AMÉRICA LATINAANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURATecnologia

[:pt]O legado de vigilância em 2016 e as estruturas para 2017[:]

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Nas últimas semanas, antes da transferência da administração Obama para o Presidente eleito, Donald Trump, em 20 de janeiro de 2017, os poderes de vigilância do Governo Norte-Americano se expandiram drasticamente, através de novas regras aplicadas à Ordem Executiva 12333. A Ordem Executiva foi inicialmente expedida por Ronald Reagan, sem uma votação do Congresso, sendo modificada em 2008, por George W. Bush.

As novas ações aplicadas à Ordem Executiva 12333 permitem uma drástica expansão do compartilhamento de informações obtidas pela Agência de Segurança Nacional (NSA), que até então as filtrava antes de compartilhá-las com outras Agências da Comunidade de Inteligência. No entanto, agora, a NSA passa a compartilhar dados brutos com 16 outras Agências de Inteligência, sem que sejam aplicados quaisquer filtros de privacidade. Esses dados brutos podem incluir desde transmissões via satélite, a mensagens, telefonemas, e-mails, entre outros, que passam por gatilhos específicos da NSA e então são coletados.

Na prática, a limitação dada à NSA após a obtenção de dados é significativamente relaxada, reduzindo o risco de que a Instituição não reconheça uma informação possivelmente valiosa para outra Agência, porém, aumenta-se o risco de que mais funcionários tenham acesso a dados privados sobre pessoas inocentes.

Sob o novo sistema, os Órgãos de Inteligência vão requisitar à NSA acesso a ramos específicos de vigilância, alegando que os mesmos contêm informações relevantes e úteis para suas missões. A NSA então concederá pedidos que avalie razoáveis, depois de considerar fatores, como, por exemplo, se grandes quantidades de informações privadas de norte-americanos podem ser incluídas e, em caso afirmativo, quão prejudicial ou embaraçoso seria se essas informações fossem usadas ou divulgadas indevidamente.

Defensores dos direitos digitais e privacidade inevitavelmente criticaram as mudanças, dentre eles, Patrick Toomey, advogado da American Civil Liberties Union (ACLU). Declarou: “Ao invés de expandir dramaticamente o acesso do governo a tantos dados pessoais, precisamos de regras muito mais fortes para proteger a privacidade dos americanos”, disse Toomey. “Dezessete diferentes agências governamentais não devem se enraizar através de e-mails de americanos com os membros da família, amigos e colegas, todos sem nunca obter um mandado”.

Outra medida que recentemente se tornou alvo de críticas dos ativistas e jornalistas a favor da privacidade online é o recente requerimento do Governo norte-americano que começou a pedir a alguns viajantes estrangeiros que divulguem suas atividades de mídia social como parte de um esforço maior para detectar possíveis ameaças terroristas.

O requerimento começou a ser feito nas últimas semanas de 2016 através do Sistema Eletrônico on-line para Autorização de Viagem, ou ESTA, na sigla em inglês, uma solicitação de isenção de visto que muitos visitantes são obrigados a enviar antes de viajar para os EUA. O requerimento inclui plataformas como Facebook, Twitter, Google+, Instagram, LinkedIn e YouTube, além de espaço adicional para que os candidatos insiram seus nomes de conta nesses sites.

De acordo com a proposta arquivada no Registro Federal Norte-Americano, a coleta dos dados de plataformas sociais objetiva “aprimorar o processo de investigação existente e fornecer ao Departamento de Segurança Interna (DHS) maior clareza e visibilidade para possíveis atividades nefastas e conexões, que analistas e investigadores podem usar para melhor analisar e investigar o caso”.

O setor privado se manifestou em relação ao assunto, e empresas como Facebook, Twitter e Google argumentam que a prática ameaça a liberdade de expressão, e outros segmentos da sociedade civil também declararam, principalmente através da ACLU, que a nova prática de coleta oferece às agências de inteligência “uma entrada para uma enorme quantidade de usuários, expressões on-line e associações, o que pode refletir informações altamente sensíveis sobre as opiniões da pessoa, crenças, identidade e comunidade”. E alertaram que o programa seria “mais difícil para as comunidades árabes e muçulmanas, cujos nomes de usuários, posts, contatos e redes sociais serão expostos a um intenso escrutínio”, as quais já vem sofrendo com o recém banimento de imigrantes de certos países de maioria muçulmana, pelo atual presidente Donald Trump.

Porém, enquanto EUA e Grã-Bretanha vêm expandido seu aparato de segurança, a Corte de Justiça da União Europeia (ECJ) recentemente proibiu os governos do Bloco de exigirem que empresas de telecomunicação armazenem dados de seus clientes para posterior escrutínio e análise de suas agências de segurança. Em sua decisão, os juízes escreveram que o armazenamento desses dados, que inclui remetentes de mensagens de texto e destinatários e histórias de chamada, permite “conclusões muito precisas a serem extraídas sobre a vida privada das pessoas cujos dados foram mantidos”.

O que se pode observar, portanto, são dois posicionamentos gerais em relação ao quesito privacidade e obtenção de dados, os quais são distintos entre os EUA e a União Europeia. As declarações e análises de especialistas e observadores internacionais levam à consideração de que o cenário posto até o momento, neste início de 2017, configura uma situação semelhante à distopia  orwelliana de “1984”, especialmente após as constantes declarações de Donald Trump a favor de programas que confrontam com a instituições e entidades de direitos civis nos EUA, além do posicionamento a favor da vigilância e expansão do programa de coleta de dados que permite que, além de agentes de inteligência, também policiais tenham acesso a informações da população, encabeçado pela Primeira-Ministra britânica, Theresa May.

