EURÁSIAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Possíveis sanções norte-americanas ao Egito por compra de caças russos

Entre os dias 17 e 21 de novembro ocorreu o evento em Dubai para demonstração de tecnologias aeroespaciais, com presença de especialistas na área. Durante o encontro, René Clarke Cooper, Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Político-Militares dos Estados Unidos, comentou sobre o risco de possíveis sanções ao Egito e o impedimento de futuras aquisições de produtos militares pelo país. No início do ano (2019), o Egito realizou um acordo de 2 bilhões de dólares (aproximadamente, 8,39 bilhões de reais, conforme cotação e 22 de novembro de 2019) com a Rússia para a compra de mais de 20 aeronaves Sukhoi Su-35, com previsão de entrega para 2020-2021. O Secretário também afirmou que a compra de aeronaves e sistemas de armas russas afeta a capacidade de operar conjuntamente com as Forças Armadas dos EUA e países da OTAN.

O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, e o Secretário de Defesa, Mark Esper, alertaram o Ministro da Defesa egípcio, Mohamed Ahmed Zaki Mohamed, sobre a possível resposta dos Estados Unidos. A ação norte-americana estaria amparada na Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act (CAATSA) (Lei de Combate aos Adversários da América por Sanções). Aprovada no dia 27 de julho de 2017, impôs sanções ao Irã, Coréia do Norte e Rússia. Dessa forma, os países que realizam transações com esses Estados podem receber sanções secundárias. No caso russo, relaciona-se aos setores de Defesa e Inteligência e teve sua justificativa pela sua contínua participação nos conflitos com a Ucrânia e Síria, e acusações de interferência na eleição de 2016.

O Egito é tradicionalmente um aliado dos EUA, sendo beneficiado pelo auxílio militar e econômico norte-americano de cerca de 1,3 bilhão de dólares anualmente e consumidor de seus produtos, como blindados Abrams, helicópteros Apache e aeronaves F-16. Pela falta de resposta dos EUA sobre a compra de por volta de 24 aeronaves F-35, o acordo do Egito com a Rússia seria uma maneira de diversificar sua rede de fornecedores de bens militares. Durante o governo de Abdel Fattah al-Sissi, Presidente do Egito, a partir de 2014 foram realizados acordos com França e Alemanha para compra de ativos como fragatas, aeronaves, submarinos e helicópteros, além de nutrir relações econômicas e políticas com China, Rússia, Europa Ocidental e África Subsaariana, numa tentativa de obter uma política externa mais balanceada.

Sukhoi Su-35

Nos últimos anos também ocorreu interrupção da assistência militar ao Egito pelas preocupações dos EUA sobre violações de direitos humanos no país. Assim, há uma maior aproximação entre Egito e Rússia. Em 2017 foi autorizada a utilização de bases aéreas por aeronaves militares russas e, no decorrer dos dias 1 a 8 de novembro, ocorreu exercício militar entre os países. O Ministro da Defesa da Federação Russa, Sergei Shoigu, em visita a Cairo, no dia 12 de novembro, para a sexta sessão da Comissão de Cooperação em Defesa, concentrou-se em debates sobre segurança regional e maior cooperação em Defesa. Também comentou sobre a disposição para auxiliar no fortalecimento das Forças Armadas egípcias, assim como em sua capacidade defensiva.

Mas, apesar dessa aproximação, segundo Eugene Rumer, especialista da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, a Rússia não tem os recursos que o Egito necessita e o segundo não tem o orçamento para arcar as propostas russas. Assim, a dependência egípcia com os EUA previne que o mesmo ofereça o acesso estratégico e influência geopolítica à Rússia na região. De acordo com Michael Hanna, pesquisador da Fundação Century, em Nova Iorque, é provável que haja sanções, pois, a compra de Su-35 pode ser um grande problema na relação entre Egito e EUA. No entanto, não é claro o que acontecerá e se a lei CAATSA será utilizada como no caso da Turquia*.

