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México nega visita do Comitê sobre Desaparecimentos Forçados da ONU

De acordo com o Jornal El País, o Comitê sobre Desaparecimentos Forçados* (CED, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU) relatou na sexta-feira passada (dia 20 de outubro), que o México negou sua visita ao país. A presidente do Comitê, Suela Janina, lamentou a posição do Governo mexicano, salientando que foram quatro anos de negociação em busca de um possível acordo de cooperação. Para Janina, a visita do Comitê seria uma ótima oportunidade para ajudar o Estado-Membro a superar seus problemas.

Em agosto de 2017, o Escritório no México do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos instou fortemente o Estado mexicano a reconhecer a competência do Comitê, mas isso ainda não aconteceu. De acordo com o Registro Nacional de Dados de Pessoas Extraviadas ou Desaparecidas (RNPED) mexicano, no ano de 2017 já foram contabilizadas mais de 2.400 casos de desaparecimentos.

Segundo Jan Jarab, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos no México, é imperativo que o país amplie o caminho da justiça para as vítimas do desaparecimento e fortaleça o regime de proteção internacional contra este flagelo, pois já faz oito anos que o Estado ratificou a Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado.

Jarab explica que, como pactuante da Convenção, o México deve unir-se aos Estados que já reconhecem a jurisprudência do Comitê**. Conforme afirma, “O reconhecimento da competência do Comitê iria fornecer as vítimas um padrão mais elevado de proteção e permitir-lhes que recorram a um organismo internacional especializado para reivindicarem, de forma legítima, seus direitos”.

A Comissão de Direitos Humanos do Senado mexicano também se pronunciou a respeito do tema. No dia 11 de outubro de 2017 eles pediram ao Governo Federal para tomar as medidas necessárias para que o país reconheça a competência da instituição que tenta realizar a visita, desde 2013, sem sucesso.

Estudantes do ensino médio da escola de Ayotzinapa, no estado Guerrero, protestam após dois meses do desaparecimento forçados de colegas

Apesar das dificuldades, durante a conferência de imprensa, Janina ressaltou que o Comitê está estudando como cooperar com as autoridades “de forma construtiva” em benefício das vítimas.

É interessante destacar que o Congresso mexicano aprovou, na semana retrasada (dia 12 de outubro), a Lei Geral sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas, que prevê penas de até 60 anos de prisão para quem cometer este tipo de delito. Agora, após seu envio ao Poder Executivo, falta esperar apenas que se cumpra o prazo regimental de 60 dias para que a Lei seja publicada no Diário Oficial da Federação e entre em vigor.

O número de desaparecimentos forçados se tornou alarmante desde que o ex-presidente Felipe Calderón (2006-2012) iniciou uma política de guerra às drogas contra os cartéis mexicanos, provocando o aumento da violência em todo o território nacional. Entretanto, especialistas creem que, com a nova legislação, será possível evitar violações aos direitos humanos, facilitar a localização de pessoas desaparecidas e garantir a completa reparação as vítimas.

O Escritório no México do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos já havia solicitado ao Congresso que aprovasse tal norma no ano passado (2016). De acordo com a ONU, é necessário que exista uma estrutura de pesquisa institucional sob a coordenação da Federação que garanta recursos para o seu funcionamento. Tal estrutura deve contribuir para que as autoridades estatais assumam suas responsabilidades e garanta o trabalho de investigação de forma independente.

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Notas:

* O Comitê sobre Desaparecimentos Forçados (CED) é formado por especialistas independentes que monitoram a implementação da Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado pelos Estados-membros. Todos os signatários são obrigados a apresentar relatórios à Instituição sobre como os direitos estão sendo implementados. Os Estados-membros devem informar dentro de dois anos a ratificação da Convenção. O Comitê examina cada relatório e aborda suas preocupações e recomendações ao Estado-membro.

