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Primeira Cúpula Humanitária Mundial: o que será debatido e o que esperar?

Pela primeira vez, em 70 anos de história, a Organização das Nações Unidas (ONU) preparará uma Cúpula Humanitária Mundial. A razão é simples: o mundo está enfrentando a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA), a crise na Síria – já no quinto ano – continua a impulsionar o maior êxodo de refugiados desde então. Mais de 830 mil refugiados e migrantes já foram para a Europa em 2015, para fugir da guerra. Cerca de 250 mil pessoas já foram mortas e mais de 1,2 milhão foram feriadas.

Nesse contexto, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, convocou em 2012 a realização da Cúpula, quando o mundo começava a evidenciar o aumento da lacuna financeira para a assistência humanitária – entre o que era necessário e o que era arrecadado – e o aumento exponencial de refugiados ambientais e de cenários de guerra.

No tocante às finanças, a ONU arrecadou US$ 64 bilhões para o provimento da assistência humanitária no período 2005-2014. Contudo, o valor não foi suficiente para atender a todos os demandantes, restando um acumulado de US$ 35,4 bilhões que não foram arrecadados (unmet needs), comprometendo o atendimento a milhões de pessoas.

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Fonte: Restoring Humanity: global voices calling for action: http://synthesisreport.worldhumanitariansummit.org/

Em 2016, a OCHA estuda a necessidade de US$ 20,1 bilhões para responder às necessidades de 87,6 milhões de pessoas em 37 países. Destacam-se as assistências humanitárias para Síria (US$ 8 bilhões), Iêmen (US$ 1,6 bilhão), Etiópia (US$ 1,4 bilhão) e Sudão do Sul (US$ 1,9 bilhão).

Para minimizar os efeitos dos conflitos, a Cúpula adotará o discurso “Humanidade: uma responsabilidade compartilhada”, mediante cinco grandes responsabilidades: 1) liderança política para prevenir e cessar conflitos; 2) defender as normas que assegurem a humanidade; 3) deixar ninguém para trás; 4) mudar a vida das pessoas – prestando ajuda para diminuir as necessidades; e 5) investir na humanidade.

Para a ONU, apesar das causas diferentes e complexas em cada conflito, o resultado é usualmente parecido: eles surgem em locais que eram considerados seguros, ganham intensidade e apresentam um retrocesso quando parecia estar resolvido. Além disso, um terço dos atuais conflitos incluem atores externos que apoiam um ou mais partes do conflito, tornando-os mais internacionalizados, mortais e prolongados. Por essas razões, dois terços das operações de manutenção da paz da ONU e quase 90% do pessoal da Organização, envolvidos em missões políticas especiais, estão trabalhando dentro ou com os países em conflitos de alta intensidade. Na Cúpula, pretende-se fortalecer a demonstração de liderança política de forma decisiva, coerente e respeitando os prazos, sustentar o engajamento antes e após as crises e investir em estabilidade ao longo do tempo.

A segunda responsabilidade ressalta a importância de respeitar o direito internacional e os limites da guerra. Atualmente, vários civis estão sendo feridos e mortos deliberadamente; mulheres e meninas são abusadas e vendidas como escravas sexuais; jornalistas são detidos e assassinados; escolas, hospitais e igrejas são bombardeados. Nesse sentido, o relatório síntese já aponta o reforço dos ataques dirigidos a cidadãos, os bombardeios às regiões habitacionais, bem como a necessidade à assistência médica aos feridos de guerra, a necessidade de reforço ao sistema de justiça global – como a Corte Criminal Internacional – e a necessidade do uso do Conselho de Segurança da ONU.

A terceira responsabilidade representa uma ponte entre os assuntos humanitários e a Agenda 2030, referente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Com o discurso de “Não deixar ninguém para trás”, esse comprometimento significa alcançar todos aqueles que se encontram em situações de conflito, desastres, vulnerabilidade e risco. Nesse intuito, a Cúpula reforçará a inclusão de jovens como agentes de transformação positiva em suas comunidades, o apoio à educação de crianças e jovens – principalmente os que se refugiaram –, o empoderamento de mulheres e crianças e o comprometimento com as vulnerabilidades e as oportunidades legais para os migrantes.

A quarta responsabilidade visa à mudança na vida das pessoas, ao reforçar o papel de sistemas locais, a antecipação das crises e o corte da dicotomia humanitarismo-desenvolvimento. A operacionalização desse item consiste na ratificação dos espaços locais e nacionais como principais agentes da mudança, a construção de resiliência pelas comunidades locais, a antecipação das crises mediante o emprego de análises de riscos e o emprego conjunto de esforços que ora colaboram para as causas humanitárias (emergenciais), ora para a provisão de bens públicos para o desenvolvimento social e econômico no médio e longo prazos.

A implementação das quatro responsabilidades citadas acima requer o comprometimento ético, político e financeiro da quinta, ou seja, “investir na humanidade”. Em termos brutos, a atual arrecadação para a cooperação humanitária é doze vezes maior do que em 2000, quando a OCHA arrecadou US$ 2 bilhões. Entretanto, o investimento não pode ser resumido ao aspecto financeiro, mas do próprio sistema. No relatório “Too importante to fail – addressing the humanitarian financing gap” afirma-se que a atual cooperação humanitária reflete os fracassos de um sistema mais amplo, ao conviver paradoxalmente com um mundo mais rico e próspero de um lado e um mundo mais frágil e com inúmeros choques exógenos causados por crises financeiras, desastres naturais e grupos extremistas. Além disso, se mantiver a tendência, ao fim da Agenda 2030, o custo da assistência humanitária saltará para US$ 50 bilhões.

Nesse sentido, a Cúpula debaterá assuntos como o aumento do custo-eficiência, o reforço do papel de agentes locais nas crises humanitárias e a realocação de recursos – anteriormente destinados para a gestão de crises – para a prevenção de crises e a construção de resiliência nas comunidades.

Diante da agenda compartilhada para o evento e do engajamento da sociedade civil por meio de discussões online e consultas públicas a pesquisadores, jornalistas e ativistas, a Cúpula revelará três aspectos centrais para o curto e médio prazo da cooperação humanitária. Em primeiro lugar, não há dúvidas de que a atual crise tem afetado diretamente as políticas domésticas, comprometendo questões relacionadas à circulação de pessoas, a defesa dos postos de trabalhos e o xenofobismo. Portanto, a participação dos Chefes de Estado e de Governo evidenciará a importância relativa das causas humanitárias para os respectivos países. Considerando a gravidade da situação, a Cúpula tem estimulado a comunidade online a convocar seus líderes nacionais para se fazer presente no evento.

Em segundo lugar, a Cúpula colocará em xeque o atual sistema humanitário internacional, no tocante à efetividade de suas ações e à necessidade de rever conceitos. Temas como resiliência, custo-eficiência, prevenção de desastres e empoderamento de agentes locais estão no centro do debate, cabendo às autoridades e líderes definirem o passo-a-passo dessas abordagens. Contudo, essas novas ações deverão ser acompanhadas nos próximos anos, de forma a garantir a aplicação das ideias e a solução dos atuais entraves logísticos e operacionais.

Por fim, o engajamento e a publicidade da Cúpula poderão atingir a opinião pública em temas delicados, amenizando as atuais polaridades existentes nos assuntos humanitários, tais como: a relação humanitarismo x desenvolvimento; a construção de muros x a livre circulação dos refugiados; e o respeito aos costumes dos refugiados x a adaptação às regras da nova sociedade.

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Imagem (Fonte):

http://unfoundationblog.org/wp-content/uploads/2016/04/980105_1347824971900415_25834821168529826_o.png

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Terrorismo Nuclear: a soma de todos os medos

A palavra “nuclear” evoca o grande medo da humanidade na segunda metade do século 20: a terceira guerra mundial, que decorreria de um momento “quente” da Guerra Fria, como a crise dos mísseis de Cuba, e o subsequente “inverno nuclear”, que ocorreria após a “Mútua Destruição Assegurada”, MAD, em sua sigla em inglês (“Mutual Assured Destruction”), aniquilando grande parte da vida no planeta. A imagem da explosiva “nuvem cogumelo sobre Hiroxima e Nagasaki está indissociavelmente ligada a essa palavra, despertando pavor em nossos corações e mentes.

