AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

EUA anunciam novas sanções sobre programa iraniano de mísseis balísticos

Na última terça-feira, 18 de julho 2017, o Departamento de Estado Norte-Americano anunciou novas sanções contra o Irã, em virtude de seu programa de mísseis balísticos e também acusando-o de apoio ao terrorismo. O movimento irá incluir uma lista negra de 18 pessoas apontadas de terem vínculos com as Forças Armadas iranianas, congelando seus ativos norte-americanos. As sanções foram anunciadas um dia após a administração de Donald Trump ter declarado de forma desgostosa, segundo o Democracy Now, que o Irã cumpriu pela segunda vez suas obrigações no âmbito do acordo nuclear negociado com Obama.

Os ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha, União Europeia, Irã, Reino Unido e Estados Unidos, bem como diplomatas chineses e russos que anunciaram o quadro de um acordo abrangente sobre o programa nuclear iraniano (Lausanne, 2 de abril de 2015)

O Governo norte-americano acusou o Irã de apoiar o que chama de “atores iranianos ilícitos ou atividades criminosas transnacionais. Heather Nauert, Porta-Voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, culpou ainda o Irã de testar e desenvolver mísseis balísticos “em desafio direto” a uma Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, reportou a Al Jazeera. Os EUA estão “profundamente preocupados com as atividades malignas do Irã no Oriente Médio que prejudicam a estabilidade, a segurança e a prosperidade regionais”, incluindo o apoio a grupos armados, ao regime sírio e a rebeldes Houthi no Iêmen, disse a Porta-Voz.

O acordo nuclear iraniano, assinado em 2015 pelo chamado P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, França, China mais a Alemanha), limitou o programa nuclear iraniano em troca da suspensão de muitas sanções internacionais. Ainda como candidato presidencial, Trump prometeu “rasgar” o Acordo, chamando-o de “pior negócio”. Trump repetidamente condenou o acordo negociado pelo presidente Barack Obama como uma rendição perigosa ao Irã. Contudo, seis meses depois de sua Presidência, ele não o abandonou, informa o New York Times.

Logotipo da Organização de Energia Atômica do Irã

Funcionários da administração norte-americana anunciaram a certificação de cumprimento na noite de segunda-feira, 17 de julho, que por lei é obrigada a notificar o Congresso a cada 90 dias se o Irã está mantendo o acordado. Os funcionários enfatizaram que pretendiam endurecer o cumprimento do Tratado, aplicar novas sanções ao Irã pelo apoio ao terrorismo e outras atividades desestabilizadoras e negociar com parceiros europeus para elaboração de uma estratégia mais ampla para aumentar a pressão sobre Teerã.

Sob o Acordo, os Estados Unidos ainda podem penalizar o Irã por comportamentos como o desenvolvimento de mísseis balísticos ou o apoio ao terrorismo, “mas não podem simplesmente reaplicar as mesmas sanções que foram levantadas sob um disfarce diferente”, escreve Peter Baker. Neste caso, o Irã terá o direito de recorrer a uma Comissão Mista e argumentar que os norte-americanos estariam violando o pacto firmado.

Ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif

Em uma reunião de uma hora na quarta-feira passada, 12 de julho de 2017, todos os principais assessores de segurança do Presidente recomendaram que ele preservasse o acordo do Irã por ora. Os conselheiros teriam dito a Trump que precisavam de mais tempo para negociar com aliados e com o Congresso. Conforme saiu no New York Times, o Presidente teria passado a maior parte da reunião se opondo aos assessores, tendo, ao final, cedido pela manutenção.

O governo de Teerã argumentou que Trump já violou o acordo nuclear pressionando as empresas a não se envolverem com o Irã, mesmo com o levantamento das sanções nucleares. “Isso não somente viola o espírito, mas a letra do J.C.P.O.A. (Joint Comprehensive Plan of Action) do acordo nuclear”, disse Mohammad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores iraniano.

