ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Proposta de Lei para combater o terrorismo no Quênia: draconiana, retrógrada e inconstitucional?

A última quinta-feira (11 de dezembro de 2014), o Parlamento queniano vislumbrou um grande embate sobre a Proposta de Lei que visa o combate acirrado ao terrorismo. A oposição e os grupos de direitos humanos anunciaram que caso a Lei não receba as emendas necessárias para torná-la menos draconiana, protestos serão realizados[1].

A Proposta de Lei em votação tem o objetivo de criar condições mais favoráveis ao Governo para combater a atuação do grupo somali islamita al-Shabaab. Três temas polêmicos merecem destaques, pois concedem novos poderes para o Presidente e para as Agências de Inteligência, sendo eles: 1) o direito das autoridades em deter os suspeitos de terrorismo por até um ano; 2) o uso do poder pelas Agências de Inteligência para cortar as comunicações sem o consentimento da Corte e; 3) a permissão prévia que os jornalistas precisam obter pela política antes que se investigue ou publique qualquer história sobre terrorismo ou assuntos relacionados à segurança interna[1].

Entre outros elementos contidos na proposta, compreendem também o poder do Presidente para empregar ou demitir chefes da segurança, o poder das Agências de Inteligência para prender suspeitos de terrorismo e a pena de 20 anos de cadeia para pessoas com o porte de armas em locais de culto. Para os membros da Coalizão Jubilee (situação), a Lei ajudaria a polícia e os políticos a combaterem os problemas de segurança no Quênia[1]. De acordo com Mr. Kamama, ao criar uma única estrutura de comando em todos os níveis, o Estado poderia solucionar o problema da luta de poder entre a Política Administrativa e a Regular, o que centralizaria a responsabilidade pelos êxitos e falhas na segurança[2].

Por outro lado, a oposição afirma que a Lei é draconiana, retrograda e inconstitucional[1]. Mr. Namwamba criticou a Proposta de Lei, ao argumentar que ela reverte os ganhos democráticos alcançados desde a promulgação da Constituição de 2010 e comparou o debate aos eventos de junho de 1982, quando o Parlamento passou a Lei que declararia o país como um Estado unipartidário. Para Budalang’i, a Proposta é draconiana, retrógrada, inconstitucional e assegurará a impunidade[2].

Diante das inúmeras declarações, Uhuru Kenyatta chamou a atenção dos políticos em relação aos “espetáculos” executados. De acordo com o Presidente, nenhuma liberdade será cortada em detrimento da Proposta de Lei[3]. Após a morte de 36 trabalhadores perto da fronteira com a Somália, Kenyatta declarou que era tempo de todos decidirem se estariam ao lado de um país aberto, livre e democrático ou se estaria ao lado de grupos extremistas, intolerantes e repressores[1].

Ainda em relação às questões sobre a segurança doméstica e nas fronteiras, os governos do Quênia e da Etiópia assinaram um acordo em que criam oportunidades para as comunidades que vivem próximas à fronteira entre os dois países. Atualmente, os governos então engajados na construção da Rodovia Isiolo-Moyale, para facilitar o crescimento econômico e o comércio na fronteira com menos burocracia.  Para Kenyatta, todo mundo sairá ganhando e ninguém perderá com este acordo, pois ajudará as pessoas a se locomoverem livremente e se desenvolverem juntos[4].

—————————————————————————

Imagem (Fonte):

http://www.zegabi.com/articles/wp-content/uploads/2014/03/parliament200413.jpg

—————————————————————————

Fontes Consultadas:

[1] Ver BBC:

http://www.bbc.com/news/world-africa-30447088?ocid=socialflow_facebook

[2] Ver Daily Nation:

http://www.nation.co.ke/news/politics/Drama-as-MPs-clash-over-new-police-laws/-/1064/2553430/-/rfdw8j/-/index.html

[3] Ver Standard Digital:

http://www.standardmedia.co.ke/article/2000144537/president-uhuru-calls-for-sober-debate-on-kenya-s-security

[4] Ver All Africa:

http://allafrica.com/stories/201412110223.html

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Os ideais de Mandela ainda ecoam na África do Sul

Marcada pela acentuação da desigualdade econômica e social, a África do Sul se distancia gradativamente dos ideais de Nelson Mandela. Sua imagem foi lembrada nesta última semana, data que marca um ano de sua morte[1]. A recordação pode ser vista como uma renovação do espírito de busca pela igualdade em uma nação ainda marcada por profundas diferenças sociais. Se outrora as segregações raciais eram institucionalizadas, atualmente estas ainda se mantêm devido à distribuição desigual de oportunidades.

