AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Retrospectiva e pontos sensíveis do MERCOSUL

O marco inicial do MERCOSUL foi a assinatura do “Tratado de Assunção”, em 1991, realizado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Os  seus preparativos  começaram em 1988 com a assinatura do “Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento entre Brasil e Argentina”, os quais passavam por um momento de liberalismo econômico e democratização. Este Tratado ajudou a criar um momento político favorável para a constituição do futuro bloco sul-americano com o compartilhamento de cadeias produtivas, aumento da densidade comercial e harmonização aduaneira.

Em 1990 foi assinada a “Ata de Buenos Aires” que se refere às negociações primárias do MERCOSUL entre Brasil e Argentina. Um ano mais tarde, o Uruguai e Paraguai entraram na rodada de negociação e o “Tratado de Assunção” foi assinado pelos  Estados-Partes em  26 de março de 1991. Este Tratado previa a implantação do “Mercado Comum do Sul” a partir de 31 de dezembro de 1994, através de um programa de liberação comercial com redução tarifária, linear e automática. As restrições não-alfandegárias também seriam eliminadas aos poucos.

O período de ouro de MERCOSUL foi de 1991 a 1998, quando as exportações e importações intra-bloco aumentaram exponencialmente. Desta maneira, a “América do Sul” emergiu como espaço privilegiado da política externa brasileira para sua corrente comercial. Nesse período, a Argentina, nossa principal parceira comercial, passara por um período de privatizações e o Brasil por um período de instabilidade política devido ao impeachement do presidente Fernando Collor.

Após 23 anos do nascimento do Bloco, ele ainda apresenta problemas estruturais e atualmente é classificado como “União Aduaneira”, ou seja, como uma integração comercial, não apenas do ponto de vista do livre comércio (fim gradual das barreiras tarifárias), mas também com adoção de uma tarifa externa comum (TEC), que deveria ser implementada em 1997. Na prática, a TEC existe, mas também existe uma lista de exceções. Desta forma, o MERCOSUL é considerado uma “União Aduaneira” incompleta ou imperfeita porque a TEC apresenta uma lista de exceções ao programa de liberalização para produtos considerados sensíveis onde derivou a maioria dos problemas enfrentados pelo Bloco.

O MERCOSUL passou por várias crises, desde crises internacionais, que afetaram o comércio internacional de uma forma geral, até  crises intra-bloco  decorrentes de problemas na arena política e econômica de cada membro. O desempenho das duas maiores economias do MERCOSUL (Brasil e Argentina) indica que as mesmas enfrentaram ciclos invertidos de crescimento econômico. Cumpre assinalar que em sete anos (1991-93, 1995, 1998, 1999 e 2000) esse mesmo padrão foi observado. Três deles (1995, 1998 e 1999) estiveram diretamente relacionados à instabilidade no sistema financeiro internacional e às suas consequências para as economias de ambos países, enquanto os demais podem ser atribuídos a diferentes condições macroeconômicas domésticas e a desequilíbrios microeconômicos[1].

Na esfera global, o MERCOSUL representa uma tentativa de estabelecer laços permanentes de colaboração entre as nações, entretanto, os principais problemas a serem vencidos não se situam na órbita geopolítica, mas sim no terreno da geoeconomia e se manifesta em propostas distintas quanto às formas de inserção das respectivas economias nacionais na economia mundial[2].

Hoje, os principais pontos sensíveis do Bloco são de origem política e econômica. O MERCOSUL negocia um “Acordo de Livre Comércio” com a “União Europeia” e ambos os grupos devem apresentar uma proposta formal para a construção do Acordo a fim de aumentar a corrente de comércio. “L’Agence France-Presse” (AFP)[3] publicou que a proposta do MERCOSUL está mais adiantada que a europeia. A princípio, os dois Blocos deveriam apresentar as propostas até dezembro de 2013, porém acabou não saindo do papel e solicitaram prorrogação de prazo.

O chanceler uruguaio Luis Almagro afirmou para o jornal AFP: “o Mercosul já trabalhou muito uma oferta conjunta, analisamos os diferentes cruzamentos, há muito trabalho técnico, esperamos que em janeiro a UE também possa ter sua oferta e nós possamos consolidar a nossa[3]. Segundo o próprio jornal, os países sul-americanos trabalham agora para conseguir uma oferta tarifária conjunta para apresentar à UE e a proposta apresentada pela Argentina é muito menos ambiciosa que a do restante dos países do Bloco[3].

O primeiro ponto sensível que afeta de maneira direta ou indireta a saúde do MERCOSUL está relacionado às medidas adotadas pela Argentina que tenta proteger a sua economia que não está bem. O Governo brasileiro, apesar disso, declarou que não pensa em excluir a Argentina da negociação entre o MERCOSUL e a “União Europeia” (UE). O ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega declarou no dia  23 de janeiro de 2014, em Davos, na Suíça, durante o “Fórum Econômico Mundial”: “não pensamos em excluir a Argentina dessa negociação….queremos trazer a Argentina a esse tratado[4] e, além disso, “parece que há reações positivas na Argentina[4] diante da possibilidade de fechar o acordo entre a UE e o MERCOSUL.

O motivo da não exclusão da Argentina na negociação está nas normativas do MERCOSUL que obrigam os países a negociar acordos comerciais em conjunto. Porém, a falta de ajustes jurídicos para resolver os problemas internos impede que as divergências entre os seus membros sejam resolvidas de uma forma rápida.

O segundo ponto sensível, é a desvalorização da moeda argentina frente ao dólar, que, segundo a “Agência do Senado[5], em artigo publicado no dia 24 de janeiro de 2014, já chegou a 23% e o Governo, para restringir a fuga de dólares do país, limitou as compras pela internet em sites estrangeiros a duas vezes ao ano e a US$ 25 por compra, sem cobrança de imposto alfandegário. A preocupação do lado brasileiro em relação a esta desvalorização é que ela pode atrapalhar a corrente de comércio entre o Brasil e a Argentina, que é a principal parceira comercial dos brasileiros dentro do Bloco.

O terceiro ponto sensível é que a Argentina proibiu o transporte de cargas e mercadorias para os portos uruguaios[6]. A medida tomada pelo Governo Kirchner foi interpretada como uma retaliação à decisão de Montevidéu de incrementar a produção de uma indústria de celulose que levou os dois países a solicitar o julgamento da “Corte Internacional de Justiça de Haia” (CIJ). A decisão de “Buenos Aires” causa prejuízos milionários ao “Porto de Montevidéu”. Apesar de Mujica reconhecer que as relações entre o Uruguai e a Argentina estão travadas, ele reafirmou sua vontade de retomar o diálogo com a presidente Cristina Kirchner[6].

Enfim, o MERCOSUL vive um estado de estagnação sem avanços comerciais relevantes devido aos problemas econômicos e políticos que cada membro enfrenta. Além disso, as classes empresariais sentem que perdem mercado e desejam o retorno do período de ouro do MERCOSUL. Observadores esperam que o Bloco saiba contornar as crises atuais, além disso, que a finalização do “Tratado de Livre Comércio” com a “União Europeia” traga benefícios para as economias do “Bloco Econômico”.

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Imagem (Fonte):

http://www.camara.gov.br/mercosul/outros/historico.htm

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Fontes consultadas:

[1] Ver – VAZ, Alcides Costa. “MERCOSUL aos dez anos: crise de crescimento ou perda de identidade?”. In: Rev. bras. polít. int., Brasília, v. 44, n. 1, June 2001.

