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Rodrigo Duterte, O Adversário Filipino da Igreja Católica

Colônia de Espanha até o final do império ultramarino daquele país europeu, em 12 de junho de 1898[1], as Filipinas tiveram seu século XX marcado pela ocupação norte-americana, a ditadura de Ferdinando Marcos (1965-1986) e, também, as atividades terroristas do grupo insurgente Abu Sayyaf, ativo desde 1991. O país, atualmente com 100 milhões e 699 mil habitantes[2], onde oito em cada dez cidadãos possuem, como sua, a fé católica, tem a maior concentração de católicos de todo o continente asiático.

Nascido em 1945, Rodrigo Duterte é um advogado e político filipino que, ao longo dos últimos 22 anos, serviu como Prefeito de Davao, a terceira maior cidade do país, na ilha de Mindanao, onde se popularizou por suas políticas implacáveis em relação a criminosos, traficantes de droga e outros fora-da-lei. Acredita-se que Duterte esteve envolvido em centenas de execuções extrajudiciais de elementos socialmente indesejados. Posicionado contra a elite que governou o país ao longo das últimas três décadas, o líder filipino, popularmente conhecido através do apelido Digong[3], foi eleito, no dia 9 de maio, Presidente do país, na sequência de uma campanha eleitoral repleta de provocações. Em seu último comício, Duterte asseverou: “Esqueçam as leis sobre os direitos humanos”; “Se for eleito Presidente, farei exatamente o que fiz como Prefeito. Vocês, traficantes, assaltantes e canalhas, seria melhor que fossem embora, porque vou matá-los”.

Também conhecido, entre seus concidadãos, como o Justiceiro[4], Duterte protagonizou uma campanha eleitoral em que o grande adversário foi, não os opositores políticos – Mar Roxas e Grace Poe –, mas sim a Igreja Católica, que o acusa de ser mulherengo. Em 30 de novembro do ano passado, num discurso proferido na qualidade de candidato do partido PDP-Laban às eleições presidenciais de 2016, Rodrigo Duterte amaldiçoou o Papa Francisco devido ao fato de, durante a viagem apostólica do Sumo Pontífice às Filipinas, em janeiro de 2015, ele ter ficado retido no trânsito de Manila. Aludindo ao incidente protagonizado por Duterte, o Arcebispo Dom Socrates Villegas, Presidente da Conferência dos Bispos Católicos das Filipinas (CBCP), declarou que a “vulgaridade é a corrupção”, tendo lamentado que as pessoas se tornem “brutais e bárbaras”, ainda que achem engraçadas declarações como as de Digong. O Arcebispo sublinhou que, “quando um homem reverenciado, amado e admirado, como o Papa Francisco, é amaldiçoado por um candidato político e o público ri, somente posso curvar minha cabeça e lamentar envergonhado. Meus compatriotas foram até à última gota” no plano da dignidade, referiu o Prelado. Alguns meses mais tarde, o Papa recebeu, com aparente cordialidade, uma carta de Duterte, que foi respondida pelo Arcebispo Dom Giovanni Angelo Becciu – o substituto do alto funcionário para os Assuntos Internos do Vaticano – que, com a missiva, colocou ponto final no desaguisado[5].

Na sequência da desaprovação de sua candidatura, pela CBCP, Duterte, no campus da Universidade das Filipinas, em Iloilo City, retomou seus ataques à Igreja Católica. No dia 18 de abril, se dirigindo aos fiéis católicos, ele garantiu “a todos os católicos romanos: escutem o vosso Bispo. Não votem em mim ou vocês irão para o inferno”. Digong fez a observação um dia depois de Dom Socrates Villegas ter publicado, em sua conta numa rede social, um vídeo do candidato presidencial, em que ele gracejava acerca do estupro coletivo de Jaqueline Hamil, uma missionária australiana que foi assassinada durante a tomada de reféns numa prisão de Davao, em 1989. Comentando o vídeo que motivou a polêmica, o Presidente da CBCP escreveu: “Julgue por si mesmo se esta é a escolha certa. Vou manter o meu julgamento pessoal para mim. Este vídeo pode ajudar”. Por outro lado, o Arcebispo de Cebu, Dom Jose Palma, referiu aos repórteres, em 18 de abril: “Quando elegemos alguém, nós esperamos que eles sirvam mas, ao mesmo tempo, eles também devem se relacionar com outras pessoas de muitas partes do mundo”. Palma aproveitou para inquirir: “E se esse tipo de brincadeira se espalhar para pessoas de diferentes partes do mundo? Podemos nos sentir à vontade com esse tipo de pessoa?”.

