ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISCooperação InternacionalDEFESAEUROPAPOLÍTICAS PÚBLICAS

[:pt]Segurança na Europa: uma matéria pendente [:]

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O atentado perpetrado em pleno centro de Londres nas portas do Parlamento Britânico se soma a uma lista trágica de ataques que vem se repetindo em importantes cidades da Europa. Dentre outras, Bruxelas, Paris, Berlim e Nice. A segurança nas principais cidades europeias e as medidas tomadas pelos Estados não foram efetivas no combate ao terrorismo internacional, aumentando os reflexos na opinião pública em relação a temas sensíveis, tais como a migração, o auxílio aos refugiados, o respeito às diversidades cultural e religiosa, e as políticas de segurança pública.

A segurança da Europa sempre foi uma matéria pendente de discussão. O continente nutriu desde a Segunda Guerra Mundial uma forte dependência dos Estados Unidos para proteger a Europa frente as ameaças internacionais. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se transformou na salvaguarda da Europa, embora a participação dos países europeus na manutenção da organização tenha começado a ser questionada na Era Obama – após a Crise Financeira Internacional e a Crise Síria –  e voltado a ser tema de discussão com a gestão de Donald Trump. O mandatário americano mencionou abertamente em redes sociais o débito da Alemanha nesse setor, além de mandar o recado para os demais países da Aliança, o que gerou um alerta na região para que se voltasse a discutir a criação de um Exército Europeu.

A União Europeia trabalhou no projeto de criação de um Exército Europeu, mas as assimetrias entre as suas unidades, a instabilidade política e a crise enfrentada pelos os países do Sul inviabilizaram a concretização do projeto. Atualmente, o mesmo tema voltou a pauta, após o aumento das pressões da OTAN. Por outro lado, embora exista uma Polícia Europeia, a Europol, a mesma não possui a autonomia necessária para garantir a integração dos serviços de segurança pública, nem a capacidade de fazer uso da força coercitiva sem ultrapassar a jurisprudência das próprias polícias locais de cada país.

Mesmo que seja patente a necessidade de discutir a segurança tanto internacional quanto pública na Europa, a situação política do continente e o aumento das divergências colocam em segundo plano a questão da segurança, transladando o mesmo para o âmbito nacional de cada país. Até mesmo o posicionamento da Europa em temas internacionais, como a situação da Síria, diverge de nação para nação, além das políticas de combate ao terrorismo, onde, mesmo havendo uma diretiva comum, cada país aplica-a de forma diferente e toma decisões de maneira autônoma.

O terrorismo é como uma quimera, possui diversas faces e se expande pelo mundo usando as próprias facilidades geradas pela globalização. Existem diferentes espectros e dimensões desse fenômeno, sendo cada dia mais difícil o combate eficiente ao terror. Frente a essa situação, muitos países adotam medidas radicais, gerando a criminalização das supostas fontes do terrorismo, tais como o Islã, sem diferenciar o extremismo religioso da vivência religiosa, o fundamentalismo da cultura, sendo que essa própria marginalização é uma fonte poderosa que alimenta uma nova cara do terrorismo, que alista diariamente jovens deslocados e não inseridos socialmente, os quais são atraídos pela inerente necessidade humana de se encaixar em um grupo e se reconhecer socialmente.

Outro fator importante e por vezes ignorado é a própria realidade demográfica das nações afetadas e sua partição recente na formação territorial de países onde, hoje, o terrorismo é uma realidade.

O combate ao terrorismo precisa abranger as diferentes dimensões que o geram. A segurança deve agir de forma estratégica para não gerar efeitos sociais catastróficos e aumentar as tensões sociais e, consequentemente, políticas. Ao final, “A guerra é a continuação das relações política por outros meios”, conforme dizia Clausewitz.

Por esse motivo, o combate ao terrorismo na Europa precisa ser encarado por diferentes ângulos. Por um lado, o continente deve ampliar a integração dos serviços de inteligência e dos órgãos de segurança pública; avaliar o real impacto social das políticas que afetam a população, sejam elas políticas de integração de estrangeiros, ou políticas sociais em geral; definir uma estratégia comum para combater o terrorismo (que não conhece fronteiras e nem entende de blocos regionais). Por outro lado, deve também ampliar sua atuação, não somente nas comunidades passíveis de serem aliciadas pelo terrorismo, mas, também, nas nações vizinhas que alimentam essa máquina devido a sua incapacidade econômica ou de infraestrutura, fornecendo a elas inteligência europeia para o combate ao terrorismo, vendo assim o vizinho como um colaborador e não como um possível inimigo na questão do terrorismo internacional.

É um tema que, sem dúvidas, deve ser discutido não somente pelos líderes de Estado e no âmbito da segurança, mas também no âmbito público, econômico, social, jurídico etc. Dessa forma, será possível criar uma Hidra capaz de combater a Quimera que aterroriza a Europa e ameaça o mundo inteiro.