[2] Ver – EGLER, A.G. Claudio. Integração Econômica e Redes Logísticas no Cone

Sul. Universidade de Brasília, pg. 312-326. 2001. Disponível em:

http://egler.net/index.php/ensitec?view=publication&task=show&id=10

[3] Ver:

http://br.noticias.yahoo.com/uruguai-mercosul-adiantado-ue-elabora%C3%A7%C3%A3o-ofertas-tlc-203539447–business.html

[4] Ver:

http://br.noticias.yahoo.com/brasil-39-pensa-excluir-39-argentina-tlc-mercosul-201541333–finance.html

[5] Ver:

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2014/01/24/brasil-deve-rever-politica-externa-e-dependencia-do-mercosul-diz-ferraco

 [6] Ver:

http://www.portugues.rfi.fr/americas/20140111-mujica-propoe-reformas-juridicas-no-mercosul

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O Affair Dieudonné: entre a liberdade de expressão e o antissemitismo

Em dezembro de 2013, depois de marcar um gol pelo time de futebol inglês “West Bromwich Albion”, o artilheiro Nicolas Anelka correu para a comemoração executando um gesto curioso. O braço esquerdo dobrado na altura do peito, deixava a mão aberta sobre o antebraço direito. O braço direito por sua vez, se encontrava esticado e apontado para baixo[1].

Logo surgiu na mídia a acusação de que o gesto era a “quenelle”, um gesto alegadamente antissemita que se tornava cada vez mais popular na França. Meios de comunicação descreviam o gesto como “uma saudação nazista invertida” e a Ministra do Esporte, Valerie Fourneyron condenou o ato como um gesto antissemita nojento”. Respondendo aos críticos, Anelka declarou que: “-É claro que não sou racista ou antissemita e assumo a responsabilidade pelo meu gesto. O significado da quenelle é ser anti-sistema. Não sei o que religião tem a ver com essa história. É uma dedicatória para Dieudonné[2].

Dieudonné é o nome de palco de Dieudonné M’bala M’bala, um comediante que ganha cada vez mais espaço na mídia francesa devido a seu comportamento controverso e declarações polêmicas. Nascido de mãe francesa e pai camaronês, Dieudonné ficou famoso durante os anos 1990 por seus shows de stand-up comedy com o comediante judeu Elie Semoun. Nos espetáculos, a dupla parodiava a vida nos subúrbios das grandes cidades francesas, geralmente passando pela crítica ao racismo e extremismo presentes na sociedade francesa. Sempre com um humor bastante ácido e umas doses de insultos mútuos à guisa de piada, Semoun e Dieudo (apelido comumente usado para se referir ao comediante) conduziram shows por toda a França até um abrupto rompimento por volta de 1997. Dieudonné continuou uma carreira solo de ator em filmes e debutou na política em um partido de extrema-esquerda. Seu ativismo político em favor dos imigrantes ilegais na França lhe rendeu o título honorário de “Embaixador da Boa Vontade na Luta contra o Racismo”, concedido pelas “Nações Unidas[3].

Durante a “Segunda Intifada” (2000-2005), o levante popular palestino contra a ocupação israelense, as visões do comediante passaram de críticas irônicas ao racismo para declarações cada vez mais agressivas e preconceituosas contra judeus. Em entrevista para uma revista de Lyon, declarou que: “-Pra mim os judeus são uma seita, um bando de escroques. É mais grave porque eles são os primeiros [escroques][4]. Pouco após, em dezembro de 2003 no programa de debates “On ne peut pas plaire tout le monde” (“Não se pode agradar a todos”), Dieudonné se apresentou vestido como um judeu ortodoxo mascarado pedindo que a “juventude se convertesse ao eixo do bem, o americano-sionista[5] e terminou a apresentação com uma saudação nazista e com as palavras “Isra-Heil”, ao que recebeu palmas da platéia e um visível desconforto por parte do apresentador do programa[5].

A crescente popularidade do artista passou a incomodar diversos setores da sociedade, principalmente as organizações judaicas. A retórica de Dieudonné sempre se situa nos limites da liberdade de expressão, sempre se defendendo das acusações de antissemitismo com a justificativa de que as críticas são à Israel e não aos judeus. Em outras situações, afirma que sua crítica se dirige contra qualquer particularismo étnico, mas vai juntamente com a tradição da “Revolução Francesa” e do Iluminismo, cuja base filosófica de laicismo republicano considera todos iguais no espaço público, sendo a confissão religiosa reservada ao espaço particular de templos religiosos e residências[6].

Todavia, segundo o pesquisador do Centre National de la Recherches Scientifiques”. Pierre-André Taguieff, especialista em antissemitismo, as razões do humoristas são muito mais profundas. Dieudonné representa na visão de Taguieff uma transformação do antissemitismo na França que agora seria um misto de propaganda anti-israelense propagada pela projeção da questão palestina após a Guerra dos Seis Dias e intensificada durante a Segunda Intifada”. O alcance de material antissemita divulgado pela internet também seria um catalisador de ódio contra o “judeu imaginário” – apresentado como “dono do mundo”, “controlador da oligarquia financeira” criando uma imagem que agrada aos simpatizantes do antissionismo e aos anticapitalistas radicais, assim como os antissemitas da direita ultranacionalista[7].

Em um país com um passado complicado em relação aos judeus e aos negros (e outras minorias oriundas dos Departamentos d’Além-Mar, antigas colônias francesas), a posição de Dieudonné se torna especialmente mais delicada.

O trauma da ocupação alemã e do Governo colaboracionista do Maréchal Pétain, sediado em Vichy são frequentes no debate público francês. Em contraposição à celebração pública dos maquisards (os guerrilheiros que resistiram contra a ocupação nazista), as deportações em massa de judeus para os campos de extermínio figuram como um passado a ser rememorado com pouco orgulho pela República francesa. Episódios como a Rafle du Vélodrome d’Hiver (“Ajuntamento do Velódromo de Inverno, em 16 e 17 de julho de 1942) em que quase quatorze mil judeus foram detidos e confinados em um velódromo pela tropa de choque nazista em conjunto com policiais locais, para serem deportados para Auschwitz-Birkenau, indicam o desconforto da memória coletiva para com o tema da história dos judeus em França – país com uma população judaica de aproximadamente 500.000 pessoas, a terceira maior do mundo depois de Israel e Estados Unidos[8][9].

Dos negros e outras minorias, o passado colonial francês na “Ilha de São Domingo” (um pólo de exportação de açúcar que em 1789 era mantido pela mão-de-obra de meio milhão de escravos africanos[10]), ou os crimes cometidos contra civis pela “Organization de l’Armée Secrete” na “Guerra na Argélia” (um grupo paramilitar formado majoritariamente por oficiais do exército francês, que era contra a independência argelina[11]), também inquietam a relação do Estado francês com suas minorias. Exemplo de tal ressentimento foi a explosão de violência nas periferias de grandes cidades, ocorrida em 2005. Desencadeadas pela morte de dois adolescentes, jovens de origem árabe, do norte da África, e negros saíram em protesto contra o alto desemprego e a constante violência policial cometida em seus bairros[12].

Mesmo com tantos problemas, Dieudonné conseguiu causar vários outros. Seu apoio veio tanto dos jovens da periferia quanto de diversos setores de classe média. Em 2007, ensaiou uma aproximação com os membros do Front National”, o partido de extrema-direita de Jean-Marie le Pen. Especialistas viram o evento como uma tentativa da direita de conquistar os votos dos insatisfeitos com a situação econômica da França, além de atenuar a imagem do partido como um bastião do tradicionalismo francês que só incluía brancos. Le Pen foi convidado posteriormente para ser padrinho no batismo do filho de Dieudonné.

Em 2008, convidou o negacionista do Holocausto*, Robert Faurisson, para uma de suas apresentações. Nela, lhe concedeu um “prêmio de infrequentabilidade e insolência”, entregue por uma assistente de palco, devidamente trajada com um uniforme listrado de campo de concentração com a estrela amarela[13].

