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Observadores apontam que explosão em base militar na Rússia apresenta caráter nuclear

No dia 8 de agosto (2019), ocorreu uma explosão em uma base militar na Rússia em Nyonoksa, localizada ao norte do país, no Mar Branco. A companhia nuclear estatal russa, Rosatom, logo emitiu um comunicado afirmando que ocorreu um acidente durante testes com um motor de foguete de propelente líquido, o qual ocasionou um incêndio a bordo de um navio atracado no porto. Ainda segundo a declaração, duas pessoas teriam morrido por conta da casualidade e outras 6 teriam sido feridas.

Entretanto, a informação começou a ser contestada quando autoridades de Severodvinsk, cidade localizada a 30km da base militar, divulgaram em site oficial que os níveis de radiação tinham se alterado levemente após a explosão. Tal informe causou agitação entre os moradores, os quais saíram em busca de iodo nas farmácias locais, substância conhecida por minimizar os efeitos da radiação no organismo. A publicação no website da cidade acabou sendo apagada e o governo russo seguiu negando o caráter nuclear do acidente.

Entretanto, o posicionamento das autoridades não acalmou a população e nem os observadores internacionais. Primeiramente, de acordo com especialistas, testes que envolvem mecânica de mísseis não envolve material atômico, então, é instigante que os níveis radioativos da cidade tenham indicado uma alta. Houve também muita movimentação de paramédicos em trajes especiais de proteção contra radiação ao transportar os feridos para um hospital em Moscou. O porto da Baía Dvina, onde localiza-se a base militar, fechou-se ao recebimento de embarcações por um mês e um quebra-gelo nuclear responsável por coletar e armazenar lixo líquido atômico atracou na região do acidente.

Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom

Após essas constatações, no sábado, dia 10 de agosto (2019), a Rosatom informou que além das duas mortes confirmadas, outros cinco funcionários faleceram devido a um acidente causado por testes que envolviam fontes de energia isotópicas. Isto é, houve de fato vazamento de material radioativo, porém, não informaram o que foi detonado, nem que tipo de experimento estava sendo realizado, ou o quanto de radiação foi exposta.

A mídia ocidental especula que a explosão ocorreu durante o experimento de um novo míssil de longo alcance que seria abastecido por um reator nuclear. Ano passado (2018), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que estaria testando um novo míssil chamado de 9M730 Burevestnik, conhecido pela OTAN por SSC-X-9 Skyfall. Tal armamento foi apresentado sob a possibilidade de alcançar qualquer canto do planeta por utilizar energia atômica, e suas características específicas também impedem que o Skyfall seja percebido ou até mesmo abatido pelos mais atuais sistemas antimísseis pelo mundo.

Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986

O acidente ocorrido em Nyonoksa estabelece mais um patamar na tensão entre Rússia e Estados Unidos após o término do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês). Sem esse Acordo, testes e utilização desse tipo de armamento não estão sob os auspícios de nenhuma agência de controle, o que escalona uma corrida armamentista entre os dois Estados.

Além disso, apontam observadores que ocultamento das autoridades russas sobre o que realmente aconteceu na última semana assemelha-se ao acidente em Chernobyl, em 1986. Na época, ainda União Soviética, não foi divulgado o grau do acidente, o que causou um grande aumento de vítimas intoxicadas e afetadas pela radiação. O acontecimento em Nyonoksa, especula-se, foi em uma escala bem menor, mas pode ser um dos piores acidentes nucleares desde Chernobyl.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Nuvem de cogumelo causada pela explosão da bomba nuclear na cidade de Nagasaki, no Japão, em 9 de agosto de 1945” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Nagasakibomb.jpg/800px-Nagasakibomb.jpg

Imagem 2Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/a/ab/Rosatom_logo.png

Imagem 3Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/1/1b/Chernobyl_Disaster.jpg

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Vulnerabilidade e Manejo das Florestas Ucranianas

Atualmente, as florestas da Ucrânia sofrem alterações de ordem antrópica, isto é, pelas influências e impactos gerados pela sociedade ucraniana e global. Como qualquer formação vegetal, elas dependem da disponibilidade de água, porém, de acordo com o cenário de mudança climática disponibilizado pelo Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês)* da ONU, o clima se encontra mais quente e seco.

