ÁFRICAAMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Quanto vale uma visita de Obama ao Quênia? Planejamento, segurança e diplomacia

Em dezembro de 2014, o Presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, convidou o presidente norteamericano Barack Obama para participar do Global Entrepreneurship Summit, realizado pela primeira vez em um país da África Subsaariana, a ocorrer entre os dias 24 a 26 de julho de 2015. O Evento tem como objetivo empoderar grupos marginalizados, principalmente mulheres e jovens, através do empreendedorismo[1]. Diante do crescimento econômico queniano e o seu destaque entre os demais países do continente, a Casa Branca mostrou interesse na participação do presidente Obama no encontro. O evento é realizado anualmente desde 2009. Em 2014, foi promovido no Marrocos, mas Obama não compareceu pessoalmente e enviou como representante o vicepresidente Joe Biden[2].

Vale ressaltar que, até recentemente, o Presidente queniano era acusado por crimes contra a humanidade e estava respondendo a julgamento na Corte Criminal Internacional. Por esta razão, quando Uhuru foi eleito Presidente, os Estados Unidos e outros países ocidentais anunciaram que assumiriam apenas os contatos essenciais com aquele país, por razão do julgamento. Esta será a primeira visita de Obama à terra do seu pai, desde que se tornou Presidente[3].

Entretanto, meses depois, a conjuntura queniana tomou outras proporções, o que gerou novas opiniões sobre a importância – ou não – da presença de Obama no Quênia, tanto por analistas, quanto por membros da Inteligência dos EUA, sendo destacadas algumas delas.

Em primeiro lugar, o encontro entre os dois Presidentes pode colaborar para solucionar um imbróglio relacionado aos alertas de viagens emitidos nos Estados Unidos sobre a situação no Quênia[3]. Por exemplo, o número de turistas internacionais caiu de 1,5 milhão em 2013 para 1,3 milhão em 2014, uma queda de 11,1% no volume de pessoas e de 7,3% na renda gerada neste setor[4].

Em segundo lugar, o recente ataque terrorista à Universidade de Garissa mudou totalmente o planejamento de segurança para a visita de Obama ao país. Por esta razão, o Serviço Secreto dos EUA quer ter total controle sobre os arranjos securitários durante o encontro, que contará com a participação de aproximadamente 1.200 delegados. Logo, a segurança é um fator crucial em todo o planejamento[2].

Em último lugar, a viagem de Obama para o Quênia custará para os contribuintes norte-americanos uma quantia de Sh 5.7 bilhões, aproximadamente a alocação anual de recursos do governo queniano para o Condado de Nakuru e o equivalente a US$ 60 milhões[5]. O valor é expressivo porque, “quando o presidente dos EUA viaja, viaja também a Casa Branca, os carros que ele anda, a água que ele bebe, a gasolina que ele usa e a comida que ele come[5]. Além disto, o contingente do Serviço Secreto também precisa se deslocar, tanto para aqueles que viajam antes para planejar a logística, quanto o reforço durante o voo. Por essa razão, analistas e acadêmicos são completamente contrários à viagem de Obama ao país[5].

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ImagemBarack e Michele Obama e Uhuru Kenyatta em 2014” (Fonte):

http://www.standardmedia.co.ke/images/tuesday/opp120814.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://allafrica.com/stories/201503302359.html

[2] Ver:

http://allafrica.com/stories/201504090052.html

[3]Ver:

http://allafrica.com/stories/201503310227.html

[4]Ver:

https://ceiri.news/indicadores-passados-e-expectativas-futuras-pib-turismo-e-corrupcao/

[5] Ver:

http://allafrica.com/stories/201505110222.html

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

As eleições na Nigéria: foco de tensões e violência

Um dos países que mais recebe intervenções humanitárias por parte da Organização das Nações Unidas (ONU), devido a forte instabilidade política e desrespeito aos diretos humanos, que lhe são características, a República Federal da Nigéria, realizou eleições gerais de 28 de março a 11 de abril de 2015[1].

