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As eleições europeias e a Dinamarca

A Dinamarca ingressou na União Europeia (UE) em 1973, todavia, o Estado escandinavo não aderiu à Zona do Euro, tal como sua vizinha Finlândia, mas se tornou membro do Espaço Schengen, em 2000, abrindo suas fronteiras para a livre circulação de europeus e aos Estados associados.

Diante de um país que não é integrado financeiramente a UE, os dinamarqueses votaram em peso nas eleições para o Parlamento Europeu, em Bruxelas e Estrasburgo*, pois 66% do eleitorado compareceu às urnas ou votou por correspondência. Esse índice é o maior desde o registro, em 2009, quando 59,5% de eleitores se apresentaram para o pleito.

O fato de maior surpresa foi a vitória do Venstre (Partido Liberal da Dinamarca – V) nas eleições, representando 23,5% dos votos, visto que eles retiraram o assento do eurocético Folkebevægelsen mod EU (Partido do Movimento Popular contra a UE). A vitória do V é significativa, ante o esforço eleitoral a poucos dias das eleições nacionais.

Venstre – (V) – Partido Liberal da Dinamarca

O jornal Copenhaguen Post trouxe a afirmação do especialista em eleições da Universidade de Copenhague, professor Kasper Møller Hansen, sobre o assunto, o qual comentou brevemente: “É um grande resultado para o Venstre que eles possam conseguir essa vitória dias antes de uma eleição geral”.

Os demais partidos vencedores, em ordem decrescente, foram: o Socialdemokratiet (Partido Social-Democrata – A), com 21,5%; o Socialistisk Folkeparti (Partido Popular Socialista – SF), com 13,2%; o Dansk Folkeparti (Partido Popular Dinamarquês – DF), com 10,7%; o Radikale (Partido Radical – B), com 10,1%; o Konservatite (Partido Popular Conservador – C), com 6,2%; e o Enhedslisten (Aliança Vermelha e Verde), com 5,5%.

Os analistas salientam a saída do “Folkebevægelsen mod EU” do Parlamento Europeu como um aparente revigoramento dinamarquês na crença nos valores políticos do Bloco. E se observa o declínio do DF no cenário político do país, identificado como populista e defensor da anti-imigração, como resultante da preferência eleitoral por discursos menos extremos.

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Nota:

* O Tratado da União Europeia estabelece que a organização dos trabalhos parlamentares ficam distribuídos da seguinte forma: Estrasburgo – a maior parte das Sessões Plenárias; Bruxelas – as Comissões Parlamentares; e Luxemburgo – o Secretariado do Parlamento. Para a efetuação de mudanças, todos os 28 Estados-membros devem aprovar por unanimidade a pauta e ratificar em seus respectivos Estados. O contrário seria uma violação do próprio Tratado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Parlamento Europeu Estrasburgo” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/2/2c/European_Parliament_Strasbourg_Hemicycle_-Diliff.jpg/1280px-European_Parliament_Strasbourg_Hemicycle-_Diliff.jpg

Imagem 2 Venstre – (V) – Partido Liberal da Dinamarca” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/0e/Venstre_%28DK%29_Logo.svg/755px-Venstre_%28DK%29_Logo.svg.png

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Ucrânia: Zelenski dissolve o Parlamento

No seu primeiro dia de trabalho, 20 de maio, o presidente Zelenski instou os deputados para trabalharem na Lei de Abolição da Imunidade Parlamentar, na Lei sobre a responsabilidade penal e enriquecimento ilícito, na Lei Eleitoral e nas destituições do Chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia e do Ministro da Defesa da Ucrânia, em dois meses. Mas foi a dissolução da Verkhovna Rada, o Parlamento ucraniano, que gerou polêmica. Nas suas palavras, “dissolvo a oitava legislatura da Rada Suprema”.