** De acordo com o artigo 31 da Convenção, um Estado-membro pode, no momento da ratificação da Convenção, ou, em qualquer momento, declarar que reconhece a competência do Comitê para receber e considerar as comunicações de pessoas sob sua jurisdição, ou em nome delas, que alegam ser vítimas de uma violação por este Estado-membro. Além do procedimento do relatório, o artigo 32 da Convenção prevê que o Comitê considere queixas interestatais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Uma menina desenha durante um protesto para exigir às autoridades mexicanas a busca de todos os desaparecidos do México, na Avenida Reforma, em 30 de maio de 2015, na Cidade do México” (Fonte):

http://www.gettyimages.com/license/475298638

Imagem 2Estudantes do ensino médio da escola de Ayotzinapa, no estado Guerrero, protestam após dois meses do desaparecimento forçados de colegas” (Fonte):

http://www.gettyimages.com/license/459389464

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A segunda visita do chanceler brasileiro à África

Entre os dias 11 e 16 de outubro (2017), o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, esteve em sua segunda viagem oficial ao continente africano. Na primeira oportunidade, em maio deste ano (2017), ele visitou cinco países: África do Sul, Botsuana, Malawi, Moçambique e Namíbia. Desta vez, foi a outros quatro: Gana, Nigéria, Costa do Marfim e Benin.

Conclusão da assinatura de Protocolo Trilateral de cooperação – Gana, ABC (Brasil) e GIZ (Alemanha) – sobre a produção de caju

Antes do início do período de viagens, o Chanceler publicou artigo no jornal Folha de São Paulo, no qual enaltecia as relações Brasil-África, denominando-as de “parceria natural”. Lá, realçou algumas conquistas econômicas, como o crescimento médio do PIB africano nos últimos anos, que ampliou o consumo e a participação dos cidadãos na classe média. Em decorrência disso, o Chanceler mencionou a participação brasileira em exportações para o continente, que somaram quase US$ 8 bilhões de dólares em 2016.   

No primeiro quarto da viagem, Nunes visitou a capital de Gana, Acra, onde teve uma audiência com o presidente Nana Akufo-Addo. Entre as principais realizações dos encontros que se seguiram a essa audiência está a reunião com o Ministro da Agricultura e Abastecimento, Owusu Afryie Akoto, para a assinatura de acordo de cooperação sobre a produção de caju, na qual também participa a agência de cooperação alemã, GIZ.

Segundo nota publicada na página oficial do Itamaraty no Facebook, essa iniciativa objetiva ampliar a produtividade e a competitividade do setor no país. O Brasil ainda possui outros dois projetos de cooperação em execução em Gana, sendo eles voltados para o reforço à alimentação escolar.

O próximo destino foi a Nigéria, que tem se destacado como uma das principais economias africanas. O Chanceler foi recebido pelo ministro dos Negócios Exteriores, Geoffrey Onyeama. Na ocasião, discutiram sobre acordos, ainda em negociação, nas áreas de cooperação e facilitação de investimentos; transferência de presos; desenvolvimento agrícola; e extradição.

Aloysio Nunes na Costa do Marfim

A oportunidade também serviu para que Aloysio Nunes se encontrasse com o Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Chefe Audu Ogbeh. Eles conversaram sobre o Programa Mais Alimentos Internacional (PMAI), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) brasileiro, que objetiva fornecer linhas de créditos para agricultores familiares africanos comprarem maquinários e demais equipamentos agrícolas. Além disso, debateram a situação da pecuária na Nigéria.

Entre os dias 13 e 15, foi a vez de o chanceler estar no Benin. Ele foi recebido pelo presidente Patrice Tolon e teve audiência com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e de Cooperação. Basicamente, discutiram sobre a ampliação da cooperação em áreas-chave. Atualmente, existem quatro projetos em execução neste país, sendo um deles o Cotton-4, que trata da difusão de práticas brasileiras no cultivo de algodão. Inclusive, em seu artigo, Nunes também afirmou que esta iniciativa representa benefícios para o Brasil, a partir dos novos cultivos criados e das expertises adquiridas pelos técnicos brasileiros em ação, especificamente os funcionários da Embrapa.    

