NOTAS ANALÍTICASTecnologia

China planeja lançamento de lua artificial para 2020

No dia 10 de outubro, Wu Chunfeng, presidente do Instituto de Pesquisa em Sistemas Microeletrônicos de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (CASC) em Chengdu, capital da província de Sichuan, na China, anunciou que o instituto está planejando o lançamento de um satélite artificial de iluminação capaz de produzir um brilho oito vezes maior do que o da lua. Caso essa iniciativa, que está prevista para ocorrer em 2020, tenha resultados positivos, Chunfeng afirma que há a possibilidade de outros três satélites, mais sofisticados, serem lançados em 2022.

Localização da cidade de Changdu, na China

Assim como ocorre com a lua, o projeto do satélite artificial chinês, posicionado a uma distância de 500 quilômetros da terra, funcionaria como uma espécie de espelho, refletindo a luz solar em direção à superfície terrestre. De acordo com Chunfeng, a lua artificial poderá ter sua luminosidade ajustada e, caso seja necessário, os seus espelhos poderão ser desligados completamente. O especialista estima que a empreitada pode complementar a iluminação tradicional da cidade de Chengdu, substituindo-a em algumas localidades, e ocasionar uma economia de 170 milhões de dólares anualmente, caso o satélite artificial ilumine uma região de 50 quilômetros quadrados.

A iniciativa de utilizar mecanismos refletores com finalidade energética não é recente. Ainda em 1923, o cientista alemão Hermann Oberth pesquisou a possibilidade de instalação de espelhos no espaço, iniciativa que, de acordo com artigo da Life Magazine, teria servido de inspiração para que os nazistas, futuramente, cogitassem em desenvolver uma espécie de “arma solar”.

Arma Solar

Mais recentemente, no início da década de 1990, a Agência Espacial Federal Russa desenvolveu o projeto do satélite Znamya com as mesmas finalidades energéticas. No entanto, ainda que, de acordo com os cientistas russos, uma primeira versão do satélite tenha se mostrado relativamente bem-sucedida, demonstrando a possibilidade de instalação e funcionamento desses mecanismos refletores no espaço, o projeto foi abandonado em 1999, quando o satélite Znamya 2.5, lançado naquele ano, não foi capaz de se manter em órbita.

Em uma iniciativa de menor escala, em 2013, foram instalados em Rjukan, cidade norueguesa situada em um vale cercado por montanhas, espelhos controlados por computadores para que a cidade pudesse receber a luz do sol ao longo de todo o ano.

Cidade norueguesa de Rjukan

As principais críticas que o projeto chinês tem recebido consistem na própria viabilidade da iniciativa, uma vez que, conforme cientistas, seria impossível que um satélite localizado a apenas 500 quilômetros da terra pudesse se manter parado o suficiente para iluminar de forma eficaz uma cidade específica.

Ademais, questiona-se o impacto que um empreendimento desse tipo poderia ter na fauna e na flora locais, além dos possíveis efeitos negativos no ciclo circadiano e na saúde dos indivíduos moradores da região. Em linhas gerais, os astrônomos também questionam a chamada “poluição luminosa” ocasionada por esse tipo de iniciativa, uma vez que essa poluição prejudica a observação astronômica e, por conseguinte, a realização de pesquisas científicas.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Fossas Tectônicas da Lua” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lua#/media/File:14-236-LunarGrailMission-OceanusProcellarum-Rifts-Overall-20141001.jpg

Imagem 2 Localização da cidade de Changdu, na China” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Chengdu#/media/File:Chengdu_in_China.png

Imagem 3 Arma Solar” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Sun_gun#/media/File:Sonnengewehr.jpg

Imagem 4 Cidade norueguesa de Rjukan” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Rjukan#/media/File:Rjukan_panorama_IMG_0052.JPG

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Grupo terrorista Al-Shabaab almeja influenciar a mídia internacional

Enquanto a história da caça ao leão for contada pelos caçadores, os leões serão sempre perdedores”, com base nesse provérbio africano, estudo recente publicado pelo Centro de Comunicação Estratégica da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) analisa a eficácia do grupo terrorista Al-Shabaab em tentar influenciar a mídia internacional por meio da utilização de redes sociais, principalmente o Twitter, construindo, dessa forma, sua própria narrativa sobre os acontecimentos.

