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A crise humanitária na República Democrática do Congo e a visita de oficial da ONU para assuntos humanitários

Na última sexta-feira, 4 de setembro, a Secretária–Geral Adjunta da ONU para Assuntos Humanitários e Vice–Coordenadora de Ajuda de Emergência, Kyung–Wha Kang, terminou sua visita de quatro dias à República Democrática do Congo (RDC). Na…

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Imigração dentro do continente africano é a marca da crescente desigualdade entre nações

A questão migratória voltou a ocupar posição central na mídia internacional nessa semana, à medida que mais e mais imigrantes, em sua maioria vindos do Norte da África e do Oriente Médio, chegam em solo europeu. Em resposta a intensa comoção frente às inúmeras mortes ocorridas, ministros de relações exteriores europeus se reuniram na última sexta-feira (4 de setembro) para discutir soluções a essa questão emergente[1].

Essa onda migratória, a maior desde o final da Segunda Guerra Mundial, traz à luz como a acentuada desigualdade econômica entre as nações desenvolvidas e os países africanos e árabes é capaz de sustentar fenômenos sociais como esse. Com as vidas em risco por causa de guerras e de péssimas condições de vida, imigrantes árabes e africanos não veem outra alternativa senão juntar alguns de seus pertences e rumar ao velho continente.

Entretanto, no caso da África, em específico, a crescente desigualdade entre os próprios países africanos também estrutura uma onda migratória intracontinental. Países como Angola, África do Sul, Etiópia, Gana e Nigéria, que presenciaram significativo crescimento econômico nos últimos anos, tornam-se o destino de milhares de africanos advindos de nações que sofrem com guerras civis e crises econômicas.

No caso angolano, por exemplo, o país tornou-se um atrativo destino a milhares de congoleses, que rumam à Província de Cabinda, e de cidadãos da República Democrática do Congo (RDC), que entram no país pela região norte e leste. As precárias condições de vida na RDC se faz visível no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), calculado anualmente pela Organização das Nações Unidas (ONU): em 2013, este país ocupava a penúltima posição, a frente somente do Niger[2].

Segundo o Comandante Provincial de Angola, o comissário Manuel Gouveia, além da extensa fronteira com a RDC, a principal dificuldade em conter o fluxo de imigrantes ilegais está na intensa existência de “laços históricos, culturais, relacionais e até mesmo familiares que unem os dois povos[3]. Em outras palavras, presencia-se uma crescente inserção da população congolesa em Angola, o que aumenta a rejeição popular contra medidas legais de combate à imigração.

No que diz respeito a imigração ilegal à África do Sul, o Zimbábue apresenta-se como o principal local de origem dos imigrantes. Em um crítica situação hiperinflacionária, a economia deste país e o seu mercado de trabalho estão totalmente desaquecidos, motivando o deslocamento de muitos rumo ao vizinho mais ao sul. Soma-se a esse cenário a manutenção do restrito e longínquo governo de Mugabe, o qual dificulta que clamores e reivindicações sociais sejam incluídas na agenda política.

A ampla maioria dos imigrantes vindos do Zimbábue entra pela província de Lipopo, no norte da África do Sul, em direção à cidade fronteiriça de Musina. Ali, os imigrantes normalmente dependem da colaboração dos malaishas – sul-africanos que prometem cidadania, facilidades e trabalho aos imigrantes[4]. Porém, há diversos casos relatados à Organização Internacional para a Migração de abusos sexuais e exploração do trabalho por parte dos malaishas sob os imigrantes[4].

Em relação a Etiópia, o país aparece como um porto seguro para investimentos estrangeiros diretos e capital internacional, em meio ao conturbado Chifre da África. Rodeado por países como Eritreia e Somália, assolados por profundas guerras civis, a Etiópia é destino de milhares de imigrantes que buscam empregos no boom econômico vivido pelo país nos últimos anos[5].

Além disso, o expressivo crescimento econômico dos últimos anos tem incentivado um retorno de imigrantes etiopianos ao país de origem. Segundo dados da ONU, desde 1991, mais de um milhão de etiopianos retornaram à casa[6].