As florestas temperadas** do Hemisfério Norte vêm sofrendo ameaças e alterações, particularmente desde o século XX, e as mudanças climáticas têm provocado secas sem precedentes, piora da poluição atmosférica, dos solos e contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Destaca-se que as formações vegetais ucranianas são típicas de um ecótono de latitude média***,isto é, uma transição de vegetação xerófita**** para as florestas mais úmidas. Nessas condições, o desmatamento e o uso intensivo da agricultura tornam os ambientes mais secos.

Cerca de 16% do território ucraniano é coberto por florestas e sua distribuição varia muito com a proximidade do Mar Negro e das montanhas nos Cárpatos e Crimeia, complementarmente, as chuvas que se formam pela condensação da umidade devido às barreiras do relevo é que são propiciadas à vegetação florestal. Além disso, a expansão das áreas urbanas e atividades econômicas, como a agricultura e a mineração, levam à formação de florestas secundárias, que são aquelas que ressurgem em áreas desmatadas, após serem abandonadas pela atividade madeireira. Essas florestas ucranianas podem ser divididas em dois grupos:

·               Cinturões verdes ao redor de cidades e centros industriais (37,6%), “matas ciliares”, que são aquelas que margeiam os rios (11,4%), florestas de controle de erosão do solo (que retém o solo frágil com suas raízes) e quebra-ventos (30,4%), cinturões florestais ao longo de estradas e ferrovias (6,9%), florestas de resorts etc., que servem à preservação;

·               Florestas para silvicultura (13%), que servem à atividade de extração vegetal tradicional, ou com maior aporte tecnológico, cuja colheita limitada de madeira é permitida.

Alguns países têm se empenhado no plantio de florestas para fins econômicos ou de regeneração e a Ucrânia é um deles. Ao todo, 50% deste tipo de vegetação é de floresta plantada (onde não existiam) e reflorestadas (como reposição de áreas que foram afetadas). A importância desta vegetação se dá, inclusive, para as terras agrícolas onde espécies animais autóctones mantém o equilíbrio de áreas produtivas, contendo pragas agrícolas como sua fonte de alimentação. Em um país com a maior parcela de terra arada na Europa, 53,8%, das quais mais de 1/3 sofrem com a erosão hídrica (rios, chuva) e eólica (ventos), as florestas diminuem sensivelmente este risco ao servirem como barreira às enxurradas, aos ventos, e absorvendo o excesso de umidade.

Confluência dos rios Lopan e de Kharkov na cidade de Kharkov, 2008

As soluções estão ocorrendo no país, como a transição do setor florestal para o desenvolvimento sustentável, mas o manejo florestal requer uma elaboração especial dentro da silvicultura. No entanto, a maior parte das florestas na Ucrânia, cerca de 70%, são manejadas pelo Comitê de Silvicultura do Estado Ucraniano(USCF, na sigla em inglês) como parte do Ministério de Ecologia e Recursos Naturais, de forma que, novamente, a estabilização política na Ucrânia é essencial para o desenvolvimento sustentável dos sistemas agroflorestais.

No contexto ucraniano, a mudança política e econômica essencial ocorrida após os anos 90 e a operação militar no sudeste do país levaram à estagnação e declínio da governança ambiental. Em parte, devido aos ataques que avassalam a paisagem e ceifam vidas de ucranianos de diferentes origens, de outra, devido à cessão das atividades de preservação e manejo.

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Notas:

* Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas é uma organização criada em 1988 pela ONU, que objetiva divulgar os conhecimentos científicos, sobretudo na área da climatologia, para sugerir e elaborar políticas públicas como forma de mitigação ou até resolução dos problemas gerados pelos impactos ambientais de ordem global.

** Florestas temperadas correspondem à Vegetação Superior, como são classificadas as florestas situadas entre a linha do Trópico de Câncer no Hemisfério Norte e de Capricórnio no Hemisfério Sul. São formações vegetais diversificadas, já que algumas situam-se em áreas bastantes úmidas, outras mais secas, entre a Eurásia e a América do Norte. Mas ambas têm em comum a presença das quatro estações do ano bem definidas.

*** Ecótono de latitude média é quando diferentes formações vegetais entram em contato criando áreas de transição bastante diversificadas, no caso, em Latitudes Médias, isto é, nem Baixas, próximas ao Equador, nem distantes em áreas polares e subpolares.