Até o ano passado, Dieudonné realizava seus shows livremente. Próximo ao fim do ano, uma gravação de um de seus shows reacendeu a polêmica. O comediante, se referindo ao radialista Patrick Cohen, disse no palco: “- Quando ouço Patrick Cohen falar, eu penso ‘Ah, as câmaras de gás…que pena’[14]. Tal declaração gerou uma série de denúncias de grupos antirracistas e uma reação veemente por parte do “Ministro do Interior”, Manuel Valls.

Valls declarou que Dieudo já não era mais um comediante mas um antissemita e racista e prometeu que iria agir com autoridades locais para banir suas apresentações. O Ministro fez correr uma circular pelas prefeituras francesas deixando claro que as aparições públicas do, na sua visão, ex-comediante”, seriam tratadas como perturbação da ordem pública”, já que mesmo com o resguardo da liberdade de expressão, as múltiplas infrações penais de Dieudonné justificam uma ação coercitiva por parte das autoridades[15]. Após o cancelamento de um dos espetáculos, Manuel Valls declarou: A República venceu. Não podemos tolerar pregação de ódio ao outro, racismo, antissemitismo ou negação do holocausto. Isso não é a França[16].

Ao fim, o problema perpassa diversos pontos. A condenação de Dieudonné pode elevá-lo a condição de mártir. O fato do mesmo nunca se proclamar antissemita faz com que a proibição de seus espetáculos pareça apenas censura prévia aos olhos de muitos. Isso poderia causar o efeito perverso de confirmar as teses antissemitas de Dieudo. O episódio mostra como a França, considerada um modelo de laicismo e de cultura, sofre com profundos dilemas de como gerir o espaço público face a um multiculturalismo que é desafiado tanto pelo racismo de grupos à extrema direita, quando por atitudes como a de Dieudonné, que colocam outra minoria em uma situação delicada, minando as bases do histórico projeto de integração étnico-cultural da sociedade francesa.

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* Aqueles que negam o Holocausto e se dedicam a tentar provar a sua inexistência são também conhecidos como Revisionitas.

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ImagemDieudonné faz a ‘quenelle’” (Fonte):

http://www.directmatin.fr/sites/default/files/styles/image_630_315/public/dieudonne_quenelle_0.jpg

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Fontes consultadas:
[1] Ver
:

http://www.theguardian.com/football/2014/jan/21/nicolas-anelka-long-ban-if-guilty-antisemitic-gesture

[2] Ver:

http://www.bbc.com/sport/0/football/25537686

[3] Ver:

http://www.newyorker.com/reporting/2007/11/19/071119fa_fact_reiss?currentPage=all

[4] Ver:

http://www.lexpress.fr/actualite/societe/dieudonne-juge-raciste-en-cassation_462984.html

[5] Ver:

http://www.youtube.com/watch?v=xD2jxKThlDk

[6] Ver:

http://www.newyorker.com/reporting/2007/11/19/071119fa_fact_reiss?currentPage=all

[7] A “Guerra dos Seis Dias” (1967) é lembrada como a Guerra em que Israel tomou a Cisjordânia e a “Faixa de Gaza”, além de “Jerusalém Oriental”. Ver em:

http://www.jolpress.com/affaire-dieudonne-symptome-nouvel-antisemitisme-pierre-andre-taguieff-article-823876.html

[8] Ver:

http://www.massviolence.org/The-Vel-d-Hiv-round-up;

O Affair Dreyfuss, ocorrido no final do século XIX, também é um evento digno de nota na memória judaica na França, ver em:

http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/anti-semitism/Dreyfus.html

[9] Ver:

http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Judaism/jewpop.html

[10] Ver:

http://www.globalresearch.ca/france-and-the-history-of-haiti/17130

[11] Ver:

http://www.lematindz.net/index.php?news=126&ric=405

[12] Ver:

http://www.democracynow.org/2005/11/3/headlines#transcript

[13] Ver:

http://obsession.nouvelobs.com/people/20080716.OBS3105/le-pen-confirme-etre-parrain-d-un-enfant-de-dieudonne.html

[14] Ver:

http://tempsreel.nouvelobs.com/culture/20081229.OBS7587/dieudonne-faurisson-le-parquet-de-paris-ouvre-une-enquete-preliminaire.html

[15] Ver:

http://www.france24.com/en/20131227-dieudonne-france-famous-french-comic-show-could-be-banned-anti-semitic-content/

[16] Ver:

http://www.youscribe.com/catalogue/tous/actualite-et-debat-de-societe/la-circulaire-de-valls-aux-prefets-2379332;

Ver também:

http://www.newyorker.com/online/blogs/comment/2014/01/the-case-of-dieudonne-a-french-comedians-hate.html

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A crise humanitária na Síria e os refugiados palestinos

A expressão “crise humanitária” costuma ser frequentemente usada pela mídia e por acadêmicos sem, no entanto, haver muita preocupação em defini-la. Essa banalização do termo produz um resultado paradoxal à sua causa: por um lado, é referido indiscriminadamente justamente por ser entendido como senso comum; em contrapartida, sua atribuição a contextos tão diferentes, da Haiti à Síria, acaba por esvaziar seu significado.

De acordo com a “Humanitarian Coalition”, uma coalizão das agências canadenses líderes em provisão de ajuda humanitária, “crise humanitária” deve ser entendida como “um evento ou uma série de eventos que representam uma séria ameaça para a saúde, a segurança ou o bem-estar de uma comunidade ou de outro grande grupo de pessoas, geralmente em uma área ampla[1].

Além disso, a coalizão reconhece três tipos de crises humanitárias: (i) aquelas provocadas por desastres naturais; (ii) as provocadas por desastres provocados pelo homem (o que inclui conflitos, mas também compreende acidentes industriais, incêndios e acidentes de trem e avião); e (iii) emergências complexas. Emergências complexas se caracterizam por um estado de coisas em que determinada comunidade se vê impedida de satisfazer suas necessidades básicas, “como água, comida, abrigo, segurança ou assistência médica[1].

A crise síria se enquadra no terceiro padrão, i.e., trata-se de uma “emergência complexa”. Ainda assim, a fim de evitar a mera substituição de um termo de significado esvaziado, como “crise humanitária”, por outro, “emergência complexa”, é preciso caracterizar a situação do país de forma mais específica.

De acordo com o site do “Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários” (OCHA, na sigla em inglês)[2], o conflito levou a mais de 100 mil mortos (segundo a agência de notícia Reuters[3], esse número chegava a 126 mil em dezembro de 2013). Ainda conforme a OCHA[2], a Síria conta com 9,3 milhões de pessoas que necessitam de assistência, 4 milhões em necessidade de comida e com 6,5 milhões de deslocados internos – isto é, aqueles que foram forçados a deixar seu lugar de origem, mas que, por não terem cruzado as fronteiras do país, não podem ser considerados refugiados. 

A grave situação enfrentada no país obriga muitos a buscarem refúgio nos países vizinhos Iraque, Jordânia, Líbano e Turquia, e no Egito, totalizando atualmente 2.406.680 refugiados, de acordo com o “Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados” (UNHCR, na sigla em inglês)[4].

Os fluxos de refugiados são talvez o reflexo mais claro do transbordamento da “crise humanitária” na Síria para esses outros países da região, que passam a receber atenção especial de agências das “Nações Unidas” e ONGs internacionais. Conforme tratado em notas analíticas anteriores do “CEIRI NEWSPAPER[5][6], o número exorbitante de refugiados sobrecarrega os recursos públicos e a infraestrutura dos países acolhedores.

