NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]A Segunda Guerra entre Israel e o Líbano, dez anos depois[:]

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Em 12 de julho de 2006, teve início a Segunda Guerra entre Israel e o Líbano. Do lado libanês, a responsabilidade pela eclosão da conflagração deve ser atribuída ao grupo insurgente Hezbollah que, ao sequestrar dois espiões israelenses e matar sete soldados daquele país, fez elevar as hostilidades, deflagrando o conflito. Israel respondeu prontamente com a Operação Justa Recompensa, atingindo aproximadamente 40 locais no sul do Líbano. A infraestrutura do país ficou praticamente destruída após 34 dias de batalhas entre Israel, o Hezbollah e, em menor proporção, as Forças Armadas libanesas.

Hoje, 10 anos depois, apesar da ausência de confrontos diretos, a sanha entre o Hezbollah e Israel continua latente, não estando descartada, para o futuro, a possibilidade de um novo enfrentamento. Segundo analistas, outro embate entre Israel e o Líbano será proporcionalmente mais devastador do que aquele que aconteceu em 2006 pois, somado ao fato de a infraestrutura do Hezbollah se encontrar dispersa em áreas civis, sendo tratada pelos israelenses como alvo militar, os radicais xiitas contam, hoje, com maior experiência militar, nomeadamente, a partir do longo período de Guerra na Síria e das melhorias em sua capacidade ofensiva. Atualmente, o grupo conta com 45.000 combatentes e 100.000 mísseis, possuindo, ainda, aviões não tripulados e melhorias na recolha de informações. Por outro lado, Israel se considera preparado para inibir as forças do Hezbollah.

Para o Líbano, um conflito significa o aumento dos problemas que comprometem o país de modo avassalador. Este vive, hoje, os reflexos do conflito na vizinha Síria e enfrenta dificuldades políticas em virtude das práticas públicas sectárias e, também, do problema da recolha do lixo em Beirute. Por outro lado, o Líbano é, na atualidade, o país com o maior número per capita de refugiados do mundo, sendo que, 1,5 milhão são sírios. Manter-se afastado de conflitos é, para o Líbano, a melhor alternativa, mas isto está na dependência do Hezbollah que é, na verdade, um Estado dentro do Estado.

No último domingo, 10 de julho, o Chefe do Estado Maior de Israel, Tenente-General Gadi Eisenkot, prometeu que as Forças de Defesa de Israel (IDF) irão derrotar o Hezbollah em caso de novo conflito. O Tenente-General fez a seguinte afirmação: “Os nossos inimigos do norte estão a examinar-nos durante todo o tempo. Estou certo de que, no momento da verdade, vamos manter-nos firmes e provar que as IDF constituem um poder pronto, poderoso e decisivo sob o ponto de vista militar”, tendo acrescentado que a ameaça do Hezbollah permanece e que as IDF estão “preparadas para todos os cenários”.

O Líbano continua politicamente dividido numa altura em que o Hezbollah, considerado por especialistas um protetorado do Irã, é mais poderoso do que em 2006. Embora o desgaste na Guerra Civil da Síria nos leve a supor um enfraquecimento dos fundamentalistas xiitas, a capacidade de combate alimentada pela ideologia radical permanece forte e aquilo que tem travado, de fato, o Hezbollah não é o receio de Israel, mas a sociedade libanesa. Para Omri Nir, pesquisador especialista no Líbano, da Universidade Hebraica de Jerusalém, “após 10 anos, o que se destaca na maioria da sociedade libanesa são as memórias da guerra, que se transformaram em fator de restrição. Para o Hezbollah, não é apenas o medo de Israel, mas por temer ser visto pelo público como um grupo libanês que pode levar mais violência ao Líbano”.

Se, por um lado, o Hezbollah tem os seus apoiantes, por outro, há aqueles que compreendem a questão de outro modo. Conforme afirmou um entrevistado do jornal Ynetnews, “o fosso que existe, no Líbano, após a guerra ficou mais largo depois que o Hezbollah se transformou numa força incontrolável. A guerra deu ao Hezbollah uma quantidade de poder incomum, porque eles acreditaram que tinham triunfado como nenhum país árabe antes”. Enquanto as memórias dos combates de 2006 permanecem vivas nas mentes dos libaneses, analistas acreditam que o Hezbollah está se preparando para a Terceira Guerra contra Israel, o que poderá acontecer a qualquer momento.