**** Vegetação xerófita ou xerófila corresponde às formações adaptadas à aridez ou semi-aridez climática. Adaptam-se à escassez de água, com raízes compridas e folhas pequenas para menor perda de água através da transpiração. Também existem as formas xerófitas adaptadas aos ambientes úmidos, porém salinos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Floresta Ucraniana” (Fonte): https://pxhere.com/en/photo/1288653

Imagem 2 Confluência dos rios Lopan e de Kharkov na cidade de Kharkov, 2008” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Kharkiv

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O 12º Fórum de Segurança de Kiev

O Fórum de Segurança de Kiev, realizado anualmente na capital ucraniana desde 2007, é o único encontro do gênero na Europa Central e Oriental. Criado pela organização Fundação Arseniy Yatsenyuk “Open Ukraine*, o encontro mantém discussões sobre a segurança nacional, no Mar Negro, na Europa e no mundo. Anualmente são reunidos políticos e representantes de think tanks europeus, americanos, russos e de países da região do Mar Negro.

Seus objetivos são:

  • Estabelecer um fórum independente de discussão para tecer estratégias de segurança global;
  • Reforçar o diálogo e cooperação no domínio da segurança entre União Europeia e região do Mar Negro;
  • Impactar o processo de elaboração de políticas na Ucrânia.

Neste ano, nos dias 11 e 12 de abril, o 12º Fórum de Segurança de Kiev contou com um número recorde de participantes (mais de 1.000), dentre os quais funcionários do alto escalão do Estado Ucraniano, diplomatas e representantes de especialistas de mais de 20 países.

Intitulado neste ano (2019) como “Onda incansável: escolha estratégica da Ucrânia e do Ocidente”, o evento fez referência ao senador americano John McCain, grande apoiador da Ucrânia, falecido em 25 de agosto de 2018, que lançou livro homônimo.

Arseiy Yatsenyuk, organizador do Fórum é explícito em relação a como enxerga a origem do problema de segurança nacional da Ucrânia: “Qualquer tentativa de encontrar uma plataforma de negociação com Vladimir Putin e a Rússia, sobre o fato de que ele parou a guerra, é uma quimera”.

Na sua opinião, a Ucrânia deve receber armas de países ocidentais e ser incluída no sistema de segurança coletiva. O ex-presidente Petro Poroshenko ainda asseverou que se trata de uma luta pelo Estado ucraniano e se o futuro Presidente do país não traçar linhas claras, Putin entenderá como um convite à agressão.

Condoleezza Rice, ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos, e Arseniy Yatsenyuk, criador do Fórum de Segurança de Kiev, 23 de setembro de 2007

Embora o Fórum tratasse da questão da segurança nacional, os processos políticos internos são considerados como parte integrante de uma mudança estrutural necessária. Valores coletivos, liberais e democráticos fazem parte da identidade nacional, da sobrevivência ucraniana, ponderou Danylo Lubkivsky, assessor do Primeiro-Ministro da Ucrânia (2014-2016). Em suas palavras: “Organizações internacionais determinam os limites do que é possível. Mas cabe a nós como expandimos essas fronteiras. E eu não estou aqui para ensinar os representantes de outros países, mas do ponto de vista de um ucraniano, eu acredito, que a Ucrânia tem uma palavra sobre o assunto. É a definição do nosso papel internacional, é um entendimento inegável de que a agressão contra nós é uma grande oportunidade para a transformação interna”.

Como o próprio Arseniy Yatsenyuk, o organizador do Fórum, declarou, “nosso caminho é democrático, efetivo, profissional e pró-ocidental” (grifos nossos), deixando claro sua posição anti-russa. E a posição de outros membros também tem sido pela expansão da OTAN na Europa. Hennadiy Kovalenko, vice-presidente de Operações Bilaterais de Cooperação e Manutenção da Paz da Ucrânia contestou a ideia de que as posições da organização nos Países Bálticos, na Polônia e na Romênia sejam suficientes para deter a Rússia. Para Kovalenko, “a Rússia só irá parar quando for forçada a parar, não antes”.

