NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Onda de demolições deixa mais palestinos desabrigados e reforça aperto à Cisjordânia

Conforme dados das Nações Unidas, nos últimos três meses, militares israelenses mais do que triplicaram demolições de estruturas palestinas na Cisjordânia ocupada. O relatório alarma ainda mais diplomatas e grupos de direitos humanos condenando o que consideram como violação permanente do Direito Internacional. Dados colhidos pelo escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) – que opera em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental – mostram que, de uma média de 50 demolições por mês, em 2012-2015, o número subiu para 165 desde janeiro de 2016, com 235 demolições somente em fevereiro deste ano. Na quinta-feira, dia 7 de abril, autoridades israelenses demoliram edifícios palestinos na aldeia de al-Khan al-Ahmar, perto de Jericó na Cisjordânia, e na aldeia de Khirbet Tana, perto de Nablus.

Muitas das ordens de demolição são cumpridas sem pré-aviso e moradores são pegos de surpresa pelas forças militares, relatam palestinos à Al Jazeera. O Exército de Israel, que ocupa a Cisjordânia desde a Guerra de 1967, afirma realizar as demolições porque as estruturas são ilegais: quer seja por terem sido construídas sem autorização; em uma área militar fechada ou de confrontos; quer por terem violado outras restrições de planejamento e zoneamento. Contudo, grupos das Nações Unidas e de Direitos Humanos salientam que as licenças são quase impossíveis de serem adquiridas pelos palestinos; que zonas de confrontos são frequentemente declaradas, mas raramente usadas; e que muitas restrições de planejamento datam do mandato britânico, na década de 1930.

De acordo com o documento da OCHA, “cerca de 18% da Cisjordânia foi fechada para treinamento militar desde a década de 1970, embora pesquisas recentes indiquem que quase 80% dessas áreas não sejam utilizadas para treinamento. Desde o início de 2016, 36 estruturas foram demolidas em áreas declaradas como ‘zonas de disparo’, deslocando 147 pessoas, incluindo 76 crianças”. De acordo com Catherine Cook, uma funcionária da OCHA com base em Jerusalém, “os mais duramente atingidos são beduínos e comunidades agrícolas palestinas que estão em risco de transferência forçada, o que é uma clara violação do direito internacional”.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) disse que a onda de demolições é a mais alta dos últimos sete anos – desde que o Órgão começou a coletar os dados em 2009. O chefe do governo militar de Israel na Cisjordânia reconheceu esta semana que o Exército destrói casas palestinas que considera ilegal a um ritmo mais rápido do que faz a casas de colonos israelenses igualmente construídas sem aprovação do Governo. “Quero afirmar inequivocamente que a aplicação é mais severa em relação aos palestinos”, disse o general Yoav Mordechai, ao subcomitê do Knesset para Judéia e Samaria (Cisjordânia), na quarta-feira, 6 de Abril. “Além disso, grande parte da execução em relação aos palestinos ocorre em terras privadas palestinas”, declarou.

As estruturas incluem casas, tendas beduínas, currais, confinamentos de gado, alpendres e escolas. Em um número crescente de casos, elas também incluem estruturas humanitárias erguidas pela União Europeia para ajudar os afetados por demolições anteriores, informa a agência de notícias Reuters. De acordo com Sarit Michaeli, porta-voz do grupo de direitos humanos israelense B’Tselem, “demolir casas de palestinos que estão protegidos pelas Convenções de Genebra e construir assentamentos israelenses é uma clara violação do Direito Internacional humanitário”.

Até o dia 8 de abril de 2016, autoridades israelenses demoliram 539 estruturas em comunidades palestinas na Área C, em comparação com um total de 453 demolições na mesma Área C durante todo o ano de 2015. Ao longo de 2016, 804 pessoas foram deslocadas dessa Área, em comparação com um total de 580 de deslocados, em 2015, informa a ONU. Sob os Acordos de Oslo, 60% da Cisjordânia é designada como parte da Área C, permitindo controle militar e administrativo completo de Israel, desde os anos 1990.