Não seria exagero afirmar que é a imagem de Nelson Mandela, juntamente com sua associação política ao Congresso Nacional Africano (CNA) no período em que foi Presidente, que servem como suporte para o atual partido governista. A popularidade deste Partido vem decrescendo nos últimos anos, principalmente após denúncias de corrupção de alguns de seus membros[2].

Se por um lado o legado de Mandela é marcado por um verdadeiro anseio moderno – igualdade, respeito e fraternidade –, a atual conjuntura sul-africana difere totalmente do projeto que ele traçou ao seu país. O CNA enfrenta enormes desafios para a manutenção de sua taxa de aprovação nos próximos anos, como a redução da expectativa de vida e a queda na taxa de crescimento econômico, juntamente com as altas taxas de desemprego[2]. Tais fatores criam anseios por mudança entre os cidadãos sul-africanos, principalmente entre os jovens e a elite. Em uma das províncias mais ricas, o Cabo Ocidental – onde a oposição comumente recebe mais votos que o CNA – a margem superior de votos da oposição cresceu de meros 7,4% para expressivos 34,3%, aos compararmos as eleições de 2004 com a de 2014.

Tendo estas dificuldades conjunturais em vista, a imagem de Mandela e o que ele representa(ou) para a África do Sul foi recordada na última sexta em uma série de celebrações e discursos na cidade de Pretória. Cada autoridade, à sua maneira, buscou retificar o compromisso com tais ideais e reiterar a sua importância para a construção de uma sociedade mais justa para os próximos anos. Ou seja, como um verdadeiro líder, Mandela ainda é um porto seguro à sociedade sul-africana. Como disse F. W. de Klerk, “embora Nelson Mandela não esteja presente fisicamente entre nós, seu legado mantêm-se como um guia para nós continuarmos nossa jornada rumo à terceira década de nossa sociedade[4].

Contudo, indaga-se até que ponto, caso a conjuntura econômica e social sul-africana não evolua, a imagem de Nelson Mandela será capaz de suportar o CNA no poder. Conforme afirmou George Bizos, advogado e amigo próximo do líder sul-africano, “se Mandela estivesse vivo, estaria decepcionado com algumas coisas que ocorrem na África do Sul[4]. Na verdade, o recente crescimento no número de votos da oposição e a emergência de partidos políticos extremistas apontam que talvez este suporte não resista por muito tempo.

—————————————————————————

Imagem (FonteNY Daily News):

http://www.nydailynews.com/news/world/mandela-mourned-traditional-service-south-african-birthplace-article-1.1546621

—————————————————————————

Fontes Consultadas:

[1] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/12/06/world/africa/south-africans-mark-first-anniversary-of-nelson-mandelas-death.html?ref=africa

[2] VerCEIRI Newspaper”:

https://ceiri.news/em-meio-protestos-contra-conjuntura-economica-e-politica-sul-africanos-vao-urnas/

[3] VerNews24”:

http://www.news24.com/Elections/Results#map=compare&election=national&year=2009

[4] VerThe Telegraph”:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/nelson-mandela/11275548/Nelson-Mandela-widow-pays-moving-tribute-a-year-after-his-death-but-Jacob-Zuma-absent.html

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A África e os bens públicos globais

As principais propostas sumarizadas há duas semanas no documento final da reunião do G-20, em Brisbane, na Austrália[1], apontam que a governança global é uma tendência real: o controle de epidemias, os estímulos ao crescimento global, soberania nacional, segurança pública e as mudanças climáticas despontam como exemplos máximos da provisão de bens públicos globais.

Juntamente, há uma crescente tendência dentro da mídia em abordar questões relacionadas ao tema dos bens públicos. Exemplos recentes seriam o artigo de Fareed Zakaria para o Washington Post, em 12 de novembro[2], e a coluna de Clovis Rossi para a Folha de São Paulo, em 18 de novembro[3]. O tema dos bens públicos também foi abordado na última Análise de Conjuntura sobre o continente africano publicada pelo CEIRI Newspaper[4]. Por isso, vale a pena um maior esclarecimento sobre o que são os bens públicos globais e como a África é inserida neste debate.

