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Eleições Presidenciais no Egito têm o Marechal Abdel Fattah el-Sisi como provável vencedor

O Egito se prepara para realização das “Eleições Presidenciais” marcadas para os dias 26 e 27 de maio deste ano, segundo informou, no último domingo, a “Comissão de Eleições Presidenciais”. Após o anúncio do ato eleitoral, os presidenciáveis passaram a ter a obrigação de reunir, no mínimo, 25 mil petições notariais entre os cidadãos egípcios de 15 províncias diferentes com, pelo menos, 1.000 assinaturas cada, para dar legitimidade à candidatura e para serem elegíveis[1]. Na quarta-feira da semana passada, 26 de março, o marechal Abdel Fattah el-Sisi, de 59 anos, “Chefe das Forças Armadas Egípcias” e “Ministro da Defesa” apresentou a sua demissão para poder concorrer às Eleições[2].

Na corrida presidencial no Egito, quem aparece com as maiores possibilidades de vitória é el-Sisi, principal protagonista na queda de Muhammad Morsi, em 2013. A atuação do Marechal no processo de deposição de Morsi e no período subsequente permitiu ao militar conquistar popularidade entre os egípcios que se manifestaram contrários à política adotada pelo Presidente deposto. Hoje, el-Sisi é considerado, por muitos cidadãos de seu país, como o homem capaz de estabelecer a “ordem” num Egito que se encontra em convulsão desde a queda de Hosni Mubarak, em 2011[3]. Porém, o candidato enfrenta a oposição da “Irmandade Muçulmana” que o vê como o “mentor” do golpe de estado que afastou Morsi e como o repressor dos membros daquela organização[4].

É visível o antagonismo entre o atual “Governo do Egito” e a “Irmandade Muçulmana”. A recente condenação à morte de 529 membros da Irmandade[5] fortaleceu ainda mais a rejeição dos muçulmanos apoiadores de Morsi contra o Executivo. Até à última segunda-feira, dia 31 de março, Hamdeen Sabbahi era o único opositor à candidatura de el-Sisi. Sebbahi é um político nasserista que alcançou o 3º lugar nas presidenciais de 2012.

Em 3 de maio será divulgada a lista com os candidatos aprovados para concorrer às “Eleições Presidenciais” e, no dia seguinte, terá início a campanha com duração de três semanas, tempo considerado insuficiente pela equipe de campanha, o que tem gerado preocupação. A previsão para o resultado do primeiro turno é o dia 5 de junho, sendo que a votação no segundo turno está prevista para os dias 16 e 17 de junho mas, segundo a imprensa local, é provável que a segunda etapa da eleição não ocorra, pois el-Sisi poderá vencer as eleições logo no primeiro turno[6].

A provável vitória de Abdel Fattah el-Sisi representa a permanência da “Irmandade Muçulmana” na ilegalidade e a continuidade dos protestos iniciados durante a “Primavera Árabe”, que se esvaziou quanto aos objetivos de mudança e de democratização. A princípio, aquilo que a “revolução” conseguiu alcançar de fato foi a alternância de líderes no poder, mantendo intacta a estrutura do regime político. Esta situação coloca o Egito na posição de país instável e leva ao clamor uma significativa parcela da população que reclama uma “ordem social” diferente a partir de um pulso forte. Isto gera a incerteza quanto à efetivação de um regime político democrático e a estabilidade interna do Egito a partir de ajustes políticos, econômicos e sociais que contemplem os anseios do conjunto da sociedade.