No entanto, nem todos os refugiados que compõem esses fluxos são sírios, embora sejam provenientes da Síria. Segundo a “Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente” (conhecida em inglês como UNRWA), há, na Síria, 540 mil refugiados palestinos em necessidade de assistência. Chamados “Refugiados Palestinos Provenientes da Síria” (PRS, na sigla em inglês), 51.300 deles fugiram para o Líbano e 10.687, para a Jordânia[7].

De acordo com o acadêmico Omar S. Dahi, professor na “Universidade de Hampshire” e pesquisador visitante do think tank “Carnegie Middle East Center” (CMEC), em Beirute, esse fluxo se deveu em grande parte a destruição do campo de Yarmouk, em Damasco. Embora não fosse um campo de refugiados oficial, Yarmouk abrigava cerca de 150 mil palestinos; em setembro de 2013, esse número havia caído para menos de 20 mil[8].

Como explica Dahi[8], a maioria dos refugiados palestinos se situa no sul da Síria, o que inviabiliza a Turquia como um novo destino para refúgio. Dentre as opções ao sul, o Iraque não era uma opção de retorno, posto que foram forçados a deixar o país após a queda de Saddam Hussein, cuja ajuda no passado se tornou, então, motivo de hostilidade. A Jordânia se tornou uma destinação complicada após o governo jordaniano ter anunciado, no início de 2013, uma política de não-entrada a palestinos tentando escapar do conflito sírio[9].

Enquanto esse contexto nos permite entender o número não tão elevado de PRS na Jordânia, também justifica a intensidade do fluxo de palestinos em direção ao Líbano, que acabou se tornando a opção restante e, no entanto, como defende Dahi[9], a pior possível.

Como já mencionado em nota analítica passada[10], a experiência histórica do Líbano com refugiados palestinos contribuiu para a formação de certo trauma em relação ao acolhimento de refugiados, o que afeta, atualmente, a recepção de refugiados sírios como um todo, mas que, evidentemente, se dá mais intensamente em relação aos PRS.

A primeira entrada de refugiados palestinos no Líbano ocorreu em 1947-48, em decorrência do primeiro conflito árabe-israelense. A segunda onda de refugiados veio após a guerra de 1967[11]. Com isso, o envolvimento libanês no conflito árabe-israelense ganhou um “encarnação física”, enquanto milícias palestinas (as fida’iyin) se estabeleciam no sul do Líbano e começavam a lançar seus ataques contra Israel, desencadeando uma resposta militar israelense de retaliações que escalou para “ataques preventivos[12].

Apesar cumplicidade inicial do governo libanês com o estabelecimento das fida’iyin no sul do país, a resposta agressiva do Exército israelense mudou essa política[13], pois sua presença passara a ser vista como uma ameaça à segurança.

No final da década de 60, enquanto as fida’iyin se tornavam mais poderosas e a “Organização para a Libertação da Palestina” (OLP) adquiria maior influência financeira e política, a sociedade libanesa estava muito polarizada. Em termos gerais, de um lado, sunitas e xiitas defendiam o apoio político e militar aos palestinos; do outro, cristãos nacionalistas percebiam sua presença, assim como a influência da OLP, como uma “ameaça a própria existência do Líbano[14].

Essas tensões serviram de base às que iniciaram e perduraram durante a guerra civil no país, que durou de 1975 a 1990. Mais relevante ainda, esses acontecimentos levaram a construção de uma memória coletiva libanesa que atribui, em grande parte, aos refugiados palestinos a culpa pela guerra. Embora essa visão da história fosse inicialmente adotada pelos cristãos maronitas, aos poucos acabou sendo “igualmente partilhada por parte dos grupos xiita e sunita[15].

Nas palavras de membro do “Movimento Patriótico Livre”, partido político do Líbano, a respeito dos palestinos que entraram no país nos anos 1960: “No início, os palestinos eram poucos, a sua presença era para ser temporária. 65 anos depois, eles ainda estão aqui. De grupo pacífico fugindo da violência eleitoral em fuga, eles se tornaram um grupo beligerante, e, como resultado, nós passamos por 15 anos de uma guerra civil destrutiva. Como podemos garantir que a história não vai se repetir?[16].

Essa visão também está presente no vídeo “Antes que seja tarde[17], veiculado no canal YouTube no início desse ano, reforçando a ideia da culpa palestina pela guerra civil e associando aquela situação com o atual fluxo de refugiados em direção ao país[18].

A hostilidade libanesa para com os refugiados sírios, observada em relatório da ONGInternational Crisis Group[16], caracteriza também a relação com os PRS. Os “Refugiados Palestinos Provenientes da Síria” são vistos como um fardo pelas comunidades anfitriãs. Como nos conta Omar Dahi[8], em depoimento ao pesquisador, uma mulher palestina afirmou que preferia voltar para a Síria assim que a guerra acabasse do que ficar no que considera ser uma situação humilhante, mesmo que isso significasse “armar uma tenda e dormir entre as rochas e escombros de nossa antiga casa[8].

O UNHCR estima que o Líbano terá em seu território cerca de 100 mil refugiados palestinos provenientes da Síria[19]. Como observa Dahi[8], a ênfase do novo “Plano Regional de Resposta” à (crise) Síria no desenvolvimento humano e econômico se destina a atenuar as tensões entre comunidades acolhedoras e de refugiados. A única forma de garantir melhores relações entre essas comunidades é reconhecer que ambas estão vulneráveis; nesse sentido, o caráter desenvolvimentista contribui para que os anfitriões libaneses sintam algum valor na presença de refugiados que beneficie a comunidade em uma perspectiva de longo prazo.

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ImagemEm azul, refugiados palestinos em fins de 2013; em vermelho, estimativas para o fim de 2014” (Fonte):

http://www.unrwa.org/sites/default/files/syria_appeal_0.pdf

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://humanitariancoalition.ca/info-portal/factsheets/what-is-a-humanitarian-crisis

[2] Ver:

http://syria.unocha.org/

[3] Ver:

http://www.reuters.com/article/2013/12/02/us-syria-crisis-toll-idUSBRE9B10ES20131202

[4] Ver:

http://data.unhcr.org/syrianrefugees/syria.php

[5] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/a-crise-de-refugiados-da-siria/

[6] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/refugiados-da-guerra-na-siria-numero-crescente-e-condicoes-alarmantes/

[7] Ver:

http://www.unrwa.org/what-we-do/emergencies

[8] Ver:

http://carnegieendowment.org/2014/01/03/syria-in-fragments-politics-of-refugee-crisis/gyen

[9] Ver:

http://www.unrwa.org/prs-jordan

Ver Também:

https://www.amnesty.org/en/news/jordan-s-restrictions-refugees-syria-reveal-strain-host-countries-2013-10-31

[10] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/refugiados-sirios-no-libano-pais-dos-cedros/

[11] Abi-Ezzi, Karen (2008). “Lebanon: Confessionalism, Institution Building, and the Challenges of Securing Peace”. In: Baldwin, Nicholas D. J.; Shields, Vanessa E.. Beyond Settlement: Making Peace Last after Civil Conflict. Cranbury: Associated University Presses, p. 161.

[12] Traboulsi, Fawwaz (2007). A History of Modern Lebanon. London: Pluto Press, p. 152.

[13] Ibid., p. 153.

[14] Halabi, Zeina (2004). “Exclusion and identity in Lebanon’s Palestinian refugee camps: a story of sustained conflict”. Environment and Urbanization, v.16, no. 2, pp. 39-48, p. 40.

[15] Hudson, Michael C. (1997). “Palestinians and Lebanon: The Common Story”. Journal of Refugee Studies, v.10, no.3, pp. 243-260, p. 252.

