EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Teste de míssil pelos EUA agrava tensões com Moscou

No dia 18 de agosto (2019), os Estados Unidos (EUA) realizaram um teste de lançamento de míssil de cruzeiro. O projétil que foi lançado da ilha de San Nicolás, na Califórnia, percorreu mais de 500 quilômetros e terminou seu trajeto ao cair no mar. De acordo com o Pentágono*, “os dados coletados e as lições aprendidas com esse teste auxiliarão o Departamento de Defesa no desenvolvimento de capacidades futuras de alcance intermediário”.

Embora tenha sido apenas um teste de armamento, a ação norte-americana gerou controvérsias. No começo de agosto (2019), os EUA retiraram-se indefinidamente do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês). Esse Acordo foi firmado em 1987 pelos antigos líderes Ronald Reagan – dos EUA – e Mikhail Gorbachev – da extinta União Soviética. Previa-se a eliminação e a proibição do desenvolvimento e implantação de mísseis balísticos e de cruzeiro, sejam eles nucleares ou não, em que o alcance estaria entre 500 e 5.500 quilômetros. Caso o Tratado ainda estivesse em vigor, o teste realizado com o míssil seria uma violação ao INF.

Em vista da situação, China e Rússia convocaram uma sessão extraordinária no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). Os representantes dos governos chinês e russo acusaram os EUA de estarem incitando o início de uma nova corrida armamentista e de terem violado o INF quando ainda estava em vigência. Essa última acusação leva em conta que o teste com o míssil foi realizado apenas 3 semanas após a saída definitiva do Acordo, portanto, ele foi planejado e arquitetado há muito tempo.

Emblema do Conselho de Segurança das Nações Unidas

A corrida armamentista também é uma preocupação. O único Tratado que ainda regula o uso e fabricação de armas nucleares é o Novo START entre Rússia e EUA, mas esse está para expirar em 2021. Por enquanto, não há nenhuma certeza da renovação ou extensão de sua vigência. Caso esse Tratado também seja descontinuado pelas partes, os arsenais nucleares americanos e russos não seriam verificáveis e nem limitados juridicamente, pela primeira vez, desde 1972. Com a falta de Acordos dessa natureza, a existência de uma nova corrida armamentista é dada como quase certa pelos especialistas da área. Porém, agora, poderia acabar envolvendo não só os EUA e a Rússia, mas também a China.

Durante a sessão no CSNU, o vice-embaixador da Rússia na ONU, Dmitry Polyanskiy, afirmou “da nossa parte, não seremos os primeiros a adotar tais medidas. Entretanto, considerando que nossos colegas americanos estão claramente esfregando as mãos e querendo exibir seus músculos, é possível que essa situação […] possa ocorrer em breve”.

Em contrapartida, o embaixador interino dos EUA na ONU, Jonathan Cohen, rebateu as acusações declarando que a Rússia vinha violando o INF há muito tempo. Segundo ele, “a Federação Russa e a China ainda desejam um mundo onde os Estados Unidos exercitem o autocontrole enquanto eles continuam seu acúmulo de armas sem abrandamento e sem pudor. Os testes dos EUA para desenvolver capacidades convencionais de lançamento de solo não são provocativos ou desestabilizadores, nós não ficaremos inertes”.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, em pronunciamento

Países europeus, aliados da OTAN, destacaram seu apoio ao posicionamento norte-americano. A China, por sua vez, limitou-se a declarar que não tem qualquer interesse nenhum em participar de Acordo de controle de armamento com os EUA, e nem com a Rússia. O Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, realizou um pronunciamento no dia 23 de agosto (2019) prometendo uma resposta simétrica ao Governo norte-americano. De acordo com o líder, “ordeno os ministérios russos da Defesa e das Relações Exteriores que examinem o nível da ameaça para nosso país pelos atos dos Estados Unidos, e que sejam adotadas medidas exaustivas para preparar uma resposta simétrica”.