Por fim, no que diz respeito à África Ocidental, Nigéria e Gana aparecem como as principais economias e destino de imigrantes, cuja principal origem são os países do norte da África, como o Mali, o Chade e o Niger, bem como de nações adjacentes, como a Libéria, Serra Leoa, Guiné e Burkina Faso[7]. Tais países localizam-se nas últimas 10 posições no IDH calculado em 2013[2], o que ilustra as precárias condições econômicas e sociais nessas localidades. Soma-se também que crises de saúde pública cíclicas, como ebola – o qual teve países como a Libéria, Serra Leoa e Guiné como os mais afetados –, acentuam a onda migratória à Gana e à Nigéria.

Acima de tudo, condições econômicas, políticas e sociais díspares demonstram ser a principal fonte de intensificação dos processos migratórios. Recentemente, a publicação de diversos estudos, como o livro “Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty, e a realização de conferências públicas e acadêmicas relacionadas a desigualdade demonstram como o tema tende a caracterizar adequadamente a conjuntura econômica contemporânea. A migração intra e inter continental pode ser posicionada como o principal fenômeno social consequente desse acelerado processo de desigualdade.

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Imagem (FonteDaily Stormer):

http://www.dailystormer.com/europe-has-been-belatedly-discovering-how-unbelievably-stupid-it-was/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Estado de S. Paulo”:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,onu-pede-que-europa-receba-200-mil-refugiados,1756349

[2] VerOrganização das Nações Unidas”:

http://hdr.undp.org/en/content/table-1-human-development-index-and-its-components

[3] VerJornal de Angola”:

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/fronteira_com_a_rdc_e_extensa_e_complexa

[4] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/global-development/2014/jan/13/zimbabwe-migration-south-africa-exploitation

[5] VerNations Encyclopedia”:

http://www.nationsencyclopedia.com/Africa/Ethiopia-MIGRATION.html

[6] VerMigration Policy Institute”:

http://www.migrationpolicy.org/country-resource/ethiopia

[7] VerInternational Organization for Migration”:

http://publications.iom.int/bookstore/index.php?main_page=product_info&cPath=42&products_id=574

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Ainda há pirataria na costa da Somália?

De acordo com relatório do Banco Mundial, no período de 2005 a 2012, os piratas atuantes na costa da Somália e no Chifre da África arrecadaram com resgates um montante entre US$ 339 milhões e US$ 413 milhões[1][2]. O estudo foi feito com dados e evidências de entrevistas com ex-piratas, autoridades governamentais, banqueiros e outros atores envolvidos no combate à pirataria. Ao menos 179 barcos foram sequestrados no período, sendo que 85% deles só foram liberados após pagamento de resgates[3].

O grupo controlava diversas partes da Somália, um país que há décadas lida com ausência de um governo central forte e sofre com diversos conflitos internos entre os grupos armados. A pirataria chegava a beneficiar as comunidades locais, com o comércio de produtos e serviços entre piratas e cidadãos. Em um dos portos de Mogadíscio, capital da Somália, os piratas tinham um acordo para pagar um imposto de 20% para o grupo terrorista AlShaabab, ligado à AlQaeda[3].

A miséria no país e a falta de oportunidades de emprego levavam os somalis a sonhar com a fortuna repentina, visto que um pirata de baixo nível poderia lucrar de US$ 15 mil a US$ 150 mil em uma única operação[4]

Entretanto, as notícias sobre a pirataria foram aos poucos se extinguindo dos noticiários, dando lugar às atividades do AlShaabab no Chifre da África e nos atentados ao país vizinho, o Quênia. No fim de 2014, a ONU já observava que não havia registros de sequestros de navios comerciais na região, de outubro de 2013 a outubro de 2015. Além disso, apenas 20 ataques ou tentativas de ataques levados a cabo por piratas somalis foram relatados em 2013, valor significativamente inferior aos anos anteriores, quando contabilizaram 75 navios atacados, em 2012, e 237, em 2011[5].