A contenda em torno da liberação ou sanção do programa nuclear iraniano está envolvida em um contexto regional maior de disputa por influência no Oriente Médio entre, de um lado, Arábia Saudita, Estados Unidos e Israel; e, de outro, Irã, Rússia e Síria. Conforme escrevem Mohammad Zargham e Steve Holland para a Reuters, “a administração Trump está revendo a política sobre o Irã, não somente olhando para o cumprimento do acordo nuclear por Teerã, mas também seu comportamento na região, que Washington alega prejudicar os interesses dos Estados Unidos na Síria, no Iraque, no Iêmen e no Líbano”.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Instalação IR40 em Arak, Irã” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_program_of_Iran#/media/File:Arak_Heavy_Water4.JPG

Imagem 2Os ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha, União Europeia, Irã, Reino Unido e Estados Unidos, bem como diplomatas chineses e russos que anunciaram o quadro de um acordo abrangente sobre o programa nuclear iraniano (Lausanne, 2 de abril de 2015)” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Negotiations_about_Iranian_Nuclear_Program_-_the_Ministers_of_Foreign_Affairs_and_Other_Officials_of_the_P5%2B1_and_Ministers_of_Foreign_Affairs_of_Iran_and_EU_in_Lausanne.jpg

Imagem 3Logotipo da Organização de Energia Atômica do Irã” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_program_of_Iran#/media/File:Iranische_Atomenergieorganisation_logo.svg

Imagem 4Ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mohammad_Javad_Zarif_2014.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A catástrofe humanitária no Iêmen

O Iêmen vive hoje uma das situações consideradas mais delicadas no Oriente Médio. O país encontra-se devastado por uma guerra entre o governo do presidente Abdrabbuh Mansour Hadi* e os membros do movimento rebelde Houthi. Observadores apontam que os ataques aéreos e o bloqueio fronteiriço da coalizão multinacional** liderada pela Arábia Saudita impulsionaram um desastre, pois, atualmente, 70% da população necessita de ajuda humanitária.

Mapa da atual divisão geopolítica do Iêmen

As campanhas aéreas sauditas e de oito Estados árabes de maioria sunita contra o país começaram após o empoderamento do movimento Houthi, grupo supostamente apoiado pelo Irã, e buscaram auxiliar no estabelecimento do governo de Mansour Hadi. O conflito instaurou-se a partir do insucesso na transição política que deveria trazer estabilidade ao Iêmen, em 2011, com uma forte onda de protestos que forçaram o antigo presidente Ali Abdullah Saleh a renunciar sua posição, entregando o Governo a Mansour Hadi – o Vice-Presidente. O Governo Hadi vivenciou problemas severos em sua gestão, incluindo ataques realizados pela al-Qaeda, por movimentos separatistas e por militares aliados ao presidente Saleh, sem contar com questões estruturais, como acusações de corrupção, desemprego e insegurança alimentar.

O Movimento Houthi, que busca empoderar a minoria xiita, já participou de uma grande série de revoltas contra o antigo presidente Saleh na última década. Durante a transição entre o governo de Saleh e o de Hadi, com o enfraquecimento do Estado, o movimento aproveitou para capturar a parcela norte da Província de Saada, agregando parte da população iemenita que estava descontente com a transição (até mesmo parcelas sunitas da população), conseguindo alcançar a capital, Sanaa, em 2014. No ano seguinte, os Houthis reforçaram seu posicionamento sobre a capital, sitiando o palácio presidencial e outros pontos estratégicos da cidade, aprisionando o presidente Hadi e parte de seu Gabinete.

Resultado de um ataque aéreo saudita em Sanaa

De acordo com as Nações Unidas, durante o conflito já foram registradas pelo menos 4.773 mortes de civis e outros 8.272 feridos. Pouco abaixo da metade da população têm menos de 18 anos, e um terço de todos os civis mortos nos primeiros anos do conflito foram crianças. A ONU ainda afirma que 2 milhões de pessoas tiveram que deixar suas casas, além disso, 180 mil deixaram o país. Este ano (2017), o Iêmen, destruído pela guerra, vivencia o pior surto de Cólera do mundo. Fontes da organização apontam que mais de 1.700 pessoas morreram desde abril devido à bactéria e existem ainda mais de 320.000 casos suspeitos, com a média de 5 mil novos casos registrados por dia.