Os bens públicos são aqueles capazes de gerar benefícios à totalidade da população, tornando-se parte impreterível da cultura material e do estágio de desenvolvimento de determinada nação. Por exemplo: determinados bens públicos como segurança nacional e controle de fronteiras, dado os diferentes níveis de desenvolvimento entre as nações do mundo, possuem diferentes níveis de demanda se comparamos países como Estados Unidos e Angola.

Contudo, o expressivo crescimento econômico das nações emergentes, o crescimento abrupto da população mundial e a maior conectividade entre as nações faz surgir, gradativamente, uma cultura material similar em todos os países, o que sustenta a demanda por determinados bens públicos de dimensões globais. Por exemplo, atualmente, tanto a economia americana quanto a angolana demandam igualmente a estabilização dos mercados financeiros internacionais.

Culturas materiais semelhantes demandarão, obviamente, uma mesma categoria de bens públicos. Tomemos como exemplo o avanço da industrialização e da urbanização em quase todos os países do mundo: este processo trouxe um gradativo aumento do desmatamento e da emissão de gases estufa, o que vem acelerando o processo de aquecimento global. Com isso, as mudanças climáticas tornaram-se um risco iminente a qualquer cidadão do mundo, demandando uma ação conjunta de todas as nações.

Com o intuito de mitigar os efeitos das mudanças climáticas, algumas regiões do mundo despontam como estratégicas, o que as torna propensas a intervenções/projetos internacionais. Sabemos que a região amazônica no Brasil, por exemplo, é crucial para o alcance desse objetivo, tornando-se alvo de ações tanto de organizações nacionais quanto internacionais. Dentro da África podemos encontrar também uma série de locais essenciais para o alcance das metas ambientais, como o Sahel e as florestas tropicais africanas.

A desertificação do Sahel é um dos principais assuntos debatidos por autoridades políticas e por acadêmicos quando o assunto é África e mudanças climáticas. O Sahel é identificado como uma faixa de transição entre o deserto do Saara e as florestas tropicais, abrangendo dez países do continente africano[5]. Nas últimas décadas, a região presenciou um forte avanço do deserto sobre terras que antigamente eram cobertas por floresta nativa, o que aumenta as emissões de gases estufa na atmosfera. Pesquisadores apontam que as principais causas da desertificação do Sahel é o sobrepastoreio, resultado do expressivo crescimento populacional a partir da segunda metade do século XX[5].

Uma série de projetos internacionais tem sido impostos com o intuito de estancar a desertificação do Sahel. Tais projetos são exemplos de como questões de interesse global serão abordadas nos próximos anos, seja por governos nacionais, por instituições internacionais ou por grandes organizações não governamentais (ONGs). Dentro dos projetos elaborados que lidam com a desertificação do Sahel estão o “Great Green Wall”, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), e o Instituto Savory, do premiado pesquisador Allan Savory[5][6][7].

Outros países situados entre os trópicos no continente africano possuem vasta cobertura vegetal, fazendo com que a conservação deles seja crucial para reduzir o aquecimento global. O Gabão, por exemplo, ocupa posição estratégica neste debate, uma vez que 82% de seu território é coberto pela floresta tropical. Tendo isto em vista, algumas organizações internacionais levam a cabo projetos de conservação dentro do país, como é o caso do projeto de “Conservação da Biodiversidade e Administração de Parques Nacionais”, do Banco Mundial[8].

Poderíamos prosseguir com outros exemplos de bens públicos globais que deverão ser estruturados no continente africano nos próximos anos: controle de epidemias como o Ebola; combate aos grupos terroristas como o Boko Haram, na Nigéria, e o Al-Shaabab, na Somália; ou integração das economias emergentes aos mercados financeiros internacionais, ilustrado pela criação do East-Africa Exchange (EAX).

Contudo, o mais interessante que se pode retirar de todos estes exemplos é a identificação de uma tendência geral para os próximos anos: a constituição de metas globais a serem seguidas por todas as nações. Mais do que isso, com o avanço do processo globalizatório certas nações tendem a receber maciças intervenções/projetos internacionais, a fim de que os bens públicos globais possam ser estruturados segundo a cultura material vigente.

