EUROPANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

O avanço da tensão diplomática entre Alemanha e Turquia

A tensão diplomática entre os governos alemão e turco tem escalado consideravelmente. Em declaração divulgada no dia 20 de julho de 2017, o Vice-Chanceler da Alemanha, Sigmar Gabriel, também responsável pelas relações exteriores, realizou recomendações severas contra a Turquia. O pronunciamento ocorreu um dia após o embaixador alemão em Ankara ter sido convocado para consulta, medida de caráter simbólico negativo na diplomacia.

O Vice-Chanceler orientou aos cidadãos alemães a não viajarem para o território turco e sugeriu que a assistência econômica fornecida ao país pela União Europeia deverá ser interrompida. Além disso, declarou que as garantias de crédito para exportação conferidas às empresas operando negócios na Turquia poderão ser suspensas. Gabriel afirmou ainda que o Governo não deve continuar oferecendo incentivos à uma nação onde não há certeza legal, em que pese o Governo turco ter acusado a Alemanha de espionagem e as suas empresas de envolvimento com grupos terroristas.

Desde a tentativa de golpe na Turquia, em julho de 2016, ações consideradas autoritárias no país têm avançado progressivamente. Vinte e dois alemães foram presos em Ankara desde então, sendo que 9 permanecem na prisão. O posicionamento alemão era de externada preocupação, porém as relações entre os países se mantinham. O estopim da mudança de abordagem foi a ordem de uma Corte turca condenando à prisão seis ativistas dos direitos humanos, incluindo uma alemã, diretora da Anistia Internacional, que foi detida durante um workshop conduzido pela organização.

A União Europeia parece apoiar o posicionamento alemão. Oficiais do Bloco europeu declararam que o diálogo com a Turquia será afetado e que as negociações sobre o ingresso turco à União não terão continuidade até que seja tomada alguma medida no que concerne ao autoritarismo. No entanto, as decisões tomadas pelo país têm seguido na direção contrária. 

A perspectiva é de que as relações entre Alemanha e Turquia se deteriorem cada vez mais. Deve-se considerar que ambas as nações, parceiras na Organização do Tratado do Atlântico do Norte (OTAN), possuem laços comerciais e diplomáticas significativos. Por exemplo, o maior parceiro comercial turco é a Alemanha, que possui aproximadamente 6.800 empresas com transações na região. Ademais, no ano passado (2016), o Governo alemão havia negociado um acordo com a Turquia, para que o país contivesse o seu fluxo de imigrantes em direção à Europa, em troca de 3 bilhões de euros em auxílios financeiros a serem gastos com refugiados. Apresenta-se também o risco de que o acordo seja dissolvido.

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Imagem 1 Encontro entre o presidente turco e o ViceChanceler alemão” (Fonte):

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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A Situação na Mesquita de al-Aqsa

No dia 15 de julho de 2017, sábado retrasado, a polícia israelense fechou a Mesquita de al-Aqsa, cancelando as tradicionais rezas de sexta-feira. A ação ocorreu depois que três palestinos e dois policiais israelenses morreram em um confronto armado na área, dentro da cidade velha de Jerusalém. Após o ocorrido, as tensões entre Israel e Palestina tem se intensificado, reacendendo a disputas entre praticantes da religião judaica e muçulmanos que frequentam o local.

Barreira de proteção Israelense no território da Cisjordânia

Desde 1969, essa foi a primeira vez que Israel interveio sobre o funcionamento da Mesquita, o que acarretou na reação de palestinos e muçulmanos, pois é normal que milhares de pessoas se aglomerem no local para as rezas de sexta-feira. Dois dias após seu fechamento, al-Aqsa foi reaberta, porém, haviam sido instalados detectores de metal em suas entradas. Esse fato despertou ainda mais descontentamento entre os palestinos que reprovam a expansão do controle israelense sobre o espaço sagrado. Em protesto, líderes religiosos têm conduzido rezas nos portões da Mesquita, entretanto, forças de segurança de Israel estão agindo para mitigar as manifestações diárias.