Vilas e cidades nesta área são requisitadas a se candidatar a licenças de construção, que raramente são concedidas pelas autoridades israelenses, deixando-os sujeitos a constante ameaça de destruição. De acordo com a ONU, há 11.000 liminares pendentes contra estruturas de propriedade palestinas, e moradores acusam o Estado israelense de “emitir ordem de demolição ou de suspensão de obra para quase tudo, incluindo os ‘taboons’ ou fornos de barro comunitários ao ar livre”. Ao longo da Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, cerca de 90.000 palestinos enfrentam potencial risco de deslocamento, de acordo com a OCHA. No último 8 de abril de 2016, Riyad Mansour, Embaixador e Observador Permanente do Estado da Palestina para as Nações Unidas, escreveu sua 582ª carta às Nações Unidas, desde setembro de 2000. A carta repetidamente descreve a crise em curso no Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, e condena as violações de Direitos Humanos e do Direito Internacional humanitário por parte de Israel.

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ImagemIsrael alega que as demolições de casas são uma ferramenta eficaz para dissuadir ataques, mas críticos alegam ser uma punição coletiva” (Fonte – Nasser Shiyoukhi/AP):

http://www.aljazeera.com/news/2016/04/israel-ramps-demolitions-palestinian-structures-160407140314909.html

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O Crescimento do número de crianças-soldado na Guerra Civil da Síria

A utilização de crianças na Guerra Civil da Síria tornou-se rotineira. Há anos que a ONU vem denunciando países e grupos armados que usam menores de idade como soldados, mas aquela Organização ainda não conseguiu colocar um fim nesta situação, que atinge crianças em diferentes partes do planeta. De acordo com Kailash Satyarthi, Prêmio Nobel da Paz de 2014, há no mundo quase meio milhão de crianças-soldado. Contudo, este Exército mirim não tem despertado a devida atenção da comunidade internacional, ou tem sido ignorado a nível global. Esta prática, que viola a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Declaração Universal dos Direitos Humanos é, hoje em dia, flagrante na Síria.

Várias facções insurgentes como o Estado Islâmico, a Frente al-Nusra, o Partido Islâmico do Turquistão (TIP), ambos filiados na al-Qaeda, o grupo Jund al-Sham, a Frente Islâmica, Jaysh al-Islam e Ahrar al-Sham, estão formando um Exército de pequenos combatentes nos seus campos de treinamento para crianças, na Síria. O empenho na formação dos jovens soldados também está passando pelas mãos de religiosos como, por exemplo, o clérigo Abdullah al-Muhaysini, membro da al-Qaeda na Arábia Saudita, que tem vindo a preparar afincadamente mujahidin de tenra idade. A atividade não é mantida em segredo pelos radicais que exibem, por meio de fotos e vídeos, os seus pequenos jihadistas. Segundo o The Long War Journal, o TIP divulgou fotos e vídeos em que “as crianças são mostradas posando com rifles de assalto AK 47, frequentando aulas de sharia, e participando de treinamentos com armas”.

Acredita-se que as crianças são mais fáceis de serem doutrinadas e mais obedientes, servindo também como espias e mensageiras, principalmente em áreas não controladas pelos jihadistas. O fato de esses menores estarem fora da escola, a par dos problemas econômicos enfrentados por suas famílias, facilita o recrutamento dos mesmos por parte dos insurgentes. No entanto, os radicais vão mais longe, pois seu grande propósito não consiste apenas na formação de novos soldados para uma ação imediata visando, fundamentalmente, preparar uma nova geração de jihadistas. Isto, de acordo com informações, é o que a Frente al-Nusra está fazendo, ou seja, ela está a preparar os futuros combatentes para a al-Qaeda, atuação que não a difere dos outros grupos insurgentes. O Estado Islâmico treinou, em 2015, mais de 400 crianças, as quais são denominadas de “filhotes dos leões do Califado”. De acordo com o diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman, o Estado Islâmico “tenta atrair essas crianças com dinheiro e armas” e, “quando atingem a idade de 15 anos, esses meninos têm a opção de virar verdadeiros combatentes que recebem salário”. Na Síria, há vários campos de treinamento para menores, inclusive para aqueles que são estrangeiros. Na província de Idilib, por exemplo, um campo de treinamento para as crianças uyghur proporciona-lhes preparação militar e religiosa.