Mapa da Somália

Ainda que a relação entre extremismo e internet seja comumente associada ao autoproclamado Estado Islâmico (EI), pode-se afirmar, conforme a pesquisa, que o Al-Shabaab, organização somali que atua na região do Chifre da África e cujo nome significa “A Juventude”, em árabe, é precursor de várias estratégias no âmbito do ciberespaço que futuramente seriam utilizadas também pelo EI.

Com base na chamada “Propaganda pelo Ato”, ou seja, na realização de ataques que possam servir de inspiração para futuros atentados, o estudo aponta que o Al-Shabaab produz conteúdo midiático especificamente elaborado para alcançar a mídia internacional, como vídeos que se destinam aos programas televisivos de notícias dos grandes conglomerados de comunicação, e o divulga por meio de suas contas nas redes sociais.

Robyn Kriel, a autora do estudo, afirma que, nessas iniciativas midiáticas, o grupo se preocupa em moldar o tipo de narrativa que será elaborada sobre os ataques, sendo positiva a “cobertura que leva ao aumento da notoriedade para o grupo, mais credibilidade no palco do terrorismo global, um surto de recrutamento, um aumento do apoio público para a diáspora somali, bem como o apoio da população local”.

Nesse sentido, no ataque ocorrido em setembro de 2013 a um centro comercial no Quênia, os integrantes do Al-Shabaab, ao postar a ofensiva em tempo real pelo Twitter, conseguiram dar visibilidade internacional às suas demandas contra a presença de tropas quenianas na Somália, além de tornar evidente, segundo Kriel, o despreparo das forças do Quênia, uma vez que, comparativamente, as próprias comunicações do governo queniano sobre o atentado se mostravam desatualizadas ou incorretas, gerando, assim, uma publicidade internacional negativa em relação à resposta do governo daquele país ao ataque.

Ataque do Al-Shabaab ao centro comercial Westgate, no Quênia, em 2013

No mesmo sentido, em 2016, ao atacar uma distante base militar do Quênia no sul da Somália, o Al-Shabaab, por meio do compartilhamento de notícias no Twitter sobre o atentado, acabou servindo de fonte de informações para a imprensa internacional, já que as informações do governo queniano se mostraram, novamente, imprecisas.

Ainda conforme a autora, a utilização pioneira de contas no Twitter pelo grupo começou por volta de 2010, com postagens em inglês para aumentar o apelo à imprensa internacional e a possibilidade de recrutamento de futuros jihadistas. Devido às dificuldades de segurança e de infraestrutura para o envio de jornalistas para o país, essas contas passaram a servir de fontes de informação para a imprensa internacional, com jornalistas as seguindo e frequentemente interagindo com os seus respectivos usuários.

Assim, Robyn Kriel assevera que, ao enfocar a noção de veracidade e de se contrapor às comunicações oficiais do governo queniano, acusando-as de inverídicas, o Al-Shabaab potencializa a sua própria legitimidade local e internacionalmente, atitude que os próprios jihadistas consideram imprescindível para a defesa da sua causa. A autora conclui que os opositores ao grupo, inclusive a comunidade internacional, também precisam perceber a relevância desse processo de construção de legitimidade para combater o Al-Shabaab.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo do AlShabaab ” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Al-Shabaab_(militant_group)#/media/File:ShababLogo.png

Imagem 2 Mapa da Somália” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Somalia#/media/File:Somalia_-_Location_Map_(2011)_-_SOM_-_UNOCHA.svg

Imagem 3 Ataque do AlShabaab ao centro comercial Westgate, no Quênia, em 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Westgate_shopping_mall_attack#/media/File:Smoke_above_Westgate_mall.jpg  

                                                                                              

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Robótica e mineração: as inovações russas para exploração do Ártico

Com o intuito de explorar as maiores reservas de hidrocarbonetos e metais raros do mundo, localizadas no fundo do Oceano Glacial Ártico, e que apresentam difícil acesso por conta da profundidade e da temperatura extremamente baixa, a Federação Russa está lançando um ambicioso projeto de mineração com o emprego de tecnologias nunca antes utilizadas para esse propósito.

