NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Triplicam as exportações da Turquia para o Catar após o início da crise no Golfo

Em 22 de junho, o Ministro do Comércio turco, Bulent Tufenkci, anunciou que as exportações da Turquia para o Catar triplicaram em valores absolutos desde que a crise entre os países do Golfo Pérsico teve início, no começo de junho. Dos 32,5 milhões de dólares importados pelo país árabe nesse período, 12,5 milhões foram destinados a compra de alimentos. Doha é uma das principais parceiras comerciais de Ancara no Oriente Médio e vê na cooperação com os turcos uma forma de driblar o isolamento imposto pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Bahrein. Os quatro países acusam o Catar de financiamento do terrorismo, conluio com a teocracia iraniana e fomento da instabilidade regional, todas as afirmativas prontamente rechaçadas pelo governo do catariano.

Encontro entre o presidente turco Recep Erdoğan com o presidente iraniano Hassan Rouhani

Em 23 de junho, sexta-feira passada, a Arábia Saudita, em conjunto com seus aliados, impôs um prazo de 10 dias para que o Catar acate os termos de uma lista com 13 exigências que deverão ser atendidas para que as relações diplomáticas entre eles sejam restabelecidas. Dentre as condições estão: o encerramento das atividades da rede de notícias al-Jazeera, baseada em Doha; a redução drástica da cooperação com o Irã e o fechamento da base militar turca localizada no país. Não foram especificadas as consequências que o Catar enfrentaria caso não atenda ao ultimato dentro do prazo estipulado.

O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, considerou desrespeitosas essas exigências e disse que a imposição de precondições como forma de restabelecer as relações diplomáticas vai “contra a lei internacional”. Em declaração à emissora NTV, o Ministro da Defesa turco, Fikri Isik, disse que “o fortalecimento da base turca seria um passo positivo na direção da segurança do Golfo”, e acrescentou que “reavaliar o acordo de base com o Qatar não está em nossa agenda”.

Panorama da baía de Doha

Existe uma tendência entre os analistas em acreditar que por trás das alegações sauditas de que Doha colabora com organizações terroristas está a tentativa de desestruturar a política externa independente que vem sendo conduzida pelo Catar. O maior alvo é a cooperação catariana com o Irã, com o qual compartilham a exploração do maior campo de gás natural do mundo.

A crise é um teste de fogo para os catarianos, que se encontram em uma encruzilhada entre abdicar de sua soberania ou sofrer com o isolamento regional, e, possivelmente, outras consequências ainda incertas. Por outro lado, a tensão entre os países do Golfo se apresenta como uma oportunidade para a Turquia reforçar seu papel de protagonista no cenário político do Oriente Médio, função que fora abalada após a tentativa de golpe frustrada contra Erdogan, em julho de 2016, e a aposta na queda do presidente sírio Bashar al-Assad.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Silhueta das mesquitas de Istambul” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Istambul#/media/File:Smog_Istanbul.jpg

Imagem 2 Encontro entre o presidente turco Recep Erdoğan com o presidente iraniano Hassan Rouhani” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Recep_Tayyip_Erdo%C4%9Fan#/media/File:President_Rouhani_meeting_with_Turkish_President_Recep_Tayyip_Erdo%C4%9Fan_in_UN_headquarters_03.jpg

Imagem 3 Panorama da baía de Doha” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Doha_banner.jpg/2000px-Doha_banner.jpg

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As implicações do novo arranjo institucional na Arábia Saudita

Durante as primeiras horas de quarta-feira passada, 21 de junho (2017), a Arábia Saudita anunciou através de um Decreto do Rei o seu novo arranjo institucional para a hierarquia da Casa Real. O Rei Salman substituiu seu sobrinho, Mohammed bin Nayef, por seu filho Mohammed bin Salman bin Abdulaziz na cadeia hierárquica, tornando-o o novo Príncipe Real – ou seja, o primeiro na linha sucessória. O Príncipe Salman também adicionou ao seu antigo cargo como Ministro da Defesa a posição de Vice-Primeiro-Ministro, através de uma votação majoritária a seu favor no Conselho de Lealdade da Arábia Saudita[1].