De um lado, a decisão pelo adiamento dos processos eleitorais, que inicialmente estavam marcados para o dia 14 de fevereiro, permitiu que a Comissão Eleitoral Nacional Independente (INEC) pudesse aprimorar os mecanismos de checagem de listas e testasse os Cartões de Voto Permanentes (PVCs) que foram utilizados pelos eleitores. Por outro lado, a oportunidade permitiu que o então presidente Goodluck Jonathan, do Partido Democrático do Povo (PDP), alavancasse sua milionária campanha, frente à falta de recursos da oposição da Grande Aliança de Todos os Progressistas (APC)[2].

Entre as ações de maior popularidade de Jonathan antes e durante a campanha eleitoral foram as ofensivas militares regionais de contenção das atividades do grupo armado islamista Boko Haram. O grupo já realizou ataques contra a sede da ONU, em Abuja, capital do país; invadiu um internato e matou aproximadamente 59 estudantes, em Damaturu, cidade próxima à capital e, recentemente, sequestrou mais de 500 mulheres e crianças, em Borno, cidade ao norte do país, dias depois de a cidade ter sido libertada por tropas originárias do Chade e Níger, países vizinhos[3].

A violência praticada pelo Boko Haram foi uma das questões com maior peso nas eleições realizadas. Isso porque, se, de um lado, as ofensivas contribuíram para a popularidade do Presidente, por outro, a decisão de adiar as eleições permitiu novas ações do grupo islamista, de modo que as expectativas antes dos processos eleitorais de que o sucesso das ofensivas militares fossem condições suficientes para impulsionar o aumento da popularidade de Jonathan não se confirmaram.

A credibilidade das eleições foi algo importante a ser considerado, haja vista a possibilidade de que um novo adiamento pudesse comprometer o andamento dos procedimentos eleitorais, conforme a Constituição nacional do país, além do não cumprimento de padrões para realização de eleições, conforme recomendações contidas em acordos e tratados internacionais[4].

Sobre esta questão, pesava ainda a possibilidade de fraude, devido ao fato de que não importasse o quão bem conduzido fosse o pleito, respeitando padrões internacionalmente estabelecidos e sua própria Constituição, os dois principais partidos em disputa, que se veem ganhadores, caso não vejam suas esperanças atendidas, poderiam vir a contestar os resultados. Pesou também a possibilidade de coação de eleitores, adulteração de listas de votantes e outros tipos de fraudes por tais agrupamentos.

No entanto, nada preocupava mais que a onda de protestos violentos nas ruas por parte de apoiadores de cada um dos candidatos à Presidência, algo que já se anunciava após o apedrejamento da equipe de campanha de Jonathan em Katsina e Bauchi e a queima de seus veículos em Plateu, localidades nas quais o candidato se mostrava extremamente impopular[5]. Da mesma forma, caso a vitória fosse do candidato da oposição APC, o expresidente General Muhammad Buhari (1983-1985), existia a possibilidade de que houvesse o desencadeamento de protestos na região do Delta do Rio Níger, coração da indústria petrolífera do país.  Muitos grupos de ativistas e militantes armados eram contrários ao retorno de Buhari ao poder, já tendo, inclusive, feito declarações públicas de que seu retorno à Presidência significaria uma declaração de guerra[6].

Em 16 de março, como medida para evitar o aumento da violência pós-eleições, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu um alerta de que qualquer pessoa que incitasse ou participasse de atos de violência estaria passível de ser indiciado pelos tribunais nigerianos ou pelo próprio TPI. Ademais da escalada de violência, havia grande preocupação por parte da comunidade internacional com a proposta feita por grupos que apoiavam Jonathan, de imposição de um Governo Nacional Interino (ING), a exemplo do que já havia sido feito durante a administração de Ernest Shonekan (1993)[7].