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Imagem 1 Mapa político de países membros da União Europeia e da OTAN” (Fonte):

https://conceptdraw.com/a1130c3/p1/preview/640/pict–political-map—eu-and-nato-european-membership-of-the-eu-and-nato-map.png–diagram-flowchart-example.png

Imagem 2 Reunião da OTAN” (Fonte):

https://nato-uniform.com.ua/images2/NATO-logo.jpg

Imagem 3 Atentados de 22 de julho de 2011 na Noruega” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Terrorismo

Imagem 4 General Carl von Clausewitz” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_von_Clausewitz

Imagem 5 Héracles mata a Hidra de Lerna Por FrançoisJoseph Bosio / Museu do Louvre” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hidra_de_Lerna

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]Wang Yingfan: É preciso mais esforços para a paz na Ásia[:]

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Quando nos deparamos com o noticiário no continente asiático, vemos que mais de 60% deles falam sobre o tema da segurança regional, mas, em boa parte, uma segurança hipotética, baseada em especulações sobre conflitos pontuais que envolvem atores comuns, principalmente a China e os Estados Unidos, tendo-se, assim, uma gigante panela de pressão no cenário internacional, aparentando que irá explodir a qualquer momento. As recentes mobilizações feitas por estadunidenses e aliados para exercícios militares simulados no continente aqueceu as discussões sobre a questão de segurança na região.

Todos os anos, militares norte-americanos e sul-coreanos realizam manobras na área da península coreana, fazem outras atividades com as forças de autodefesa japonesa e também, mais ao sul, no oceano Índico, com diversas forças aliadas. Tais ações sempre foram vistas de forma cautelosa pelas potências regionais, mas nunca ocorreu um movimento que ficasse fora do campo de especulações e de reclamações formais e verbais.

Hoje, as mesas de discussão ganham mais forças desde que chineses e russos passaram a realizar exercícios militares conjuntos e com o aumento da capacidade naval e aérea de Beijing, algo que muitos o viram como resposta ao THAAD (Sistema de Escudo Antimíssil norte-americano na Coreia do Sul), embora outros pensem no tema como uma possível ameaça, tendo em vista que os chineses tem disputas territoriais com países no sudeste asiático e poderiam usar o seu poderio para responder às Leis Internacionais que lhes negam a soberania sobre os mesmos.

Nesse início de ano (2017), os noticiários foram recheados de manchetes sobre testes de mísseis na Coreia do Norte, país que é usado como a grande justificativa para os avanços militares de japoneses, sul-coreanos e estadunidenses na região e, sem surpresas, bombardeiros B-1B da Força Aérea Norte-americana realizaram exercícios estratégicos na península coreana, além de aeronaves e submarinos que também executaram manobras na área, algo que desagrada muito a Coreia do Norte e não deixa Beijing tranquila.

Nesta semana, um antigo diplomata chinês, Wang Yingfan, em entrevista para imprensa da Coreia do Sul, afirmou que está faltando diálogo entre Seul, Beijing e Washington para evitar que em algum momento as divergências de opiniões possam mudar de rumo e se tornem um atrito real, refletido por ações militares. “A chuva já começou, mas são necessários esforços para evitar que a chuva fique mais pesada”, disse o ex-embaixador da China nas Nações Unidas, para a mídia da Coreia do Sul.

Para ele haverá algumas consequências com o THAAD e, aparentemente, já podemos ver algumas mudanças na área, basta observar o setor econômico. Neste momento as relações comerciais entre ambos países estão esfriando, incluindo no campo do turismo, ocorrendo proibição de pacotes turísticos para viajantes que desejam conhecer a Coreia do Sul e vice-versa.

A China é, hoje, uma das principais potências militares da região, junto com a Índia, quando se observam apenas seus recursos militares próprios, desconsiderando alianças, mas não seriam fortes o bastante para tentar qualquer ofensiva contra o Japão e Coreia do Sul, que somam aos seus repertórios uma efetiva parte do poderio estadunidense. Construindo um cenário sobre alguma possível ofensiva militar chinesa, isso se daria mais ao sul, sobre a ilha de Formosa (Taiwan), Filipinas e outros pequenos países que possuem atritos e divergências territoriais; para com a Coreia do Sul, a possibilidade é bem pequena, pois, historicamente, Seul e Beijing nunca foram nações inimigas e ainda compartilham de interesses comuns contra o Japão, o que deixa em aberto quem poderia ser o potencial perigo para a segurança regional e o que realmente daria um empurrão para uma nova guerra com múltiplos atores na Ásia. Seria a Coreia do Norte?

Em resposta a um repórter sul-coreano, sobre a alusão do Secretário de Estado norte-americano, Rex Tilerson, em relação aos avanços bélicos e nucleares de Pyongyang, Wang Yingfan entrou em desacordo. Alertou: “Uma opção militar, ou uma guerra, nunca deveria ser permitida … ela nos trará um enorme desastre”.

Declarou que com a Coreia do Norte a resolução tem que ser pacífica, mas não deu detalhes ou opções para a resolução do caso. O caso norte-coreano se torna uma incógnita quando se observa que nenhuma solução além de sansões econômicas são aplicadas. Chineses, russos, sul-coreanos, japoneses e estadunidenses não apresentam algum tipo de planejamento efetivo que se aproxime de um entendimento comum, seja no campo militar, seja no diplomático, resultando nas repetidas manobras militares agendadas, as quais continuam gerando especulações no passar dos últimos 15 anos.   