Horizonte do Oceano Ártico

Nesse âmbito, a Fundação de Pesquisas Avançadas da Rússia*, criou dentro de sua estrutura o Centro Nacional de Desenvolvimento de Tecnologias e Elementos Básicos de Robótica que, desde 2015, vem desenvolvendo técnicas de exploração mineral com a utilização de submarinos não tripulados em águas profundas, ou mais conhecidos como Veículos Subaquáticos Autônomos (AUV – do inglês Autonomous Underwater Vehicle). Os AUVs são atualmente usados em pequeno número por muitos países e geralmente controlados de perto por operadores, em vez de circularem livremente.

A total autonomia veicular, que será de grande importância para explorar as profundezas do Ártico, é o objetivo da pesquisa que já construiu protótipos para se testar os algoritmos** robóticos e confirmar seu atendimento aos requisitos operacionais e definir a navegabilidade do veículo. Alguns desses protótipos foram testados com elevada margem de sucesso, como são os casos do Klavesin-2R-PM UUV, utilizado em operações de exploração até 6 mil metros de profundidade, juntamente com o Vityaz UUV, veículo totalmente autônomo que terá capacidade exploratória em ambientes com mais de 10 mil metros de profundidade.

Além dos veículos autônomos, o governo russo quer complementar o desenvolvimento das novas tecnologias com a implementação de instalações robóticas no fundo do leito oceânico para prospecção mineral, que, segundo o chefe de projeto da fundação, Viktor Litvinenko, será um trabalho desafiador, pois utilizará tecnologias que essencialmente não existem nos dias atuais e que necessitará de parceiros altamente qualificados para respaldar o projeto, como é o caso da Rosatom, companhia estatal de energia nuclear da Rússia, juntamente com sua subsidiária no campo de exploração de urânio, a JSC Atomredmetzoloto (ARMZ Uranium Holding Co.), que já se prontificaram para serem clientes cooperativos.

Apesar de não ter sido divulgado o tamanho do gasto para o desenvolvimento e a implementação dessas novas tecnologias, o retorno desse enorme investimento é praticamente certo, pois servirá para explorar jazidas de zinco, urânio, ferro e diamantes, além de depósitos de hidrocarbonetos em áreas submersas, com capacidades estimadas em 28 bilhões de barris de petróleo, 31 bilhões de barris de gás natural liquefeito, além dos incríveis 356 bilhões de metros cúbicos de gás, segundo estudos do United States Geological Survey (USGS).

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Notas:

* A FPI (do russo – Fond Perspektivnyh Issledovaniy), foi criada em 2012 para apoiar pesquisas e desenvolvimentos científicos de acordo com os interesses da defesa e segurança da Federação Russa. A organização realiza suas atividades em três direções principais – químico-biológica e médica, físico-técnica e de informação.

** Termo utilizado em MATEMÁTICA: sequência finita de regras, raciocínios ou operações que, aplicada a um número finito de dados, permite solucionar classes semelhantes de problemas. Em INFORMÁTICA: conjunto das regras e procedimentos lógicos perfeitamente definidos que levam à solução de um problema em um número finito de etapas.

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Imagem 1 Navios quebra-gelo” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b6/Three_icebreakers_–_Yamal%2C_St_Laurent%2C_Polar_Sea.jpg

 

Imagem 2 “Horizonte do Oceano Ártico” (Fonte):                                                                                           

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b5/Arctic_Sky_%284371010590%29.jpg

 

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Defender para frente, a nova abordagem cibernética do Pentágono

Além da publicação da primeira estratégia completa sobre segurança cibernética, em 15 anos, o Governo norte-americano divulgou, no final de setembro (2018), projeto, nessa mesma área, elaborado pelo seu Departamento de Defesa.