No entanto, apesar das expectativas de que as eleições na Nigéria fossem desencadear uma onda de violência no país, na verdade, o que ocorreu com a eleição de Muhammadu Buhari foi a mudança no cenário político nigeriano, inclusive com a ascensão de um novo partido governante: o APC.  Houve violência, porém, o processo eleitoral transcorreu de uma forma que muitas organizações internacionais de monitoramento eleitoral, a exemplo da Fundação Internacional para os Sistemas Eleitorais, de Washington, nos Estados Unidos, não previam[8].

Outras organizações, como União Africana, Grupo de Observadores da Commonwealth, União Europeia, Instituto Democrático Nacional (NDI) e Instituto Republicano Internacional (IRI) felicitaram os organismos eleitorais da Nigéria pelo seu comprometimento com a publicidade dos resultados, assim como de todo o processo eleitoral. Tal atitude demonstrou o quão violenta eram as eleições anteriores no país, que chegou a registrar mais de 800 mortes nas eleições de 2011[9].

Finalizando, o que se viu foi a melhoria na qualidade das eleições no país africano, apesar da permanência da violência. Ademais, muitas das expectativas de organizações que acompanharam o processo eleitoral não se confirmaram, a exemplo da reeleição do ExPresidente, demonstrando o desejo de mudança por parte dos cidadãos nigerianos, mais que das autoridades católicas e muçulmanas que se revezam na liderança do país há mais de uma década.

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Imagem General Buhari” (Fonte):

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:General_Buhari_holding_a_broom_at_a_campign_rally.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.ngrguardiannews.com/2015/04/nigerian-elections-ray-of-sunshine-for-youths/

[2] Ver:

http://www.news24.com.ng/Elections/News/PDP-NWC-distances-self-from-partys-presidential-election-loss-20150505

[3] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/04/150429_jovens_boko_haram_lk

[4] Ver:

http://www.news24.com.ng/Elections/News/Lagos-elections-tribunal-warns-lawyers-over-delay-tactics-20150505

[5] Ver:

http://www.premiumtimesng.com/news/headlines/175349-security-agents-fire-tear-gas-thugs-stone-president-jonathans-convoy-katsina-2.html

[6] Ver:

http://www.ngrguardiannews.com/2015/04/challenges-before-buharis-administration-in-petroleum-industry/

[7] Ver:

http://allafrica.com/stories/201503240066.html

[8] Ver:

http://www.ft.com/cms/s/0/19ddfe2c-e1fc-11e4-bb7f-00144feab7de.html

[9] Ver:

http://www.bellanaija.com/2015/03/31/commonwealth-au-ecowas-election-observers-declare-nigerias-elections-peaceful-credible/

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Quênia considera construir um muro ao longo da fronteira com a Somália

Persistem ainda em pleno século XXI – a suposta era da planificação mundial[1] – muros que dividem pessoas, culturas e religiões. Para analistas internacionais e especialistas no tema, os muros que dividem os Estados Unidos do México; a Coreia do Sul da Coreia do Norte; a Espanha do Marrocos; e Israel da Cisjordânia, além daqueles que estão sendo construídos, como o muro que separará a Bulgária da Turquia[2], representam a verdadeira tentativa de algumas nações em garantirem a autonomia nacional.

Cresce agora a probabilidade de o Governo queniano erguer um muro ao longo de toda fronteira deste país com a Somália[3][4]. Segundo autoridades locais, a construção objetiva reduzir o número de ataques do grupo terrorista Al-Shabaab às cidades locais, como na cidade de Mandara, na tríplice fronteira do Quênia com a Somália e a Etiópia[5][6].

Segundo o governador do distrito de Lamu, no Quênia, Issa Timamy, a construção do muro, de extensão estimada de 682 quilômetros, “é uma boa ideia e nós [quenianos] devemos apoiá-la porque será eficiente em garantir a segurança da região fronteiriça e de todo o país[4].

Ler a construção e manutenção de muros ao redor do mundo como política para manutenção da autonomia nacional, talvez seja uma forma correta de compreender este processo. O conceito de autonomia nacional significa, em outras palavras, as tentativas de um governo nacional em garantir o status quo econômico, social e político, prevenindo-se de comportamentos inesperados como a expansão do fluxo de imigrantes ou de ataques terroristas. Acima de tudo, significa ler este processo como manutenção do poder e da posição geopolítica favorável em relação a certa região.