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ImagemUm soldado israelense lança uma granada contra um bunker do Hezbollah (Segunda Guerra do Líbano, 2006)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/62/Flickr_-_Israel_Defense_Forces_-_Hezbollah_Secret_Bunker_%281%29.jpg

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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]Três cidades sauditas são alvo de atentados suicidas [:]

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Uma série de ataques terroristas perpetrados por homens-bomba abalaram três cidades sauditas na última segunda-feira, 4 de julho de 2016. Explosões foram registradas nas proximidades do Consulado dos Estados Unidos, em Jeddah; na cidade de Qatif, de maioria xiita; e em Medina, próximo à Mesquita do profeta. Os atentados, aparentemente coordenados e ocorridos a três dias do fim do Ramadan, não tiveram sua autoria assumida até o momento. As explosões ocorrem em meio a significativas ações violentas do Estado Islâmico (EI, ou, ISIS) em vários países da região, nas últimas semanas.

Três ataques suicidas foram perpetrados em menos de 24 horas no país, conforme reportado pelo jornal britânico The Independent. O primeiro foi registrado em Jeddah, na costa oeste do país, nas primeiras horas de segunda-feira, com uma explosão detonada perto do Consulado norte-americano. Dois oficiais de segurança foram feridos ao deterem o homem no chão, que acionou o colete-bomba quando os agentes o abordaram. Conforme reportou o jornal O Estado de São Paulo, os funcionários do corpo diplomático estadunidense na cidade foram transferidos do local. 

No segundo ataque, um suicida explodiu-se em um estacionamento da Mesquita de Faraj al-Omran, na cidade de Qatif, à leste da Arábia Saudita, onde vive o maior contingente da minoria xiita do país.

O terceiro e mais mortífero atentado ocorreu perto da Mesquita do Profeta, em Medina, a segunda mais importante cidade sagrada no Islã, matando ao menos cinco pessoas. Quatro eram membros das forças de segurança sauditas, mortos na explosão próxima à sede de segurança da Mesquita Nabawi, onde o profeta Mohammed está enterrado. A explosão ocorreu no início do pôr do sol, ao fim das preces, e quando os habitantes iniciavam a quebra do jejum. O ataque teria sido causado por um jovem suicida que teria se aproximado da segurança se passando por um doador de comida para o iftar, quebra do jejum durante o mês do Ramadan.

Os muçulmanos acreditam que a Mesquita de Medina foi construída pelo próprio Profeta no século VII, logo após sua fuga de Mecca, a chamada Hégira, sendo reverenciada por sunitas e xiitas. Milhares de muçulmanos visitam a tumba de Mohammed todos os anos durante os últimos dez dias do mês do Ramadan, antes de continuar sua peregrinação menor à Mecca, a chamada Umrah. A mesquita, além do túmulo do Profeta, também contém a tumba dos dois primeiros califas, Abu Bakr e Omar.

A explosão em Jeddah foi a primeira tentativa de ataque contra estrangeiros no reino, que há anos tem sido um aliado crucial do Governo dos Estados Unidos. No que concerne ao ataque em Qatif, tradicionalmente, o alvo dos ataques do Estado Islâmico na Arábia Saudita tem a minoria xiita. Em maio de 2015, o Estado Islâmico promoveu um atentado suicida contra um templo xiita em Qatif, deixando mais de 20 mortos e centenas de feridos; e em outubro do mesmo ano, em Najram, com a morte de pelo menos uma pessoa. Em janeiro de 2016, ao menos quatro pessoas foram mortas em um ataque suicida em uma mesquita xiita na região de al-Ahsa, à leste.

Historicamente, as cidades de Qatif e Al-Ahsa têm sido o ponto focal de manifestações contra o Governo saudita. A Província foi palco de protestos por parte dos xiitas, assim como de atos violentos – como ataques contra delegacias e membros das forças de segurança. As áreas de maioria xiita no reino queixam-se de marginalização pelo Governo teocrático sunita, de ramificação wahhabita. A comunidade xiita do reino é estimada entre 10% a 15% da população total. Eles alegam enfrentar discriminação na busca de oportunidades de educação ou emprego no Governo, além de serem referidos depreciativamente em publicações, por funcionários sunitas e por clérigos financiados pelo Estado. Os xiitas das províncias de Qatif e Al-Ahsa também alegam restrições à criação de locais de culto, marcação de feriados xiitas e menor alocação de recursos em relação às comunidades sunitas de dimensão equivalente.

