ÁSIAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia e China na guerra da (des)informação

Com o ardiloso uso das redes sociais para espalhar fakenews, a desinformação tornou-se uma ferramenta poderosa de controle das massas. A velocidade e a quantidade de dados que trafegam diariamente em nossas páginas iniciais não permitem um escrutínio necessário. Por vezes, o receptor crê em títulos bem elaborados ou textos passionais, sem analisar o conteúdo. Rússia e China se beneficiam desta estratégia.

Recentemente, protestos pró-democracia em Hong Kong chamaram a atenção do mundo. Os participantes foram discricionariamente taxados bandidos” e “radicais por Beijing, como maneira de apaziguar o alarde na China. Imagens de rufiões invadindo as ruas e alegações sem provas de que os movimentos são apoiados pela CIA e grupos estrangeiros estão sendo disseminados pela mídia chinesa, embora desacreditados pelos observadores de fora

Especialistas na área de fakenews e desinformação comparam a abordagem chinesa com a abordagem russa em trabalhar informações jornalísticas, e concluem que são diferentes em estilo e técnica, em parte pelas perspectivas e objetivos divergentes dos países. Enquanto a China “é mais sobre autodefesa, a Rússia é mais sobre ativamente sair a campo, mirando em eventos estrangeiros”, diz o professor Haifeng Huang, do campus Merced da Universidade da Califórnia. Nesse sentido, para ele, na guerra da desinformação a China “se comporta melhor” aos olhos do mundo.

Russia Operação INFEKTION de desinformação

A Rússia conta com uma agência de propaganda chamada Agência de Pesquisa da Internet (Internet Research Agency), sobre a qual há acusações de ser responsável por travar uma guerra de memes* para dividir os Estados Unidos. Isso demonstra um alto nível de conhecimento de causa e, pode-se concluir, se as acusações forem corretas, que os russos se preparam com “meses e meses de antecedência” para criar o paradigma perfeito para espalhar as notícias que querem que o mundo saiba, e, de pronto, a própria influência.

Acredita-se que o Kremlin atingiu um alto nível de sofisticação em trabalhar conteúdo pelas suas origens na longa experiência soviética de espionagem e na vantagem sobre a China, que é possuir mais laços diplomáticos com o Ocidente antes de 1970. Professor Huang ainda diz que as autoridades chinesas “não têm um entendimento sofisticado de discursos comuns, perspectivas e opinião pública fora da China e não sabe como se envolver efetivamente com as sociedades ocidentais”. 

Pelo que tem sido disseminado e apontado por analistas, as informações e (des)informações da Federação Russa são mais críveis que o conteúdo forçado desenvolvido pela China. O Kremlin tem mais habilidade em se infiltrar onde lhe aprouver. Ressalte-se que os escopos são diferentes e não parece que isso mudará tão cedo. Enquanto Beijing olha para dentro, Moscou concentra-se para fora, especialmente agora com a nova Lei da Internet Soberana, que lhe dá a segurança interna de que necessita.

———————————————————————————————–

Nota:

Meme: imagem, conceito ou frase que se espalha rapidamente no meio virtual, com o objetivo de causar impacto, normalmente de maneira humorada.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Repórteres com Fake News 1894” (Fonte – Frederick Burr Opper): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_fin_de_si%C3%A8cle_newspaper_proprietor_(cropped).jpg

Imagem 2 “Russia Operação INFEKTION de desinformação” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/38/Deception%2C_Disinformation%2C_and_Strategic_Communications.pdf

AMÉRICA DO NORTEEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALTecnologia

Devido a sanções norte-americanas, Huawei irá ampliar participação na Rússia

Considerada uma gigante global do ramo das telecomunicações e pioneira na criação da tecnologia 5G*, a empresa chinesa Huawei (traduzido do mandarim: flor), desde 2012 vem sendo acusada pelo Governo norte-americano de ser uma “ferramenta” do Estado chinês para executar espionagem de outros governos pelo mundo.

Logotipo da Huawei

Considerada uma ameaça para a segurança global, a Huawei foi colocada numa lista negra, na qual os elencados são impedidos de fazerem negócios com empresas dos EUA e, consequentemente, não poderão receber fornecimento de softwares e componentes para serem instalados em seus aparelhos celulares e tablets, deixando, assim, de ter acesso a alguns serviços do Android** e aos populares aplicativos Gmail e Google Maps.