A presença de guardas armados dentro das embarcações e de patrulhas navais – como as forças privadas e navios militares da OTAN – que acompanham os cargueiros em trechos perigosos foi fundamental para afastar os criminosos[4]. Além disso, em outubro de 2013, Mohamed Abdi Hassan, considerado o chefe número um da pirataria na Somália, foi detido no aeroporto de BruxelasHassan, também conhecido como “Boca Grande” (Afweynei, em somali), é suspeito de sequestrar o navio belga Pompei, em 2009, por 70 dias e com dez tripulantes[6].

Os atos de pirataria renderam em 2013 a produção hollywoodiana “Capitão Phillips”, protagonizada pelo ator Tom Hanks, que retratou o sequestro do cargueiro de bandeira americana “Maersk Alabama”, em 2009, na costa somali[4]. Em janeiro de 2015, uma tentativa de ataque de piratas somalis a um navio foi gravada. Na ocasião, o navio estava com fortes armamentos, o que impediu a ação dos piratas[7].

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Imagem (Fonte):

http://revistaescola.abril.com.br/img/historia/pirataria.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.unodc.org/unodc/en/frontpage/2013/November/pirate-trails-tracks-dirty-money-resulting-from-piracy-off-the-horn-of-africa.html?ref=fs3

[2] VerTSF Notícias”:

http://www.tsf.pt/multimedia/galeria/Default.aspx?content_id=3517812

[3] VerCarta Capital”:

http://www.cartacapital.com.br/internacional/a-milionaria-cadeia-da-pirataria-na-somalia-6285.html

[4] VerVeja”:

http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/mesmo-fragilizados-piratas-ainda-ameacam-a-costa-da-africa/

[5] VerDN Globo”:

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=4229117

[6] VerPúblico”:

http://www.publico.pt/mundo/noticia/lider-da-pirataria-da-somalia-detido-em-bruxelas-1609042

[7] VerUol”:

http://mais.uol.com.br/view/v1xaxe2lamb3/piratas-da-somalia-se-dando-mal-ao-tentar-atacar-um-navio-04028D9A366ECC995326?types=A&

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Professores sul-africanos protestam contra projeto governamental sobre o ensino do Mandarim

A inclusão oficial do Mandarim como idioma de opção aos alunos a partir de 2016 gerou intensa revolta por parte de alguns membros da sociedade sulafricana[1]. Destacam-se, nesse grupo os professores da rede de ensino fundamental, que veem na medida um sintoma do “imperialismo chinês[1].

Juntamente com o português, espanhol, alemão, sérvio, italiano, latim, tâmil, telegu e urdu, o mandarim poderá ser escolhido como a segunda língua de ensino entre os jovens de 4 e 12 anos[1].

A normativa, anunciada pelo Ministério da Educação na semana passada, reflete a crescente cooperação e relações comerciais entre a África do Sul e a China. Segundo os últimos dados disponibilizados, em 2012 o país asiático foi tanto o maior importador dos produtos sulafricanos quanto o maior exportador ao país africano[2].

O Governo sulafricano vê esta nova medida de maneira pragmática: a fluência em mandarim aparece como um alicerce importante para a posição crucial desempenhada pela China na economia e política internacional da África do Sul. “O que acontece quando os sul-africanos chegam lá [na China]? Eles não podem falar o idioma e por isso sofrem. Não é uma vantagem falar o idioma das pessoas com as quais fazemos negócios?[3], afirma Elijah Mhlanga, membro do Ministério da Educação.

Contudo, a questão linguística é um importante componente político na África do Sul, o que explica, em parte, a intensa reação contra a medida governamental. Atualmente, mais de 11 idiomas locais são reconhecidos oficialmente pelo Governo, mas nenhum deles, segundo o Sindicato dos Professores (South African Democratic Teachers Union), recebe a atenção merecida do setor público[3][4].

