ANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

Matérias Primas para a Energia de Baixo Carbono

As diversas discussões sobre as mudanças climáticas e geração de Gases de Efeito Estufa (GEE) têm dado atenção insuficiente à nova geopolítica da energia de baixo carbono. Em artigos anteriores[1][2] (2016) busquei fomentar o debate sobre a nova geopolítica que está surgindo, tendo em vista sua importância para o estabelecimento de estratégias e políticas públicas para o setor. Essas discussões também não têm dado atenção compatível à importância das matérias-primas necessárias a tal transição e cuja demanda será crescente. Esses materiais terão grande influência nesta nova geopolítica e significativas ameaças e oportunidades para os países ricos nesses recursos naturais.

Usando energia solar e eólica e baterias de armazenamento de energia como indicadores, o Banco Mundial publicou estudo[3] em 2017, que examina quais metais provavelmente terão a demanda aumentada para alcançar um futuro de baixo carbono. Tais metais, que teriam um mercado em crescimento, incluem alumínio (contendo seu principal minério, a bauxita), cobalto, cobre, minério de ferro, chumbo, lítio, níquel, manganês, o grupo da platina, metais de terras raras (abrangendo também cádmio, molibdênio e índio), prata, aço, titânio e zinco. O estudo, em seguida, mapeia os níveis de produção e reserva desses metais em todo o mundo, concentrando-se nas implicações para os países em desenvolvimento ricos nesses recursos. Ele termina identificando lacunas críticas de pesquisa e sugestões para trabalhos futuros.

Perspectivas de Tecnologia Energética da Agência Internacional de Energia

O relatório desenvolve um quadro para estimar a demanda mineral em um futuro de baixo carbono. O Banco Mundial, em colaboração com o Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM), encomendou uma análise preditiva da demanda futura por metais a fim de apoiar a transição para um futuro de baixo carbono. A análise é baseada nas Perspectivas de Tecnologia Energética[4] da Agência Internacional de Energia, que se concentra nas implicações das tecnologias de energia renovável para atingir metas de aumento de temperatura global de 2°C (2DS), 4°C (4DS) e 6°C (6DS). A geração de energia renovável (incluindo hidrelétrica e biomassa) aumenta nos três cenários climáticos, de 14% do atual mix de energia para 18% no cenário 6DS, e uma alta de 44% no cenário 2DS.

O estudo concentra-se em energia solar e eólica e baterias de armazenamento de energia, pois elas são comumente reconhecidas como elementos-chave para atender futuras necessidades energéticas a níveis de emissões de GEE baixo. Reconhece, entretanto, que muitas outras tecnologias de geração e de transmissão de energia serão necessárias para atender aos fortes compromissos climáticos assumidos em Paris, abrangendo o próprio setor de energia, bem como os setores de transporte, construção, indústria e gerenciamento do uso da terra. Através deste exercício, gera uma discussão mais ampla sobre esta questão crítica, reconhecendo que muitas outras tecnologias e sistemas de transmissão precisam ser abordados, dentre os quais destaco a energia nuclear e seu combustível atual, o urânio, mas também o potencial uso do tório e outros materiais associados a tal tecnologia.

Estação solar fotovoltaica de Cariñena, província de Saragoça, Espanha. Os painéis são montados em dispositivos de rastreio de duplo eixo para maximizar a intensidade da radiação incidente. Esta solução permite que os painéis acompanhem o sol durante sua órbita diurna

A etapa seguinte aborda quais materiais são necessários na produção ampliada dessas tecnologias e até que ponto a demanda será impulsionada por uma série de cenários climáticos globais de 2DS, 4DS e 6DS. O relatório mostra, claramente, que as tecnologias que supostamente lideram a mudança para a energia limpa, como eólica, solar, hidrogênio e sistemas de armazenagem de eletricidade, são, na verdade, significativamente MAIS intensivas, no que diz respeito aos materiais que as compõem, do que os atuais sistemas tradicionais de fornecimento de energia a partir de combustíveis fósseis e nuclear. Estimativas precisas sobre a demanda real por metais são baseadas em pelo menos duas variáveis independentes: (1) até que ponto a comunidade global de nações realmente consegue atingir suas metas climáticas de longo prazo do Acordo de Paris e (2) a natureza das escolhas específicas dentro de cada tecnologia. Em outras palavras, não apenas é uma função de quantas turbinas eólicas, painéis solares e veículos elétricos serão implantados, mas quais as tecnologias eólicas, solares e de propulsão elétrica irão dominar.

A pesquisa também indica que os requisitos das tecnologias de baixo carbono e a demanda por metais relevantes aumentam rapidamente entre os cenários 4DS e 2DS. O exemplo mais significativo disso são as baterias, nas quais o aumento nos metais relevantes como alumínio, cobalto, ferro, chumbo, lítio, manganês e níquel cresce em demanda de um nível relativamente modesto de 4DS para mais de 1000% sob 2DS.

