NOTAS ANALÍTICASTecnologia

“Lei da Internet Soberana” entra em vigor na Rússia

Em maio de 2019, o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, assinou uma lei que permite ao Kremlin desconectar a Rússia da estrutura global de internet, a World Wide Web (WWW). De acordo com a agência de notícias TASS, ela estabelece o suprimento de uma conexão estável da internet russa (Runet), em caso de desacoplamento do servidor mundial. A lei entrou em vigor em 1o de novembro deste ano (2019).

Emblema da Roscomnadzor

A medida legal foi adotada para salvaguardar o país de eventual ameaça cibernética ou externa, e permite à agência nacional de telecomunicações, o Roskomnadzor, isolar a Runet do resto do mundo. O diretor da agência, Alexander Zharov, afirmou que a ação somente seria levada a cabo no evento de uma emergência, ocasião em que a Rússia seria desconectada dos servidores globais de internet e um domínio alternativo (DNS) seria ativado. Provedores de serviço seriam, então, compelidos a seguir o protocolo e se desconectar de servidores estrangeiros, dependendo exclusivamente do DNS russo.

Contudo, a identificação de tais ameaças fica a critério do Kremlin. Críticos da lei alegam que as novas regras permitem às autoridades bloquear conteúdos discricionariamente, sem revelar ao público o material censurado e a razão para tal. A organização Human Rights Watch salientou que, a partir de agora, os provedores da Rússia são obrigados a instalar “equipamentos que podem rastrear, filtrar e redirecionar o tráfego da internet”. O Deutsche Welle reportou que grupos que advogam a liberdade de imprensa consideram que a censura da internet na Rússia atingiu um novo patamar e demonstram preocupação com a livre expressão.

Dmitry Peskov

Ainda, o DNS exclusivo significaria que os internautas já não teriam controle sobre o conteúdo que acessam, e o Estado poderia direcioná-los a websites falsos ou mesmo nenhuma página web. O monitoramento do tráfego virtual também concerne ao mundo dos negócios. A União Russa de Indústrias e Empreendedores considera que seria difícil separar a Rússia dos servidores estrangeiros responsáveis por muitas das transações comerciais, e as medidas sancionadas poderiam levar a uma catástrofe.  

Os equipamentos supracitados conduzirão Deep Packet Inspection (DPI), um método de controle de redes amplamente usado para censura e vigilância, e seu uso é “uma invasão da privacidade das comunicações e um meio de completa repressão política”, conforme especialistas. O DNS independente da Rússia está previsto para ser lançado em 2021, e o próprio software de DPI ainda não está consolidado. Testes realizados secretamente em 2014 mostraram que isolar a Rússia da World Wide Web é possível, mas não eficaz, pois tudo seria restabelecido em cerca de 30 minutos.

Pesquisas de mídia mostram que a maioria dos russos se opõe à Lei da Internet Soberana, mas o governo permanece impassível. Em resposta às críticas, o porta-voz do governo, Dmitry Peskov, exprimiu: “Ninguém está sugerindo cortar a internet”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Runet Logo” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:RuNet_Logo.jpg

Imagem 2 Emblema da Roscomnadzor” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fe/Emblem_of_Roskomnadzor.svg

Imagem 3 Dmitry Peskov” (Fonte):

www.kremlin.ru e https://commons.wikimedia.org/wiki/File:News_conference_of_Vladimir_Putin_2012-12-20_11.jpeg

AMÉRICA DO NORTEEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALTecnologia

Devido a sanções norte-americanas, Huawei irá ampliar participação na Rússia

Considerada uma gigante global do ramo das telecomunicações e pioneira na criação da tecnologia 5G*, a empresa chinesa Huawei (traduzido do mandarim: flor), desde 2012 vem sendo acusada pelo Governo norte-americano de ser uma “ferramenta” do Estado chinês para executar espionagem de outros governos pelo mundo.