Seu objetivo, com isto, foi o de antecipar as eleições parlamentares de 27 de outubro para 21 de julho. Com sua popularidade em alta, Zelenski quer aproveitar o momento para seu Partido, o Servo do Povo, que ainda não tem representação no Parlamento, conseguir formar uma base de apoio ampla. A aprovação de reformas prometidas em campanha depende disto e pesquisas recentes apontam que o Servo do Povo está muito à frente dos demais Partidos.

Sem maioria parlamentar não há grandes chances de aprovar reformas necessárias para alavancar a economia e a câmara é atualmente dominada por aliados de Poroshenko, o ex-Presidente. Para seus opositores, Zelenski violou a Constituição ucraniana ao dissolver a Verkhovna Rada. Mas, apesar disso, líderes do bloco de Petro Poroshenko e da Frente Popular aceitaram participar das eleições para 21 de julho.

A disputa política e a relativa facilidade com que os partidos consentiram em realizar eleições antecipadas se explica porque, de acordo com a lei, se a Verkhovna Rada for incapaz de criar uma coalização dentro de 30 dias ela deve ser dissolvida. Na prática, já não havia base governamental há dois anos, quando três pequenos partidos que a formavam saíram, mas, juridicamente, ela deixou de existir apenas no dia 17 de maio, quando um dos remanescentes, a Frente Popular, abandonou por fim esta coalizão. Porém, o Parlamento acabou por concordar com a primeira interpretação, adotada por Zelenski.

Prédio do Parlamento ucraniano, a Verkhovna Rada

O Presidente ucraniano tem poderes muito limitados, quem nomeia o governo é o Parlamento e, portanto, é quem tem o controle sobre questões financeiras e econômicas. No entanto, para que haja possibilidade de conseguir uma base de apoio forte, precisa da antecipação do pleito e, se isto ocorrer, é possível que o Servo do Povo obtenha maioria dos assentos no Legislativo. Por outro lado, também há interesses de outros Partidos outrora aliados de Poroshenko em apoiar Zelenski.

A referida Frente Popular anunciou que está pronta para apoiar o Mandatário em pautas específicas sobre Segurança Nacional. Neste sentido, declara o Chefe da Comissão Parlamentar de Segurança Nacional e de Defesa, Sergei Pashinski: “Se as suas iniciativas jurídicas não forem contrárias ao nosso rumo em relação à UE, à OTAN e à proteção do país contra a agressão russa, isso será apoiado. (…). Eu posso responsavelmente declarar que todas as suas leis que reforçam a situação da Ucrânia serão apoiadas”.

É possível que mantendo o rumo do governo anterior em suas reformas e aproximações com a União Europeia e a OTAN, e evitando os considerados erros de Poroshenko, Zelenski consiga uma ampla união de forças políticas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vladimir Zelenski, no dia da posse, 20 de maio de 2019” (Fonte): https://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:Volodymyr_Zelensky_2019_presidential_inauguration_05_(cropped).jpg#/media/File:Volodymyr_Zelensky_2019_presidential_inauguration_05.jpg

Imagem 2 Prédio do Parlamento ucraniano, a Verkhovna Rada” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/jenniferboyer/5972270942

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Rússia apresenta novo quebra-gelo nuclear

No sábado passado, dia 25 de maio (2019), a Rússia apresentou o novo quebra-gelo nuclear que faz parte da frota do “Projeto 22220”. Batizado de Ural, o navio foi lançado no Estaleiro Báltico em São Petersburgo e integra uma frota de outras 3 embarcações semelhantes que, quando concluídas, constituirão a esquadra de quebra-gelos mais poderosa do mundo. Os quebra-gelos nucleares são navios movidos a propulsão nuclear para navegação em áreas cobertas de gelo, eles são mais potentes que aqueles movidos a diesel e não exigem grandes volumes de combustível para operar.

O “Projeto 22220” compreende a construção de 3 navios: Arktika, Sibir e Ural. Os dois primeiros estão para entrar em serviço em 2020 e em 2021, respectivamente, enquanto que o Ural será finalizado completamente em 2022. Os investimentos para a construção dos quebra-gelos são em torno de 120 bilhões de rublos*. Além disso, há a previsão da construção de mais 2 navios pela empresa de energia nuclear civil russa, Rosatom, sendo que o quarto entraria em operação em 2024 e o quinto em 2027.