Imagem de Satélite do Salar Coipasa. Pertence à Bolívia e ao Chile. Ele é um reservatório natural de muito potássio e lítio, declarado em 2007 como Reserva de mineração Fiscal

Como último passo, o relatório examina como os países em desenvolvimento, ricos em recursos, podem se posicionar melhor para tirar vantagem do mercado de commodities em evolução, que responde a uma transição energética de baixo carbono. Os recursos minerais não renováveis desempenham um papel dominante em 81 países[5] que coletivamente representam um quarto do PIB mundial, metade da população mundial e quase 70% daqueles em extrema pobreza. Como resultado, um número crescente de países de baixa renda dá enfoque à extração de recursos e atividades de processamento para seus planos de crescimento econômico. Tais investimentos acarretam custos significativos de capital inicial, com pressupostos-chave sobre a longevidade de commodities relevantes, muitas vezes chegando a mais de meio século (devido à vida útil típica das minas).

É importante que os países em desenvolvimento estejam mais bem posicionados para decidir como aproveitar o futuro mercado de commodities que responde aos objetivos climáticos e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável[6] relacionados. O relatório fornece uma série abrangente de mapas globais de commodities que monitora os níveis conhecidos de produção e reservas das mesmas, como observado acima, que desempenharão um papel potencialmente importante na transição da energia para um futuro de baixo carbono.

A transição para a energia de baixo carbono produzirá oportunidades globais em relação a vários minerais. A região da América Latina (Chile, Brasil, Peru, Argentina e potencialmente Bolívia) está em excelente posição para fornecer a transição energética global favorável ao clima. A região tem uma vantagem estratégica chave em cobre, minério de ferro, prata, lítio, alumínio, níquel, manganês e zinco. A África, com suas reservas em platina, manganês, bauxita e cromo, também deve servir como um mercado florescente para esses recursos.

Com relação à Ásia, a descoberta mais notável é o domínio global que a China tem sobre os metais, tanto os de base quanto de terras raras, necessários às tecnologias de energia de baixo carbono. Tanto a produção quanto os níveis de reservas, mesmo quando comparados com os países desenvolvidos ricos em recursos (como o Canadá e os Estados Unidos e, em menor medida, a Austrália) muitas vezes superam os outros. A Índia é dominante em ferro, aço e titânio, e a Indonésia tem oportunidades com bauxita e níquel, assim como a Malásia e as Filipinas com cobalto, em menor escala. Finalmente, na Oceania, as enormes reservas de níquel encontradas na Nova Caledônia não devem ser negligenciadas.

Bauxita

A pesquisa mostrou que existem lacunas significativas quanto à disponibilidade de dados atuais e robustos sobre o mapeamento de recursos minerais/metais relevantes em regiões de países em desenvolvimento (África, América Latina e Ásia). Também são notáveis as anomalias na distribuição geográfica dos principais metais em relação às atividades de produção versus níveis de reserva. Por exemplo, no que diz respeito à bauxita, os países em desenvolvimento (sem a China) representam apenas 30% da produção, mas representam 63% das reservas globais. No caso da África (Guiné), representa apenas 6,5% da produção global, mas 26% das reservas conhecidas.

Em sua conclusão, o relatório fornece uma série de recomendações sobre áreas para pesquisas futuras, que se enquadram em duas categorias: políticas e tecnológicas. Examinando de perto os subconjuntos de dois dos componentes críticos, energia e baterias usadas para abastecer o transporte elétrico, este relatório é um primeiro passo para examinar as implicações das mudanças nos requisitos materiais para a indústria de mineração na transição para a energia de baixo carbono. Pretende engendrar um diálogo mais amplo entre a energia limpa, o clima e as comunidades extrativistas em seus respectivos papéis nessa transição. No futuro, o Banco Mundial pretende trabalhar com esses principais constituintes para definir melhor as implicações dos minerais e metais para a energia de baixo carbono e desenvolver políticas e medidas apropriadas que ajudarão a garantir que a transição seja gerenciada de forma a atender ao conjunto completo de prioridades para o desenvolvimento sustentável, desde questões ambientais e outras questões de impacto referentes à segurança de abastecimentos desses materiais até o apoio ao crescimento econômico dos países em desenvolvimento.

———————————————————————————————–

Notas:

[1] GUIMARAES, Leonam dos Santos. A Nova Geopolítica da Energia, Caderno Opinião, FGV Energia, Rio de Janeiro, Julho de 2016.

Disponível em: https://fgvenergia.fgv.br/sites/fgvenergia.fgv.br/files/_leonam_dos_santos_-_geopolitica_0.pdf

[2] GUIMARAES, Leonam dos Santos. A Geopolítica da Energia de Baixo Carbono, Caderno Opinião, FGV Energia, Rio de Janeiro, Novembro de 2016.

Disponível em: https://fgvenergia.fgv.br/sites/fgvenergia.fgv.br/files/coluna_leonam_geopolitica.pdf

[3] ARROBAS, Daniele La Porta; HUND, Kirsten Lori; MCCORMICK, Michael Stephen; NINGTHOUJAM, Jagabanta; DREXHAGE, John Richard. 2017. The Growing Role of Minerals and Metals for a Low Carbon Future (English). Washington, D.C.: World Bank Group.

Disponível em: http://documents.worldbank.org/curated/en/207371500386458722/The-Growing-Role-of-Minerals-and-Metals-for-a-Low-Carbon-Future

[4] International Energy Agency, Energy, Technology Perspectives 2017.