Logotipo da Huawei

Considerada uma ameaça para a segurança global, a Huawei foi colocada numa lista negra, na qual os elencados são impedidos de fazerem negócios com empresas dos EUA e, consequentemente, não poderão receber fornecimento de softwares e componentes para serem instalados em seus aparelhos celulares e tablets, deixando, assim, de ter acesso a alguns serviços do Android** e aos populares aplicativos Gmail e Google Maps.

Outro fator que potencializou o ataque mercadológico contra a Huawei partiu do FCC (Federal Communication Commission), órgão regulador das telecomunicações nos EUA que quer instaurar, em duas etapas, restrições punitivas às operadoras de telecomunicação locais.

Num primeiro momento, o FCC quer impedir que essas empresas utilizem de fundos do órgão que subsidiam serviços em áreas pobres para comprar equipamentos da Huawei e, numa segunda etapa, o órgão irá impor a uma lista de operadoras a remoção de equipamentos que se encontram na lista negra dos EUA, mesmo que já instalados em suas redes, sendo direcionadas a comprarem equipamentos de fornecedores tidos como confiáveis. Por último, quem não acatar as recomendações poderia ter atuação encerrada no país devido ao risco apresentado à segurança nacional.

Ilustração tecnologia 5G

Posto isso, a empresa chinesa busca alternativas para expandir seus negócios e encontrou na Federação Russa um aliado pronto a receber sua tecnologia 5G, quando, em setembro (2019), abriu em Moscou sua primeira zona de testes com a empresa MTS, maior operadora de telecomunicações móveis do país.

Com a nova parceria, a Huawei irá desembolsar cerca de 500 milhões de rublos (aproximadamente R$ 31,5 milhões***) na construção de centros de pesquisa e no treinamento de 10 mil especialistas russos, num período de 5 anos. A Rússia, por sua vez, analisa a inserção tecnológica chinesa em seu território como um marco desenvolvimentista para a plataforma do 5G, onde aspira implantar redes em todas as suas grandes cidades até 2024.

Logotipo do Sistema Operacional russo Aurora

Em detrimento às restrições norte-americanas, a Rússia também está oferecendo à Huawei, em substituição momentânea ao Android, seu sistema operacional Aurora, que poderá ser um trampolim para que a empresa chinesa desenvolva seu próprio sistema.

Segundo especialistas, a aliança entre Federação Russa e China, no tocante a tecnologia 5G, é a implantação de um desafio geopolítico que poderá criar uma frente econômica contra os Estados Unidos, onde o fato de falarem sobre o sistema operacional é realmente uma ameaça política que irá ao encontro de um processo de autonomia em relação ao monopólio americano dos sistemas operacionais de telefonia móvel no mundo.

As duas potências, trabalhando em conjunto para o desenvolvimento da tecnologia 5G, poderão alcançar, em primeira mão, elevados resultados estratégicos no tocante a formatação do ciberespaço, alavancando novos patamares relativos à geração de cidades inteligentes, à cibersegurança, à Internet das Coisas, ao Big Data e a todos os sistemas de processamento de informação, não só econômicos como também militares.

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Notas:

* É a próxima geração de rede de internet móvel, que promete velocidade de download e upload de dados mais rápida (10 a 20 vezes mais rápida do que a do 4G), cobertura mais ampla e conexões mais estáveis. Trata-se de utilizar melhor o espectro de rádio e permitir que mais dispositivos acessem a internet móvel ao mesmo tempo (Internet das Coisas).

** Android é o sistema operacional móvel do Google. Presente em múltiplos aparelhos de diversas fabricantes, como Samsung, Motorola, LG e Sony, é a plataforma mobile mais popular do mundo. É conhecido por ser baseado no núcleo do Linux, ter um código aberto e uma série de possibilidades de personalização.