A ocorrência de vários ataques possivelmente coordenados e em diferentes cidades na Arábia Saudita, em um mesmo dia, ressalta o grau de sofisticação e de planejamento dos eventos – fazendo recair as suspeitas sobre o Estado Islâmico. Os líderes do Isis haviam incitado seus seguidores a realizar ataques durante o mês sagrado do Ramadan. A Arábia Saudita é parte integrante da coalizão liderada pelos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Contudo, nenhum grupo reivindicou responsabilidade pelos três atentados na Arábia Saudita até o momento.

As explosões ocorreram em meio a uma onda de ataques nos últimos dias em países, como Iraque e Turquia, cuja autoria foi reivindicada pelo EI. A responsabilização deste pelas significativas ações aparentemente demonstram sua atenção para além dos seus redutos no norte do Iraque e na Síria, na esteira de repetidas derrotas no campo de batalha. O grupo já pediu ofensivas contra o Governo saudita em muitas ocasiões. Mas o ataque perto de um dos locais mais sagrados do Islã é uma grande escalada na sua campanha, afirmam analistas para o jornal britânico The Guardian.

No último domingo 3 de julho, 215 pessoas morreram em Bagdá, em um dos atentados mais mortíferos na capital iraquiana em anos. Na semana passada, em 28 de junho de 2016, o Aeroporto de Istambul na Turquia foi alvo de um atentado a tiros e bombas que deixou 45 mortos e centenas de feridos. No dia 4 de julho, um ataque terrorista do grupo em um café em Dhaka, capital de Bangladesh, vitimou 20 cidadãos. Esses atentados estão ocorrendo na véspera do Eid al-Fitr, que marca o fim do mês sagrado do Ramadan.

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ImagemResultado da explosão de uma bomba que atingiu as proximidades do quartelgeneral de segurança na Mesquita do Profeta, na cidade saudita de Medina” (Fonte):

http://www.presstv.ir/Detail/2016/07/04/473617/Saudi-Arabia-Qatif-bombing

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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

[:pt]A Normalização das relações entre a Turquia e Israel[:]

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As relações entre a Turquia e Israel ficaram abaladas há seis anos, quando uma flotilha com ativistas turcos pró-Palestina tentou romper o bloqueio naval de Israel à Faixa de Gaza para levar ajuda humanitária ao enclave palestino. Na ocasião, fuzileiros israelenses entraram em confronto com os ocupantes das embarcações e 10 turcos foram mortos.

Desde então, os dois países interromperam um período de importantes colaborações, principalmente na área da Defesa. Após esta fase de desacertos no campo da cooperação e da diplomacia, em 28 de junho, o Subsecretário de Relações Exteriores da Turquia, Feridun Sinirlioglu, em Ancara, e o Diretor-Geral do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Dori Gold, em Jerusalém, assinaram um Acordo para a retomada e normalização das relações bilaterais.

Israel sinalizou o interesse em descongelar a desavença com a Turquia, cumprindo com duas das três exigências feitas pelo Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan. Em 2013, Benjamin Netanyahu, o Primeiro-Ministro israelense, pediu desculpas pelo episódio envolvendo a flotilha e, em 2015, concordou em indenizar as famílias das vítimas. A terceira condição imposta pelo Governo turco refere-se ao levantamento do bloqueio à Faixa de Gaza. Em contrapartida, Israel exigiu, para o cumprimento desta medida, a expulsão, do território turco, de pessoas ligadas ao Hamas. Ancara, por sua vez, se comprometeu a não permitir que os insurgentes do Hamas pratiquem ações contra Israel a partir da Turquia e, também, a expulsar os chefes do grupo insurgente do território turco.

A retomada do entendimento entre a Turquia e Israel é um ponto fundamental para ambos os lados. No momento em que o Oriente Médio está passando por turbulência e uma reconfiguração geopolítica, estes dois países são, hoje, as duas únicas possibilidades válidas, em termos de cooperação regional, fato que não tem passado despercebido a nenhuma das partes. Para Israel, a reaproximação com a Turquia, que já foi o seu “principal aliado muçulmano”, é o reatar dos laços com um parceiro viável em termos de colaboração e troca de informações mas, sobretudo, naquilo que envolve as tensões com o Irã e a abertura de mercado para o escoamento de gás natural através da conexão com a Turquia e sua rede de gasodutos para a Europa.