[16] International Crisis Group (2013). “Too Close For Comfort: Syrians in Lebanon”. Middle East Report no. 141, em:

http://www.crisisgroup.org/~/media/Files/Middle%20East%20North%20Africa/Iraq%20Syria%20Lebanon/Lebanon/141-too-close-for-comfort-syrians-in-lebanon.pdf, p. 15.

[17] Ver:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=0aUTu96sFec#!

[18] Ver KHAWAJA, Bassam (2011). “War and Memory: The Role of Palestinian Refugees in Lebanon”. Honors Projects. Paper 13, p. 4, em:

http://digitalcommons.macalester.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1012&context=history_honors

[19] Ver UNHCR. (2014) Syria Regional Response Plan: Lebanon, em:

http://www.unhcr.org/syriarrp6/docs/syria-rrp6-lebanon-response-plan.pdf, p. 2.


AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

As relações entre Alemanha e Estados Unidos, pós Snowden

A partir da segunda metade do século XX o percurso histórico das relações bilaterais entre a “República Federal da Alemanha” e os “Estados Unidos da América (EUA) passou de conflituosa para amistosa e convergente.  Ao ponto de alguns analistas considerarem o “Plano Marshall” promovido pelos EUA, no final da década 1940, como uma das principais medidas que levaram a Alemanha a se tornar um gigante econômico na atualidade[1].Esse e tantos outros acordos políticos e econômicos fizeram com que o “Estado alemão” constantemente se colocasse ao lado dos norte-americanos. A exceção ocorreu há mais de uma década quando o ex-premiê alemão Gerhard Schröder posicionou-se contrário à invasão do Iraque[2], indicando divergências nos posicionamentos entre os dois países. Se, na época, esse fato balançou as relações, no presente as mesmas encontram-se num estágio muito pior que há dez anos, devido à onda de revelações acerca da espionagem praticada contra os cidadãos alemães, mais particularmente sobre Angela Merkel, “Chanceler da Alemanha”.

Dessa forma, quando Edward Snowden, ex-técnico terceirizado da “Agência de Segurança Nacional” (NSA, sigla em inglês) revelou documentos que indicavam que a chanceler do governo alemão era espionada desde 2002, bem como que a mesma teve seu telefone celular grampeado pela NSA[3], novamente uma forte tensão surgiu entre os dois países, ao ponto de a própria Angela Merkel exigir explicações quando telefonou para Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos”. Além disso, Merkel já havia anunciado publicamente sua indignação com o ocorrido ao afirmar que “amigo não espiona amigo[4].

Em contrapartida, e com a finalidade de assegurar a Alemanha como aliada, o presidente Obama garantiu a Merkel que o seu governo não a estava vigiando e destacou que, enquanto for “Presidente dos Estados Unidos”, a “Chanceler Alemã” não terá de se preocupar com espionagem[5]. Em defesa do “Governo norte-americano”, John Kerry, “Secretário de Estado dos EUA” argumenta que apesar das tensões ocasionadas pelas acusações de espionagem, os dois países mantém uma relação forte[6]. Na época do telefonema, em meados de outubro de 2013, Angela Merkel assinalou que se ficasse comprovado que o Governo estadunidense realmente espionou seu governo, isso representaria uma falta grave, ou seja, um duro golpe na confiança entre os dois Estados[7]. Por fim, esse pronunciamento foi interpretado pelos “Estados Unidos como sinal de alerta no que tange às relações germano-americanas.

Nesse sentido, segundo Philipp Missfelder, “porta-voz de política externa dos democrata-cristãos (CDU) do Parlamento alemão”, 2003 é visto como um marco negativo nas relações entre Alemanha e EUA. Contudo, Missfelder pontua que “se olharmos para a situação atual de perda de confiança, o quadro não é melhor do que naquela época. De fato, provavelmente é pior, pois essa questão está preocupando as pessoas por mais tempo e mais intensamente do que a invasão do Iraque[8]. Assim, em resposta a tais desdobramentos, os dois países iniciaram negociações sobre o estabelecimento de um “Acordo de Não Espionagem que visa coibir a vigilância entre aliados.  

O “Governo Alemão dimensionou algumas exigências para a construção de uma nova jornada nas relações entre os dois Estados, o primeiro, como já mencionado, é o Acordo de Não Espionagem”, de caráter mútuo. Além disso, o fim das escutas direcionadas para políticos específicos e, ainda, a forma como os EUA utilizam a maior parte dos metadados que vem armazenando[9]. No entanto, caso não se estabeleça um “Acordo de Não Espionagem”, Missfelder assinala que possivelmente a Alemanha apoiará a suspensão dos “Estados Unidos” ao acesso ao Swift, banco de dados financeiros mundial[10].

Esses posicionamentos apontam que o diálogo entre os dois países caminha de forma frágil, uma vez que os “Estados Unidos” são pressionados internamente para manter “políticas de segurança”, enquanto que a Alemanha é pressionada pela população e pelos partidos para cobrar o fim da espionagem. Todavia, na última sexta-feira, 17 de janeiro de 2014, Obama anunciou algumas medidas para o início das reformas na NSA, visando garantir a harmonia nas suas relações externas.

Essa reforma é uma resposta igualmente à ação do Brasil (que também teve sua “Chefe de Estado”, a presidente Dilma Rousseff espionada) e da Alemanha por entregar uma minuta de Resolução para a “Comissão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas” (ONU), pedindo o fim da vigilância eletrônica excessiva, da coleta de dados e da abusiva invasão de privacidade, no início de novembro de 2013[11]. Desse modo, enquanto a Alemanha mantém o discurso de cobrança, os “Estados Unidos” tentam minimizar as consequências políticas geradas pelas revelações de Snowden. Algo ressaltado no pronunciamento feito por Barack Obama, na última sexta-feira, dia 17 de janeiro, quando declarou: “os líderes de nossos países amigos e aliados merecem saber que, se eu quiser saber o que eles pensam de um assunto, eu vou pegar o telefone e ligar para eles, em vez de recorrer à vigilância[12].

Destarte, durante seu discurso, Barack Obama elencou uma série de medidas a fim de reformar os sistemas de monitoramento empregados pela NSA e outras agências de vigilância. Dentre eles, pode-se destacar a proibição desses organismos de monitorar líderes mundiais de países aliados aos EUA. A ação tem como principal interesse reestabelecer a confiança de seus parceiros estratégicos. Outra importante providência refere-se à proteção dos dados e informações privadas de cidadãos estrangeiros. Para isso, o “Presidente Norte-Americano também se comprometeu em buscar uma solução para a prática adotada pela NSA de armazenar metadados.

Com a intenção de fazer valer suas promessas, Obama ordenou que Eric Holder, “Procurador-Geral”, juntamente com a NSA apresentassem soluções para armazenagem dos metadados, num prazo de 60 dias[13]. Nesse âmbito, uma possibilidade especulada seria que as empresas de telecomunicações permanecessem com os dados. Cabe observar, contudo, que, no presente, elas são obrigadas a repassar as informações para NSA ou para uma terceira instância. Nesse novo cenário, a NSA precisaria de uma ordem judicial para acessar tais informações e o Organismo somente poderá vigiar pessoas que tenham relação com supostos terroristas.

Por outro lado, as empresas de telecomunicações resistem em efetuar essas medidas de retenção de dados, em grande parte pela repercussão negativa junto à sociedade. Já Obama afirma essa é uma ação necessária. Além disso, a mesma precisa e deve continuar para que o Estado possa proteger seus cidadãos na contenção de um suposto atentado terrorista. Haja vista que muitos agentes de inteligência e as próprias agências são contrárias às medidas das reformas, Obama assinalou que “a maneira sensacional como essas revelações vieram a público muitas vezes gerou mais calor do que luz, ao mesmo tempo que expôs nossos métodos para os nossos adversários, com um impacto sobre nossas operações que talvez só vamos compreender inteiramente daqui a anos[14].