Conforme se pode observar, erroneamente, alguns analisam tais situações de maneira superficial, creditando o extremismo islâmico como o principal incentivo à construção de tais muros, especialmente nos casos de Israel/Cisjordânia, Bulgária/Turquia e agora Quênia/Somália. Contudo, desde os ataques ao Charlie Hebdo, passando pelos sequestros realizados pelo Boko Haram na Nigéria e chegando finalmente aos ataques realizados em território queniano pela Al Shabaab, os jihadistas aparecem, primeiramente, como indivíduos marginalizados em seus locais. Assim, divergências religiosas aparecem muito mais como um canal de concentração de indignação e revolta pelas condições econômicas e sociais do que propriamente como causa dos ataques.

Não à toa, percebe-se que muros emergem em condições de extrema disparidade de poder, onde o lado que luta pela manutenção de sua autonomia vê a construção de muralhas como passo essencial para mitigar as ameaças externas. Dessa maneira, se o Muro de Berlim era sustentado por ideologias distintas, os muros de hoje em dia são, acima de tudo, produtos da realidade empírica do novo milênio: o mundo não é plano ou igualitário e tampouco oferece oportunidades de vida e desenvolvimento iguais a todos.

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Imagem (FonteDaily Newiz):

http://dailynewiz.com/news/news24coke-somalia-asks-kenya-to-reconsider-freeze-on-money-transfer-firms

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

FRIEDMAN, T, L. O Mundo é Plano: uma breve história do século XXI. Editora Objetiva, 2005.

[2] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/04/06/world/europe/bulgaria-puts-up-a-new-wall-but-this-one-keeps-people-out.html

[3] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/04/22/world/africa/kenya-plans-to-build-a-border-wall-that-keeps-shabab-violence-out.html?ref=africa&_r=0

[4] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/mar/02/kenya-wall-israel-separation-barrier

[5] VerBBC News”:

http://www.bbc.com/news/world-africa-30288137

[6] VerStandard Digital News”:

http://www.standardmedia.co.ke/thecounties/article/2000159710/al-shabaab-abduct-two-teachers-from-mandera

ÁFRICAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Pobreza e guerras aparecem como estopim à imigração africana à Europa

Em certa ocasião, em entrevista especial, o filósofo Michel Foucault afirmou ser a história um processo não linear e tampouco progressivo: segundo ele, o que vemos são repetições e fatos repaginados, trajados com uma nova vestimenta, mas que, ainda assim, por debaixo delas, apresentam a mesma estrutura[1].

Da mesma maneira são os romances, surpreendentemente análogos à vida real, donde estórias contadas no século XIX, como o livro “Benito Cereno”, de Melville, repetem-se hoje, em pleno século XXI, em fatos como a invasão de imigrantes africanos a uma embarcação pesqueira italiana na semana passada[2].

Nesta obra, o autor traz à luz a nossa incapacidade de identificar tais estruturas travestidas, ao contar a estória de como o capitão Amassa Delano acreditou, por tanto tempo, que o capitão da nau espanhola Benito Cereno controlava inúmeros escravos, quando eram estes que escondiam uma verdadeira revolução escravista, subjugando o capitão espanhol. O romance destacado expõe, assim, a fixação humana às aparências: é uma verdadeira ode às complexidades humanas, compreendidas tão superficialmente pelo próprio ser humano.

Muitos poderiam sugerir que há uma grande diferença entre o livro mencionado e a invasão mencionada: ao passo que aquele conta a estória de escravos contra o seu senhor, o segundo é um fato relacionado a homens livres e a invasão de fronteiras e desrespeito à propriedade privada. No entanto, a palavra “livre” é justamente a complexidade mais profunda – e com consequências mais severas levantando as questões de se seriam estes homens livres e se poderíamos tratá-los como tal.

