iqrit e o cemitério. A população católica de Iqrit e de uma aldeia vizinha, Kufr Birim, escreveu uma carta ao Sumo Pontífice pedindo a sua intervenção junto ao Estado israelense para que seja reestabelecida a justiça e que possam retornar às terras de origem[11].

A Igreja de Iqrit, para além de um templo religioso, é o símbolo da memória e da resistência de um povo que clama por justiça. No âmbito político das negociações, o Papa Francisco abriu a possibilidade para uma nova tentativa de paz entre Israel e a Palestina. No final da missa realizada na Praça da Manjedoura, em Belém, o Papa convidou o Presidente de Israel, Shimon Peres, e o Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, para “orarem pela paz”, tendo aberto as portas do Vaticano para receber os dois líderes. O convite foi aceito por Peres e Abbas[12], o que possibilita a reabertura de um novo processo de paz.

O encontro de Shimon Peres e Mahmoud Abbas, no Vaticano, está previsto para junho, mas a data ainda não foi acertada[13]. De certo modo, isto significa um avanço, principalmente entre Israel e o Vaticano, cujas relações diplomáticas foram estabelecidas em 1994, durante o pontificado do Papa João Paulo II[14]. A visita do Papa Francisco à Terra Santa, além de ter contribuído para o reforço da presença católica no Oriente Médio, reabriu os caminhos do diálogo israelo-palestino, interrompido com o final das negociações de paz em abril passado[15].

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Imagem Papa Francisco no Muro das Lamentações – Jerusalém” (Fonte):

http://timedotcom.files.wordpress.com/2014/05/pope_mideast.jpg?w=1100

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.590566

[2] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/05/18/actualidad/1400441159_190909.html

[3] Ver:

http://www.haaretz.com/opinion/.premium-1.590027

[4] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/05/18/actualidad/1400441159_190909.html

[5] Ver:

https://ceiri.news/crimes-de-odio-ensombram-visita-papa-terra-santa/

[6] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.591298

[7] Ver:

http://www.haaretz.com/travel-in-israel/religion-relics/pope-holy-land-visit/.premium-1.591298

[8] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/The-message-of-Christ-is-still-alive-in-Bethlehem-353278

[9] Ver:

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/05/papa-francisco-termina-viagem-cheia-de-surpresas-pela-terra-santa.html

[10] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/The-message-of-Christ-is-still-alive-in-Bethlehem-353278

[11] Ver:

http://www.maannews.net/eng/ViewDetails.aspx?ID=698930

[12] Ver:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?tl=1&id=1471325&tit=Israelenses-e-palestinos-aceitam-convite-do-Vaticano

[13] Ver:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?tl=1&id=1471325&tit=Israelenses-e-palestinos-aceitam-convite-do-Vaticano

[14] Ver:

http://www.cbnfoz.com.br/editorial/mundo/27042014-130850-popular-papa-joao-paulo-ii-deixou-a-igreja-catolica-simpatica-aos-fieis

[15] Ver:

https://ceiri.news/israel-suspende-negociacoes-com-palestinos-apos-acordo-entre-o-fatah-e-o-hamas/