Outro fator que potencializou o ataque mercadológico contra a Huawei partiu do FCC (Federal Communication Commission), órgão regulador das telecomunicações nos EUA que quer instaurar, em duas etapas, restrições punitivas às operadoras de telecomunicação locais.

Num primeiro momento, o FCC quer impedir que essas empresas utilizem de fundos do órgão que subsidiam serviços em áreas pobres para comprar equipamentos da Huawei e, numa segunda etapa, o órgão irá impor a uma lista de operadoras a remoção de equipamentos que se encontram na lista negra dos EUA, mesmo que já instalados em suas redes, sendo direcionadas a comprarem equipamentos de fornecedores tidos como confiáveis. Por último, quem não acatar as recomendações poderia ter atuação encerrada no país devido ao risco apresentado à segurança nacional.

Ilustração tecnologia 5G

Posto isso, a empresa chinesa busca alternativas para expandir seus negócios e encontrou na Federação Russa um aliado pronto a receber sua tecnologia 5G, quando, em setembro (2019), abriu em Moscou sua primeira zona de testes com a empresa MTS, maior operadora de telecomunicações móveis do país.

Com a nova parceria, a Huawei irá desembolsar cerca de 500 milhões de rublos (aproximadamente R$ 31,5 milhões***) na construção de centros de pesquisa e no treinamento de 10 mil especialistas russos, num período de 5 anos. A Rússia, por sua vez, analisa a inserção tecnológica chinesa em seu território como um marco desenvolvimentista para a plataforma do 5G, onde aspira implantar redes em todas as suas grandes cidades até 2024.

Logotipo do Sistema Operacional russo Aurora

Em detrimento às restrições norte-americanas, a Rússia também está oferecendo à Huawei, em substituição momentânea ao Android, seu sistema operacional Aurora, que poderá ser um trampolim para que a empresa chinesa desenvolva seu próprio sistema.

Segundo especialistas, a aliança entre Federação Russa e China, no tocante a tecnologia 5G, é a implantação de um desafio geopolítico que poderá criar uma frente econômica contra os Estados Unidos, onde o fato de falarem sobre o sistema operacional é realmente uma ameaça política que irá ao encontro de um processo de autonomia em relação ao monopólio americano dos sistemas operacionais de telefonia móvel no mundo.

As duas potências, trabalhando em conjunto para o desenvolvimento da tecnologia 5G, poderão alcançar, em primeira mão, elevados resultados estratégicos no tocante a formatação do ciberespaço, alavancando novos patamares relativos à geração de cidades inteligentes, à cibersegurança, à Internet das Coisas, ao Big Data e a todos os sistemas de processamento de informação, não só econômicos como também militares.

———————————————————————————————–

Notas:

* É a próxima geração de rede de internet móvel, que promete velocidade de download e upload de dados mais rápida (10 a 20 vezes mais rápida do que a do 4G), cobertura mais ampla e conexões mais estáveis. Trata-se de utilizar melhor o espectro de rádio e permitir que mais dispositivos acessem a internet móvel ao mesmo tempo (Internet das Coisas).

** Android é o sistema operacional móvel do Google. Presente em múltiplos aparelhos de diversas fabricantes, como Samsung, Motorola, LG e Sony, é a plataforma mobile mais popular do mundo. É conhecido por ser baseado no núcleo do Linux, ter um código aberto e uma série de possibilidades de personalização.

*** Cotação de 02/11/2019 (RUB 1 = BRL 0,063).

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Capa protetora de celular Huawei com bandeira da Rússia” (Fonte): https://www.fruugo.us/stuff4-casecover-for-huawei-honor-3xg750russiarussianflags/p-5282093-12283310?ac=bing&language=en

Imagem 2 Logotipo da Huawei” (Fonte): https://www.huawei.com/br/

Imagem 3 Ilustração tecnologia 5G” (Fonte): https://carrier.huawei.com/en/spotlight/5g

Imagem 4 Logotipo do Sistema Operacional russo Aurora” (Fonte): https://web.archive.org/web/20100630075322/http://www.auroraos.org/

ÁFRICAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Bombardeiros nucleares russos em solo africano

Há três décadas, a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) entraria num processo de seletividade geopolítica, culminando com um afastamento de seus antigos aliados africanos no governo de Mikhail Gorbatchev (último líder soviético entre 1985 e 1991). Os principais motivos seriam a má administração local, a corrupção e os deslocamentos pela ruptura repentina de relações econômicas com os antigos poderes coloniais, produzindo, na maioria desses países, fracassos econômicos de ampla escala.