Disponível em: https://www.iea.org/etp/

[5] Extractive Industries. Washington, D.C.: World Bank Group.

Disponível em: http://www.worldbank.org/en/topic/extractiveindustries/overview

[6] O que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. PNUD Brasil.

Disponível em: http://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/sustainable-development-goals.html

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Temperaturas globais na década de 1880 e 1980, comparadas à média no período entre 1951 e 1980” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Aquecimento_global#/media/File:Temperatures_across_the_world_in_the_1880s_and_the_1980s.jpg

Imagem 2 Perspectivas de Tecnologia Energética da Agência Internacional de Energia” – Print Screen da Página. (Fonte): https://www.iea.org/etp/

Imagem 3 Estação solar fotovoltaica de Cariñena, província de Saragoça, Espanha. Os painéis são montados em dispositivos de rastreio de duplo eixo para maximizar a intensidade da radiação incidente. Esta solução permite que os painéis acompanhem o sol durante sua órbita diurna Tradução livre. (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Energia_solar#/media/File:Paneles_solares_en_Cari%C3%B1ena,_Espa%C3%B1a,_2015-01-08,_DD_09-12_PAN.JPG

Imagem 4 Imagem de Satélite do Salar Coipasa. Pertence à Bolívia e ao Chile. Ele é um reservatório natural de muito potássio e lítio, declarado em 2007 como Reserva de mineração Fiscal ” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Salar_de_Coipasa#/media/File:Salar_de_coipasa.png

Imagem 5 Bauxita” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Bauxita#/media/File:BauxiteUSGOV.jpg

ANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

O Ocidente e a ascensão científico-tecnológica da China

Com o aumento das tensões envolvendo a atuação de multinacionais chinesas em mercados ocidentais, sobretudo a Huawei e a ZTE, multiplicaram-se, igualmente, nas últimas semanas, os questionamentos sobre a ascensão científica e tecnológica do país asiático e suas consequências para a ordem internacional contemporânea.

De acordo com especialistas, o recente pouso da sonda Chang’e 4 no “lado escuro da Lua, além de ser um acontecimento pioneiro para o mundo científico, também é um fato representativo da crescente ambição protagonizada pelo país asiático nos últimos anos no âmbito da política global.

Deve-se destacar que a chegada dos chineses no outro lado da lua é apenas um dos inúmeros avanços alcançados pelo país recentemente. Conforme destaca reportagem de capa da revista The Economist, desde a crescente qualidade de suas publicações acadêmicas, passando por iniciativas eticamente questionáveis – como a edição genética de embriões realizada pelo pesquisador He Jiankui –, indo até a construção do maior telescópio do mundo, o governo chinês tem investido maciços recursos financeiros e humanos para transformar o país em uma referência mundial no âmbito científico.

Comunicação com a sonda Chang’e 4

Pode-se afirmar que essas iniciativas possuem uma associação com a política de poder global colocada em prática pela China, conforme assevera o periódico britânico: “a China está interessada em demonstrar tais sinais de preeminência (…). Ela quer que o mundo e seu próprio povo saibam que o país é uma potência global – que ostenta não apenas uma economia titânica, mas a influência geopolítica e o poderio militar a combinar, por meio das diferentes formas de poder, um passado histórico e um futuro glorioso”.

No que tange ao desenvolvimento tecnológico, Johnny Horn, presidente da incubadora Global Group, assevera que “a China está se consolidando como líder global em tecnologia”. Assim, em setores como o mercado de empresas fintech, de inteligência artificial, e de redes sociais, especialistas afirmam que as iniciativas chinesas têm demonstrado pioneirismo e originalidade, focando em serviços ainda pouco explorados pelas empresas ocidentais, como o mercado de pagamentos por meio de dispositivos móveis.

Uma outra característica associada às companhias chinesas de tecnologia consiste na concentração de vários serviços em uma mesma plataforma, de acordo com a afirmação do professor James Crabtree, da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew de Singapura: “o que elas [as empresas chinesas] conseguiram fazer é construir esses grandes ecossistemas que se alimentam mutuamente (…). Uma vez que você reúne todas essas coisas em um só lugar, as pessoas começam a pensar no WeChat de certa forma como a própria internet, é o lugar para o qual você vai para resolver quase tudo”.

Especialistas afirmam que, com os avanços tecnológicos protagonizados por essas corporações e as restrições para a atuação de companhias ocidentais no país asiático, por meio de barreiras como o chamado “Grande Firewall da China”, esses empreendimentos passaram não só a dominar o amplo mercado interno no país, mas também a buscar, crescentemente, presença operacional em outras partes do mundo.

Pode-se afirmar, portanto, que foi esse processo de internacionalização que ensejou as recentes tensões envolvendo a Huawei, os governos dos Estados Unidos e de demais países próximos aos estadunidenses, sobretudo devido a questionamentos associados à competição mercadológica e à cibersegurança.