———————————————————————————————–

Nota:

* A Turquia realizou a compra do sistema de mísseis de defesa anti-aérea S-400 da Rússia no início do ano (2019), levando a uma resposta dos EUA. O presidente norte-americano Donald Trump parou de impor sanções à Turquia, mas declarou ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan que, para manter a relação entre os países, seria necessário que o sistema fosse destruído, compartimentado ou devolvido a Rússia.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente dos EUA, Donald Trump, e Presidente do Egito, Abd ElFattah ElSisi” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Egypt–United_States_relations#/media/File:Donald_Trump_greets_the_President_of_Egypt,_Abdel_Fattah_Al_Sisi,_May_2017.jpg

Imagem 2Sukhoi Su35” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Sukhoi_Su-35#/media/Ficheiro:MAKS_Airshow_2015_(20615630784).jpg

ÁSIAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia e China na guerra da (des)informação

Com o ardiloso uso das redes sociais para espalhar fakenews, a desinformação tornou-se uma ferramenta poderosa de controle das massas. A velocidade e a quantidade de dados que trafegam diariamente em nossas páginas iniciais não permitem um escrutínio necessário. Por vezes, o receptor crê em títulos bem elaborados ou textos passionais, sem analisar o conteúdo. Rússia e China se beneficiam desta estratégia.

Recentemente, protestos pró-democracia em Hong Kong chamaram a atenção do mundo. Os participantes foram discricionariamente taxados bandidos” e “radicais por Beijing, como maneira de apaziguar o alarde na China. Imagens de rufiões invadindo as ruas e alegações sem provas de que os movimentos são apoiados pela CIA e grupos estrangeiros estão sendo disseminados pela mídia chinesa, embora desacreditados pelos observadores de fora

Especialistas na área de fakenews e desinformação comparam a abordagem chinesa com a abordagem russa em trabalhar informações jornalísticas, e concluem que são diferentes em estilo e técnica, em parte pelas perspectivas e objetivos divergentes dos países. Enquanto a China “é mais sobre autodefesa, a Rússia é mais sobre ativamente sair a campo, mirando em eventos estrangeiros”, diz o professor Haifeng Huang, do campus Merced da Universidade da Califórnia. Nesse sentido, para ele, na guerra da desinformação a China “se comporta melhor” aos olhos do mundo.

Russia Operação INFEKTION de desinformação

A Rússia conta com uma agência de propaganda chamada Agência de Pesquisa da Internet (Internet Research Agency), sobre a qual há acusações de ser responsável por travar uma guerra de memes* para dividir os Estados Unidos. Isso demonstra um alto nível de conhecimento de causa e, pode-se concluir, se as acusações forem corretas, que os russos se preparam com “meses e meses de antecedência” para criar o paradigma perfeito para espalhar as notícias que querem que o mundo saiba, e, de pronto, a própria influência.

Acredita-se que o Kremlin atingiu um alto nível de sofisticação em trabalhar conteúdo pelas suas origens na longa experiência soviética de espionagem e na vantagem sobre a China, que é possuir mais laços diplomáticos com o Ocidente antes de 1970. Professor Huang ainda diz que as autoridades chinesas “não têm um entendimento sofisticado de discursos comuns, perspectivas e opinião pública fora da China e não sabe como se envolver efetivamente com as sociedades ocidentais”. 

Pelo que tem sido disseminado e apontado por analistas, as informações e (des)informações da Federação Russa são mais críveis que o conteúdo forçado desenvolvido pela China. O Kremlin tem mais habilidade em se infiltrar onde lhe aprouver. Ressalte-se que os escopos são diferentes e não parece que isso mudará tão cedo. Enquanto Beijing olha para dentro, Moscou concentra-se para fora, especialmente agora com a nova Lei da Internet Soberana, que lhe dá a segurança interna de que necessita.

———————————————————————————————–

Nota:

Meme: imagem, conceito ou frase que se espalha rapidamente no meio virtual, com o objetivo de causar impacto, normalmente de maneira humorada.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Repórteres com Fake News 1894” (Fonte – Frederick Burr Opper): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_fin_de_si%C3%A8cle_newspaper_proprietor_(cropped).jpg

Imagem 2 “Russia Operação INFEKTION de desinformação” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/38/Deception%2C_Disinformation%2C_and_Strategic_Communications.pdf

EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O treinamento dos Boinas Negras russos

A função básica das instituições militares de qualquer Estado é proteger a integridade territorial e proporcionar a garantia da soberania dos países. O treinamento das Forças Armadas envolve atividades de defesa e de ataque com o objetivo de proteção e resguardo dos interesses do Estado. Na atualidade, a maioria dos países não participa de guerra declarada contra terceiros, todavia, apesar de esta ser uma opção, o mundo de hoje apresenta ameaças diferentes e insere na realidade desafios em relação ao uso militar em situações específicas.

