NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A militarização do estreito de Hormuz

O Estreito de Hormuz, faixa oceânica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, tornou-se tema de acaloradas discussões nos últimos meses. Especificamente nas últimas semanas, os Estados Unidos apresentaram a proposta de aumentar a presença militar na região, visando proteger o tráfego de navios comerciais na área. 

A passagem é de importância econômica reconhecida pelo mundo inteiro e as tensões preocupam vários países. Pelo Estreito de Hormuz passam diariamente 21 milhões de barris de petróleo. Em 2018, de acordo com Agência de Informação sobre Energia (EIA, na sigla em inglês) do governo dos Estados Unidos, a quantidade de combustível cruzando a região representou 21% do total consumido no mundo.

Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a divisão territorial

Segundo os Estados Unidos, os aliados são conclamados a somar esforços para pressionar o Irã e mitigar o que o Secretário de Estado estadunidense, Mike Pompeo, classificou como “um comportamento desestabilizador”. A proposta foi estendida a cerca de 30 países, dos quais somente o Reino Unido e Israel garantiram participação. A Alemanha e o Japão recusaram a participação, temendo um possível desequilíbrio.  

Desde julho de 2019 uma escalada de agressividade militar tem tomado lugar na região: a Guarda Revolucionária do Irã derrubou um Veículo Aéreo Não-Tripulado que sobrevoava o que o governo iraniano informou ser seu espaço aéreo sobre a região; os Estados Unidos afirmam ter derrubado um VANT iraniano também sobre o Estreito de Hormuz, ainda que Teerã não reconheça a perda; e a Marinha do Irã alega haver interceptado três cargueiros, incluindo um navio-tanque britânico transportando petróleo.

Navios Velayat-90, da Marinha Iraniana, realizam exercício naval

Em recente conferência realizada no Turcomenistão, o vice-presidente iraniano Eshaq Jahangiri afirmou que “a segurança da região somente pode, e deve, ser estabilizada pelos países da região”. Segundo Jahangiri, o Estreito de Hormuz é “uma linha vermelha” para o Irã e , de acordo com ele, as ações estadunidenses são “provocativas”.

Por hora, as ações militares não são claras. Somente o Reino Unido afirmou que destacará dois navios de guerra para a região. O Irã afirmou através do Porta-Voz do Ministério das Relações Exteriores que o envio de navios de guerra israelenses para esta iniciativa será considerada como uma ameaça à sua soberania, e que este elemento sozinho pode “desencadear uma crise”.

O destroier USS Jason Dunham realiza exercício naval no Egito

Outros países na área apressaram-se em expressar uma veemente negativa. O Ministro das Relações Exteriores do Iraque, Mohammed Ali al-Hakim, afirmou em suas redes sociais que a presença israelense no Golfo Pérsico é “inaceitável”.

Em recente declaração sobre o momento político que vive a região, o Ministro de Indústria e Comércio de Singapura, Koh Pon Koon, afirmou que Estados Unidos e Irã devem buscar entendimento em sua projeção de disputa, no interesse de manter “as linhas de comunicação marítimas abertas, livres e seguras”. Um potencial conflito poderia ter efeitos sensíveis no abastecimento energético global.

De acordo com a EIA, a inaptidão ao trânsito em um gargalo central como Hormuz, ainda que temporária, resultaria em severos atrasos, bem como aumento nos custos de transporte e energia no geral.

Há uma capacidade limitada para contornar uma possível interrupção do trânsito no Estreito. Somente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem uma rede de oleodutos capazes de entregar óleo bruto contornando a rota de Hormuz. A capacidade conjunta das redes nos dois países é de 6,5 milhões de barris por dia.