Como deixou registrado em entrevista, Brian Whitmore, investigador americano da política russa durante o 12º Fórum de Segurança de Kiev sobre as estratégias do Kremlin para o Ocidente, sua posição é de que, independentemente de quem seja o Presidente da Rússia, “qualquer projeto imperial russo começa com a Ucrânia, mas não termina com a Ucrânia”. Whitmore também considerou que, à revelia dos resultados da política doméstica, a Rússia fará de tudo para manter a Ucrânia em sua esfera de influência, afastando-a de alianças euro-atlânticas e utilizando os clássicos meios de pressão militares ou aliança com oligarcas ucranianos e corrupção.

A crise ucraniana, impulsionada por fatores internos, econômicos e os externos, mais especificamente a anexação da Crimeia e a intervenção e apoio russos no Leste, têm forçado a uma mudança no país.

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Nota:

* Fundação criada por Arseniy Arsen Petrowytsch Yatsenyuk, Presidente do Parlamento ucraniano entre dezembro de 2007 e setembro de 2008, e Primeiro-Ministro da Ucrânia de 27 de fevereiro de 2014 a 10 de abril de 2016. Sua orientação é pró-União Europeia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Jens Stoltenberg, SecretárioGeral da OTAN, e o expresidente ucraniano Petro Poroshenko, 10 de julho de 2017” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Ukraine%E2%80%93NATO_relations

Imagem 2 Condoleezza Rice, exSecretária de Estado dos Estados Unidos, e Arseniy Yatsenyuk, criador do Fórum de Segurança de Kiev, 23 de setembro de 2007” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rice_-_Yatsenyuk_2007_09_23_ukraine_600.jpg

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A influência da Turquia na política do Oriente Médio

A Turquia é um país que possui um importante papel na dinâmica política do Oriente Médio. Não somente pelo tamanho de sua população, mas também pela relação histórica que há com os países da região. Por séculos, foi o centro político e decisório, através da administração do Império Otomano.

Na atualidade, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, tratou de implementar políticas visando trazer força de lei aos costumes vinculados ao Islã. Também vinculou sua figura com uma forte defesa dos interesses nacionais turcos, bem como de suas instituições e da modernização do país.

Desde que assumiu como Primeiro-Ministro, em 2003, fez uma série de ações que visavam desde colocar a Turquia no G20, e expandir seu papel na União Europeia, a financiar a ação de imãs em Mesquitas pelo Oriente Médio, África e Europa. Também construiu Mesquitas em outros países, financiou cursos da língua turca e deu apoio estratégico direto, como a construção de uma base militar na Somália, acompanhada do treinamento de 10 mil soldados no país.

Ao mesmo tempo que se tornava popular fora da Turquia, os constantes atritos com militares e secularistas culminaram em uma tentativa de Golpe de Estado. Esta foi levada à cabo em julho de 2016, por um grupo das Forças Armadas, autointitulado Conselho pela Paz Nacional.

A movimentação foi detida pelo governo, além de ser repudiada pela população com protestos nas ruas. Uma vez derrotado o grupo de militares, a euforia pavimentou o caminho para a condução de um referendo que concentrava funções e aumentou o poder de decisão nas mãos do Chefe do Executivo, que ocorreu em 2017.

Em julho de 2018, à frente do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco), tornou-se o primeiro mandatário na história do país a assumir a posição de Presidente por meio do voto. Antes do referendo o cargo era indicado pelo Parlamento.

Erdogan em comício de campanha para as eleições presidências, em 2018

Este processo diminuiu a influência dos militares sobre o governo. Como muito países do Oriente Médio, a Turquia havia enfrentado um histórico de democracia tutelada pelas Forças Armadas. Por isso, as reformas que permitem ao Presidente possuir mais poder do que outros grupos de interesse estão sendo vistas em outros Estados da região como um modelo.

Para além da proximidade no diálogo, outros países no Oriente Médio enxergam na política perseguida por Erdogan uma forma de tornar funcionais suas instituições internas. Distintos fatores, como a consolidada taxa crescimento econômico de 5,4% por ano entre 2003 e 2015, aliada a difusão cultural de novelas e filmes turcos, transmitiram e consolidaram a imagem de um país moderno.

O governo da Turquia tem tomado posições firmes com relação a declarações dos Estados Unidos e ações de Israel na região, oficialmente condenando a posição da administração Trump quanto à posse das Colinas de Golã e da Faixa de Gaza por Israel. Também promoveu apoio ao Qatar para mitigar os efeitos do bloqueio e participa ativamente das negociações para resolução do conflito da Síria. Também figura como aliado estratégico para russos e chineses na região.