Observadores internacionais apontam esse período das relações internacionais como a mais delicada desde a época da Guerra Fria. De acordo com especialistas, uma nova corrida armamentista gerará consequências irremediáveis para a estabilidade global. Acordos entre EUA e Rússia apenas não convém mais com a realidade atual, é preciso que outros países aceitem participar de um novo pacto global para controle e regulação de seus arsenais.

———————————————————————————————–

Nota:

* O Pentágono é a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Teste de lançamento de um míssil balístico intercontinental nuclear dos Estados Unidos” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/60/Minuteman3launch.jpg/800px-Minuteman3launch.jpg

Imagem 2Emblema do Conselho de Segurança das Nações Unidas” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Emblem_of_the_United_Nations.svg/800px-Emblem_of_the_United_Nations.svg.png

Imagem 3Presidente da Rússia, Vladimir Putin, em pronunciamento” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/ouFiomqA0CC8Cj5Mv91WBA1U2sGjqn1z.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Líder do Brexit Party fala em apoio a Boris Johnson, no caso de novas eleições

A pouco menos de dois meses para a saída oficial da União Europeia (UE)*, as incertezas sobre o Brexit continuam. Enquanto os negociadores europeus expressam pouco otimismo em relação ao acordo negociado com o Governo britânico, o gabinete de Boris Johnson têm tomado medidas duras para evitar que opositores se apoderem do processo. Desta forma, a probabilidade de que o país passe por novas eleições parlamentares é grande.

Nesse cenário, Boris Johnson pode receber a ajuda importante de uma figura política de fora de seu Partido. Nigel Farage, líder do Brexit Party (Partido do Brexit), afirmou, em discurso no último dia 27 de agosto (2019), que poderá apoiar Boris em uma eventual eleição, caso o Primeiro-Ministro britânico favoreça uma saída sem o acordo presentemente desenhado com a UE**. Isso evitaria aos conservadores uma disputa direta com o Brexit Party pelos eleitores simpatizantes à retirada do Bloco europeu.

Logotipo do Brexit Party

Pesquisas de opinião recentes mostram uma leve vantagem dos conservadores (31%) em relação ao segundo maior partido, o Labour (Partido Trabalhista) (28%). O suporte dos simpatizantes do Brexit Party (16%) poderia garantir uma maioria confortável ao atual Primeiro-Ministro frente ao Parlamento. A razão de ser do partido de Farage é justamente retirar o Reino Unido da União Europeia, e seus eleitores certamente estariam dispostos a apoiar Boris em uma saída sem acordo. Enquanto isso, o bloco de eleitores contrários ao Brexit está dividido entre o Labour e os Liberais Democratas (Liberal Democrats) (13%), porém, é muito difícil que este último apoie os trabalhistas com Jeremy Corbyn na liderança.

Nigel Farage é indiscutivelmente uma das figuras mais importantes na política do país e pode ser considerado um dos principais responsáveis pelo voto de saída da UE. Ele foi presidente do UKIP (United Kingdom Independence Party – Partido da Independência do Reino Unido), que, desde 1991, advoga pela desvinculação do Bloco Europeu. Ele nunca ocupou cargo no sistema parlamentar britânico, mas é membro do Parlamento Europeu desde 1999. Nigel se desligou do UKIP em dezembro de 2018, devido a tendências extremistas do Partido. Ele, então, foi um dos responsáveis por fundar oficialmente o Brexit Party no início de 2019. Este foi o mais votado nas eleições europeias em maio, alcançando 31% dos votos, resultado surpreendente para um Partido com tão pouco tempo de existência.

———————————————————————————————–

Notas:

* Atualmente, marcado para o dia 31/10/2019.