Rodrigo Duterte é adepto do planejamento familiar, opção que contribui para o colocar em rota de colisão com a Igreja Católica. Falando aos jornalistas, Digong afirmou que, se nas Filipinas, “o programa de planejamento do Governo não avança, isso se deve ao fato de os líderes do país sempre se reportarem à Igreja Católica”. Em contrapartida, no município de Davao, onde os contraceptivos são fornecidos gratuitamente, o planejamento familiar se encontra “vigorosamente implementado”. Para o país, destacou Duterte, o objetivo consiste na adoção de uma política de 3 filhos por família. Entrementes, naquela oportunidade, o Presidente eleito das Filipinas anunciou: “Eu sou cristão mas sou realista e nós temos que fazer algo quanto à superpopulação”. Tendo afirmado que poderia ofender os setores religiosos com suas asserções, Digong acentuou que “as crenças fundamentais já não conseguem resolver o problema de nosso país”, pelo que “eu tenho uma visão diferente; eu desafio a opinião ou a crença da Igreja”. Optando por uma hermenêutica literal da Bíblia, Duterte defende, portanto, que as ideias que constam no Antigo e no Novo Testamento foram “escritas há 2000 anos e não estão relacionadas, ou encontram relevância, com nossa sociedade”, pelo que, para o político, as posições do catolicismo já não são relevantes. Tendo, a respeito dos valores sagrados, uma vivência pós-moderna sustentada numa relação direta e individual com Deus, Duterte descartou, publicamente, o papel da religião naquela relação. Segundo ele, “a melhor coisa é preparar-se, apenas para rezar a Deus quando você está sozinho numa sala silenciosa”. Deste modo, acrescentou, “eu tenho essa fé profunda e duradoura em Deus. Mas isso não significa que você tenha que ter uma religião ou seguir alguém”. Num entendimento imanente, do mundo e da vida, Duterte considera não dar “muita importância para o espiritual; não vai ajudar, para dizer a verdade. Você deve se preocupar com o que você sofre, aqui neste planeta”, concluiu o político, para quem “a instituição mais hipócrita é a Igreja Católica”.

Digong, que será empossado no dia 30 de junho, revelou que pode vir a dissolver o Congresso, instalando um Governo revolucionário. Apelando à separação estrita entre a Igreja e o Estado, o mandato do novo Presidente das Filipinas não augura tempos pacíficos para a Igreja Católica. Com suas bravatas, Rodrigo Duterte se insere no lote mundial de políticos que, admitindo uma interpretação instrumental do mundo e da vida, assume o poder a partir de uma visão supra-partidária animada pelos chamados interesses nacionais. Para este grupo de políticos, emergente no século XXI, em que se inserem o próprio Duterte, Donald Trump, nos Estados Unidos, Marine Le Pen, em França, e Jair Bolsonaro, no Brasil, a prática política é encarada como sendo peculiar ao demônio de Laplace, situado além do terreno específico da realidade político-social[6]. Para eles, e seus adeptos, a realidade se situa além da consideração a ter para com a alteridade. Para eles, tal como nos modelos que os inspiram, denunciados pela História, o destino está traçado. Ele será o domínio do confronto, tanto mais acirrado quanto mais ele se materializar contra as instituições de referência numa sociedade, como é o caso da Igreja Católica, nas Filipinas.

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ImagemRodrigo Duterte” (Fonte):

http://asiapacific.anu.edu.au/newmandala/wp-content/uploads/2016/04/Duterte-large.jpg

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Notas e Fontes bibliográficas:

[1] Após a independência, as Filipinas ficaram sob domínio dos Estados Unidos, cujos cidadãos exploraram o comércio e cujos pastores protestantes asseguraram a manutenção dos centros educacionais. Somente em 4 de julho de 1946 o Governo norte-americano reconheceu a independência do país asiático.

[2] United Nations, World Population Prospects: The 2015 Revision, s. l., Population Division – Department of Economic and Social Affairs, julho de 2015 [File POP/1-1: Total population (both sexes combined) by major area, region and country, annually for 1950-2100 (thousands)].

[3] Diminutivo de Rodrigo, tal como Drigo, Digong é, nas Filipinas, a popularização afetuosa deste nome próprio.

[4] Criado pela Marvel Comics, o personagem Punisher – conhecido em Portugal e no Brasil como Justiceiro – é um anti-herói fictício da história em quadrinhos norte-americana. O Justiceiro, a partir da prática de assassinatos, raptos, extorsões, ameaças violentas e tortura, leva a cabo sua guerra solitária contra o crime, fazendo uso dos mais diversos materiais de guerra.

[5] Diz a carta: “Sua Santidade, o Papa Francisco, recebeu sua carta de 21 de janeiro de 2016, e pediu-me para responder em seu nome. Ele apreciou os sentimentos por si expressos. O Santo Padre oferece a garantia de orações para si, como invoca sobre vós as bênçãos divinas da sabedoria e da paz”.

[6] Aquilo que, em sua prática política, os novos políticos apregoam é, precisamente, a equidistância neutra relativamente às ideologias. No entanto, não é possível denunciar uma ideologia sem se fazer uso de outro paradigma ideológico.