Rei Salman e Presidente Trump participam de dança tradicional ardah no Palácio de Murabba

Mohammed bin Salman tem 31 anos e vem executando um papel de alta visibilidade no Governo. Seus esforços têm sido principalmente a favor da diversificação da pauta econômica do país, buscando estratégias para diminuir a dependência nacional do petróleo. A visita feira a Washington, em março, e a consequente visita do Presidente dos EUA, Donald Trump, à Arábia Saudita, em maio, auxiliaram na sua consolidação no poder. Além disso, o antecessor, bin Nayef, não assumiu uma posição de destaque após o corte de relações com o Qatar, ocorrido no começo deste mês (junho), fator que também pauta o novo arranjo político no país.

Como Ministro da Defesa, o novo Príncipe Real supervisionou a coalizão militar liderada pelos sauditas no Yemen contra os rebeldes Houthi. A operação buscou reintegrar ao poder o presidente Abdrabbu Mansour Hadi, e depor o líder rebelde Ali Abdullah Saleh. O conflito deixou o país em uma situação econômica e social precária, além de ter acentuado a rivalidade entre a Arábia Saudita e o Irã, que apoiavam lados opostos da disputa. Ainda assim, ao longo dos dois anos de conflito a coalizão não conseguiu expulsar os rebeldes da capital, Sanaa.

A alteração na linha sucessória a favor do Príncipe Salman aponta para políticas mais fortes contra o Irã[2], caso ele venha a substituir o Rei. Isso se dá porque as políticas do novo Príncipe têm se aproveitado do destaque que a Arábia Saudita vem obtendo na política regional, com o apoio militar e político dos EUA.

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Notas:

[1] O conselho é composto por 35 Príncipes, filhos e netos de seu Rei fundador Abdullah bin Abdulaziz. Sua função é assegurar a transição de poder de governo entre a família Al Saud. O compromisso da lealdade ao Rei é a lei básica do sistema político de governo na Arábia Saudita.

[2] Mohammed bin Salman afirmou durante entrevistas à TV Saudita em maio que está disposto a “batalhar com o Irã” para conter o interesse da República Persa em “controlar o mundo islâmico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Rei Salman, o líder da Arábia Saudita” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arábia_Saudita#/media/File:Salman_bin_Abdull_aziz_December_9,_2013.jpg

Imagem 2Rei Salman e Presidente Trump participam de dança tradicional ardah no Palácio de Murabba” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Saudi_Arabia#/media/File:Donald_Trump_with_ceremonial_swordsmen_on_his_arrival_to_Murabba_Palace,_May_2017.jpg

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Armas Químicas estariam sendo usadas em Mosul (Iraque)

A batalha na cidade de Mosul é, atualmente, a prioridade das Forças de Segurança Iraquianas no combate à organização terrorista Estado Islâmico (EI). A importância dessa campanha se deve ao fato de que, caso o Governo iraquiano consiga retomar tal cidade, a seção iraquiana do EI poderá ser considerada praticamente extinta. O fato de ter sido em uma histórica mesquita de Mosul que, em 2014, o EI foi declarado como um califado, demonstra que o que está em jogo é mais do que a questão militar, é também uma questão política muito importante para o Governo do país.

Comboio do Exército iraquiano em Mosul, em 17 de novembro de 2016

A relevância desse importante centro do norte do Iraque, entretanto, tem elevado o grau de violência dos combates, por parte de ambos os lados. Um indicativo disso é a intensificação do uso de caças da força aérea iraquiana, os quais têm tido papel significativo na campanha em questão. Contudo, a violência crescente levou o grupo terrorista a utilizar armas químicas, mais especificamente gás de cloro. Um oficial militar iraquiano declarou formalmente que “suas unidades militares haviam sido expostas a ataques com gás cloro”, mas que, como todos seus soldados estavam equipados com máscaras de proteção, “não foram atingidos pelo gás venenoso”. Como consequência, o Comando do Exército iraquiano já anunciou que lançará ataques de larga escala na região, com o objetivo principal de fechar a fronteira com a Síria, por onde transitam os suprimentos recebidos pelos terroristas.