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Imagem Marechal Abdel Fattah el-Sisi” (Fonte):

http://media2.s-nbcnews.com/i/MSNBC/Components/Photo/_new/130703-egypt-el-sisi.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/97951/Egypt/Politics-/Egyptians-begin-filing-recommendation-forms-for-pr.aspx

[2] Ver:

http://edition.cnn.com/2014/03/30/world/meast/egypt-elections/

[3] Ver:

http://edition.cnn.com/2014/03/30/world/meast/egypt-elections/

[4] Ver:

http://edition.cnn.com/2014/03/30/world/meast/egypt-elections/

[5] Ver:

http://www.dailynewsegypt.com/2014/03/25/concern-condemnation-egypt-court-sentences-529-death/

[6] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/97951/Egypt/Politics-/Egyptians-begin-filing-recommendation-forms-for-pr.aspx

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Senegal fecha a fronteira com Guiné após novo surto da “Febre Ebola”

O Senegal fechou no último sábado a sua fronteira com a Guiné esperando que assim não se espalhe para o país o recente surto de Ebola que ocorre neste último. A doença já matou 70 pessoas[1] e já subiu para 111 o número de infectados na Guiné[2]. A descoberta de 11 pessoas contaminadas em países da fronteira sul da Guiné – “Serra Leoa” e Libéria[3] – ligou o alerta de Dakar quanto à possibilidade de que a contaminação se expanda também através das fronteiras do norte chegando assim ao território senegalês.

O Governo senegalês também fechou temporariamente um mercado que reúne milhares de pessoas provenientes de Guiné, “Guiné-Bissau” e Gâmbia na região de Kolda, sul do país[3].

O vírus Ebola causa a doença chamada “Febre Hemorrágica Ebola”. O seu primeiro surto foi em 1976, aparentemente ocorrido simultaneamente no Sudão e na “República Democrática do Congo[4]. A doença se espalha entre os humanos através de quaisquer fluídos corporais e é altamente infecciosa[5].

Tabela: Cronologia de casos passados de infecção pelo Ebola

Ano País Casos Mortes Taxa de fatalidades
2012 República Democrática do Congo 57 29 51%
2012 Uganda 7 4 57%
2012 Uganda 24 17 71%
2011 Uganda 1 1 100%
2008 República Democrática do Congo 32 14 44%
2007 Uganda 149 37 25%
2007 República Democrática do Congo 264 187 71%
2005 Congo 12 10 83%
2004 Sudão 17 7 41%
2003 (Nov-Dec) Congo 35 29 83%
2003 (Jan-Apr) Congo 143 128 90%
2001-2002 Congo 59 44 75%
2001-2002 Gabão 65 53 82%
2000 Uganda 425 224 53%
1996 África do Sul (ex-Gabão) 1 1 100%
1996 (Jul-Dec) Gabão 60 45 75%
1996 (Jan-Apr) Gabão 31 21 68%
1995 República Democrática do Congo 315 254 81%
1994 Costa do Marfim 1 0 0%
1994 Gabão 52 31 60%
1979 Sudão 34 22 65%
1977 República Democrática do Congo 1 1 100%
1976 Sudão 284 151 53%
1976 República Democrática do Congo 318 280 88%

Fonte: Organização Mundial de Saúde[4].

Desde o surto da febre no ano de 2012, na “República Democrática do Congo”, não se tinha notícia de problemas com a doença. Todavia, a “Organização Mundial da Saúde” já se manifestou sobre o caso da Guiné na última semana e garantiu que não será necessário fazer para aquele país qualquer tipo de restrição a viagens ou negócios[6].

O grande problema do fechamento de fronteiras é que esse tipo de política desincentiva os países a relatarem aos seus vizinhos novos casos relacionados a essa ou a outras doenças.

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Imagem (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-africa-13442051

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/03/29/us-guinea-ebola-idUSBREA2S0JA20140329

[2] Ver:

http://www.smh.com.au/world/ebola-death-toll-in-guinea-rises-to-70-as-senegal-closes-border-20140330-zqom0.html

[3] Ver:

http://abcnews.go.com/Health/wireStory/senegal-closes-border-guinea-ebola-fears-23117196

[4] Ver:

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/

[5] Ver:

http://www.news-medical.net/health/What-is-Ebola.aspx

[6] Ver:

http://www.afro.who.int/en/clusters-a-programmes/dpc/epidemic-a-pandemic-alert-and-response/outbreak-news/4065-ebola-haemorrhagic-fever-in-guinea-25-march-2014.html

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Ver também:

http://www.scmp.com/lifestyle/technology/article/1460373/scientists-are-closing-drugs-may-stop-deadly-ebola-virus

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Congresso Nacional Africano perdendo energia para as eleições

As muitas controvérsias com relação ao Presidente sul-africano, especialmente as recentes acusações de corrupção[1], têm afetado a imagem do seu partido, o “Congresso Nacional Africano” (ANC, na sigla em inglês). Os blackouts ocorridos nesse mês e a greve do maior sindicato do país, marcada para esta quarta-feira (19) podem ter um efeito significativo nas eleições de maio.