Tensões entre as principais potências mundiais e do continente asiático não trazem benefícios, apenas afetam negativamente a economia, uma vez que, ao se relacionarem apenas com europeus e com os Estados Unidos, as economias japonesa e coreana não se fortalecerão. A importância da China vem à tona e com ela a surge a necessidade de se criar novas políticas e renovar as atuais relações comerciais e diplomáticas. Wang e uma equipe chinesa estão em Seul para tentar apaziguar as relações comerciais e diplomáticas, pois uma estabilidade entre estas duas grandes potências será importante para a manutenção do ciclo econômico do mundo globalizado, onde não há como sobreviver de forma isolada ou com poucos parceiros.

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Imagem 1Bombardeiro B1B” (Fonte Banco livre de imagens Yonhap News):

http://spanish.yonhapnews.co.kr/national/2017/03/22/0300000000ASP20170322002700883.HTML

Imagem 2Wang Yinfan” (Fonte Banco livre de imagens Yonhap News):

http://english.yonhapnews.co.kr/national/2017/03/22/56/0301000000AEN20170322011200315F.html

Imagem 3Área portuária de Seul, Coreia do Sul” (Fonte Banco livre de imagens Yonhap News):

http://spanish.yonhapnews.co.kr/national/2017/03/22/0300000000ASP20170322003500883.HTML

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ÁFRICAANÁLISE - Sociedade InternacionalECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

[:pt]O desenvolvimento na África Subsaariana: uma epopeia em marcha, ou um sonho – O DISCURSO (ou PARTE I)[:]

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Kenji Yoshino, professor de Direito da Universidade de Nova York, define Macbeth, de William Shakespeare, como uma obra clássica, onde “as leis morais são tão indestrutíveis quanto as leis físicas”, demonstrando que a “crença em um mundo autorregulado tem-se mostrado surpreendentemente resistente” na história da humanidade. A “justiça natural”, como define o autor, ocorre no sentido de que a violação de um conjunto de regras, normas ou valores morais traz consigo mesmo a inevitável punição, cedo ou tarde.

Ordens sociais, como sustenta o próprio nome, produzem lógicas específicas de ordenar a ação e a significação da vida em sociedade a partir de um conjunto de valores em específico. Neste sentido, a ideia de desenvolvimento apresenta-se como uma “ideia-força”, como argumenta a Profa. Cláudia Job Schmitt, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Isto é, o desenvolvimento surge na contemporaneidade como um valor pujante, que traz consigo uma série de procedimentos, comportamentos e atitudes que devem ser desempenhadas pelos Estados e pelas sociedades civis espalhadas mundo afora, bem como uma forma específica de significação do espaço geográfico e da vida social.

Crime e Castigo. A obediência a este conjunto de procedimentos desenvolvimentistas*, postulados comumente por organismos internacionais, enseja esperança entre os formuladores de políticas públicas, da mesma forma que o leitor anseia com que a punição para o crime de Macbeth recaia sobre ele: ambos terão o que merece, segundo a lógica da justiça natural de que nada foge a inexorabilidade das regras, normas e valores convencionados, sejam eles naturais ou humanos. Em outras palavras, há uma “naturalização” da história humana. No discurso desenvolvimentista, é “natural” que todos os países do mundo caminhem para padrões de vida e de consumo similares ao europeu ou ao norte-americano: basta obedecer ao conjunto de procedimentos que pede as recomendações desenvolvimentistas.

É esta questão da “naturalização” que o cientista social francês, Gilbert Rist, traz em seu livro “The History of Development”. Recorrendo a Aristóteles, que via a “natureza” como a “essência daquilo que cresce”, Rist demonstra como no discurso desenvolvimentista está presente uma noção naturalizada de que, na presença de condições apropriadas, as sociedades de todo o mundo presenciaram um gradativo incremento nos níveis de produção econômica e de consumo. Como, então, oferecer as condições apropriadas para florescer essa tendência natural humana à troca e à acumulação? Esta tem sido, na visão do autor, a pergunta norteadora dos teóricos do desenvolvimento e a pergunta que introduziu a questão das “instituições” dentro da temática.

Instituições e Desenvolvimento. Qual conjunto institucional estimula o desenvolvimento? Para o establishment – o conjunto de acadêmicos e autoridades imersos nas principais universidades e nas organizações multilaterais e bilaterais – são as instituições que sustentam o regime da propriedade privada, que tornam transparentes as trocas econômicas, que garantem as liberdades individuais e que estimulem o controle civil sobre as deliberações do Estado. Seria natural, a qualquer país, segundo essa perspectiva, auferir maiores níveis de renda e consumo se instituições como essas forem forjadas em seus territórios. Em outras palavras, a transposição da fronteira do desenvolvimento é fato natural e orgânico adotando este regime institucional.

Daron Acemoglu e James Robinson, autores de “Por que as Nações Fracassam?”, tornaram-se os principais porta-vozes deste regime institucional para o desenvolvimento dos países. Não à toa, os autores são, anualmente, cogitados para o Prêmio Nobel de Economia e o livro de ambos poderá ser, no futuro, um exemplo clássico desta visão naturalizada do desenvolvimento.