Mesmo que as relações entre os dois países não alcancem os níveis anteriores, segundo Arda Mevlutoglu, especialista em indústria da Defesa, “Ancara e Tel Aviv têm percepções semelhantes relativamente às ameaças e posicionamento de forças na região. Isso pode ajudar na formação de uma nova equação geopolítica para o Mediterrâneo Oriental, facilitando o contrabalanço do peso do Irã na região”. Por outro lado, a Turquia está enfrentando problemas tanto internos, quanto externos no plano das ameaças e da Segurança. O país encontra-se isolado, na região, debatendo-se com uma crise política que abarca a Síria e a Rússia, e não tem recebido uma resposta adequada por parte dos EUA e da OTAN. Neste contexto, Israel poderá ser um interveniente importante na preservação das relações entre a Turquia e os EUA e na normalização do relacionamento com a Rússia.

As dificuldades que a Turquia enfrenta, em termos regionais, fizeram, de acordo com informações, com que as Forças Armadas turcas pressionassem os dirigentes políticos para a assinatura do acordo com Israel. Consoante um dirigente turco da área de Segurança, que pediu para não ser identificado, “Ancara, devido ao seu isolamento preocupante na região, e com o apoio inadequado dos EUA e da OTAN, não tinha escolha senão se voltar para Israel para a cooperação militar e de segurança”.

Independentemente da importância da normalização das relações entre a Turquia e Israel, os aspectos norteadores que definiram, de fato, a assinatura do Acordo, revelam um Oriente Médio dividido e a necessidade do estabelecimento de alianças regionais ante um panorama político indefinido e com raras opções para a criação de parcerias credíveis. Deste modo, a Turquia e Israel se estão assumindo como o contrapeso entre os países da região, que se acham perante um futuro marcado pela insegurança e por um cenário geral impreciso.

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ImagemLady Leyla’, navio de bandeira panamenha, chega ao porto de Ashdod, Israel, em 3 de julho de 2016, transportando ajuda humanitária turca para Gaza” (Fonte):

http://wtop.com/wp-content/uploads/2016/07/Mideast-Israel-Turkey-1880×1254.jpeg

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ÁFRICANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A Tunísia ante o retorno dos Jihadistas do Estado Islâmico

A Tunísia, país do norte da África e berço da Primavera Árabe, enfrenta hoje sérias dificuldades de segurança no que diz respeito aos combatentes retornados da Síria, do Iraque e da Líbia. No pós-Primavera Árabe e com o despertar do islamismo radical, o país tornou-se um fornecedor de insurgentes estrangeiros que se juntaram ao Estado Islâmico, principalmente, na Síria, no Iraque e na Líbia. Aproximadamente entre 6.000 a 7.000 tunisinos conseguiram sair do país para lutar pelo autoproclamado Califado. Calcula-se que cerca de 15.000 combatentes tencionavam fazer o mesmo percurso para participar na jihad, mas a viagem foi frustrada pelas autoridades tunisinas.

Atualmente, a Líbia é o destino predileto dos insurretos da Tunísia ligados ao Estado Islâmico, entre os quais se encontram pessoas com formação universitária e outros profissionais recrutados online. Eles são figuras-chave do Estado Islâmico naquele país, formando um contingente em torno de 4.000 a 6.000 combatentes.

O êxodo de jovens tunisinos para engrossarem as fileiras de grupos radicais islâmicos no estrangeiro se justifica, segundo especialistas, devido à desesperança, à repressão de regimes políticos ditatoriais, às frustrações e à pobreza, de modo que o Califado surgiu, para eles, como o único sonho possível. Hoje, estes jihadistas estão retornando ao país de origem e, embora as causas não sejam totalmente claras, há hipóteses que vão desde as decepções decorrentes do que viram nos campos de batalha, até às deserções motivadas pelas perdas de território, insistência das famílias e a expectativa de recrutar compatriotas, ou ainda, outras causas ainda não detectadas pelos Serviços de Inteligência.