A batalha linguística personifica a luta entre diferentes grupos sociais e étnicos, que lutam pela legitimidade e representatividade política. Por sua vez, a inclusão do mandarim no rol dos idiomas a serem lecionados pelas escolas, combinada com a exclusão ainda latente dos idiomas tradicionais no sistema de ensino, reforça a insatisfação dos grupos sociais/étnicos minoritários.

Nós vamos nos opor ao ensino do mandarim nas nossas escolas de toda a forma que podemos (…) nós vemos isto como a pior forma de imperialismo que está acontecendo na África[4], afirmou Mugwena Maluleke, Secretário Geral do Sindicato dos Professores.

Este posicionamento contrário de parte dos professores sul-africanos à medida governamental ilustra como a representatividade política e os direitos dos povos e tradições locais são conceitos sensíveis.

Dessa maneira, fatores políticos internos aparecem como possíveis fontes de desestabilização de tratados e acordos internacionais, inclusive daqueles celebrados com novos parceiros comerciais, como é o caso da relação África do Sul BRIC (Brasil, RússiaÍndia e China).

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ImagemSina English” (Fonte):

http://english.sina.com/culture/p/2013/0321/574187.html

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Fontes Consultadas:

[1] VerTimes Live”:

http://www.timeslive.co.za/local/2015/08/12/South-Africa-to-teach-Mandarin-in-schools

[2] VerObservatory of Economic Complexity”:

https://atlas.media.mit.edu/en/explore/tree_map/hs/export/zaf/show/all/2012/

[3] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/aug/12/south-african-teachers-oppose-mandarin-lessons-age-nine

[4] VerQuartz Africa”:

http://qz.com/477748/south-africas-schools-will-start-teaching-mandarin-and-continue-neglecting-local-languages/

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O fim formal da Paz de Arusha? O terceiro mandato de Nkurunziza no Burundi

Após se tornar independente da Bélgica, em 1962, o Burundi enfrentou dois episódios classificados como genocídio: 1) o massacre de Hutus pelo Exército dominado por Tutsis, em 1972; e 2) o assassinato em massa de Tutsis por Hutus, em 1993. Uma longa história do país é ressaltada por essa confrontação entre os Tutsis e os Hutus, em que, tradicionalmente, os Tutsis dominavam a política, apesar de os Hutus constituírem 85% da população do país[1].

O Burundi enfrentou uma guerra civil entre 1993 e 2006, que deixou aproximadamente 300 mil mortos[1][2]. Em 2.000, o Acordo de Paz de Arusha, assinado em Arusha (Tanzânia), buscava a implantação de um regime pacífico, no qual o Presidente tem o direito de se reeleger uma vez. Entretanto, em abril deste ano (2015), o atual presidente Pierre Nkurunziza, da etnia Hutu, anunciou o seu terceiro mandato, o que desencadeou protestos e conflitos pelo país[1][2].

Membros da oposição e famílias tutsis começaram a deixar o Burundi, diante da notícia de que milícias de jovens pró-Governo estavam recebendo armas[3]. Após o anúncio de Nkurunziza, o líder da oposição, Zedi Feruzi, foi morto e, então, os conflitos se atenuaram[4].

A oposição reage ao afirmar que a candidatura é inconstitucional. Para Nkurunziza, no entanto, ele poderia concorrer a um terceiro mandato porque foi nomeado em 2005 pelo Parlamento e não pelo voto das urnas. Em contraposição, o VicePresidente doTribunal Constitucional, Sylvere Nimpagaritse, fugiu do país por ter recebido ameaças de morte, afirmando que os colegas foram pressionados para dar um parecer favorável a Nkurunziza[1].

Aproveitando-se da ausência do presidente Nkurunziza, em decorrência de uma cúpula africana sobre a crise política, o general Godefroi Niyombare anunciou ter instalado um Governo Militar Interino. Entretanto, o Presidente chamou o anúncio de piada e, por redes sociais, disse que a tentativa dos militares fracassou[3].

Após boicote da oposição, Nkurunziza assegurou a vitória em primeiro turno no dia 21 de julho, com 69,41% dos votos, implantando o seu terceiro mandato[5]. Governos dos Estados Unidos, da Bélgica (colonizadora do atual território de Burundi) e membros da União Europeia questionaram a credibilidade das eleições, juntamente com a União Africana, ao citar a insegurança e o fechamento das mídias privadas pelo Governo[5].