O combate a incidências criminosas e contrárias ao Direito Internacional, tais como aquelas relacionadas ao terrorismo, por exemplo, constitui-se na preparação de equipes capazes de corresponderem à altura. Diante de ações diversas e de caráter transnacional, a Federação Russa resolveu fazer modificações no treinamento de seu Corpo de Fuzileiros Navais. A Ideia é adaptar os militares para enfrentarem ambientes para além do uso do rifle de assalto Kalashnikov.

O treinamento dos fuzileiros navais russos ou “boinas negras” consiste na proteção da costa do Estado eslavo e na condução de operações locais de desembarque, todavia, a partir de agora eles também estão sob à preparação para atuarem como forças expedicionárias em qualquer lugar do mundo. A ênfase recai não mais em hostilidades contra um Exército regular, mas no exercício de papéis de abrangência político-militar. Ou seja, o uso dos “boinas negras” também está atrelado nas missões de paz, na evacuação de cidadãos russos, e em ações de interesse da Federação Russa em conflitos locais.

Militar Russo – trabalho retirado do site do Ministério da Defesa da Federação Russa, conforme especificação obrigatória de licenciamento para uso

O jornal Izvestia trouxe a afirmação do professor associado Alexander Perendzhiev, da Universidade Econômica Russa de Plekhanov, o qual declarou sobre o assunto que “a tarefa do fuzileiro naval é desembarcar do navio. E essa costa pode ser estranha”.O objetivo é ilustrar que o “boina negra” deve aprender a se comportar e interagir com a população local. Em outras palavras, o fuzileiro naval russo precisa ser um pequeno diplomata e falar a linguagem local para alcançar seu objetivo e não apenas a linguagem do rifle.

Os analistas entendem a mudança no treinamento militar dos “boinas negras” como um fator positivo para o uso em missões internacionais. É preciso sensibilidade e compreensão da cultura político-cultural-religiosa local para obter a melhor solução possível sem o uso da força. Todavia, salientam que o uso do poder suave (soft power)* representa uma forma de conquista de uma determinada comunidade por meio da simpatia e identificação de valores. Essa abordagem possui múltiplos meios de uso e pode ser vista como benéfica, diante do combate a uma ameaça em comum, ou mesmo maléfica perante um olhar mais nacionalista

———————————————————————————————–

Nota:

* Poder suave: o poder suave, poder brando, ou no original em inglês, soft power, é uma expressão da disciplina de Relações Internacionais criada pelo teórico Joseph Nye na década de 1980. O termo descreve a habilidade de um Estado para influenciar indiretamente o comportamento de outros atores políticos mediante meios culturais ou ideológicos.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Corpo de Fuzileiros Navais Russos da Frota do Pacífico trabalho retirado do site do Ministério da Defesa da Federação Russa” (Fonte): http://mil.ru/et/news/[email protected]

Imagem 2 Militar Russo trabalho retirado do site do Ministério da Defesa da Federação Russa, conforme especificação obrigatória de licenciamento para uso” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/29/%D0%9F%D0%BE%D1%81%D1%82%D0%BE%D1%8F%D0%BD%D0%BD%D0%B0%D1%8F_%D0%B3%D1%80%D1%83%D0%BF%D0%BF%D0%B8%D1%80%D0%BE%D0%B2%D0%BA%D0%B0_%D0%92%D0%9C%D0%A4_%D0%A0%D0%BE%D1%81%D1%81%D0%B8%D0%B8_%D0%B2_%D0%A1%D1%80%D0%B5%D0%B4%D0%B8%D0%B7%D0%B5%D0%BC%D0%BD%D0%BE%D0%BC_%D0%BC%D0%BE%D1%80%D0%B5_%D0%BE%D0%B1%D0%B5%D1%81%D0%BF%D0%B5%D1%87%D0%B8%D0%B2%D0%B0%D0%B5%D1%82_%D0%BF%D1%80%D0%BE%D1%82%D0%B8%D0%B2%D0%BE%D0%B2%D0%BE%D0%B7%D0%B4%D1%83%D1%88%D0%BD%D1%83%D1%8E_%D0%BE%D0%B1%D0%BE%D1%80%D0%BE%D0%BD%D1%83_%D0%BD%D0%B0%D0%B4_%D1%82%D0%B5%D1%80%D1%80%D0%B8%D1%82%D0%BE%D1%80%D0%B8%D0%B8_%D0%A1%D0%B8%D1%80%D0%B8%D0%B8_%2812%29.jpg

ÁFRICAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Bombardeiros nucleares russos em solo africano

Há três décadas, a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) entraria num processo de seletividade geopolítica, culminando com um afastamento de seus antigos aliados africanos no governo de Mikhail Gorbatchev (último líder soviético entre 1985 e 1991). Os principais motivos seriam a má administração local, a corrupção e os deslocamentos pela ruptura repentina de relações econômicas com os antigos poderes coloniais, produzindo, na maioria desses países, fracassos econômicos de ampla escala.