Selo do Departamento de Defesa dos Estados Unidos

O plano do Pentágono enfatiza a competição estratégica de longo prazo, no âmbito do ciberespaço, que os Estados Unidos travam com China e Rússia, destacando, respectivamente, a alegada subtração de informações de diversos setores norte-americanos protagonizada pela China e a acusada influência no processo democrático estadunidense, supostamente desencadeada por atuação russa.

A partir dessas ameaças, pode-se afirmar que, comparada aos projetos anteriores elaborados durante o mandato do presidente Barack Obama, a atual estratégia cibernética do Pentágono possui uma característica mais agressiva, representada, principalmente, pela ênfase do documento na chamada “defesa para frente” (defend forward), que consiste em “interromper a atividade cibernética maliciosa na sua origem”, confrontando, dessa forma, ameaças aos EUA antes de elas conseguirem acessar as redes norte-americanas.

Com base nessa diretriz, o Departamento de Defesa teria maior autonomia para realizar ações preemptivas que desestimulassem prováveis ataques cibernéticos àquele país. Deve-se destacar, no entanto, que, apesar de o conceito ter sido introduzido apenas nesse documento recém-publicado, na prática, iniciativas que poderiam se encaixar sob a denominação de “defesa para frente” já são realizadas pelas forças norte-americanas há algum tempo.

Entre as principais críticas feitas a essa abordagem mais agressiva protagonizada pelos EUA no ciberespaço, pode-se destacar o receio de que a atitude amplie a escalada dos conflitos cibernéticos. Ademais, receia-se que o menor prazo para identificar a autoria de possíveis ataques enseje uma retaliação contra um alvo errado.

Ainda que seja objeto de reprimendas, essa nova abordagem parece estar alinhada ao diagnóstico realizado por altos oficiais norte-americanos, como o general Paul Nakasone, diretor da Agência Nacional de Segurança, segundo o qual, os adversários dos EUA ainda não testemunharam uma retaliação forte o suficiente para que fossem incentivados a mudar sua conduta perniciosa no ciberespaço.

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Fontes das Imagens:

Imagem 2 Prédio do Pentágono” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Pentagon#/media/File:The_Pentagon,_cropped_square.png

Imagem 2 Selo do Departamento de Defesa dos Estados Unidos” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Department_of_Defense#/media/File:United_States_Department_of_Defense_Seal.svg

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O direito de ser esquecido pode se transformar em uma iniciativa global

Em 2009, ainda que houvesse quitado seus débitos há alguns anos, o espanhol Mario Costeja González se considerava prejudicado em relação às buscas ao seu nome realizadas no Google, pois os principais resultados consistiam em uma pequena nota publicada há mais de dez anos no jornal catalão La Vanguardia sobre a venda de um imóvel em sua propriedade para a quitação de dívidas junto às autoridades espanholas.

Emblema do Tribunal de Justiça da União Europeia

Após ter seu pedido de retirada do artigo negado pelo periódico, em maio 2014, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) concedeu ao espanhol o direito de ter seu nome desvinculado do artigo nas buscas realizadas utilizando o Google.

O caso “Google Spain Vs Mario Costeja González” é considerado o marco para o surgimento do chamado “direito de ser esquecido”, que, conforme a decisão do TJUE, exige que, no âmbito da União Europeia, as ferramentas de busca neguem acesso a informações consideradas “inadequadas, não pertinentes ou já não pertinentes ou excessivas em relação ao objetivo pelo qual foram processadas, tendo em conta o tempo decorrido”.

Conforme relatório publicado pelo Google, entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2018, foram feitas 2,4 milhões de solicitações para que links na rede fossem dissociados dos nomes dos respectivos solicitantes nas buscas realizadas por meio da ferramenta, tendo sido 43% dessas solicitações implementadas e o procedimento, chamado de delisting, realizado. De acordo com o levantamento, a maior quantidade de solicitações consistiu em informações relacionadas a questões profissionais (24%) e foram feitas por pessoas físicas (89%).