A palavra “terrorismo” evoca o grande medo desta primeira metade do século 21: um atentado em grande escala que causaria disrupção da sociedade em escala local, nacional e até mesmo global. Esse medo generalizado se instala após o paroxismo dos ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, sendo reforçado pelos ataques que se sucederam desde então. A imagem da queda das Torres Gêmeas do World Trade Center está, por sua vez, fortemente associada a esta palavra.

Colocar essas palavras juntas, na forma de “terrorismo nuclear”, cria um espectro ainda mais assustador que cada uma individualmente já desperta. Essa combinação de palavras soa como a “soma de todos os medos” da humanidade. Esse temor foi ainda reforçado recentemente, desde que as autoridades europeias revelaram que o grupo por trás dos ataques terroristas de novembro de 2015 em Paris também estava espionando um funcionário sênior do Centro de Estudos Nucleares de Möl (SCK/CEN), na Bélgica, dando concretude a essa terrível ameaça potencial.

Entretanto, o que “terrorismo nuclear” realmente significa? As matérias veiculadas pela mídia sobre o tema nem sempre explicam, e, às vezes, não conseguem distinguir entre eventos completamente diferentes um do outro e que, felizmente, nunca vieram a efetivamente acontecer até hoje. Na verdade, o “terrorismo nuclear” pode se referir a diversos eventos possíveis, com diferentes graus de probabilidade de ocorrência e de gravidade de consequências. Devemos buscar entender esses eventos para priorizar a prevenção, proteção e remediação daqueles que representam os maiores riscos. Desde já é importante saber, para reduzir a angústia gerada por esse espectro ameaçador, que o cenário mais terrível associado ao terrorismo nuclear é também o menos provável.

O terrorismo nuclear muito provavelmente não será algo como um “califa” de um autodenominado “Estado Islâmico” lançando com sucesso um míssil balístico com uma ogiva nuclear em uma grande cidade, incinerando milhões de pessoas em uma “nuvem cogumelo” gigante. Há tantas barreiras técnicas, financeiras, militares e logísticas contra isso, que seria extremamente improvável até mesmo para o grupo extremista nuclear mais obcecado ter chance de fazer isso acontecer. Entretanto, o fato do terrorismo nuclear muito pouco provavelmente teria condições de trazer o pesadelo da Guerra Fria à realidade não quer dizer que possamos relaxar a necessária vigilância permanente. Existem três tipos possíveis de terrorismo nuclear ou radiológico.

A primeira possibilidade, a mais difícil de se concretizar, mas de longe a mais devastadora caso se concretize, seria uma organização terrorista adquirir, através da compra ou roubo do arsenal de um Estado nuclearmente armado, ou construir por seus próprios meios, uma bomba nuclear, e em seguida detoná-la numa grande cidade. Seria um cenário de baixíssima probabilidade, mas de elevadíssima gravidade.

A segunda possibilidade seria a detonação de uma “bomba suja”, ou seja, uma arma feita de material radioativo ligado a explosivos convencionais, por vezes referida como um “dispositivo de dispersão radiológica”, ou RDD, da sigla em inglês “Radiological Dispersal Device”. A concretização deste cenário aparenta ser, a princípio, tão simples, que chega a ser surpreendente o fato dele nunca ter ocorrido. Seria um cenário de probabilidade relativamente alta, mas de gravidade relativamente menor.

A terceira possibilidade, cuja probabilidade de ocorrência, quando se considera as barreiras para sua concretização, bem como a gravidade das consequências, caem em algum lugar entre as duas outras, seria a sabotagem de uma instalação nuclear, induzindo a ocorrência de um acidente severo, com liberação de material radioativo em áreas externas circunvizinhas da instalação. Seria algo como um acidente de Fukushima provocado pela ação terrorista. Seria um cenário de probabilidade e gravidade intermediárias, em relação aos anteriores.

O cenário menos provável, mas de maior gravidade: uma arma nuclear.

A razão pela qual este primeiro cenário seja altamente improvável reside na dificuldade de roubar, comprar ou construir uma arma nuclear. Embora existam cerca de 10.000 ogivas nucleares no mundo, elas são fortemente vigiadas e não são armazenadas em condições de pronto uso. Roubar uma dessas armas pronta ou suas partes para posterior montagem exigiria a cooperação de muito mais do que apenas algumas pessoas corruptas ou coagidas.

Existe a preocupação de que terroristas poderiam ser capazes de comprar uma arma nuclear de uma potência nuclear hostil aos interesses ocidentais, como talvez a Coreia do Norte ou o Paquistão. Esse medo, entretanto, parece ser exagerado. Um ataque nuclear terrorista não iria permanecer no anonimato por muito tempo e logo seria rastreado o Estado a quem pertencia a arma através das técnicas forenses nucleares (“nuclear forensics”), capazes de identificar com muita precisão a origem do material físsil empregado. Poucos líderes nacionais seriam loucos, ingênuos ou suicidas o suficiente para pensar que não seriam descobertos, ou que, se fossem, não haveria retaliações maciças contra o seu país.

Quanto à construção de uma arma com seus próprios meios, é altamente improvável que possa estar potencialmente ao alcance das capacidades de uma organização terrorista, mesmo que tecnicamente sofisticada, algo tão complexo e de longo desenvolvimento quanto as ogivas de propriedade dos Estados nuclearmente armados. Ainda mais improvável seria fazer isso de forma totalmente secreta, sem ser descoberto ao longo do processo. Não se deve, entretanto, descartar a possibilidade de um dispositivo nuclear improvisado ou IND, da sigla em inglês (“Improvised Nuclear Device”), de menor complexidade e desenvolvimento mais rápido, que poderia ser algo semelhante à bomba de Hiroxima.

No entanto, além de equipamentos e conhecimentos, a organização terrorista em busca de uma arma nuclear precisaria vencer o que seria o maior obstáculo ao seu intento maligno: obter uma quantidade significativa de plutônio “weapon grade”, ou urânio altamente enriquecido. Teoricamente, a massa crítica de uma esfera nua de urânio-235 puro (100% enriquecido) é de 52 kg num diâmetro de 17 cm. Para o plutônio-239, os valores são inferiores (10 kg; 9,9 cm). Entretanto, não é possível obter-se esses materiais na sua forma pura, sendo as quantidades necessárias na prática bastante superiores, dependendo do grau de enriquecimento do urânio e grau de “contaminação” do plutônio por seus demais isótopos superiores.

Quantidades de urânio altamente enriquecido e/ou plutônio “weapon grade” superiores a 1 kg são encontradas em apenas 24 países, de acordo com o relatório de 2016 da Iniciativa Contra a Ameaça Nuclear, NTI da sigla em inglês (“Nuclear Threat Initiative”). As condições de segurança desses materiais em cada país são avaliadas nesse relatório. Note-se que esses materiais não existem no território nacional brasileiro.

Mesmo a Al Qaeda, que na década de 1990 e início de 2000 teve grandes recursos financeiros, uma estrutura de comando centralizada, e muitos cientistas ao seu serviço, não foi capaz de adquirir material adequado e suficiente para uma arma nuclear, apesar de seus supostos esforços à época. Existem relatos recorrentes de tentativas de venda de material nuclear desviado dos Estados em países na região do Mar Negro, mas nenhuma foi bem-sucedida, na medida em que foi dado a conhecer publicamente.

Nada disto deve ser interpretado como um “relaxamento” das preocupações da comunidade internacional com arsenais nucleares do mundo. É evidente que estaríamos todos inequivocamente mais seguros se houvesse menos material físsil especial disponível e menos países possuidores de armas nucleares prontas para uso no mundo. Apenas podemos afirmar que estamos muito mais propensos a ver o segundo cenário de um ataque, uma bomba suja, do que uma explosão nuclear no futuro próximo, desde que o nível de segurança da guarda desses materiais seja mantido e continuamente melhorado.

O cenário mais provável, mas de gravidade relativamente menor: uma bomba suja.

Como então se desdobraria tal cenário? Certamente nada nem de perto parecido às consequências de um ataque com uma bomba nuclear. Uma bomba suja não é de forma alguma semelhante a uma arma nuclear. Esta última depende de fissão e/ou fusão nuclear para criar uma explosão milhões de vezes mais poderosa do que a anterior. A bomba nuclear poderia espalhar radiação ao longo de centenas de quilômetros quadrados, enquanto que uma bomba suja só poderia fazê-lo em uma área muito mais limitada. Bombas sujas têm mais em comum com a medicina nuclear do que com a guerra nuclear.