*** Cotação de 02/11/2019 (RUB 1 = BRL 0,063).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Capa protetora de celular Huawei com bandeira da Rússia” (Fonte): https://www.fruugo.us/stuff4-casecover-for-huawei-honor-3xg750russiarussianflags/p-5282093-12283310?ac=bing&language=en

Imagem 2 Logotipo da Huawei” (Fonte): https://www.huawei.com/br/

Imagem 3 Ilustração tecnologia 5G” (Fonte): https://carrier.huawei.com/en/spotlight/5g

Imagem 4 Logotipo do Sistema Operacional russo Aurora” (Fonte): https://web.archive.org/web/20100630075322/http://www.auroraos.org/

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Laboratório da Samsung na Rússia na vanguarda dos “deepfake”

Em maio de 2019, o Centro de Inteligência Artificial da Samsung em Moscou apresentou ao mundo um novo software capaz de criar vídeos deepfakes* com apenas uma imagem. Trata-se de tecnologia pioneira, que faz uso de algoritmos que simulam os processos de aprendizagem e cognição do cérebro humano.

Embora a manipulação de vídeos e imagens exista há muito tempo, os “sistemas neurais” da inteligência artificial trabalham de maneira a tornar indistinguíveis a imagem original da imagem manipulada através do método comparativo: um “Gerador” cria uma versão de imagem e a apresenta ao “Discriminador”, que determina se ela é real ou falsa. A similitude dos deepfakes com a imagem real é medida conforme essa tecnologia perde a capacidade de detectar o que é real do que é forjado.   

Na ocasião da divulgação das capacidades de ponta na criação de deepfakes, a equipe da Samsung divulgou vários exemplos de retratos vivos usando apenas uma imagem pré-existente, inclusive a famosa pintura Mona Lisa. Apesar de surpreendente e um tanto falha (ainda), esta tecnologia provoca reflexão de especialistas e instiga análise de possíveis ameaças que advém com tais avanços, como fraudes, desinformação e adulteração de eleições.

Exemplos de aplicação da tecnologia deepfake Egor Zakharov

Egor Zakharov e os demais desenvolvedores do software estão cientes dos possíveis impactos de seu produto. Porém, consideram que essa tecnologia é uma espécie de democratização dos efeitos especiais, até então amplamente utilizados por Hollywood, e que mecanismos para apaziguar os efeitos negativos têm sido desenvolvidos. 

Uma conferência realizada no MIT (Massachusetts Institute of Technology) em setembro deste ano (2019), contou com a ilustre presença do presidente Russo Vladimir Putin. Exceto que a figura em cena não era Putin, e sim uma criação de Hao Li, o maior artista de deepfakes do mundo. Li mostrou-se preocupado que a tecnologia está se desenvolvendo “mais rápido do que pensava”, e previu que em dois ou três anos, deepfakes serão perfeitos. Li alertou que “não haverá maneira de determinar se algo é real ou não, então temos que ter uma abordagem diferente”.

O site War on the Rocks atenta para a transformação de algoritmos em armas, como facilitadores de falsificação. Especialistas se manifestaram sobre as possíveis repercussões do uso indevido de deepfake para a segurança nacional/internacional, e o professor Henry Farid exemplifica: “o pesadelo de alguém criar um vídeo de Trump dizendo ‘Eu lancei armas nucleares contra a Coréia do Norte’”. O pânico e as consequências de tal disparate “viralizando” nas mídias são imensuráveis.

Caso as previsões de Hao Li estejam corretas, os mecanismos de combate ao mal-uso da tecnologia deepfake apontados por Egor Zakharov devem estar à altura (e as legislações e regulamentos prontos a recebê-los).    

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Nota:

* Deepfake: Mistura dos termos “deep learning” (aprendizado profundo) e “fake media” (mídia falsa) é uma técnica de manipulação de imagem por Inteligência Artificial.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Códigos de Computação” (Fonte S. Hermann & F. Richter de Pixabay): https://pixabay.com/users/pixel2013-2364555/?utm_source=link-attribution&utm_medium=referral&utm_campaign=image&utm_content=4031973

Vídeo 1Exemplos de aplicação da tecnologia deepfake Egor Zakharov” (Fonte): https://www.youtube.com/watch?v=p1b5aiTrGzY

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Itália se une ao Reino Unido e Suécia no desenvolvimento de caça de última geração

O Ministério da Defesa Italiano formalizou oficialmente, durante a feira DSEI*, realizada em Londres, a participação no projeto de desenvolvimento do caça Tempest – aeronave de combate militar de nova geração. O país se une ao Reino Unido e à Suécia, que recentemente também aderiu ao projeto (em julho de 2019).  O anúncio marca a entrada dos 3 países na corrida armamentista pela criação de caças de “sexta-geração”, que irão substituir os mais modernos atualmente em produção (ditos de “quinta-geração”).