O Governo alemão recebeu as medidas anunciadas pelo “Presidente Norte-Americano com bons olhos, entretanto, ainda espera a viabilização do “Acordo de Não Espionagem”, que proteja de forma mais contundente seus cidadãos e o próprio Governo. Nesse caso, como afirma Steffen Seibert, “Porta-Voz de Merkel”, o governo alemão ainda acredita que a lei alemã tem de ser respeitada em solo alemão, especialmente por nossos aliados e parceiros mais próximos[15].

Posto isso, observa-se que o discurso proferido por Obama tenta harmonizar um meio termo entre líderes políticos de países aliados e estratégicos na dinâmica da política exterior norte-americana; os ativistas das liberdades civis (para os quais tais procedimentos caracterizam um ato inconstitucional) e a ala considerada conservadora, ligada ao setor de Inteligência e “Defesa Nacional”, a qual alega que a espionagem se faz necessária para combater e/ou prevenir atentados terroristas[16].

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Imagem (Fonte):

http://noticias.band.uol.com.br/mundo/noticia/100000640573/obama-desconhecia-espionagem-a-merkel-garante-diretor-da-nsa.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.dw.de/opini%C3%A3o-%C3%A9-hora-de-os-alem%C3%A3es-dizerem-basta-%C3%A0-espionagem/a-17188048

[2] Ver:

Idem.

[3] Ver:

http://www.dw.de/obama-sabia-de-grampo-em-telefone-de-merkel-afirma-jornal-alem%C3%A3o/a-17186362

[4] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/10/espionagem-entre-amigos-isso-nao-se-faz-diz-merkel-respeito-dos-eua.html

[5] Ver:

http://www.swissinfo.ch/por/internacional_afp/Merkel_nao_deve_se_preocupar_com_espionagem,_diz_Obama.html?cid=37763964

[6] Ver:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/32278/kerry+admite+existencia+de+tensoes+entre+eua+e+alemanha+em+razao+de+espionagem.shtml

[7] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/10/alemanha-convoca-embaixador-dos-eua-por-espionagem-merkel.html

[8] Ver:

http://www.defesanet.com.br/cyberwar/noticia/13863/Espionagem-enfraquece-relacao-EUA-Alemanha-/

[9] Ver:

Idem.

[10] Ver:

Idem.

[11] Ver:

http://www.dw.de/alemanha-e-eua-estudam-acordo-de-n%C3%A3o-espionagem/a-17201694

[12] Ver:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPEA0S2WE20140119

[13] Ver:

http://www.dw.de/obama-imp%C3%B5e-freios-%C3%A0-espionagem-dos-eua/a-17370863

[14] Ver também:

Idem.

[15] Ver também:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?id=1440597

[16] Ver também:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/01/1398970-obama-vai-anunciar-reforma-no-programa-de-espionagem-da-nsa.shtml

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Copa do Mundo 2014: os prós e os contras de sediar o megaevento

À medida que o país se aproxima da realização da “Copa do Mundo FIFA 2014”, inúmeras preocupações e graves desafios sociais têm vindo à tona. As manifestações ocorridas em todo o país no ano passado, quando da realização da “Copa das Confederações”, evento teste e preparatório para a “Copa do Mundo 2014”, ainda se fazem bastante presentes na memória da população brasileira, bem como na mídia internacional, haja vista terem sido acentuadamente divulgadas mundo afora. Outrossim, o fato de o ano de 2014 ser de grande importância para o Brasil, visto ser este um ano de eleições presidenciais, torna a conjuntura ainda mais delicada, o que pode ser mais um fator de preocupação para sociedade brasileira, tendo em vista o descontentamento cada vez mais acentuado de grande parte da população com os problemas sociais existentes e o descaso da classe política para com estes. Eis, então, o cenário que o início de 2014 apresenta.

Por outro lado, é sabido que o império do futebol não conhece limites nem fronteiras e, fruto da expansão capitalista inglesa, este se difundiu de forma a contemplar a totalidade do mundo em que vivemos, sendo, por isso, o esporte mais praticado em todo o planeta. Consequentemente, o futebol se torna um excelente produto, de plena aceitação no mercado e capaz de movimentar um montante de capital sem precedentes. Não pairam dúvidas quanto à indústria do futebol ser uma das mais ricas, empregando, de forma direta e indireta, milhares de pessoas, em um mercado de trabalho cada vez mais diversificado e competitivo. Desta forma, transnacionais como Nike, Adidas e outras empresas que atuam no segmento esportivo auferem ganhos extraordinários na economia mundial e, muitas vezes, chegam a influenciar a política interna dos países nas quais atuam, contando com a anuência das próprias leis nacionais. E não nos esqueçamos do grande aliado do futebol nessa dinâmica: a televisão, que com a difusão das competições futebolísticas contribuiu, decisivamente, para o aumento da rentabilidade do produto futebol.

Nesse contexto, é essencial analisar os possíveis impactos gerados no Brasil por sediar o megaevento, levando-se em consideração que a economia do país apresenta uma grande demanda por investimentos, os quais podem ser fruto de capitais provenientes da indústria futebolística e de outros setores que se desenvolvem por conta da “Copa do Mundo de 2014”, ocasião em que – não apenas durante o período do megaevento mas também desde todos os preparativos para a realização do mesmo – as luzes e holofotes internacionais encontram-se voltados para o país, fato que pode ser positivo ou negativo para o Brasil como um todo. No caso da “África do Sul”, país sede da “Copa do Mundo de 2010”, levantamentos apontam que, apesar desta ter sido a Copa mais lucrativas de todas até o momento, o megaevento gerou um aumento de apenas 0,5% no seu PIB.

Que para projeção da imagem externa de um país os sucessos no campo esportivo são por demais importantes, este é um fato irrefutável. Contudo, cabe aqui discutir se para o país que sedia uma “Copa do Mundo” as vantagens e ganhos daí originados são capazes de suplantar quaisquer problemas que possam vir a surgir e se, realmente, os ganhos econômicos advindos são maiores do que as perdas. Não obstante, deve-se ter em mente que se por um lado, sediar uma “Copa do Mundo” traz investimentos internos, novos empregos, melhorias na infraestrutura do país e crescimento econômico, por outro, cabe não negligenciar o fato de que, na maioria das vezes, este é um projeto que atende, apenas, aos interesses de uma minoria da sociedade, sem levar em conta outras prioridades mais urgentes que são postas de lado. Ademais, cabe ressaltar que o dinheiro público deve, sempre, ser utilizado visando o interesse da coletividade e não aspirações partidárias ou interesses corporativistas. Este questionamento assume grande relevância ao se analisar a realidade brasileira e se atentar para os inúmeros problemas existentes em nosso país, os quais, infelizmente, a maioria dos governantes prefere ignorar, especialmente os relacionados ao déficit habitacional, ao descaso para com a saúde pública, à corrupção, ao baixo nível educacional da população brasileira, à destruição do meio ambiente e a tantos outros problemas que são, sem sombra de dúvida, mais importantes para a população brasileira do que sediar uma “Copa do Mundo de Futebol”. Até porque, salvo em casos especiais, a população comum não terá acesso algum aos estádios que foram construídos ou reformados com parcela substancial de dinheiro público, visto que o valor dos ingressos, por ser extremamente elevado, não cabe no orçamento da grande maioria da população brasileira.