Em 2018, ambos transportaram uma média de 2,7 milhões de barris por dia, contando, portanto com uma capacidade ociosa de 3,8 milhões barris ao dia, distante de suprir o transporte dos 21 milhões que cruzam o Estreito diariamente, em uma eventual emergência.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Comboio da Marinha dos Estados Unidos atravessa o Estreito de Hormuz em 2016”(Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Strait_of_Hormuz#/media/File:CVN_69_transits_the_Strait_of_Hormuz_(28465403076).jpg

Imagem 2Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a divisão territorial” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Strait_of_Hormuz#/media/File:Strait_of_hormuz_full.jpg

Imagem 3Navios Velayat90, da Marinha Iraniana, realizam exercício naval” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Islamic_Republic_of_Iran_Navy#/media/File:Iranian_Velayat-90_Naval_Exercise_by_IRIN_(5).jpg

Imagem 4O destroier USS Jason Dunham realiza exercício naval no Egito”(FonteEspecialista em Comunicação Massiva 3a Classe Jonathan Clay/Marinha dos Estados Unidos): https://www.dvidshub.net/image/4532965/us-navy-photo-mass-communication-specialist-3rd-class-jonathan-clay-released

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Israel realiza ataque aéreo a posições militares no Iraque

Israel realizou incursões com caças F-35 em espaço aéreo iraquiano nos dias 19 de julho e 31 de julho. Em ambos momentos, as aeronaves sobrevoaram e realizaram ataques a posições em solo. Os principais alvos que sofreram danos foram as bases militares de Amirli Abu Montazer al-Muhammadavi, conhecida como Camp Ashraf. As posições atingidas estão localizadas nos estados de Saladin e Diyala, ambos no nordeste do Iraque.

De acordo com veículos midiáticos, como o Jerusalem Post, os ataques tiveram como principal alvo posições onde encontravam-se emissários militares e possivelmente armamento iraniano.

A ação reverberou e produziu uma série de reações de surpresa no país, principalmente devido ao silêncio de Bagdá sobre os incidentes. Até o dia 8 de agosto, o governo iraquiano não havia emitido uma posição sobre o ocorrido.

Frente ao silêncio do governo do país, um grupo significativo de parlamentares iraquianos vêm cobrando uma posição. Eles rememoram declarações do atual Primeiro-Ministro do país, Adel Abdul-Mahdi, que, frente a questionamentos, afirmou categoricamente que o Iraque não se tornaria uma base para realizar ataques ao Irã. Também foram vistas com surpresas declarações recentes do embaixador iraquiano para os Estados Unidos, que afirmou existirem “razões objetivas para buscar uma normalização das relações com Israel”.

O primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul-Mahdi em discurso

As acusações que recaem sobre o governo variam de uma exposição do país frente a um complexo conflito até a colaboração com Israel, identificado com histórico adversário dos interesses iraquianos.

O Times of Israel afirma que integrantes do grupo libanês Hezbollah e da Guarda Revolucionária do Irã baseados nesta região do Iraque teriam resultado em feridos ou como fatalidades dos ataques. Segundo o jornal, emissários das Forças de Defesa Israelenses recusaram-se a comentar o assunto ao serem consultados.

O governo israelense já afirmou, entretanto, que o Campo de Ashraf estaria sendo usado como base para equipamento militar iraniano. Em agosto de 2018, uma reportagem da Reuters afirmava que o Irã havia transferido mísseis balísticos para grupos xiitas dentro do Iraque.

Mísseis Fateh 110, de fabricação iraniana, sendo disparados

Os armamentos seriam respectivamente dos modelos Zelzal, Fateh-110 e Zolfaqar, cujo raio de alcance varia entre 200 e 700 quilômetros, colocando, portando, cidades como Tel Aviv no seu raio de alcance, se disparados de território iraquiano.

Ainda assim, uma investida militar representa uma mudança na trajetória das relações entre os países que causa espanto à maioria dos observadores. O Iraque, apesar de haver repetidamente conclamado sua neutralidade, é reconhecido como um aliado dos Estados Unidos na região.