Desde a eleição de Nelson Rolihlahla Mandela, em 1994, o ANC detém a maioria daAssembleia Nacional Sul-Africanae, consequentemente, o cargo mais alto do Executivo do país: a Presidência*. Na última eleição, em 2009, o partido assumiu 65% das cadeiras do Legislativo, mas pesquisa realizada em novembro passado já apontava para a menor vitória do ANC em 20 anos, com 53%[2].

O cenário pode começar a preocupar os quadros do partido já que, a apenas dois meses das eleições, a Eskom, companhia estatal de energia, promoveu uma série de blackouts programados. A última vez que uma crise dessa natureza ocorreu foi em 2008 e levou o país a severas perdas no setor industrial e mesmo a avaliações negativas pelo mercado financeiro[3]. Apesar da insatisfação corrente da população com o problema, ele não parece assumir as proporções de 2008.

No entanto, o CEO da empresa, Brian Dames, já informou que mais blackouts podem ser programados até meados de abril[4]. A estatal, que produz 95% da energia do país, informou que o problema ocorreu por conta das chuvas terem impossibilitado a queima de grandes quantidades de carvão nas suas plantas. O carvão responde por 80% da produção da empresa e, molhado, não poderia ser queimado pelas termoelétricas[5].

Brian Dames atribui aos governantes os problemas enfrentados atualmente pela Eskom que utiliza, hoje, apenas 75% da sua capacidade instalada. A natureza desse problema seria a falta de renovação apropriada das instalações. Segundo o CEO, isso se deu pela opção do Governo do país, em 1998, de não investir na ampliação da capacidade produtiva da empresa.

Os possíveis efeitos políticos de uma escalada nessa crise energética teriam sem dúvida consequências nas intenções de voto. Deve ainda somar-se a isso a presença nas ruas do maior sindicato sul-africano, o NUMSA** – o qual já afirmou que não apoiará o ANC nas próximas eleições. Ressalte-se que o Sindicato possui 340.000 trabalhadores afiliados, dentre os quais, os que forem às ruas pretendem sublinhar o alto nível de desemprego entre os jovens do país[6].

Segundo o Secretário-Geral do sindicato “por volta de 71% das pessoas desempregadas na África do Sul estão em idades entre 15 e 29. Muitas delas são mulheres, a maioria das quais nunca tiveram um emprego nas suas vidas[7] (tradução nossa).

O país possui uma taxa de desemprego que está atualmente em torno de 25%[8]. E os jovens, como em todo país com altas taxas de desemprego, são os que mais sofrem com esses números. O ANC deverá de alguma maneira prestar atenção ao peso dos votos dos jovens que não viveram o espectro da luta anti-Apartheid (os nascidos em 1994 poderão votar pela primeira vez) e sofrem com a falta de emprego.

De acordo com a “Comissão Eleitoral Independente”, o grupo de eleitores jovens é o mais expressivo dentre os votantes e 80% dos registrados para votar na última sessão de registro tinham menos de 30 anos de idade[9].

Todavia, mesmo com os fatos recentes, a oposição provavelmente manterá a postura de não alimentar grandes esperanças para as eleições de 7 de maio. A líder da “Aliança Democrática”, Helen Zille, por exemplo, ao fazer críticas a uma “máquina eleitoral” do ANC, afirmou no mês passado que o partido do Presidente deve permanecer no poder, assegurando 60% das cadeiras no Legislativo[10].

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* No “Sistema Eleitoral” sul-africano, o Presidente é eleito pela “Assembleia Nacional.