Após a queda da União Soviética e o abrandamento das relações com o continente africano, o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, diante de mudanças no equilíbrio global de forças e da solidificação dos processos democráticos em vários países africanos, vem pautando uma reaproximação diplomática no intuito de expandir as relações político-econômicas com vários de seus antigos aliados.

Reunião de Cúpula Rússia-África em Sochi – Outubro 2019

Em 23 de outubro (2019) foi inaugurada, na cidade russa de Sochi, a primeira reunião de cúpula Rússia-África, que arregimentou 43 governantes africanos, além de 3 mil participantes, onde foram tratados assuntos como a duplicação do comércio, em 5 anos, entre África e a Federação Russa, além do perdão de dívidas de países africanos com a União Soviética, em torno de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 80,16 bilhões*).

Enquanto isso, em Pretória, capital da África do Sul, dois bombardeiros nucleares russos Tu-160 (denominação OTAN: Blackjack), aterrissavam na base da Força Aérea de Waterkloof, em uma “rara” demonstração de cooperação militar entre as duas nações.

Bombardeiro Tupolev Tu-160

Considerado o maior e mais pesado bombardeiro estratégico do mundo e, segundo analistas militares, a maior plataforma avançada de dissuasão nuclear do planeta, a aeronave tem capacidade de se deslocar entre continentes com velocidade supersônica, carregando em suas baias até 40 toneladas de armamentos que podem variar entre mísseis de cruzeiro, bombas de gravidade nuclear e mísseis hipersônicos de longo alcance. Esses bombardeiros já tiveram participação em eventos recentes, tais como a inserção militar na guerra da Síria e a visita à Venezuela, em intercâmbio de voos operativos para elevar o nível de operações dos sistemas de defesa aeroespacial.

Os bombardeiros fazem parte do grupo aéreo da Força Aeroespacial Russa, que está visitando a África do Sul num acordo sobre cooperação militar assinado entre os Ministérios da Defesa de ambos os países no verão de 1995. Segundo o porta-voz do Ministério da Defesa sul-africano, Major Motsamai Mabote, em declaração à TASS (Agência de Notícias Russa), a chegada das aeronaves da Força Aeroespacial Russa é um processo inaugural e importante para toda a África.

Além dos bombardeiros Tu-160, o grupo aéreo da Força Aeroespacial Russa que atualmente permanece na África do Sul também inclui aeronaves de transporte militar Ilyushin Il-62 (denominação OTAN: Classic) e Antonov An-124 Ruslan (denominação OTAN: Condor). Os militares russos e especialistas que chegaram ao país participarão de um Workshop que será organizado pelo Ministério da Defesa da África do Sul. O Workshop discutirá as questões de realização de operações de combate, efetivação de medidas de busca e resgate.

Segundo analistas internacionais, a Rússia entra numa corrida geopolítica contra a China e os EUA para estabelecer laços sólidos com a África em questões comerciais, políticas e militares. O continente, que abriga em torno de 1,5 bilhão de habitantes, possui algumas das economias que mais crescem no mundo.

———————————————————————————————–

Nota:

* Cotação de 27/10/2019 (USD 1 = BRL 4,0079).

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bombardeiro Tupolev Tu160” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/91/Tupolev_Tu-160S%2C_Russia_-_Air_Force_AN2000246.jpg

Imagem 2 Reunião de Cúpula RússiaÁfrica em Sochi Outubro 2019” (Fonte): http://photo.roscongress.org/en/73/photos/list?PhotosContainerId=2812&OnlyVisible=True&OrderDirection=Asc

Imagem 3 Bombardeiro Tupolev Tu160” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/the-buzz/russias-tu-160m2-blackjack-supersonic-bomber-cruise-missile-20154

EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia assume papel de mediador no conflito da Síria

Uma nova fase da guerra deflagrada em território sírio se desenvolveu a partir do último dia 6 de outubro (2019), quando o Presidente norte-americano, Donald Trump, declarou a retirada de tropas militares estadunidenses do noroeste da Síria, abrindo caminho para uma ofensiva militar em larga escala da Turquia e também deixando de lado o apoio estratégico que estava sendo direcionado aos aliados curdos.