Os rumores e tensões vinculados ao ataque aumentam o debate sobre a estabilidade na área e possíveis frentes de batalhas que poderiam ser abertas, além de gerar difíceis questionamentos aos governantes da região.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Aeronave de caça f35I, da Força Aérea de Israel (IAF), em operação em 2018” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Martin_F-35_Lightning_II#/media/File:IAF-F-35I-2016-12-13.jpg

Imagem 2O primeiroministro iraquiano Adil AbdulMahdi em discurso”(Fonte Página Oficial do primeiroministro Adil AbdulMahdi no Facebook): https://www.facebook.com/Adil.Abd.Al.Mahdi1/photos/pcb.2623407917723732/2623407724390418/?type=3&theater

Imagem 3Mísseis Fateh 110, de fabricação iraniana, sendo disparados” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Fateh-110#/media/File:Fateh-110_Missile_by_YPA.IR_02.jpg

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Crescimento da tensão e possibilidade de enfrentamento entre Estados Unidos e Irã

Entre os dias 20 e 22 de junho, o mundo acompanhou com certa tensão o aumento na complexidade da relação entre Estados Unidos e Irã. Em um comunicado, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou haver identificado um Veículo Aéreo Não-Tripulado (VANT) violando seu espaço aéreo.

Como medida preventiva, o país afirmou que abateu o VANT RQ-4A Global Hawk na madrugada de quinta-feira, dia 20 de junho. As autoridades iranianas salientaram ainda haver contatado Washington, para alertar que suas aeronaves haviam adentrado o espaço aéreo iraniano. Também ressaltam a presença de uma aeronave B8, que possuía 35 tripulantes a bordo em companhia do VANT.

De acordo com o general de brigada Amir Ali Hajizadeh, a segunda aeronave também havia violado espaço aéreo do país. A Guarda Revolucionária, no interesse de não causar conflitos, procedeu com a derruba somente do veículo não tripulado.

O Pentágono confirmou que uma aeronave da Força Aérea dos Estados Unidos havia sido abatida. Entretanto, sustentou que, no momento em que foi atacado, o veículo em questão encontrava-se sobrevoando águas internacionais, sobre o Estreito de Ormuz, não reconhecendo a legitimidade do reclamo iraniano.

Até o momento, as questões entre os dois países haviam permanecido sobretudo no campo discursivo e em medidas econômicas. Ao redor do mundo, diversos analistas e políticos demonstraram pouca convicção de que os eventos pudessem escalar para um confronto militar, ao menos não a um direto.

O presidente do Irã, Hassan Rouhani, em recente discurso em frente ao Ministério da Saúde, em Teerã

Considerando ataques pontuais que ocorreram a aliados estratégicos dos Estados Unidos no Oriente Médio, notoriamente a destruição de um oleoduto saudita no Iêmen pelas milícias Hutus e o ataque a quatro cargueiros pertencentes aos Emirados Árabes Unidos, as avaliações preliminares indicavam que a escalada de violência se daria por vias indiretas. Ainda assim, considera-se o uso de combates assimétricos, como a participação de milícias pró-Irã em ataques, um elemento presente e que contribuiria para envolver todo o Oriente Médio em um eventual confronto.

Dentre o próprio círculo dos tomadores de decisão em Washington havia pouca disposição em buscar um conflito com o Irã. Frente ao novo cenário, as tensões são maiores, ainda que o Presidente dos EUA, Donald Trump, tenha afirmado que ordenou a suspensão de um ataque eminente a bases militares iranianas.

Segundo o próprio Presidente, este tomou a decisão ao ser informado que o ataque resultaria na morte de 100 iranianos, o que seria desproporcional. Em um tweet posterior, publicado no dia 25 de junho, Trump salientou que o ataque a “qualquer alvo estadunidense” seria respondido com uma “força grande e avassaladora”. Questionado posteriormente, ele frisou que “avassaladora em alguns casos significa obliteração”.

Em visita à Israel, o assessor de Segurança Nacional da Presidência dos EUA, John Bolton, afirmou, conforme relata o Huffington Post, que o Irã não deve tomar “a prudência e discrição dos EUA por fraqueza”, afirmando que uma ação militar não está descartada.

O assessor especial para a Segurança Nacional, John Bolton, saúda o premier israelense Benjamin Netanyahu, após medidas para pressionar o Irã, em Jerusalém

Frente a ameaças de incrementos nas sanções, o presidente iraniano Hassan Rouhani afirmou em conferência de imprensa, realizada no dia 25 junho, que a Casa Branca vem sofrendo de “instabilidade intelectual”, que o presidente Trump não se porta de “forma sã”. Ainda de acordo com a Agência de Notícias da República Islâmica, Rouhani afirmou que as sanções cumprem uma tarefa que, além de desumana, não surte efeitos, simbolizando a clara derrota política dos Estados Unidos.