O caça Tempest será construído através de um consórcio de empresas formadas pelas britânicas BAE Systems e Rolls Royce, a Italiana Leonardo, e a MBDA (empresa multinacional de fabricação de mísseis e faz parte de uma joint-venture que conta com a participação da BAE Systems, Leonardo e Airbus). A Sueca SAAB trabalhará em cooperação no projeto, mas a expectativa é que seu papel possa aumentar consideravelmente no futuro. O projeto promete incluir capabilidades ultramodernas, como o uso de inteligência artificial, o controle remoto da própria aeronave (sem piloto) e a coordenação de ataque com frotas de drones (chamado de drone swarming – enxame de drones”). A Força Aérea Britânica estima que os caças estejam prontos para uso a partir de 2035.

Os três países não são as únicas potências a entrar na corrida pelo desenvolvimento de caças de “sexta-geração”. Os Estados Unidos possuem dois projetos, um capitaneado pela Marinha e outro pela Força Aérea, que possivelmente serão desenvolvidos pelas gigantes Boeing, Lockheed Martin e a Northrop Grumman. Os Russos, que estão próximos de começar a produção do caça de “quinta-geraçãoSukhoi Su-57, já trabalham com o projeto do caça de interceptação de “sexta-geraçãoMikoyan MiG-41. Os Chineses também estão na corrida, e já projetam o substituto de seu caça mais moderno, o Chengdu J-20.

Porém, o concorrente mais polêmico do projeto Tempest é o FCAS (Future Combat Air Systems), dirigido pelos Ministérios da Defesa da Alemanha, França e Espanha, e que está sendo desenvolvido pela francesa Dassault e Airbus (multinacional europeia). Apesar de diálogos para que o Reino Unido se unisse à iniciativa franco-alemã, o país desistiu da parceria e levou à frente a concepção do Tempest. A saída gerou crítica sobre as consequências de uma Europa dividida em relação aos dois projetos. O Ministério da Defesa Britânico declarou em julho (2019) que o país não se associou aos franceses e alemães devido ao fato de o programa não se encaixar aos objetivos estratégicos do país, mas, que, mesmo assim, o plano será de maximizar a interoperabilidade entre os distintos projetos. Vale lembrar que os países envolvidos tanto na concepção do FCAS como do Tempest são aliados estratégicos na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). 

Protótipo do caça FCAS, em exibição na Paris Air Show 2019

Os dois projetos foram lançados em um momento incerto para o futuro da geopolítica europeia, com a saída do Reino Unido da UE. Isso pode gerar uma rivalidade desnecessária entre as potências do continente. Sobre o assunto, o presidente francês Emmanuel Macron declarou em junho, durante a Paris Air Show (Feira Aeronáutica internacional na França), que “a competição entre os Europeus quando ela ‘nos’ enfraquece contra os Americanos, os Chineses, é algo ridículo”. 

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Nota:

* DSEI: Defence and Security Equipment International – Defesa e Equipamentos de Segurança Internacional, é a maior feira da Europa e uma das principais do mundo para a Indústria de Defesa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O caça americano F35 e o chinês J20, exemplos de caças de quinta-geração já em produção” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:F-35A_flight_(cropped).jpg e https://commons.wikimedia.org/wiki/File:J-20_at_Airshow_China_2016.jpg

Imagem 2 “Protótipo do caça FCAS, em exibição na Paris Air Show 2019” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:SCAF_-_Le_Bourget_2019.jpg

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Equador lança política de modernização digital

O Governo do Equador realizou em meados de julho de 2019 o “lançamento da política para converter o país no Equador Digital”. O evento contou com a presença de Lenín Moreno, Presidente da República, e a iniciativa visa colocar o país na vanguarda tecnológica, desenvolver e democratizar os serviços digitais, sobretudo entre as populações menos favorecidas.

estratégia Ecuador Digital está composta por três programas:  Ecuador ConectadoEcuador Eficiente y Ciberseguro eEcuador Competitivo. Cada programa se compõe de um conjunto de projetos que têm como objetivo ampliar o acesso às tecnologias de informação e comunicação (TIC) e fomentar a inovação e o empreendedorismo.