O conflito entre Houthis e o governo do presidente Hadi também é visto como parte de uma disputa regional de poder entre o xiita Irã e a sunita Arábia Saudita. Os Estados do Golfo aliados aos sauditas acusaram os iranianos de proverem suporte financeiro e militar ao movimento Houthi, mesmo assim, eles afirmam serem defensores do atual Governo do Iêmen.

O conflito está no radar das potências ocidentais que consideram a célula da al-Qaeda que está instalada no país como uma das mais perigosas, devido a sua expertise técnica e alcance global. Existem também organizações filiadas ao Estado Islâmico no Iêmen, como a Ansar al-Sharia, que estão sendo monitoradas para que não aumentem seu poderio perante à crise humanitária existente.

———————————————————————————————–

Notas:

* O Governo tem sua autoridade sobre o território do Iêmen reconhecida internacionalmente, no âmbito do mandato de transição de dois anos.

** A Coalizão de países árabes tem recebido apoio logístico dos EUA, França e Reino Unido.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Imagem Aérea de Sanaa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Yemen#/media/File:Sana.jpg

Imagem 2 Mapa da atual divisão geopolítica do Iêmen” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Yemen#/media/File:Yemeni_Civil_War.svg

Imagem 3Resultado de um ataque aéreo saudita em Sanaa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Yemen#/media/File:Destroyed_house_in_the_south_of_Sanaa_12-6-2015-3.jpg

AMÉRICA DO NORTEEUROPANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Em meio ao G20, EUA e Rússia discutem cooperação na Guerra da Síria

Em meio a Cúpula do G20, em Hamburgo, na Alemanha, o longo encontro bilateral ocorrido entre Donald Trump e Vladimir Putin expôs a necessidade de ambos produzirem interesses convergentes diante das principais instabilidades da agenda geopolítica, em especial na Guerra Civil síria.

Com a iminente derrocada do autoproclamado califado islâmico nos enclaves de Mossul, no Iraque, e também em Ar-Raqqa, na Síria, capital do Califado, Washington e Moscou firmaram um acordo confidencial de cessar-fogo no sudoeste da Síria, com o objetivo inicial de atender as demandas de Israel e Jordânia para que não sejam permitidos sobressaltos de forças iranianas, bem como de seu eixo de apoio com a milícia xiita Hezbollah, além de enfrentar os combatentes ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico (EI) nas imediações das Colinas de Golã, que são ocupadas pela Força de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), e ao longo da fronteira com a Jordânia.

Soldados Pershmergas nas cercanias de Mossul, Iraque

O pacto detalhado em um Memorando de Princípios para De-escalação no sudoeste sírio exige da região abaixo de Quneitra e Suwayda a manutenção da governança existente e a confecção de arranjos de segurança em áreas de oposição ao regime sírio.

Com a elaboração de um quadro adjacente ao conflito de mais de seis anos, observadores internacionais acreditam que o acordo poderá ajudar permanentemente, fortalecendo uma iniciativa que poderia culminar em outras partilhas na região.

O acordo também prevê o acesso livre para os trabalhadores de ajuda humanitária e para a criação de condições de retorno dos refugiados. Somente a Jordânia registrou ao longo da guerra o recebimento de mais de 650 mil sírios nos campos de Azraq e Al-Zaatari.

Embora a iniciativa estadunidense e russa vise um plano estratégico de curto prazo para estancar eventual expansão do conflito, um funcionário do Departamento de Estado em condição de anonimato externou à revista Foreign Policy preocupação quanto aos detalhes do pacto bilateral, uma vez que Estados Unidos e Rússia ainda não discutiram como se dará o monitoramento do cessar-fogo, as regras que irão reger o quadro de de-escalação e a presença de monitores internacionais.

O desejo de Trump de alinhar seus interesses com Putin em uma coalizão global é conhecido, dada sua admiração explícita pelo líder russo. Nesse sentido, Putin, em uma condição melhor de negociação, pode trocar esse apoio pelo levantamento de sanções contra o Kremlin, assim como para as principais personalidades do regime e empresários locais ligados ao Presidente.

Crianças sírias coletando água de poço instalado no campo de refugiado Al-Zaatari na Jordânia

Contudo, as vantagens da união de forças entre Washington e Moscou devem ser ponderadas, uma vez que as metas russas incluem obtenção e expansão de bases, bloqueando o uso de forças estadunidenses para remover um regime pelo qual não nutrem apreço, elevando, assim, o status da Rússia na região, o que permitiria a manutenção de Bashar Al- Assad no poder.