** Publicado em 14 de Novembro de 2018, o acordo para a retirada do Reino Unido da UE foi fruto de uma longa negociação entre o Governo do Reino Unido e a Comissão Europeia. O acordo foi barrado pelo Parlamento britânico, resultando no adiamento da data de saída e na queda do governo de Theresa May. O atual Primeiro-Ministro está em tratativa com a UE para que mudanças possam facilitar sua aprovação.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Nigel Farage em discurso no Parlamento Europeu, janeiro de 2019”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Brexit_the_time_has_come_for_the_UK_to_clarify_its_position_(46766253871).jpg

Imagem 2 Logotipo do Brexit Party” (Fonte): https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Brexit_Party.svg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia realiza teste com míssil intercontinental em resposta simétrica aos EUA

Em 24 de agosto (2019), as Forças Armadas da Rússia realizaram testes com o lançamento de mísseis balísticos intercontinentais* a partir de submarinos nucleares posicionados no Oceano Ártico e no mar de Barents. Tais procedimentos, segundo informações, fazem parte das “medidas simétricas” que o Presidente russo, Vladimir Putin, exortou em uma reunião realizada de forma urgente com o Conselho de Segurança da Federação Russa, no dia anterior aos testes, quando foram direcionadas responsabilidades ao Ministério da Defesa, ao Ministério das Relações Exteriores e a outras instituições especiais, no intuito de analisar o nível de ameaça à Rússia criada pelas ações dos EUA.

Teste com míssil de cruzeiro norte-americano – Agosto 2019

As referidas manobras dos EUA, as quais a Rússia presta acusação, se baseiam em teste realizado em 18 de agosto, na ilha de San Nicolas, costa do estado da Califórnia, com artefato militar proibido pelo Tratado INF**, do qual as duas nações se retiraram por conta de alegações mútuas de desrespeito ao acordo bilateral. Na referida ocasião, o Departamento de Defesa norte-americano realizou um teste de voo de um projétil a partir de um sistema de lançamento vertical denominado Mark 41. Segundo informações do Pentágono, o artefato, que é uma variação de um míssil de cruzeiro de ataque terra-terra Tomahawk, atingiu com precisão um alvo localizado a mais de 500 quilômetros de distância no Oceano Pacífico.

Logo após o teste norte-americano, não só Rússia, como também a China, condenaram tais ações denunciando o risco de uma escalada de tensões militares e de retomada da corrida armamentista, podendo haver graves consequências negativas para a segurança regional e internacional.

Especificações de mísseis intercontinentais russos

Os mísseis russos utilizados nos testes pertencem às classes Bulava e Sineva, ambos do tipo SLBMs[vídeo 1] (sigla do inglês Submarine Launched Ballistic MissilesMísseis Balísticos Lançados de Submarinos), que têm como plataforma de lançamento, propriamente dita, os SSBNs (sigla do inglês Ship Submersible Ballistic missile Nuclear poweredSubmarino Nuclear Lançador de Mísseis Balísticos). As principais características técnicas dos mísseis são:

– Bulava (SS-NX-30), denominação OTAN SS-N-20 Sturgeon: É uma versão do mais avançado míssil balístico russo, o Topol-M (SS-27)[1]. Peso total de 36,8 toneladas com propulsão a partir de combustível sólido, possui segmentação de 3 estágios podendo transportar de 6 a 10 ogivas nucleares e atinge alvos a uma distância de até 10 mil quilômetros com precisão entre 250-300 metros.

Bulava (SS-NX-30)

– Sineva (RSM-54), denominação OTAN SS-N-23 Skiff[2]: Com peso total de 40 toneladas, é um míssil balístico intercontinental com propulsor líquido de 3a geração. Possui capacidade de transportar de 4 a 10 ogivas nucleares e atinge alvos a uma distância de até 11.500 quilômetros com precisão de 500 metros. Está equipado com contramedidas de defesa antimísseis e o seu curso pode ser corrigido com o auxílio de satélites de navegação.

Os submarinos nucleares russos responsáveis pelos lançamentos podem executar a manobra em movimento de até 13 quilômetros horários em uma profundidade de 55 metros, com capacidade de armazenamento de 16 mísseis cada, sendo que todo míssil pode carregar até 10 ogivas nucleares com capacidade de até 100 Kt (Quilotonelada de TNT – Trinitrotolueno) por unidade, quantidade de material explosivo suficiente para destruir uma cidade de grandes proporções.