Durante os conflitos entre os dois lados, dezenas de cidadãos foram feridos. Na noite do dia 18 (terça-feira) foram reportados pelos menos 50 palestinos nessa situação. O aumento da violência é preocupante para todos, uma vez que o espaço ocupado pela Mesquita de al-Aqsa é reverenciado tanto pelo Judaísmo quanto pelo Islã. Após Meca e Medina, o local é o mais sagrado para os muçulmanos, acrescente-se ainda que o Muro das Lamentações, local sagrado para os judeus, está localizado na parede oeste do complexo da mesquita, situado na cidade velha de Jerusalém.

Líderes regionais expressaram sua preocupação e pediram à Israel e à Jordânia que seja estabelecido um acordo com a maior celeridade possível, de modo a por um fim aos conflitos. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vem tentando abrandar o medo dos muçulmanos, afirmando que o status quo* da Mesquita será preservado. Em contrapartida, o Fatah, Partido do Presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, aclamou e incentivou protestos contra as novas medidas de segurança israelenses. Isso ocorreu mesmo após Abbas ter demonstrado apreensão com a escalada da situação, em conversa direta com o Primeiro-Ministro de Israel.

As disputas entre palestinos e israelense sobre al-Aqsa acionou a atenção da comunidade internacional. Os países pediram calma e a restauração do status quo no complexo. Na terça-feira passada, dia 25 de julho, os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas se reuniram para discutir o futuro dos confrontos e a redução da escalada da violência na área. Durante o encontro, o enviado das Nações Unidas para paz no Oriente Médio, coordenador especial Nickolay Mladenov, alertou para o “grande risco” que os desdobramentos trazem para relação entre Israel e Palestina, de modo que o conflito pode se expandir para outros países da região.

Apesar das novas medidas de segurança terem sido o estopim para retomada das tensões entre a população de Jerusalém, os conflitos representam mais do que a possibilidade de mudança na condição da Mesquita. A contínua construção de assentamentos para população judaica na Cisjordânia faz com que, para os palestinos, a situação diga respeito também à sua percepção sobre a ocupação de Israel sobre seu território. Por esse motivo, a onda de protestos e de violência está se expandindo para regiões além de Jerusalém.

Buscando definir um equilíbrio entre a escalada da violência e a segurança na região da cidade velha de Jerusalém, Governo de Israel retirou, na madrugada do dia 26 de julho de 2017 (horário local), os detectores de metais da entrada da Mesquita al-Aqsa. Optou-se por consolidar suas medidas de segurança através de câmeras de circuito fechado.

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Notas:

* Desde que Israel ocupou a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza, em junho de 1967, o mandato sobre o santuário em que se situa a Mesquita al-Aqsa tem sido realizado por confidentes islâmicos, com suporte do Governo da Jordânia, também conhecido como Waqf. Israel ainda mantém o direito de soberania sobre o território, conquistado junto com a parcela leste de Jerusalém. Sob o status quo, os muçulmanos têm o controle religioso sobre o complexo e os judeus podem visitar o local, porém aos últimos não é permitido orar dentro da Mesquita.

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Imagem 1Mesquita de alAqsa” (Fonte):

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Imagem 2 Barreira de proteção Israelense no território da Cisjordânia” (Fonte):

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AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

EUA anunciam novas sanções sobre programa iraniano de mísseis balísticos

Na última terça-feira, 18 de julho 2017, o Departamento de Estado Norte-Americano anunciou novas sanções contra o Irã, em virtude de seu programa de mísseis balísticos e também acusando-o de apoio ao terrorismo. O movimento irá incluir uma lista negra de 18 pessoas apontadas de terem vínculos com as Forças Armadas iranianas, congelando seus ativos norte-americanos. As sanções foram anunciadas um dia após a administração de Donald Trump ter declarado de forma desgostosa, segundo o Democracy Now, que o Irã cumpriu pela segunda vez suas obrigações no âmbito do acordo nuclear negociado com Obama.

Os ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha, União Europeia, Irã, Reino Unido e Estados Unidos, bem como diplomatas chineses e russos que anunciaram o quadro de um acordo abrangente sobre o programa nuclear iraniano (Lausanne, 2 de abril de 2015)

O Governo norte-americano acusou o Irã de apoiar o que chama de “atores iranianos ilícitos ou atividades criminosas transnacionais. Heather Nauert, Porta-Voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, culpou ainda o Irã de testar e desenvolver mísseis balísticos “em desafio direto” a uma Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, reportou a Al Jazeera. Os EUA estão “profundamente preocupados com as atividades malignas do Irã no Oriente Médio que prejudicam a estabilidade, a segurança e a prosperidade regionais”, incluindo o apoio a grupos armados, ao regime sírio e a rebeldes Houthi no Iêmen, disse a Porta-Voz.