** Ademais, a greve dos mineradores de platina da “África do Sul”, já no seu 45º dia, também tem colocado o ANC em maus lençóis na “Província do Cabo Oriental”, onde o Governo é visto também como culpado pelo assassinato de 34 mineradores na época da última greve do setor, no ano de 2012[11].

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Imagem (Fonte):

http://www.bbc.com/news/business-26465269

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/eleicoes-na-africa-do-sul-o-peso-dos-relatorios-de-thuli-madonsela/

[2] Ver:

http://www.citypress.co.za/politics/elections-2014-will-anc-vs-eff/

[3] Ver:

http://www.bdlive.co.za/business/energy/2014/03/11/risk-of-load-shedding-looms-until-april-says-eskom-boss

[4] Ver:

http://www.bdlive.co.za/business/energy/2014/03/11/risk-of-load-shedding-looms-until-april-says-eskom-boss

[5] Ver:

http://www.bloomberg.com/news/2014-03-06/eskom-says-south-africa-may-face-power-blackouts-on-wet-coal.html

[6] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/03/16/us-safrica-strike-idUSBREA2F0IF20140316

[7] Ver:

http://mg.co.za/article/2014-03-17-sa-youth-unemployment-third-worst-in-world-says-numa

[8] Ver:

http://www.news24.com/MyNews24/Unemployment-The-extreme-makeover-20140226

[9] Ver:

http://mg.co.za/article/2014-03-11-00-elections-2014-touchstones-for-voters

[10] Ver:

http://www.bdlive.co.za/national/politics/2014/02/17/modest-zille-puts-anc-share-of-votes-at-60

[11] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/03/17/us-safrica-strikes-idUSBREA2G1KS20140317

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Eleições na África do Sul: o peso dos relatórios de Thuli Madonsela

Apesar das grandes expectativas levantadas por analistas com relação à economia da “África do Sul”, a vida política pode abalar sobremaneira o rumo do país. Thuli Madonsela, “Public ProtectordaÁfrica do Sul”*, divulgou, nessa segunda-feira[1][2], o primeiro de três Relatórios que devem abalar a presidência de Jacob Zuma.

Zuma, Presidente e provável representante do maior partido do país nas eleições desse ano, enfrenta o descrédito de boa parte dos seus conterrâneos. Um dos Relatórios a serem publicados, e o mais impactante, teve uma prévia desviada e divulgada para o público. Nele consta que 208 milhões de rands (46 milhões de reais) teriam sido desviados dos cofres públicos para reformas em uma das casas do Presidente, na cidade de Nkandla[3].

O primeiro Relatório divulgado, no entanto, refere-se apenas à má administração do canal de televisão público, a SABC – e não deveria ter grande impacto. Todavia, considerando-se que o partido do Presidente (o “African National Congress” – ANC) completa no mês de maio 20 anos no poder, é missão impraticável dissociar a imagem do partido à má gestão da emissora. Some-se a isso que Madonsela divulgará ainda o Relatório sobre a empresa pública de correios do país[4].

Mas o Relatório sobre a casa do Presidente, a que a mídia e a própria “Public Protector” já se refere como “Relatório Nkandla”, é que deve verdadeiramente ameaçar o ANC e Jacob Zuma na corrida presidencial em abril. Temas como o desemprego e a política de imigração, já enfrentados pelo ANC nas eleições passadas, se somarão ao desvio de dinheiro público realizado[5].

Sempre bastante polêmico, Zuma enfrentou, antes mesmo de eleito, diversas acusações de corrupção[6][7] e até mesmo uma acusação de estupro – sendo inocentado desta última, mas criando nova polêmica ao dizer que não teria contraído HIV por ter tomado um banho após a relação sexual[8].

Mesmo após essas polêmicas, os apoiadores do partido, e aqueles que ainda têm medo do retorno do Apartheid, garantiram a eleição de Zuma à Presidência. Todavia, ainda assim, a polêmica da reforma na sua casa ainda alimenta um espírito de oposição a Zuma.