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Imagem 1QuartelGeneral da NSA” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16450

Imagem 2A Ordem Executiva 12333 foi assinada pelo presidente Ronald Reagan, em 4 de dezembro de 1981” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Executive_Order_12333#/media/File:Official_Portrait_of_President_Reagan_1981.jpg

Imagem 3 Logo da American Civil Liberties Union” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/American_Civil_Liberties_Union#/media/File:American_Civil_Liberties_Union_logo.png

Imagem 4Selo do DHS” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Departamento_de_Segurança_Interna_dos_Estados_Unidos

Imagem 5Protesto contra o banimento de muçulmanos no aeroporto internacional de São Francisco By quinn norton from Excellent QuestionSFO Muslim Ban Protest, CC BY 2.0” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=55533396

Imagem 6Corte de Justiça da União Europeia. By Razvan Orendovici from United States Court of Justice of the European Commission, CC BY 2.0” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=34956469

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

[:pt]Os alinhamentos políticos para 2017 e os ambientes críticos para os interesses estadunidenses[:]

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Nestes primeiros dias da Presidência de Donald Trump, observadores internacionais apontam que resultados obtidos com a sua ascensão à Presidência dos Estados Unidos trazem para o ambiente internacional a confirmação de uma tendência crescente do fenômeno nacionalista pelo mundo (que alguns especialista preferem apontar como populista), e uma guinada alheia à globalização, algo que poderá levar ao fim da Pax Americana, ou seja, ao fim da ordem internacional de livre troca e segurança compartilhada que os EUA e seus aliados construíram após a Segunda Guerra Mundial.

De acordo com especialistas consultados, diante das incertezas que a possível política externa prevista para o atual mandato tem trazido, o novo Governo estadunidense deverá alinhar os interesses do país a esta doutrina de Relações Exteriores adotada pela administração Trump: mais isolacionista, unilateral, protecionista no âmbito geopolítico e excludente à liberalização comercial, à mobilidade do capital e às políticas de bem-estar social que resultem em gastos públicos que sobrecarreguem o orçamento, ou que extrapolem a disposição orçamentária, obrigando a endividamentos comprometedores do Estado.

Neste quadro, atores cujas ações dos últimos oitos anos foram bastante estratégicas deverão ter acompanhamento próximo para estar em concordância com os novos preceitos das Relações Exteriores dos EUA.

Dentro desse panorama, as atenções e preocupações políticas, diplomáticas e militares poderão estar centradas em:

  1. Síria e Iraque: Os Estados Unidos e a coalizão internacional buscam afrouxar o controle do Estado Islâmico e estabelecer um Iraque estável. Contudo, a preocupação é de que o conflito conduza à dissolução do Iraque e que a tensão sectária aflija a região nos próximos anos, ao passo de expandir para um conflito de poder entre os vários grupos internacionais que contemplam interesse nos dois atores (Rússia, Turquia, Irã, Arábia Saudita, por exemplo). Atualmente, estima-se que a região tem seis mil homens das forças norte-americanas estacionados no Iraque, que já produziram, em média, 7.248 ataques aéreos a alvos do Estado Islâmico, os quais acarretaram, desde 2014, em 3,2 milhões de deslocados;
  2. Turquia: Sob tensão econômica e com alianças fracas, a Turquia enfrenta o agravamento dos conflitos na vizinha Síria e no Iraque, bem como o aprofundamento nas questões envoltas ao Partidos dos Trabalhadores do Curdistão (PKK – Parti Karkerani Kurdistan);
  3. Iêmen: Considerado um dos países mais pobres do mundo árabe, o conflito com a Arábia Saudita e seus aliados já contabiliza 4.000 civis mortos, com milhares de pessoas à beira da fome e sofrendo com o bloqueio econômico. Um cessar-fogo abrangente e um acordo político é apontado como sendo de extrema urgência para frear a crise humanitária que assola o país;
  4. Afeganistão: As forças militares dos Estados Unidos mantêm aproximadamente 8.400 homens estacionados em bases pelo país, com apoio de outros 12.930 soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), porém, mesmo com esse efetivo, a instabilidade ameaça à paz e a segurança internacional. Para a nova administração em Washington é vital preservar a segurança e os muitos ganhos políticos e econômicos conquistados desde 2001, pois, com um eventual ressurgimento do Taleban, isso poderia fazer com que o país se torne novamente um “porto seguro” para insurgentes e terroristas. Em complemento a instabilidade interna, poderiam surgir ramificações regionais maiores, uma vez que Paquistão, Índia, Irã e Rússia competem por influência em Cabul;
  5. Líbia: Há uma preocupação com a fratura permanente da Líbia, já que os vários grupos rebeldes e milícias insurgentes, que de acordo com fontes de inteligência são estimados entre 5.000 a 8.000 mil combatentes, tentaram dividir o país entre linhas políticas e tribais. Dentro desse quadro é incerto se o novo Governo de Unidade será capaz de reunir as facções em conflito e restabelecer a unidade na Líbia e reconduzir os aproximados 450 mil deslocados que fugiram das áreas de conflito desde a queda de Muammar Gadaffi;
  6. Myanmar: Naypyidaw era parte do plano de política externa do ex-presidente Barack Obama denominado “Pivot para Ásia. Contudo, não se sabe ao certo qual será o modelo de diplomacia adotado por Trump para a nação asiática. Por enquanto, o novo governo civil, liderado pelo prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, não consegue estabilizar os surtos de violência ocorridos em centros urbanos e comerciais próximos da fronteira com a China, resultando em uma nova escalada militar. Um processo de paz está em curso para a próxima Conferência Panglong, prevista para fevereiro, próximo, cujo enfoque será dado com todos os principais grupos étnicos armados do país;
  7. México: Um alto nível de tensão entre Estados Unidos e México pode se estabelecer. As promessas de construção de um muro na fronteira e a deportação de milhões de imigrantes indocumentados, bem como renegociação dos termos do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês) conjectura o fim de uma cooperação tradicional entre os dois vizinhos;
  8. República Popular Democrática da Coréia do Norte: A Coréia do Norte é uma potência nuclear com uma relação complexa com a China, sendo assim, impedir uma guerra na Península Coreana e um colapso interno da Coréia do Norte são interesses de segurança nacional dos EUA, que mantém 28.500 soldados em bases na vizinha Coréia do Sul. Pequenas provocações militares e cibernéticas por parte de Pyongyang representam riscos significativos, pois cada incidente traz consigo o potencial de escalada das tensões;
  9. Mar da China Oriental: O aumento dos sentimentos nacionalistas e a crescente desconfiança política aumentam o potencial de conflito na região. Embora a disputa por parte de chineses e japoneses acerca das Ilhas Senkaku/Diaoyu, bem como de outras 81 mil milhas em disputa marítima, compondo mais oito ilhas e 200 milhões de barris de petróleo, pode fazer com que uma ação não autorizada de comandantes locais acarrete na escalada involuntária de hostilidades. Devido a compromissos e tratados com o Japão, um confronto militar poderia envolver os Estados Unidos e, para preservar as relações com a China e continuar a cooperação em várias questões, Washington tem interesse em manter sempre baixo os níveis de tensão na região;
  10. Mar do Sul da China (Mar da China Meridional): Nessa região está estimada a existência de aproximadamente onze bilhões de barris de petróleo, mais 190 trilhões de metros cúbicos de gás natural, além de um total de US$ 5,3 trilhões em comércio anual, circulando neste lado do hemisfério. Para tanto, os Estados Unidos buscam manter seus importantes interesses em assegurar a liberdade de navegação e as linhas de comunicação marítima, por meio de um código de conduta vinculativo e outras medidas de confiança. É também visto como papel de Washington a prevenção contra uma escalada militar resultante de disputa territorial, no entanto, o Tratado de Defesa de Washington-Manila poderia implicar em um conflito China-Filipinas nas imediações de Reed Bank*, além de uma disputa entre China e Vietnã sobre reivindicações territoriais, que poderia ameaçar os interesses militares e comercias dos Estados Unidos.