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Fontes das Imagens:                                                                                                                 

Imagem 1O General de Brigada Amir Ali Hazijadeh, comandante da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária do Irã, observa os destroços do VANT estadunidense abatido” (FontePágina Oficial da Agência de Notícias da República Islâmica no Twitter @IRNAEnglish): https://twitter.com/IrnaEnglish/status/1143187263045742592

Imagem 2O presidente do Irã, Hassan Rouhani, em recente discurso em frente ao Ministério da Saúde, em Teerã” (FontePágina Oficial da Agência de Notícias da República Islâmica no Twitter @IRNAEnglish): https://twitter.com/IrnaEnglish/status/1143549664559587334)

Imagem 3O assessor especial para a Segurança Nacional, John Bolton, saúda o premier israelense Benjamin Netanyahu, após medidas para pressionar o Irã, em Jerusalém” (FontePágina Oficial de John Bolton no Twitter. @AmbJohnBolton): https://twitter.com/AmbJohnBolton/status/1142757809680977921

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Perspectivas políticas de Israel frente à uma nova eleição

O Knesset, Parlamento de Israel, possui um ciclo de mandato de 4 anos e, hoje, busca renovar a presença de atores da sociedade dentro da principal estrutura política do país. Entretanto, segundo seu regulamente interno, é possível dissolver o Parlamento, adiantando o período de eleições. Para tanto, o Primeiro-Ministro ou o Presidente do país devem invocar tal medida, necessitando ser apoiado pela maioria da casa.

Em dezembro de 2018, o premier Benjamin Netanyahu entrou com pedido para a dissolução do 20o Knesset, solicitando, portanto, a antecipação das eleições do país. O processo eleitoral, que deveria ocorrer idealmente em outubro de 2019, foi abreviado para 9 de abril passado.

As escolhas que levaram à tomada desta medida não foram totalmente esclarecidas pelo Premier ou pelo Likud, partido do qual ele faz parte, entretanto, analistas do processo em Israel apontam alguns motivos. O partido possuía uma maioria bastante exígua, que era marcada por somente um voto a mais, totalizando 61 parlamentares na casa com 120.

Também se via ameaçado por dois fatores. O primeiro era a ascensão da coalizão Azul e Branco. A nova legenda apresentou como novidade o General reformado das Forças de Defesa de Israel, Benjamin Gantz, principal adversário de Netanyahu na disputa pelo comando do Parlamento. Em segundo lugar, o julgamento de corrupção que é movido contra Netanyahu.

Apesar de aumentar sua presença no Parlamento, o Likud não provou ser capaz de produzir a maioria necessária para apontar o próximo Primeiro-Ministro*. Em casos extremos, quando não é possível alcançar o consenso, o Presidente ou Primeiro-Ministro do país podem pedir uma moção para realizar novas eleições.

Benny Gantzdiscursa como Membro do Knesset eleito

O 21o Knesset, que tomou posse no dia 30 de abril de 2019, trouxe uma composição complexa. O Likud terminou as eleições com 35 assentos, mesmo número da coalizão Azul e Branco. Após um mês de negociações, como dito, o Likud não conseguiu reunir a maioria necessária entre os partidos de direita para apresentar um gabinete.

Frente à possibilidade de ver seu adversário apresentar uma alternativa de composição, Netanyahu colocou em votação nova dissolução do Parlamento. No dia 30 de maio, o 21o Knesset aprovou sua própria dissolução.

Tal ação não significa um vácuo de poder. Como aconteceu desde dezembro do ano passado (2018), a Lei Básica de Israel determina que seja mantido um governo provisório, encarregado da manutenção do Estado e da promoção de novas eleições. Netanyahu permanece na posição de Primeiro-Ministro, bem como os parlamentares eleitos, que cumprirão funções administrativas sem votar leis. Para Amir Fuchs, diretor do Instituto Defendendo os Valores Democráticos do Programa de Israel, 2019 será “um ano perdido” para o país.