À medida que avançamos nas análises sociais e políticas das nações africanas, mais acredita-se que sua população não é de fato livre. As respostas a tais questionamentos passam pela definição de liberdade e justamente por sua complexidade é incabível debatê-la por completo neste momento. Entretanto, pode-se identificar uma verdade onipresente em todas as definições existentes: a liberdade passa por um indivíduo ser livre de qualquer restrição, interna ou externa, que impeça o cumprimento de sua vontade.

Se levarmos em consideração a atual conjuntura africana identificar-se-ão inúmeras coerções externas, que subjugam a consciência individual. Dito em outras palavras, se outrora escravos eram prisioneiros do sistema escravista e da legislação que o sustentava, atualmente inúmeros africanos são reféns dos sistemas políticos e da conjuntura econômica de seus países. A inexistência de um cenário político, econômico e social que promova o direito a uma vida plena, ao emprego, à segurança, à educação, à moradia e à saúde desperta anseios de mudança e esvanece qualquer paixão à terra natal.

Ser livre passa também por estar imune a riscos excessivos e tais coerções externas apresentam-se como verdadeiros riscos à manutenção da vida. O sociólogo Ortwin Renn, na introdução de seu livro “Concepts of Risk”, afirma que o risco é uma das análises mais intuitivas e naturais ao ser humano: é, acima de tudo, uma estimação mental sobre a probabilidade de existência de um cenário indesejado[4].

O resgate de mais de onze mil pessoas no mediterrâneo na semana passada[5][6], em mais um dos episódios da maior onda migratória depois da segunda guerra mundial, apontam que o cenário indesejado já não está mais presente no mundo das ideias: voou diretamente à realidade africana.

Há inúmeras razões para nigerianos, sudaneses, liberianos e outros africanos decidirem pagar cerca de 10 mil dólares a agentes migratórios na Líbia por uma chance de irem à Europa[6]. A Nigéria, em especial o norte do país, é alvo constante dos ataques do Boko Haram; o chifre da África, principalmente a Somália e Eritréia, abrigam governos ditatoriais e repressivos; Darfur vive o constante drama das guerras civis e da desertificação; o Sudão do Sul vivencia conturbado período após o processo de independência de seu vizinho do norte; a própria Líbia está mergulhada em uma guerra civil infindável, abrigando dois governos em um mesmo país; Libéria, Serra Leoa e Guiné vivem sobre o assombro do vírus do ebola, temendo que este regresse.

Há de ser acrescentado que o número de imigrantes poderá aumentar drasticamente nas próximas semanas, caso o Governo queniano decida fechar o maior campo de refugiados do mundo, conforme exposto hoje no CEIRI NEWSPAPER. O Campo de Dadaab abriga cerca de 350 mil somalianos, que fugiram de sua pátria devido às ameaças do grupo terrorista Al Shabaab. Apesar da pressão internacional, principalmente do Human Rights Watch e das Organizações das Nações Humanas, o Governo do Quênia vê o fechamento como estratégia para reduzir as ameaças de ataques da AlShabaab em seu próprio território[7].

Assim, emergem ao redor de todo continente uma compilação de razões a inúmeros africanos em conceber planos e cultivar sonhos de mudança. Voltando à Foucault, vemos quão pujante é o instinto de sobrevivência, marca presente desde a migração judaica do Egito até à migração nordestina e sulina à Amazônia brasileira; acima de tudo, quão vigorosa é a tendência do homem em alimentar quimeras em face à mísera realidade.

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Imagem (Fonte – Boston News):

http://www.boston.com/bigpicture/2009/01/african_immigration_to_europe.html

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

DIAZ, E. A Filosofia de Michel Focault. São Paulo: Editora UNESP, 2013.

[2] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/04/18/world/africa/italian-navy-boat-seized-libya.html?ref=africa&_r=0

[3] Ver:

SEN, A. Desenvolvimento como Liberdade.  São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[4] Ver:

RENN, O. Concepts of risk. In: KRIMSKY, S. Social theories of risk. Connecticut: Praeger, p. 53-79, 1992.