Uma bomba suja não mataria imediatamente mais pessoas do que um explosivo comum. Seria uma arma tipicamente terrorista, no sentido em que seu propósito é semear o medo, pânico e terror. Na verdade, considerando a psicologia perversa do terrorismo, a mera alegação de que a explosão de uma bomba convencional, tais como as que são usadas nos ataques recentes, teria espalhado material radioativo já teria um efeito equivalente à explosão de uma bomba suja real, pelo menos no curto prazo.

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Foto do acidente radiológico de Goiânia com Césio 137, 1987. Foto: Luiz Novaes

Dito isto, se apoderar do tipo de material radioativo necessário para fazer uma bomba suja não seria difícil para uma organização terrorista. Existem inúmeros casos de furto e roubo desses materiais, sendo aquele que acarretou as maiores e tristes consequências no mundo o acidente radiológico de Goiânia, em 1987. Existem, literalmente, milhares de locais, em mais de 100 países, que contêm o tipo de fontes radioativas necessários, que têm muitos usos na agricultura, na indústria e na medicina. Essas fontes, que contem diferentes tipos de isótopos radioativos, são amplamente utilizadas, por exemplo, em hospitais e clínicas, para fins terapêuticos e diagnósticos. O furto de uma fonte de Césio-137 num hospital encontra-se na origem do acidente de Goiânia. Evento semelhante poderia estar na origem de uma bomba suja.

Embora os riscos sejam relativamente baixos e nenhuma bomba suja ter sido detonada até o momento, os governos nacionais tem uma forte razão para se preocupar com essa ameaça, na medida em que os materiais necessários para fazê-la encontram-se em milhares de locais e muitos desses materiais encontram em circulação. Além disso, a demanda pela aplicação desses materiais é crescente em todo mundo, na medida dos avanços da medicina e dos processos industriais.

A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA, de sua sigla, em inglês, “International Atomic Energy Agency”) rastreia todo material radioativo que os governos informam terem sido perdidos, roubados, ou que de alguma outra forma passaram a estar “fora do controle regulatório” nacional, mantendo a Incident and Trafficking Database (ITDB). A fact sheet” mais recente dessa base de dados relata 2.734 incidentes entre 1993 e 2014, sendo que apenas 49 envolvem urânio ou plutônio. Mostra também ter havido um aumento anual constante de incidentes de roubo e perda desses materiais desde a década de 1990. Considerando que a ITDB é baseada no relato voluntário por parte dos Estados membros da IAEA, pode-se presumir que esses números representam apenas a ponta do iceberg.

O que aconteceria se um material deste tipo fosse espalhado numa grande cidade? A resposta depende de muitos fatores. Para um olhar destreinado, o rescaldo da explosão de uma bomba suja não parece muito diferente do que as consequências de um ataque perpetrado com explosivos convencionais, como o ataque à Maratona de Boston, em 2013, os ataques de Paris, em novembro 2015, ou atentados terroristas mais recentes em Istambul, Jacarta, Bruxelas e Lahore. As autoridades policiais fariam uma varredura do local em busca de material radioativo, mas, dependendo dos isótopos utilizados, da quantidade de fumaça e detritos no ar, e da proximidade com a explosão, a falta de provas visuais imediatas pode fazer com que a confirmação e alerta da presença de material radioativo tarde um tempo mais ou menos longo.

Uma vez que o público tome conhecimento de que a bomba continha material radioativo, torna-se difícil frear a escalada de medo e caos. As autoridades teriam de decidir se deixariam as pessoas fugirem de forma desordenada, o que poderia reduzir a sua exposição à radiação (mas que também espalharia radiação por uma área mais extensa e facilitaria a fuga dos autores de tal crime), ou começaria uma operação de evacuação controlada, enfrentando o medo e pânico das pessoas, que irão querer se afastar do local o mais rápido possível.

Tantas variáveis estariam envolvidas em um potencial ataque com bomba suja que seria muito difícil prever suas consequências. A AIEA divide materiais radioativos em cinco categorias, da Categoria 1, que é tão prejudicial que a exposição por apenas alguns minutos a uma fonte não blindada pode ser fatal, à Categoria 5, que representa um risco relativamente baixo. A primeira tarefa para os socorristas seria, portanto, descobrir exatamente que tipo de material radioativo foi utilizado.

Os isótopos radioativos de categoria mais nociva estão associados a um aumento na incidência de diversos tipos de câncer, mas sua relação dose-efeito é probabilística e depende da concentração e do tempo ao qual uma pessoa foi exposta. Entretanto, os materiais de Categoria 5, tais como o amerício-241 (encontrados em para-raios), ou o estrôncio-90 (usado em braquiterapia), são mais facilmente disponíveis e, se uma quantidade suficientemente grande é reunida em um só local, podem também provocar uma dose prejudicial. Note-se, porém, que a identificação da categoria e quantidade do material envolvido no ataque muito pouco afetará o medo e pânico que se estabelecerá nas pessoas afetadas nos momentos iniciais.

Diversos estudos têm sido produzidos sobre como responder a um ataque de bomba suja, e muitos deles se concentram sobre os custos de evacuação e de descontaminação. Uma bomba suja não causaria níveis catastróficos de morte e ferimentos, mas dependendo de sua composição química, forma e localização, ela pode provocar enormes prejuízos devido aos custos de evacuação, realocação e limpeza. Edifícios poderiam ter de ser demolidos e os detritos removidos. O acesso a uma área contaminada pode ser negado por anos até o local ser limpo o suficiente para atender às normas ambientais de proteção ao público. Empresas fechariam, transportes parariam, empregos seriam perdidos.

Este tipo de convulsão social faz com que as bombas sujas sejam chamadas de “armas de disrupção em massa”, em analogia com as “armas de destruição em massa” nucleares, químicas e biológicas. O estudo de caso do acidente de Goiânia pode dar uma boa ideia dos reais efeitos de uma bomba suja.

O cenário intermediário em termos de probabilidade e gravidade: sabotagem.

Pode ser que os terroristas de Bruxelas que espionavam o alto funcionário do SCK/CEN estivessem buscando este terceiro cenário, de sabotagem de uma instalação nuclear. É difícil dizer o quanto eles chegaram perto disso. A Bélgica experimentou um grande incidente de sabotagem em sua usina nuclear de Doel-4, em 2014, quando alguém abriu uma válvula que permitiu o vazamento de óleo lubrificante da turbina que aciona o gerador elétrico de modo a que ela sofresse superaquecimento e praticamente se autodestruísse. Nenhum material radioativo foi liberado, mas o custo dos danos foi estimado entre US$ 100 e US$ 200 milhões.

Durante as investigações desse ato de sabotagem, descobriu-se que um trabalhador de empresa contratada para manutenção da usina havia abandonado o emprego para ir lutar a jihad na Síria. Note-se que essa pessoa não foi, entretanto, o responsável pelo incidente da turbina. A Bélgica, desde então, reforçou a segurança nas suas centrais nucleares, mas, aparentemente, a segurança em outras instalações nucleares permaneceu a mesma.

Tal como aconteceria num ataque de bomba suja, os resultados de um ataque a uma instalação nuclear podem variar muito, dependendo de vários fatores. O número de mortos imediato não seria necessariamente além do que seria causado pelo próprio explosivo. Mas o fator medo, efeitos na saúde a longo prazo, e as consequências econômicas podem ser significativas.

São particularmente sensíveis a ações de sabotagem a usinas nucleares em operação ou que foram descomissionadas nos últimos cinco anos. Também a reatores de pesquisa com potência superior a dois megawatts, bem como a instalações de reprocessamento de combustível nuclear usado e piscinas de armazenagem de combustível usado, em especial aquelas em que o combustível tenha sido nelas disposto nos últimos cinco anos e que não estão associadas a um reator nuclear em operação. O relatório anual da NTI estabelece um índice de vulnerabilidade dessas instalações existentes no mundo.

A vulnerabilidade das usinas nucleares a quedas deliberadas de aeronaves comerciais foi muito ressaltada após os ataques de 11 de setembro de 2001 e, mais recentemente, pelo acidente de Fukushima em março de 2011. A análise dessa vulnerabilidade tem sido objeto de vários estudos específicos pelos operadores e autoridades nacionais de segurança de forma a garantir que tal ato terrorista não conduza a um acidente severo com consequências fora da área de propriedade das centrais nucleares.