A estratégia utilizada pelos vários grupos radicais islâmicos na Síria é semelhante. As crianças estão vulneráveis, desocupadas e as famílias sofrem com as péssimas condições econômicas. Se a Guerra trouxe os dissabores de vidas destruídas, os menores estão tentando construir, nos campos de batalha, um futuro que, talvez, elas e suas famílias acreditam ser a única alternativa. Mais do que o treinamento físico e militar, a mente dos pequenos soldados está sendo moldada por uma doutrina inflexível para dar continuidade ao grupo jihadista a que pertencem. Eles, na verdade, estão sendo preparados para serem os herdeiros de uma ideologia na qual não há espaço para a paz.

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ImagemVídeo do Estado Islâmico mostra criançassoldado caçando reféns” (Fonte):

http://img.thesun.co.uk/aidemitlum/archive/02589/isis2_2589918a.jpg

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A Participação Uyghur no Conflito Armado Sírio

O conflito armado sírio tem aglutinado centenas de facções e combatentes oriundos de várias partes do planeta. A presença dos uyghur na Guerra da Síria é a de um grupo de guerrilheiros que, atualmente, tem levantado dúvidas quanto aos seus objetivos num conflito bélico distante do território de origem.

Eles são uma minoria étnica da província de Xinjiang, oficialmente autônoma na República Popular da China. Esta minoria é muçulmana e tem um histórico de discórdia com as autoridades chinesas. Em março e abril de 2013, foi divulgado o primeiro vídeo com a participação dos rebeldes chineses na Síria e, a partir de então, a vinda desses combatentes aumentou significativamente.

Segundo a agência de notícias al-Arabiya, os sírios foram surpreendidos com o aparecimento dos uyghur, principalmente na província de Idilib, no norte do país, onde eles se encontram em maior número. Pertencem ao Partido Islâmico do Turquistão (TIP), baseado no Paquistão e combatem, hoje, na Síria, ao lado da Frente al-Nusra, organização insurgente filiada à al-Qaeda. Atribui-se a proximidade do TIP relativamente à Frente al-Nusra devido a uma antiga aliança com a al-Qaeda e à fidelidade aos talibã, o que faz com que os insurgentes lutem contra o Estado Islâmico e rejeitem Abu Bakr al-Baghdadi como Califa pois, para eles, o verdadeiro Califa é o líder dos talibã, Mullah Akhtar Mansoor.

A atuação da minoria chinesa tem sido considerada como fundamental para a recomposição das forças da Frente al-Nusra, que sofreu perdas humanas significativas em batalhas travadas contra o Estado Islâmico. Também tem contribuído de modo decisivo para com a facção muçulmana sunita no âmbito das vitórias recentes em Idlib.

Segundo informações, dentre todos os militantes islâmicos, os uyghur são os mais populares entre os sírios, na medida em que não interferem em questões civis, tais como “a cobrança de impostos ou a aplicação da sharia”, a lei islâmica. Há peculiaridades nesse grupo islâmico que têm suscitado questionamentos por parte de especialistas como, por exemplo, o fato de seus militantes não irem sozinhos para a área de conflito, mas acompanhados das famílias e sem intenção de retornar à terra natal. De acordo com um jornalista da agência de notícias al-Arabiya, “eles se instalaram com suas famílias em cidades alauítas desertas”.

Para muitas pessoas, esta situação se assemelha a um processo de colonização. Enquanto que, ao contrário dos Governos ocidentais, que se preocupam, por motivos de segurança, com o retorno de seus cidadãos que combatem na Síria, o Governo chinês não partilha desse problema.

A migração uyghur para a Síria tem chamado a atenção para duas teorias recentemente criadas, no sentido de se tentar compreender as motivações e objetivos da minoria étnica chinesa num território em que se desenvolve uma guerra supostamente civil. A primeira teoria versa sobre o interesse da China em se livrar dos uyghur e, assim, colocar fim a uma história longa e conturbada com este povo. Neste sentido, há hipóteses de que a China tem apoiado uma campanha contra os uyghur, levada a cabo pelo Paquistão, ao longo da fronteira com o Afeganistão. A segunda teoria acredita que eles correspondem a um exército involuntário para fazer, em nome da China, a guerra por procuração na Síria. Isto poderá servir de pretexto para a entrada e movimentação de forças militares chinesas no terreno.