Para um quadro bastante complexo para a nova administração Trump, em que todos os cenários expostos possuem um diálogo profundo entre diversos atores, a adoção de uma política diplomática pautada no hard power, tal como se conjectura coloca no horizonte a possibilidade da eclosão de conflitos de larga escala na agenda das Relações Internacionais dos próximos anos. Sendo assim, os especialistas apontam que será necessária a continuidade da cooperação e do multilateralismo para evitar tensões prolongadas.

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* Reed Bank: É uma grande mesa no Mar da China Meridional, com uma área de 8.866 km² e profundidades entre 9 e 45 metros. Faz parte do arquipélago das Ilhas Spratly. Embora o Tribunal Permanente de Arbitragem tenha decidido em 2016 que a área está dentro da Zona Econômica Exclusiva das Filipinas, os direitos econômicos sobre a área continuam a ser contestados – principalmente pela República Popular da China.

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Imagem 1Donald Trump Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_swearing_in_ceremony.jpg

Imagem 2 Síria Cidade antiga de Palmira” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADria#/media/File:Temple_of_Bel,_Palmyra_15.jpg

Imagem 3 Turquia Outdoor de campanha de Recep Tayyip Erdoğan em rua de Istambul, 2013” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Recep_Tayyip_Erdo%C4%9Fan#/media/File:RecebTayyibErdo%C4%9FanPoster.JPG

Imagem 4 Líbia – Manifestações contra Muammar alGaddafi em Bayda, 22 de julho de 2011 ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADbia#/media/File:Demonstration_in_Bayda_(Libya,_2011-07-22).jpg

Imagem 5 Reivindicações territoriais no mar da China Meridional” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Disputas_territoriais_no_mar_da_China_Meridional#/media/File:South_China_Sea_claims_map.jpg

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

[:pt]Ano do Galo e a política econômica da China na Era Trump[:]

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O Ano do Galo

Exibido. Franco. Corajoso. Consciente de suas obrigações sociais. Bravo combatente dos adversários. Multitarefa. Concentrado. Sensível e atencioso com os amigos. Sempre alerta, é meticuloso e detalhista. Dispensa projetos menos arriscados quando tem muitos pela frente, afinal, causar polêmicas é sua chance de aparecer. É negligente com parceiros de negócios ou amigos mais reservados. Prefere pessoas ativas como ele. Esse é o perfil das pessoas de Galo no horóscopo chinês”.

Desde 28 de janeiro de 2017, a China saúda o Ano do Galo. Segundo os chineses, o Ano do Galo é marcado por uma energia dinâmica de mudança, novas ideias e oportunidades. Um ano de “quebra” de barreiras, perda do medo e determinação em busca de um objetivo. Todos querem desfrutar do sucesso, pois é um Ano de concorrência acirrada nos negócios.

Acompanhando as análises e noticiários, há indícios de que o mundo dos negócios vá balançar em 2017, principalmente entre as duas maiores potências econômicas do planeta: os Estados Unidos da América e a China.

Não se trata da dicotomia Capitalismo versus Comunismo. As diferenças agora são entre a China de crescimento econômico e a favor da globalização e os Estados Unidos da América em recessão, ativando políticas protecionistas (leia-se barreiras aos superbaratos produtos chineses), embora pareça ser um paradoxo um país “comunista” e “em desenvolvimento” tentar diminuir barreiras alfandegárias, enquanto que a maior economia capitalista e desenvolvida do mundo implemente políticas protecionistas. 

Ora visto como liberal, ora conservador de direita, tem sido complexo para os analistas chineses definirem a personalidade do Presidente americano. O magnata estadunidense Donald Trump surpreendeu todo o mundo com sua vitória e ainda parece ser uma incógnita para analistas ocidentais e orientais.

Imprevisibilidade das políticas econômicas da China para a Era Trump

Como deixou claro em suas promessas de campanha, algumas cumpridas logo nos primeiros dias de governo, Donald Trump implementará mudanças financeiras internas que já repercutem no Mercado de ações das Bolsas de Valores de New York e na Dow Jones, que tem foco em empresas de tecnologia.

Analistas econômicos preveem a valorização do dólar, impactando ainda mais nas diferenças de preços dos produtos nos mercados internacionais e, consequentemente, gerando mais tensão e protecionismos. Politicamente, a imprensa asiática não fala em outra coisa senão na possibilidade de guerra entre os Estados Unidos e a China (talvez devido a fragilidade e/ou a aridez da pauta atual).