[5] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/apr/17/death-mediterranean-africans-migrant-sea-libya

[6] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/apr/17/armed-men-seize-italian-fishing-boat-off-libya

[7] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/global-development/2015/apr/17/dadaab-refugee-camp-closure-risk-350000-somali-lives-amnesty

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Penas de morte e execuções no Egito

No último dia 24 de março, o ministro da defesa egípcio Sedki Sobhi confirmou sete sentenças de morte, parte de um único julgamento de um grupo de nove homens. Autoridades egípcias acusaram os nove réus de pertencerem ao grupo insurgente Ansar BeitAlMaqdis e de terem participado em ataques às Forças de Segurança, incluindo um tiroteio em 19 de março de 2014, no qual dois oficiais morreram[1].

Dois dos acusados foram sentenciados à prisão perpétua, enquanto os outros sete – um dos quais foi julgado in absentia – foram condenados à pena fatal. Com a confirmação doMinistro de Defesa, os seis homens em custódia correm o risco de serem executados a qualquer momento. No entanto, três deles não poderiam ter participado dos crimes em questão, pois já haviam sido presos meses antes e encontravam-se detidos por autoridades quando os ataques ocorreram[1].

O sucedido dá continuidade às crescentes condenações à pena de morte no Egito que marcaram o ano de 2014[2]. No recente relatório da Anistia Internacional sobre penas de morte e execuções em 2014, a organização de direitos humanos destaca um alarmante aumento de sentenças de morte em nível global, o qual atribui, em grande medida, aos Estados do Egito e da Nigéria[3].

Dentre as muitas sentenças fatais promulgadas no ano passado[2][4], e em meio a confirmações e revogações, a Anistia Internacional pode contar pelo menos 509 penas de morte e pelo menos 15 execuções em 2014[5].

De acordo com o banco de dados Death Penalty Worldwide, no Egito, os crimes puníveis com a morte incluem “ofensas relacionadas a terrorismo[6], seguidas ou não de falecimentos. De fato, assim como a Lei Antiterrorismo no Egito tem legitimado uma série de ações do Governo contra a Oposição[7], também condenações à pena de morte tem refletido uma perseguição a islamistas e partidários da Irmandade Muçulmana (partido deMohammed Morsi, ExPresidente deposto pelas Forças Armadas, em julho de 2013), como evidenciado nas sentenças passadas[2][4][8].

A recente confirmação das sete sentenças fatais parece também fazer parte da política egípcia de antiterrorismo, focada em grupos islâmicos: após a deposição de Morsi, o Ansar Beit alMaqdis, grupo ao qual os condenados foram acusados de pertencerem, começou a direcionar seus ataques ao Exército e à Polícia egípcios. Em novembro de 2014, o grupo jurou lealdade ao Estado Islâmico (EI) e mudou seu nome para Província do Sinai[9].

Ainda no contexto do uso egípcio de penas de morte contra islamistas e partidários daIrmandade Muçulmana, é importante destacar que, no último 7 de março, o Ministério do Interior anunciou que Mahmoud Ramadan havia sido executado, constituindo a primeira execução de um apoiador de Morsi e relacionada à violência política. Ramadan foi condenado à morte sob acusações de assassinato em relação aos violentos confrontos que eclodiram em Alexandria, em 5 de julho de 2013, no contexto da deposição do ExPresidente[10].

Grupos de Direitos Humanos, como a Anistia Internacional e a Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) condenaram a execução de Ramadan, temendo que ela sirva de precedente para a execução de centenas de outros partidários da Irmandade Muçulmanacondenados à morte[10].

Embora não haja uma clara proibição internacional para este tipo de pena, pode-se argumentar – como o fazem a Anistia Internacional e a FIDH[10] – que ela constitui uma violação do direito à vida e constitui uma pena cruel, desumana e degradante, em violação do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (Artigos 6 e 7, respectivamente)[11]. Além disso, a Ramadan parece não ter usufruído do direito a um julgamento justo[10], garantido pelo Artigo 14 do Pacto[11].