O objetivo da Rússia é utilizar essa nova esquadra de quebra-gelos nucleares para explorar a Rota do Mar do Norte (NSR, sigla em inglês), uma rota marítima que corre ao longo da costa russa do Ártico, desde da Sibéria até o Estreito de Bering, e também pelas costas do Alaska, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Durante dois meses do ano esse percurso fica livre de gelo, permitindo que navios comuns adentrem o espaço, entretanto, ao longo dos outros meses o deslocamento só é possível com os quebra-gelos. Com essa nova frota, o NSR será navegável o ano todo.

Mapa da região do Ártico onde é destacada a Rota do Mar do Norte pela Passagem a Noroeste e pela Passagem ao Nordeste

A partir do momento que a circulação marítima é facilitada, a Federação Russa consegue ter mais controle sobre essa região do globo em relação aos outros países que também utilizam do Ártico para rota comercial. Outra questão importante é que a região possui grandes quantidades de petróleo e gás natural. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, há aproximadamente uma reserva energética de 412 bilhões de barris, isso equivale a 22% do total não descoberto de petróleo e gás do mundo.

Especialistas destacam que essa estratégia russa coloca o país em vantagem na corrida pelo Ártico. Em alguns anos, as mudanças climáticas vão resultar no derretimento do gelo, mas, enquanto isso não ocorre, a Rússia já coloca uma frota de quebra-gelos em ação para o melhor reconhecimento da área.

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Nota:

* 120 bilhões de rublos correspondem a aproximadamente 1,8 bilhão de dólares que, consequentemente, correspondem a aproximadamente 7,2 bilhões de reais (cotação do dia 27 de maio 2019).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O quebragelo nuclear Yamal” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f5/Yamal_2009.JPG/300px-Yamal_2009.JPG

Imagem 2Mapa da região do Ártico onde é destacada a Rota do Mar do Norte pela Passagem a Noroeste e pela Passagem ao Nordeste” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bc/Map_of_the_Arctic_region_showing_the_Northeast_Passage%2C_the_Northern_Sea_Route_and_Northwest_Passage%2C_and_bathymetry.png/440px-Map_of_the_Arctic_region_showing_the_Northeast_Passage%2C_the_Northern_Sea_Route_and_Northwest_Passage%2C_and_bathymetry.png

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Rússia comemora o Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica*

Desde 1995, a Federação Russa realiza anualmente no dia 9 de maio paradas militares para relembrar a vitória do povo soviético contra a Alemanha nazista, em 1945. As comemorações ocorrem principalmente em Moscou, na Praça Vermelha, mas elas se estendem até outros países** que outrora faziam parte do bloco da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

As celebrações do Dia da Vitória deste ano (2019) tiveram a participação de 35 bandas militares marchantes e mais de 130 unidades de equipamentos militares modernos. O desfile foi prestigiado por Vladimir Putin, Presidente da Rússia; Dmitry Medvedev, Primeiro-Ministro da Rússia; e pelo convidado de honra, o Presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev.

Durante o Evento, Putin realizou um discurso para destacar a importância das comemorações do dia 9 de maio e também para prestar homenagem a todos os antepassados que lutaram para proteger o país na Segunda Guerra Mundial. De acordo com o Presidente, “o inimigo foi derrotado não apenas pela força dos equipamentos de combate e pelo poder militar. O importante é que as armas esmagadoras estavam nas mãos daqueles unidos em defender seus parentes e suas famílias (…). Todo o nosso povo honra e agradece a geração de vitoriosos. O caminho heroico deles não é distante para nós, é parte de nossas vidas, de nosso núcleo moral e uma medida de aspirações e intenções, de ações e feitos”.