O acordo nuclear iraniano, assinado em 2015 pelo chamado P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, França, China mais a Alemanha), limitou o programa nuclear iraniano em troca da suspensão de muitas sanções internacionais. Ainda como candidato presidencial, Trump prometeu “rasgar” o Acordo, chamando-o de “pior negócio”. Trump repetidamente condenou o acordo negociado pelo presidente Barack Obama como uma rendição perigosa ao Irã. Contudo, seis meses depois de sua Presidência, ele não o abandonou, informa o New York Times.

Logotipo da Organização de Energia Atômica do Irã

Funcionários da administração norte-americana anunciaram a certificação de cumprimento na noite de segunda-feira, 17 de julho, que por lei é obrigada a notificar o Congresso a cada 90 dias se o Irã está mantendo o acordado. Os funcionários enfatizaram que pretendiam endurecer o cumprimento do Tratado, aplicar novas sanções ao Irã pelo apoio ao terrorismo e outras atividades desestabilizadoras e negociar com parceiros europeus para elaboração de uma estratégia mais ampla para aumentar a pressão sobre Teerã.

Sob o Acordo, os Estados Unidos ainda podem penalizar o Irã por comportamentos como o desenvolvimento de mísseis balísticos ou o apoio ao terrorismo, “mas não podem simplesmente reaplicar as mesmas sanções que foram levantadas sob um disfarce diferente”, escreve Peter Baker. Neste caso, o Irã terá o direito de recorrer a uma Comissão Mista e argumentar que os norte-americanos estariam violando o pacto firmado.

Ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif

Em uma reunião de uma hora na quarta-feira passada, 12 de julho de 2017, todos os principais assessores de segurança do Presidente recomendaram que ele preservasse o acordo do Irã por ora. Os conselheiros teriam dito a Trump que precisavam de mais tempo para negociar com aliados e com o Congresso. Conforme saiu no New York Times, o Presidente teria passado a maior parte da reunião se opondo aos assessores, tendo, ao final, cedido pela manutenção.

O governo de Teerã argumentou que Trump já violou o acordo nuclear pressionando as empresas a não se envolverem com o Irã, mesmo com o levantamento das sanções nucleares. “Isso não somente viola o espírito, mas a letra do J.C.P.O.A. (Joint Comprehensive Plan of Action) do acordo nuclear”, disse Mohammad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores iraniano.

A contenda em torno da liberação ou sanção do programa nuclear iraniano está envolvida em um contexto regional maior de disputa por influência no Oriente Médio entre, de um lado, Arábia Saudita, Estados Unidos e Israel; e, de outro, Irã, Rússia e Síria. Conforme escrevem Mohammad Zargham e Steve Holland para a Reuters, “a administração Trump está revendo a política sobre o Irã, não somente olhando para o cumprimento do acordo nuclear por Teerã, mas também seu comportamento na região, que Washington alega prejudicar os interesses dos Estados Unidos na Síria, no Iraque, no Iêmen e no Líbano”.

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Imagem 1Instalação IR40 em Arak, Irã” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_program_of_Iran#/media/File:Arak_Heavy_Water4.JPG

Imagem 2Os ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha, União Europeia, Irã, Reino Unido e Estados Unidos, bem como diplomatas chineses e russos que anunciaram o quadro de um acordo abrangente sobre o programa nuclear iraniano (Lausanne, 2 de abril de 2015)” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Negotiations_about_Iranian_Nuclear_Program_-_the_Ministers_of_Foreign_Affairs_and_Other_Officials_of_the_P5%2B1_and_Ministers_of_Foreign_Affairs_of_Iran_and_EU_in_Lausanne.jpg

Imagem 3Logotipo da Organização de Energia Atômica do Irã” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_program_of_Iran#/media/File:Iranische_Atomenergieorganisation_logo.svg

Imagem 4Ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mohammad_Javad_Zarif_2014.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A catástrofe humanitária no Iêmen

O Iêmen vive hoje uma das situações consideradas mais delicadas no Oriente Médio. O país encontra-se devastado por uma guerra entre o governo do presidente Abdrabbuh Mansour Hadi* e os membros do movimento rebelde Houthi. Observadores apontam que os ataques aéreos e o bloqueio fronteiriço da coalizão multinacional** liderada pela Arábia Saudita impulsionaram um desastre, pois, atualmente, 70% da população necessita de ajuda humanitária.