Para um jornalista sírio, as “comunidades regionais e internacionais” não querem o fim da guerra e, por este motivo, enviaram osuyghur para reforçar a al-Qaeda e dar continuidade ao conflito. Embora as teorias possam ser questionadas e, futuramente, até mesmo invalidadas, o fato é que, hoje, elas configuram e pressupõem a existência, em solo sírio, de uma guerra que perdeu as características de ser totalmente civil. Mediante uma grande quantidade de grupos insurgentes, de combatentes estrangeiros de diferentes países no terreno, certamente que o conflito armado na Síria não corresponde a uma guerra civil, em sentido tradicional, e os uyghur, dentre outros, fazem parte de finalidades ainda obscuras para a opinião pública mundial.

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ImagemBandeira do Partido Islâmico do Turquistão” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b7/Flag_of_Turkistan_Islamic_Party.svg/2000px-Flag_of_Turkistan_Islamic_Party.svg.png

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Assad: Governo Provisório deve incluir regime, oposição e independentes

O presidente sírio Bashar Assad declarou nesta quarta-feira, 30 de março, que qualquer Governo de Transição na Síria deve incluir tanto o Regime quanto a Oposição. Em entrevista publicada também na quarta-feira, ele declarou à agência de notícias estatal russa RIA Novostique, em qualquer corpo de transição, “seria lógico que houvesse forças independentes, forças de oposição e forças leais ao Governo representadas”. Assad não especificou quais os grupos de Oposição devem ser incluídos no Governo, ainda assim, delegou às negociações em Genebra a distribuição das pastas ministeriais no Governo de União.

O anúncio foi feito na esteira do pronunciamento do Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, instando maiores esforços de governos ao redor do mundo no combate à crise de refugiados do país e no acolhimento de sírios. O chefe da ONU exortou à Conferência em Genebra sobre refugiados sírios a “enfrentar a maior crise de refugiados e deslocados do nosso tempo”, com estimados 4,8 milhões de sírios tendo fugido de seu país e outros 6,6 milhões de deslocados internos.

A declaração de Assad à agência de notícias russa é concomitante à pressão internacional sofrida por Damasco por maior transigência nas negociações mediadas pela ONU, que visam acabar com o conflito que matou cerca de 270.000 pessoas. O Presidente também declarou que danos econômicos e de infraestrutura causados pelo conflito brutal na Síria já custaram ao país mais de US$ 200 bilhões (176 bilhões de euros). Os combates nos últimos cinco anos deixaram vastas áreas do país em ruínas.

Não há alternativa que levará a uma nova Síria, senão a negociação de uma transição política”, disse Ban Ki-moon no último dia 30 de março. Conversações lideradas pelo enviado especial da ONU para a crise síria, Steffan de Mistura, fizeram uma pausa na semana passada, mas as partes permaneceram em impasse sobre o destino de Assad. A Oposição insiste em que o Presidente sírio deixe o poder antes de um Governo de Transição ser firmado. O Porta-Voz da Casa Branca, Josh Earnest, declarou à imprensa que o Presidente sírio não deve integrar qualquer Governo provisório de união, considerando tal participação “fora de questão”.

Em entrevista, Assad se limitou a declarar que a composição do Governo transitório deve ser acordada nas negociações na Suíça. Afirmou: “Há muitas questões que precisam ser discutidas em Genebra, mas não há perguntas difíceis. (…). Eu não as considero difíceis, todos elas podem ser resolvidas”.

EUA e Rússia pressionam por um Governo de Transição e um projeto de Constituição a serem estabelecidos até agosto, em conformidade com um plano acordado pelas potências mundiais no ano passado (2015). Assad declarou que um projeto de versão preliminar da Constituição poderia ser elaborado “dentro de algumas semanas”, mas insistiu que o país só adotaria uma nova Constituição “depois que o povo sírio votasse nela.

Em outubro de 2015, o presidente Bashar al-Assad havia prometido realizar novas eleições na Síria, mas somente após a derrota das forças “terroristas”. Na ocasião, o líder sírio declarou a legisladores russos estar disposto a participar de eleições presidenciais antecipadas, promover eleições parlamentares e discutir mudanças constitucionais. O Presidente indicou sua disposição em incluir “forças de oposição razoáveis e patrióticas” nas eleições parlamentares.