Poder-se-ia construir também um cenário em que um grupo de terroristas assumisse o controle de uma instalação nuclear e executasse uma série de ações que desencadeassem um acidente severo. Para prevenir tal cenário, torna-se necessário reforçar a segurança física dessas instalações e planejar operações militares de reação rápida caso isso venha ocorrer, de forma a reassumir o controle da instalação. Isso efetivamente vem sendo feito em quase todos os países. A própria segurança intrínseca das instalações nucleares, entretanto, faz com que tal cenário potencial se desenrole numa dinâmica relativamente lenta, o que, a princípio, permitiria o sucesso na atuação de uma força de reação rápida, caso a segurança física orgânica seja suplantada num primeiro momento.

As questões de segurança nuclear relacionadas com a prevenção, detecção e resposta a roubo, sabotagem, acesso não autorizado e transferência ilegal ou outros atos dolosos que envolvam materiais nucleares e outras substâncias radioativas e os seus recursos associados são abordados nas publicações da série de Segurança Nuclear da AIEA. Estas publicações são consistentes e complementam os instrumentos legais de segurança nuclear internacionais, como a Convenção sobre a Proteção Física de Material Nuclear, o Código de Conduta sobre Segurança e Proteção das Fontes Radioativas, a Orientação Suplementar sobre a Importação e Exportação de Fontes Radioativas e as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 1373 e 1540 e da Convenção Internacional para a Supressão de Atos de Terrorismo Nuclear.

Certamente, o tema do terrorismo nuclear é algo de estrema relevância para estabilidade e segurança mundial e a comunidade internacional tem tentado responder à altura, em especial com as ações decididas pelos Nuclear Security Summit, que ocorrem bianualmente.

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Imagem (Fonte):

http://mexiconuevaera.com/internacional/eu/2016/04/1/el-mundo-en-alerta-por-terrorismo-nuclear-obama

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do DiretorGeral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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O futuro das Cidades Globalizadas

Na atualidade, existem diferentes nomenclaturas e fórmulas para classificar as cidades, seu desenvolvimento e respectivo peso no cenário internacional. Com a globalização e o aumento dos atores internacionais, existe uma maior distribuição do poder, o que promoveu um enfraquecimento da atuação dos atores clássicos – como o Estado – em detrimento de novas dinâmicas e novos atores, assim como uma nova distribuição dos centros de poder e decisão, proporcionando às cidades uma maior representatividade no panorama internacional.

Embora a importância dos centros urbanos seja um processo existente desde a Revolução Industrial, nunca antes o processo foi tão acelerado e perceptível, alcançando praticamente todos os países do mundo e promovendo a urbanização maciça da humanidade.  À raiz desse processo surgiram as chamadas Cidades Alfa, ou centros de poder mundial, posteriormente, emergiram as cidades inteligentes, que buscam soluções aos problemas decorrentes da elevada urbanização e da nova dinâmica de poder.

A desigualdade no processo de urbanização é proporcional ao grau de desenvolvimento de um país, diferenciando assim a Cidade Alfa da Cidade Inteligente (SmartCity), pois uma cidade emergente pode atuar como Cidade Alfa – por exemplo, a cidade de São Paulo – sem possuir um projeto avançado de Cidade Inteligente.

Além do mais, pequenas cidades podem se transformar em espaços inteligentes sem necessariamente aspirar ao posto de Cidade Alfa, havendo, assim, duas realidades em relação as cidades e sua inserção internacional, tendo em comum apenas a necessidade de integrar as mesmas no atual cenário.

Essa necessidade de integrar o espaço urbano dentro de uma realidade global e de uma dinâmica financeira praticamente pós-moderna reforçou o conceito de Cidade Inteligente, a qual não estará inserida no contexto mundial unicamente pelo seu poder financeiro, ou sua capacidade de gestão e utilização de recursos, mas por participar ativamente na dinâmica mundial.

A cidade globalizada e inteligente pode ser desde um importante polo financeiro, como Londres, a um centro de distribuição e comércio, como a cidade de Itajaí (que possui um dos maiores portos do Brasil); pode ser um importante centro produtor agrícola, como a cidade argentina de Mendoza; um polo turístico importante, como Saint Tropez, na França; uma pequena cidade produtora de um bem específico, como Macaé; ou um importante centro cultural e histórico, como a Meca, na Arábia Saudita. 

Sua inserção na dinâmica internacional estará ligada à sua realidade como cidade, sem forçar, dessa maneira, uma busca constante pela transformação dos espaços urbanos em polos financeiros, nem marginalizar cidades, cujas atividades econômicas sejam divergentes dos grandes centros de poder, ou pela formação demográfica da mesma.

À diferença do processo de urbanização do século XIX, quando as cidades imitavam a expansão urbana da Europa, as cidades inteligentes devem aprender a se inserir na dinâmica internacional, potencializando seus atributos e sua competitividade. Sabe-se que nem todas as cidades de um país podem se transformar em um polo financeiro de primeira linha, mas todas podem formar parte de uma rede inteligente e integrada que aumente a competitividade em conjunto de sua região.

Países como o Brasil têm um excelente potencial para desenvolver uma rede integrada de cidades inteligentes.  O país possui importantes centros urbanos ou megacidades como São Paulo ou Rio de Janeiro, além de metrópoles importantes a nível nacional e grandes cidades no interior, mas, historicamente, houve uma concentração da população e das atividades econômicas numa faixa do território próxima do litoral, promovendo uma desigualdade persistente entre os diferentes Estados e dificultando o desenvolvimento homogêneo da sua sociedade.

Com as novas tecnologias é possível fomentar a inserção internacional de diversos municípios através de suas vantagens competitivas e da correta utilização dos recursos disponíveis.  Sendo assim, é possível alavancar internacionalmente tanto municípios como Santos, pelo seu potencial logístico, quanto municípios como Ilha Bela, pelo seu potencial turístico, da mesma forma que já ocorre em nações da Europa, onde cidades pequenas gozam do mesmo prestígio e fama que outras metrópoles europeias, sendo esta a melhor forma de promover um desenvolvimento homogêneo da região e controlar os efeitos negativos da concentração urbana em grandes cidades, tal qual podemos observar em algumas urbes como Lagos, ou Bombaim.

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Imagem (Fonte):

http://www.ncpbrussels.be/images/energy_efficiency_city.jpg

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O Desafio da Segurança de Tecnologias*

Por que tragédias como Mariana, Fukushima, Chernobyl, Exxon Valdez e Bhopal ocorreram? Esses acidentes seriam evitáveis? Ou seriam a inevitável consequência da utilização generalizada de tecnologias de risco no mundo moderno? Existem duas escolas de pensamento antagonistas sobre essa questão específica da segurança. A primeira encarna a visão otimista chamada de “teoria da alta confiabilidade”, cujos adeptos postulam que operações extremamente seguras podem ocorrer, mesmo quando envolvem tecnologias extremamente perigosas, desde que haja um planejamento organizacional e técnicas de gestão adequadas. A segunda escola, chamada de “teoria dos acidentes normais”, apresenta um prognóstico muito mais pessimista: acidentes sérios envolvendo sistemas complexos de alta tecnologia são inevitáveis. Examinaremos essas duas escolas de pensamento, as mais importantes na literatura de teoria organizacional relativa à questão da segurança e confiabilidade de sistemas tecnológicos complexos.

O termo escolas de pensamento foi usado deliberadamente, dado que representa em muitos sentidos uma melhor descrição do que há na literatura sobre tecnologias de risco do que o termo teorias. Os estudos existentes estão baseados em combinações de lógica dedutiva abstrata e observação empírica indutiva, e os autores de cada escola não estão de acordo acerca de todos os detalhes relativos à segurança organizacional. Muitos termos específicos que aparecem com frequência na literatura não são sempre utilizados de maneira coerente. Além disso, é importante frisar que os prognósticos das duas escolas frequentemente se mostram imprecisos. Entretanto, os defensores de cada uma colocam o foco da atenção em um conjunto específico de fatores que, segundo eles, contribuem ou reduzem a segurança, e cada escola desenvolve um conjunto de hipóteses gerais que é tido como válido em uma multiplicidade de organizações através do espaço e do tempo. Essas ideias podem, portanto, serem vistas como teorias decorrentes das ciências sociais e podem ser comparadas entre si.