Destarte, o que aqui se procura abordar é se é realmente viável economicamente para o Brasil sediar a “Copa do Mundo de 2014”, conclusão esta que, já antecipando, está longe de unanimidade e, por isso mesmo, torna este um excelente exercício de reflexão. Em primeiro lugar, cumpre registrar que a organização de uma competição esportiva dessa magnitude envolve agentes privados e agentes públicos e, por mais que os lucros provenientes dos recursos econômicos investidos se tornem presentes, estes podem ser destinados apenas aos agentes privados. Feita esta observação, cabe analisarmos alguns aspectos econômicos bastante relevantes que embasam esta reflexão.

Pode-se constatar que, diante de uma “Copa do Mundo”, a construção, a ampliação ou mesmo a remodelação das instalações esportivas se tornam necessárias, impulsionando o setor de construção civil. Desta forma, o país-sede se compromete a cumprir uma série de exigências – o denominado “Caderno de Encargos da FIFA” – as quais são condicionantes para o sucesso da empreitada. São as chamadas obras de infraestrutura. Importante ressaltar que estas obras acabam criando empregos, contribuindo para o aumento da demanda agregada da economia e, de forma clara, impulsionam o crescimento do setor de construção civil. Em contrapartida, na medida em que grande parte do capital a ser investido na ampliação e construção das instalações esportivas é proveniente do setor público e não do setor privado, o dinheiro que poderia ser investido em outras áreas prioritárias é redirecionado para obras de infraestrutura para a “Copa do Mundo”. Em adição, conforme ocorreu na “África do Sul”, com o término da competição muitos se veem diante de instalações que não terão utilidade alguma no futuro, os chamados “elefantes brancos”. Outrossim, tais investimentos em instalações esportivas efetuados pelo governo e a promoção destes acaba por desviar a atenção acerca de outros fatos mais importantes como, por exemplo, políticas sociais. No Brasil, o caso concreto seria a retirada arbitrária das comunidades carentes que vivem nas proximidades do futuro estádio de futebol na localidade de Itaquera, em São Paulo: enquanto são investidos milhões na construção do estádio, a população carente é completamente negligenciada pelo governo.

Ainda tendo como exemplo a realidade da economia brasileira, diversas obras de infraestrutura que vêm sendo realizadas já foram paralisadas devido a suspeitas de superfaturamento, desvio de verbas, greves por melhores condições de trabalho e por graves acidentes. Os próprios estádios que estão sendo construídos ou reformados já ultrapassaram, em muito, o valor inicialmente orçado, sem contar que os gastos efetuados na reforma do “Estádio do Maracanã” possibilitariam construir dois novos estádios de altíssimo padrão mundial na Europa.

Outro ponto a ser considerado é o que diz respeito à afluência de turistas ao Brasil durante a realização da “Copa do Mundo”. Se, por um lado, isto fará com que o setor de turismo seja beneficiado e mais divisas estrangeiras sejam obtidas, por outro, o excesso de demanda ocasionado pelo elevado número de turistas estrangeiros no país poderá provocar uma acentuada alta de preços internos, pressionando a taxa de inflação, no caso de a estrutura econômica do país não ter capacidade para suprir o excesso de demanda gerado. Além do mais, deve-se levar em consideração que esse excesso de demanda pode pressionar positivamente os salários da economia, o que geraria impactos tanto na taxa de inflação quanto na rentabilidade de outros setores da economia.

A se ressaltar, também, que a própria expectativa dos agentes (públicos e/ou privados) com relação aos efeitos econômicos provenientes da competição esportiva pode provocar alterações significativas em algumas variáveis macroeconômicas, tais como o consumo e o PIB. Isso ocorre na medida em que uma visão pessimista acerca do sucesso na organização da competição pode causar um pequeno impacto no consumo, investimento e, consequentemente, no PIB brasileiro, ainda mais tendo em vista ser 2014, por conta das eleições presidenciais, um ano com uma potencial e crescente pressão inflacionária. Adicionalmente, o prestígio que o país adquire ao ser escolhido para sediar a competição pode se tornar, diante de algum problema grave ocorrido no decorrer da mesma, uma propaganda extremamente negativa que, sem embargo, irá causar graves danos à economia deste país.

Por fim – sintetizando esta pequena explanação dos prós e dos contras vivenciados pelo Brasil, sede da “Copa do Mundo de 2014” –,  um quadro no qual se pode identificar alguns aspectos econômicos diretos e indiretos e como estes se apresentam, seja de forma positiva ou negativa, para a economia do país, será por demais pertinente e esclarecedor para a melhor compreensão possível desta análise.

 

ASPECTOS ECONÔMICOS DIRETOS

ASPECTOS POSITIVOS  ASPECTOS NEGATIVOS

 

Construção, ampliação e remodelação de instalações esportivas Altos custos oriundos de tais obras 

Risco de um planejamento inadequado

 

Risco de gerar “elefantes brancos

 

Desvio de atenção e de recursos que deveriam estar sendo direcionados a áreas potencialmente mais prioritárias, como Saúde, Habitação, Saneamento e Educação

Construção e melhorias provenientes de obras de infraestrutura Altos custos oriundos de tais obras, devido a superfaturamentos e desvios de verbas
Aumento da eficiência dos transportes públicos Muitas vezes pode apenas mascarar a realidade corrente
Impulso ao crescimento do setor de construção Risco de alta generalizada dos custos de construção, a qual pode vir a afetar outros setores da economia
Gastos de turistas que adentram o país para a Copa Risco de inflação generalizada se a estrutura econômica do país não suporta, adequadamente, o excesso de demanda ocasionado 

Alteração na agenda de turistas mais frequentes e empresários de outros setores, os quais preferem evitar o excesso de pessoas e os preços excessivamente elevados de hotelaria

Maior entrada de investimentos estrangeiros Condicionantes que atentam contra a soberania do país

 

ASPECTOS ECONÔMICOS INDIRETOS

 ASPECTOS POSITIVOS

 

 ASPECTOS NEGATIVOS
Melhora na expectativa de desempenho econômico Pressão que pode levar governos a mascarar dados econômicos
Aumento da produtividade da economia, gerado pelo sentimento de orgulho nacional e esforços para o sucesso do evento Perda da produtividade da economia durante o evento, em função do excessivo número de feriados
Publicidade do país como destino turístico Alto risco de uma má publicidade no caso de a organização da competição ser um fracasso

Em suma, estes são os aspectos econômicos considerados por parcela significativa de analistas como sendo relevantes para a análise sobre ser economicamente viável ou não a realização de um evento esportivo de tamanha magnitude no Brasil. Cabe analisá-los e refletir sobre a atual situação brasileira.

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ImagemEsta não é a Copa do Mundo que Queremos” (Fonte):

http://espiritosantoturismo.blogspot.com.br/2012_10_18_archive.html

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Fontes consultadas:

ROLDÁN, J. F. Más que Fútbol: Economía y Geopolítica del Mundial de Sudáfrica. In: Revista Forum Doctoral. Número 2. Janeiro/Junho de 2010.

SANTOS, M. A. Esporte e Relações Internacionais: a Diplomacia Futebolística como Ferramenta de Soft Power – o Caso do Brasil. Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGRI/UERJ. Rio de Janeiro: Novembro de 2011.


ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Desafios da Segurança Pública durante dos Jogos Olímpicos em Sóchi

Um mês antes de o presidente da Rússia Vladímir Pútin[1] dar início aos “Jogos de Inverno de Sóchi  de 2014[2], o país lançou “a maior operação de segurança da história olímpica[3]. A entrada de motociclistas é controlada e o acesso à cidade de 350 mil habitantes é proibida aos veículos procedentes do exterior que não tenham uma “autorização especial”. Ressalte-se que a “navegação no Mar Negro” também está limitada[4].