Na última parte da viagem, o Chanceler esteve na Costa do Marfim em audiência com o presidente Alassane Ouattara e com o Ministro dos Negócios estrangeiros, Marcel Anon-Tanoh. Eles discutiram a ampliação da cooperação bilateral em diversas agendas e concordaram em buscar soluções para a suspensão temporária das exportações de cacau para o Brasil.

A comercialização foi suspensa por questões fitossanitárias, como o risco de praga. Para tanto, Nunes propôs que o Governo criasse um grupo técnico para fazer uma visita ao Brasil e receber capacitações sobre normas e procedimentos que podem ser úteis para a solução do impasse. Além do cacau, a Costa do Marfim também exporta para o país peixes, crustáceos e outros produtos de origem animal.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/fotosagenciabrasil/33158054712

Imagem 2 Conclusão da assinatura de Protocolo Trilateral de cooperação Gana, ABC (Brasil) e GIZ (Alemanha) – sobre a produção de caju” (Fonte):

https://www.facebook.com/ItamaratyGovBr/photos/a.147451148621511.22424.125578787475414/1766016773431599/?type=3&permPage=1

Imagem 3 Aloysio Nunes na Costa do Marfim” (Fonte):

https://www.facebook.com/ItamaratyGovBr/photos/a.147451148621511.22424.125578787475414/1768038816562728/?type=3&permPage=1

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Eleições regionais na Venezuela: choque de narrativas e reação dos EUA

No dia 15 de outubro, duas semanas atrás, foram realizadas as eleições para governadores na República Bolivariana da Venezuela. O oficialismo venceu em 18 localidades, perdendo em apenas 5, supostamente demonstrando força política em um cenário econômico de intensa crise.

O resultado significa uma diminuição da quantidade de Estados controlados pelo Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), que detinha o poder em 20 governos regionais. Por outro lado, o chavismo conseguiu vitória no Estado de Miranda, que era importante reduto da oposição.

Mapa da Venezuela, representando a vitória nas eleições. Em vermelho, oficialismo e, em azul, oposição; os tons representam a densidade populacional

Entretanto, o pleito foi percebido como uma derrota pelos opositores, cujas consultas de opinião previam vitórias em ao menos treze Estados. Enquanto o governo de Maduro alardeava o sucesso, afirmando a resiliência do chavismo, a Mesa de Unidade Democrática (MUD), principal agrupamento oposicionista, convocava protestos e questionava os resultados eleitorais.

O pleito representa, assim, a continuidade e o escalonamento da polarização política e da percepção de falta de legitimidade dos órgãos eleitorais por parte dos opositores. Cabe ressaltar que as eleições foram acompanhadas por um grupo de especialistas latino-americanos, estadunidenses e europeus, mas não houve a observação por parte da Organização dos Estados Americanos (OEA).

O questionamento ao pleito, não se limitou à Oposição venezuelana. Em 16 de outubro, o Departamento de Estado dos EUA (equivalente ao Ministério das Relações Exteriores) emitiu nota condenando a falta de “liberdade e justiça”, afirmando que a “voz dos venezuelanos não foi ouvida” e questionando a auditoria do Conselho Nacional Eleitoral. A nota concluía que “enquanto o governo de Maduro permanecer como ditadura trabalharemos com a comunidade internacional e levaremos todo o peso econômico e diplomático americano em apoio à população venezuelana”, que resiste ao regime. Posteriormente, a embaixadora dos EUA na Organização das Nações Unidas, Nikki Haley demandou uma auditoria independente sobre as eleições.

O Governo venezuelano respondeu às críticas dos Estados Unidos no dia 20 de outubro, a partir de nota do Ministério do Poder Popular para as Relações Exteriores, rechaçando o que caracterizou de “demonstração de arrogância”, o que considerou como sendo uma “discriminação” e “pretensão de ingerência da potência”. A nota também afirmava existir uma campanha contra o regime chavista e criticava o sistema eleitoral norte-americano. Por fim, pontuava que o país não cederá a pressões ou ameaças e fará uso de todos os instrumentos diplomáticos a seu favor para garantir sua soberania e independência.