—————————————————————————

Imagem (FonteGigaom):

https://gigaom.com/2013/05/24/report-google-wants-to-connect-the-developing-world-with-wireless/

—————————————————————————

Fontes Consultadas:

[1] VerG-20 Final Report”:

https://www.g20.org/sites/default/files/g20_resources/library/brisbane_g20_leaders_summit_communique.pdf

[2] VerThe Washington Post”:

http://www.washingtonpost.com/opinions/fareed-zakaria-chinas-growing-clout/2014/11/13/fe0481f6-6b74-11e4-a31c-77759fc1eacc_story.html

[3] VerFolha de S. Paulo”:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2014/11/1549712-sorria-o-mundo-esta-de-olho.shtml

[4] VerCEIRI Newspaper”:

https://ceiri.news/as-implicacoes-culturais-do-desenvolvimentismo-africano/

[5] Ver:

http://www.savoryinstitute.com/about-us/our-team/allan-savory/

[6] VerOrganização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura”:

http://www.fao.org/docrep/016/ap603e/ap603e.pdf

[7] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/11/19/business/energy-environment/senegal-great-green-wall-sahara-desert.html?ref=africa&_r=0

[8] VerBanco Mundial”:

http://www.worldbank.org/projects/P070232/gabon-strengthening-capacity-managing-national-parks-biodiversity?lang=en

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Conferências Regionais de Revisão da Declaração de Genebra de 2014 se encerraram após passarem por cinco regiões do globo

A Declaração de Genebra sobre Violência Armada e Desenvolvimento é uma iniciativa que apoia atores estatais e da sociedade civil para alcançar reduções mensuráveis no marco global da violência armada a partir de 2015. Para acompanhar os progressos na implantação das diretrizes da Declaração de Genebra (DG), a iniciativa realizou Conferências de Revisões Regulares[1].

Diante da indefinição sobre o futuro da DG frente às metas que substituirão os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, várias Conferências de Revisões Regulares foram realizadas durante o ano de 2014 com a finalidade de fortalecer o engajamento dos Estados signatários da Declaração, revisar o processo de implementação em diferentes contextos regionais e de coletar apoio para integrar as metas de redução da violência armada na agenda de desenvolvimento pós-2015. As Conferências passaram pela Guatemala (Américas), Suíça (Europa, Ásia Central e Caucasiano), Filipinas (Ásia e Pacífico), Marrocos (Oriente Médio, Norte da África e Sahel) e Quênia (África Sub-Saariana).

A última reunião ocorreu em Nairóbi, no Quênia, nos dias 26 e 27 de novembro de 2014, e contou com a participação de aproximadamente 100 representantes de governos africanos, autoridades locais, organizações internacionais e organizações da sociedade civil. A Conferência focou nas parcerias e nos caminhos cooperativos entre governos, sociedade civil, organizações internacionais e agências de cooperação para o desenvolvimento. Na ocasião, Joseph Ole Lenku, da Coordenação do Governo Nacional do Quênia, ressaltou o comprometimento do país em achar soluções para os problemas associados com a violência e o desenvolvimento nos níveis sub-regionais, regionais e internacional. Lenku declarou que os conflitos armados têm afetado principalmente grupos étnicos, diferenças de gênero e comunidades religiosas através do fluxo de armas convencionais e de pequeno porte[2][3][4].

Na reunião, alguns dados alarmantes foram fornecidos para legitimar o debate. Em média, 107 mil pessoas são vítimas de violências letais por ano. Como os dados são escassos em vários países da região, a mensuração do número de vítimas é baseada apenas em estimativas, o que impede ter dimensão de toda a conjuntura. Aproximadamente seis de cada sete vítimas da violência armada são mortas fora do conflito. Entretanto, a exposição aos conflitos armados se traduz em outras formas de violências, tais como a violência doméstica e a intimidação dos parceiros[5].

—————————————————————————

Imagem (FonteGeneva Declaration):

http://www.genevadeclaration.org/uploads/pics/RRC2014_-_Kenya_NOV_web200.png

—————————————————————————

Fontes consultadas:

[1] VerGeneva Declaration on Armed Conflict and Development”:

http://www.genevadeclaration.org/2014rrc/overview.html

Ver também:

http://www.genevadeclaration.org/2014rrc/rrckenya.html

[2] VerTurkish Weekly”:

http://www.turkishweekly.net/news/176225/kenya-hosts-sub-sahara-meet-on-armed-conflict.html