Essa onda oposicionista teve um pequeno intervalo dada a infelicidade do falecimento de Nelson Rolihlahla Mandela. Contudo, mesmo durante esse intervalo, enquanto discursava junto a cem outros Chefes de Estado, Jacob Zuma foi vaiado pela multidão presente[9]. Agora, a 2 meses das eleições, o intervalo parece ter acabado. E, mesmo sem um Relatório final ser divulgado, o Presidente chega bastante abalado para a corrida eleitoral.

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*A “Public Protector” atua como uma ouvidora da nação, e, ao mesmo tempo, tem liberdade para investigar qualquer esfera pública. Ela é apontada pelo “Presidente da África do Sul[10].

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Imagem (Fonte):

http://www.financialmail.co.za/fmfox/2013/11/28/public-protector-in-need-of-protection

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://allafrica.com/stories/201402172156.html

[2] Ver:

http://themediaonline.co.za/2014/02/hlaudi-motsoeneng-and-the-public-protector/

[3] Ver:

http://mg.co.za/article/2014-02-16-nkandla-zuma-disputes-r200m-security-upgrades-cost

[4] Ver:

http://www.thenewage.co.za/118597-1007-53-Protector_taking_too_long_union

[5] Ver:

http://mg.co.za/article/2014-02-17-the-president-needs-to-retire-to-nkandla

[6] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2013/nov/29/jacob-zuma-accused-corruption-south-africa

[7] Ver:

http://www.citypress.co.za/politics/npa-must-inform-public-why-jacob-zuma-charges-were-dropped-judge/

[8] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2006/may/08/aids.southafrica  

[9] Ver:

http://www.reuters.com/video/2013/12/10/zuma-booed-jeered-at-mandela-memorial?videoId=274875241

[10] Ver:

http://www.gov.za/documents/constitution/1996/a108-96.pdf

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASOrganizações InternacionaisORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Ban Ki-Moon: Inspirar-se em Mandela é a solução para Síria, República Centro África e República Democrática do Congo

Ban Ki-Moon, “Secretário-Geral das Nações Unidas”, pediu em discurso que líderes mundiais sigam o exemplo de Nelson Mandela. A declaração do Secretário-Geral, feita na conferência de fim de ano, chamou a atenção para as responsabilidades moral e política dos líderes em relação a diversas partes do mundo, sobretudo o “Oriente Médio” e o “Continente Africano”. Ele expressou a preocupação por mudanças, principalmente na Síria, na “República Centro Africana” (RCA) e na “República Democrática do Congo” (RDC).

A primeira parte do seu comunicado à imprensa foi devotada à questão síria, para em seguida falar sobre os outros dois países. Ban Ki-Moon alertou para os mais de cem mil mortos nos últimos 3 anos desde que irromperam os conflitos na Síria, além das 8 milhões de pessoas que tiveram de abandonar os seus lares, incluindo 2 milhões de sírios que buscaram refúgio em outros países[1]. Lembrou que a Síria é o país em que as ações da ONU têm sido dificultadas das mais diversas maneiras pelo Governo[2], levando a que até mesmo o pão tenha se tornado um produto extremamente escasso (com os preços atingindo um aumento de 500% em algumas áreas)[3], mas que também é o lugar onde se terá o maior investimento em ajuda humanitária promovido pela Organização, no montante de 6,5 bilhões de dólares[4].

Em seguida, ele iniciou sua fala sobre o “Continente Africano” já afirmando que 2013 foi o ano em que a “República Centro Africana” mergulhou no caos. O país tem, segundo ele, cerca de 600 mil deslocados, dos quais 70 mil estão refugiados em outros países. Pediu para que os diversos líderes no país tentem entrar em consenso, evitando polarizações políticas ou religiosas. Falou ao mesmo tempo em que o Presidente da RCA, de orientação muçulmana, já se vê negociando com as milícias cristãs[5].

Por outro lado, a “Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura” (FAO) alerta para a subida nos preços dos alimentos (alguns alimentos já subiram em mais de 70%) e para a possibilidade de colapso da produção rural no ano vindouro (2014)[6]. Ademais, a FAO afirma que cerca de 1,29 milhão de pessoas, 40% da população, precisa de ajuda alimentar urgente[7].