Right to be forgotten: transparency report” / “Direito de ser esquecido: relatório de transparência

Atualmente, a controvérsia sobre o direito de ser esquecido está relacionada há um novo caso que está sendo analisado pelo TJUE referente a um pedido da Comissão Nacional de Informática e Liberdade (CNIL), órgão autônomo francês responsável pela proteção e privacidade de informações, para que o direito de ser esquecido seja estendido para buscas realizadas fora dos domínios europeus,  uma vez que, conforme a instituição, é possível utilizar subterfúgios – como esconder o IP para navegar anonimamente –, com o objetivo de contornar as restrições impostas às buscas realizadas dentro dos limites da União Europeia. A decisão do TJUE está prevista para acontecer em 2019.

A proposta do CNIL, no entanto, tem sido condenada pelo Google e por Organizações Não Governamentais, devido, principalmente, ao potencial que uma decisão para ampliar o direito de ser esquecido pode ter no sentido de ameaçar a liberdade de expressão, como afirma Thomas Hughes, diretor da ONG Artigo 19, organização que defende a liberdade de expressão e de informação: “reguladores de dados europeus não devem ser autorizados a decidir o que os usuários da internet ao redor do mundo encontram quando usam uma ferramenta de busca. O [Tribunal] deve limitar a atuação do direito a ser esquecido, a fim de proteger o direito dos usuários da internet ao redor do mundo”.

Ademais, conforme Hughes, há um receio de que, caso seja implementado internacionalmente, alguns países utilizem o direito de ser esquecido como uma justificativa para impor medidas de censura: “se os reguladores europeus podem dizer ao Google para remover todas as referências a um site, então será apenas uma questão de tempo antes que países como China, Rússia e Arábia Saudita comecem a fazer o mesmo. O [TJUE] deve proteger a liberdade de expressão, não estabelecer um precedente global de censura”.

No mesmo sentido, o Google também defende que uma decisão favorável ao pleito da CNIL tem a possibilidade de “encorajar outros países, incluindo regimes menos democráticos, a tentar impor os seus valores aos cidadãos do resto do mundo”.

Deve-se destacar, contudo, que já há um precedente em relação à utilização do procedimento do delist além das jurisdições nacionais. Em junho de 2017, em um caso envolvendo o Google e a empresa Equustek, a Suprema Corte do Canadá determinou que os tribunais canadenses estão aptos a obrigar a empresa do Vale do Silício a remover links internacionalmente, uma vez que, conforme a decisão da Corte, “a internet não possui fronteiras, seu habitat natural é global”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Botão de Deletar” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/77/Delete_key1.jpg

Imagem 2 Emblema do Tribunal de Justiça da União Europeia” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/European_Court_of_Justice#/media/File:European_Court_of_Justice.png

Imagem 3 Right to be forgotten: transparency report” / “Direito de ser esquecido: relatório de transparência” (Fonte):

https://www.blog.google/around-the-globe/google-europe/updating-our-right-be-forgotten-transparency-report/

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O Vale do Silício e o papel da imigração internacional para a inovação tecnológica

Desde a década de 1960, quando se transformou em uma das regiões pioneiras na produção de semicondutores no mundo, o Vale do Silício, localizado na baía de São Francisco, nos Estados Unidos, tem se destacado como o centro da inovação tecnológica global.

Residência principal de multinacionais como Apple, Alphabet (Google) e Facebook, a região é famosa pelas suas incubadoras, startups e pelo fluxo de capitais disponíveis para investimentos em negócios promissores. Esse ecossistema atrai uma série de empreendedores provenientes das diferentes partes do globo, dispostos a desenvolver suas empresas em um ambiente propício ao célere crescimento comercial. 