Mapa da atual divisão geopolítica do Iêmen

As campanhas aéreas sauditas e de oito Estados árabes de maioria sunita contra o país começaram após o empoderamento do movimento Houthi, grupo supostamente apoiado pelo Irã, e buscaram auxiliar no estabelecimento do governo de Mansour Hadi. O conflito instaurou-se a partir do insucesso na transição política que deveria trazer estabilidade ao Iêmen, em 2011, com uma forte onda de protestos que forçaram o antigo presidente Ali Abdullah Saleh a renunciar sua posição, entregando o Governo a Mansour Hadi – o Vice-Presidente. O Governo Hadi vivenciou problemas severos em sua gestão, incluindo ataques realizados pela al-Qaeda, por movimentos separatistas e por militares aliados ao presidente Saleh, sem contar com questões estruturais, como acusações de corrupção, desemprego e insegurança alimentar.

O Movimento Houthi, que busca empoderar a minoria xiita, já participou de uma grande série de revoltas contra o antigo presidente Saleh na última década. Durante a transição entre o governo de Saleh e o de Hadi, com o enfraquecimento do Estado, o movimento aproveitou para capturar a parcela norte da Província de Saada, agregando parte da população iemenita que estava descontente com a transição (até mesmo parcelas sunitas da população), conseguindo alcançar a capital, Sanaa, em 2014. No ano seguinte, os Houthis reforçaram seu posicionamento sobre a capital, sitiando o palácio presidencial e outros pontos estratégicos da cidade, aprisionando o presidente Hadi e parte de seu Gabinete.

Resultado de um ataque aéreo saudita em Sanaa

De acordo com as Nações Unidas, durante o conflito já foram registradas pelo menos 4.773 mortes de civis e outros 8.272 feridos. Pouco abaixo da metade da população têm menos de 18 anos, e um terço de todos os civis mortos nos primeiros anos do conflito foram crianças. A ONU ainda afirma que 2 milhões de pessoas tiveram que deixar suas casas, além disso, 180 mil deixaram o país. Este ano (2017), o Iêmen, destruído pela guerra, vivencia o pior surto de Cólera do mundo. Fontes da organização apontam que mais de 1.700 pessoas morreram desde abril devido à bactéria e existem ainda mais de 320.000 casos suspeitos, com a média de 5 mil novos casos registrados por dia.

O conflito entre Houthis e o governo do presidente Hadi também é visto como parte de uma disputa regional de poder entre o xiita Irã e a sunita Arábia Saudita. Os Estados do Golfo aliados aos sauditas acusaram os iranianos de proverem suporte financeiro e militar ao movimento Houthi, mesmo assim, eles afirmam serem defensores do atual Governo do Iêmen.

O conflito está no radar das potências ocidentais que consideram a célula da al-Qaeda que está instalada no país como uma das mais perigosas, devido a sua expertise técnica e alcance global. Existem também organizações filiadas ao Estado Islâmico no Iêmen, como a Ansar al-Sharia, que estão sendo monitoradas para que não aumentem seu poderio perante à crise humanitária existente.

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Notas:

* O Governo tem sua autoridade sobre o território do Iêmen reconhecida internacionalmente, no âmbito do mandato de transição de dois anos.

** A Coalizão de países árabes tem recebido apoio logístico dos EUA, França e Reino Unido.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Imagem Aérea de Sanaa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Yemen#/media/File:Sana.jpg

Imagem 2 Mapa da atual divisão geopolítica do Iêmen” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Yemen#/media/File:Yemeni_Civil_War.svg

Imagem 3Resultado de um ataque aéreo saudita em Sanaa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Yemen#/media/File:Destroyed_house_in_the_south_of_Sanaa_12-6-2015-3.jpg

AMÉRICA DO NORTEEUROPANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Em meio ao G20, EUA e Rússia discutem cooperação na Guerra da Síria

Em meio a Cúpula do G20, em Hamburgo, na Alemanha, o longo encontro bilateral ocorrido entre Donald Trump e Vladimir Putin expôs a necessidade de ambos produzirem interesses convergentes diante das principais instabilidades da agenda geopolítica, em especial na Guerra Civil síria.