Nesse imbróglio, a determinação do Presidente norte-americano em legitimar um acordo com a Rússia poderá ainda servir como ferramenta de persuasão a Trump, uma vez que a visão de mundo de Vladimir Putin tomou projeção no avanço desse realinhamento, mas endossando quase em sua totalidade a narrativa trabalhada pelo líder russo.

A leitura do longo encontro durante a Cúpula em Hamburgo consolidou, por fim, uma vitória significativa no campo diplomático a Putin, pois enfraqueceu as ferramentas dos EUA para defender seus interesses e cedeu espaço de batalha no tabuleiro geoestratégico ao Kremlin (no aspecto físico, virtual e moral), pois, além da associação majoritária na guerra civil síria, Moscou avançou também em duas outras questões: do hacking eleitoral, alegando total isenção na formação do novo quadro político estadunidense, e sugerindo cooperação em segurança cibernética para evitar novos abalos; bem como em um acordo, por ora ainda tácito, em que os dois presidentes concordam em não interferir nos assuntos domésticos do outro.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente Trump e Presidente Putin no primeiro encontro de ambos na Cúpula do G20, em Hamburgo, na Alemanha” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/euronews/34966171183/in/photolist-VgQLup-Csrarv-WrQKN9-VgQL44-WrQ1fs-WvrDb2-WuWPjs-WvCG5Y-WrQ25o-Vhi9Vq-VjWsjM-Wj6bwc-Vkca1D-VYaHxb-VeU7yE-Wq6R8Q-Wizbaw-WuV7Fq-VZcnWY-VYbNRf-WiyG9G-VjWnH2-WsrUmS-ViiHiz-WotLwQ-Wjv3ae-VYamqw-Vihs13-VYaMVu-Vihr6s-WvXxdw-VihpSq-WyxzSt-WjfWVA-WjuZnR-WacbuS-Vihqa9-WvXx7j-Vihpgq-WvXxhj-WvXxjU-Vihq2o-VkXJmi-Vihqso-VihqXS-VZcnT1-VYUaEh-WywjWD-VYbbJL-ViDVkF

Imagem 2Soldados Pershmergas nas cercanias de Mossul, Iraque” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/kurdishstruggle/14826295722/in/photolist-p2JxrA-oCE778-P4NK91-NahB7U-o7FZyX-oEdNF1-oGTAqw-itiQRE-okbu8c-oMANWy-oJXAjp-puPn9b-pjr7tF-oUpMgg-oT6srR-oHmE8y-opXeyX-iupGH8-oPkxSh-orSC3z-oD6cGv-opWVTh-oEpuNN-odgRJF-oBWc78-oA9Dbj-NqMj3p

Imagem 3Crianças sírias coletando água de poço instalado no campo de refugiado Al-Zaatari na Jordânia” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Zaatari_refugee_camp#/media/File:Children_filling_water_in_Al-Zaatari_Camp.jpg

ÁSIANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Visita do Primeiro-Ministro Indiano à Israel sugere mudança de política externa

A visita do Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, à Israel, ocorrida entre os dias 4 e 5 de julho (2017), foi um marco na política externa indiana, pois é a primeira vez na história do país que seu Chefe de Governo visita Tel Aviv. A Índia, que abriga uma população de 172 milhões de muçulmanos, historicamente se colocou ao lado da causa Palestina e reconhece o seu Estado. Esse comportamento estava relacionado com uma política externa terceiro-mundista*, que historicamente apoiou a criação do Estado da Palestina e condenou os atos de Israel. Entretanto, sinais de uma inclinação da política externa indiana à nação judia começaram a ser perceptíveis desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, em 1992, e tais sinais se mostraram inegáveis durante a visita de Modi à Netanyahu.