Em 27 de janeiro de 2017, o “South China Morning Post” publicou reportagem sobre aumento da tensão entre os dois países, provocada pela preparação de operações militares chinesas no Mar da China Meridional. Porta-aviões da marinha chinesa já estariam prontificados, próximo ao Estreito de Taiwan. Além disso, consideraram que a o conflito no Mar da China Meridional não seria “inevitável”, mas “imprevisível”, porque a tensão pode servir como estratégia de Donald Trump para forçar a China a fazer concessões sobre questões econômicas e comerciais.

O desafio dos analistas econômicos, jornalistas investigativos e profissionais de inteligência é descobrir quais as intenções da China diante do novo cenário político, afinal, o Estado chinês e Estados Unidos da América são os dois países mais ricos do mundo e os maiores parceiros comerciais mútuos.

Terão de identificar a estratégia de reação da China às políticas protecionistas de Donald Trump; será necessário observar o que a China pretende fazer para continuar atraindo fábricas de empresas estadunidenses e o que fazer se Trump repatriar as fábricas que já estão lá. Além disso, também está no contexto, identificar como a China conseguirá manter o fluxo de eletro-eletrônicos em direção ao mercado estadunidense.

São questões complexas também para os líderes chineses. As políticas de Pequim para reagir ao “efeito Trump” são imprevisíveis. O único sinal foi a reação do presidente chinês Xi Junping, em sua primeira visita ao Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), em 17 de janeiro de 2017 – portanto poucos dias antes da posse de Donald Trump como presidente eleito dos EUA, embora o Fórum tenha sido encerrado no dia de sua posse –, que pediu ao líderes econômicos globais que digam “não” ao protecionismo.

Xi Jinping aproveitou para dizer que a China “manterá suas portas abertas para o comércio exterior”, prometeu não desvalorizar a moeda chinesa como estratégia de comércio internacional, que expandirá tratados multilaterais e reduzirá acordos entre “grupos exclusivos e fragmentados por natureza”. Ele também lembrou que o crescimento da China ajudou no desenvolvimento de vários países. 

Esse pronunciamento revela que a China combaterá o protecionismo com mais liberalismo econômico, induzindo à conclusão de que protecionismo versus liberalismo pode ser a nova polaridade ideológica entre duas potências globais.

Eventual prejuízo chinês pode azedar as relações sinorussas

O grau de prejuízo que as políticas econômicas de Donald Trump podem gerar para a China poderá ser medido pelo desenvolvimento dos BRICS e pela relação dos chineses com os russos, acusados pelo serviço de Contrainteligência dos Estados Unidos da América, o Escritório Federal de Investigações (FBI), de realizar ações de inteligência durante as eleições estadunidenses para favorecer o então candidato Donald Trump, conforme foi amplamente disseminado na mídia.

Diante do cenário, pode-se pensar um horizonte em que, se a China for prejudicada com políticas protecionistas implementadas por Donald Trump, ela poderá exigir da Rússia esclarecimentos acerca da suposta interferência, pois acabaria resultando numa diminuição do poder econômico de um aliado estratégico com franca tendência de hegemonia asiática.

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Imagem 1 O Galo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Galo_(zod%C3%ADaco)  

Imagem 2 O Comunismo do filósofo alemão Karl Marx não é mais uma ameaça aos Estados Unidos da América” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunismo

Imagem 3 Donald Trump foi eleito presidente dos EUA sob promessa de ‘fazer os Estados Unidos grande de novo!’” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump

Imagem 4 Estados Unidos da América e China são as duas maiores potências econômicas e os maiores parceiros comerciais mútuos do planeta” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%B5es_entre_China_e_Estados_Unidos

Imagem 5 Xi Jinping, 7º Presidente da República Popular da China” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Xi_Jinping

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalORGANIZAÇÃO INTERNACIONALTecnologia

[:pt]Submarinos Convencionais e a Proliferação Nuclear[:]

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Normalmente, quando se fala em “submarino nuclear” estamos nos referindo a um submarino com propulsão nuclear. Os submarinos nucleares podem também ser dotados de armas nucleares, mas muitos deles não o são, como é o do caso do projeto do submarino nuclear brasileiro (SNBR). Existem diferentes “classes” de submarinos nucleares.

Os submarinos nucleares podem ser equipados com armas nucleares estratégicas (longo alcance), sendo classificados como “Submarinos Nucleares Lançadores de Mísseis Balísticos” (SSBN, no jargão dos EUA), ou armas nucleares táticas (médio alcance), sendo classificados como “Submarinos Nucleares Lançadores de Mísseis de Cruzeiro” (SSGN, no jargão dos EUA). Existem ainda os “Submarinos Nucleares de Ataque” (SSN, no jargão dos EUA) que não transportam, a princípio, armas nucleares, mas que poderiam ser dotados de torpedos com cabeça de combate nuclear. Nos projetos mais modernos, os SSN podem lançar mísseis SUB-SUP de curto ou médio alcance. Também poderiam, caso sejam de grande porte, ser dotados de cabeça de combate nuclear.

Nos primórdios da Guerra Fria, a então URSS chegou a empregar classes de submarinos convencionais dotadas de mísseis com cabeça de combate nuclear (classes Whiskey e Golf, no jargão da OTAN). No entanto, a partir do domínio tecnológico da propulsão nuclear, com a classe November (jargão da OTAN), os soviéticos abandonaram esse tipo de submarino convencional dotado de armas nucleares. Israel, como operador, e Alemanha, como projetista e construtor, estão fazendo ressurgir essa antiga classe de submarinos, testada e abandonada pela ex-URSS.

Com efeito, Israel e Alemanha encontram-se envolvidos num imbróglio associado a impropriedades num segundo contrato de bilhões de dólares pelo qual a empresa alemã ThyssenKrupp fornece três novos submarinos avançados à Marinha Israelense. Num contrato anterior, a Alemanha já entregou cinco de seis unidades contratadas. Recentemente veio a público que o advogado pessoal do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estava na folha de pagamento da empresa alemã contratada. Em seguida, verificou-se que o Irã, que seria a principal ameaça que motiva a aquisição dos submarinos, possui 4,5% do controle acionário da ThyssenKrupp e, deste modo, auferiria lucro com o negócio. Além disso, haveria uma obscura ligação libanesa com essa empresa alemã.