[3] VerHaberler.com”:

http://en.haberler.com/kenya-hosts-sub-sahara-meet-on-armed-conflict-591932/

[4] VerShanghai Daily”:

http://www.shanghaidaily.com/article/article_xinhua.aspx?id=255014

[5] VerGeneva Declaration on Armed Conflict and Development”:

http://www.genevadeclaration.org/news/news-2014/news-gd-rrc-nairobi.html

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Uma quarta-feira marcada por números e providências no combate à má nutrição

Na última quarta-feira (19 de novembro), várias informações foram publicadas por Órgãos das Nações Unidas referentes ao combate à desnutrição. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO), apesar da América Latina e Caribe ter sido a única região do mundo a alcançar antecipadamente a meta de combater a fome nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, a fome ainda afeta 37 milhões de pessoas na região e é a responsável pela desnutrição crônica de 7,1 milhões de crianças com menos de cinco anos[1]. O problema não se trata apenas da desnutrição, mas também da dieta, pois a obesidade afeta 23% dos adultos na região e, aproximadamente, 3,8 milhões de crianças menores de cinco anos sofrem com sobrepeso[1].

No mesmo dia, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) denunciou números alarmantes na região do Sahel, na África, que compreende os países de Burkina Faso, Camarões, Chade, Gâmbia, Mali, Mauritânia, Níger e Senegal. Aproximadamente 24,5 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar; 4,8 milhões de crianças menores de 5 anos sofrem com desnutrição moderada e 1,6 milhão de crianças padecem de desnutrição aguda[2].

Nos últimos anos, a região apresentou uma das maiores médias de crescimento econômico no mundo, porém continua como umas das mais pobres. Inúmeros problemas estruturais ligados à instabilidade política e à insegurança provocaram o aumento exponencial nas necessidades dos seus habitantes. Um reflexo disto é o considerável aumento do montante destinado estes lugares. A Organização das Nações Unidas (ONU) informa que solicitava à comunidade internacional um volume de US$ 250 milhões para aliviar os problemas na região há dez anos. Em 2014, os pedidos alcançam a marca de US$ 2,4 bilhões[2].

Por fim, após 22 anos, a FAO e Organização Mundial da Saúde (OMS) realizaram a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição (ICN2), em Roma, com a participação de Ministros e funcionários de alto escalão de 170 países[3]. Entre os resultados das negociações e parcerias, os atores políticos adotaram a Declaração de Roma sobre Nutrição[4] e o Quadro de Ação[5].

A Declaração de Roma sobre Nutrição consagra o direito de todos ao acesso a alimentos seguros, suficientes e nutritivos, comprometendo os governos a prevenir a nutrição inadequada em todas as suas formas, incluindo a fome, as deficiências de micronutrientes e a obesidade. Nesta Declaração, o impacto reside não apenas sobre a população carente de alimentos, mas também no público que consome alimentos industrializados e pobres em nutrientes. Nessa linha, Margaret Chan, diretora-geral da OMS, afirma que “parte do mundo tem muito pouco para comer, deixando milhões vulneráveis à morte ou às doenças causadas por deficiências de nutrientes. Outra parte come em excesso, com a propagação da obesidade a fazer cair a esperança média de vida e a fazer subir os custos com cuidados de saúde para valores astronômicos[3]. A dualidade não está tão distante quanto se imagina, pois as diferentes formas de nutrição inadequada permitem a coexistência de pessoas com deficiências de micronutrientes e ao mesmo tempo obesas na mesma residência[3].

O Quadro de Ação reconhece o papel e a responsabilidade principal dos governos em responder aos desafios nutricionais. Entretanto, informa que um diálogo deve ser construído junto com a sociedade civil, o setor privado e as comunidades afetadas. De acordo com o diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva: “Temos o conhecimento, a experiência e os recursos necessários para superar todas as formas de nutrição inadequada. […] Os governos devem liderar o caminho […], mas a pressão para melhorar a nutrição global deve ser um esforço conjunto, envolvendo organizações da sociedade civil e o setor privado[3].

Entre as metas específicas, os países signatários devem alcançar resultados concretos até 2025, incluindo as metas para melhorar a saúde nutricional materna, jovem e infantil, além da redução de fatores de risco associados com os hábitos alimentares que levam às doenças, como a diabetes, doenças cardíacas e certos tipos de câncer.