A situação dos retornados à Tunísia é considerada, por especialistas em terrorismo, como perigosa, uma vez que não é possível identificar todos os envolvidos em atividades insurgentes. Neste momento, grupos jihadistas estão em atividade na região montanhosa ocidental do país. O principal grupo radical ativo na Tunísia é o Katibat Uqba Ibn Nafi, aliado da al-Qaeda no Magrebe islâmico, considerado uma extensão do Ansar al-Sharia e Jund al-Khilafah, leais ao Estado Islâmico. Embora estes grupos estejam formalmente ligados a alianças distintas, eles “estão unidos na realização de ataques contra as forças de Segurança da Tunísia e do Exército através de emboscadas e minas terrestres; os ataques causaram às forças governamentais grandes perdas humanas desde 2012”.

Sem um plano definido para a reintegração e a reabilitação desses regressados à sociedade tunisina, o Governo tem recorrido a mandados de prisão e controles de fronteira. Porém, estas estratégias são vistas com cautela por especialistas no assunto, pois os presídios superlotados poderão se tornar o meio ideal para o recrutamento de mais radicais. Alguns líderes das Forças de Segurança Interna propuseram, em 2015, a retirada da cidadania aos retornados insurgentes, mas esta medida esbarra no artigo 25.º da Constituição da Tunísia, que dispõe o seguinte: “Nenhum cidadão pode ser privado da sua nacionalidade, exilado, extraditado, ou impedido de regressar ao seu país”.

A Tunísia se confronta, atualmente, com um problema que desestabiliza o Governo e a sociedade. Para Hadi Yahmed, pesquisador de grupos islâmicos, “esses combatentes, que lutaram em várias frentes, têm vindo a constituir combatentes de espera que são treinados e preparados para se envolverem em qualquer batalha futura contra o Estado e a sociedade, onde quer que haja um sério problema de Segurança”. As dificuldades enfrentadas atualmente pela Tunísia e que, de certo modo, também estão a ocorrer em França e na Bélgica em relação aos seus jihadistas nacionais, poderão, a curto e a médio prazo, se estender a outros países ocidentais. Na verdade, os mecanismos de controle interno adotados até o momento para detectar militantes islâmicos ideologicamente radicalizados não são precisos e a vigilância nas fronteiras também não é suficiente, não sendo, portanto, esta uma adversidade exclusivamente tunisina.

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ImagemAgentes da Polícia guardam a entrada do Museu Nacional do Bardo, em 19 de março de 2015, um dia depois de atiradores terem morto dezenas de pessoas em Tunes, capital da Tunísia” (Fonte):

http://www.vosizneias.com/wp-content/uploads/2015/03/Tunisia-Attack_sham-1.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Netanyahu aprova US$ 18 milhões adicionais em plano de assistência para assentamentos na Cisjordânia

No último dia 19 de junho de 2016, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu aprovou um plano de assistênciade US$ 18 milhões (70 milhões de Shekels israelenses) para assentamentos na Cisjordânia. O plano autoriza fundos adicionais aos US$ 88 milhões já alocados pelo Estado para assentamentos de israelenses, a fim de “reforçar a segurança, ajudar pequenas empresas e incentivar o turismo” nas comunidades de Judéia e Samaria – termo utilizado por Israel para denominar a Cisjordânia, excluindo-se Jerusalém Oriental. O movimento provocou reações tanto dos legisladores da Oposição como de palestinos, pois os assentamentos são amplamente considerados ocupações ilegais em território palestino pela comunidade internacional.

Conforme o International Business Times, a Resolução do gabinete de Netayahu afirma que “comunidades israelenses na Judéia e Samaria enfrentam uma situação de segurança singular diariamente em virtude de sua localização geográfica e da natureza da vida na área. Desde o início de outubro de 2015, houve uma escalada na situação da segurança em Judéia e Samaria como resultado da onda de terror”.  Adicionalmente, declara que “As mudanças na situação securitária em Judéia e Samaria impactam na capacidade de conduzir a vida normal na região e demandam assistência em uma série de áreas – além da segurança – que irá reduzir a influência da situação de segurança e seu impacto sobre a vida quotidiana dos residentes, de seus negócios, e autoridades locais na área”. Além da segurança, o dinheiro também visará atualizar a infra-estrutura turística, instalações desportivas e eventos culturais, disseram os ministros. Mas, o anúncio, que reunirá contribuições dos Ministérios do Interior, Agricultura, Saúde, Turismo e Bem Estar Social, foi recebido com críticas tanto dentro de Israel, como ao redor do mundo.