Parada militar do Dia da Vitória em Moscou, na Praça Vermelha

O discurso também destacou a importância de manter a lembrança da Grande Guerra Patriótica intacta. Segundo Putin, em muitos países não é contada a verdadeira história para as gerações mais novas e isso é como se estivessem traindo seus ancestrais. Para o Presidente, “a memória sobre a Grande Guerra Patriótica, sobre a sua verdade, é a nossa consciência e a nossa responsabilidade. Hoje vemos como em alguns países eles estão deliberadamente distorcendo os eventos da guerra, como eles estão fazendo ídolos daqueles que se esqueceram de sua honra e dignidade humana e serviram aos nazistas”.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, na Marcha do Regimento Imortal

Além da Parada do Dia da Vitória na Praça Vermelha, também ocorreu no mesmo dia (9 de maio 2019) a Marcha do Regimento Imortal em Moscou, a qual celebra especificamente aqueles que lutaram e deram suas vidas pela proteção da antiga União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse Movimento, Putin participou andando pela Praça Vermelha segurando o retrato de seu pai, veterano da Grande Guerra Patriótica.

A Marcha não ocorre apenas na Federação Russa. Neste ano (2019), foi realizado em mais de 110 países e em 500 cidades pelo mundo o Movimento para relembrar os soldados da Segunda Guerra Mundial. Alguns exemplos de locais onde foi realizado as Comemorações foram: Argentina, Alemanha, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Hong Kong, Itália e Japão,

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Notas:

* A Grande Guerra Patriótica é o nome dado pelos soviéticos ao conflito militar travado no Leste da Europa durante a Segunda Guerra Mundial e, às vezes, também se refere aos embates contra o Japão Imperial em 1945.

** Os países que comemoram o mesmo Dia da Vitória que a Rússia são: Armênia, Azerbaijão, Belarus, Bulgária, Bósnia e Herzegovina, Estônia, Geórgia, Israel, Cazaquistão, Quirquistão, Letônia, Lituânia, Moldova, Mongólia, Montenegro, Polônia, Sérvia, Tajiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Uzbequistão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Discurso do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, na Parada da Vitória que comemora o 74º aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/oaZ6BOttOqCARNhn2260ATquY6vAaadW.JPG

Imagem 2 Parada militar do Dia da Vitória em Moscou, na Praça Vermelha” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/e9L2TFinoqoNGgs25n73THPFEbyYWYq4.JPG

Imagem 3 Presidente da Rússia, Vladimir Putin, na Marcha do Regimento Imortal” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/zTlJTZY68DIoo0amdpfHANmnOCuvPH5B.JPG

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O retorno russo à ilha de Cuba

No dia 1º de maio de 2019, o ex-presidente Raúl Castro, Primeiro-Secretário do Partido Comunista de Cuba, recebeu o Prêmio Lênin, a mais alta condecoração concedida pelo Partido Comunista da Federação Russa. Em sua declaração, ao receber a honraria, Castro reiterou que “o prêmio é um símbolo poderoso das relações históricas entre os povos de Cuba e da Rússia que sofreram em diferentes cenários, mas, que, hoje, se reforçam e se renovam”.

Che Guevara e Fidel Castro em 1961

A forte relação bilateral entre essas nações teve início na década de 1960 quando, em meio ao embate político-ideológico entre EUA e URSS ao longo do período conhecido como a Guerra-Fria, aconteceu a Revolução Cubana*, movimento liderado por personagens como FidelCastro e Che Guevara, que depôs o então presidente Fulgêncio Batista. Em 1961, Fidel Castro declarou publicamente a sua adesão ao comunismo internacional e sua opção pelo marxismo-leninismo, sendo que quatro anos depois fundou o Partido Comunista de Cuba.

A postura de Fidel Castro aproximou, definitivamente, cubanos da União Soviética. Sendo Cuba uma ilha geograficamente estratégica, situada no Caribe, os soviéticos viram em seu território uma oportunidade do estabelecimento de bases de mísseis nucleares que ficariam apontados para as cidades estadunidenses, e que, posteriormente, passariam por um dos piores desbalanceamentos de segurança internacional, no que ficou conhecido como a “Crise dos Mísseis” de 1962.