Críticos ao Regime condenam a postura de Assad nos últimos cinco anos e refutam sua participação no Governo de Transição. Adicionalmente, acusam-no de dualismo e simplismo ao referir-se à oposição ao seu Governo. De acordo com opositores, nos últimos anos, a leitura do cenário político por Bashar al Assad envolvia exclusivamente a posição do Regime e a oposição radical terrorista, negando a presença de outras forças sírias opositoras. Os críticos ao Governo Assad questionam se os chamados “independentes” serão compostos pela oposição moderada ou se por figuras da oposição toleradas pelo Regime.

No domingo, 27 de março, forças legalistas recapturaram das mãos do Estado Islâmico a histórica cidade de Palmyra, com apoio de ataques aéreos russos e forças especiais terrestres. Um cessar-fogo entre Damasco e as forças da oposição não-jihadistas se mantém de modo geral, desde o último 27 de fevereiro, vislumbrando a esperança de uma solução política.

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ImagemPresidente sírio Bashar alAssad concede entrevista em Damasco” (FonteReuters):

http://www.dci.com.br/internacional/assad-diz-que-pode-formar-novo-governo-na-siria-com-a-oposicao-id537473.html

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

O Hezbollah ante o braço da Lei Internacional

O Hezbollah (Partido de Deus), considerado por vários países como uma organização terrorista[1], desde há tempos vem se capitalizando através do narcotráfico e do comércio ilegal de armas. Com uma importante rede de contatos, fornecedores e compradores no mercado ilícito em diferentes partes do mundo, o grupo tem-se sustentado economicamente, fazendo, assim, frente à crise do petróleo e à consequente redução de repasses financeiros por parte do Irã.

A atividade ilegal do Hezbollah, segundo informações, teve início nos anos de 1980, quando infiltrou representantes nas mais variadas partes do planeta, incluindo a América Latina, principalmente na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai), considerada, de acordo com especialistas na área de Segurança, como o local estratégico para este tipo de atuação. O fato de a Tríplice Fronteira ter se transformado em espaço ideal para os objetivos do Hezbollah se deve à fragilidade da segurança nas fronteiras, aos Governos omissos e ao fluxo de imigrantes libaneses muçulmanos na região, ao longo da década 1970, durante a Guerra Civil no Líbano. As lideranças árabes locais negam estar envolvidas em qualquer atividade para financiar o terrorismo, mas as agências de Inteligência internacionais afirmam o contrário.

No momento, está em curso nos EUA uma investigação sobre as movimentações ilegais do Hezbollah, denominada de Operação Cassandra, que abrange o mundo inteiro e, em sete países, envolve várias agências, no âmbito da aplicação do Direito Internacional. O objetivo é romper com os negócios do movimento xiita no estrangeiro, que são usados para a lavagem de dinheiro e cujos rendimentos são utilizados nas atividades do grupo na Guerra Civil na Síria.

Em comunicado, a Agência Antidrogas dos EUA (DEA), com base naquilo que foi apurado, fez a seguinte afirmação: […] mais uma vez destaca o nexo mundial perigoso entre o narcotráfico e o terrorismo”. Conforme relatórios, a rede internacional do comércio de drogas do Hezbollah foi fundada por Imad Mughniyeh[2], morto em Damasco, em 2008, na sequência de um atentado. De acordo com a DEA, a partir de então, o comando foi assumido por Abdallah Safieddine e por Adham Tabaja. Para a DEA, a Organização Libanesa de Segurança, de Componentes de Negócios e Assuntos Externos do Hezbollah (BAC) é a responsável pela movimentação de altíssimas quantidades de cocaína nos EUA e na Europa.

Há um ano, a operação global contra o Hezbollah identificou a ligação entre o grupo e os cartéis da América Latina. Segundo consta, há uma década que o Hezbollah atua na lavagem de dinheiro no Ocidente. Já se levantaram suspeitas de ligação entre o grupo xiita e os cartéis de droga do México, mas ainda não foram encontradas provas. Porém, já está comprovado que o movimento radical libanês está estabelecendo conexões com o narcotráfico, na América do Sul. Até o presente, as investigações apontam para o vínculo existente entre os xiitas libaneses e um cartel não identificado, que opera na Colômbia e, embora a possibilidade seja menor, pode haver, também, contato com uma organização criminosa peruana. Há a comprovação de que a rede movimentou milhões de Euros na Europa, a partir do comércio de drogas, tendo os lucros sido transferidos para o Oriente Médio. Grande quantidade daquele montante passou pelo Líbano e, em seguida, foi distribuído para organizações extremistas como o Hezbollah. Todos os indícios apontam para uma gigantesca teia de comunicação entre as células do Hezbollah e os agentes do narcotráfico e do comércio de armas a nível global.