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ImagemApoiadores de Morsi enfrentando julgamento sob acusações de violência nos confrontos em Alexandria, em 2013” (Foto de março de 2014Fonte):

http://www.independent.ie/world-news/africa/morsi-supporters-sentenced-to-death-in-egypt-30138639.html

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.hrw.org/news/2015/04/04/egypt-halt-executions-six-men

[2] Ver:

https://ceiri.news/governo-egito-estabelece-529-sentencas-de-morte/;

Ver Também:

https://ceiri.news/egito-governo-e-oposicao-em-retrospectiva/

[3] Ver:

https://www.amnesty.org/en/articles/news/2015/04/governments-increasingly-resorting-to-the-death-penalty-to-combat-crime-and-terrorism/;

Ver Também:

http://www.bbc.com/news/world-32130573

[4] Ver:

http://www.hrw.org/news/2014/03/24/egypt-shocking-death-sentences-follow-sham-trial;

Ver Também:

http://www.hrw.org/news/2014/04/30/egypt-sentences-683-death-military-crackdown-continues;

Ver Também:

http://www.hrw.org/news/2014/06/21/egypt-183-death-sentences-confirmed-minya;

Ver Também:

http://www.hrw.org/news/2014/12/03/egypt-judge-issues-mass-death-sentences

[5] Ver Amnesty International (2015). Death Sentences and Executions 2014, pp. 467. Disponível em:

https://www.amnesty.org/download/Documents/ACT5000012015ENGLISH.PDF

[6] Ver:

http://www.deathpenaltyworldwide.org/country-search-post.cfm?country=Egypt, seçãoCrimes and Offenders Punishable By Death”.

[7] Ver:

https://ceiri.news/anti-terrorismo-e-a-nova-constituicao-egipcia/;

Ver Também:

https://ceiri.news/egito-mecanismos-legais-contra-a-oposicao/

[8] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-31093296;

Ver Também:

http://www.bbc.com/news/world-32130573

[9] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-25882504

[10] Ver:

https://www.fidh.org/International-Federation-for-Human-Rights/north-africa-middle-east/egypt/egypt-first-execution-in-relation-to-political-violence-sets;

Ver Também:

https://www.amnesty.org/download/Documents/MDE1211642015ENGLISH.pdf

[11] Ver:

http://www.oas.org/dil/port/1966%20Pacto%20Internacional%20sobre%20Direitos%20Civis%20e%20Pol%C3%ADticos.pdf

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O dilema multidimensional do terrorismo e o massacre aos universitários quenianos

No dia 2 de abril de 2015, o grupo terrorista Al Shabaab escreveu mais um triste capítulo na vida dos quenianos, ao abrir fogo contra os estudantes da Universidade de Garissa, no leste do Quênia. Sobre o massacre, o saldo é de 147 estudantes mortos e 79 estudantes feridos[1]. Entre as possíveis relações causais para o atentado, destacam-se a perseguição religiosa contra os cristãos, a ascensão do Al Shabaab diante da ingovernabilidade na Somália e as respostas às investidas das Forças de Defesa do Quênia (KDFKenya Defense Forces).

Do ponto de vista religioso, há muitas evidências sobre a intolerância existente entre a comunidade islâmica e os cristãos em Garissa. Para Mohamed Amin, ex-membro do parlamento na Somália, a tática do Al Shabaab é baseada em dividir a comunidade[2]. Assim, se as Forças de Segurança não mudarem o curso e tentarem se tornar amigas da comunidade muçulmana, então muitos simpatizantes irão se unir ao grupo terrorista. Existe atualmente um tipo de perseguição, tanto étnica quanto religiosa.