Visita do Presidente palestino, Mahmoud Abbas, ao Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi, em maio de 2017

Atualmente, a principal área de cooperação é a de segurança. A Índia é o maior mercado dos produtos da indústria bélica israelense e ambos agora planejam aumentar sua cooperação para a construção conjunta de um sistema antimíssil indiano, a partir de um acordo assinado em abril, de quase 2 bilhões de dólares (aproximadamente 6,5 bilhões de reais, na conversão de 11 de julho de 2017). Além da realização de acordos relacionados à Defesa, os dois Estados expandiram a cooperação nas áreas de comércio, desenvolvimento tecnológico e questões energéticas.

Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel

O prolongamento da viagem para a Palestina, que normalmente é realizada por todos Chefes de Estado e de Governo que visitam Israel, não ocorreu. O Presidente palestino, Mahmoud Abbas, já havia se reunido com Modi em Nova Delhi, em maio deste ano (2017), o que poderia justificar a resolução indiana. A decisão de Modi de não visitar a Palestina, porém, foi contestada tanto internamente, com o Partido Comunista Indiano enfatizando o desrespeito à causa árabe e palestina, como pelo Governo e sociedade civil da Palestina. O Governo indiano, por sua vez, afirmou para o jornal The Independent que os laços entre a Índia e a Palestina ainda são fortes e a aproximação com Israel não deve ser compreendida como um estremecimento deles.

Por um lado, a tentativa de se aproximar de Israel e manter suas relações com os palestinos pode ser interpretada como uma perpetuação da ideologia terceiro-mundista, visto que ela pregava que a defesa dos interesses nacionais estaria acima de conflitos políticos e ideológicos. A atual aproximação com o Estado israelense, porém, ao ser alinhada internamente com o aumento na violência contra os muçulmanos na Caxemira e as atuais políticas contra a indústria da carne, demonstra uma consonância entre as políticas internas e externas da atual gestão de Modi que, ao se aproximarem da ideologia de nacionalismo hindu, o afasta do ideal não-alinhado. 

———————————————————————————————–

Notas:

* O Terceiro-Mundismo é uma corrente do pensamento político originada na divisão ideológica criada pela Guerra Fria, que separou o Primeiro-Mundo, ocidental e capiteneado pelos Estados Unidos, do Segundo-Mundo, países socialistas aliados à antiga União-Soviética. Dezenas de países da América Latina, África e Ásia preferiram, em vez de se aliar a um dos lados dessa divisão, criar um grupo próprio, o Terceiro-Mundo. Entre seus ideais estão o não-alinhamento, o respeito à soberania interna dos países e a luta contra o subdesenvolvimento.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeiras da Índia e Israel” (Fonte):

http://www.mapsofindia.com/my-india/government/the-friendship-of-india-and-israel

Imagem 2Visita de Abbas à Modi, em maio de 2017” (Fonte):

http://www.india.com/news/india/narendra-modi-meets-palestinian-president-mahmoud-abbas-seeks-help-to-rescue-indian-hostages-in-iraq-and-libya-585783/

Imagem 2Benjamin Netanyahu, PrimeiroMinistro de Israel” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Netanyahu#/media/File:Benjamin_Netanyahu_2012.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Israel prossegue planos para assentamentos em Jerusalém Oriental

Na última segunda-feira, dia 3 de julho, agências internacionais reportaram que Israel vem promovendo avanços em seus planos de construção de 1.800 novas habitações residenciais em Jerusalém Oriental. O projeto controverso representaria a maior onda de construção de novos assentamentos nos últimos 10 anos. Os planos ainda serão avaliados pelo Comitê de Planejamento Distrital de Jerusalém neste mês (Julho de 2017). Se aprovados, eles marcariam o fim da desaceleração relativa da construção israelense na parte leste da cidade. Grupos de direitos humanos condenaram a proposta esta semana.

Pisgat Ze’ev é um assentamento israelense em Jerusalém Oriental, maior bairro residencial em Jerusalém, com uma população de mais de 50.000 habitantes

Os planos de construção incluem propostas para edifícios judaicos, como uma Yeshiva* de oito andares, em Sheikh Jarrah, que os palestinos consideram estar no coração de Jerusalém Oriental. De acordo com a organização não governamental israelense Peace Now, os planos também envolveriam a demolição de casas de cinco famílias palestinas, que detém direitos de arrendamento de longo prazo. A organização e outros grupos condenaram os projetos, acusando o Governo israelense de tentar destruir a solução de dois Estados.