Com a iminente derrocada do autoproclamado califado islâmico nos enclaves de Mossul, no Iraque, e também em Ar-Raqqa, na Síria, capital do Califado, Washington e Moscou firmaram um acordo confidencial de cessar-fogo no sudoeste da Síria, com o objetivo inicial de atender as demandas de Israel e Jordânia para que não sejam permitidos sobressaltos de forças iranianas, bem como de seu eixo de apoio com a milícia xiita Hezbollah, além de enfrentar os combatentes ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico (EI) nas imediações das Colinas de Golã, que são ocupadas pela Força de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), e ao longo da fronteira com a Jordânia.

Soldados Pershmergas nas cercanias de Mossul, Iraque

O pacto detalhado em um Memorando de Princípios para De-escalação no sudoeste sírio exige da região abaixo de Quneitra e Suwayda a manutenção da governança existente e a confecção de arranjos de segurança em áreas de oposição ao regime sírio.

Com a elaboração de um quadro adjacente ao conflito de mais de seis anos, observadores internacionais acreditam que o acordo poderá ajudar permanentemente, fortalecendo uma iniciativa que poderia culminar em outras partilhas na região.

O acordo também prevê o acesso livre para os trabalhadores de ajuda humanitária e para a criação de condições de retorno dos refugiados. Somente a Jordânia registrou ao longo da guerra o recebimento de mais de 650 mil sírios nos campos de Azraq e Al-Zaatari.

Embora a iniciativa estadunidense e russa vise um plano estratégico de curto prazo para estancar eventual expansão do conflito, um funcionário do Departamento de Estado em condição de anonimato externou à revista Foreign Policy preocupação quanto aos detalhes do pacto bilateral, uma vez que Estados Unidos e Rússia ainda não discutiram como se dará o monitoramento do cessar-fogo, as regras que irão reger o quadro de de-escalação e a presença de monitores internacionais.

O desejo de Trump de alinhar seus interesses com Putin em uma coalizão global é conhecido, dada sua admiração explícita pelo líder russo. Nesse sentido, Putin, em uma condição melhor de negociação, pode trocar esse apoio pelo levantamento de sanções contra o Kremlin, assim como para as principais personalidades do regime e empresários locais ligados ao Presidente.

Crianças sírias coletando água de poço instalado no campo de refugiado Al-Zaatari na Jordânia

Contudo, as vantagens da união de forças entre Washington e Moscou devem ser ponderadas, uma vez que as metas russas incluem obtenção e expansão de bases, bloqueando o uso de forças estadunidenses para remover um regime pelo qual não nutrem apreço, elevando, assim, o status da Rússia na região, o que permitiria a manutenção de Bashar Al- Assad no poder.

Nesse imbróglio, a determinação do Presidente norte-americano em legitimar um acordo com a Rússia poderá ainda servir como ferramenta de persuasão a Trump, uma vez que a visão de mundo de Vladimir Putin tomou projeção no avanço desse realinhamento, mas endossando quase em sua totalidade a narrativa trabalhada pelo líder russo.

A leitura do longo encontro durante a Cúpula em Hamburgo consolidou, por fim, uma vitória significativa no campo diplomático a Putin, pois enfraqueceu as ferramentas dos EUA para defender seus interesses e cedeu espaço de batalha no tabuleiro geoestratégico ao Kremlin (no aspecto físico, virtual e moral), pois, além da associação majoritária na guerra civil síria, Moscou avançou também em duas outras questões: do hacking eleitoral, alegando total isenção na formação do novo quadro político estadunidense, e sugerindo cooperação em segurança cibernética para evitar novos abalos; bem como em um acordo, por ora ainda tácito, em que os dois presidentes concordam em não interferir nos assuntos domésticos do outro.