A decisão de Trump de minimizar a participação dos EUA nesse conflito, segundo informações, vai ao encontro de suas promessas de campanha pré-eleitoral e também pelo fato de o Governo norte-americano estar desembolsando enormes quantias para manter qualquer tipo de apoio, principalmente às milícias curdas que foram de extrema importância para os EUA na campanha contra o Estado Islâmico.

Atualmente, na complexidade desse conflito, são muitos os atores envolvidos no jogo político no norte da Síria e, para especialistas, com a saída dos norte-americanos dessa região, a próxima nação a assumir o importante papel de principal mediador e direcionador dos desígnios que restabelecerão o equilíbrio sistêmico regional será a Federação Russa, tendo como representante o Presidente Vladimir Putin.

Mapa da situação militar na Síria – Janeiro 2019

O nó a ser desatado pela Rússia está baseado não só nos trabalhos para se evitar a ameaça de um refortalecimento do Estado Islâmico que ainda apresenta focos espalhados pelo território sírio, mas, também, nos conflitos internos entre sírios, curdos e turcos, que se estruturaram nos últimos tempos.

Para se entender qual será a responsabilidade da Rússia neste momento, deve-se apresentar o desenho político da região com seus atores e suas ações, para que se tenha a possibilidade de direcionar acordos entre as partes, no intuito de estabelecer um processo de paz.

Bandeira do YPG

YPG – As Unidades de Proteção Popular (em curdo: Yekîneyên Parastina Gel), é uma organização armada curda da região do Curdistão sírio. O grupo foi fundado como braço armado do Partido de União Democrática sírio, também tem ligações com o Conselho Nacional Curdo e, atualmente, controla militarmente boa parte do nordeste da Síria. Considerado como uma milícia armada, foi aliado dos EUA na luta contra o Estado Islâmico e, com a saída das tropas norte-americanas da região, se viram por conta própria, principalmente na luta contra tropas turcas.

Turquia – declarou que sua segurança nacional está ameaçada devido a ações do YPG próximo à sua fronteira e lançou uma série de ofensivas contra o mesmo, no intuito de criar uma “zona de segurança” no território sírio. O país considera o YPG um aliado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta pela autonomia curda na Turquia.

Combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS)

FDS – as Forças Democráticas Sírias é uma coalizão de várias unidades, sendo a maior parte delas formada pela milícia curda do YPG, além de unidades árabe-muçulmanas e árabe-cristãs que controlam praticamente 40% do território sírio. Também lutaram ao lado da coalizão internacional liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico.

Governo sírio – a liderança em Damasco, sob o governo de Bashar al-Assad, mantém um relacionamento ambivalente com os curdos, que vai da cooperação até o conflito, dependendo de seus interesses momentâneos.  Tropas do Governo, atualmente, dominam vastas áreas do centro, do sul e do oeste da Síria, sendo que o nordeste do país é controlado pelas FDS. O fato de o Exército sírio agora apoiar os curdos contra a ofensiva militar turca pode significar que o presidente Assad está tentando expandir sua influência na região.

Militante com bandeira do Estado Islâmico

Estado Islâmico – O EI pode se beneficiar com a desestabilização na região, mesmo tendo sido enfraquecido nas últimas batalhas com as FDS. Alguns focos de jihadistas ainda persistem em certas regiões centrais do país e, com a saída das tropas norte-americanas que suportavam as milícias que os combatiam, poderão se fortalecer e voltar a impor sua hegemonia na área.

Rússia – com a saída dos EUA, tropas russas começaram, em 15 de outubro (2019), a patrulhar o norte da Síria e a preencher o vácuo político deixado por Washington, fazendo uma linha divisória entre as forças turcas e o Exército sírio, além de estarem em constante conversação entre as partes para se evitar um choque direto entre essas forças militares.