Conforme Peter Beaumont, do The Guardian, o bairro de Sheikh Jarrah detém forte simbolismo para ambos os lados. Para Israel, era o lar de uma pequena comunidade judaica até 1948, quando Jerusalém Oriental caiu sob o domínio da Jordânia, após a guerra de fundação do Estado israelense. Na década de 1950, dezenas de famílias de refugiados palestinos de Jerusalém Ocidental – deslocadas pela mesma guerra – foram instaladas na região. Nos últimos anos, no entanto, várias famílias palestinas foram despejadas como resultado de decisões judiciais israelenses para reconhecer reivindicações de propriedade judaicas pré-1948. Estas leis, contudo, recusam o reconhecimento das reivindicações feitas pelos palestinos forçados a deixar Jerusalém Ocidental em circunstâncias semelhantes.

Mapa de Jerusalém leste, 2007 – UM OCHA Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. O muro israelense é traçado em vermelho e os assentamentos indicados em roxo. Em bege, as áreas de construção palestina

Em declaração de 3 de julho, a ONG afirmou queO governo está brutalmente tentando destruir a possibilidade da solução de dois Estados, desta vez, através do estabelecimento de um novo assentamento no coração de um bairro palestino em Jerusalém Oriental e promovendo cerca de 1.800 unidades habitacionais além da Linha Verde. O despejo de 5 famílias palestinas, que são inquilinos protegidos, para estabelecer um novo assentamento em Sheikh Jarrah mostra que nada vai impedir que os grupos de colonos e um governo pró-colonizador evitem um futuro compromisso em Jerusalém”. Respondendo aos relatórios propostos pelo Governo israelense, o Departamento de Assuntos de Negociações da Organização para Libertação da Palestina declarou no Twitter: “Israel confirma novamente seu compromisso com o apartheid e a limpeza étnica com os anúncios de assentamentos em Jerusalém ocupada, e não com a paz”.

O Estado israelense reivindica soberania sobre Jerusalém desde que ocupou a Cidade Velha e os bairros orientais, em 1967. A reivindicação de Israel não é reconhecida por grande parte da comunidade internacional e os palestinos afirmam que Jerusalém Oriental é a capital de um futuro Estado. De acordo com estatísticas oficiais israelenses, o período entre abril de 2016 e março de 2017 registrou um aumento de 70,4% na construção de moradias de assentamentos na Cisjordânia ocupada.

Gráfico de linha do crescimento populacional em assentamentos israelenses até 2005, criado a partir de dados coletados pelas organizações Peace Now e B’Tselem, a partir do Departamento de Estatística de Israel. A população de colonos israelenses em Jerusalém leste é indicada em amarelo e em roxo a população total de assentados

Peter Beaumont, do The Guardian, argumenta que o Governo de direita de Israel parece ter sido encorajado pela postura pró-israelita da administração Trump, que tem sido muito mais silenciosa em suas críticas aos assentamentos que seu antecessor, Barack Obama. Particularmente, após a visita de Donald Trump os políticos de direita reforçaram declarações de que o congelamento da construção em Jerusalém Oriental estava encerrado, informou o Haaretz.

A última rodada das chamadas negociações de paz entre os dois lados entrou em colapso em abril de 2014. As atividades de assentamento de Tel Aviv estiveram entre as principais razões por trás do fracasso das negociações. Os assentamentos israelenses são considerados ilegais sob o direito internacional, pois são construídos em território ocupado.

———————————————————————————————–

Notas:

* Yeshivás são instituições onde são estudados textos religiosos tradicionais judaicos, principalmente o Talmud e a Torá.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Jerusalém Oriental e o Muro de Separação israelense na Cisjordânia, ao fundo” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:East_Jerusalem.jpg

Imagem 2Pisgat Zeev é um assentamento israelense em Jerusalém Oriental, maior bairro residencial em Jerusalém, com uma população de mais de 50.000 habitantes” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Israeli_settlement#/media/File:PisgatzeevS.jpg

Imagem 3Mapa de Jerusalém leste, 2007 UM OCHA Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. O muro israelense é traçado em vermelho e os assentamentos indicados em roxo. Em bege, as áreas de construção palestina” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/East_Jerusalem#/media/File:Jerusalem-barrier_June_2007-OCHAoPt.jpeg