O Plenário do Knesset vazio, em Tel Aviv

Entretanto, com as eleições sendo previstas para ocorrerem em setembro próximo, até a formação de novo gabinete Israel terá permanecido quase um ano sob o comando de um governo provisório. Decisões importantes, como a nova legislação para assentamentos na Cisjordânia, matérias econômicas ou mesmo o orçamento de 2020 não poderão ser votadas até a posse do novo Knesset.

A decisão coloca o país em um estado de virtual paralisia até as eleições. Em uma tentativa de amortizar estes efeitos, há rumores de que o Likud e a coalizão Azul Branco buscariam um acordo, o que foi negado por ambos. Quanto à validade da manobra, as opiniões são divergentes.

Mesmo sobre esta questão, observa-se falta de convergência, pois uma parcela dos parlamentares afirma que seriam necessários 80 votos para reverter a dissolução, acreditando no recuo, no entanto, outro grupo partilha da visão do parlamentar do Likud, Miki Zohar, que afirmou ao Times of Israel:“Nós tentamos todo o possível para reverter as eleições antecipadas, mas já não há nada que se possa fazer”.

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Nota:

A legislação israelense requer maioria simples (50% + 1 dos votos) para nomear o Primeiro-Ministro.

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Fontes Consultadas:

Imagem 1 “Fachada do Knessetem Tel Aviv” (Fonte – Página Oficial do Knesset no Facebook @knesset): https://www.facebook.com/TheKnesset/photos/a.208518629234440/2122227054530245/?type=3&theater

Imagem 2 “Benny Gantzdiscursa como Membro do Knesset eleito” (Fonte – Página oficial de Benjamin Gantz no Facebook @BeGantz): https://www.facebook.com/BeGantz/photos/a.266606450683421/328858464458219/?type=3&theater

Imagem 3 “O Plenário do Knesset vazio, em Tel Aviv”(Fonte – Facebook oficial do Knesset): https://www.facebook.com/TheKnesset/photos/a.208518629234440/2142349105851373/?type=3&theater

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Como Israel é afetado nas negociações do Acordo com o Irã

Os Estados Unidos buscam aplicar as sanções e pressionar o Irã para a negociação de um acordo nuclear mais restrito do que o anteriormente assinado no marco do Plano de Ação Conjunto e Abrangente (Joint Comprehensive Plan of Action, da sigla em inglês, JCPOA). Atualmente, tem usado de restrições à compra de petróleo, bem como ao acesso a moedas estrangeiras, e tem classificado a Guarda Revolucionária do Irã como um grupo terrorista.

O governo israelense considera os Estados Unidos como um aliado vital, ao mesmo tempo em que entende que o Irã é sua maior ameaça no Oriente Médio. Desta forma, observa-se que uma escalada de enfrentamento na retórica ou ação entre os dois países teria um efeito direto sobre Israel.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sempre demonstrou que compactua com o projeto de Donald Trump em relação ao Acordo. Em distintas manifestações públicas expressou segurança ao afirmar que o Irã se retiraria dele e mentia quanto ao seu programa nuclear. O Times of Israel divulgou que o Primeiro-Ministro afirmou em vídeo que convenceu o Presidente estadunidense a deixar o JCPOA.

Tomadores de decisão em Israel defendem um aumento de pressão sobre a República Islâmica. Conforme afirmou Amos Yadlin, diretor do Diretor para Estudos de Segurança Internacional em Tel Aviv ao New York Times: “Ninguém pensa em mudança de regime militar, mas em enfraquecer o regime, enfraquecer a economia iraniana e fazer com que o povo iraniano mude o regime”. Dessa forma, veem com bons olhos uma maior pressão, que poderia, no entendimento israelense, levar à saída dos aiatolás e seus aliados.