Esses fatos não serão discutidos aqui. Remeto o leitor interessado no tema a uma série de seis artigos publicada pela revista alemã Der Spiegel. Entretanto, cumpre ressaltar que o fato de a Alemanha estar fornecendo esses submarinos a Israel poderia caracterizar um descumprimento dos princípios do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Todos que conhecem o assunto sabem que os submarinos foram projetados e construídos para lançar mísseis de médio alcance armados com cabeça de combate nuclear.

O alcance desses mísseis é de cerca de 1.500 quilômetros, o que permite que Teerã seja um potencial alvo de um desses submarinos navegando no Mediterrâneo. Como se fosse para dirimir qualquer dúvida sobre este fato, o primeiro-ministro israelense Netanyahu já afirmou que os submarinos estariam dotados de sistemas de armas israelenses “avançados”, que seriam “usados antes de tudo para dissuadir nossos inimigos que se esforçam por nos extinguir. Eles devem saber que Israel é capaz de bater duro contra qualquer um que pretenda nos atacar”. O Governo alemão afirma nada saber sobre o eventual armamento nuclear dos submarinos, mas isso soa demasiado ingênuo.

O Tratado de Não-Proliferação nuclear proíbe aos seus cinco Estados-Membros dotados de armas nucleares “de jure” (EUA, Rússia, Grã-Bretanha, China e França) de darem qualquer tipo de assistência a qualquer outro Estado, membro ou não membro do Tratado, para obtenção de armas nucleares. Entretanto, o tratado não proíbe expressamente que os outros Estados-Membros não dotados de armas nucleares forneçam tal assistência, incluso para Estados que não são Partes no TNP, como Índia, Israel, Coréia do Norte e Paquistão, todos dotados com armas nucleares “de facto”.

Cumpre ressaltar que o fornecimento de submarinos por um Estado-Membro do TNP a outro Estado, membro ou não do Tratado, não constitui, a rigor, exatamente assistência para o desenvolvimento de armas nucleares. Entretanto, o fato que tais submarinos sejam capazes de lançar mísseis dotados de cabeça de combate nuclear é de extrema relevância no que tange o próprio princípio fundamental do Tratado, merecendo uma atenção especial da comunidade internacional.

Esta aparente incongruência reflete duas suposições feitas em 1968, quando o Tratado foi aberto a assinaturas, que mostraram, com o tempo, não ser realistas. A primeira seria que os Estados-Membros não dotados de armas nucleares não teriam qualquer tecnologia relacionada com armas nucleares para transferir a outros países, o que tornaria uma proibição explícita desnecessária. A segunda seria que um sistema eficaz de proteção contra a proliferação poderia ser limitado a salvaguardar a transferência de materiais nucleares a partir dos quais poderiam ser fabricadas armas nucleares.

Assim, o tratado desconhece o comércio e transferência de tecnologia associada a vetores de lançamento, como mísseis, aeronaves, veículos e instalações terrestres e, no caso, submarinos, que podem ser adaptados ao lançamento de mísseis com ogivas nucleares. Somente para os mísseis existe um regime internacional de controle, o chamado Missile Technology Control Regime (MTCR).

Esse fato faz com que qualquer Estado-Membro do TNP esteja violando o Tratado caso transfira à Índia, Israel, Coréia do Norte ou Paquistão quantidades de plutônio ou urânio enriquecido, a menos que tal transferência seja feita sob salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA). Estaria também violando o Tratado um Estado-Membro dotado de armas nucleares que transferisse tecnologia associada as armas nucleares a qualquer outro estado, membro ou não-membro do TNP (há suspeitas que a China tenha feito isso com relação ao Paquistão).

Entretanto, se um Estado-Membro não dotado de armas nucleares fornecer tecnologia associada a vetores de lançamento de armas nucleares, tais como mísseis que possam ser dotados cabeça de combate nuclear ou submarinos com capacidade de lançar esses mísseis, para um Estado não-membro, não estaria violando o TNP, entendido estritamente ao pé da letra. No caso dos mísseis, poderia ser verificada uma violação do MCTR, mas não do Tratado.

Mas essa realidade não diminui a obrigação das partes de agir de acordo com os objetivos fundamentais do TNP. O preâmbulo do Tratado afirma que os membros acreditam que “a proliferação de armas nucleares aumentaria seriamente o perigo de uma guerra nuclear”. A obrigação de restringir os programas de armas nucleares de países que não são membros do TNP não é suspensa quando esses países obtêm efetivamente armas nucleares.

Ao fornecer a Israel submarinos capazes de lançar mísseis com cabeça de combate nuclear, a Alemanha permitiu a esse país não membro do TNP, dotado de armas nucleares “de facto”, ter a possibilidade de lançar uma arma nuclear sobre qualquer lugar da Europa, Norte da África ou Oriente Médio a partir de um submarino de médio porte e altamente silencioso submerso no Mediterrâneo, o que o tornaria praticamente invulnerável. Isso certamente está em desacordo com o espírito que motivou a negociação do Tratado, fundamento do regime internacional de não proliferação nuclear, ainda que não constitua violação explícita aos seus termos.

A exportação de submarinos alemães é talvez a inconsistência mais flagrante da política de não proliferação nuclear das grandes potências. Israel, entretanto, não é o único Estado não membro do TNP a se beneficiar da disparidade entre os compromissos e práticas desses países. A China é suspeita de ter oferecido ao Paquistão um projeto de ogiva nuclear e a Rússia tem ajudado a Índia a desenvolver um submarino nuclear desde o final da década de 80, tendo inclusivo feito “leasing” de unidades de sua própria marinha. O primeiro SSBN indiano, “Arihant”, se tornou operacional em 2016.