No Brasil, por exemplo, segundo a Polícia Federal, o movimento xiita libanês mantém ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Por outro lado, a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) apurou o envolvimento de empresários sírio-libaneses com o Hezbollah, embora o Governo brasileiro nunca tenha admitido oficialmente esta relação. Neste contexto, evidencia-se mais uma via que conduz a provas de que, mundialmente, o narcotráfico é o elemento patrocinador das atividades dos radicais islâmicos. Este fato denuncia o financiamento, em parte, da guerra não tradicional, que está a ser redimensionada para um alcance transnacional, o que estimula a criminalidade e a violência para além dos campos de batalha, através de uma guerra aparentemente invisível para uma boa parte da sociedade global.

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Notas:

[1] O Hezbollah é considerado como organização terrorista pela Austrália, Canadá, Conselho de Cooperação do Golfo, os Estados Árabes do Golfo, os Estados Unidos, França, Holanda, Israel e a Liga Árabe. A União Europeia, a Nova Zelândia e o Reino Unido proíbem a ala militar do Hezbollah, distinguindo aquela organização do Hezbollah, enquanto organização política. Por outro lado, a Rússia considera o Hezbollah como uma organização sócio-política legítima, enquanto a República Popular da China é neutra, mantendo contatos com o Hezbollah. O Brasil não considera o Hezbollah como uma organização terrorista, mas sim como um “um partido político e um movimento de resistência”.

[2] IMAD Mughniyeh – também conhecido como Mughniyya, Mughniyah, Mogniyah, e alHajj Radwan, nasceu em Tayr Dibba, proximidades de Tiro, Líbano, em 7 de dezembro de 1962, vindo a falecer em Damasco, Síria, no dia 12 de fevereiro de 2008. Imad Mughniyeh foi um insurgente xiita, militante do Fatah, da Jihad Islâmica no Líbano e, mais tarde, do Hezbollah. Ele nasceu no seio de uma família de agricultores pobres. No início da década de 1970, a família de Mughniyeh mudou-se para o Sul de Beirute. Imad Mughniyeh e um primo, Mustafa Badr al-Din, tornaram-se ativistas do Fatah com uma idade precoce.

Tendo estudado Engenharia na Universidade Americana de Beirute, Mughniyeh é, geralmente, tido como o principal líder e operador dos aparelhos militar, de Inteligência e de Segurança do Hezbollah. Em 1982, após regressar do Irã, Mughniyeh participou na defesa de Beirute Ocidental. Ele abandonou o Fatah em 1984 para ingressar na Jihad Islâmica libanesa.

Mughniyeh e Mustafa Badr al-Din perpretaram o atentado de 1983 contra a Embaixada dos EUA, apoiados pela Síria e o Irã. Mughniyeh fora altamente treinado por homens da segurança da Força 17, tendo organizado a Brigada Estudantil [em inglês: Student Brigade], uma unidade de cem homens jovens, que integrou aquela Força. A sua missão preliminar consistiu em recolher informações sobre a Embaixada dos EUA e elaborar um plano que garantisse o máximo impacto, sem deixar vestígios dos autores. As reuniões tiveram lugar na Embaixada iraniana, em Damasco. Elas foram, na sua maioria, presididas pelo embaixador iraniano, Hojatoleslam Ali-Akbar Mohtashemi, que desempenhou um papel instrumental na fundação do Hezbollah. Após consultas com vários oficiais superiores da Inteligência síria, o plano foi finalmente posto em prática. Os veículos e os explosivos foram preparados no Vale de Beqaa, então sob controle da Síria.

Em 18 de janeiro de 1984, altura em que ainda frequentava a Universidade Americana de Beirute, alegadamente Mughniyeh assassinou Malcolm Kerr, o presidente daquela instituição. Imad Mughniyeh foi formalmente acusado pela Argentina pelo seu alegado envolvimento no atentado de 17 de março de 1992 contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires, que matou vinte e nove pessoas e, também, pelo envolvimento no atentado contra a AMIA, em 18 de julho de 1994, que matou oitenta e cinco pessoas. Em março de 2007, a Interpol emitiu uma “notificação vermelha” pelo seu papel no ataque.