Mapa indicando localização de Cuba e da Rússia

Os 9.550 quilômetros que separam Havana de Moscou praticamente não tinham significância durante os 30 anos que perduraram os laços ideológicos e militares caracterizados pelo forte subsídio econômico oferecido a Cuba pela União Soviética (cerca de 4 bilhões de dólares anuais, ou R$ 16,4 bilhões ao câmbio atual). Com o colapso da URSS em 1991, a presença massiva dos soviéticos se retirou da ilha, deixando uma grave crise econômica para trás. Segundo estatísticas, em apenas dois anos após a retirada da ajuda econômica, o PIB (Produto Interno Bruto) de Cuba encolheu 35%, gerando a pior crise da história do país.

Embaixada da Rússia em Havana

Atualmente, a reaproximação por parte da Federação Russa vai de encontro ao processo de consolidação de sanções que os EUA aplicam contra a ilha, acusada de apoiar militarmente o governo venezuelano de Nicolás Maduro, outro aliado de Moscou. Segundo especialistas, a política adotada por Washington obriga a ilha caribenha a “abrir as portas” para uma maior presença não só da Rússia, mas, também, de outros países interessados nas vantagens geopolíticas e geoestratégicas da região, tais como a China.

Em 2018, os primeiros traços dessa reaproximação bilateral começaram a ser vislumbrados com a injeção de 1,392 bilhão de dólares (aproximadamente, 5,506 bilhões  de reais, de acordo com a cotação de 10 de maio de  2019), sendo 97% desse valor destinado a renovar linhas ferroviárias e implantar acordos em matéria de energia elétrica e nuclear, o que poderá aumentar em 20% a produção na ilha, além de implantar sistemas de cibersegurança; os 3% restantes serão destinados a modernizar a indústria militar cubana.

Segundo Ric Herrero, diretor do Grupo de Estudos sobre Cuba, que reúne cubano-americanos que defendem a abertura econômica e política do país, o processo de reaproximação “É parte de um esforço maior da Rússia para desestabilizar os Estados Unidos, mais do que para criar um satélite soviético a 90 milhas da costa norte-americana, como aconteceu na Guerra Fria”.

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Nota:

* A Revolução Cubana foi um processo revolucionário responsável pela derrubada do governo ditatorial imposto por Fulgêncio Batista, que resultou na tomada de poder da guerrilha liderada por Fidel Castro no ano de 1959. Apesar de, a princípio, não se basear em uma ideologia socialista, o movimento cubano acabou se alinhando ao comunismo soviético. Cuba tornou-se independente em 1898, a partir do apoio dos EUA contra a Espanha e, desde então, tornou-se uma espécie de “terreno” dos EUA, onde, conforme apontam alguns historiadores, inúmeros negócios norte-americanos se desenvolviam com lucros altíssimos ao realizar à exploração da economia cubana. O processo de oposição contra o poder em Cuba s e iniciou a partir do golpe político realizado por Fulgêncio Batista, em 10 de março de 1952, que resultou na derrubada do então presidente Carlos Prío Socarrás. A partir do golpe, Fulgêncio Batista instituiu uma forte ditadura militar com aguda repressão da imprensa e de qualquer movimento político de oposição e com ela se iniciou a luta de Fidel Castro e seus partidários. Pode-se afirmar, portanto, que o movimento liderado por Fidel Castro é, ao mesmo tempo, uma luta contra a ditadura de Fulgêncio Batista e também uma luta nacionalista contra as intervenções norte-americanas nos assuntos cubanos, tanto em questões políticas quanto em questões econômicas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Sede do Comitê Central do Partido Comunista, em Havana” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Cuba#/media/File:Comit%C3%A9_Central_PCC.jpg

Imagem 2 Che Guevara e Fidel Castro em 1961 ” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Cuba#/media/File:CheyFidel.jpg