Sofrendo os efeitos das ferramentas políticas e econômicas das quais os Estados Unidos lançam mão, o Irã decidiu suspender as contrapartidas com as quais havia se comprometido para manter o Acordo assinado em 2015. Por conta disso, o presidente iraniano Hassan Rouhani afirmou por suas redes sociais que o país “não manterá os programas de enriquecimento de urânio e produção de águas pesadas limitados”.

A declaração não implica em uma ameaça imediata, tampouco a capacidade de produzir urânio enriquecido dá a quem possua tecnologia suficiente para desenvolver armamentos, pois, isso exige tecnologias muito mais complexas. Pelos termos atuais do JCPOA, o Irã possui a permissão de enriquecer urânio à uma concentração de 3,67% – suficiente para alimentar uma usina comercial de energia.

Reagindo à retórica dos Estados Unidos, um enfrentamento direto é bastante improvável. Nenhuma das partes parece interessada em um confronto e grupos sob a influência dos dois lados podem reagir através de grupos de pressão para evitar também o confronto indireto. No entanto, esta escalada de conflitos pode envolver grupos de influência em distintos países, grupos como o Hezbollah podem reagir a pressões sobre o Irã.

O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unida

Além disso, os iranianos buscam diversificar suas relações para equilibrar sua posição frente às sanções e à uma retórica mais agressiva. Um parceiro que tem aparecido como primordial para esta empreitada é a Turquia, alinhando-se a políticas de segurança, como ações contra os curdos, e rivalizando com Israel. Também a Rússia vem ganhando um espaço de inserção ainda maior no Oriente Médio, como um aliado preferencial de Teerã.

O ex-diretor do Serviço Geral de Segurança de Israel, Carmi Guillon, afirmou em artigo à Foreign Policy o que as medidas que protejam o país devem almejar: “eliminem desastres e parem ameaças em progresso”. Segundo Guillon, o JCPOA desmantelou o projeto nuclear do Irã e colocou a República Islâmica em um sistema de responsabilidades. Isso evitaria um eventual guarda-chuva nuclear, ainda que retórico, impedindo os iranianos de apoiarem grupos infranacionais ou de fazer pressão sobre os vizinhos.

Acredita que, sem as garantias do Acordo, o Irã ficaria sob uma influência menor das normas internacionais, além disso, que Israel ficaria mais fragilizado frente a um vizinho com capacidades nucleares e grupos extra-regionais não alinhados com sua posição, e também surgiria uma renovada ameaça de grupos infranacionais.

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Nota:

* Para produzir armamento é necessário possuir urânio enriquecido à 90%. Não é comprovado que o Irã consiga gerar o combustível à uma concentração maior do que 20%. Entretanto, possui plenas capacidades de produzir água pesada e outros elementos do processo

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O PrimeiroMinistro israelense, Benjamin Netanyahu, em foto com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em agosto de 2018” (Fonte: Página oficial de Benjamin Netanyahu no Facebook): https://www.facebook.com/Netanyahu/photos/a.376960237075/10155574211902076/?type=3&theater

Imagem 2O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unidas” (Fonte: Twitter Oficial do Presidente do Irã@HassanRouhani): https://twitter.com/HassanRouhani/media?lang=es

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A reaparição de al-Baghdadi e o futuro do Estado Islâmico

Depois de haver sido considerado morto, Abu Bakr Al-Bagdadhi, o líder supremo do Estado Islâmico (EI – ou Daesh, ou ISIS como também é nomeado), reapareceu para o público em um vídeo divulgado através da rede Al-Furqan, mecanismo mediático da organização, no dia 29 de abril.

Políticos e especialistas interessados no Oriente Médio buscam compreender o significado de sua repentina reaparição. Al-Baghdadi não havia se manifestado desde 2018, data da divulgação dos últimos áudios atribuídos a ele, já que setores das Forças Armadas russas haviam afirmado a possibilidade de o líder terrorista haver sido eliminado já em 2017.

Sua última aparição pública registrada em vídeo ocorreu em junho de 2014, quando discursou na Grande Mesquita al-Nuri, após a tomada da cidade de Mosul. Neste momento, al-Baghdadi aparecia como autoproclamado Califa, em território na Síria e Iraque, com extensão semelhante à do Reino Unido.