Após a queda da União Soviética e o abrandamento das relações com o continente africano, o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, diante de mudanças no equilíbrio global de forças e da solidificação dos processos democráticos em vários países africanos, vem pautando uma reaproximação diplomática no intuito de expandir as relações político-econômicas com vários de seus antigos aliados.

Reunião de Cúpula Rússia-África em Sochi – Outubro 2019

Em 23 de outubro (2019) foi inaugurada, na cidade russa de Sochi, a primeira reunião de cúpula Rússia-África, que arregimentou 43 governantes africanos, além de 3 mil participantes, onde foram tratados assuntos como a duplicação do comércio, em 5 anos, entre África e a Federação Russa, além do perdão de dívidas de países africanos com a União Soviética, em torno de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 80,16 bilhões*).

Enquanto isso, em Pretória, capital da África do Sul, dois bombardeiros nucleares russos Tu-160 (denominação OTAN: Blackjack), aterrissavam na base da Força Aérea de Waterkloof, em uma “rara” demonstração de cooperação militar entre as duas nações.

Bombardeiro Tupolev Tu-160

Considerado o maior e mais pesado bombardeiro estratégico do mundo e, segundo analistas militares, a maior plataforma avançada de dissuasão nuclear do planeta, a aeronave tem capacidade de se deslocar entre continentes com velocidade supersônica, carregando em suas baias até 40 toneladas de armamentos que podem variar entre mísseis de cruzeiro, bombas de gravidade nuclear e mísseis hipersônicos de longo alcance. Esses bombardeiros já tiveram participação em eventos recentes, tais como a inserção militar na guerra da Síria e a visita à Venezuela, em intercâmbio de voos operativos para elevar o nível de operações dos sistemas de defesa aeroespacial.

Os bombardeiros fazem parte do grupo aéreo da Força Aeroespacial Russa, que está visitando a África do Sul num acordo sobre cooperação militar assinado entre os Ministérios da Defesa de ambos os países no verão de 1995. Segundo o porta-voz do Ministério da Defesa sul-africano, Major Motsamai Mabote, em declaração à TASS (Agência de Notícias Russa), a chegada das aeronaves da Força Aeroespacial Russa é um processo inaugural e importante para toda a África.

Além dos bombardeiros Tu-160, o grupo aéreo da Força Aeroespacial Russa que atualmente permanece na África do Sul também inclui aeronaves de transporte militar Ilyushin Il-62 (denominação OTAN: Classic) e Antonov An-124 Ruslan (denominação OTAN: Condor). Os militares russos e especialistas que chegaram ao país participarão de um Workshop que será organizado pelo Ministério da Defesa da África do Sul. O Workshop discutirá as questões de realização de operações de combate, efetivação de medidas de busca e resgate.

Segundo analistas internacionais, a Rússia entra numa corrida geopolítica contra a China e os EUA para estabelecer laços sólidos com a África em questões comerciais, políticas e militares. O continente, que abriga em torno de 1,5 bilhão de habitantes, possui algumas das economias que mais crescem no mundo.

———————————————————————————————–

Nota:

* Cotação de 27/10/2019 (USD 1 = BRL 4,0079).