Esses casos colocam a questão sobre em que medida os compromissos dos Estados-Parte do TNP se aplicam aos Estados que não são membros, mas que ultrapassaram o limiar de obtenção de armas nucleares, ou seja, em que medida os Estados não partes do TNP dotados de armas nucleares “de facto” podem ser tratados como se membros do TNP dotados de armas “de jure” fossem.

Nesse caso, entrariam em cena as diretrizes do Nuclear Suppliers Group (NSG), que regulam o comércio de bens e serviços nucleares entre os Estados que dele fazem parte e todos os demais Estados. Note-se, entretanto, que os Estados não membros do TNP não fazem parte do NSG. A Índia vem fazendo gestões para integrá-lo, mas até o presente não foi incluída no Grupo.

Casos em que um Estado-Membro do TNP, especialmente uma grande potência, fornece a um Estado não membro equipamentos associados a vetores de lançamento de armas nucleares enviam uma mensagem implícita que incentiva os Estados não dotados de armas nucleares a buscá-las, pois sabem que depois de as obterem poderão ser objeto de um “tratamento especial”. O caso da Coréia do Norte parece ser um claro exemplo deste efeito. Isto seria claramente contrário ao regime de não proliferação nuclear, em que pese o fato desse regime ser marcado por abordagens inconsistentes.

Todos os casos aqui citados se referem a relações entre Estados-Parte e Estados não membros do TNP. O Tratado, entretanto, prevê relações entre um Estado-Membro dotado de armas nucleares “de jure” e outro Estado-Membro não dotado de armas nucleares, desde que sejam respeitados os princípios do regime internacional de não proliferação. Este é o caso da parceria estratégica França – Brasil para o desenvolvimento de submarinos, o projeto chamado PROSUB, que envolve transferência de tecnologia e construção de quatro submarinos convencionais e uma quinta unidade de propulsão nuclear.

O Brasil é Estado-Parte do TNP desde 1998, tendo um acordo de salvaguardas abrangentes com a AIEA, em vigor desde 1991 (INFCIRC-435), que admite o desenvolvimento de usos militares da energia nuclear não proscritos pelo TNP, como é o caso da propulsão nuclear de navios e submarinos. Além disso, a Constituição Federal de 1988 (art. 21 XXIII a: “toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional”); proscreve as atividades nucleares associadas a armas nucleares no País. Desde o final da década de 70, o Brasil se engajou no desenvolvimento tecnológico da propulsão nuclear para submarinos, que é um uso militar não proscrito pelo TNP.

A transferência de tecnologia do “Acordo Brasil – França”, no que tange ao primeiro submarino de propulsão nuclear nacional, se limita aos aspectos ligados à plataforma-navio e sistemas de combate, excluindo totalmente qualquer aspecto ligado à propulsão nuclear, que é inteiramente desenvolvida de forma autóctone. Por sua vez, as armas previstas para os sistemas de combate se limitam a lançamento por tubos de torpedos cujas dimensões impossibilitam tecnicamente um eventual uso de armas que possam ser dotadas de cabeça de combate nuclear.

Um passo responsável da comunidade internacional seria fechar, discutir e regulamentar o tema da assistência prestada pelos Estados Membros do TNP aos Estados não membros em áreas que possam estar associadas aos seus programas de armas nucleares “de facto”. Realisticamente, isso não parece estar na agenda política e diplomática global. Os Estados-Membros do TNP devem entender que, quando se trata dos princípios do Tratado, fazer “vista grossa” para “desvios” em países não membros do Tratado é uma receita para a disseminação de armas nucleares e seu aumento. Esse, sem dúvida, é um tema relevante para a segurança internacional.

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Imagem 1 Míssil balístico lançado por submarino nuclear, do tipo Trident II utilizado pela Marinha Inglesa nos submarinos de Classe Vanguard” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Submarino_nuclear_lançador_de_m%C3%ADsseis_bal%C3%ADsticos#/media/File:Trident_II_missile_image.jpg

Imagem 2 Submarino Classe Whiskey no Museu de São Petersburgo” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Whiskey-class_submarine#/media/File:S-189_in_Saint_Petersburg.JPG

Imagem 3 Submarino Classe Golf II” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Golf-class_submarine#/media/File:Image_Submarine_Golf_II_class.jpg

Imagem 4 Benjamin Netanyahu” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Netanyahu#/media/File:Benjamin_Netanyahu_2012.jpg

Imagem 5 Mapa do países em Relação ao TNP” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Não_Proliferação_de_Armas_Nucleares

Imagem 6 Sede da AIEA desde 1979 em Viena, Áustria” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Agência_Internacional_de_Energia_Atómica#/media/File:Vereinte_Nationen_in_Wien.jpg

Imagem 7 Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (Preâmbulo)” (Fonte):

https://www.iaea.org/sites/default/files/publications/documents/infcircs/1970/infcirc140_sp.pdf

Imagem 8 Desenho conceitual do INS Arihant” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/INS_Arihant#/media/File:Arihant_1.jpg

Imagem 9 Foto da Página do NSG” (Fonte):

http://www.nsg-online.org/es/

Imagem 10 Página do PROSUB” (Fonte):

https://www1.mar.mil.br/prosub/

Imagem 11 Iperó (SP) – O capitão Ferreira Marques mostra réplica do futuro submarino nuclear brasileiro SN Álvaro Alberto (SN10)” (Fonte – Reporter Vladimir Platonow / ABr):

https://pt.wikipedia.org/wiki/SN_Álvaro_Alberto_(SN-10)#/media/File:Réplica_de_submarino_nuclear.jpg

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Fonte Consultada:                                                                                                                   

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

[:pt]Donald Trump pretende reduzir contribuição dos EUA na ONU[:]

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Desde o dia 20 de janeiro, quando ocorreu a posse do presidente-eleito dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, as promessas de sua campanha começaram a ser postas em prática, entre elas estão os assuntos mais comentados na imprensa internacional: a saída dos EUA do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) e a criação do muro que fará fronteira com o México. Porém, o tema que anda preocupando o Sistema Internacional, de forma intensa, tem sido a decisão de Trump em reduzir o financiamento estadunidense à Organização das Nações Unidas (ONU).