Sede da Lenovo na China

Analistas têm afirmado que tais tensões tendem a aumentar e a envolver outras multinacionais chinesas, como, por exemplo, a Lenovo, devido ao grande crescimento da sua área de servidores, que podem, portanto, fazer com que os países que adotem os serviços oferecidos por ela passem a ser vulneráveis aos interesses de Beijing.

Deve-se destacar, no entanto, que a rivalidade entre Ocidente e as empresas da potência asiática não envolve apenas a competição por mercados ou questões de segurança cibernética. Lynette Ong, especialista em China e professora na Universidade de Toronto, considera que “o conflito entre os Estados Unidos e a China não é apenas uma competição pela capacidade econômica ou pelo poder tecnológico, mas também um choque sobre valores – se o poder do governo deve ser contido, se a dissidência é tolerada e se os cidadãos estão preparados para abandonar a liberdade individual pela busca do bem comum, conforme explicitada pelos que estão no poder”.

———————————————————————————————–

Nota:

* Referência ao Governo da China.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Telescópio FAST” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Five_hundred_meter_Aperture_Spherical_Telescope#/media/File:FastTelescope*8sep2015.jpg]

Imagem 2 Comunicação com a sonda Change 4” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Chang%27e_4#/media/File:20180912_6258TPS-TPR-2018Q3-18-09-04-p14legacy.png

Imagem 3 Sede da Lenovo na China (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Lenovo#/media/File:Lenovo_western_headquarters_(20170707113944).jpg

ANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

Redes sociais transformam conflitos cibernéticos em guerras de likes

Tradicionalmente, os conflitos cibernéticos estão associados a “ações protagonizadas por um Estado ou por uma organização internacional que objetivam danificar computadores ou redes de informação de outra nação por meio da utilização de vírus ou de ataques de negação de serviço”.

Peter Singer, autor de LikeWar

Nos últimos anos, no entanto, devido à influência das redes sociais no cotidiano dos usuários da internet, uma forma diferenciada de conflitos no âmbito do ciberespaço tem alcançado crescente relevância. Esse novo domínio, cujo foco não consiste em atingir as redes virtuais em si, mas em corromper as ideias, as informações e as pessoas que fazem parte dessas redes, foi denominado, em publicação recente, de “guerra de likes” (LikeWar).

Conforme Peter Singer e Emerson Brooking, autores do estudo, o conceito de “LikeWar” abrange a forma como as redes sociais têm alterado as notícias, a política e a guerra, e como, por sua vez, a internet tem reformulado a percepção dos usuários da rede no que tange à realidade.

A ideia de “LikeWar” remete à noção de “Netwar”, concebida por John Arquilla e David Ronfeldt em pesquisa seminal, publicada ainda em 1993, sobre as guerras cibernéticas, e que se referia, naquele contexto, aos conflitos futuros que manipulariam “a informação no mais alto nível e que se dariam entre nações ou sociedades, objetivando atrapalhar, danificar ou modificar o que uma população-alvo conhece – ou pensa que conhece – sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor”.   

Emerson Brooking, autor de LikeWar

De acordo com Singer e Brookings (2018), parafraseando o estrategista militar Carl Von Clausewitz, os principais elementos dessa “guerra por outros memes” estão na constatação de que, atualmente, os atores internacionais mais poderosos são aqueles que conseguem monopolizar, de forma mais eficaz, a atenção dos usuários da rede, modificando o foco da veracidade para a “viralidade”, ou seja, consoante os autores, a autenticidade daquilo que é compartilhado ou curtido nas redes é menos relevante do que o seu potencial de propagação no ciberespaço.

Para ser bem-sucedido nessa forma diferenciada de guerra, os pesquisadores afirmam que os atores envolvidos devem aperfeiçoar a capacidade de lidar com a construção de narrativas, com a manipulação das emoções dos usuários – principalmente a raiva –, com a preocupação de parecer autêntico e sincero para o público em geral, com o senso de pertencimento a um grupo e com a “inundação”, ou seja, com a repetição deliberada desses compartilhamentos, deturpando, desse modo, a percepção que os usuários possuem sobre a veracidade dos fatos.   

Humvee destruída após ataque do Estado Islâmico em Mossul, no Iraque, em 2014

As estratégias adotadas pelo autoproclamado Estado Islâmico seriam, conforme Singer e Brooking, exemplos de sucesso nessa nova forma de enfrentamento, uma vez que utilizariam o meio virtual para a consecução de objetivos específicos no mundo real. No contexto da invasão da cidade de Mossul, no Iraque, em 2014, por exemplo, os combatentes do Estado Islâmico compartilharam, em tempo real, sob a hashtag #AllEyesOnISIS, vídeos, fotos e notícias – verdadeiras e falsas – a partir do campo de batalha. Esses compartilhamentos teriam aumentado o pavor dos soldados iraquianos, alguns dos quais, cientes das atrocidades supostamente ou verdadeiramente cometidas, preferiram abandonar os seus postos, facilitando a tomada da cidade pelo grupo terrorista.

Singer e Brookings afirmam, ainda, que a capacidade de manipular a atenção dos eleitores protagonizada por Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016 e a estratégia midiática de celebridades como Taylor Swift, provocando, por meio de uma autenticidade planejada, uma maior integração com os seus fãs na internet, seriam exemplos de táticas bem-sucedidas nessa nova forma de embate.