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bombardeiro Tupolev Tu160” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/91/Tupolev_Tu-160S%2C_Russia_-_Air_Force_AN2000246.jpg

Imagem 2 Reunião de Cúpula RússiaÁfrica em Sochi Outubro 2019” (Fonte): http://photo.roscongress.org/en/73/photos/list?PhotosContainerId=2812&OnlyVisible=True&OrderDirection=Asc

Imagem 3 Bombardeiro Tupolev Tu160” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/the-buzz/russias-tu-160m2-blackjack-supersonic-bomber-cruise-missile-20154

ÁSIAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia compete com China por influência no Sudeste Asiático

Entre os dias 2 e 5 de outubro de 2019, o Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, esteve na Rússia, como convidado de honra para participar do Clube de Discussão Valdai, fórum global no qual o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, expressa suas ideias relativas à política externa. Duterte também foi levado em um tour pelo Kremlin e recebeu um título honorário. Os Mandatários filipino e russo concordaram em fortalecer os laços de defesa e comércio, e Duterte pediu para as empresas russas investirem em ferrovias e infraestrutura de transporte nas Filipinas como parte do seu programa “Construir, Construir, Construir”, que visa incentivar o crescimento do país, informa o jornal South China Morning Post.

A viagem de Duterte foi apenas uma das várias visitas de Chefes de Estado de países do Sudeste Asiático à Rússia, que ocorrem em meio aos esforços de Moscou em fortalecer os laços com a região. Desde o ano 2000, a Rússia tem procurado se engajar com a região de forma bilateral e por meio de diversos fóruns, como a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e a Organização para Cooperação de Xangai (SCO).

Contudo, a visita de Putin à Cingapura em novembro de 2018 indicou que Moscou passou a se focar na região. Na ocasião, Putin participou pela primeira vez da Cúpula do Leste da Ásia (EAS), encontro anual que reúne os líderes dos países da ASEAN e de oito Estados parceiros. Após o evento, a ASEAN assinou um memorando para aumentar o comércio com o corpo executivo da União Econômica Eurasiática, que é capitaneada pela Rússia.

Mapa dos países do Sudeste Asiático

Em maio de 2019, o Primeiro-Ministro vietnamita, Nguyen Xuan Phuc, visitou Moscou para celebrar os 70 anos de laços diplomáticos entre a Rússia e o Vietnã, e, em setembro de 2019, o Primeiro-Ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, viajou à Vladivostok para participar do Fórum Econômico do Oriente, uma plataforma anual que o Governo russo utiliza para atrair investimentos para as suas províncias na Ásia e no Ártico. Em outubro de 2019, o governo de Cingapura assinou um Tratado de Livre-Comércio com a União Econômica Eurasiática.

Analistas dizem que os esforços da Rússia para construir vínculos em toda a região fazem parte de sua política de diversificação, pois aumenta o comércio e fortalece sua economia, que é a 12ª maior do mundo, alcançando a marca de 1,6 trilhão de dólares (pouco mais de 6,57 trilhões de reais, de acordo com a cotação de 11 de outubro de 2019), de acordo com o Fundo Monetário Internacional. A pesquisadora Sharana Rajiv, da Carnegie India, de Nova Délhi, destaca: “O foco da Rússia no Leste marca uma mudança do foco no lado europeu das fronteiras da Rússia. Moscou reconhece que não pode ter um interior pouco desenvolvido na fronteira com a Ásia”. A estratégia de engajamento russo na região inspirou-se no modelo chinês, que opta por uma posição de não-interferência nos assuntos domésticos das nações parceiras e que visa a promoção de comércio, investimento e venda de armamentos e recursos energéticos sem a imposição de uma ideologia.

Contudo, a China ainda possui uma influência maior no Sudeste Asiático, exatamente pelo fato de a região se encontrar no seu entorno estratégico. Moscou ainda não é capaz de substituir e nem de concorrer com Pequim no que concerne ao fornecimento de uma ampla variedade de bens, serviços e tecnologia às nações da região. Além disso, a China exerce grande pressão no campo da segurança regional, devido aos seus esforços no processo de militarização do Mar do Sul da China, o que acaba causando litígios territoriais com os estados da ASEAN. Segundo o pesquisador da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Dmitry Gorenburg, “existe um grande ceticismo entre os países do Sudeste Asiático acerca da capacidade da Rússia defender seus interesses frente à China, o que faz com que eles evitem uma aproximação demasiadamente forte de Moscou em assuntos de defesa”.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, encontra-se com o Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=DUTERTE+PUTIN&title=Special:Search&go=Go&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1&searchToken=9w737czph8rm9qrfdi8b0suk8#%2Fmedia%2FFile%3ARodrigo_Duterte_with_Vladimir_Putin%2C_2016-01.jpg

Imagem 2 Mapa dos países do Sudeste Asiático”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=ASEAN&title=Special%3ASearch&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:ASEAN-PT.JPG

EURÁSIAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Macron e Putin realizam encontro bilateral às vésperas do G7