Entretanto, contra o comando militar iraquiano também têm pesado denúncias referentes ao uso de armas químicas. De acordo com um representante da Organização das Nações Unidas (ONU), Mohammed Serkal, a “coalizão liderada pelos Estados Unidos estaria utilizando munições de fósforo branco na campanha de Mosul”, sendo que o uso de tal tipo de artefato, principalmente em áreas urbanas, não tem amparo na legislação internacional. Em resposta, representantes da referida coalizão admitiram o uso de fósforo branco, alegando, porém, que o mesmo foi aplicado com o intuito de formar uma “máscara de fumaça para auxiliar a fuga de civis”.

A evolução dos eventos apresenta um cenário de incerteza, pois, como se pode observar, os dois lados do conflito estariam lançando mão de artifícios reconhecidamente ilegais e, sobretudo, extremamente danosos, o que afeta não só aos militares em si, mas também a toda a população da região. A gravidade da situação fica mais clara ao se verificar que, segundo a ONU, cerca de 150.000 civis ainda estariam em Mosul, impedidos pelos integrantes do EI de deixar a cidade. Essa condição tem levado a mencionada organização, juntamente com o Governo do Iraque, a engendrar esforços no sentido de evacuar o maior número possível de civis da região. Pode-se esperar, no entanto, grandes dificuldades adiante, uma vez que há informações de que os combatentes do EI planejariam utilizar civis como escudos humanos durante uma eventual batalha final por Mosul, o que pode significar um maior envolvimento político da comunidade internacional em breve.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 A Grande Mesquita de Mossul” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mosul#/media/File:%D9%85%D8%AF%D9%8A%D9%86%D8%A9_%D8%A7%D9%84%D9%85%D9%88%D8%B5%D9%84.jpg

Imagem 2 Comboio do Exército iraquiano em Mosul, em 17 de novembro de 2016” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mosul#/media/File:Iraqi_army_convoy._Mosul,_Northern_Iraq,_Western_Asia._17_November,_2016.jpg

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Curdos iraquianos pretendem manter Referendo sobre independência

No próximo dia 25 de setembro, a população do Curdistão iraquiano e das áreas de Kirkuk, Khanqin, Sinjar e Makhmor – chamadas atualmente de “áreas disputadas”, e que não estão sob administração curda – votará um Referendo acerca da independência em relação ao Iraque. É importante observar que o atual cenário político no Iraque é favorável ao líder curdo, Massoud Barzani, motivo pelo qual aguarda-se que o voto pela independência tenha ampla maioria.

Tal condição se deve ao fato de que o atual Presidente iraquiano, Muhammad Masum, também é curdo e por muito tempo lutou pelos direitos de sua terra natal, indicativo de que, em princípio, haveria apoio por parte do Governo do Iraque em caso de um processo de independência formal. Ademais, o governo do atual Presidente é a continuação das políticas estabelecidas por seu antecessor e confidente, o também curdo Jalal Talabani, que por mais de cinquenta anos lutou pelos direitos e pela democracia junto à população curda. O apoio político pode ser observado também pelo fato de que, desde 2003, quando da intervenção norte-americana no Iraque, o Curdistão deixou de ser administrado pelo Governo central iraquiano, passando a ser regido pelo Governo Regional Curdo, com total apoio de Washington.