A baía de São Francisco dentro do Estado da Califórnia

No entanto, principalmente a partir do ano passado (2017), mais pessoas estão deixando o Vale do Silício do que se mudando para a região. Esse fenômeno está associado a uma série de fatores, como: alto custo de moradia e de manutenção de um escritório físico no Vale; trânsito caótico; e uma cultura obcecada por dinheiro. Essa mudança tem gerado preocupações no que tange a uma possível redução relativa da importância do Vale do Silício nos próximos anos.

No âmbito político, a percepção dos profissionais que trabalham na região é que um dos principais problemas para as empresas que funcionam no Vale consiste na crescente restrição à imigração internacional.

Pesquisa publicada em 2016 pela National Foundation for American Policy, um think tank norte-americano, concluiu que mais da metade das empresas que valiam a partir de  US$1 bilhão naquele ano haviam sido fundadas por pelo menos um empreendedor que nasceu fora dos Estados Unidos. Ademais, conforme a mesma pesquisa, 71% dessas empresas empregavam imigrantes em funções de destaque.

Em relação a um contexto mais abrangente sobre a relevância dos imigrantes para o desenvolvimento da ciência nos Estados Unidos, o mesmo instituto publicou, em 2017, uma pesquisa que constatou que 83% dos finalistas do Intel Science Talent Search, uma competição entre alunos do ensino médio daquele país – conhecida como o “Prêmio Nobel Júnior” –, eram filhos de imigrantes. Outra conclusão da pesquisa foi que 75% dos finalistas na competição tinham pais que estavam trabalhando nos Estados Unidos devido aos vistos H1-B, que são destinados a profissionais altamente qualificados e experientes, sendo, geralmente, os documentos cedidos aos migrantes internacionais que optam por trabalhar na área de tecnologia nas empresas localizadas no Vale do Silício.  

O brasileiro, cofundador do Instagram, Mike Krieger

Dentre os principais motivos que fazem com que os imigrantes tenham sucesso na região da baía de São Francisco, geralmente, aponta-se o fato de esses profissionais apresentarem novas perspectivas que podem levar à implementação de ideias inovadoras na concepção dos produtos e serviços elaborados pelas empresas do setor de tecnologia. Como ocorreu, por exemplo, com o brasileiro Mike Krieger, cofundador do Instagram. Por ter crescido no Brasil, Mike percebeu que a língua inglesa poderia ser uma dificuldade à inserção da plataforma internacionalmente, portanto, o brasileiro e sua equipe se esforçaram para reduzir ao máximo a quantidade de textos na ferramenta, objetivando que ela tivesse maior apelo internacional.

A preocupação atual em relação à imigração para os EUA dessa mão de obra altamente qualificada consiste na adoção de políticas responsáveis pelo crescimento em 41%, nos últimos quatro meses de 2017, nos pedidos de visto H1-B negados pelos serviços de migração norte-americanos.

Nesse sentido, conforme afirma Randy Komisar, gestor de uma empresa que investe na região: “se você me perguntar, daqui a dez anos, o motivo por que o Vale do Silício falhou, será porque nós não conseguimos lidar bem com a questão da imigração”.

Deve-se deixar claro, no entanto, que as restrições à imigração internacional não são a única causa para a possível redução relativa da importância da região para as inovações tecnológicos futuras, mas certamente contribui para que, como afirma Glenn Kelman, CEO de uma corretora de imóveis que funciona na baía de São Francisco, o Vale do Silício se transformar crescentemente em uma ideia em vez de um lugar.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Visão aérea do Vale do Silício, visto a partir do norte da cidade de San José ” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_do_Sil%C3%ADcio#/media/File:Silicon_Valley,_facing_southward_towards_Downtown_San_Jose,_2014.jpg

Imagem 2 A baía de São Francisco dentro do Estado da Califórnia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_do_Sil%C3%ADcio#/media/File:California_Bay_Area_county_map.svg

Imagem 3 O brasileiro, cofundador do Instagram, Mike Krieger” (Fonte):

https://www.linkedin.com/in/mikekrieger/detail/photo/