A notícia veio a público no dia 25, quarta-feira passada, por meio do jornal internacional The New York Times (NYT). Segundo ele, a porta-voz da Secretaria Geral da ONU, Stephane Dujarric, afirmou que a administração de Trump almeja, por meio de um Decreto, fazer reajustes de 40%, ou até cortes, nas contribuições financeiras dos EUA a várias agências da ONU e organizações internacionais, além de revisar vários Tratados em que o país norte-americano esteja inserido.

Segundo a reportagem do NYT, uma comissão deverá ser realizada para definir e recomendar quais órgãos internacionais deixarão de ter o financiamento ou a redução do mesmo. Até lá, alguns critérios para que isso aconteça já foram determinados.

O Decreto chamado de “Auditoria e Redução do Financiamento dos EUA para as Nações Unidas” poderá encerrar o fornecimento de dinheiro para agências que reconheçam a Autoridade ou a Organização para Libertação da Palestina. Serão encerrados também, o financiamento para aquelas agências que promovam qualquer tipo de atividade contrária às sanções ao Irã e à Coreia do Norte e até mesmo para aquelas que apoiam o aborto.

Ainda segundo o NYT, também estão na “lista negra” de redução ou cortes de financiamento, aquelas organizações controladas por Estados que apoiam o terrorismo ou que possuem qualquer influência de Estados suspeitos de violação aos Direitos Humanos. Além disso, uma ordem adicional já foi decretada para pedir recomendações sobre acordos que poderão, eventualmente, ser revogados, além de exigir a revisão dos Tratados multilaterais.

O motivo para a decisão de Trump em relação a ONU, considerada por analistas internacionais como “radical”, pode ter sido desenvolvida devido seus conceitos formados sobre a Organização. Alguns dos argumentos foram pronunciados pelo próprio Presidente durante coletivas de imprensa no mês de dezembro (2016), segundo ele, a ONU “não resolve nada e só causa problemas”, além de servir como “um clube para as pessoas se reunirem e passarem um bom tempo”.

O NYT teve acesso a alguns rascunhos sobre o Decreto que estabelece a redução do financiamento e, nele, consta que a mesma comissão que servirá para analisar quais órgãos poderão ter seu financiamento reduzido ou cortado, poderá também estudar, analisar e fiscalizar as Missões de Paz da ONU, o Tribunal de HAIA, que é o principal órgão jurídico da Organização, e o Fundo de População da ONU, que é responsável por supervisionar programas de saúde materna e reprodutiva.

Segundo Dujarric, a nova administração está consciente do ambiente atual e por conta disso expressou confiança de que tanto a ONU quanto os EUA “irão trabalhar juntos e superar todas essas questões”. Atualmente, os EUA são responsáveis por “22% do orçamento operacional da ONU e financiam 28% das 16 missões de paz, que custam em média, 7,8 bilhões de dólares anuais”.

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Imagem 1 Trump faz o juramento de posse como presidente, em 20 de janeiro de 2017” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Donald_Trump_swearing_in_ceremony.jpg

Imagem 3 Esboço de Franklin Roosevelt, feito em 1943, que mostra as três agências principais das Nações Unidas: a Four Policemen, um ramo executivo, e uma assembleia internacional de quarenta estadosmembros” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_das_Nações_Unidas#/media/File:United_Nations_organization_sketch_by_Franklin_Roosevelt_with_the_Four_Policemen_in_1943.jpg

Imagem 3 Sala do Conselho de Segurança, em Nova York” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_das_Nações_Unidas#/media/File:UN-Sicherheitsrat_-_UN_Security_Council_-_New_York_City_-_2014_01_06.jpg

 Imagem 4 Palácio da Paz, em Haia, sede da CIJ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tribunal_Internacional_de_Justiça#/media/File:International_Court_of_Justice.jpg

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ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

[:pt]Os Aspectos Globais da Guerra na Síria[:]

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Perto de completar seis anos, a Guerra na Síria, que começou na sequência da Primavera Árabe, a partir de protestos da população contra o Presidente Bashar al-Assad por conta do descontentamento com o alto índice de desemprego, corrupção,  falta de liberdade política e repressão, evoluiu para uma das guerras mais sangrentas da atualidade. O levante que, inicialmente, foi denominado de Guerra Civil, em pouco tempo perdeu as características deste tipo de conflito. Na medida em que a Guerra passou a ser polarizada por países e grupos estrangeiros ela ampliou-se e atingiu uma dimensão complexa, formada por camadas distintas e alicerçada pelos interesses de atores externos. A atuação de milícias não nacionais e de potências regionais e globais criou uma guerra dentro da guerra e, simultaneamente, quebrou o elo que, de certo modo, unia os sírios em torno da luta por mudanças internas. Hoje, os objetivos primários que conduziram à insurreição na Síria estão praticamente esquecidos e muitos tentam, apenas, salvar as suas vidas ante a violência na disputa pelo domínio de áreas em conflito entre as diferentes facções presentes no território sírio, incluindo os fundamentalistas islâmicos e estrangeiros que fazem a guerra por procuração.

Na atualidade, não é correto afirmar que existe uma Guerra Civil na Síria. Deste modo, a Guerra Civil é apenas uma dentre as várias facetas do conflito que compõem aquele enfrentamento armado. Porém, este fato não significa que o regime de Bashar al-Assad esteja isento da responsabilidade de contribuir para o aumento da violência. O confronto, considerado por vários analistas como uma Guerra contra o povo sírio, teve origem na política de al-Assad que, atualmente, com o apoio de seus aliados, tem acelerado a agressividade contra os seus compatriotas. Segundo a Rede Síria para os Direitos Humanos, as forças do Governo são responsáveis por “matar 95% das vítimas sírias” e, além disso, controlam as Forças Armadas, têm a posse de armas de guerra tais como blindados, aviões, bombas barril[1], mantêm o controle sobre o Serviço de Inteligência e militar e usaram armas químicas contra o seu próprio povo. Os 185.180 Km2 do território da Síria transformaram-se no bastião dos insurgentes islâmicos, mas também das grandes potências regionais e ocidentais que financiam o Governo e a oposição, contribuindo para a intensificação dos embates.