Imagem 4Gráfico de linha do crescimento populacional em assentamentos israelenses até 2005, criado a partir de dados coletados pelas organizações Peace Now e BTselem, a partir do Departamento de Estatística de Israel. A população de colonos israelenses em Jerusalém leste é indicada em amarelo e em roxo a população total de assentados” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/ca/IsraeliSettlementGrowthLineGraph.png

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Possíveis Consequências do Referendo de Independência na Região do Curdistão

Três anos após Abu Bakr al-Baghadadi declarar a existência de seu Califado na Mesquita de al-Nuri, em 29 de junho de 2014, o mesmo local foi capturado por militares iraquianos que ainda avançam para a retomada de Mosul. O Governo iraquiano tem obtido sucesso nos esforços para reconquista de seu território, entretanto, agora, o próximo passo é a reintegração política e social das regiões sob seu controle, de modo a garantir a segurança dos cidadãos.

Região do Curdistão

Essa segunda etapa de recuperação, além dos conflitos armados, tende a ser um desafio mais complexo. À medida em que o Estado Islâmico (EI ou ISIS) perde sua esfera de domínio sobre seus territórios, cria-se espaço para o ressurgimento de disputas políticas antigas. É o caso da região autônoma dos Curdos no Iraque, localizada em sua maior parte no norte do país. Masoud Barzani, o Presidente do Governo da Região dos Curdos no Iraque (KRG), anunciou, via twitter, a data de 25 de setembro de 2017 como o dia para o Referendo de independência regional. Oficiais do Governo afirmam que a decisão foi tomada após uma reunião dos maiores partidos políticos.

O Referendo sobre a independência dos Curdos do Iraque acontecerá nos três governorados* que compõem a região curda, mas também em espaços cujo domínio territorial é disputado com iraquianos. Vale notar que as áreas de disputa atualmente se encontram sob controle militar curdo, tendo em vista sua participação nos esforços militares para retirar o ISIS do norte do Iraque. Dentre estes territórios, destaca-se a Província de Kirkuk, devido à presença de poços e refinarias de petróleo, que podem motivar maiores tensões durante o processo de independência.

Presidente do Governo Regional do Curdistão, Massoud Barzani

Não é claro se a vitória do “sim” levaria diretamente a uma declaração de independência, pois, apesar de haver uma forte coesão social na população curda, ainda existem divisões políticas. A maior dificuldade no processo ainda é a oposição de Bagdá ao movimento de separação. Mesmo com um certo nível de autonomia (Curdos dispõe de seu próprio Parlamento e Forças Armadas), a oposição do Governo do Iraque se sustenta nas disputas pela divisão de recursos oriundos da exploração do petróleo, e pelos territórios iraquianos que foram tomados pelas forças Curdas durante o combate ao ISIS.

Existe grande preocupação internacional com os desdobramentos que o voto positivo no Referendo poderia acarretar. Países como Síria, Irã e Turquia têm um histórico de oposição ao movimento de independência dos curdos, uma vez que suas populações também são compostas pela etnia. A Alemanha também se manifestou com preocupação sobre os planos. O Ministro de Relações Exteriores, Sigmar Gabriel, alertou sobre a tomada de decisões unilaterais que colocariam em risco a unidade do Iraque, o que aumentaria a instabilidade no país.

———————————————————————————————–

* Um Governorado é uma divisão administrativa de um país, dirigida por um Governador. Tem sido comum usar o termo em traduções para se referir a essas subdivisões regionais, correspondendo, aproximadamente, a um Estado, uma Província, ou Colônia. Nesse sentido, é uma tradução de termo inglês para se referir a subunidade administrativa de país, que seja administrada por um Governador.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeira da Região do Curdistão” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Curdistão_iraquiano#/media/File:Flag_of_Kurdistan.svg

Imagem 2 “Região do Curdistão” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Kirkuk#/media/File:Iraqi_kurdistan_location.png

Imagem 3 “Presidente do Governo Regional do Curdistão, Massoud Barzani” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Massoud_Barzani#/media/File:Mesud_Barzani.jpg