Na aparição recente, uma figura mais envelhecida abandona a postura clerical, posando em trajes militares junto a um fuzil. Em sua mensagem, agradece o apoio de militantes no Mali e Burkina Faso, bem como louva o sacrifício de combatentes das mais distintas nacionalidades na Síria. Lista recentes atos terroristas, como uma forma de vingança a ser perseguida pelas perdas que a organização sofreu nos últimos anos.

A mudança em sua postura poderia indicar para alguns uma alteração em relação ao público com quem o ISIS busca dialogar. Para o Primeiro-Ministro do Iraque, Adel Abdul Mahdi, o vídeo foi uma “tentativa de motivar militantes e que o Daesh buscará novos ataques”.

O Estado Islâmico é hoje um problema difícil de caracterizar dentro da dinâmica política do Oriente Médio. Outrora detentor de uma pujante organização militar, com um exército que tomava cidade após cidade na região, atualmente, seus combatentes vêm sendo encurralados em combates, detidos ou mortos pelas forças de segurança dos governos locais.

Combatentes do Estado Islâmico desfilam após a tomada da cidade de Raqqa, no norte da Síria, em 2014. O grupo declarou a cidade como sua capital no mesmo ano

O ISIS não possui mais uma base física desde que as forças do governo da Síria em conjunto com SDF (Syrian Democratic Forces, grupo curdo que atua na região) expulsaram-no da cidade de Baghouz, na Síria. Ainda assim, muitos não consideram que seja uma ameaça desprezível, sobretudo pela capacidade de suscitar ações desestabilizadoras em distintos lugares.

Em sua breve aparição, o líder supremo da organização fez menções aos ataques ocorridos no Sri Lanka* e à batalha por Baghouz. Segundo reportou a Al-Jazeera, Baghdadi salienta o que os  “irmãos no Sri Lanka acalentaram os corações dos monoteístas, porque seus atentados sacudiram as camas dos cruzados durante a páscoa, para a vingança dos irmãos em Baghouz”**.

A alusão aos dois eventos do passado próximo representa para alguns analistas a determinação de que o vídeo é de fato recente. Além disso, pode indicar um incentivo à outra forma de ação, migrando de recrutar combatentes estrangeiros para uma disputa territorial, para uma ação terrorista transnacional, através de células adormecidas da organização.

Para além de suscitar o debate sobre a possibilidade de uma nova ascensão do Estado Islâmico, ou uma transformação nas atividades do grupo, a divulgação do vídeo no final do mês passado (Abril) produziu uma mobilização de alerta. O Reino Unido esclareceu que tropas da Real Força Área começaram imediatamente ações na Líbia, visando capturar o líder insurgente.

Também foi reafirmado pelo governo do Iraque que a organização permanece sendo uma “poderosa ameaça ao mundo”. Quanto à localidade do vídeo, somente foi afirmado que ele foi gravado em “uma localidade remota”, como um deserto. Especialistas em segurança divergem quanto as possibilidades. Hisham al-Hashemi, especialista em segurança para o governo do Iraque, afirma que o mais provável é que o outrora proclamado Califa encontre-se em um deserto na Síria ou no Iraque, localidades onde há ação de grupos de seus seguidores.

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Notas:

* Referência aos ataques do dia 21 de abril de 2019 (domingo de Páscoa), cuja autoria foi assumida pelo ISIS. Uma série de ataques à bomba em hotéis e igrejas cristãs na cidade de Colombo, capital do Sri Lanka, deixou 257 mortos e mais de 500 feridos.

** No contexto da mensagem, os “Monoteístas” são os seguidores do ISIS, enquanto os identificados como “cruzados” são os cristãos vitimados pelos ataques na Páscoa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O estandarte negro que foi proclamado como bandeira do Estado Islâmico” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Islamic_State_of_Iraq_and_the_Levant#/media/File:AQMI_Flag_asymmetric.svg

Imagem 2Combatentes do Estado Islâmico desfilam após a tomada da cidade de Raqqa, no norte da Síria, em 2014. O grupo declarou a cidade como sua capital no mesmo ano” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/ISIS_enters_Rakka.jpg