———————————————————————————————–

Notas:

* Um míssil balístico intercontinental é um projétil que segue uma trajetória pré-determinada, que não pode ser significativamente alterada após o míssil queimar todo o seu combustível (a sua trajetória fica governada pelas leis da balística – física). Para cobrir grandes distâncias, a trajetória dos mísseis balísticos atinge as camadas mais altas da atmosfera ou o espaço, efetuando um voo sub-orbital.

** Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF (do inglês – Intermediate-Range Nuclear Force), o qual foi assinado em 8 de dezembro de 1987 pelo Presidente norte-americano à época, Ronald Reagan, e pelo Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev. O Tratado tinha como meta a total eliminação de mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, cujo alcance efetivo estivesse entre 500 e 5.500 quilômetros de distância. No dia 18 de junho (2019), a Duma (Câmara Baixa da Rússia, similar à Câmara dos Deputados no Brasil) aprovou por ampla maioria (417 votos a favor e uma abstenção) a suspenção do Tratado. Esta votação é o resultado de vários anúncios proferidos pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desde o dia 2 de fevereiro deste ano (2019), em resposta à decisão do Presidente dos EUA, Donald Trump, que, em 20 de outubro de 2018, anunciou que seu governo iria encerrar sua participação no referido Tratado.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Lançamento de míssil Bulava no Mar de Barents” (Fonte): https://img.rg.ru/img/content/166/42/78/TASS_26944994_d_850.jpg

Imagem 2 Teste com míssil de cruzeiro norteamericano Agosto 2019” (Fonte): https://www.defense.gov/Newsroom/Releases/Release/Article/1937624/dod-conducts-ground-launch-cruise-missile-test/#pop3619408

Imagem 3 Especificações de mísseis intercontinentais russos” (Fonte): https://i.ytimg.com/vi/VRfsgTkJncc/hqdefault.jpg

Imagem 4 Bulava (SSNX30)” (Fonte): https://www.globalsecurity.org/wmd/world/russia/images/3m14-image244.jpg

———————————————————————————————–

Fontes de Vídeos:

[Video 1]:“Lançamento de mísseis balísticos a partir de submarinos” (Fonte):

———————————————————————————————–

Links apresentando as características técnicas dos mísseis russos:

[1] Ver: https://www.globalsecurity.org/wmd/world/russia/r29rmu.htm

[2] Ver: https://www.globalsecurity.org/wmd/world/russia/3m14.htm

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Brexit: Oposição articula governo temporário para barrar saída sem acordo

Com pouco tempo restante para a saída oficial da União Europeia (UE),  e com limitações jurídicas que reduzem o poder do Parlamento legislar para barrar uma eventual saída sem acordo, os Partidos de oposição ao governo britânico se articulam para impedir que o país saia abruptamente no dia 31 de outubro*. Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista (Labour Party), o maior Partido de oposição no Parlamento, propôs um plano para um voto de não-confiança** ao governo de Boris Johnson. De acordo com o plano, Corbyn lideraria um Gabinete temporário com o objetivo de conseguir uma extensão ao prazo de saída junto à UE e, por conseguinte, a convocação de novas eleições gerais.

O plano de Corbyn, porém, foi alvo de crítica de membros de outras agremiações partidárias ao governo Conservador. Caroline Lucas, membro do Parlamento pelo Green Party (Partido Verde Britânico), apoiou o plano de Corbyn, mas declarou que prefere um segundo referendum antes de uma nova eleição parlamentar. Posição similar adotada pelo Plaid Cymru, partido nacionalista galês. 

O grande entrave se encontra na baixa aceitação da figura de Jeremy Corbyn como líder de um possível governo temporário. Ele foi alçado líder do Labour Party em 2015 com o apoio de mais de 250 mil correligionários. Apesar de ocupar cargo de membro do Parlamento desde 1983, Corbyn nunca fez parte dos quadros principais de liderança do Trabalhista, pelo contrário, ele foi um dos parlamentares que mais se opôs às propostas de seu próprio Partido. A sua eleição em 2015 representou um direcionamento mais à esquerda em relação às tendências mais liberais dos governos de Tony Blair e Gordon Brown.