No dia 19 de agosto (2019), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desembarcou em Fort de Brégançon, na Riviera Francesa, onde encontrou-se com o Presidente da França, Emmanuel Macron, em sua residência de verão. A reunião entre os dois líderes ocorreu às vésperas da Cúpula anual do G7, a qual, este ano (2019), ocorrerá também no sul da França. Em 2014, após a reincorporação da Crimeia, a Rússia foi suspensa do grupo, que antes era chamado de G8. Observadores internacionais destacaram que o gesto francês de recepcionar os russos nesta semana é bastante significativo para as relações exteriores do país europeu, colocando-o numa posição de liderança no apaziguamento das relações entre o Ocidente e a Rússia.

A Conversa entre Macron e Putin era bastante antecipada pela mídia por conta de a pauta de discussão envolver não apenas questões bilaterais, como também assuntos de interesse internacional, que outrora seriam discutidos num ambiente de negociação multilateral. Assim, a situação na Ucrânia, na Síria e questões internas da Rússia foram abordadas no diálogo entre os líderes.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a Primeira-Dama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França

Em relação à Ucrânia, Moscou e Paris concordaram em retomar as negociações sobre a crise no país que envolve movimentos separatistas e a reincorporação da Crimeia à Rússia. Para tanto, ambos os lados consentiram que o Formato de Normandia seja revisitado, o qual envolve Alemanha, França, Rússia e Ucrânia nas discussões de um possível Acordo.

Sobre a Síria, Macron declarou: “[nós] estamos profundamente preocupados com a situação em Idlib*, onde a população civil vive sob bombardeios. Há vítimas entre a população civil e a França está muito preocupada com isso”. O Presidente Putin contrapôs-se ao líder francês ao destacar que apoia a luta do Exército do governo sírio para impedir o avanço de organizações terroristas na região, as quais se fortalecem em Idlib e partem para o resto do mundo.

Localização da região de Idlib, na Síria

À parte das situações internacionais, o Presidente francês colocou em pauta a recente onda de protestos que está ocorrendo em Moscou. De acordo com a mídia ocidental, os manifestantes estão pedindo pela liberdade dos candidatos da oposição de concorrerem à eleição do legislativo da cidade. Macron, então, destacou “[nós] pedimos neste verão por liberdade de protesto, liberdade de expressão, liberdade de opinião e liberdade de concorrer em eleições que deveriam ser plenamente respeitadas na Rússia, como em qualquer membro do Conselho da Europa”.

Putin, por sua vez, rebateu o comentário do líder europeu com a onda de protestos dos coletes amarelos na França nos últimos meses. O Presidente russo afirmou que “todos nós sabemos sobre os eventos ligados aos chamados coletes amarelos, durante os quais, de acordo com nossos cálculos, 11 pessoas foram mortas e 2.500 ficaram feridas. Não iríamos querer que tais eventos ocorressem na capital russa e faremos tudo que pudermos para que nossa situação política doméstica transcorra estritamente dentro do marco da lei”. Em resposta a esse comentário, Macron argumentou ser imprecisa essa comparação, visto que os manifestantes franceses podem concorrer livremente nas eleições europeias.

Há ainda questões a serem convergidas entre os dois países. Em muitos aspectos, Rússia e França se distanciam em sua política externa e até interna. Entretanto, como tem sido apontado por especialistas, é importante que o diálogo entre os dois permaneça. Da mesma forma, aponta-se ser relevante, também, que a França esteja tomando partido em se aproximar mais do Governo russo em um período marcado por conturbações entre o Ocidente e a Rússia. Observa-se que a disposição para a realização de encontros bilaterais já destaca um avanço na relação diplomática não só entre os dois países, como entre a Europa e a Federação Russa.

———————————————————————————————–

Notas:

* A Província de Idlib, na Síria, é uma região situada no noroeste do país e um dos últimos redutos dos rebeldes que lutam pela saída do Presidente sírio, Bashar al-Assad, do poder.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Presidente da França, Emmanuel Macron, em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/szFKqDzdzLZ1PiKLhYFXsinUUbauAdBK.jpg

Imagem 2O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a PrimeiraDama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/Y8a95PqQVled8lOiF9ZWStjR9A3YAcmK.jpg

Imagem 3 “Localização da região de Idlibna Síria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Idlib_(distrito)#/media/File:SyriaIdlib.PNG