Nesse sentido, cabe ressaltar que a retórica dos Estados Unidos, que abre espaço para pensar em alguma forma de intervenção e em sanções econômicas, é funcional ao regime chavista, pois fortalece a retórica nacionalista do governo e a disseminação da propaganda de que os problemas enfrentados pelo país têm apenas origem internacional, devido às pressões exercidas de fora.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Logo do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:CNE_logo.svg

Imagem 2Mapa da Venezuela, representando a vitória nas eleições. Em vermelho, oficialismo e, em azul, oposição; os tons representam a densidade populacional” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Elecciones_regionales_Venezuela_(Densidad)_2017.svg

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Contramarcha da Paz: o Massacre de Tumaco na Colômbia

Seguramente, os morticínios ocorridos no último dia 5 de outubro na Colômbia podem ser chamados de Massacre de Tumaco. Quatro dias depois, no dia 9 de outubro de 2017, o jornal El Espectador publicou que as forças policiais dispararam contra os cocaleros que protestavam contra a erradicação das plantações de coca.

As informações, contudo, são contraditórias, pois o Governo afirma que morreram seis pessoas, mas os habitantes da área declaram que foram pelo menos 10, alguns desaparecidos e pelo menos 15 feridos. Este fato foi desmentido pelo comunicado oficial da polícia, mas as comunidades categoricamente fazem tal acusação à força pública. A Comissão humanitária que se deslocou até Tumaco também foi atacada pelas forças policiais, inclusive o vice-presidente Oscar Naranjo reconheceu o “comportamento irregular” por parte dos membros da Polícia Nacional.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=529&v=4wIV404j98w O ocorrido é resultado da política de erradicação dos narcocultivos pelo Governo da Colômbia. Os camponeses, no entanto, consideram insuficientes os recursos providos pelo governo para que abandonem o cultivo da folha de coca. O presidente Juan Manuel Santos, por sua vez, avalia como algo fundamental para o processo de paz o fim dessas lavouras. Declarou: “Nós não vamos permitir que nenhuma organização criminal frustre uma política que deve ser uma política exitosa, que necessitamos que seja exitosa de recuperar a legalidade em todo o território nacional e de substituir os cultivos de coca por cultivos lícitos”.

Neste final de semana, o presidente Santos visitou Tumaco e, após o término da reunião com líderes sociais, anunciou a Campanha Atlas, que consiste em uma reorganização das forças de segurança e defesa. Afirmou: “analisamos, ponto a ponto, uma campanha que estamos lançando, a qual chamamos de campanha Atlas, que tem a ver com uma reorganização e fortalecimento de toda a presença da Força Pública, de todas as forças: Exército, Marinha e, através da Marinha, do Corpo de Fuzileiros Navais, da Força Aérea e, claro, da Polícia”.

O Presidente também afirmou que conversou com os líderes comunitários da cidade. Em suas palavras: “Para esse fim, nos reunimos hoje em uma segunda reunião, toda a tarde, com porta-vozes de diferentes comunidades, porta-vozes de vítimas, mulheres, jovens, comunidades afro, comunidades indígenas, uma ampla gama de porta-vozes, a quem ouvimos sobre sua visão do problema que está sendo experimentado no município de Tumaco, seus pedidos e suas soluções”.

Acredita-se que possa estar ocorrendo uma luta pelos corredores do tráfico que foram deixados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que recentemente assinaram o Acordo de Paz com o Governo e se transformaram em um partido político, atualmente chamado Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC).