Do ponto de vista político, o Al Shabaab se configura como uma ala radical da antiga União das Cortes Islâmica da Somália, extinta em 2006[3]. Após ser expulso da capital do país em Mogadíscio, em agosto de 2011, e por ter perdido o controle do Porto de Kismayo, em setembro de 2012, o grupo terrorista tem atuado em diferentes localidades rurais e esporadicamente em atentados suicidas em cidades importantes. Entretanto, mesmo diante da presença do islã entre os cidadãos da Somália e os terroristas do Al Shabaab, há diferenças e perseguições entre os dois grupos. O Al Shabaab defende a versão wahabista do islã, inspirada pela Arábia Saudita, enquanto a maioria dos somalis segue a linha do sufismo. O grupo terrorista destruiu um grande número de santuários sufistas, provocando uma queda na popularidade do grupo.

Desde que a KDF assumiu o controle em Kismayo, a polícia destaca que 320 pessoas foram mortas e 785 foram feridas nessa onda terrorista[4]. Além disso, os alvos dessa guerra ao terror passaram de ambientes ligados às autoridades estrangeiras, como a embaixada dos EUA e um hotel de um grupo israelita, para a realidade local, como no ataque ao Shopping Westgate, em 2012[5], e, na última semana, os ataques à Universidade de Garissa, no nordeste do país[1][3][4].

Do ponto de vista econômico, os atentados já geraram prejuízos no turismo do país, tendo em vista as ameaças terroristas aos estrangeiros na região. Além disso, a corrupção e as crises políticas chegam ao bolso e à mesa da população, o que gera descontentamento e a busca de uma solução radical para a eterna desigualdade de renda na população. A crescente perseguição étnica e religiosa atua como combustível para o grupo terrorista e suas tentativas de desestabilizar a democracia e os governos.

Muito embora os efeitos dessa guerra ao terror tenham sido evidentes para todos, não há consenso sobre quais as respostas mais eficientes e coordenadas, ou, pelo menos, qual a direção a ser tomada para encarar os problemas[4]. Ações terroristas como o massacre aos universitários em Garissa trazem à tona o risco de mudar leis e criar discriminações ou repressões aos cidadãos, conforme suas bases étnicas ou religiosas[4]. Ou seja, ao invés de tomar uma solução para o problema, aprofundam-se as incoerências discursivas e possíveis soluções práticas, o que gera, por sua vez, mais insatisfação e clivagem, seja entre quenianos e refugiados, ou entre cristãos e muçulmanos.

Em suma, a face multifacetada do terrorismo promove inúmeros ângulos ajustáveis para encarar causa e efeito na guerra ao terror, contudo, todas estas versões produzem vieses e compreensões superficiais que acabam gerando reducionismo do ponto de vista cultural (religião ou etnia), político (projeção de poder dos Estados, anarquia através de ações terroristas) e econômico (déficit nas contas correntes nacionais e interferência na balança comercial e de pagamento dos países).

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Imagem (Fonte):

http://i2.cdn.turner.com/cnnnext/dam/assets/150402010757-map-kenya-garissa-exlarge-169.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Daily Nation:

http://www.nation.co.ke/-/1148/2674856/-/view/asTopics/-/malf09/-/index.html

[2] Ver Washington Post:

http://www.washingtonpost.com/world/rescuers-remove-bodies-from-the-dormitories-and-airlift-survivors-to-capital/2015/04/03/ea482aae-d984-11e4-bf0b-f648b95a6488_story.html

Ver também Standard Media:

http://www.standardmedia.co.ke/article/2000157381/after-garissa-attack-armed-guards-shield-kenyan-churches

[3] Ver BBC Brasil:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/04/150402_quenia_ataque_universidade_fd

Ver também Washington Post:

http://www.washingtonpost.com/blogs/worldviews/wp/2014/06/17/how-kenya-made-itself-vulnerable-to-terror/

[4] Ver Daily Nation:

http://www.nation.co.ke/oped/blogs/dot9/franceschi/-/2274464/2674656/-/12j3t9b/-/index.html

[5] Ver CEIRI Newspaper:

https://ceiri.news/um-ano-do-ataque-no-shopping-westgate/