Contínuo reordenamento. As perspectivas que defendam a crucialidade das instituições nos processos de desenvolvimento não estão descoladas da história do pensamento desenvolvimentista. Na verdade, ilustram o reordenamento contínuo desse mesmo discurso: por muito tempo, sustentou-se a importância primária e absoluta de fatores como capital e tecnologia para explicar porque algumas nações são “mais desenvolvidas” do que outras. No entanto, a insuficiência das políticas públicas compromissadas a desenvolver as nações pobres a partir da expansão do estoque de capital e de tecnologia ensejou nova reorganização do discurso.

Este contínuo reordenamento da lógica do discurso desenvolvimentista se dá à medida que estatísticas demonstram a falha do mundo ocidental em promover o desenvolvimento. Nesse sentido, seriam as instituições a verdadeira solução para as subsequentes falhas do projeto desenvolvimentista, ou mais uma faceta de um discurso poderoso que renega uma fissura iminente? Trataremos sobre esse questionamento com maior profundidade no próximo artigo.

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Notas de Rodapé:

* Neste caso, e nos artigos que estão porvir, utilizamos da palavra “desenvolvimentista” como adjetivo para qualificar a natureza dos procedimentos estatais, das políticas públicas e das análises conduzidas por acadêmicos e formuladores de políticas. Não empregamos a palavra em seu sentido clássico, a saber, aquele empregado para descrever as economias latino-americanas na segunda metade do século XX, onde o Estado apresentava-se como principal player no processo de desenvolvimento e crescimento econômico.

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Imagem 1 Pobreza Urbana” (FonteCommons Wikimedia):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Urban_Poverty.jpg

Imagem 2 Capa do Livro The History of Development” (Fonte):

https://www.amazon.com/History-Development-Western-Origins-Global/dp/1783600225/ref=pd_sbs_14_img_0?_encoding=UTF8&psc=1&refRID=5BSF2GDDQ72H307N39W1

Imagem 3 Professor Daron Acemoglu, economista turcoamericano” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Daron_Acemoğlu#/media/File:Daron_Acemoglu.jpg

 

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONALORIENTE MÉDIO

[:pt]ONU questiona comprometimento dos EUA na busca por solução política na Síria[:]

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Durante encontro que ocorreu em Genebra, na Suíça, em meados de fevereiro deste ano (2017), Staffan de Mistura, enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Síria, questionou o grau de comprometimento dos Estados Unidos da América (EUA) na busca por uma solução política para o conflito sírio. Depois de três sessões em 2016, que não resultaram em nenhum avanço, no dia 22 de fevereiro de 2017, as delegações rivais sírias se reuniram na Suíça, onde iniciou-se uma nova rodada de negociações com mediação da ONU, a fim de se encontrar uma solução pacífica para a guerra que perdura há 6 anos no país.

Em março de 2011, eclodia em Da’ra, na região sul da Síria, manifestações que pediam reformas políticas, ações para encerrar o estado de emergência e medidas contra a corrupção no país. A demanda pela abertura do regime, no entanto, teve início no começo dos 2000, quando Bashar al-Assad assumiu a Presidência da Síria, após a morte de seu pai, e teve a legitimidade outorgada pelo partido Baas. Os protestos pela saída de Assad adotaram um caráter violento depois da prisão e tortura de adolescentes que pintaram mensagens em apoio à derrubada do Governo. Assim, ao passo que as manifestações assumiam esse novo caráter e se alastravam pelo norte do país, a represália promovida pelo Exército também se tornava mais violenta.

Logo, o país foi se encaminhando para uma guerra civil: brigadas de rebeldes foram formadas a fim de fazer frente ao Governo e a luta pelo controle de cidades e regiões estratégicas passou a ser prioridade. Em pouco tempo, a situação da crise adquiria enorme complexidade e já não era formada apenas por aqueles que apoiavam ou se opunham ao Governo Assad, mas também era forjada por grupos sectários, entre eles sunitas e xiitas. Tal cenário permitiu a ascensão de grupos jihadistas que expandiram seu controle não apenas na Síria, mas nos países vizinhos. Além disso, o agravamento do conflito levou à guerra proxy (guerra por procuração), envolvendo, assim, o apoio e a ação de países regionais e globais em um dos lados do conflito.

O conflito sírio deixou mais de 16 milhões de deslocados e milhares de mortos. Em julho de 2015, Ban Ki-moon, Secretário da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou que a guerra civil síria havia deixado mais de 250 mil mortos.  Dados do Centro Sírio de Pesquisa Política, divulgados em fevereiro de 2016, apontam que o número de mortos no conflito passava dos 470 mil, segundo divulgado no The Guardian. Mais recentemente, em setembro do ano passado (2016), o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) divulgou que o número de vítimas chegava a 300 mil.

Em discurso de boas-vindas, Staffan de Mistura ressaltou às delegações que um novo fracasso trará consequências, ou seja, mais mortes, mais sofrimento, mais atrocidades, mais terrorismo e mais refugiados. Segundo o enviado da ONU, não há uma solução militar para crise síria, somente uma solução política. As responsabilidades sobre o agravamento da guerra síria também foi ressaltada por Ban Ki-moon, durante o encontro de emergência do Conselho de Segurança da ONU, ocorrido no último dia 13 de dezembro. Para o secretário-geral da ONU, “a história não nos absolverá facilmente, mas esse fracasso nos obriga a fazer ainda mais para oferecer ao povo de Aleppo nossa solidariedade nesse momento”.