Os EUA indiciaram Mughniyeh, e o seu alegado colaborador, Hassan Izz al-Din, pelo desvio do voo 847, da TWA, em 14 de junho de 1985, que resultou na morte de Robert Stethem, mergulhador da US Navy. Mughniyeh e os seus homens alegadamente espancaram Stethem durante horas, antes de atirarem o seu corpo para o asfalto. Em 30 de setembro de 1985, Mughniyeh organizou, alegadamente, o rapto de quatro diplomatas da URSS na Embaixada daquele país no Líbano, dos quais um foi presumivelmente morto por Mughniyeh. Na sequência do rapto, a URSS pressionou a Síria no sentido de parar as operações no Norte do Líbano em troca de libertação dos outros três reféns.

Na década de 1990, relatórios de Inteligência assinalaram que o Mossad tentou assassiná-lo em 24 de dezembro de 1994, numa operação complexa no sul de Beirute. Contudo, a operação matou o seu irmão mais novo, Fouad Mughniyed, o dono de uma concessionária de automóveis, situada no subúrbio ao Sul de Beirute. Esperava-se que Mughniyeh comparecesse nas exéquias, o que proporcionaria outra hipótese de o assassinar, o que, contudo, não ocorreu.

Mughniyeh foi morto em 12 de fevereiro de 2008, por uma bomba que detonou quando ele se dirigia, a pé, para o seu carro, no bairro Kafr Sousa, Damasco. Imad Mughniyed acabara de sair de uma recepção organizada pelo embaixador iraniano na Síria, destinada a comemorar o 29.º aniversário da Revolução Iraniana. A bomba estava alojada no step do seu veículo, um Mitsubishi Pajero, tendo sido acionada por controlo remoto na altura em que Mughniyeh entrou no jeep. De acordo com informações publicadas pelo jornal The Washington Post, em Janeiro de 2015, a CIA e o Mossad orquestraram a morte de Mughniyeh: “a bomba que matou Mughniyeh, construída nos Estados Unidos e testada no estado da Carolina do Norte, foi acionada pelos agentes do Mossad em Tel Aviv, que estavam em contato com os operacionais da CIA, no terreno, em Damasco” (al-Akhbar).

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ImagemUm combatente do Hezbollah aponta sua arma do lado sírio das montanhas Qalamoun, perto da fronteira libanesa, contra os inimigos do movimento xiita” (Fonte):

http://217.218.67.233/photo/20151217/467f95c5-d351-42a4-aaf5-78d60826b588.jpg

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Aos 5 anos: o impacto do conflito sírio nas vidas de 8,4 milhões de crianças

No último dia 15 de março de 2016, a Guerra Civil Síria completou 5 anos de duração. A data serviu de oportunidade para que inúmeros canais midiáticos revissem os aspectos mais atrozes do conflito, como os maiores cercos, as províncias com maior número de deslocados internos e os meses com mais baixas civis. Também serviu de palco para críticas à ineficiência de potências regionais e mundiais em encontrar uma solução pacífica ao que se tornou mais do que uma simples batalha entre apoiadores e opositores a Assad.

À medida que a Guerra Síria começa seu sexto ano, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, na sigla em inglês) chama atenção para o impacto do conflito sobre crianças sírias, lembrando que 5 anos representa uma enorme fração do tempo de vida de uma criança – e mesmo uma vida inteira, para os 3,7 milhões de sírios nascidos desde o início do conflito. Em “No Place for Children”, Relatório publicado há alguns dias, o órgão das Nações Unidas propõe cinco medidas críticas, a fim de proteger cerca de 8,4 milhões de crianças em necessidade de ajuda humanitária, dentro da Síria e em países vizinhos, incluindo cerca de 2,8 milhões sem acesso a educação.

Notadamente, as medidas consistem em: eliminar violações dos direitos da criança; suspender cercos e melhorar o acesso humanitário; investir na educação; desenvolver políticas claras de proteção à criança, a fim de permitir uma paz duradoura e digna; transformar promessas de financiamento em compromissos.