Para analistas internacionais, o movimento que redesenha o equilíbrio no Oriente Médio, reflete a repentina perda de influência dos EUA e abre uma nova oportunidade para os russos se apresentarem como mediadores confiáveis, garantindo novos negócios e avançando seus interesses estratégicos.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Kremlin de Moscou” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Rússia#/media/Ficheiro:Kremlin_Moscow.jpg

Imagem 2 Mapa da situação militar na Síria  Janeiro 2019” (Fonte): https://southfront.org/wp-content/uploads/2019/01/24jan_syria_war_map-1024×952.jpg

Imagem 3 Bandeira do YPG” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:People%27s_Protection_Units_Flag.svg

Imagem 4 Combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS)” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Forças_Democráticas_Sírias#/media/Ficheiro:Syrian_Democratic_Forces_announce_Deir_ez-Zor_offensive.jpg

Imagem 5 Militante com bandeira do Estado Islâmico” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:%C4%B0D_bayra%C4%9F%C4%B1_ile_bir_militan.jpg

EURÁSIAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Macron e Putin realizam encontro bilateral às vésperas do G7

No dia 19 de agosto (2019), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desembarcou em Fort de Brégançon, na Riviera Francesa, onde encontrou-se com o Presidente da França, Emmanuel Macron, em sua residência de verão. A reunião entre os dois líderes ocorreu às vésperas da Cúpula anual do G7, a qual, este ano (2019), ocorrerá também no sul da França. Em 2014, após a reincorporação da Crimeia, a Rússia foi suspensa do grupo, que antes era chamado de G8. Observadores internacionais destacaram que o gesto francês de recepcionar os russos nesta semana é bastante significativo para as relações exteriores do país europeu, colocando-o numa posição de liderança no apaziguamento das relações entre o Ocidente e a Rússia.

A Conversa entre Macron e Putin era bastante antecipada pela mídia por conta de a pauta de discussão envolver não apenas questões bilaterais, como também assuntos de interesse internacional, que outrora seriam discutidos num ambiente de negociação multilateral. Assim, a situação na Ucrânia, na Síria e questões internas da Rússia foram abordadas no diálogo entre os líderes.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a Primeira-Dama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França

Em relação à Ucrânia, Moscou e Paris concordaram em retomar as negociações sobre a crise no país que envolve movimentos separatistas e a reincorporação da Crimeia à Rússia. Para tanto, ambos os lados consentiram que o Formato de Normandia seja revisitado, o qual envolve Alemanha, França, Rússia e Ucrânia nas discussões de um possível Acordo.

Sobre a Síria, Macron declarou: “[nós] estamos profundamente preocupados com a situação em Idlib*, onde a população civil vive sob bombardeios. Há vítimas entre a população civil e a França está muito preocupada com isso”. O Presidente Putin contrapôs-se ao líder francês ao destacar que apoia a luta do Exército do governo sírio para impedir o avanço de organizações terroristas na região, as quais se fortalecem em Idlib e partem para o resto do mundo.

Localização da região de Idlib, na Síria

À parte das situações internacionais, o Presidente francês colocou em pauta a recente onda de protestos que está ocorrendo em Moscou. De acordo com a mídia ocidental, os manifestantes estão pedindo pela liberdade dos candidatos da oposição de concorrerem à eleição do legislativo da cidade. Macron, então, destacou “[nós] pedimos neste verão por liberdade de protesto, liberdade de expressão, liberdade de opinião e liberdade de concorrer em eleições que deveriam ser plenamente respeitadas na Rússia, como em qualquer membro do Conselho da Europa”.

Putin, por sua vez, rebateu o comentário do líder europeu com a onda de protestos dos coletes amarelos na França nos últimos meses. O Presidente russo afirmou que “todos nós sabemos sobre os eventos ligados aos chamados coletes amarelos, durante os quais, de acordo com nossos cálculos, 11 pessoas foram mortas e 2.500 ficaram feridas. Não iríamos querer que tais eventos ocorressem na capital russa e faremos tudo que pudermos para que nossa situação política doméstica transcorra estritamente dentro do marco da lei”. Em resposta a esse comentário, Macron argumentou ser imprecisa essa comparação, visto que os manifestantes franceses podem concorrer livremente nas eleições europeias.

Há ainda questões a serem convergidas entre os dois países. Em muitos aspectos, Rússia e França se distanciam em sua política externa e até interna. Entretanto, como tem sido apontado por especialistas, é importante que o diálogo entre os dois permaneça. Da mesma forma, aponta-se ser relevante, também, que a França esteja tomando partido em se aproximar mais do Governo russo em um período marcado por conturbações entre o Ocidente e a Rússia. Observa-se que a disposição para a realização de encontros bilaterais já destaca um avanço na relação diplomática não só entre os dois países, como entre a Europa e a Federação Russa.