Já Paulo Sérgio Pinheiro, diplomata brasileiro e Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria na ONU, afirmou, conforme destaca o DW, que os dois lados desrespeitaram tratados internacionais e os países que apoiam o conflito também cometeram crime de guerra, e são responsáveis pela morte e deslocamento de milhares de pessoas. Staffan de Mistura pediu a implementação da Resolução 2254 do Conselho de Segurança, que prevê o engajamento dos dois lados em processo formal de negociação para uma transição política.

O enviado da ONU se reuniu com representantes da Oposição e do Regime para definir uma nova agenda de negociações. O Alto Comitê de Negociação (HNC), liderado por Nasr al-Hariri, que representa a Oposição, declarou que desejava estabelecer negociações diretas com o regime, cuja delegação é chefiada por Bashar Jaafari, diferentemente do que ocorreu nas negociações de abril de 2016, quando Mistura atuou como interlocutor. Um dos principais pontos de divergência entre os dois grupos refere-se à permanência de Assad no poder. No entanto, cabe pontuar que a situação alterou-se consideravelmente com relação às negociações do ano anterior, pois o regime de Assad retomou o controle sobre parte da cidade de Aleppo, um dos principais redutos dos rebeldes. 

Ainda em fevereiro deste ano (2017), durante a Conferência sobre Segurança, ocorrida em Munique, Alemanha, Staffan de Mistura havia chamado a atenção para o comprometimento dos países envolvidos no conflito, particularmente os Estados Unidos. O enviado das Nações Unidas chegou a questionar: “Onde estão os Estados Unidos em tudo isso? Não posso dizer, porque não sei. Para Mistura, conforme ressalta a ANGOP, é compreensível as três prioridades do Governo estadunidense na região: combater o Estado Islâmico, limitar a influência de certo ator regional (Irã) e, ainda, não colocar em perigo seus tradicionais aliados na área, mas ele enfatiza que somente se alcançará o primeiro objetivo quando se acordar uma solução política crível.

Compete lembrar, entretanto, que, no começo de 2014, os Estados Unidos, a Rússia e a ONU tentaram implementar o Comunicado de Genebra de 2012, um Acordo com apoio internacional para a criação de um Governo de Transição na Síria. Esse Acordo tinha como base o consentimento mútuo das partes, mas que acabou fracassando. Em meados de 2014, os EUA entraram no conflito, apoiando os rebeldes moderados, com suporte de uma Coalização Internacional composta por 60 países. As Forças da Coalizão já realizaram diversos ataques aéreos, tanto na Síria quanto no Iraque.

A entrada dos EUA e da Rússia no conflito sírio também aumentaram as tensões. Haja vista que Rússia e Irã apoiam o regime Assad, já a força da Coalizão buscava atacar o Estado Islâmico, e também enfraquecer o Governo. Além disso, a atuação da Arábia Saudita e Turquia mantém ligações com grupos rebeldes oposicionistas. Houve diversas tentativas de cessar-fogo e de estabelecer soluções políticas, muitas vezes lideradas pelos Estados Unidos e pela Rússia, mas nada de concreto resultou dessas interações. Embora, cabe pontuar, que o último cessar-fogo foi acordado entre Turquia e Rússia, em dezembro de 2016.

O novo Presidente americano, Donald Trump, publicou um comunicado no dia 28 de janeiro, pelo qual dava ao Pentágono trinta dias para elaborar um plano para acelerar a luta contra o Estado Islâmico. O combate contra o grupo extremista, até o presente momento, parece ser o eixo central da atuação dos EUA na Síria sob o comando de Trump, que se diferencia da posição da administração de Barack Obama, que, além do Estado Islâmico, também tinha como foco a saída de Assad. Em relação ao posicionamento dos EUA, Rex Tillerson, Secretário de Estado Norte-Americano, afirmou apenas que o Governo Trump apoiará uma solução pacífica, pois uma solução militar isolada não conduzirá à paz.

Durante o período que antecedeu às negociações, António Guterres, Secretário-Geral da ONU, destacou a importância de soluções políticas para o conflito, soluções internas, e assinalou que o mundo atual vive uma crescente falta de confiança. Essa falta de confiança e o aumento das tensões mais uma vez refletiram-se sobre as negociações em torno do conflito, que novamente permaneceram no impasse e não resultaram em ações concretas. Conforme ressaltou Mistura, o conflito sírio lançou uma grande sombra sobre toda a região e a ordem internacional e, ao que parece, perdurará ainda por um longo tempo.