No que diz respeito à “República Democrática do Congo”, Ban Ki-Moon felicitou os avanços atingidos, graças à parceria com o “Banco Mundial” (BM) para promover a paz na região, e também graças aos novos equipamentos utilizados na região (os drones[8]). Além disso, felicitou o Acordo assinado na última quinta-feira, dia 12 de dezembro, pelo Governo e pelos milicianos do grupo M23, em Kampala, para por fim às hostilidades no leste do país. Apesar disso, nos dois dias seguintes, mais de 20 pessoas foram mortas[9].

Tendo em mente essas questões e a esperança de mudanças, a lembrança de Nelson Mandela (Madiba) por parte do Secretário-Geral é sem dúvida meritória. Mandela lutou pelo fim do Apartheid, regime de opressão do negro pelo branco na “África do Sul”. Mas, ao contrário de muitos dos seus companheiros, não defendia que os brancos passassem a ser oprimidos quando aquele regime chegou ao fim. Em suas palavras: “Never, never and never again shall it be that this beautiful land will again experience the oppression of one by another (“nunca, nunca e nunca novamente deverá essa linda terra experimentar a opressão de um pelo outro”)[10].

Em síntese, Ban Ki-Moon chamou a atenção de líderes das grandes potências e de líderes locais para a atitude de se lutar por um ideal, sem se esquecer da responsabilidade de criar um presente e um futuro de paz duradoura.

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Imagem (Fonte):

http://p2.trrsf.com/image/fget/cf/619/464/images.terra.com/2013/12/09/ban-mandela-rtr.JPG

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.un.org/sg/offthecuff/index.asp?nid=3207

[2] Ver:

http://www.reuters.com/article/2013/12/15/us-syria-crisis-aid-insight-idUSBRE9BE03D20131215

[3] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25397140

[4] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25398012

[5] Ver:

http://abcnews.go.com/International/wireStory/central-african-repubic-president-negotiate-21233973

[6] Ver:

http://www.scoop.co.nz/stories/WO1312/S00285/strife-torn-central-african-republic-faces-food-crisis.htm

[7] Ver:

http://expresso.sapo.pt/conflito-na-republica-centro-africana-deixa-milhoes-em-risco-de-fome-fao=f846476

[8] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/rd-congo-milicia-financiada-por-trafico-de-ouro-preocupa-onu/

[9] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-25410876

[10] Ver:

http://www.africa.upenn.edu/Articles_Gen/Inaugural_Speech_17984.html

ÁFRICAÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Perspectivas chinesas sobre Mandela

Na China, tal como na maioria de outros países do mundo, a morte do histórico líder sul-africano Nelson Mandela motivou consternação e manifestações do Governo e da população em geral. De uma forma geral, os chineses destacam principalmente o papel que ele teve no estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e a “África do Sul”, em 1998, e as duas visitas que ele faz ao seu país em 1992 e 1999[1].

Tanto a imprensa como a mass media chinesas (com o destaque para o twitter chinês, o weibo) têm destacado desde 6 de dezembro os principais desenvolvimentos ligados ao desaparecimento físico de Mandela, principalmente o que vai acontecendo na “África do Sul” e no mundo em geral[1].

Na China, em particular, aponta-se para o fato de Mandela ter duas obras chinesas como as suas leituras favoritas. A primeira é um dos principais livros sobre a guerra, “The Art of War” (“A arte da Guerra”) de Sun Tzu[2], e a outra é “The Selected Works of Mao Zedong” (“A Seleção das Obras de Mao Zedong”). Os chineses dizem que Mandela chegou a afirmar que, ainda na cadeia, veio da China a “inspiração espiritual[3].

Estas constatações são confirmadas pelo próprio Mandela que, em 2004, disse ao então “Vice-Presidente da China”, Zeng Qinghong, que líderes chineses como Mao Zedong, Zhou Enlai e Zhu De, assim como também o povo chinês, deram um grande apoio aos sul-africanos na sua luta pela independência e contra o Apartheid. Nesse encontro, Mandela acrescentou que o seu povo nunca irá se esquecer que a vitória da “Revolução Chinesa”, que culminou com o estabelecimento da “República Popular da China”, em 1949, teve um importante impacto na luta dos sul-africanos[4].