Para além da movimentação diplomática, também abriu as portas do país a 3,2 milhões de imigrantes sírios, revogou vistos para cidadãos de outros países árabes entrarem na Turquia e criou bolsas que permitiram que ao menos 72 mil estudantes na região fossem estudar em universidade turcas.

Erdogan recebe o Presidente da Federação Russa, Vladmir Putin, em Ankara, em abril de 2019

O conjunto destes fatores transformou o mandatário em uma figura querida no Oriente Médio. Não é incomum a alusão de que seria um novo “sultão”, em referência aos antigos regentes do Império Otomano.

Dentre aqueles que buscam inspiração no modelo empreendido na Turquia está o presidente do Egito, Abdel Fatah al-Sisi. O General da reserva nunca escondeu sua admiração por Erdogan e buscou realizar um referendo de natureza semelhante em 2019. Sua imagem também é vista positivamente em países como a Síria e a Palestina, que veem em Erdogan um aliado.

Dentre as críticas à figura do Presidente, existe o problema que representa sua figura autoritária, além das acusações de corrupção e de perseguição à opositores. A Human Rights Watch reportou que quase um quinto da população carcerária na Turquia, 48.924 pessoas, está presa por acusação de terrorismo e crimes políticos. Ações militares contra o Curdistão e associação à Irmandade Muçulmana são outros elementos vistos com preocupação.

A presente recessão que o país enfrenta é também encarada como elemento complicador nas ambições políticas de Erdogan. No entanto, para muitos analistas, a sua figura, bem como a do governo turco permanecerão como modelo influente. Em pesquisa feita pelo Arab Barometer, em distintos Estados da região, 50% dos entrevistados afirmavam desejar que seus países possuíssem mais relações comerciais com a Turquia e 43% afirmou desejar que a influência turca na região aumentasse.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente Recep Tayyip Erdogan em frente a membros do Parlamento Turco” (FontePágina Oficial no Facebook do presidente Erdogan): https://www.facebook.com/RecepTayyipErdogan/photos/a.370422308576/10155974851003577/?type=3&theater

Imagem 2Erdogan em comício de campanha para as eleições presidências, em 2018” (FontePágina Oficial no Facebook do presidente Erdogan): https://www.facebook.com/RecepTayyipErdogan/photos/a.370422308576/10155870525368577/?type=3&theater

Imagem 3Erdogan recebe o Presidente da Federação Russa, Vladmir Putin, em Ankara, em abril de 2019” (FontePágina oficial da Presidência da Turquia no Facebook): https://www.facebook.com/trpresidency/photos/a.804669166317302/2510755922375276/?type=3&theater

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Proposta de recuperação diplomática no encontro entre Rússia e EUA

Um importante passo na área da diplomacia internacional foi dado no último dia 14 de maio (2019), quando EUA e Rússia, duas das principais superpotências da atualidade, tiveram um encontro de seus mais elevados representantes para discutir questões inerentes aos dois países, as quais estão afetando não só suas relações bilaterais, mas, também, poderão deixar um grave desbalanceamento geopolítico mundial se não forem direcionadas a uma resolução pacífica.

Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA, desembarcou na cidade russa de Sochi, localizada na costa do Mar Negro, e se reuniu, primeiramente, durante 90 minutos, com o presidente russo Vladimir Putin, que deu as boas vindas ao representante norte-americano, ao mesmo tempo em que recebeu de Pompeo o briefing da reunião a ser realizada principalmente com o Ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov.

As conversações realizadas foram pautadas em assuntos que são destaques na mídia internacional por sua enorme relevância e, diretamente, envolvem as duas nações, que, na maioria das vezes, estão em lados opostos das posições tomadas, o que deteriora os anseios das relações internacionais e as expectativas da comunidade internacional.