Imagem 3 Mapa indicando localização de Cuba e da Rússia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/62/Cuba_Russia_Locator.svg

Imagem 4 Embaixada da Rússia em Havana” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Relações_entre_Cuba_e_Rússia#/media/File:Embassy_of_Russia_in_Havana_-_Nick_De_Marco.jpg

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O Estado-Tampão Ucraniano

O nome Ucrânia significa, literalmente, “no limite”, “fronteira”, “margem” e, embora seja um país reconhecido mundialmente, para a geopolítica russa seu significado etimológico vale na prática. Como bem asseverou George Friedman, “a Ucrânia é tão importante para a Rússia quanto o Texas para os Estados Unidos e a Escócia para a Inglaterra”. O país paga um preço por sua localização estratégica, sempre situada na borda de impérios ou grandes potências. Nos séculos XVII e XVIII foi dividida entre a Polônia, a Rússia e o Império Otomano; no século XIX, pela Rússia e pelo Império Austro-Húngaro; no século XX foi livre por um breve período após a I Guerra Mundial, para, depois, fazer parte da União Soviética na maior parte da sua história moderna.

Em termos de controle territorial efetivo, a Ucrânia é um país dividido em três domínios: o Leste, com as províncias de Donetsk e Lugansk – na denominada região de Donbass – nas mãos de rebeldes separatistas (chamados de “terroristas” por Kiev); o Centro e o Oeste, sob administração da capital ucraniana; e a Península da Crimeia, sob controle da Rússia. Essa situação começou a ser gerada em 2013, quando o então presidente Viktor Yanukovych se negou a assinar os termos de um acordo de cooperação com a União Europeia para buscar apoio com o Kremlin.

Este foi o estopim para uma série de protestos – o Euromaidan – que se estenderiam por 2014 acompanhados de repressão. Sem condições de governar, Yanukovich deixa o país e se refugia, provavelmente na Rússia, com paradeiro desconhecido. As acusações de violência de um governante pró-russo facilitaram a chegada ao poder de Petro Poroshenko, magnata ucraniano formalmente comprometido com as reformas modernizantes para futura integração com a União Europeia.

Kiev foi o epicentro dos acontecimentos que representavam o centro e o oeste do país, cuja maioria de seus habitantes fala o ucraniano e se sente motivada a integrar a União Europeia. Mas, o mesmo não era válido para o leste e sul, mais “eurocético”. Na esteira dos acontecimentos, o referendo da Crimeia em 16 de março de 2014 sobre a possibilidade de se juntar à Rússia, com 96,77% de aprovação, deu a “legitimidade” para que a Rússia anexasse a península e fosse dado apoio militar e humanitário aos rebeldes no Donbass, levando a uma animosidade crescente entre os governos russo e ucraniano.

Restou à Ucrânia manter estratégias complementares em três níveis de atuação:

1ª. Militar – as tropas ucranianas lutam na frente de batalha contra as forças separatistas pró-russas;

2ª. Diplomática – Kiev busca apoio da comunidade internacional, embora seja uma estratégia difícil na medida em que a Rússia faz parte do Conselho de Segurança da ONU, com poder de vetar determinadas Resoluções;

3ª. Econômica – busca de apoio na aplicação de sanções contra a Rússia e na criação de incentivos para o término da guerra.

Seja em seu passado ou no seu presente, a Ucrânia não é só dividida por forças externas, mas também apresenta uma dicotomia interna entre grupos étnicos e linguísticos com opções e visões políticas majoritárias antagônicas. Entre uma nação pró-russa ou pró-europeia há uma terceira via de estruturação política: o chamado “estado-tampão”. A ideia é seguir um modelo independente em que não se alie a nenhum dos poderes que disputa seu apoio, especialmente sem formular sua política externa de acordo com o interesse de nenhum outro governo estrangeiro, leia-se Moscou ou Washington.