Defensor de propostas polêmicas como a de renacionalização de certos setores da economia e desarmamento nuclear nacional unilateral, Corbyn sofreu com grande resistência por parte de seus colegas de Partido. Em 2016, em novo pleito pela liderança, reconfirmou o apoio de seus eleitores, alcançando dessa vez mais de 300 mil votos na última rodada de votações. Apesar do apoio recebido, ainda assim continuou sendo alvo de oposições dentro de seu próprio grupo partidário. Em 2019, nove membros do Parlamento abandonaram o Labour Party alegando serem contra à hesitante abordagem de Corbyn em relação ao Brexit e à maneira com que lidou com acusações de antissemitismo dentro do Partido.

Além da resistência recebida, um governo temporário liderado por Corbyn encontraria dificuldade ainda maior na tentativa de convencer rebeldes do Partido Conservador a formarem a maioria necessária para derrubar o governo de Boris Johnson. Após o anúncio do plano, conservadores anti-Brexit, como o parlamentar Dominic Grieve, declararam-se firmemente contrários à possibilidade de Corbyn liderar um governo temporário.   

Retrato oficial do Sr. Kenneth Clarke

Jo Swinson, líder do Partido Liberal Democrata (Liberal Democrats), também da oposição e que atualmente conta com 15 representantes no Parlamento, recebeu com pessimismo a notícia dos planos de Corbyn. Swinson sugeriu, ao invés, a nomeação de Ken Clarke, do Partido Conservador, ou Harriet Harman, do Labour, como líderes mais viáveis para um governo temporário. Clarke e Harman são ambos o homem e a mulher com mais tempo de serviço na House of Commons, como é chamada a Câmara dos Deputados britânica, e possuem posições contrárias à um hard-Brexit***. A nomeação de um desses dois líderes poderia ser mais palatável aos opositores de Jeremy Corbyn.

A viabilidade do plano de Corbyn dependerá principalmente de como o governo de Boris Johnson lidará com a tentativa de fazer alguma modificação ao que foi costurado durante dois anos pelo gabinete de Theresa May. Boris assumiu publicamente o compromisso de levar a cabo a saída do Reino Unido da UE, com ou sem acordo, no dia 31 de outubro. Ele se encontrou na semana passada com Angela Merkel e Emmanuel Macron (em antecedência ao encontro do G7 na França), para discutir possíveis pontos de mudança em relação ao acertado.

Retrato oficial do Sra. Harriet Harman

Além da opção de um voto de não confiança e a instalação de um novo governo, outra maneira de barrar uma saída, sem um acordo, seria através de novas legislações propostas pelo Parlamento. Porém, alguns especialistas veem essa via com dificuldades, já que, mesmo que consiga passar leis ou recomendações para barrar uma saída abrupta no dia 31 de outubro, a decisão final ficaria nas mãos do gabinete de Boris Johnson, que possui o controle do calendário parlamentar, podendo, assim, barrar que os seus membros aprovem nova extensão. E mesmo que uma nova legislação fosse aprovada, caberia ultimamente ao governo colocá-la em prática. 

O grande medo de repercussões desastrosas para o futuro da economia britânica traz uma grande probabilidade de que a oposição consiga convencer conservadores anti-Brexit a votarem por um governo temporário. O dilema será aceitar ou não que Corbyn se torne Primeiro-Ministro, mesmo que por um curto período de tempo.

———————————————————————————————–

Notas:

* Data atual acordada entre a UE e Reino Unido para a saída oficial.

** O voto de não-confiança é uma votação em sistemas parlamentares que indicam se o governo possui ou não a maioria necessária para continuar no poder. Caso o governo perca essa votação, inicia-se o processo para a formação de um novo Gabinete. No sistema britânico, um voto de não-confiança não leva necessariamente à uma nova eleição. Um novo governo pode ser formado pela oposição, desde que haja maioria suficiente para isso.