A matriz do problema das ideologias faz com que elas sejam consideradas como parciais ou adequadas, e não como verdadeiras ou falsas. Por outro lado, contemporaneamente, não é possível a abordagem do fenômeno político-social sem se adotar um posicionamento ideológico, na medida em que qualquer ideologia nasce de nosso desejo grupal de tornar compreensível o mundo em que vivemos. Deste modo, entender a política desde a equidistância das paixões e desejos humanos equivale ao reviver do demônio de Pierre Simon Laplace, teorizado no Ensaio Filosófico acerca das Probabilidades, segundo o qual uma inteligência que, na posse de todas as variáveis que animam a Natureza, e a situação respectiva dos seres que a compõem, ditaria os rumos do futuro, negando, assim, a possibilidade do livre arbítrio.

NOTAS ANALÍTICASOCEANIAORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Austrália lança seu primeiro ataque ao ISIS na Síria

Nesta segunda-feira, 14 de setembro, o Governo australiano confirmou ter lançado seus primeiros ataques aéreos contra alvos do Estado Islâmico do Iraque e de ElSham dentro da Síria. O país é parte de uma coalizão militar internacional de ataque aos redutos do ISIS na Síria e no Iraque[1]. Três ataques aéreos foram feitos no início desta semana, destruindo um veículo blindado, uma unidade tática e um ponto de coleta de petróleo bruto, declarou os Estados Unidos em um comunicado. A Força Aérea Australiana vem bombardeando alvos do ISIS no Iraque a cerca de 12 meses[1].

O exprimeiroministro australiano Tony Abbott confirmou na semana passada que a Força Aérea Real Australiana (RAAF) estenderia sua ação do Iraque para a Síria, a pedido dos EUA, onde os militantes islâmicos já detêm controle de grandes áreas do território em meio a uma atroz guerra civil[2]. Abbott também anunciou que a Austrália aceitaria 12.000 refugiados sírios de minorias perseguidas[1].

O Ministro da Defesa da Austrália, Kevin Andrews, declarou que as operações são “parte de nossa extensão lógica na luta contra o Daesh para que operemos não apenas sobre o norte do Iraque, mas de modo a operar também sobre o leste da Síria, a fim de degradar e destruir as forças do Daesh[3], disse o Ministro a repórteres, usando o acrônimo em árabe para Estado islâmico.

A Austrália se juntou à coalizão liderada pelos Estados Unidos lutando contra o Estado Islâmico no ano passado e, na semana passada, estendeu suas operações aéreas para a Síria, alegando que a base jurídica para tanto seria a legítima defesa coletiva do Iraque contra o grupo jihadista[3]. O Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita, Jordânia, Canadá,Turquia e França foram algumas das outras nações que participaram dos bombardeios mais recentes, de acordo com um comunicado emitido pelo Comando Central dos EUA. Outras quinze operações aéreas foram realizadas no Iraque, fazendo uso de ataques, bombardeiros, aviões de caça, caças de ataque e aeronaves remotamente pilotadas, declarou o relatório[1]. A França vem realizando voos de vigilância sobre a Síria, em preparação para ataques aéreos[3]. Já a GrãBretanha matou dois jihadistas em um ataque de drones na Síria, na semana passada[3].

Andrews declarou que a RAAF engajou-se em dois ataques aéreos na segunda-feira – um sobre uma planta de coleta de petróleo controlada pelo ISIS e outro sobre uma unidade tática[4]. O Ministro afirmou que nenhum civil sírio ficou ferido durante a missão e que os F/A18A, caças multifunção da Austrália, não estiveram sob risco de se depararem com fogo inimigo[4]. Kevin Andrews argumenta que os drones da RAAF identificam os alvos e empregam armas de precisão guiadas para destruí-lo, “o que é feito a partir de uma distância ou altura que preserva a segurança da aeronave australiana[1][5], declarou Andrews. “Trabalhamos dentro de regras muito estritas de engajamento, e essas regras de engajamento devem assegurar, tanto quanto possível, que nós não tenhamos mortes indesejadas de civis[1][5].

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Imagem Aviões militares F/A18A voam em formação com um avião de transporte KC30A petroleiro multifunção, durante a primeira missão australiana de sobrevoo sobre a Síria” (FonteForça de Defesa Australiana):

http://www.abc.net.au/news/2015-09-12/fa-18a-hornets-from-australia27s-air-task-group-fly-in-formati/6770918

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-australia-34265118

[2] Ver:

http://www.abc.net.au/news/2015-09-12/islamic-state-australian-war-planes-begin-syria-combat-mission/6770822

[3] Ver:

http://www.japantimes.co.jp/news/2015/09/16/world/australia-launches-first-airstrike-islamic-state-syria/#.Vfrf4RFVhHx

[4] Ver:

http://usa.chinadaily.com.cn/world/2015-09/16/content_21889697.htm

[5] Ver:

http://www.abc.net.au/news/2015-09-16/australian-fighter-jets-first-air-strikes-syria-us-military/6779104