Desde o início dos confrontos, cerca de 150 mil burundineses deixaram o território e se refugiaram em países vizinhos, comoTanzânia, Uganda e República Democrática do Congo[1][2]. Esta crise incide diretamente sobre a governança democrática da região dos Grandes Lagos e dos países da Comunidade da África Oriental (East African Community)[1][6].

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Imagem (Fonte):

http://s1.ibtimes.com/sites/www.ibtimes.com/files/styles/v2_article_large/public/2015/04/17/burundi-president-pierre-nkurunziza.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver EuroNews”:

http://pt.euronews.com/2015/07/21/cronologia-da-crise-politica-no-burundi/

[2] Ver Observador”:

http://observador.pt/2015/07/16/crise-no-burundi-ainda-sem-acordo/

[3] VerDW”:

http://www.dw.com/pt/crise-pol%C3%ADtica-leva-mais-de-100-mil-a-fugirem-do-burundi/a-18452729

[4] Ver GEPPIC”:

https://geppic.wordpress.com/2015/06/29/a-crise-no-burundi-e-suas-implicacoes/

[5] Ver ALL Africa”:

http://allafrica.com/stories/201507241922.html

[6] Ver ALL Africa”:

http://allafrica.com/stories/201508070519.html

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Julgamento de funcionários da era Qaddafi na Líbia viola padrões internacionais de julgamento justo

Na última terça-feira, 28 de julho, a Corte de Assize, em Trípoli, Líbia, deu o veredicto de 37 funcionários do regime Qaddafi[1], julgados por suprimir protestos durante a revolução de 2011[2].

O processo judicial, iniciado em abril do ano passado (2014), em Trípoli[3], contou com o julgamento in absentia de sete indivíduos, incluindo Saif alIslam Qaddafi, filho de Muammar Qaddafi[1]. Saif Qaddafi foi condenado à morte por fuzilamento, junto a outros oito membros do alto escalão da era Qaddafi, incluindo Abdullah alSenussi, Ex-Chefe da Inteligência, e o ExPrimeiroMinistro Líbio, AlBaghdadi Ali alMahmoudi. Eles têm direito de recorrer da decisão, dentro de 60 dias[2][3].

Apenas quatro dos acusados foram absolvidos, enquanto um foi encaminhado a uma instituição médica; oito foram condenados a prisão perpétua e os demais receberam sentenças entre cinco e doze anos[4][5].

Os veredictos levantaram a preocupação da Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia (UNSMIL, na sigla em inglês), assim como de organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch (HRW) e a Anistia Internacional, posto que o julgamento não cumpriu as normas internacionais de julgamento justo[4][5][6].

Dentre as críticas feitas por parte de defensores dos direitos humanos ao processo judicial, figuram os próprios julgamentos in absentia. Como aponta a HRW, o direito internacional permite julgamentos in absentia apenas em circunstâncias especiais, enquanto que a própria legislação líbia proíbe esse tipo de julgamento quando a localização do acusado em território líbio é conhecida[5]. Dessa forma, “[a]s garantias processuais mínimas para julgamentos in absentia não parecem ter sido cumpridas no caso de [Saif] Qaddafi[5], que se encontra atualmente detido na cidade de Zintan, por uma milícia de oposição ao grupo no controle de Trípoli, o “Amanhecer Líbio[3]*.

A condenação à morte de nove dos acusados também foi criticada[5][6]. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, do qual a Líbia é signatária, limita as circunstâncias em que um país pode impor a pena de morte, e, de acordo com o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, em casos que culminam em tal sentença o respeito às garantias de um julgamento justo é particularmente importante[5]. A Anistia Internacional também condenou as sentenças de morte e clamou que sejam anuladas em recurso judicial[6].