Erradicar a brecha digital e promover o desenvolvimento tecnológico do Equador por meio da implantação de infraestrutura de telecomunicações é a missão do Ecuador Digital. O Ecuador Eficiente y Ciberseguro pretende oferecer serviços públicoson line, com garantia da segurança dos dados, para poupar tempo e reduzir o valor gasto pelos cidadãos. A inovação da indústria por meio do uso massivo de TIC é o objetivo do Ecuador Inovador.

Logo do Ecuador Digital

Segundo a apresentação feita pelo Ministro, o Governo almeja até 2021 alcançar 98% de conectividade nos serviços de telecomunicações e 80% dos serviços públicos on line, além de implementar a Agenda Nacional de Transformação Digital. Foram apresentadas simulações de benefícios advindos da modernização digital, como a massificação da tecnologia 4G e implantação da 5G, o agendamento de consultas médicas virtuais (Telemedicina), e a transformação da Indústria 4.0.

De acordo com porta-vozes do Governo Equatoriano, a nova política contribuirá para a implantação de cidades inteligentes, assim como para o atingimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Informam que as parcerias público-privadas impulsionarão investimentos que devem criar mais de 5 milhões de postos de trabalho.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Ministro do MintelAndrés Michelena, e Presidente da RepúblicaLenín Moreno” (Fonte): https://www.telecomunicaciones.gob.ec/wp-content/uploads/2019/07/5d310501ee7e1_image.png

Imagem 2 Logo do Ecuador Digital” (Fonte): https://www.telecomunicaciones.gob.ec/wp-content/uploads/2019/06/Ecuador%20Digital.jpg

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“Síndrome de Kessler” coloca Agência Espacial Russa em alerta

Desde que o homem começou a explorar o espaço sideral, uma enorme quantidade de equipamentos, com as mais variadas finalidades, foi lançada em orbita da Terra para suportar o avanço dessa empreitada tecnológica, o que, com o passar das décadas, gerou uma situação que vem preocupando agências espaciais de vários países, pois, a partir da crescente quantidade de restos orbitais* proveniente desses equipamentos, surgem ameaças que podem comprometer o futuro das viagens espaciais.

Segundo dados, mais de 500.000 pedaços de detritos, ou “lixo espacial”, são rastreados à medida que orbitam nosso planeta, todos eles viajando a velocidades de até 25 mil quilômetros por hora, rápido o suficiente para que um pedaço relativamente pequeno de material possa danificar um satélite, ou uma nave espacial conduzindo astronautas.

Logotipo da ROSCOSMOS – Agência Espacial Russa

O problema se agravou quando nações que fazem pesquisa aeroespacial, principalmente de cunho militar, começaram a realizar testes de armas antissatélite para desativar ou eliminar equipamentos espaciais para fins estratégicos, como foi o caso do teste conduzido pela Índia em março deste ano (2019), denominado Missão Shakti**, que destruiu um satélite desativado na órbita de 300 quilômetros da Terra. O efeito desse teste causou o aumento de detritos orbitais na casa dos milhares de fragmentos e acarretou críticas tanto da NASA (Agência Espacial Norte Americana) quanto da ROSCOSMOS (Agência Espacial Russa) que alertaram sobre o aumento do risco desses fragmentos colidirem com a Estação Espacial Internacional (ISS – International Space Station).