Essas duas escolas de pensamento têm suas raízes intelectuais em diferentes tradições da literatura sobre a teoria das organizações. Elas têm compreensões básicas distintas sobre como as organizações trabalham e mantêm diferentes visões acerca da melhor maneira de analisar organizações complexas. As teorias oferecem explicações gerais opostas a respeito das causas dos acidentes ocorridos com sistemas tecnológicos perigosos e oferecem recomendações alternativas no sentido de incrementar a segurança no futuro. De forma mais ampla, elas têm visões conflitantes sobre o que poderia ser denominado grau de perfeição que é possível ser alcançado em organizações complexas. Finalmente, as teorias da alta confiabilidade e dos acidentes normais acarretam prognósticos muito distintos sobre as causas e a probabilidade de ocorrência de acidentes tecnológicos severos.

Teoria das Organizações de Alta Confiabilidade

Os teóricos da alta confiabilidade acreditam que as tecnologias de risco podem ser controladas de modo seguro por organizações complexas se planejamento e técnicas de gestão inteligentes forem adotados[1]. Esta conclusão otimista é baseada no argumento de que organizações eficientes podem satisfazer quatro condições específicas, necessárias para criar e manter um nível de segurança adequado: (1) as elites políticas e os líderes da organização devem dar alta prioridade à segurança e confiabilidade; (2) existência de níveis significativos de redundância, permitindo que unidades de reserva ou de superposição compensem falhas; (3) reduções dos índices de erro através da descentralização da autoridade, de uma forte cultura organizacional e de operações de treinamento contínuas; e (4) aprendizagem organizacional através de um processo de tentativa e erro, complementado por ações de antecipação e simulação.

Essas condições foram observadas em várias organizações de alta confiabilidade e, se essas condições existirem em outras organizações, então a teoria teria como prognóstico que acidentes sérios e catástrofes podem ser evitados. Embora a combinação apropriada de estratégias em um caso específico obviamente dependa da natureza do problema em particular, a estratégia anti-catástrofe esboçada acima poderia ser aplicada praticamente a qualquer tecnologia de risco. Acredita-se que essas quatro condições podem ser aplicadas em grande parte das organizações que requerem tecnologias avançadas e nas quais o custo do erro é tão grande que precisa ser absolutamente evitado.

Dessa forma, embora os teóricos da alta confiabilidade não estabeleçam que quantidades e combinações precisas desses fatores sejam necessárias para o sucesso operacional com as tecnologias de risco, seu otimismo geral é evidente. Organizações adequadamente concebidas e bem geridas têm condições de operar com segurança até mesmo as tecnologias mais arriscadas.

Teoria dos Acidentes Normais

Os teóricos dos acidentes normais adotam uma visão de sistemas abertos naturais em que as organizações e os seus membros são atores que têm seus próprios interesses e estes são potencialmente conflitantes, e em que as organizações são fortemente influenciadas por forças políticas e sociais mais abrangentes no ambiente[2]. Esses veem as organizações como detentoras de preferências incoerentes, tecnologias obscuras e participação fluida. A teoria prevê que acidentes graves são inevitáveis quando as organizações que controlam tecnologias de risco dispõem tanto de alta complexidade interativa (que produz falhas peculiares e imprevistas) quanto de acoplamento com precisão (que faz com que falhas se multipliquem e fujam rapidamente do controle).

Cada um dos quatro fatores identificados previamente que contribuem para uma grande confiabilidade é considerado a partir da visão dos acidentes normais como ineficaz, difícil de ser melhorado, ou até contraproducente. Mesmo quando líderes dão muita prioridade para a segurança e a confiabilidade, o que não é sempre um fato, objetivos competitivos organizacionais e individuais reinarão: os desejos contínuos para maximizar a produção, manter a autonomia, e proteger as reputações pessoais, podem, entretanto, impedir seriamente esforços no sentido de melhorar a segurança. Acrescentar redundância não implica necessariamente maior confiabilidade, pois também aumenta a complexidade interativa, estimula os operadores a correrem mais riscos, e torna o sistema como um todo mais obscuro. A tomada de decisão descentralizada não implica necessariamente melhor segurança, pois sistemas acoplados com precisão exigem reações rápidas e adesão rígida aos procedimentos de operação convencionais.

Uma socialização intensa e uma forte cultura organizacional provavelmente não serão muito produtivas em organizações de risco, não somente porque os líderes não podem saber como os operadores deveriam reagir em todas as contingências, mas também porque as sociedades democráticas não estão dispostas a isolar e controlar todos os aspectos das vidas dos membros dessas organizações. Treinamento e prática constantes não tratarão de cenários de acidentes que são imprevistos, extremamente perigosos, ou politicamente desagradáveis. Finalmente, inúmeros fatores vão limitar o processo de aprendizagem por tentativa e erro: incerteza em relação às causas dos acidentes, os interesses políticos e julgamentos tendenciosos dos líderes organizacionais e dos operadores de baixo escalão, compartimentalização dentro da organização e sigilo entre as organizações.

Avaliando as Teorias

Que perspectiva a respeito das organizações de risco é mais precisa? Não é uma tarefa fácil avaliar essas duas teorias. As duas têm hipóteses relativamente plausíveis e as propostas e conclusões das duas teorias parecem decorrer logicamente dessas hipóteses. Além disso, os teóricos da alta confiabilidade tanto quanto aqueles dos acidentes normais oferecem inúmeros exemplos hipotéticos e empíricos para ilustrar e apoiar seus argumentos. Portanto, como se pode avaliar o poder explicativo global das duas abordagens teóricas?

A maior dificuldade deve ser reconhecida: como nenhuma das teorias oferece uma previsão assertiva a respeito da probabilidade de ocorrência de acidentes graves envolvendo tecnologias de risco, é impossível determinar o número preciso de acidentes os quais, se fossem descobertos ao longo do tempo, dariam sustentação ou fragilizariam as teorias.

Os membros da escola da alta confiabilidade comumente são suficientemente prudentes para evitar a declaração extrema de que a perfeição organizacional é possível. Nesse sentido, argumentam que existe uma boa chance de que as catástrofes sejam evitadas, afirmam somente que existem organizações de risco que se empenham em procedimentos próximos do erro zero e postulam que essas organizações mantêm uma proporção muito baixa de erros e uma quase ausência total de falhas catastróficas.

De modo similar, os membros da escola dos acidentes normais afirma simplesmente que em algum momento os acidentes devastadores ocorrerão: Os acidentes são inevitáveis e ocorrem o tempo todo. Os mais graves são inevitáveis embora não sejam frequentes. As catástrofes são inevitáveis, ainda que raras. Essa linguagem imprecisa sugere que as duas escolas teóricas têm uma avaliação em comum a respeito da probabilidade de ocorrência de acidentes perigosos a despeito da nítida distinção no tom de suas conclusões. Os teóricos dos acidentes normais olham para o “copo da segurança” e o veem 1% vazio. Já os teóricos da alta confiabilidade veem o mesmo copo 99% cheio.

Contudo, quando alguém leva em consideração os mecanismos causais envolvidos nas teorias, isto é, os fatores específicos, delineados na tabela a seguir, que cada teoria alega que acarretarão ou evitarão os acidentes organizacionais, as contradições entre elas tornam-se mais claras. Isso sugere que um teste mais importante das teorias implica um histórico detalhado específico de estudos de casos em que aparece uma multiplicidade desses fatores, buscando saber se esses fatores têm a influência esperada na segurança e confiabilidade.

Parte 1

 

Parte 2

Por exemplo, que efeito o fato dos líderes darem alta prioridade à segurança teria nas crenças e no comportamento do restante das pessoas de uma organização complexa? Qual o impacto do acréscimo de equipamentos de segurança redundantes? Há de fato aprendizagem organizacional, corrigindo as causas dos problemas de segurança, após os incidentes graves? Ou relatórios enganosos, negando responsabilidades, fez com que a história fosse reconstruída?

É importante enfatizar que a simples existência de acidentes que quase acontecem é uma prova inadequada, tanto para reduzir a credibilidade da teoria da alta confiabilidade quanto para incrementar a credibilidade da teoria dos acidentes normais. Na realidade, há uma ironia aqui: quanto mais descubro acidentes que quase ocorrem, mais se pode dizer que o sistema funcionou, na medida em que incidentes finalmente não levaram a uma catástrofe. O fato de que erros individuais ocorrerão constitui, afinal, a razão básica pela qual a redundância e outras medidas de segurança são construídas nos sistemas tecnológicos complexos.