A decisão de Netanyahu atraiu críticas da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o Governo da Palestina reconhecido pela ONU, reportou a Newsweek. “Israel está fazendo todo o possível para sabotar todos os esforços para alcançar uma paz justa e duradoura. Este é mais um tapa na cara da comunidade internacional”, disse Saeb Erekat, secretário-geral da OLP. “Já é tempo que a comunidade internacional assuma suas responsabilidades para com este governo extremista que apoia abertamente o Apartheid e se posiciona contra a solução de dois Estados”, completou.

O projeto de financiamento complementar de Netanyahu também provocou uma reação negativa em Washington, aliado histórico do Estado israelense, mas que tem criticado o Premier com respeito a estratégia de construção de assentamentos. “Nós nos opomos fortemente a toda atividade de assentamento, que é corrosiva para a causa da paz”, declarou o Porta-Voz do Departamento de Estado dos EUA, John Kirby. “Continuamos a olhar para ambos os lados por demonstrações com ações e políticas de um verdadeiro compromisso com uma solução de dois Estados. E ações como estas, acreditamos, fazem exatamente o oposto”, completou Kirby em pronunciamento em 20 de junho.

Parlamentares da Oposição também atacaram a decisão, alegando que, em vez de impulsionar a periferia do país em dificuldades, o Governo “despejava dinheiro em uma empreitada que minou a segurança de Israel e sua posição internacional”. Amir Peretz, da União sionista, disse que os assentamentos não precisam de segurança extra, e que o dinheiro teria sido mais bem gasto com crianças pobres, no que ele chamou de “periferia” de Israel. “Eu acho que isso derrama sal sobre as feridas dos fracos, daqueles que precisam de cada shekel”, disse Peretz, ao The Jerusalem Post. O membro do Knesset declarou em entrevista à Rádio Israel, que o Ministério da Defesa já fornece o suficiente para a segurança dos assentamentos, e que “não se precisa fazer uso da segurança para canalizar indiretamente fundos para os assentamentos. (…). O conceito de ‘segurança’ está sendo usado de forma dissimulada, porque o establishment de segurança não irá abandonar os assentamentos”.

A decisão surge na sequência de uma onda de violência por parte de palestinos contra israelenses – soldados e civis – em Jerusalém, Cisjordânia e outras cidades israelenses, desde outubro de 2015. A violência que inclui esfaqueamentos, tiroteios e assaltos com batidas de carro já deixou 32 israelenses e dois americanos mortos. As forças israelenses mataram 207 palestinos no mesmo período, a maioria dos quais o Governo alega serem agressores.

De acordo com a Associated Press, “cerca de 600.000 judeus vivem em assentamentos, colônias na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, construídas em terras capturadas da Jordânia, por Israel, na guerra de 1967”. Os assentamentos têm sido criticados pelas Nações Unidas como impedimento de qualquer possível solução duradoura ao conflito Israelo-Palestino. A maioria do mundo os considera ilegais e o Governo israelense tem enfrentado fortes críticas em virtude de sua contínua expansão.

Os palestinos exigem o território como parte de seu futuro Estado – na eventualidade de uma solução do conflito com a criação de dois Estados nacionais. Isso tem recebido apoio internacional e, como exemplo, a União Europeia endureceu sua postura em janeiro de 2016, adotando uma Resolução que afirmava que os acordos da UE com Israel só se aplicam às fronteiras do país estabelecidas pré-1967.