A guerra de likes significaria, assim, a última reviravolta na natureza constantemente mutável dos conflitos. De acordo com os pesquisadores, todos nós fazemos parte desse novo tipo de batalha, uma vez que estamos online e que, portanto, a nossa atenção é como uma porção de território contestado por Estados, empresas, políticos, celebridades e atores subnacionais. Nesse sentido, os autores advertem que tudo o que assistimos, gostamos ou compartilhamos “produz uma pequena ondulação no campo de batalha da informação, oferecendo uma vantagem infinitesimal para um lado ou outro”.

———————————————————————————————–

Referência:

SINGER, Peter; BROOKING, Emerson. LikeWar: the weaponization of Social Media. Kindle Edition, 2018.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Página do Facebook em um smartphone” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e0/A_serviceman_accesses_social_media_channels_using_a_smart_phone%2C_outside_MOD_Main_Building_in_London_MOD_45156045.jpg

Imagem 2 Peter Singer, autor de LikeWar” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/P._W._Singer#/media/File:PeterWSinger-highres.jpg

Imagem 3 Emerson Brooking, autor de LikeWar” (Fonte):

https://www.linkedin.com/in/etbrooking/detail/photo/

Imagem 4 Humvee destruída após ataque do Estado Islâmico em Mossul, no Iraque, em 2014” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Fall_of_Mosul#/media/File:Humvee_down_after_isis_attack.jpg

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

SIPRI: a modernização de armas nucleares continua

Passados mais de 70 anos dos holocaustos de Hiroshima e Nagazaki, a visão de um mundo sem armas nucleares continua muito distante. Em seu relatório anual, recentemente lançado, o Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Stocolm International Peace Research Institute – SIPRI) criticou o desenvolvimento contínuo de novas armas nucleares.

O ano passado (2017) foi um ano especial para aqueles a favor do desarmamento nuclear. Um total de 122 líderes mundiais se alinhou para assinar o Tratado sobre Proibição de Armas Nucleares (TPAN), se comprometendo a não produzir ou possuir tais armamentos. No entanto, os efeitos desse compromisso ainda não foram notados no sentido de se atingir a meta de um mundo livre de armas atômicas.

Sede do SIPRI em Solna

Segundo as últimas estimativas do SIPRI, ainda existem 14.465 artefatos nas mãos de apenas nove Estados: EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. Embora internacionalmente esses nove países sejam minoria, eles não têm absolutamente nenhuma intenção de abrir mão de seus arsenais. Embora o número total neste ano (2018) tenha caído ligeiramente em comparação com o ano anterior, as armas existentes foram modernizadas. Isso significa que as mais antigas estão sendo substituídas, algumas delas na verdade têm 40 ou 50 anos de idade, mas novas armas nucleares também estão sendo desenvolvidas com novas capacidades e novas funções técnicas.

Teste de lançamento de um ICBM Minuteman III

O governo dos EUA confirmou o desenvolvimento de modernos armamentos atômicos em fevereiro, quando publicou uma versão atualizada de sua Revisão da Postura Nuclear. Isso também afeta a Alemanha: embora não tenha armamentos nucleares próprios, como membro da OTAN está sob a proteção do escudo nuclear dos Estados Unidos. Cerca de 20 bombas nucleares B61 são armazenadas na região de Eifel e, nos próximos anos, serão substituídas por outras mais modernas, que podem ser orientadas com precisão para um alvo específico.

Os Estados Unidos estão investindo muito na modernização de seu arsenal nuclear. Até 2026, planeja gastar US$ 400 bilhões (€ 344 bilhões). No entanto, países menores como a Índia e o Paquistão também estão envolvidos em uma espécie de “corrida armamentista estratégica”. Ambos estão desenvolvendo novos artefatos e ampliando suas capacidades de produção de material físsil. As armas atômicas continuam sendo um elemento central das estratégias de defesa nacional das potências nucleares.

Em vista das atuais tensões entre os Estados Unidos e a Rússia, não está claro como os acordos internacionais de controle de armas nucleares serão eficazes no futuro. O que preocupa no momento é o fato de que a relação político-estratégica entre os dois entrou em colapso e, ressalte-se, ambos possuem 92% de todos os armamentos do gênero.

Decreto assinado por Kim Jong-Un autorizando o teste de uma suposta Bomba de Hidrogênio

Isso também afeta o controle de armas. Quando acordos importantes de desarmamento, como o tratado New Start, expirarem nos próximos anos, os especialistas temem que novos tratados não sejam feitos para substituí-los. Não haveria, portanto, limitações sobre os arsenais. Estamos claramente nos afastando da visão de Barack Obama de 2009, exposta no seu famoso “Discurso de Praga”, sobre um mundo livre de armas nucleares.

Um recente desenvolvimento em particular desperta inquietude: os avanços técnicos que a Coreia do Norte demonstrou em suas armas nucleares e testes de mísseis balísticos de longo alcance nos últimos 12 meses. Resta saber se o encontro entre o líder norte-coreano Kim Jong-Un e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realmente levará ao desarmamento nuclear norte-coreano. É porem um fato incontestável que a reunião abriu as portas para novas medidas de construção de confiança.