Este massacre, por sua vez, está demonstrando que o processo de paz está somente em seu início, com muitas marchas e contramarchas ainda a ocorrerem, já que se trata de uma situação com mais complexidade que a calculada inicialmente.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Chegada do presidente Santos a Tumaco” (Fonte):

http://web.presidencia.gov.co/videos/2017/Fotos/Octubre/171021_01_VisitaTumaco.jpg

Imagem 2 Declaração de Juan Manuel Santos em Tumaco” (Fonte):

https://www.youtube.com/watch?time_continue=529&v=4wIV404j98w

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O Governo de Maurício Macri e a questão indígena na Argentina

No dia 12 de outubro, quinta-feira passada, foi celebrado na Argentina o Dia do Respeito à Diversidade Cultural, feriado dedicado ao diálogo entre diferentes culturas e à reflexão histórica sobre a conquista e colonização das Américas. O feriado ocorreu em meio à crescente tensão entre os povos indígenas e o Governo nacional. Na ocasião, diversas comunidades realizaram atos e manifestações em várias localidades com o objetivo de celebrar suas tradições e também clamar por direitos e reparação de injustiças cometidas em tempos passados.

Bandeira da Organização Tupac Amaru

A questão indígena vem ganhando maior visibilidade no país a partir do caso de Santiago Maldonado, um artesão que desapareceu durante manifestação dos índios mapuches na província de Chubut, que foi interrompida por uma investida repressiva da Gendarmeria, a força policial federal. A campanha para o reaparecimento de Maldonado ganhou expressão global, sendo que o Comitê contra a Desaparição Forçada da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) foram acionados e demandaram uma postura mais ativa do Governo para solucionar a questão. A situação também repercutiu no campo cultural, sendo que o músico Bono Vox, vocalista da banda U2, perguntou ao presidente Maurício Macri sobre o paradeiro do militante argentino.

Outro caso de destaque refere-se à situação de Milagro Sala, líder da cooperativa barrial Tupac Amaru, que reivindica uma ideologia de valorização do passado indígena. Sala foi detida desde janeiro de 2016 em razão de protestos realizados na província de Jujuy. A Anistia Internacional e o Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS) organizaram-se para exigir a libertação da militante e levaram o caso às instituições multilaterais.

Posteriormente, o Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária da ONU demandou sua liberação e a CIDH recomendou que a mesma fosse transferida para prisão domiciliar. Contudo, Sala voltou a prisão no dia 14 de outubro, sábado passado, em uma condução relatada pela mídia como violenta.

Além da detenção de lideranças, a temática gira principalmente em razão de conflitos sobre propriedade da terra entre diversas comunidades indígenas e grupos privados nacionais e internacionais. Possui destaque a revisão da Lei de Emergência Territorial de 2006. Essa legislação freou os desalojamentos de comunidades indígenas em regiões de disputas de propriedades e previa o mapeamento de todas as regiões de ocupação por povos originários, o que não foi concluído até o momento. A sua ampliação por 4 anos foi aprovada no Senado e encontra-se em discussão na Câmara.

De acordo com a Anistia Internacional, há mais de 200 litígios envolvendo a propriedade da terra entre organizações privadas e comunidades indígenas. Embora a aprovação da continuidade da proteção legal expanda por algum tempo a proteção aos povos originários, a demora e dificuldade na demarcação definitiva das terras mostra que os direitos deles não estão garantidos. Considerando o contexto recente de maior politização, a tendência para o futuro próximo é de agravamento e aumento dos choques entre Governo e comunidades originárias.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Macri recebe comitiva de povos originários” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Macri_con_pueblos_originarios_01.jpg

Imagem 2Bandeira da Organização Tupac Amaru” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Organizaci%C3%B3n_Barrial_T%C3%BApac_Amaru.jpg

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Mulher indígena se candidata à Presidência mexicana de 2018

De acordo com o Jornal Reuters, no último sábado (dia 7 de outubro), Maria de Jesus Patricio Martinez, porta-voz do Congresso Nacional Indígena, braço político do Exército de Libertação Nacional Zapatista (EZLN), registrou sua candidatura independente nas eleições presidenciais do próximo ano (2018), aumentando a crescente lista de candidatos estabelecidos. Ela foi escolhida após uma votação que reuniu mais de 1.480 delegados, conselheiros e observadores de 58 povos indígenas.