———————————————————————————————–

Notas:

* A Província de Idlib, na Síria, é uma região situada no noroeste do país e um dos últimos redutos dos rebeldes que lutam pela saída do Presidente sírio, Bashar al-Assad, do poder.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Presidente da França, Emmanuel Macron, em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/szFKqDzdzLZ1PiKLhYFXsinUUbauAdBK.jpg

Imagem 2O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a PrimeiraDama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/Y8a95PqQVled8lOiF9ZWStjR9A3YAcmK.jpg

Imagem 3 “Localização da região de Idlibna Síria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Idlib_(distrito)#/media/File:SyriaIdlib.PNG

EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Observadores apontam que explosão em base militar na Rússia apresenta caráter nuclear

No dia 8 de agosto (2019), ocorreu uma explosão em uma base militar na Rússia em Nyonoksa, localizada ao norte do país, no Mar Branco. A companhia nuclear estatal russa, Rosatom, logo emitiu um comunicado afirmando que ocorreu um acidente durante testes com um motor de foguete de propelente líquido, o qual ocasionou um incêndio a bordo de um navio atracado no porto. Ainda segundo a declaração, duas pessoas teriam morrido por conta da casualidade e outras 6 teriam sido feridas.

Entretanto, a informação começou a ser contestada quando autoridades de Severodvinsk, cidade localizada a 30km da base militar, divulgaram em site oficial que os níveis de radiação tinham se alterado levemente após a explosão. Tal informe causou agitação entre os moradores, os quais saíram em busca de iodo nas farmácias locais, substância conhecida por minimizar os efeitos da radiação no organismo. A publicação no website da cidade acabou sendo apagada e o governo russo seguiu negando o caráter nuclear do acidente.

Entretanto, o posicionamento das autoridades não acalmou a população e nem os observadores internacionais. Primeiramente, de acordo com especialistas, testes que envolvem mecânica de mísseis não envolve material atômico, então, é instigante que os níveis radioativos da cidade tenham indicado uma alta. Houve também muita movimentação de paramédicos em trajes especiais de proteção contra radiação ao transportar os feridos para um hospital em Moscou. O porto da Baía Dvina, onde localiza-se a base militar, fechou-se ao recebimento de embarcações por um mês e um quebra-gelo nuclear responsável por coletar e armazenar lixo líquido atômico atracou na região do acidente.

Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom

Após essas constatações, no sábado, dia 10 de agosto (2019), a Rosatom informou que além das duas mortes confirmadas, outros cinco funcionários faleceram devido a um acidente causado por testes que envolviam fontes de energia isotópicas. Isto é, houve de fato vazamento de material radioativo, porém, não informaram o que foi detonado, nem que tipo de experimento estava sendo realizado, ou o quanto de radiação foi exposta.

A mídia ocidental especula que a explosão ocorreu durante o experimento de um novo míssil de longo alcance que seria abastecido por um reator nuclear. Ano passado (2018), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que estaria testando um novo míssil chamado de 9M730 Burevestnik, conhecido pela OTAN por SSC-X-9 Skyfall. Tal armamento foi apresentado sob a possibilidade de alcançar qualquer canto do planeta por utilizar energia atômica, e suas características específicas também impedem que o Skyfall seja percebido ou até mesmo abatido pelos mais atuais sistemas antimísseis pelo mundo.

Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986

O acidente ocorrido em Nyonoksa estabelece mais um patamar na tensão entre Rússia e Estados Unidos após o término do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês). Sem esse Acordo, testes e utilização desse tipo de armamento não estão sob os auspícios de nenhuma agência de controle, o que escalona uma corrida armamentista entre os dois Estados.

Além disso, apontam observadores que ocultamento das autoridades russas sobre o que realmente aconteceu na última semana assemelha-se ao acidente em Chernobyl, em 1986. Na época, ainda União Soviética, não foi divulgado o grau do acidente, o que causou um grande aumento de vítimas intoxicadas e afetadas pela radiação. O acontecimento em Nyonoksa, especula-se, foi em uma escala bem menor, mas pode ser um dos piores acidentes nucleares desde Chernobyl.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Nuvem de cogumelo causada pela explosão da bomba nuclear na cidade de Nagasaki, no Japão, em 9 de agosto de 1945” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Nagasakibomb.jpg/800px-Nagasakibomb.jpg

Imagem 2Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/a/ab/Rosatom_logo.png

Imagem 3Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/1/1b/Chernobyl_Disaster.jpg