Em seu relatório anual de 2018, os pesquisadores do SIPRI reuniram outros dados que destacam a tensa situação política em relação à segurança global. Mais recursos foram gastos com Forças Armadas em 2017 do que em qualquer momento desde o final da Guerra Fria. O total de gastos militares em todo o mundo subiu para 1,739 trilhão de dólares, ou seja, 230 dólares para cada pessoa na Terra. Em 2016, os gastos foram de US$ 227 per capita. Os Estados Unidos ainda têm o maior orçamento de Defesa que qualquer país, US$ 610 bilhões, seguido pela China, Arábia Saudita e Rússia.

A razão para este fato foi o aumento dos gastos militares em algumas regiões, não todas, do mundo. O aumento no leste da Ásia é particularmente impressionante: a China, por exemplo, elevou seu orçamento de Defesa em 5,6% indo para 228 bilhões de dólares. Na Europa, o quadro é mais variado: os países da Europa Oriental gastaram consideravelmente menos com as Forças Armadas em 2017 do que no ano anterior, mas na Europa Central e Ocidental os gastos com Defesa subiram.

De acordo com o SIPRI, outra tendência também está em ascensão: o comércio global de armas aumentou significativamente nos últimos dez anos depois de atingir seu ponto mais baixo desde a Guerra Fria, no início dos anos 2000. Depois dos Estados Unidos, Rússia e França, a Alemanha é o quarto maior exportador mundial de armas.

———————————————————————————————–                     

Fontes das Imagens:

Imagem 1 A nuvem de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) após a queda da Little Boy e sobre Nagasaki, após o lançamento de Fat Man” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bombardeamentos_de_Hiroshima_e_Nagasaki#/media/File:Atomic_bombing_of_Japan.jpg

Imagem 2 Sede do SIPRI em Solna” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Stockholm_International_Peace_Research_Institute#/media/File:SIPRI_building.jpg

Imagem 3 Teste de lançamento de um ICBM Minuteman III” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_Unidos_e_as_armas_de_destruição_em_massa#/media/File:Minuteman3launch.jpg

Imagem 4 Decreto assinado por Kim JongUn autorizando o teste de uma suposta Bomba de Hidrogênio” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Teste_nuclear_norte-coreano_de_janeiro_de_2016#/media/File:Kim_Jong-un%27s_initial_order_on_H-bomb_test.jpg

ANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

Os exércitos cibernéticos e a insegurança global no ciberespaço

Diante da crescente utilização do domínio cibernético pela sociedade moderna, na qual os serviços, dos mais básicos aos mais complexos, são dependentes e compõem uma complexa rede de sinais, dispositivos e fluxos que caracterizam o ciberespaço, novas e velhas ameaças se manifestam, provenientes da dependência civil e militar do domínio cibernético.

Em um cenário global em que diferentes atores internacionais perseguem suas agendas particulares, o ciberespaço se tornou um novo domínio para o exercício e projeção de poder. Ao longo de 2017, ataques cibernéticos globais, a criação de exércitos cibernéticos e atos de ciberespionagem foram temas recorrentes.

Emblema do U.S. Cybercommand

Nesse cenário, velhas ameaças, tidas principalmente como provenientes dos Estados, se caracterizam pela criação de ramificações das Forças Armadas especializadas no domínio cibernético, ou pela tentativa de atualizar as forças e órgãos existentes a fim de garantir sua competitividade e segurança no ciberespaço. Essas forças mesclam as capacidades ofensivas e defensivas através da captação de inteligência por meio da espionagem cibernética e do monitoramento da atividade dos demais competidores.

Os Estados Unidos, por exemplo, contam com um vasto aparato civil-militar destinado ao monitoramento de cidadãos ao redor do mundo. Este se dá na forma dos programas de espionagem eletrônica da Agência de Segurança Nacional Norte Americana (NSA, na sigla em inglês) e conta com um braço das Forças Armadas destinadas ao combate e defesa cibernéticos, configurado no U.S. Cyber Command, que, por sua vez, coordena as capacidades cibernéticas das demais forças bélicas dos EUA.

Conforme vem sendo disseminado na mídia, a China possui capacidades cibernéticas que se expandem não só para a espionagem de membros dos governos e do setor privado, mas também, segundo vem sendo acusado, para o que chamam os acusadores de roubo de propriedade intelectual, além da construção de capacidades ofensivas. Em 2017, o presidente Xi Jinping oficializou a criação de um exército cibernético chinês, com o intuito de tornar a China “uma grande potência no ciberespaço”.

De fato, alguns autores argumentam que estamos presenciando o desenrolar de uma guerra fria cibernética entre os americanos e os chineses. Apesar dos esforços para a não agressão entre os dois países, melhor evidenciado pelo acordo afirmado no final da administração Obama com Xi Jinping, quando ficou estabelecido a tentativa de conter os roubos à propriedade intelectual e cibercrimes, o quesito de ofensiva cibernética foi deixado de lado no acordo.