Além da discussão sobre pontos basilares, tais como a promoção de estabilidade geopolítica, a luta contra o terrorismo, o controle de armas, a não proliferação nuclear e a construção do diálogo de segurança estratégica, Pompeo e Lavrov focaram em assuntos que ultrapassam as fronteiras de seus países, mas, que, pela forma como vem sendo tratados, e pelo envolvimento das duas potências, levantam suspeitas e juízos prévios, entre elas. São eles:

Confrontos entre manifestantes e a polícia na Venezuela

A crise na Venezuela

Pompeo e Lavrov trataram da questão da Venezuela e o primeiro pediu para Moscou retirar seu plano de apoio a Caracas, o que foi recusado. O Secretário norte-americano reiterou a urgência da saída de Nicolás maduro do poder, declarando o quanto é extrema a situação do povo venezuelano e esperando que a Rússia entenda isso e tome outros caminhos nesta crise. Em resposta, Lavrov denunciou as “ameaças” dos EUA contra o regime venezuelano. Nas últimas semanas, a Rússia e os Estados Unidos acusaram um ao outro de interferência na Venezuela, devastada pela crise. Moscou é um aliado essencial de Maduro, enquanto Washington apoia o líder da oposição, Juan Guaidó, autoproclamado Presidente Interino venezuelano.

Hassan Rohani – Presidente do Irã

Tensões renovadas com Irã

Desde que o presidente norte-americano Donald Trump anunciou, em 2018, a retirada dos EUA do Acordo Nuclear com o Irã, sua administração tem lentamente reativado um processo de punição a nação persa. Na semana passada, o Irã informou que diminuiria seus compromissos nucleares e, em resposta, os Estados Unidos aplicaram novas sanções aos produtos do país, o que fez o governo do presidente iraniano Hassan Rohani afirmar que os norte-americanos desencadearam a “guerra total”. Como russos e iranianos são aliados no apoio ao regime sírio de Bashar al-Assad, há certos alinhamentos políticos que se contrapõem aos preceitos norte-americanos, o que foi reiterado nesta reunião após declaração de Lavrov, quando chamou de “ilegítimas” as sanções norte-americanas e incentivou as nações europeias a cumprirem o acordo firmado com o Irã, no tocante ao comércio multilateral, o que será improvável, devido ao receio de que as referidas sanções se estendam a quem se relacionar com o Irã.

Principais mísseis norte-coreanos e seu alcance máximo ao redor do mundo

Desnuclerização norte-coreana

Outro ponto importante tratado na reunião foi a proposta de reivindicar ao Governo da Coreia do Norte que inicie processo de desnuclearização da península. Segundo Pompeo, EUA e Rússia “compartilham o mesmo objetivo” em relação à questão nuclear norte-coreana, e esperam poder encontrar os meios “para trabalhar juntos”. O presidente Putin “entende que os Estados Unidos terão um papel líder” neste processo, disse o Secretário de Estado russo. Moscou defende o diálogo com a Coreia do Norte seguindo o roteiro definido por China e Rússia, que pede a suspensão das sanções internacionais. Já Washington acusa Moscou de ajudar Pyongyang a driblar tais sanções.

Segundo analistas, os frutos dessa reunião ainda são incertos, devido ao grande distanciamento político entre EUA e Rússia, e novas conversas poderão ser retomadas, agora pelos Presidentes das duas nações, em encontro a ser acertado para junho de 2019, na reunião do G20, a ser realizada no Japão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Encontro entre Mike Pompeo e Sergey Lavrov” (Fonte): https://www.pbs.org/newshour/world/pompeo-and-lavrov-see-hope-for-improved-u-s-russia-ties

Imagem 2 Confrontos entre manifestantes e a polícia na Venezuela” (Fonte): https://www.hrw.org/view-mode/modal/303179

Imagem 3 Hassan Rohani Presidente do Irã” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Hassan_Rohani#/media/File:Endorsement_of_Hassan_Rouhani%27s_second_term_18.jpg

Imagem 4 Principais mísseis nortecoreanos e seu alcance máximo ao redor do mundo” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Dprk-infographic_nti-version_170213_print.pdf

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Rússia facilita a obtenção de cidadania russa a ucranianos

Rússia e Ucrânia estão novamente em tensão, dessa vez por conta da assinatura de dois Decretos pelo presidente russo Vladimir Putin que facilitam a obtenção da cidadania russa aos nacionais ucranianos.

No dia 24 de abril, Putin firmou o primeiro Documento que garante que cidadãos da região separatista de Donbass* possam adquirir o passaporte russo de maneira mais rápida e facilitada, sem precisar abdicar da atual cidadania ucraniana. Logo em seguida, no dia 1º de maio, o Presidente russo expandiu as condições do primeiro Decreto pela assinatura de um segundo. A partir deste, as pessoas que moravam na Crimeia** antes da eclosão do conflito em 2014 e que se mudaram para outras regiões, como a própria Rússia, onde vivem como refugiados ou residentes temporários, também são elegíveis a conseguir a cidadania russa pelo processo rápido. Estima-se, portanto, que o número de potenciais candidatos para adquirir o passaporte está entre 5 e 10 milhões de pessoas.