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Imagem 1Staffan de Mistura em setembro de 2015” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Staffan_de_Mistura#/media/File:Staffan_de_Mistura_September_2015_(21108901363).jpg

Imagem 2 Blindados do regime Assad destruídos na cidade de Azaz, no norte da Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria#/media/File:Azaz,_Syria.jpg

Imagem 3 Paulo Sergio Pinheiro” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_S%C3%A9rgio_Pinheiro#/media/File:Paulo_Sergio_Pinheiro,_Comisionado_2004-2011_(5136492937).jpg

Imagem 4 Um caça americano F18 Super Hornet decolando do USS Dwight D. Eisenhower para executar missões na Síria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Interven%C3%A7%C3%A3o_militar_na_S%C3%ADria#/media/File:An_F-A-18E_Super_Hornet_launches_from_USS_Dwight_D._Eisenhower._(27859769842).jpg

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]Segurança Alimentar e Nutricional: o problema mais solucionável do mundo?[:]

[:pt] De acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA), o conhecimento, as ferramentas e as políticas existentes, combinadas com vontade política, seriam suficientes para solucionar o problema da forma no mundo. Entretanto, vontade política…

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURABLOCOS REGIONAISEUROPA

[:pt]Crescimento na Europa: economia e tensões em alta[:]

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Desde o início da Crise Financeira Internacional, em 2008, este ano é o primeiro em que todos os países membros da União Europeia estão vendo sua economia crescer e deve se manter assim até 2018. Apesar da boa notícia, é necessário avaliar os fatores que promovem esse crescimento, bem como outros elementos que podem modificar o cenário regional nos próximos meses.

A taxa média de crescimento do Bloco Europeu, em 2016, foi de aproximadamente 1,9%, porém as fortes assimetrias que existem dentro do continente são refletidas nas taxas desiguais, havendo países que registram números superiores à média da União Europeia, tais como Espanha (3,2%) ou Irlanda (4,3%), e outros com índices inferiores, como a Itália (0,9%), ou a França (1,2%).

O crescimento da União Europeia coloca um ponto final a uma década de turbulências econômicas, porém são muitos os fatores que ainda podem afetar o andamento da economia da região.

Embora muitas nações registrem taxas de crescimento positivas, a dívida pública continua muito elevada. Na Espanha, ela supera 98% em relação ao PIB; na Itália mais, de 132%; na França o 93%. Isso que coloca em evidência o delicado equilíbrio das contas europeias.

O desemprego e a redução das prestações sociais são outros pontos a serem observados, já que os anos de políticas de austeridade minaram o “estado de bem-estar” em diversos países da União,  principalmente os da faixa do mediterrâneo, gerando uma crescente tensão social e problemas de legitimação das ações do Governo, algo que ficou refletido nas diversas eleições que ocorreram na Espanha, na Itália e na Grécia. A Espanha, por exemplo, realizou profundos cortes nos gastos com saúde, segurança pública, iluminação e educação, ainda assim, o Banco Central Europeu continua pressionando para a realização de novos cortes e mesmo o país registrando taxas positivas de crescimento este não é revertido em benefício para a população, mas no saneamento das contas públicas, o que, sem dúvidas, gera fortes tensões sociais e mudanças políticas bruscas.

Os efeitos econômicos da saída do Reino Unido ainda não foram perceptíveis, não havendo um prognóstico claro do impacto do mesmo. Projeções falam de até 1% de perda do PIB do Bloco devido ao impacto no sistema financeiro.

As negociações com outros Blocos e países evolui lentamente, somente as negociações com o Canadá chegaram a um consenso, outras, como as negociações com o Mercosul, seguem, praticamente, paralisadas devido a falta de consenso tanta da Europa, em relação a sua política de subvenção do setor agrícola, como do próprio Mercosul e seu impasse regional.

Os bons resultados econômicos da Europa contrastam com a situação política da região, que se agrava, devido a crescente insatisfação dos cidadãos europeus e das tensões sociais causadas por problemas internos e externos.

O discurso eurocético está aumentando e já participa dos grandes círculos de discussões políticas.  As eleições na França, Holanda e Alemanha servem de termômetro para o futuro da União.

A candidata a Presidência da França, Marine Le Pen, já confirmou diversas vezes suas intenção de realizar um Referendo para a retirada da França da União Europeia e também da OTAN, o mesmo discurso é repetido por partidos de extrema direita em toda Europa, com crescente adesão social.

As nações da Europa já não sentem tanto os benefícios de pertencer ao Bloco. As políticas de austeridade impostas pela União Europeia revelaram a deterioração da soberania dos países em relação a suas políticas econômicas, e o posicionamento frente a questões internacionais, tais como as relações com a Rússia, ou a Crise dos Refugiados, evidenciaram profundas discrepâncias que permaneciam ocultas. Uma grande onda de insatisfação se instaurou na União Europeia, embora todos pareçam ignorar o fato de que pertencer ao Bloco significasse desde o princípio não somente a obtenção dos benefícios, mas também a adesão a uma série de obrigações. O único país que havia negociado um status diferenciado dentro da União Europeia foi o próprio Reino Unido, que deu início a era da “Europe a la Carte” e sua saída do Bloco só fez aumentar a desconfiança dos países membros.

Para a Comunidade Internacional, a situação da União Europeia revela uma série de paradigmas que não podem ser negligenciados.  Por um lado, os problemas que enfrentam o Bloco Europeu são uma evidência da própria evolução da integração regional que muitas regiões emularam em seus continentes (Mercosul, NAFTA, ASEAN etc.) e que, atualmente, serve como ponto de reflexão para a evolução futura desses Blocos. Por outro lado, o crescimento econômico da região revela um lado complexo da economia internacional, já que é cada vez mais evidente que o crescimento da economia de um país ou conjunto de países, não necessariamente significa uma melhoria na condição de vida de seus cidadãos ou em um fortalecimento do pacto social. Se este crescimento se obtém mediante o sacrifício dos serviços públicos e do estado de bem-estar da população, a insatisfação gera uma reação que pode provocar mudanças profundas no sistema de governo, ou nos formuladores de políticas.