O presidente George W. Bush com o Masoud Barzani na Casa Branca, em 2005

É importante destacar que ainda é cedo para se falar em independência. Contudo, o Referendo em tela, caso manifeste o desejo popular favorável à independência, conterá uma importante questão econômica em caso de eventuais negociações junto ao Governo de Bagdá, uma vez que dentre as “áreas disputadas” está o território de Kirkuk. Esta região, reconhecidamente rica em petróleo e onde operam diversas empresas ocidentais, notadamente companhias petrolíferas norte-americanas, provavelmente será objeto de reivindicação tanto por Bagdá quanto pelo Governo curdo em Erbil. Por esse motivo, Barzani deve contar com provável apoio norte-americano à anexação de Kirkuk ao Curdistão, por meio do qual os Estados Unidos não só garantiriam uma maior estabilidade às suas empresas, mas também uma maior influência regional, colhendo, assim, os frutos das negociações junto aos líderes curdos desde a queda do regime de Saddam Hussein.  

O Governo curdo tem realizado nos últimos anos um importante movimento no sentido de garantir a legitimidade pelo controle de Kirkuk, ao empregar suas forças militares próprias, denominados Peshmerga, o que permite entender que o projeto de independência é bastante amplo, não se restringindo a questões étnicas ou nacionalistas. Assim, além de garantir o acesso de seu Governo a importantes jazidas petrolíferas, as forças curdas provaram a capacidade de garantir a segurança na região, de forma que continuem em pleno funcionamento em caso de um eventual controle curdo sobre Kirkuk.

Um exemplo de tal condição se deu em 2014, quando as forças do Curdistão foram as responsáveis por evitar que o Estado Islâmico pudesse capturar Kirkuk, o que garantiria ao grupo terrorista um importante fator para ampliar suas condições econômicas. Ademais, o fato de que os Peshmerga conseguiram frear o avanço do Estado Islâmico, justamente nos territórios abandonados pelas forças de Bagdá no norte do Iraque, reforça politicamente a posição curda durante eventuais negociações quanto a concessões territoriais envolvendo as regiões incluídas no Referendo.

Tropas Peshmerga nos arredores de Kirkuk, em 2014

Acontece que, apesar da aparente viabilidade nos campos político e econômico, já surgem críticas quanto ao momento em que a consulta popular se dará, devido ao atual momento de insegurança naquela região. Essa questão envolve novamente as tropas Peshmerga, além de milícias curdas, uma vez que estas são peças-chave nas forças da coalização liderada pelos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico, que ainda domina parte da cidade de Mosul e outras regiões iraquianas. Em caso de independência, as tropas curdas deixariam de ter o Estado Islâmico como prioridade, o que enfraqueceria a influência e a capacidade militar americana a curto prazo. Aliado a isso, Irã, Turquia e Síria também se opõem à independência do Curdistão iraquiano, temendo que o processo se alastre entre os curdos de outros países.

No entanto, o Governo curdo demonstra estar confiante no sucesso do Referendo e da independência, haja vista as declarações do general brigadeiro Hazhar Omer, do Ministério de Assuntos Militares do Curdistão iraquiano, o qual confirmou recentemente os atuais esforços em se adquirirem aviões de combate com o intuito de se criar uma Força Aérea Curda, uma vez que “a região caminha para um referendo e à independência, citando ainda a necessidade de um exército mais forte para o pós-Estado Islâmico”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa do Curdistão iraquiano” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Curdist%C3%A3o_iraquiano#/media/File:Autonomous_Region_Kurdistan-en.png

Imagem 2 O presidente George W. Bush com o Masoud Barzani na Casa Branca, em 2005” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Masoud_Barzani#/media/File:PresidentBushAndBarzani.jpg

Imagem 3 Tropas Peshmerga nos arredores de Kirkuk, em 2014” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Peshmerga#/media/File:Peshmerga_on_a_T-55-Tank_outside_Kirkuk_in_Iraq..jpg

AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Influências dos EUA no recente isolamento do Catar

O anúncio da dissolução das relações diplomáticas com o Emirado do Qatar por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Egito, Iêmen e Líbia expõe para o contexto geopolítico no Oriente Médio uma fratura da ordem regional ao explicitar as diferenças desse grupo de nações, majoritariamente sunitas, com o Irã.

Para Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU), protagonistas do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC na sigla em inglês), a postura amena de Doha em relação a Teerã motivou o rompimento do Emirado catariano com o bloco de nações sunitas.