A atmosfera que rodeia a Síria converge para o reencontro das rivalidades e de aliados do tempo da Guerra Fria, evidenciando a continuidade da luta geopolítica entre os centros de poder e de decisão global. Neste contexto, os laços tradicionais existentes naquela época se revelam na atualidade, mostrando que o fim da União Soviética e as mudanças políticas ocorridas no mundo não foram capazes de destruí-los, mas apenas transferi-los. Isto pode ser verificado entre a Rússia e a Síria, cujos vínculos existentes datam do período da União Soviética. É de conhecimento geral que a Rússia é fornecedora de armas e de táticas militares para o país árabe mas, para além disso, ambos partilham interesses comuns no que diz respeito às questões econômicas, estratégicas e políticas, levando em consideração que defendem “uma ordem mundial multipolar que enfatiza o primado da soberania nacional”. No entanto, os EUA, outro protagonista do mundo bipolar e a maior superpotência do planeta, lideram a coalizão de países que se opõe ao regime de Bashar al-Assad e ao Estado Islâmico e apoia os rebeldes moderados, ao mesmo tempo em que evita atacar as forças do regime. Porém, no presente, já não se acredita mais na existência de grupos moderados no conflito sírio, uma vez que todos atuam de maneira brutal, em causa própria.

No complexo jogo político, o Irã, que é o aliado mais próximo de al-Assad, tenta salvar o seu “principal ponto de trânsito de armamentos que Teerã envia” para o Hezbollah, no Líbano. Paralelamente a isto, o país dos Aiatolás rivaliza com as potências do Golfo Pérsico, de orientação sunita, nomeadamente com a Arábia Saudita que se opõe ao Governo de al-Assad e procura neutralizar a tentativa iraniana de domínio no Oriente Médio. Isto se tornou para a Arábia Saudita um empreendimento caro, pois, de acordo com informações, a petromonarquia saudita é um dos principais financiadores de radicais sunitas na Síria e o Qatar, outro país do Golfo Pérsico, não fica atrás. A Turquia é mais uma importante potência regional envolvida na Guerra na Síria. Os turcos, embora partilhem pontos comuns com a coalizão internacional e estejam empenhados em combater al-Assad, têm interesses exclusivos que visam atender os objetivos traçados no âmbito da sua política interna como, por exemplo, o combate à minoria curda síria, com a finalidade de evitar que obtenham sucesso na busca pela autonomia na Síria, o que daria fôlego ao ideal separatista dentro do território turco. Desde o início, a Turquia apoiou os grupos rebeldes com a intenção de derrubar Bashar al-Assad. Esta ação, conforme afirmou Mustafa Göktepe, Presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia, faria da Turquia “o único país com estabilidade política e social na região, além de chegar até Damasco e rezar na imponente e importante mesquita dos Omíadas. Isso tem um significado religioso e dá sinais sobre o novo Califa dos muçulmanos”. 

A Guerra na Síria se desenvolveu e segue o seu processo de evolução, em conformidade com os interesses geopolíticos e econômicos das potências externas. Isto, somado a outros elementos, nos permite assegurar que não se trata de uma Guerra Civil, mas de um conflito de caráter internacional, na medida em que “as armas são estrangeiras, os combatentes são estrangeiros e a agenda é estrangeira”. Há um esforço por parte dos atores estrangeiros que, direta ou indiretamente se encontram no teatro de operações, para convencerem a população mundial que aquele conflito é de natureza civil e, até agora, têm sido bem sucedidos no fator persuasão, pois esta é uma guerra distante, não há vítimas de bombardeamentos, batalhas e refugiados nacionais. Mas as análises confirmam que a denominação de Guerra Civil na Síria é um “termo equivocado, tanto quanto chamar aqueles que tomam as armas de ‘oposição’”, é um mito.

Neste sentido, as negociações de tréguas e de paz são infrutíferas, porque os acordos não são assinados por todas as facções armadas, como o Estado Islâmico, a al-Qaeda, a Frente da Conquista do Levante, a antiga Frente al-Nusra, e tantos outros grupos insurgentes que têm uma agenda própria ou de seus patrocinadores. Compreender o que realmente está ocorrendo na Síria é fundamental para se chegar a uma solução de paz, no futuro, devolvendo a tranquilidade ao povo sírio evitando, ainda, que novas frentes de batalha sejam abertas em áreas geoestratégica e geopolítica importantes, em alguma outra parte do planeta.

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Imagem 1Bairro Karm alJabal, Aleppo, 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Aleppo_(2012%E2%80%9316)#/media/File:Syria-_two_years_of_tragedy_(8642756918).jpg

Imagem 2Navios de guerra americanos USS Arleigh Burke (DDG51) e USS Philippine Sea (CG-58) disparando mísseis BGM109 Tomahawk contra posições do Estado Islâmico na Síria, em 23 de setembro de 2014” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria#/media/File:Tomahawk_Missile_fired_from_US_Destroyers.jpg

Imagem 3O expresidente da Rússia, Dmitry Medvedev, com o presidente da Síria, Bashar alAssad” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Relações_entre_Rússia_e_S%C3%ADria

Imagem 4Brasão de armas da Arábia Saudita” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arábia_Saudita#/media/File:Coat_of_arms_of_Saudi_Arabia.svg

Imagem 5F16 da Força Aérea, fabricado pela TAI” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Turquia#/media/File:Turkish_Air_Force_(F-16C_Falcon).jpg

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Bomba barril: “São barris velhos de petróleo cheios de todo tipo de explosivos, pregos, gasolina e até cloro ou outros agentes químicos. Jogadas de grandes alturas sobre áreas densamente povoadas, elas são toscas, cruéis e indiscriminadas”.

Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/artigo-carnificina-causada-pelas-bombas-de-barril-na-siria-15565247

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