A Coreia do Norte é outro ator marcante. Com seu exército cibernético coordenado pela agência de espionagem nacional, conhecido como “Unidade 180”, foi acusada de realizar ataques contra a Coreia do Sul e, de maneira amplamente exposta, contra os estúdios da Sony, nos EUA, em retaliação ao lançamento de um filme que satiriza o líder supremo Kim Jong-Un.

Pedido de resgate para as vítimas do ransomware Petya, que se espalhou pelo mundo em 2017

A Rússia, no que provavelmente é a ação mais divulgada e de maior impacto, é acusada pelos membros do Partido Democrata nos EUA de ter manipulado as eleições norte-americanas, que culminou na vitória do atual presidente Donald Trump. A política cibernética de Putin também obriga provedores de serviços de internet e fabricantes de software a criarem backdoors* em seus produtos, supostamente, de acordo com acusadores, para que a agência de segurança russa, a FSB, monitore esses produtos e seus usuários.

Outros países como França e Alemanha também criaram seus próprios exércitos cibernéticos. No entanto, o ciberespaço também se tornou o lugar de novas ameaças, já que a sua natureza permite a redução de diferenças de capacidade entre diferentes atores, o que potencializa o dano. Ou seja, o custo financeiro, diplomático e humano para a realização de um ataque cibernético é significativamente menor do que aquele envolvido em um ataque cinético** tradicional, como o bombardeio por drones, ou o deslocamento de um grupo de blindados. Dessa forma, diferentes atores particulares podem projetar poder no domínio cibernético, em paralelo com os demais atores estatais.

Outro fator que propicia o surgimento de novas ameaças e facilita a articulação das antigas é o anonimato inerente ao ciberespaço, onde, através de ferramentas como a criptografia e o mascaramento de endereços de IP torna-se praticamente inviável o rastreamento de determinadas ações até chegar aos indivíduos responsáveis, levantando uma série de desafios políticos e legais para a responsabilização de eventuais deturpadores das normas internacionais.

Esses dois fatores, combinados a dissociação do espaço cibernético com elementos físicos, permite que a livre circulação de fluxos informacionais através do espectro eletromagnético transpasse fronteiras internacionais com facilidade.

A combinação desses elementos como propulsores de novas ameaças veio à tona nos ataques cibernéticos na forma de ransomwares que afetaram a infraestrutura básica de diversos países durante 2017, causando bilhões de dólares em danos, e com os responsáveis ainda não identificados, apesar das acusações de que foram grupos de hackers associados ao governo russo, algo no campo da especulação e sem comprovação.

Em suma, a análise da atual conjuntura no domínio cibernético é de um contínuo sentimento de insegurança, decorrente da exploração da dependência moderna de elementos inseridos no domínio cibernético que podem ser explorados por um crescente número de atores anônimos, sejam eles estatais ou não, que podem afetar os sistemas essenciais de diferentes países, de organizações e/ou de instituições.

———————————————————————————————–                     

Nota:

* Brechas de segurança propositais que permitem o acesso de terceiros aos softwares que estão sendo utilizados.

** AÇÕES CINÉTICAS – São aquelas desencadeadas no interior da Área de Operações, que envolvem movimentos (fogos, voos, deslocamento de tropas e de blindados) e produzem resultados tangíveis (destruição, captura, conquista etc.).

(BRASIL, Glossário das Forças Armadas – MD35-G-01. Ministério da Defesa, 2007. Disponível em http://www.defesa.gov.br/arquivos/File/legislacao/emcfa/publicacoes/md35_g_01_glossario_ fa_4aed2007.pdf – Acessado em 20 de Fevereiro de 2018).

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1Operadores da divisão cibernética do Exército NorteAmericano” (Fonte):

https://www.army.mil/article/196311/active_army_cyber_teams_fully_operational_a_year_plus_ahead_of_schedule

Imagem 2Emblema do U.S. Cybercommand” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3ASeal_of_the_United_States_Cyber_Command.svg

Imagem 3Pedido de resgate para as vítimas do ransomware Petya, que se espalhou pelo mundo em 2017” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3APetya.Random.png

                                                                                  

AMÉRICA DO NORTEANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

O papel do ciberespaço na nova Estratégia de Segurança Nacional Norte-Americana

A primeira Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, publicada em dezembro de 2017, parte da priorização dos interesses norte-americanos ao redor do mundo, sendo caracterizada, em sua introdução, como uma “Estratégia de Segurança Nacional para americanos primeiro”. Em suas páginas iniciais, o documento deixa claro que a manutenção dos interesses e posicionamento dos EUA como uma nação forte são uma questão de segurança nacional e beneficiária não só aos Estados Unidos, mas a todos países que desejam se aliar a eles.

Partindo do princípio da priorização de interesses norte-americanos, a Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) é organizada em quatro pilares fundamentais:

  1. O primeiro é “proteger o povo americano, a pátria e o modo de vida americano”, através da securitização de fronteiras; da neutralização de fontes de ameaças; da proteção do ciberespaço, por meio da defesa de infraestrutura crítica, que pode vir a ser alvo de ataque cibernéticos; e da promoção da resiliência estadunidense.
  2. O segundo pilar fundamental é a “promoção da prosperidade norte-americana”, por meio do rejuvenescimento da economia doméstica, da promoção de relacionamentos econômicos, da liderança em pesquisa e tecnologia, do desenvolvimento de uma base de inovação de segurança nacional, e do domínio energético.
  3. A “Preservação da paz através da força” corresponde ao terceiro pilar fundamental da NSS. Busca-se atingir esse objetivo através da renovação das vantagens competitivas americanas e da atualização de capacidades e diplomacia.
  4. O quarto e último pilar corresponde ao “avanço da influência americana”, por meio do encorajamento de parcerias, melhores resultados em fóruns multilaterais e patrocínio de valores americanos.