Os desdobramentos da cisão diplomática perpetrada por Riad e Abu Dhabi resultaram na interrupção de sobrevoos de companhias catarianas em espaço aéreo saudita, o fechamento da fronteira terrestre e a proibição de navios de bandeira do Qatar de navegarem sob suas águas.

Em 22 de maio de 1967 o presidente Nasser discursa para seus pilotos na base aérea de Bir Gafgafa

Em paralelo com dois contextos históricos, especialistas em política internacional classificam o posicionamento do bloco sunita como casus belli similar a Sarajevo, em 1914, com o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, evento que iniciou a I Grande Guerra, assim como com o encerramento das atividades do Estreito de Tiran pelo Egito, que cortou o acesso de Israel ao Mar Vermelho, fato este que, de acordo com alguns historiadores, foi preponderante para eclosão da Guerra dos Seis Dias.

No âmbito presente, agências de notícias internacionais revelam duas versões para a tomada de decisão: A primeira narrativa apresentada é via agência oficial de notícias do Qatar, a Al Jazeera, que transmitiu suposta citação do Emir Tamim bin Hamad al-Thani, afirmando que não haveria razão para as hostilidades árabes contra o Irã. Em complemento, as tais alegações oficiais apresentariam endosso do Qatar à Irmandade Muçulmana, ao Hamas e as boas relações com Israel.

Sheikh Tamin encontra-se com Trump em 21 de maio de 2017

Em contrapartida, a segunda narrativa apresentada por órgãos de imprensa internacionais abre a possibilidade para o hacking orquestrado por Teerã, incomodado com a postura anti-iraniana na cimeira do dia 20 e 21 de maio em Riad, que contou com a participação do presidente dos EUA, Donald Trump.

Após o anúncio das chancelarias árabes, os EUA inicialmente optaram pela cautela. O secretário de Estado Rex Tillerson incentivou os países do Golfo a restabelecerem os laços e James Mattis, secretário de Defesa, afirmou que a fenda não prejudicaria os esforços da coalizão dos EUA na luta contra o Estado Islâmico, ou ISIS (islamic state of iraq and al-sham).

Contudo, o presidente Trump não agiu com a mesma cautela via Twitter ao sugerir o Qatar como ator financiador de grupos terroristas, fato este que pode, segundo analistas internacionais, prejudicar os esforços dos EUA no combate ao terrorismo, haja vista que Washington e Doha cooperam militarmente por intermédio da base aérea de Al Udeid, peça central do comando militar estadunidense na região, e da qual partem os ataques aéreos da coalizão contra a insurgência islâmica do autoproclamado Califado Islâmico.

Rei Salman, Trump e Al-Sisi o Centro Global de Combate ao Extremismo

Na esfera da especulação, Stephen Seche, vice-presidente executivo do Arab Gulf States Institute em Washington acredita que a viagem de Trump a Riad pode ser interpretada como um sinal positivo de endosso das ações da Monarquia Saudita frente a outros atores regionais, uma demonstração de liderança regional e capacidade de ser mantenedor da ordem vigente.

Em linha com esse posicionamento, diplomatas e especialistas consultados afirmaram que as conversas bilaterais de Trump com Sheikh Tamim não foram amigáveis em comparação com outros líderes do Golfo, deixando os catarianos preocupados com os rumos da relação.

Nesse sentido, há possibilidades de o Qatar já ter reorientado toda sua política interna com foco na preparação para ser sede da Copa do Mundo de 2022 e, por isso, ter que ceder aos seus vizinhos, principalmente à Arábia Saudita, que tem capacidade de estrangular economicamente Doha.