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Imagem 1Presidente Trump e Presidente Putin no primeiro encontro de ambos na Cúpula do G20, em Hamburgo, na Alemanha” (Fonte):

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Imagem 2Soldados Pershmergas nas cercanias de Mossul, Iraque” (Fonte):

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Imagem 3Crianças sírias coletando água de poço instalado no campo de refugiado Al-Zaatari na Jordânia” (Fonte):

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ÁSIANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Visita do Primeiro-Ministro Indiano à Israel sugere mudança de política externa

A visita do Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, à Israel, ocorrida entre os dias 4 e 5 de julho (2017), foi um marco na política externa indiana, pois é a primeira vez na história do país que seu Chefe de Governo visita Tel Aviv. A Índia, que abriga uma população de 172 milhões de muçulmanos, historicamente se colocou ao lado da causa Palestina e reconhece o seu Estado. Esse comportamento estava relacionado com uma política externa terceiro-mundista*, que historicamente apoiou a criação do Estado da Palestina e condenou os atos de Israel. Entretanto, sinais de uma inclinação da política externa indiana à nação judia começaram a ser perceptíveis desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, em 1992, e tais sinais se mostraram inegáveis durante a visita de Modi à Netanyahu.

Visita do Presidente palestino, Mahmoud Abbas, ao Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi, em maio de 2017

Atualmente, a principal área de cooperação é a de segurança. A Índia é o maior mercado dos produtos da indústria bélica israelense e ambos agora planejam aumentar sua cooperação para a construção conjunta de um sistema antimíssil indiano, a partir de um acordo assinado em abril, de quase 2 bilhões de dólares (aproximadamente 6,5 bilhões de reais, na conversão de 11 de julho de 2017). Além da realização de acordos relacionados à Defesa, os dois Estados expandiram a cooperação nas áreas de comércio, desenvolvimento tecnológico e questões energéticas.

Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel

O prolongamento da viagem para a Palestina, que normalmente é realizada por todos Chefes de Estado e de Governo que visitam Israel, não ocorreu. O Presidente palestino, Mahmoud Abbas, já havia se reunido com Modi em Nova Delhi, em maio deste ano (2017), o que poderia justificar a resolução indiana. A decisão de Modi de não visitar a Palestina, porém, foi contestada tanto internamente, com o Partido Comunista Indiano enfatizando o desrespeito à causa árabe e palestina, como pelo Governo e sociedade civil da Palestina. O Governo indiano, por sua vez, afirmou para o jornal The Independent que os laços entre a Índia e a Palestina ainda são fortes e a aproximação com Israel não deve ser compreendida como um estremecimento deles.

Por um lado, a tentativa de se aproximar de Israel e manter suas relações com os palestinos pode ser interpretada como uma perpetuação da ideologia terceiro-mundista, visto que ela pregava que a defesa dos interesses nacionais estaria acima de conflitos políticos e ideológicos. A atual aproximação com o Estado israelense, porém, ao ser alinhada internamente com o aumento na violência contra os muçulmanos na Caxemira e as atuais políticas contra a indústria da carne, demonstra uma consonância entre as políticas internas e externas da atual gestão de Modi que, ao se aproximarem da ideologia de nacionalismo hindu, o afasta do ideal não-alinhado. 

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Notas:

* O Terceiro-Mundismo é uma corrente do pensamento político originada na divisão ideológica criada pela Guerra Fria, que separou o Primeiro-Mundo, ocidental e capiteneado pelos Estados Unidos, do Segundo-Mundo, países socialistas aliados à antiga União-Soviética. Dezenas de países da América Latina, África e Ásia preferiram, em vez de se aliar a um dos lados dessa divisão, criar um grupo próprio, o Terceiro-Mundo. Entre seus ideais estão o não-alinhamento, o respeito à soberania interna dos países e a luta contra o subdesenvolvimento.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeiras da Índia e Israel” (Fonte):

http://www.mapsofindia.com/my-india/government/the-friendship-of-india-and-israel

Imagem 2Visita de Abbas à Modi, em maio de 2017” (Fonte):

http://www.india.com/news/india/narendra-modi-meets-palestinian-president-mahmoud-abbas-seeks-help-to-rescue-indian-hostages-in-iraq-and-libya-585783/

Imagem 2Benjamin Netanyahu, PrimeiroMinistro de Israel” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Netanyahu#/media/File:Benjamin_Netanyahu_2012.jpg