O processo judicial foi marcado por diversas outras violações de direitos humanos. Durante a detenção e pré-julgamento, os acusados não tiveram acesso a advogados e às suas famílias por períodos prolongados, e alguns reportaram terem sido espancados ou sofridos outros tipos de maus tratos. Durante o julgamento, advogados tinham dificuldade em se encontrar com seus clientes e em acessar o arquivo completo do caso que representavam. Tais condições dificultaram a preparação da defesa dos acusados, algo essencial para um julgamento justo[4][5].

Além disso, como aponta Claudio Cordone, Diretor da Divisão de Direitos Humanos, Justiça Transicional e Estado de Direito da UNSMIL, a Promotoria não apresentou no Tribunal testemunhas ou documentos, atendo-se à evidência escrita já disponível no arquivo do caso. Dessa forma, perdeu “uma oportunidade histórica para construir um registro público dos crimes cometidos pelo antigo regime – um passo fundamental no processo de justiça de transição da Líbia[4].

Como observa Philip Luther, Diretor do Programa para o Oriente Médio e o Norte da África da Anistia Internacional, “[e]m vez de ajudar a estabelecer a verdade e garantir a responsabilização por violações graves [de direitos humanos] durante o conflito armado de 2011, este julgamento expõe a fraqueza de um sistema de justiça criminal que está pendurado por um fio em um país devastado pela guerra sem nenhuma autoridade central[6]. Nas palavras de Joe Stork, ViceDiretor para o Oriente Médio e o Norte da África da Human Rights Watch, “[a]s vítimas dos crimes graves cometidos durante a revolta 2011 merecem justiça, mas esta só pode ser alcançada por meio de processos justos e transparentes[5].

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* Saif Qaddafi participou, via videoconferência, de apenas quatro das 24 sessões judiciais.

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ImagemFuncionários da era Muammar Qaddafi aguardam julgamento em uma cela de prisão em Tripoli” (Fonte):

http://www.theguardian.com/world/2015/jul/28/saif-al-islam-sentenced-death-by-court-in-libya-gaddafi-son

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=51514#.VbkkSfmqqzA

[2] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-33688391

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/jul/28/saif-al-islam-sentenced-death-by-court-in-libya-gaddafi-son

[4] Ver:

http://unsmil.unmissions.org/Default.aspx?tabid=3543&ctl=Details&mid=6187&ItemID=2099165&language=en-US

[5] Ver:

http://www.hrw.org/news/2015/07/28/libya-flawed-trial-gaddafi-officials

[6] Ver:

https://www.amnesty.org/en/latest/news/2015/07/libya-flawed-trial-of-al-gaddafi-officials/

ÁFRICAAMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Etiópia, Obama destaca a importância da cooperação para combater Terrorismo

Na segunda-feira, 27 de julho de 2015, Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), salientou durante seu encontro com alguns países membros da União Africana (UA), na sede da Organização, em AdisAbeba, na Etiópia, a importância da cooperação com países africanos para combater o terrorismo na região. Barack Obama foi o primeiro Presidente NorteAmericano a visitar o país, bem como a sede da UA. Ao longo de sua visita, ele discutiu acordos bilaterais e ainda questões relacionados ao terrorismo promovido pelo grupo radical islamita Al Shabaab, que atua no Chifre da África, particularmente na Somália.

No início da semana, o Barack Obama afirmou durante uma coletiva de impressa que o grupo Al Shabaab não tem nada mais a oferecer do que destruição e mortes[1]. O Al Shabaab, que, em árabe significa “A Juventude”, é um grupo extremista islâmicoque se originou na década de 1990, na Somália. Esse grupo controlou boa parte do território deste país entre 2008 e 2011. Em 2012, anunciou em um vídeo que devia obediência a AlQaeda, estabelecendo assim o vínculo e suporte para suas ações transnacionais, além de conseguir captar integrantes de outras regiões da África e do Oriente Médio[2].

O Al Shabaab é considerado um grupo terrorista desde 2008.  No entanto, ainda em 2006, os Estados Unidos apoiaram as forças da Etiópia, quando essas invadiram a Somália com a finalidade de combater o domínio do grupo extremista no país. O Governo da Etiópia recebe aproximadamente 800 milhões de dólares, anualmente, em ajuda para combater o Al Shabab[3].