Outro papel de apreço dos chineses pelo nacionalista africano é salientado na imprensa ao destacar uma canção dedicada a ele em 1991 pela banda de rock de “Hong Kong”, Beyond, com o título de “Glorious Years (“Anos Gloriosos”). Um repórter de uma TV local afirmou que, na altura, Mandelatirou lágrimas ao ouvir a música[5].

Durante dias muitos chineses se deslocaram à “Embaixada da África do Sul”, em Pequim, para assinarem o livro de condolências e prestarem a última homenagem a Mandela. Ao nível oficial, o “Presidente da China”, Xi Jinping, e outras figuras importantes do Governo expressaram os seus pesares ao povo e Governo sul-africanos pelo falecimento do “reconhecido Chefe de Estado mundial[6] que “liderou os sul-africanos na sua luta que culminou com a vitória contra o Apartheid[6]. O presidente Xi ainda apontou na sua carta ao seu homólogo da “África do Sul”, Jacob Zuma, que “os chineses sempre se lembrarão das contribuições extraordinárias de Mandela para o desenvolvimento das relações China-África do Sul e a causa do progresso humano[6].

Na ceremônia de homenagem a Nelson Mandela, realizada na terça-feira passada (dia 10 de dezembro), em Joanesburgo, na qual participaram mais de 90 “Chefes de Estado” e “Chefes de Governo”, o “Vice-Presidente da China”, Li Yuanchao, tomou parte como representante do “Presidente” chinês e foi um dos poucos dignatários mundiais que subiram ao pódio para falar de Mandela. Dentre o que ele disse inclui-se a menção de que Mandela é orgulho dos africanos[7].

No entanto, para parte dos internautas e ativistas chineses pró-democracia e pelos direitos humanos, o nacionalista da “África do Sul” é motivo de inspiração para se apelar às mudanças políticas substanciais no seu país[8]. Alguns sugerem que a China devia também ter o seu Nelson Mandela. Mas, há que se vê como um exemplo de Mandela[9] o preso político pró-reforma política, Liu Xiaobo, condenado a 11 anos de cadeia por “incitação à subverção do poder estatal[9], que também venceu o “Prémio Nobel da Paz”, em 2010.

Por outro lado, a mídia internacional e de “Hong Kong” apontam a preocupação das autoridades chinesas em evitar que se publiquem notícias que ilustram Mandela como antigo presioneiro político por defender a liberdade, a democracia, os direitos humanos e um homem que oficialmente se casou três vezes. Ainda se acrescenta que o Governo da China não quer que se fale na imprensa nacional das relações diplomáticas entre a “África do Sul” e Taiwan (terminadas em 1998), nem da ligação entre ele e o líder espiritual tibetano exilado na Índia, o “Dalai Lama”, com quem tinha uma relação de amizade[10].

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Imagem (Fonte):

www.scmp.com/news/china/article/1377508/beijing-bans-sensitive-topics-during-mandela-funeral-coverage

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[1] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/world/2013mandela/

[2] Ver:

http://sinosphere.blogs.nytimes.com/2013/12/06/in-china-mandela-is-clai

[3] Ver:

http://thediplomat.com/2013/12/asia-mourns-nelson-mandela/

[4] Ver:

http://www.fmprc.gov.cn/ce/ceza/eng/zghfz/zngx/t165295.htm

[5] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/world/2013mandela/2013-12/06/content_17157108.htm

[6] Ver:

http://www.theafricadaily.com/12/post/2013/12/mandelas-death-reminds-chinese-of-their-own-pro-democracy-struggle.html#sthash.aesdte8Q.dpuf

[7] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2013-12/11/content_17165850.htm

[8] Ver:

http://in.reuters.com/article/2013/12/06/us-mandela-china-idINBRE9B505020131206

[9] Ver:

http://blogs.wsj.com/chinarealtime/2013/12/06/online-china-looks-for-its-mandela/

[10] Ver:

http://www.scmp.com/news/china/article/1377508/beijing-bans-sensitive-topics-during-mandela-funeral-coverage