Centenas de zapatistas marcham durante uma manifestação em 8 de outubro de 2014 em San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, para exigir justiça no caso dos 43 estudantes desaparecidos no Estado de Guerrero

Nascida na comunidade dos índios Nahua em Tuxpan, no Estado de Jalisco, Martínez tem 57 anos, é médica tradicional e começou a atuar como porta-voz de sua comunidade em 1994. Desde então vem atuando em hospitais de grupos indígenas e militando pelos interesses dos nativos mexicanos. Após se cadastrar no Instituto Nacional Eleitoral (INE), Maria prometeu não aceitar nenhum financiamento do governo para dirigir sua campanha.

O EZLN foi fundado em meados dos anos 1990 como uma guerrilha inspirada no revolucionário Emiliano Zapata, do início do século XX. No dia 1o de janeiro de 1994, os zapatistas organizaram uma rebelião no Estado mexicano de Chiapas para protestar contra as políticas econômicas adotadas pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que, na visão do grupo, afetavam negativamente as comunidades indígenas. O conflito entre zapatistas e o Exército durou 12 dias e deixou pelo menos 140 mortos, tonando-se um símbolo para os adeptos do movimento antiglobalização.

Após conquistarem um grande apoio popular, os zapatistas acabaram se afastando do combate armado e migrando para uma ação política pacífica. O objetivo principal do movimento é promover a reforma agrária e a redistribuição de renda, além de buscar maior autonomia política e cultural para os povos indígenas.

Segundo as pesquisas eleitorais, o candidato mais cotado para a Presidência mexicana é o ex-prefeito da Cidade do México e duas vezes vice-Presidente, Andrés Manuel Lopez Obrador, esquerdista com inclinações nacionalistas.

O Partido Revolucionário Institucional centrista (PRI), do atual presidente Enrique Peña Nieto, que é proibido por lei de buscar um segundo mandato, ainda não escolheu um candidato para apoiar.

Crianças da aldeia zapatista Javier Hernandez praticam futebol perto do grafite com o retrato de Ernesto Che Guevara (esquerda) e Emiliano Zapata, durante um recesso do segundo dia de encontros entre o Exército Zapatista Mexicano de Libertação Nacional (EZLN) e grupos sociais, em Chiapas, 14 de agosto de 2005

Já foram registrados mais de 10 concorrentes independentes pela primeira vez na história. Entretanto, três desses registrados acabaram não cumprindo com os requisitos iniciais. De acordo com o INE, os aspirantes presidenciais independentes têm quatro meses para reunir 866.593 assinaturas, representando 1% do eleitorado de pelo menos 17 entidades federais, para se qualificarem antes da votação de julho de 2018.

A candidatura de Martínez, juntamente com o apoio dos zapatistas, significa um grande marco para o movimento insurgente, que se manteve aparentemente pouco ativo nos últimos anos. Outro fato que chama a atenção dos analistas é a quantidade de candidatos independentes, pois indica que os partidos tradicionais perderam a representatividade e a capacidade de aglutinar interesses e anseios comunitários.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1María de Jesús Patricio Martínez durante a sua nomeação como portavoz do Conselho Indígena de Governo em San Cristóbal de la Casas, Chiapas, em 28 de maio de 2017” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Mar%C3%ADa_de_Jes%C3%BAs_Patricio_Mart%C3%ADnez

Imagem 2Centenas de zapatistas marcham durante uma manifestação em 8 de outubro de 2014 em San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, para exigir justiça no caso dos 43 estudantes desaparecidos no Estado de Guerrero” (Fonte):

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Imagem 3Crianças da aldeia zapatista Javier Hernandez praticam futebol perto do grafite com o retrato de Ernesto Che Guevara (esquerda) e Emiliano Zapata, durante um recesso do segundo dia de encontros entre o Exército Zapatista Mexicano de Libertação Nacional (EZLN) e grupos sociais, em Chiapas, 14 de agosto de 2005” (Fonte):

http://www.gettyimages.com/license/53387594