A corrida pelo PIB” que pareceu substituir a corrida armamentista gerou um efeito acumulativo do capital em lugar de sua circulação, provocando uma crescente disparidade entre nações ricas e populações cada vez mais pobres. Certo é que nem todos os países registram este efeito. Nações menos desenvolvidas registram uma leve melhoria em suas condições sociais, o que reflete positivamente os dados do sistema internacional, mas, ainda assim, o paradigma do sistema financeiro internacional está sendo cada dia objeto de dúvidas e críticas, e não somente nos círculos acadêmicos, pois também vem sendo refletido nos discursos políticos.

A União Europeia é o epicentro dessa mudança, já que alcançou índices únicos de desenvolvimento social, crescimento econômico entre nações desenvolvidas, integração regional, liberalismo econômico em algumas nações e, agora, tanto os resultados de sua evolução, como também os reflexos de suas assimetrias e mazelas não resolvidas, são colocados à prova durante processos eleitorais, como já aconteceu nas nações do Mediterrâneo e, neste momento, chegam ao coração da União.

De momento é impossível prognosticar com total certeza os caminhos que seguirá o continente europeu, mas, uma coisa é certa, se a Europa mudar, o mundo também mudará, pois, ainda que enfraquecida, é inegável sua influência política, social, cultural e econômica.

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Imagem 1 Bandeira da União Europeia em fragmentação” (Fonte):

http://kaosenlared.net/wp-content/uploads/2017/02/ue-rota-680×365.jpg

Imagem 2 Sede do Banco Central Europeu Nova instalações do BCE (abril de 2014), em FrankfurtOstend” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sede_do_Banco_Central_Europeu

Imagem 3 Serviço Naval Irlandês a resgatar imigrantes de um barco superlotado como parte da Operação Tritão, junho de 2015” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_migratória_na_Europa#/media/File:LE_Eithne_Operation_Triton.jpg

Imagem 4 Imagem em uma Bolsa de Valores, no caso a Bovespa de São Paulo Brasil” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_econômica#/media/File:Sao_Paulo_Stock_Exchange.jpg

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEURÁSIA

A questão atual da Coreia do Norte - além do receio da arma nuclear

O ano de 2017 iniciou trazendo dúvidas sobre o futuro das relações internacionais, após as eleições presidenciais realizadas pelo globo. Nesse sentido, há convergência entre os analistas e observadores internacionais de que a maior notícia em todo o planeta foi a Eleição nos Estados Unidos, com a vitória de Donald Trump. Enquanto o mundo desvia suas atenções para Trump, refletindo sobre os casos que o envolvem com os russos, sobre os temas polêmicos a respeito da imigração, entre outros, Kim Jong-un – Presidente da Coreia do Norte – também se tornou notícia permanente, mas sem destaque nas manchetes, exceto quando se tratou da questão da Segurança Internacional.

A Coreia do Norte sempre foi um tema com maior repercussão na Ásia e nos Estados Unidos devido à posição geográfica estratégica do país e pelo envolvimento direto estadunidense em apoio aos inimigos declarados de Pyongyang*. Mas, até no continente asiático, o líder supremo norte-coreano veio sendo ofuscado pela incerteza do futuro das relações nipônicas, das relações sul-coreanas e das relações de outras nações da região com Washington, sendo mais ofuscado ainda pela repercussão que vem tendo o Impeachment da presidente sul-coreana Park Geun-hye.

Durante o tempo em que estadunidenses, russos e sul-coreanos eram as pautas mais importantes, Kim Jong-un foi notícia especialmente em relatórios de Direitos Humanos na Organização das Nações Unidas e, na própria Coreia do Norte, sobre os temas relevantes ao seu Governo, ressaltando-se que a agência de notícias oficial do país, a KCNA, tem a agenda presidencial como principal base de suas pautas. Como ilustração, a Agência relata o líder supremo visitando internatos, obras de infraestrutura, fábricas de processamento de soja e temas ligados a relações externas, como, por exemplo, quando Kim Jong-un felicitou formalmente Mohamed Abdullahi como Presidente da República Federal da Somália.

O país tem suas riquezas e, curiosamente, a falta de modernidade em seu território o leva a preservar uma grande parcela da tradicional cultura coreana, desde a arquitetura até outros traços culturais típicos de seus costumes que, hoje, perdem espaço na região sul da península, devido a modernização dos centros urbanos. Existem centros literários na Coreia do Norte e fora dela mantendo artigos escritos antes de os residentes da península criarem o atual alfabeto de língua coreana, e preservando materiais que ainda usavam caracteres chineses como escrita principal. Além disso, estão sendo criados centros de estudos fora do país, como na Rússia, e outros espaços para a preservação e divulgação de sua cultura pelo mundo.