Quais eram as causas dos incidentes e as razões pelas quais não se intensificaram? Por exemplo, a adição de mais de um equipamento de segurança conseguiria evitar um acidente grave, tal como seria sugerido pelos teóricos da alta confiabilidade? Ou a causa do problema foi a redundância, como prognosticado pela teoria dos acidentes normais? E se a redundância causou o incidente, o que fez com que não se intensificasse?

É essencial avaliar o poder explicativo das duas teorias. Isso terá grandes implicações na nossa capacidade de gerir as organizações complexas que utilizam tecnologias de risco na sociedade moderna, evitando a recorrência de acidentes catastróficos.

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Notas:

[1] High reliability organisations: A review of the literature, Prepared by the Health and Safety Laboratory for the Health and Safety Executive 2011, London UK, 2011. Disponível em:

http://www.hse.gov.uk/research/rrpdf/rr899.pdf

[2] Normal Accidents: Living with High Risk Technologies, Updated edition, Charles Perrow, With a new afterword and a new postscript by the author, 1999, ISBN: 9780691004129

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* Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURA

Sacerdotes Brasileiros reprovam Padres Cantores

Uma frase, atribuída a Santo Agostinho, iluminou, desde a época dos Padres da Igreja, o papel da música nas atividades eclesiais: “quem ama canta, e quem canta reza duas vezes”. Que música era, então, essa que, durante muito tempo, deu, aos fiéis e aos gentios, público testemunho de sua fé? Tanto no Antigo Testamento quanto na Igreja Primitiva, a música sacra, entendida como súplica e louvor, esteve presente nas celebrações litúrgicas – Moisés cantou ao som dos tímpanos, acompanhado pelo canto do povo (Ex 15, 1-20); Davi e “toda a casa de Israel dançavam diante de Iahweh ao som de todos os instrumentos de madeira de cipreste, das cítaras, das harpas, dos tamborins, dos pandeiros e dos címbalos” (2Sm 6, 5). Nos primeiros tempos da Igreja de Roma, o canto dos Salmos já estava presente nas assembleias dos cristãos, tendo por origem a música judaica, especialmente a salmodia, praticada nas sinagogas. Sob o ponto de vista cronológico seguiu-se o canto gregoriano, organizado por São Gregório Magno e popularizado nos círculos católicos europeus entre os séculos VIII e IX, e, mais tarde, nos séculos XV e XVI, a polifonia[1]. Em inícios do século XX, o Papa São Pio X, por intermédio do Motu Proprio Tra le Sollecitudini, publicado em 22 de novembro de 1903, concedia novo esplendor ao canto gregoriano, enquadrando, naquele documento, o papel da música sacra no âmbito dos ofícios religiosos. O Sumo Pontífice enfatizou: “Uma composição religiosa será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia gregoriana, e será tanto menos digna do templo quanto mais se afastar daquele modelo supremo”.

Entre 1962 e 1965, na sequência da convocação do Papa São João XXIII, o Concílio Vaticano II pretendeu renovar a missão espiritual da Igreja, dando aos leigos um maior protagonismo, nomeadamente através de sua inserção nas Pastorais sociais, Movimentos e Novas Comunidades. No âmbito da popularização da música religiosa, no Brasil, logo em inícios da década de 1960, “uma irmandade do interior de São Paulo[,] as ‘Missionárias de Jesus Crucificado[,] lançavam em 1963 o seu primeiro LP, intitulado ‘Missionárias em LP’, com selo da própria irmandade, com músicas compostas pelas próprias irmãs e feito sob encomenda pela Cia Industrial de Discos no RJ”. Anos mais tarde, em 1967, o Padre José Fernandes de Oliveira – o Padre Zezinho –, “depois de ter sido ordenado em 1966 nos EUA, vem para o Brasil e muda completamente a forma de se conduzir uma missa, compondo e introduzindo instrumentos elétricos, atraindo multidões… principalmente os jovens, pois falava a linguagem que os jovens da época entendiam”. Mais recentemente, graças ao impulso dado pela Renovação Carismática Católica, sem que se confundissem a música sacra, a música popular religiosa e as variantes musicais, ao gosto das multidões, sob o ponto de vista nominal denominadas como católicas[2], emergiu o primeiro dos muitos padres cantores com dimensão midiática: o Padre Marcelo Rossi[3] que, desde 1997, recorre ao canto, à dança e às coreografias em missas lotadas e programas de televisão. Hoje em dia, os Padres Jonas Abib, Fábio de Melo, Antônio Maria, Reginaldo Mazotti, Hewaldo Trevisan, Alessandro Campos, Marcos Roberto Pires – o Padre Elvis –, assim como, até há pouco tempo, o ex-Padre Zeca[4], de entre outros, atraem anualmente, com seus espetáculos musicais que, por vezes, se aproximam da indústria cultural[5], no país e no estrangeiro, milhões de espectadores. Por outro lado, as obras literárias destes sacerdotes, um misto de popularização do Sagrado e um esforço de auto-ajuda, têm vindo a conquistar, de maneira crescente, a atenção das editoras livreiras, tanto as católicas, quanto as estritamente comerciais.

A atividade dos chamados padres cantores, ou padres artistas, captou o interesse das grandes produtoras discográficas, mundiais e nacionais[6]. A mundanidade de algumas daquelas vocações tem suscitado críticas por parte de sacerdotes brasileiros. Em 2010, Dom Aldo Di Cillo Pagotto, Arcebispo da Paraíba, declarou: “Eu critico o ato de se fazer do evangelho um show. Há tempos, a igreja tinha entrado em temáticas sociais e com um viés um tanto esquerdista. De um tempo para cá, a igreja entrou nessa questão de padres cantores, artistas”. Dom Aldo adiantou ainda que, com este tipo de prática, misto de religiosidade e de show multitudinário, “corremos o risco de ficar no emotivo-show e no ‘oba-oba’. Como atrelar a emotividade? E depois? Esse ganho de um compromisso sistemático, do itinerário de obras… a fé sem obras é morta”. Por seu turno, indo mais longe, Frei Betto situou a problemática dos padres cantores no âmbito do processo mundial de globalização. Deste modo, ele escreveu: “A globalização nada mais é do que a redução do mundo a um mercado, onde investem os donos do capital e no qual a condição de cidadão importa menos que a de consumidor”. A Igreja light, que tem, como representantes maiores, os Padres que transformam a fé em relação mediada pelo divertimento, levou Frei Betto a referir que, atualmente, “nem a religião escapa. Criada para elevar as pessoas a outro nível de consciência, para que vivenciem a comunhão com Deus e entre si, e fundada em valores derivados de revelação transcendente, aos poucos perde sua dimensão profética, de denúncia e anúncio”. Afastada do plano dos deveres e reduzida à esfera festival da existência, a Igreja, tal como é promovida pelos astros da canção católica, “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção truncada, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades; a reflexão bíblico-teológica; e o compromisso pastoral no serviço à justiça”. De acordo com Frei Betto, se Jesus Cristo, em seus dias terrenos, “tivesse adotado estilo semelhante, […] não teria sofrido perseguição, nem sido preso, torturado e assassinado na cruz. A multidão teria clamado por ele, e não por Barrabás. Na entrada de Jerusalém, o burrinho cederia lugar ao cavalo branco dos imperadores”.

O Padre Leonardo Holtz Peixoto é um sacerdote tradicionalista, membro da Fraternidade de São Pio X. Repudiando o modernismo[7], dominante em círculos significativos do clero brasileiro, ele escreveu, em janeiro de 2011, uma carta a Dom Orani João Tempesta, Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro. Nela, o Padre Leonardo inquiriu: “Por que nossas paróquias e santuários estão repletos de fiéis nas missas (especialmente nas missas-show), mas as pastorais estão vazias? Por que nossos fiéis não sabem mais o catecismo? Por que as quadras de samba e as praias estão muito mais bem frequentadas do que nossas paróquias? Creio que muitos saibam as respostas dessas perguntas, mas muito poucos tem a CORAGEM de admitir, pois é muito mais confortável colocar remendos do que derrubar tudo e reconstruir”. Prosseguindo sua missiva, em tom duro, o Padre Leonardo, contrapondo sua opção vital e religiosa aos vícios presentes na prática de membros do sacerdócio, desde o aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II[8], assinala: “Hoje temos de tudo: padres cantores, psicólogos, jornalistas, artistas, mas temos poucos padres PADRES! Encontramos padres em todos os ambientes hoje, mas, se bobearmos, só não os achamos nas paróquias. Soube que existe um padre que não rezava a Missa da primeira sexta-feira do mês em sua paróquia; as senhoras do Apostolado da Oração para obrigá-lo a rezar a Missa, fazem uma ‘vaquinha’ todo mês e lhe dão uma espórtula*. Isso porque ele afirma que só celebra durante a semana se houver intenções marcadas. Mas, mediante uma espórtula*, abre-se uma exceção”.