Notadamente, o Relatório aponta que, em 2015, houve ao menos 1.500 violações graves contra crianças, incluindo 500 casos de crianças mortas e 400 de crianças mutiladas, como resultado do uso de armas explosivas em áreas povoadas. Além disso, o recrutamento de crianças tem sido uma prática cada vez mais frequente, e com crianças cada vez mais novas – até mesmo com 7 anos de idade. Nos primeiros anos de conflito, a maioria das crianças recrutadas eram garotos de 15 a 17 anos, a desempenhar papéis secundários; no entanto, agora recebem treinamento militar e participam em combate, além disso, mais da metade dos casos de recrutamento confirmados pela UNICEF em 2015 envolviam menores de 15 anos.

Mais de 200.000 crianças encontram-se vivendo em áreas sitiadas, o que traz consequências psicológicas devastadoras. A Síria perdeu mais de um quarto de suas escolas – mais de 6.000, que sofreram danos, foram forçadas a fechar, usadas para fins militares ou convertidas em abrigos para deslocados internos – enquanto a taxa de escolarização caiu para 74%.

Ademais, 70% das crianças sírias não têm acesso a água potável, enquanto 66% do esgoto sírio não é tratado, o que multiplica os riscos de infecções e doenças entre crianças. Não raramente, crises humanitárias necessitam de soluções políticas – e a UNICEF tem conduzido esforços à altura, a fim de alcançar os objetivos traçados em “No Place for Children”. O Diretor Executivo da agência, Anthony Lake, visitou a Síria no início de março, e urgiu que forças do Governo e da Oposição facilitem o acesso de organizações humanitárias a crianças em necessidade.

Lake afirmou: [A]altos funcionários do governo em Damasco concordaram que, em conjunto com a [Organização Mundial de Saúde] e nossos parceiros, incluindo o Ministério da Saúde [sírio], nós podemos ir em frente e imediatamente planejar e implementar um programa de imunização nacional contra doenças infantis. Isso vai exigir acesso a todas as áreas sitiadas e de difícil alcance”, com o apoio de ambos os lados do conflito.

Ao mesmo tempo, o Chefe Regional da UNICEF, Peter Salama, clamou, no início desta semana, que países doadores honrem as promessas feitas na Conferência Internacional de Apoio à Síria, realizada em Londres, no início de fevereiro. Como aponta o relatório “No Place for Children”, até o momento, a agência da ONU só arrecadou 6% dos 1,16 milhão de dólares pleiteados para sua resposta humanitária à crise Síria.

Também no início desta semana, reiniciaram-se as conversas de paz entre representantes do governo do presidente sírio, Bashar al-Assad, e grupos da oposição. O Enviado Especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, caracterizou o atual estágio das negociações como o “momento da verdade” e ambos os lados do conflito se manifestaram otimistas em relação aos esforços de paz.

Apesar das altas expectativas, acrescidas ainda mais com a retirada russa da Síria, as negociações já enfrentam contratempos, face a discordâncias sobre a composição de delegações e o apelo curdo por uma Síria Federal, com uma região curda semiautônoma, no norte do país. Além disso, representantes do Governo sírio descartaram a possibilidade de se encontrar cara-a-cara com a Oposição, restringindo as conversas de paz à diplomacia de vai-e-vem que tem imperado.

De toda forma, com apenas alguns dias de negociações, resta aos observadores internacionais e, mais importante, ao povo sírio, esperar que os atuais esforços pela paz sejam o “momento da verdade” profetizado por de Mistura.

Nas palavras de Anthony Lake, [e]m todos os lugares que visitei – em Damasco, Homs, Hama e Al-Salamiyah – as pessoas falavam de esperança. Esperança de que haja paz, a esperança de que a paz possa ser encontrada em mais do que um pedaço de papel diplomático, a esperança de que a paz retorne ao seu cotidiano”. E continuou: “nós prometemos que a UNICEF irá continuar a fazer tudo o que pudermos para dar suporte à Síria, não apenas para satisfazer necessidades humanitárias, mas também em sua recuperação e desenvolvimento. […], pois a cada vez que nós educamos uma criança síria, onde quer que ela esteja, nós estamos ajudando a construir o futuro sírio”.

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ImagemEm Aleppo, Síria, Esraa, de 4 anos, e seu irmão Waleed, de três, sentamse no chão próximo a um abrigo para deslocados internos” (Fonte):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=53433.