—————————————————————————

Imagem (Fonte):

http://www.fao.org/fileadmin/user_upload/red-icean/img/ICN2%20logo.jpg

—————————————————————————

Fontes consultadas:

[1] VerNações Unidas Brasil”:

http://nacoesunidas.org/fao-37-milhoes-de-pessoas-ainda-vivem-com-fome-na-america-latina-e-caribe/

[2] VerExame”:

http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/6-4-milhoes-de-criancas-tem-desnutricao-no-sahel-diz-onu

[3] VerNações Unidas Brasil”:

http://nacoesunidas.org/paises-comprometem-se-a-combater-a-nutricao-inadequada-atraves-de-politicas-e-acoes-concretas/

[4] Ver Declaração de Roma sobre a Nutrição”:

http://www.fao.org/3/a-ml542s.pdf

[5] VerPlano de Ação”:

http://www.fao.org/3/a-mm215s.pdf

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Suspensão de oficiais no Zimbábue aumenta debate em torno de futura sucessão de Mugabe

O partido de situação do Zimbábue, o ZANU-PF, suspendeu, na semana passada, dois oficiais membros do Governo, Rugare Gumbo e Enoch Porusingazi, juntamente com o líder veterano Jabulani Sibanda[1][2]. Segundo especialistas, a suspensão ocorreu devido a uma suposta aliança entre os suspensos e a vice-presidente Joice Mujuru, dentro do debate em torno da sucessão presidencial.

O fato aumenta as tensões envolvendo a sucessão do presidente Robert Mugabe ao fim de seu mandato. Ainda que este termine somente no ano de 2018 e o atual Presidente seja elegível a um segundo termo, membros do ZANU-PF desconfiam de sua aptidão para se recandidatar, já que Mugabe está com 90 anos[1][2].

Entre os mais cotados para se candidatar e poder assumir a Presidência nas próximas eleições estão a vice-presidente Joice Mujuru e o atual ministro da justiça Emmerson Mnangagwa[2]. Joice Mujuru está a serviço do Governo do Zimbábue desde 1980, tendo participado da guerra de independência do país na década de 90[2]. Contudo, especialistas afirmam que Mujuru vem perdendo força como possível sucessora de Mugabe, principalmente após as acusações da primeira dama Grace Mugabe de que ela estaria planejando uma desestabilização política de seu marido[1][2].

Presidente do Zimbábue desde 1987, Mugabe é alvo de constantes críticas por parte de organizações internacionais que lhe acusa de haver levado a cabo “condutas antidemocráticas[3], como perseguição a opositores e manipulação das eleições. Tais críticas culminaram em uma sanção por parte do Governo norte-americano no ano de 2003[3][4].

Tendo em vista tais questões, o futuro sucessor de Mugabe na Presidência encontrará grandes desafios à frente, com a questão diplomática e a fraca economia. O país enfrenta atualmente expressiva taxa de desemprego, especialmente entre os jovens de 18 e 25 anos[5].

Este fraco desempenho da economia é, em parte, explicado pelas severas sanções impostas[4]. Desde que as sanções do Governo estadunidense foram estabelecidas, em 2003, o crescimento médio anual do Produto Interno Bruto per capita é 2,5% menor, se comparado aos dez anos anteriores (1993-2002)[6]. Assim, é impreterível que o próximo Presidente e as instituições internacionais entrem em diálogo para que uma solução a esta questão seja encontrada.

—————————————————————————

Imagem (FonteThe Telegraph):

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/zimbabwe/8336687/Robert-Mugabes-health-hurting-Zimbabwe.html

—————————————————————————

Fontes consultadas:

[1] VerAgência Reuters”:

http://www.reuters.com/article/2014/11/14/us-zimbabwe-politics-idUSKCN0IY1H520141114

[2] VerDaily Mail”:

http://www.dailymail.co.uk/wires/afp/article-2834452/Zimbabwes-ruling-party-axe-officials.html

[3] VerUSA Treasury”:

http://www.treasury.gov/resource-center/sanctions/Programs/Documents/zimb.pdf

[4] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2013/11/08/opinion/mutiga-why-zimbabwe-sanctions-boomerang.html?_r=0

[5] VerWashington Post”:

http://www.washingtonpost.com/posttv/world/africa/zimbabwe-battles-high-unemployment/2014/11/11/c0904fd4-69a4-11e4-bafd-6598192a448d_video.html

[6] VerBanco MundialEstatísticas”:

http://data.worldbank.org/country/zimbabwe