Em 12 de Abril de 2014, véspera de Domingo de Ramos, o Padre Fábio de Melo participou no programa televisivo “Altas Horas”, da TV Globo. A Associação dos Devotos de Fátima, com sede em São Paulo, indignada com o fato de o sacerdote se ter apresentado sem estar paramentado, em plena Quaresma, manifestou sua indignação nos seguintes termos: “Enquanto ele se apresentava na madrugada de sábado, em Roma o Papa Francisco preparava-se para celebrar a Missa do Domingo de Ramos e dar início às cerimônias da Semana Santa que precedem a Páscoa”. Deste modo, segundo a Associação, não “é normal ver um padre exercendo seu papel sacerdotal sem as devidas preocupações com seus votos e com sua imagem que deve ser, antes de tudo, a imagem da Santa Igreja”. Na sequência, em abaixo-assinado dirigido à hierarquia católica, no qual se pedia o “direcionamento” dos padres cantores, a Associação dos Devotos de Fátima salientou: “Com frequência temos que lutar com a perplexidade de ver esses religiosos participando de programas totalmente inadequados, tanto para sua condição quanto para o bom exemplo e formação espiritual dos fiéis”. Por outro lado, em 18 de  agosto de 2015, o Cardeal Dom João Braz de Aviz, Arcebispo Emérito de Brasília e atual Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, em visita ao Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, situado em São José dos Campos (SP), teve a oportunidade de se referir aos padres cantores. Em entrevista ao G1, sem citar nomes, ele teceu as seguintes considerações: “Nem tudo nos nossos padres cantores está claro, basta olhar. É preciso voltar ao essencial, questionar o porque se está ali cantando aquela música na televisão. Qual a razão que me faz estar aqui? É Jesus Cristo? Minha fama? O dinheiro?”. Prosseguindo, Dom Braz de Aviz sublinhou que “não é bom deixar estragar tudo para depois mexer. Eu não cito nomes, mas tem coisas chatas aí”. Em contrapartida, o prelado, que é grande admirador da obra do Padre Zezinho, considerou o fato de que aquele sacerdote “não se apegou à imagem e ao dinheiro. O que sobressai nele é Jesus Cristo. Se o que conta é o dinheiro, a fama e o poder, mesmo que você tenha uma bela voz e fale bonito, está errado”. Ao terminar a entrevista, o Cardeal se referiu ao celibato dos consagrados mas, implicitamente, também ao primado dos valores práticos e hedonísticos em detrimento do primado da espiritualidade entre alguns dos religiosos do país: “Precisamos pautar nossa vida em um testemunho simples e direto, convicto. Se uma pessoa consagrada vive infeliz e carrancuda, pode ir para outro lado, buscar outro caminho ou ela deve mudar[9].

Os caminhos, por vezes transviados, de determinados membros da Igreja Católica, percorridos contemporaneamente em práticas que indicam a ostentação materialista, nos levam a relembrar a validade da recomendação feita por S. Paulo em sua Epístola aos Efésios: “Falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração” (Ef 5, 19). Em 1985, advertindo os católicos para os tempos que, já naquela época, se intuíam em sua plenitude, o então Cardeal Dom Joseph Ratzinger – o futuro Papa Emérito Bento XVI –, em diálogo mantido com Vittorio Messori, estabeleceu um divisor de águas entre a espiritualidade e o entendimento da fé como teatro do mundo. Ratzinger foi peremptório: “A liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de surpresas ‘simpáticas’, de invenções ‘cativantes’, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser feita por toda comunidade, para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento”, à semelhança dos êxitos musicais feitos para conquistar espectadores e mercados[10]. Com efeito, se cada um de nós – e também os padres cantores – pode fazer tudo aquilo que quer, convém ter presente aquilo que, em cada momento de nossas vidas, nós devemos fazer. No caso específico dos sacerdotes, que devem constituir fontes irradiadoras de espiritualidade, isto é tanto mais relevante. Por isso, “a Prudência ensina a cuidar tanto, ou mais, no que se deve omitir, como no que se há-de dizer[11] e se há-de levar a cabo.

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* Gratificação em dinheiro, gorjeta, esmola.

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Imagem Padre Alessandro Campos, um dos ícones dos padres cantores brasileiros” (Fonte):

http://2.bp.blogspot.com/–u6ZG7ncWNo/VL_M5RiqbSI/AAAAAAAAPUU/jysUlynhMTs/s1600/padre%2Balessandro.jpg

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Fontes Bibliográficas:

[1] Na Carta Encíclica Musicæ Sacræ Disciplina (1955), o Papa Pio XII anotou: “A Igreja também teve sempre em grande honra este canto polifônico, e de bom grado admitiu-o para maior decoro dos ritos sagrados nas próprias basílicas romanas e nas cerimônias pontifícias. Com isso se lhe aumentaram a eficácia e o esplendor, porque à voz dos cantores se aditou, além do órgão, o som de outros instrumentos musicais”.

[2] Pio XII, em 1955, encarando as práticas religiosas como uma disposição e uma realidade holísticas, adianta, relativamente à música de índole religiosa, executada fora das igrejas: “Em grande estima se deve ter também a música que, embora não sendo destinada principalmente ao serviço da sagrada liturgia, todavia, pelo seu conteúdo e pelas suas finalidades, importa muitas vantagens à religião, e por isso com toda razão é chamada música ‘religiosa’. Na verdade, também este gênero de música sacra – que teve origem no seio da Igreja, e que sob os auspícios desta pôde felizmente desenvolver-se está, como o demonstra a experiência, no caso de exercer nas almas dos fiéis uma grande e salutar influência, quer seja usada nas igrejas durante as funções e as sagradas cerimônias não-litúrgicas, quer fora de igreja, nas várias solenidades e celebrações. De fato, as melodias desses cantos, compostos as mais das vezes em língua vulgar, fixam-se na memória quase sem esforço e sem trabalho, e, ao mesmo tempo também, as palavras e os conceitos se imprimem na mente, são frequentemente repetidos e mais profundamente compreendidos”.

[3] Estabelecendo as analogias e as diferenças entre as práticas do Padre Marcelo Rossi e do Bispo Edir Macedo, Fernando de Barros e Silva escreveu, no jornal Folha de S. Paulo: “O padre Marcelo Rossi é uma versão light, asséptica, socialmente aceitável e esteticamente palatável da Igreja Universal; o transe coletivo que ele mobiliza é por assim dizer epidérmico, se resolve com musiquinhas infantis e coreografias de auditório; não há, como no caso da Universal, demônio para ser enfrentado, não há necessidade de provação nem praticamente introspecção por parte dos fiéis engajados na sua fé aeróbica. As freirinhas que pulavam histéricas no Terço Bizantino são algo como a versão Disneylândia dos pastores com ar de capangas da fé da Igreja Universal”.

[4] Ver:

Isabel de Luca, “Zeca de Mello, Confissões de Um Ex-padre que se Reinventa Seis Anos Após Deixar a Batina”, O Globo, Rio de Janeiro, 11.08.2013.

Disponível online, em:

http://oglobo.globo.com/rio/zeca-de-mello-confissoes-de-um-ex-padre-que-se-reinventa-seis-anos-apos-deixar-batina-9467685

[5] De acordo com o teólogo Leonardo Boff, o “padre Marcelo Rossi está imitando as [igrejas] pentecostais. Há um vazio de evangelização, é a relação pessoa e Deus. É melhor escutar o padre Rossi do que escutar a Xuxa, mas é a mesma coisa. Eles são animadores de auditório. Isso não leva ninguém à transformação. É um Lexotan. Depois volta a lógica dura da vida. É uma evangelização desgarrada da vida concreta.”, LEOPOLDO MATEUS, “Leonardo Boff: ‘João Paulo II e Bento XVI Afastaram a Igreja do Mundo’”, Época, São Paulo, 18.09.2010.