Selo da Presidência norte-americana

Nessa estrutura, o ciberespaço aparece nos primeiro e terceiro pilares. Inicialmente, é abordado como palco para novas ameaças que podem vir a ameaçar a infraestrutura crítica e as instituições dos Estados Unidos, conforme a sociedade se torna intrinsecamente dependente dos serviços interconectados da Internet e do espaço cibernético como um todo. Nesse sentido, a NSS reconhece que o ciberespaço possibilita que agentes estatais ou não estatais realizem campanhas contra os EUA, sem necessariamente cruzarem qualquer fronteira física.

A crescente interconectividade da sociedade, das cidades, dos serviços e da infraestrutura básica americana no ciberespaço permite que os mesmos sejam alvos de ataques cibernéticos por atores que não necessariamente possuem forte presença ou capacidades militares tradicionais, como armamentos pesados, pessoal ou mísseis.

As ações prioritárias da NSS a respeito do ciberespaço são a identificação de riscos em seis áreas chave: segurança nacional; energia; bancos e finanças; saúde e segurança; comunicações; transportes. Ataques cibernéticos contra essas áreas podem possuir consequências catastróficas, portanto são o principal foco das capacidades defensivas norte-americanas.

Outros objetivos prioritários a serem perseguidos são a atualização e modernização das tecnologias informacionais federais, tornando-as mais seguras e defensáveis, para deter atores cibernéticos maliciosos, dotando autoridades e membros do governo federal de capacidades e autonomia para atuar na prevenção de ataques cibernéticos, trabalhando em conjunto com aliados para o desenvolvimento de infraestrutura de rede mais seguras, e aplicando consequências drásticas à governos, criminosos e atores que realizem atividades cibernéticas contra os EUA. Também estão: promover a obtenção e compartilhamento de informações através da redução de barreiras, classificação de material sensível e expansão da interação com o setor privado. Por fim, aplicar uma defesa de rede em camadas, desenvolvida com atores privados, a fim de impedir a livre circulação de atores maliciosos pela rede.

O presidente Donald J. Trump

No quesito “renovação de capacidades”, do terceiro pilar, o ciberespaço aparece em paralelo com as áreas a serem atualizadas, nominalmente: militar, base industrial de defesa, nuclear, espacial e inteligência. Para a renovação de capacidades cibernéticas, a NSS determina como ações essenciais o aprimoramento da capacidade de reconhecer e identificar ataques cibernéticos e seus responsáveis. Além disso, melhorar a expertise e capacidade do Governo federal, através do recrutamento de pessoal capaz de operar de maneira mais eficiente no domínio cibernético, bem como facilitar a integração e agilidade no compartilhamento de inteligência a respeito de adversários e ações no ciberespaço.

A abordagem do ciberespaço dada na NSS é uma evolução dos outros documentos de defesa que o antecederam, no entanto, a mais recente NSS é convicta em reconhecer o ciberespaço não só como o palco de novas ameaças não necessariamente dotadas de capacidade militar efetiva. Devido à dependência da sociedade norte-americana de serviços integrados ao ciberespaço, o mesmo pode vir a ser alvo da ação de atores estatais e não estatais capazes de causar danos significativos aos EUA, sem necessariamente estarem presentes fisicamente no país. A Estratégia de Segurança Nacional ainda reconhece o desafio e a necessidade de aprimorar a identificação e responsabilização de eventuais atores contrários aos interesses norte-americanos neste domínio.

O reconhecimento dado ao espaço cibernético nesta nova Política, em conjunto com o tratamento dado nos documentos estratégicos de países como Alemanha, Brasil e França, legitimam o domínio cibernético como um espaço paralelo aos tradicionais domínios de terra, ar, mar e espaço. No entanto, é importante ressaltar que ao mesmo tempo em que é paralelo, o ciberespaço, paradoxalmente, também perpassa os demais domínios, integrando comunicações pessoais, sistemas industriais, redes energéticas, armamentos e diversas tecnologias que não só os EUA, mas todos tomam como cotidianas e podem ser eventuais alvos. Ataques cibernéticos recentes contra centrais energéticas, ou os casos de ransomware que se espalharam pelo globo, ilustram a vulnerabilidade de serviços cruciais para a sociedade moderna.     

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1Capa da Estratégia de Segurança Nacional” (Fonte):

http://nssarchive.us/wp-content/uploads/2017/12/2017.pdf

Imagem 2Selo da Presidência norteamericana” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Presidente_dos_Estados_Unidos 

Imagem 3O presidente Donald J. Trump” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Trump#/media/File:Official_Portrait_of_President_Donald_Trump.jpg