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ImagemAriel, um dos quatro maiores assentamentos na Cisjordânia. Os assentamentos são amplamente considerados ocupações ilegais pela comunidade internacional” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Israeli_settlement#/media/File:Ariel3.JPG

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Brasil Pretende Rever Voto Sobre os Territórios Ocupados

O Ministério brasileiro das Relações Exteriores (Itamaraty) anunciou na quinta-feira, 9 de junho, que o Brasil poderá revisar o seu voto sobre a decisão do Conselho Executivo da UNESCO, que decorreu em abril e deliberou sobre o patrimônio cultural nos territórios ocupados desde a Guerra dos Seis Dias, de 1967. A Resolução, proposta pela Argélia, Egito, Líbano, Marrocos, Omã, Catar e o Sudão, saiu vencedora da 199.ª Sessão da UNESCO que, na ocasião, contou com o voto favorável do Brasil. Dos 58 países com direito a voto, 33 votaram favoravelmente, 6 contra, houve 17 abstenções e 2 ausências. A Resolução propõe, de entre outras questões, a restauração do histórico status quo que vigorou até 2000, segundo o qual a fundação religiosa jordaniana, Awqaf, exercia autoridade exclusiva sobre a “Mesquita de al-Aqsa/al-Haram al-Saharif, cujo mandato se estendia a todos os assuntos relacionados com a administração relativa ao desimpedimento da Mesquita de al-Aqsa/al-Haram al-Saharif, incluindo a manutenção, restauro e regulação do acesso”. Outros aspectos relacionados com as escavações e demais atividades realizadas por Israel em Jerusalém, por exemplo, são alvo de críticas, pelo que a Resolução pede o fim das mesmas. O país aparece unicamente na qualidade de acusado sem se levar em consideração a ligação histórica de seu povo com Jerusalém e outros lugares históricos.

O argumento do Itamaraty para pedir a alteração do voto centra-se no fato de não ver contempladas, naquele documento, todas as partes envolvidas e por considerar a Resolução como parcial. Em nota, o Itamaraty afirmou: “O fato de que a decisão não faça referência expressa aos vínculos históricos do povo judeu com Jerusalém, particularmente o Muro Ocidental, santuário mais sagrado do judaísmo, é um erro, que torna o texto parcial e desequilibrado. O governo brasileiro reitera seu pleno reconhecimento desses vínculos e sua posição a favor do livre acesso dos fiéis das três religiões, cristianismo, islamismo e judaísmo, aos lugares santos da Cidade Velha de Jerusalém, bem como seu apoio aos acordos vigentes entre Israel e Jordânia para sua administração”. Neste contexto, verifica-se ainda, através da análise da Resolução, que ela extrapola a perspectiva histórica dos lugares sagrados para os três povos do Livro – judaísmo, cristianismo e islamismo – adentrando nos problemas que envolvem o conflito israelo-palestino. A partir de um ponto de vista unilateral são denunciadas as agressões de Israel em relação aos civis palestinos, Xeiques, Sacerdotes, detenções de muçulmanos, destruição de escolas, mas sem nenhuma referência ao grupo insurgente Hamas, que administra a Faixa de Gaza, e às demais facções extremistas radicadas naquela área, que também compõem a base das hostilidades entre os dois povos. Do mesmo modo, ao longo da Resolução, Israel não é referido como país internacionalmente reconhecido, mas como Poder Ocupante.

A intenção do Brasil em revisar o seu voto sobre a questão do patrimônio cultural nos territórios ocupados não representa uma mudança na decisão tomada pois, para que isto aconteça, é necessário que vários países façam o mesmo. O procedimento brasileiro configura apenas uma atitude simbólica e, em outro plano, uma nova direção da diplomacia brasileira. Na UNESCO, embora a organização não tenha se pronunciado oficialmente, segundo informações, a posição do Brasil foi recebida com preocupação em virtude de possíveis mudanças em sua política exterior. Em entrevista ao jornal Estadão, sob condição de anonimato, um alto diplomata da UNESCO fez a seguinte consideração: “A nota indica que tende a haver uma mudança. Entendo que o Ministro José Serra queira se opor ao governo de Dilma Rousseff, mas isso terá impactos nas relações bilaterais e pode até representar uma ruptura na abordagem brasileira, que é histórica em relação à Palestina”. O posicionamento do atual Ministério das Relações Exteriores do Brasil, ao rever o seu voto numa questão internacional importante, não pressupõe o rompimento de laços diplomáticos, ou históricos, com nenhum país. Cabe referir que se deve observar se o Itamaraty adotou uma postura responsável ante uma situação que exige decisões multilaterais que respeitem todos os envolvidos, a partir dos princípios do Direito Internacional, independentemente de questões ideológicas.

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ImagemJerusalém” (Fonte):

http://www.vocfm.co.za/wp-content/uploads/2015/10/jerusalem-city-view.jpg