*** Termo usado para se referir à um possível Brexit sem nenhum acordo, e com uma conotação mais pessimista.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Jeremy Corbyn, Líder da Oposição Oficial, respondeu em nome da Oposição” /“Jeremy Corbyn, Leader of the Official Opposition, responded on behalf of the Opposition” – (Tradução Livre) (Fonte UK Parliament/Jessica Taylor): https://www.flickr.com/photos/uk_parliament/25743557291/in/photolist-W2QMHV-FdSsDD-FdSsG4-Eq1t2F-Wub9zM

Imagem 2 Retrato oficial do Sr. Kenneth Clarke / Official portrait of Mr. Kenneth Clarke 1:1 portrait” – (Tradução Livre) (Fonte UK Parliament): https://beta.parliament.uk/media/QQuEfBIf

Imagem 3 Retrato oficial do Sra. Harriet Harman / Official portrait of Ms. Harriet Harman 1:1 portrait” (Tradução Livre) (Fonte UK Parliament): https://beta.parliament.uk/media/ZY0Mx1bp

AMÉRICA DO NORTEEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Barack Obama retorna à Dinamarca

Barack Obama é ex-Presidente dos Estados Unidos (EUA) pelo Partido Democrata e governou o país por dois mandatos, entre os anos de 2009 e 2017. Advogado de profissão, pela prestigiada Universidade de Harvard, Obama possui um histórico de engajamento político e de ativismo comunitário, sobretudo, no âmbito dos direitos civis.

Em visita oficial à Dinamarca, o ganhador do Nobel da Paz, em 2009, fez-se presente no país para realizar lobby* para a cidade de Chicago, frente à disputa pela sede dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, e para as atividades da Conferência da Organização das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 15). Em caráter privado, Obama retornou ao Estado escandinavo para discursar na Universidade do Sul da Dinamarca.

Recentemente, ele foi convidado para participar no dia 28 de setembro deste ano (2019) de uma rodada de perguntas e respostas. O evento será feito na Musikkens Hus (Casa de Música) na cidade de Aalborg. O objetivo da conversa é tratar de questões relacionadas à liderança e ao empreendedorismo para a comunidade empresarial, e para cerca de 100 a 200 alunos da Universidade de Aalborg.

Thomas Kastrup Larsen, Prefeito de Aalborg

O jornal Copenhaguen Post trouxe a afirmação de entusiasmo do Prefeito de Aalborg, Thomas Kastrup-Larsen, o qual expressou: “Não duvido nem por um momento que isso seja um novo clímax para Aalborg e toda a região norte da Jutlândia. Estou satisfeito que uma das personalidades mais ilustres do mundo veja o potencial em visitar Aalborg e compartilhar sua visão”.

Os analistas consideram a ida de Obama à Dinamarca como parte de uma agenda de um policy maker** internacional, pois, o conhecimento e experiência do ex-Presidente pode contribuir para a formação de líderes e ativistas de diferentes nichos de atuação.

———————————————————————————————–

Notas:

* Lobby: atividade de grupo de pressão da sociedade civil sobre políticos com intenção de influência.

** Policy maker: pessoa detentora de poder ou prestígio políticos, capaz de influenciar o meio que atua.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Barack Obama, exPresidente dos EUA” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/cb/Barack_Obama_at_NH.jpg/1280px-Barack_Obama_at_NH.jpg

Imagem 2 Thomas Kastrup Larsen, Prefeito de Aalborg” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/58/Thomas-Kastrup-Larsen.jpg/1280px-Thomas-Kastrup-Larsen.jpg

EURÁSIAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Macron e Putin realizam encontro bilateral às vésperas do G7

No dia 19 de agosto (2019), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desembarcou em Fort de Brégançon, na Riviera Francesa, onde encontrou-se com o Presidente da França, Emmanuel Macron, em sua residência de verão. A reunião entre os dois líderes ocorreu às vésperas da Cúpula anual do G7, a qual, este ano (2019), ocorrerá também no sul da França. Em 2014, após a reincorporação da Crimeia, a Rússia foi suspensa do grupo, que antes era chamado de G8. Observadores internacionais destacaram que o gesto francês de recepcionar os russos nesta semana é bastante significativo para as relações exteriores do país europeu, colocando-o numa posição de liderança no apaziguamento das relações entre o Ocidente e a Rússia.