As “Forças de Segurança” foram reforçadas, embora já estivessem presentes em grande número nesta estação balneária localizada entre o “Mar Negro” e as montanhas do Cáucaso. Cerca de 37 mil agentes da Polícia e de unidades do Exército fazem parte da operação para garantir a segurança[5]. As “Olimpíadas de Inverno” vão acontecer entre 7 e 23 de fevereiro, mas as medidas de segurança vão ser mantidas até o dia 23 de março, uma semana depois do final dos “Jogos Paralímpicos”, que ocorrerão entre os dias 7 e 16 de março.

Trata-se do maior evento internacional organizado pela Rússia desde a queda da “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas” (СССР, na sigla em cirílico), em 1991, e um acontecimento ao qual o presidente Vladímir Pútin tem concedido muita importância, já que deseja transformá-lo em uma vitrine para o país. Algumas pessoas já tem chamado essa Olimpíada de “os Jogos de Putin”. Não se pode esquecer que, em 2018, Sóchi  se tornará a cidade-sede da “Copa do Mundo de Futebol da FIFA”.

Por causa do tamanho dos Jogos em Sóchi, muitos analistas fazem comparação com os “Jogos Olímpicos de Munique”, ocorridos no verão de 1972[6]. Naquela época, no entanto, em vez de o Evento ficar na história graças ao seu gigantismo, a Olimpíada foi marcada pela matança de 18 pessoas, entre atletas israelenses, terroristas palestinos e policiais. O responsável pelo acontecimento foi o grupo terrorista palestino denominado “Setembro Negro[7].  Pela primeira vez, o maior evento esportivo do mundo foi paralisado. Cogitou-se suspender os Jogos, mas o “Comitê Olímpico Internacional” (COI) decidiu manter a programação original.



Recentemente, três atentados terroristas aconteceram na cidade de Volgogrado (conhecida como Stalingrado durante a era soviética), a 600 km de Sóchi , entre os dias 15 de outubro e 30 de dezembro de 2013. Até o momento, Dóku Umárov[8], o líder do Дагестанский вилайет (Dagestáni Villayét)[9] foi o único separatista muçulmano que ameaçou os “Jogos de Sóchi”. O temor de novos atentados terroristas transformou a cidade  numa fortaleza, protegida por milhares de policiais e soldados acompanhadas de  medidas de segurança raramente vistas.

Após os ataques em Volgogrado, o presidente Putin afirmou que “aniquilaria todos os terroristas” na Rússia. O deslocamento das “Forças Armadas” e de “Agentes da Inteligência” na região dos “Jogos Olímpicos”, no entanto, prejudicará a “Segurança Pública” em Moscou, São Petersburgo” e outras cidades de um país enorme. As ameaças feitas antes do Evento começarem podem ser só uma “intimidação falsa”, mas é possível ocorrer a realização dos “ataques terroristas em outro(s) lugar(es). Dentre as dificuldades existentes em Sóchi que podem problematizar a “Segurança Pública” podemos destacar: a aproximação do litoral do “Mar Negro”; as rodovias estreitas (feitas na “Era de Stálin”); os engarrafamentos e relevo montanhoso.

A delegação dos “Estados Unidos”, como sempre, será grande. Nesse sentido “a cooperação” entre os serviços federais da inteligência e segurança russas e americanas tornou-se a palavra chave com a finalidade de prevenir atos terroristas e a cooperação entre Rússia e EUA poderia ser mais adequada no caso dosIrmãos Tsarnáevi e das viagens do Tamerlán no Dagestão. James Comey, diretor do Federal Bureau of Investigation” (FBI)[10], declarou estar satisfeito com o nível de interação com as estruturas de segurança da Rússia. Conforme sua afirmação, cerca de duas dezenas de agentes do FBI irão permanecer em Moscou e cerca de mais uma dezena em Sóchi.

A Rússia colocou as forças de segurança em alerta de combate na região de Stavropól, Sul do país, após a descoberta de cinco corpos com marcas de tiros e explosivos. Os corpos foram encontrados em quatro carros em dois bairros diferentes da capital de Stavropol, na região do Cáucaso, onde a Rússia enfrenta a insurgência de militantes islâmicos que ameaçam impedir a realização da Olimpíada.

Um artefato explosivo não identificado também foi encontrado perto de um dos veículos. As regiões de conflito (“Karacháy-Cherkésia” е Kabardíno-Balkária”), são próximas de Sóchi, por isso sobressaltam-se várias dificuldades, as quais podemos citar: 1) a instabilidade e o terrorismo no Cáucaso Norte” que atinge outras regiões (por exemplo, o ataque ao Aeroporto Internacional Domodedovo”, em 2011); 2) o assunto da controvérsia Circassian[11]; 3) a relação bilateral Geórgia-Rússia[12]; 4) a política russa com relação à República Abkházia[13] e 5) a dinâmica no Região de Krasnodár[14].

O primeiro aspecto da Segurança Pública” durante as Olimpíadas é cuidar fisicamente dos civis, esportistas e turistas e o modelo do acontecimento terrorista em Volgogrado, cometido por uma “terrorista suicida” no dia 29 de dezembro de 2013, que detonou uma bomba no posto de controle de armas na entrada da principal estação de trens, é um excelente estudo de caso de como isso poderá ser feito.

Uma das ações possíveis é o estabelecimento de um “Posto de Controle Preliminar” antes do posto ao lado da entrada do metrô, aeroporto, porto, sala, edifício, estádio, arena, pista etc. Assim, o “Espaço da Segurança” será maior do que normalmente, mas as condições nas cidades como Volgogrado obrigam a levar em consideração tais medidas. A finalidade é a prevenção de atentados terroristas e os “danos colaterais” menores. De forma que os únicos ameaçados passam a ser os agentes de segurança, mas esses riscos são inerentes à profissão.

Por sua vez, casos como o segundo atentado em Volgogrado, quando ocorreu um atentado suicida em um ônibus elétrico e foi efetuado por uma mulher-bomba, não oferecem muitas opções, pois a intenção e o lugar de realização de atos terroristas com homens-bomba tendem a ser imprevisíveis. Por isso, apresenta-se como um fator essencial a avaliação do risco de ocorrência de um atentado terrorista e o desenvolvimento continuado da Inteligência Estratégica”.     

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Imagem (Fonte):

http://www.cbc.ca/news/world/sochi-security-the-mystery-group-behind-russia-s-islamist-insurgency-1.2490522

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Fontes:

[1] Ver:

http://putin.kremlin.ru/bio

[2] Ver:

http://www.sochi2014.com/en

[3] Ver:

http://www.fsb.ru/

[4] Ver:

http://www.sochiadm.ru/

[5] Ver:

http://mvd.ru/

[6] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Munich_massacre

[7] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Black_September_%28group%29

[8] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Dokka_Umarov

[9] Ver:

http://vdagestan.com/

[10] Ver:

http://www.fbi.gov/

[11] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Circassian_nationalism

[12] Ver:

http://ria.ru/analytics/20140115/989374999.html

[13] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Abkhazia

[14] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Krasnodar_Krai

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Ver tambémHistory as a Weapon, The Circassian Issue Standing Between Russia and Georgia. 24 september 2011. Sergei Markedonov”:

http://eng.globalaffairs.ru/number/History-as-a-Weapon-15335

Ver também Analysys: Circassian Issue and Abkhazia – Historic Moments and Modern Challenges Circassian Issue and Abkhazia – Historic Moments and Modern Challenges. Written by Arda INAL-IPA”:

http://apsnypress.info/en/analytic/628.html

Ver também “Circassian Issue” in the Information War of Georgia against Russia”:

http://www.peacekeeper.ru/en/?module=news&action=view&id=15187

Ver também Concerns and controversies at the 2014 Winter Olympics”: http://en.wikipedia.org/wiki/Concerns_and_controversies_at_the_2014_Winter_Olympics

Ver também:

http://www.huffingtonpost.com/tag/sochi-olympics-security