Entretanto, há entendimento também de que Doha, aproveitando-se da impopularidade dos EUA no Oriente Médio, use da Al Jazeera, maior rede de notícias do mundo árabe, como disseminador de notícias negativas acerca do posicionamento estadunidense na região, bem como promover a cooperação com grupos islâmicos em toda a região.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente dos EUA, com o Rei Salman em Riad, 20 de maio de 2017” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Salman_of_Saudi_Arabia#/media/File:Donald_Trump_and_King_Salman_bin_Abdulaziz_Al_Saud_talk_together,_May_2017.jpg

Imagem 2Em 22 de maio de 1967 o presidente Nasser discursa para seus pilotos na base aérea de Bir Gafgafa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Six-Day_War#/media/File:Nasser_and_Egyptian_pilots_pre-1967.gif

Imagem 3Sheikh Tamin encontrase com Trump em 21 de maio de 2017” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Tamim_bin_Hamad_Al_Thani#/media/File:Donald_Trump_meets_with_the_Emir_of_Qatar_(Sheikh_Tamim_bin_Hamad_Al_Thani),_May_2017.jpg

Imagem 4Rei Salman, Trump e AlSisi o Centro Global de Combate ao Extremismo” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Riyadh_Summit_2017#/media/File:President_Trump%27s_Trip_Abroad_(34031496153).jpg

 

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Os avanços na Batalha de Mosul

Desde a última semana de maio, a guerra contra o Estado Islâmico (ISIL) tem sido marcada pelos novos desdobramentos da batalha na cidade de Mosul, uma das maiores cidades do Iraque e um dos principais locais de refúgio de militantes do ISIL. A área de conflito é mais extensa na porção conhecida também como a cidade antiga.

A disputa pelo seu controle foi iniciada há cerca de 7 meses e encontra-se atualmente em fase de conclusão, com os últimos redutos do Estado Islâmico na localidade sendo invadidos por soldados iraquianos. Muitos civis estão presos sem suprimentos na linha de fogo, uma vez que a ajuda humanitária enviada por helicópteros acaba se perdendo em meio ao conflito. A Organização das Nações Unidas aponta que até 200 mil pessoas podem vir a deixar a cidade devido aos avanços do confronto com tropas iraquianas.

Mapa dos Distritos de Mosul

A estratégia que está sendo utilizada para forçar a expulsão dos militantes do Estado Islâmico busca cortar a linha de suprimento e de infiltração da parcela do grupo que ainda opera do lado Sírio de sua zona de controle. Um dos três distritos alvos da operação retomada em fevereiro deste ano (2017) já foi liberado do controle do Estado Islâmico. Segundo fontes iraquianas, pelos menos 100 militantes do ISIL foram mortos na conquista do distrito de al-Sihha al-Oula e a derrota reduz a área de controle do grupo para menos de 34 Km2 e o seu contingente para menos de 500 soldados, de acordo com a Polícia Federal do Iraque

Grande parte do território que tem sido reconquistado pelos soldados iraquianos teve o apoio de ataques aéreos liderados pelos Estados Unidos. Entretanto, a retomada de Mosul exige ainda mais a presença de ações terrestres, devido à maior densidade populacional da área de conflito na parte oeste da cidade, evitando situação tal qual foi vista após o ataque aéreo de março deste ano, que deixou 105 civis mortos*.

Após a conclusão dessa fase do combate ao ISIL, com a liberação da cidade de Mosul, é possível que o grupo retorne ao modelo de operação seguido pelo seu antecessor, o Estado Islâmico do Iraque (ISI). As táticas de insurgência do referido grupo foram capazes de garantir sua sobrevivência contra a forte presença militar dos EUA no país, de 2004 a 2009, e agora se tornam uma opção viável para evitar mais derrotas em embates diretos com as tropas iraquianas.

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Notas:

* Em versão oficial, o Pentágono afirmou que as mortes foram causadas por uma segunda explosão de artefatos e munições que pertenciam ao Estado Islâmico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Vista aérea do Rio Tigres em Mosul” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mossul#/media/File:Tigris_river_Mosul.jpg

Imagem 2Mapa dos Distritos de Mosul”  (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mossul#/media/File:Map_of_Mosul.svg

Imagem 3Forças Armadas do Iraque” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Iraqi_Armed_Forces#/media/File:Iraqi_T-72_tanks.jpg