Para o diretor do Instituto de Astronomia Russa de Ciências, Boris Shustov, a quantidade de detritos espaciais já pode ter atingido o limiar da “Síndrome de Kessler, uma teoria desenvolvida na década de 1970, pelo consultor da NASA, Donald J. Kessler, que supõe que o volume de detritos espaciais na órbita baixa da Terra (entre 300 e 2.000 km da superfície terrestre) seria tão alto que objetos como satélites começariam a se chocar com o lixo, produzindo um “efeito dominó”, e gerando, assim, mais lixo.

Lixo espacial encontrado na Arábia Saudita

Essa teoria não foge da realidade quando comparada ao histórico de ocorrências relatadas pela NASA, algumas delas demonstradas a seguir, apresentando a profundidade do problema:

  • 1996 – Um satélite francês foi atingido e danificado por detritos de um foguete de mesma nacionalidade que havia explodido uma década antes;
  • 2007 – A China realiza teste de míssil antissatélite, que destruiu um satélite fora de serviço, acrescentando mais de 3.000 fragmentos na lista de detritos rastreáveis;
  • 2009 – Um satélite russo desativado colidiu e destruiu um satélite comercial de Iridium dos EUA em funcionamento. A colisão acrescentou mais de 2.000 pedaços de detritos rastreáveis para o inventário de lixo espacial.

O problema esta causando uma discussão global sobre a política espacial e a ROSCOSMOS quer propor a abertura de discussões envolvendo as potências espaciais para considerar a proibição de testes de armas antissatélite, para não agravar o problema do acúmulo de lixo, mas, além da questão militar, existem outros pontos que poderão sobrecarregar ainda mais essa questão que seria o aumento das missões espaciais já delineadas por diversas nações. Somente a SpaceX*** recebeu aprovação para lançar 12 mil satélites do seu programa Starlink, com o objetivo de criar uma rede mundial de internet. Conforme vem sendo apontado por especialistas, se nada for feito sobre o problema, as colisões se tornarão cada vez mais prováveis, o que significa que voos espaciais seriam quase impossíveis.

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Notas:

* Restos orbitais é uma referência a qualquer objeto feito pelo homem em órbita sobre a Terra que já não serve a uma função útil. Tais detritos incluem naves espaciais não funcionais, estágios de veículos de lançamento abandonados, detritos relacionados à missões e detritos de fragmentação.

** A missão Shakti foi empreendida para desenvolver armas antissatélite de alta potência (A-SAT). Com isso, a Índia juntou-se a outras três nações – EUA, Rússia e China, capazes de realizar tal operação. Isso dará um grande impulso para enfrentar os desafios de segurança que a Índia enfrenta, especialmente com o Paquistão. Com este míssil A-SAT, a Índia terá a capacidade de interferir com os satélites ou de se envolver em ataques diretos. O míssil A-SAT pode ser aéreo, marítimo ou terrestre. A partir de 1957 até os anos 80, os EUA e a Rússia lançaram testes de mísseis antissatélite, o que foi denominado como violação do tratado da ONU de 1967.

*** Empresa privada que projeta, fabrica e lança foguetes e naves espaciais avançados. Foi fundada em 2002, por Elon Musk, para revolucionar a tecnologia espacial, com o objetivo final de permitir que as pessoas possam viver em outros planetas. A empresa tem mais de 6.000 funcionários em vários locais, incluindo sua sede em Hawthorne, CA; instalações de lançamento na Cape Canaveral Air Force Station, FL; Centro Espacial Kennedy, FL; e a base da força aérea de Vandenberg, CA; um mecanismo de desenvolvimento de foguetes em McGregor, TX; e escritórios em Redmond, WA; Irvine, CA; Houston, TX; De chantilly, VA; e Washington, DC.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Estação Espacial Internacional” (Fonte): http://en.roscosmos.ru/202/

Imagem 2 Logotipo da ROSCOSMOS Agência Espacial Russa” (Fonte): https://www.roscosmos.ru/112/

Imagem 3 Lixo espacial encontrado na Arábia Saudita” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Detrito_espacial#/media/Ficheiro:Debris-star48_3.jpg