Disponível online, em:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI172828-15227,00-LEONARDO+BOFF+JOAO+PAULO+II+E+BENTO+XVI+AFASTARAM+A+IGREJA+DO+MUNDO.html

[6] São de referir, a título de exemplo, as seguintes gravadoras globais que mantêm, ou mantiveram, contratos com padres cantores: Canção Nova (Fábio de Melo); Comunidade Canção Nova (Jonas Abib); LGK Music (Fábio de Melo); Paulinas – COMEP (Fábio de Melo; Jonas Abib; Padre Zezinho); Som Livre (Alessandro Campos; Fábio de Melo; Reginaldo Manzotti); Sony Music (Fábio de Melo; Marcelo Rossi); Universal Music (Marcelo Rossi).

[7] Em 1907, o Santo Papa Pio X, no Decreto Lamentabili Sane Exitu e na Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis, condenou o modernismo, tendo tornado obrigatório, para todos os membros do Clero, Pastores, Confessores, Pregadores, Superiores religiosos e Professores em Seminários de filosofia e teologia, o Juramento Anti-Modernista. O Juramento seria revogado em 1967, pelo Papa Paulo VI, que considerava o conceito de modernismo ambíguo, podendo se confundir com o modernismo, utilizado em sentido estético. Deste modo, a partir da decisão tomada por aquele Pontífice, o modernismo ficou restrito aos católicos tradicionalistas, passando os erros modernistas a ser referidos por seus próprios nomes: secularismo, laicismo, liberalismo, relativismo, subjetivismo e cientificismo.

[8] Referindo sua oposição às disposições do Concílio Vaticano II, o Padre Leonardo Holtz Peixoto escreve: “Como católico, eu não estou obrigado a aceitar o Concílio Vaticano II, uma vez que este foi um concílio pastoral e não um concílio dogmático”. Quanto ao rito da missa nova, seguido pelos Padres pós-conciliares, o Padre Leonardo manifesta deste modo sua rejeição total: “Quanto à Missa, não nego a validade da nova missa, contudo afirmo que ela é ambígua e não expressa, como a de S. Pio V, os principais dogmas católicos. Confesso que celebro com muita relutância a missa segundo o Novus Ordo (de Paulo VI). Não posso aceitar o ofertório do Novus Ordo que é uma berakah judaica. É claramente uma ceia e não um sacrifício! Há muito tempo que eu o substituo pelo Ofertório Tradicional. Faço esta e outras modificações para que a missa nova seja o mais suportável possível para mim e possa expressar o mais possível os nossos dogmas de fé. Contudo isso me incomoda muitíssimo, pois sei que não tenho a graça de estado para modificar um rito”.

[9] Ilustram a desorientação das vocações de alguns religiosos brasileiros as declarações que passamos a referir:

Dalcides Biscalquin, um ex-padre cantor ligado à Canção Nova, em entrevista a Gabriel Chalita, conta com naturalidade como decidiu abandonar “a vida eclesiástica para viver um grande amor, um amor divinamente humano”. Para o ex-salesiano, “não era possível para mim repousar somente nos braços do sagrado, negando meu lado humano”.

Zeca de Mello, o ex-padre Zeca, confessa, em sua primeira entrevista após ter deixado o sacerdócio: “A gente se apaixonou – confessa. – Mas nunca deixaria o ministério por uma mulher. Quando a gente se conheceu eu já estava em crise. Sempre pensei que, se deixasse o ministério, essa responsabilidade deveria ser só minha. Então a vida nos separou, e só fui reencontrá-la anos depois: ela tinha terminado um relacionamento; eu não era mais padre e tinha acabado um namoro também (ele diz que teve ‘algumas namoradas, uma mais séria’, depois de largar a batina)”. Entrementes, evocando os tempos relativos à frequência do curso de Crisma, Zeca de Mello adiantou: “Achava missa uma coisa chata, uma celebração muito distante”.

[10] Muitos compositores da música popular compõem primeiro a música e depois a letra. Para quem coloca em primeiro plano a letra, como no canto gregoriano, é impensável compor antes a música e depois a letra. Seria colocar o carro à frente dos bois. O primeiro plano para o compositor gregoriano é a letra, a Palavra de Deus, e não pode ser diferente; a música vem em segundo plano; ela nasce do texto e de sua prosódia. A forma da música e a sua estrutura são o resultado da forma e da estrutura do texto: o texto inspira a música. O mesmo se diga de qualquer outra peça de canto atual destinado à liturgia. O compositor de música litúrgica sente-se inspirado quando tem diante dos olhos um bom texto baseado na Bíblia: lendo o texto, o compositor já vai planejando a parte musical. Pois, na liturgia, a música é inspirada na Palavra de Deus. A música é servidora da Palavra à semelhança do canto gregoriano.”, JOSÉ W. WEBER, Introdução ao Canto Gregoriano, São Paulo, Paulus, 2013, págs. 19-20.

[11] UM RELIGIOSO DA ORDEM TERCEIRA [FREI MANUEL DO CENÁCULO], Memórias Históricas do Ministério do Púlpito, Lisboa, Na Régia Oficina Tipográfica, 1776, pág. 264.

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O empoderamento feminino e a situação das mulheres em regiões de confronto

Os impactos duradouros dos conflitos de 2014 em Gaza ainda deixaram marcas profundas, sobretudo para as meninas e mulheres. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), relatado no último dia 7 de janeiro, através do site da Instituição.

As maiores dificuldades que elas vem passando são associadas à discriminação de gênero no interior da sociedade palestina, onde barreiras impedem o acesso das mulheres à propriedade e ao mercado de trabalho. A vulnerabilidade da situação foi piorada com a intensificação do confronto.

Os números das meninas e mulheres nessa posição são preocupantes, pois muitas foram mortas durante a hostilidade entre Gaza e Israel. Entretanto, vale destacar, a maioria está deslocada, vivendo em condições de risco, seja com famílias anfitriãs, seja em abrigos improvisados, tendas ou em meio aos destroços de suas casas.

Outro entrave para o acesso dessas mulheres a uma melhor qualidade de vida refere-se a tradicional divisão dos afazeres, já que jovens e esposas devem ser responsáveis pela administração do lar, o que vem dificultando o seu retorno ao mercado de trabalho. Em Gaza, apenas a minoria das que estão em idade ativa participam na força produtiva do território, sendo este um dos fatores que barram o desenvolvimento econômico e na produtividade da região. No entanto, vale destacar, há algum tempo o empoderamento feminino vem tomando conta dos discursos de alguns movimentos sociais e da sociedade civil em geral. Mas, o que isso significa e o que pode refletir para a sociedade, sobretudo para as mulheres?

Quando o conceito for alicerçado na sociedade, será o início da mudança de mentalidade sobre as mulheres e sobre sua condição de risco na escala mundial. A ONU, através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), já abriu espaço para a discussão do tema. O PNUD vai além, quando se volta para a igualdade de gênero e para o empoderamento das mulheres, não apenas como direitos humanos, mas também porque é o caminho para alcançar os objetivos do milênio e do desenvolvimento sustentável.

O empoderamento feminino é pautado por alguns princípios criados pela ONU Mulheres e pelo Pacto Global, visando auxiliar a comunidade empresarial a inserir em seus negócios valores e práticas que propõem a igualdade de gêneros e a inserção correta das mulheres.

Apesar de ser um assunto que vem encabeçando as manchetes ao redor do mundo, este ainda é um tabu, razão pela qual tem convergido as posições de analistas de que é urgente e importante falar sobre dar poder as mulheres, principalmente em uma sociedade globalizada como a atual. O assunto parece ser novo, mas já vem sendo debatido há muito tempo.

Vale ressaltar que, conforme tem sido defendido por experts, este movimento não deve ficar apenas nos limites sociais e políticos, devendo ir muito além. A sociedade como um todo já reconhece o papel da mulher como fundamental e como agente do desenvolvimento econômico, social e cultural. Assim sendo, não se pode restringir a discussão a esta ou aquela área, devendo ser pensada em todos os setores da sociedade.

Conforme tem sido apontado, a discriminação e as barreiras impeditivas do desenvolvimento profissional e pessoal não estão presentes apenas nas empresas. A própria sociedade muitas vezes desenvolve tais mecanismos sem perceber. Sendo assim, a tendência é continuar a ampliar a discussão do empoderamento feminino em todas as camadas e setores sociais, e em todos os cantos do planeta. Conforme afirmou o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no seu discurso durante o dia internacional da mulher, realizado no ano de 2013: “Empoderar a mulher não é apenas a coisa certa a fazer – é a coisa inteligente a ser feita. Quando as mulheres obtêm êxito, as nações são mais seguras e mais prósperas”.

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