Como os especialistas ressaltam, certamente, se as fronteiras do país fossem abertas e um estudo detalhado fosse realizado de forma livre, a ONU iria tombar muitas áreas como patrimônio cultural e histórico da humanidade na região norte da península e, assim, a violação dos Direitos Humanos não seria a única preocupação na Coreia do Norte. O país tem um grande potencial humano em arte e esportes e tem feito um significativo investimento em modalidades desportivas, realizando eventos constantes de diferentes esportes e sempre mantendo participações positivas em eventos internacionais pela Ásia e até em grandes acontecimentos globais, como na Olimpíada, a exemplo da Rio 2016, quando os norte-coreanos ficaram na 34ª posição, à frente de muitos países mais desenvolvidos.

Vale ressaltar que a Coreia do Norte, considerada o Estado mais isolado do mundo, tem suas potencialidades em atividades artísticas, esportivas e para o turismo, mas o grande questionamento da sociedade internacional é sobre o motivo de ela investir recursos que o mundo não tem certeza de suas origens para suas Forças Armadas e ter realizado pouco aporte para a base de sua sobrevivência alimentar, cultural e infraestrutura, carecendo, por isso, da participação das instalações industriais de origem sul-coreana para manter uma margem maior de pessoas empregadas no país. Em muitos momentos, a impressão gerada é de que os seus governantes priorizam ser manchete dos noticiários internacionais através de fatos considerados negativos pelos meios de comunicação, mas estes podem refletir de diretamente na reputação do povo coreano.
Conforme foi divulgado, a União Europeia listou a Coreia do Norte como um dos destinos mundiais para lavagem de dinheiro e, nesta semana, o país realizou mais um teste de míssil balístico, algo que lhe colocou como principal assunto em alguns lugares. O teste do Pukguksong-2 teve sucesso, sendo aclamado como grande vitória e avanço em Pyongyang*, mas desagradou a comunidade internacional.

Todas as parte devem exercitar a contenção e manter conjuntamente a paz e a segurança na região”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Geng Shuang. Chineses e russos mostraram-se preocupados, porém eles foram alvos de cobranças e crítica por parte do Japão, que pede aos principais aliados de Kim Jong-un atitudes consideradas pelos japoneses como mais produtivas.

Enquanto Kim visitava algumas regiões do seu país, seus engenheiros mantinham seus programas de mísseis a todo vapor, tanto que, poucos dias antes do atual ensaio, alguns mísseis de alcance intermediário (IRBM) haviam sido testados, mas sem a grande repercussão que teve o Pukguksong-2. O foco nas eleições americanas e os noticiários sobre escândalos em Seul** deixou a face norte da península mais tranquila para os preparativos de seus testes, uma vez que ficou longe da pressão costumeira, que é sempre aumentada com mais sanções, as quais o país vem constantemente sofrendo ao longo dos anos, mas nada, até hoje, impediu suas ações.
Segundo um grupo expressivo de analistas, falar da Coreia do Norte é falar de risco nuclear, mas também é falar de um país asiático com potenciais não explorados. Por isso, evitar focar apenas em temas de segurança traz a possibilidade de que o país não seja um caso perdido para a comunidade internacional, pois, por mais que os norte-coreanos tenham de receber ajuda humanitária para manterem sua sociedade e em poucos momentos sejam abertas portas para confraternização entre os coreanos do Sul e do Norte, há espaço para a aproximação e convergência, logo inserção na comunidade internacional. No entanto, ressaltam os observadores internacionais, tais esforços positivos regridem a cada teste bélico executado.

O ano de 2017 está começando com novos líderes mundiais no comando de importantes nações com poderio econômico e militar. Conforme vem sendo destacado, muitos deles estão adotando diálogos firmes e duros quando o assunto é o Estado norte-coreano, bem como sobre qual será o futuro na península coreana, além de refletirem sobre um possível reinício da Guerra da Coreia, ou sobre o fim da cúpula política que exerce o poder na região norte-coreana. Tais questões e reflexões poderão nortear o comportamento desses líderes, bem como as relações desses Estados com a Coreia do Norte.

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* Capital da Coreia do Norte, sede do Governo

** Capital da Coreia do Sul, sede do Governo

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Imagem 1 Kim Jongun em escola primária em Pyongyang” (Fonte Divulgação KCNA***):

http://www.kcna.kp/kcna.user.special.getArticlePage.kcmsf

Imagem 2 Sala usada pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas no Palácio das Nações, em Genebra, Suíça” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conselho_de_Direitos_Humanos_das_Nações_Unidas#/media/File:UN_Geneva_Human_Rights_and_Alliance_of_Civilizations_Room.jpg

Imagem 3 Kim Jongun visitando obras de estrutura urbana na capital norte coreana” (Fonte Divulgação KCNA***):

http://www.kcna.kp/kcna.user.special.getArticlePage.kcmsf

Imagem 4 Kim Jongum com soldados” (Fonte Divulgação KCNA***):

http://www.kcna.kp/kcna.user.special.getArticlePage.kcmsf

 Imagem 5 Míssil de médio alcance nortecoreano” (Fonte Divulgação Yonhap News):

http://spanish.yonhapnews.co.kr/northkorea/2017/02/13/0500000000ASP20170213000200883.HTML

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*** Todas as imagens da Agência de Notícias Norte-Coreana (KCNA, sigla em inglês) são de livre divulgação

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