Os Decretos assinados pelo presidente Putin abrangem não só aqueles que vivem hoje nessas regiões da Ucrânia. Pelo Documento, pessoas que moravam no leste do país antes da eclosão do conflito em 2014 e que se mudaram para outras regiões, como a própria Rússia, onde vivem como refugiados ou residentes temporários, também são elegíveis a conseguir a cidadania russa por esse processo rápido. Estima-se, portanto, que o número de potencial candidatos para adquirir o passaporte está entre 5 e 10 milhões de pessoas.

Moscou alega que sua decisão foi baseada em questões humanitárias. De acordo com Putin, as pessoas que moram no leste da Ucrânia estão vivendo em isolamento, em que muitas questões cotidianas são dificultadas, como o acesso à universidade ou a possibilidade de viajar ao exterior. Outro ponto utilizado para justificar tal ação é a legalização dos ucranianos que vivem na Rússia em condição de refugiados e até apátridas.

As regiões da Crimeia e Donbass na Ucrânia

Entretanto, a ação russa não foi positivamente aceita por muitos países da comunidade internacional, principalmente pelos Estados Unidos (EUA) e pela própria Ucrânia. De acordo com comunicado liberado pelo Departamento de Estado dos EUA, “a Rússia, através desta ação altamente provocativa, está intensificando seu ataque à soberania e integridade territorial da Ucrânia”, ao mesmo passo que Ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Pavlo Klimkin, utilizou o twitter para afirmar que esse movimento da Rússia é apenas mais uma “continuação da sua agressão e interferência em nossos assuntos internos”. Outra crítica também colocada foi que a Ucrânia está atualmente numa situação fragilizada, visto que a transição de governo logo ocorrerá. O atual Presidente, Petro Poroshenko, está deixando o cargo para que seu sucessor recém-eleito, Volodymyr Zelenski, assuma a posição. Nesse cenário, Poroshenko e Zelesnki têm as mesmas opiniões, ambos pediram aos aliados para que eles condenem essas ações russas, assim como reivindicaram que mais sanções sejam impostas.

Em resposta, Putin disse ter ficado surpreso e estranhado as reações negativas, visto que a situação não é nova na Ucrânia. O Presidente então lembrou que a Polônia, a Hungria e a Romênia também emitem rapidamente passaportes aos seus respectivos grupos étnicos que vivem em território ucraniano, assim, “se outros vizinhos da Ucrânia fazem isso há muitos anos, por que a Rússia não pode fazer o mesmo? (…) Os russos que vivem na Ucrânia não são tão bons quanto romenos, poloneses e húngaros?”.

Em meio a essa polêmica, especialistas apontam que a Rússia pode estar montando uma intervenção militar nos mesmos moldes que ocorreu na Geórgia em 2008. Conforme suas afirmações, na época, justificou-se a entrada militar na região da Ossétia do Sul na Geórgia para proteger a minoria separatista que detinha passaporte russo. De acordo com Wilfried Jilge, do Conselho Alemão de Relações Exteriores, se nacionais ucranianos tiverem cidadania russa, Moscou pode atuar em situações que considerar emergenciais para proteger essas pessoas do governo da Ucrânia.

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Notas:

* Donbass é uma região que se localiza no extremo leste da Ucrânia. Em 2014, após a Revolução Ucraniana e o Movimento Euromaidan, movimentos pró-Rússia e anti-governo ganharam força em Donbass, o que resultou numa guerra entre as forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk contra o governo ucraniano. Em setembro de 2014, foi assinado o Protocolo de Minsk para o fim do conflito, contudo, as hostilidades entre as partes continuaram com as acusações de violação do cessar-fogo.

** A Crimeia era uma entidade política autônoma dentro da Ucrânia, apesar de estar sob sua soberania. Após um referendo, em 2014, a região decidiu pela sua anexação à Rússia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Passaportes da Federação Russa” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e7/Russian_passports.jpg/800px-Russian_passports.jpg

Imagem 2 As regiões da Crimeia e Donbass na Ucrânia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Map_of_the_Donbass.png