No entanto, conforme tem sido observado, sua aplicação não é algo fácil, especialmente quando lideranças locais desejam uma maior integração com um outro país, com uma ou outra economia. Enquanto empresários e profissionais autônomos desejam ampliar seus laços com polos próximos, em cidades como Varsóvia ou Frankfurt, o Leste, com a indústria de extração mineral, vê o mercado russo como um porto seguro para seus empregos e modo de vida.

Mapa da Orientação Geopolítica da População Ucraniana, 2015

Embora haja casos bem-sucedidos de Estados-tampão na história, como a Finlândia, a Suécia e Áustria o foram durante a Guerra Fria, ou a Suíça durante séculos, nem sempre houve sucesso, como se viu no caso da Bélgica durante a I Guerra Mundial, da Polônia no Entre Guerras, ou do Afeganistão no século XIX. Além disso, não se pode descartar as constantes intrigas internas que irão ocorrer pela busca de apoio externo e acusações mútuas de interferência. Normalmente, Estados-tampão funcionais são aqueles que não apresentam grau de ameaça alguma para seus vizinhos ou potências em disputa, e, conforme se observa, este não é o caso da Ucrânia.

Em termos militares, a vantagem para Moscou nesta disputa é que não há um interesse concreto na invasão militar por parte da OTAN, nem tampouco em armar a Ucrânia, pois os custos e riscos de uma operação desta monta seriam muito elevados.

Para a Rússia, a Ucrânia oferece: (a) posição estratégica e (b) produtos agrícolas e minerais. Enquanto que os últimos têm grande importância, o primeiro é fundamental para a existência da Federação Russa. A longa linha de fronteira e a distância de apenas 490 quilômetros do território ucraniano em uma topografia plana, de fácil travessia, tornam sua defesa imprescindível.

Acrescente-se que os portos ucranianos de Odessa e de Sevastopol na Crimeia são mais importantes que o de Novorossiysk, localizada no Krai de Krasnodar e ponto chave de acesso ao Mar Negro, e permitem a presença e influência russas nos mares Negro e Mediterrâneo. Os outros portos russos ao norte, no Báltico, têm seus mares congelados no inverno e podem ser bloqueados pela Groenlândia-Islândia-Reino Unido a oeste; pela Dinamarca no Báltico; e pelo Japão no extremo Leste.

Uma Ucrânia neutra pode ser algo desejável, mas não é garantia de estabilidade do ponto de vista russo, dadas as possibilidades de mudança da percepção social (como já ocorreu) e de posição política interna. Acredita-se que o caminho esteja na constituição de parcerias internacionais para um desenvolvimento conjunto. Daniel Drezner avaliou a melhor solução para conflito que passa pela restauração econômica do país: “Para salvar a Ucrânia e, eventualmente, restaurar uma relação de trabalho com Moscou, o Ocidente deve procurar fazer da Ucrânia um estado neutro entre a Rússia e a OTAN. Deveria se parecer com a Áustria durante a Guerra Fria. Para esse fim, o Ocidente deveria explicitamente tirar a expansão da União Europeia e da Otan, e enfatizar que seu objetivo é uma Ucrânia não alinhada que não ameace a Rússia. Os Estados Unidos e seus aliados também devem trabalhar com Putin para resgatar a economia da Ucrânia, uma meta que é claramente do interesse de todos”.

A Ucrânia é interesse estratégico para a Rússia, e grandes potências não abandonam seus interesses estratégicos. Nesse sentido, conforme vem sendo destacado por analistas, armar o país é ideia arriscada que potencializaria a crise. Pelos elementos observados, conclui-se que os líderes russos não vão aceitar a retirada da Ucrânia de sua órbita de influência e a solução para o conflito não passa pelo confronto, mas pela diplomacia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Encontro entre Viktor Yanukovych e Vladimir Putin, 25 ago. 2012” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/16298

Imagem 2 Mapa da Orientação Geopolítica da População Ucraniana, 2015” (Fonte): http://soc-research.info/blog/index_files/category-geopolitics.html