Com a expansão do grupo, e devido aos atentados efetuados em países como Uganda e Quênia, as forças etíopes que atuavam na Somália foram substituídas pelas tropas da Missão da União Africana para a Somália (Amisom), que, em conjunto com as tropas da Organização das Nações Unidas (ONU), tem lutado para combater a insurgência do grupo. Em 2011, essas forças aliadas conseguiram recuperar o controle sobre Mogadíscio, a capital do país, e, no ano seguinte, o controle de um dos principais portos do país[4].

Na última segunda-feira, dia 27, a Casa Branca emitiu um comunicado destacando que os Estados Unidos estão comprometidos em estabelecer parcerias com países africanos para aumentar suas capacidades de enfrentar ameaças imediatas, impostas porgrupos terroristas[5]. Em sua visita ao continente africano, o Presidente NorteAmericano passou também pelo Quênia, que faz fronteira com a Somália. O Quênia e a Etiópia possuem tropas que integram a União Africana e contam com o apoio dos EUA para combater o grupo. Na semana passada, por exemplo, os Estados Unidos realizaram seis ataques aéreos contra esse grupo em território somaliano[6].

A visita de Obama ao Quênia e a Etiópia foi bastante criticada por ativistas e políticos, especialmente no que se refere às questões vinculadas aos direitos humanos, ou melhor, à garantia desses direitos por parte desses Estados. No Quênia, o Presidente estadunidense chegou a comentar publicamente questões vinculadas aos direitos das mulheres e também dos homossexuais.

Na Etiópia, a organização Human Rights Watch (HRW) vem afirmando que a legislação “Proclamação Antiterrorismo” introduzida pelo Governo visa apenas atingir adversários políticos. Em relação a esse aspecto, Barack Obama argumentou durante coletiva de impressa que recomendou em seu encontro com Hailemariam Desalegn, PrimeiroMinistro Etíope, o incentivo aos direitos humanos, à democracia e a boa governança[7]. Em contrapartida, Desalegn afirmou que o seu país tem uma visão diferente dos Estados Unidos, mas que tem promovido a democracia, contudo de maneira mais gradual[8]. No entanto, Barack Obamaprocurou focar o encontro nas questões pertinentes à segurança, destacando, por exemplo, o papel relevante do país etíope na luta contra o Al Shabaab.

No Quênia, durante a Conferência Global de Empreendedorismo, Obama ressaltou a importância do empreendedorismo para o combate à corrupção e a melhoria do Estado de Direito[9]. Alguns analistas argumentam que visita de Obama a Etiópia deve-se, particularmente, à relevância econômico-comercial do país, uma vez que este possui uma das maiores econômicas do continente africano[10]. Nesse âmbito, é válido destacar que, atualmente, os Estados Unidos são o segundo maior investidor na Etiópia. O primeiro lugar é ocupado pela China, que tem investido em diversos segmentos. Os EUA, entretanto, criticam a forma como ocorre o investimento chinês nos países africanos.

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Imagem (Fonte):

http://fotospublicas.com/obama-pede-que-governo-etiope-ajude-no-combate-ao-terrorismo/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/07/obama-visita-etiopia-e-discute-seguranca.html

[2] Ver:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150402_quenia_ataque_universidade_fd

[3] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/25/internacional/1437789464_715031.html

[4] Ver:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150402_quenia_ataque_universidade_fd

[5] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKCN0Q112U20150727

[6] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/25/internacional/1437789464_715031.html

[7] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKCN0Q112U20150727

[8] Ver:

http://www.dw.com/pt/obama-foca-em-seguran%C3%A7a-em-visita-%C3%A0-eti%C3%B3pia/a-18609913

[9] Ver:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN0PZ0EB20150725  

[10] Ver:

http://www.dw.com/pt/seguran%C3%A7a-no-topo-da-agenda-de-obama-na-eti%C3%B3pia/a-18609466