A Conversa entre Macron e Putin era bastante antecipada pela mídia por conta de a pauta de discussão envolver não apenas questões bilaterais, como também assuntos de interesse internacional, que outrora seriam discutidos num ambiente de negociação multilateral. Assim, a situação na Ucrânia, na Síria e questões internas da Rússia foram abordadas no diálogo entre os líderes.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a Primeira-Dama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França

Em relação à Ucrânia, Moscou e Paris concordaram em retomar as negociações sobre a crise no país que envolve movimentos separatistas e a reincorporação da Crimeia à Rússia. Para tanto, ambos os lados consentiram que o Formato de Normandia seja revisitado, o qual envolve Alemanha, França, Rússia e Ucrânia nas discussões de um possível Acordo.

Sobre a Síria, Macron declarou: “[nós] estamos profundamente preocupados com a situação em Idlib*, onde a população civil vive sob bombardeios. Há vítimas entre a população civil e a França está muito preocupada com isso”. O Presidente Putin contrapôs-se ao líder francês ao destacar que apoia a luta do Exército do governo sírio para impedir o avanço de organizações terroristas na região, as quais se fortalecem em Idlib e partem para o resto do mundo.

Localização da região de Idlib, na Síria

À parte das situações internacionais, o Presidente francês colocou em pauta a recente onda de protestos que está ocorrendo em Moscou. De acordo com a mídia ocidental, os manifestantes estão pedindo pela liberdade dos candidatos da oposição de concorrerem à eleição do legislativo da cidade. Macron, então, destacou “[nós] pedimos neste verão por liberdade de protesto, liberdade de expressão, liberdade de opinião e liberdade de concorrer em eleições que deveriam ser plenamente respeitadas na Rússia, como em qualquer membro do Conselho da Europa”.

Putin, por sua vez, rebateu o comentário do líder europeu com a onda de protestos dos coletes amarelos na França nos últimos meses. O Presidente russo afirmou que “todos nós sabemos sobre os eventos ligados aos chamados coletes amarelos, durante os quais, de acordo com nossos cálculos, 11 pessoas foram mortas e 2.500 ficaram feridas. Não iríamos querer que tais eventos ocorressem na capital russa e faremos tudo que pudermos para que nossa situação política doméstica transcorra estritamente dentro do marco da lei”. Em resposta a esse comentário, Macron argumentou ser imprecisa essa comparação, visto que os manifestantes franceses podem concorrer livremente nas eleições europeias.

Há ainda questões a serem convergidas entre os dois países. Em muitos aspectos, Rússia e França se distanciam em sua política externa e até interna. Entretanto, como tem sido apontado por especialistas, é importante que o diálogo entre os dois permaneça. Da mesma forma, aponta-se ser relevante, também, que a França esteja tomando partido em se aproximar mais do Governo russo em um período marcado por conturbações entre o Ocidente e a Rússia. Observa-se que a disposição para a realização de encontros bilaterais já destaca um avanço na relação diplomática não só entre os dois países, como entre a Europa e a Federação Russa.

———————————————————————————————–

Notas:

* A Província de Idlib, na Síria, é uma região situada no noroeste do país e um dos últimos redutos dos rebeldes que lutam pela saída do Presidente sírio, Bashar al-Assad, do poder.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Presidente da França, Emmanuel Macron, em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/szFKqDzdzLZ1PiKLhYFXsinUUbauAdBK.jpg

Imagem 2O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Presidente da França, Emmanuel Macron e a PrimeiraDama da França, Brigitte Macron em Fort de Brégançon, na França” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big2x/Y8a95PqQVled8lOiF9ZWStjR9A3YAcmK.jpg

Imagem 3 “Localização da região de Idlibna Síria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Idlib_(distrito)#/media/File:SyriaIdlib.PNG