NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Assad: Governo Provisório deve incluir regime, oposição e independentes

O presidente sírio Bashar Assad declarou nesta quarta-feira, 30 de março, que qualquer Governo de Transição na Síria deve incluir tanto o Regime quanto a Oposição. Em entrevista publicada também na quarta-feira, ele declarou à agência de notícias estatal russa RIA Novostique, em qualquer corpo de transição, “seria lógico que houvesse forças independentes, forças de oposição e forças leais ao Governo representadas”. Assad não especificou quais os grupos de Oposição devem ser incluídos no Governo, ainda assim, delegou às negociações em Genebra a distribuição das pastas ministeriais no Governo de União.

O anúncio foi feito na esteira do pronunciamento do Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, instando maiores esforços de governos ao redor do mundo no combate à crise de refugiados do país e no acolhimento de sírios. O chefe da ONU exortou à Conferência em Genebra sobre refugiados sírios a “enfrentar a maior crise de refugiados e deslocados do nosso tempo”, com estimados 4,8 milhões de sírios tendo fugido de seu país e outros 6,6 milhões de deslocados internos.

A declaração de Assad à agência de notícias russa é concomitante à pressão internacional sofrida por Damasco por maior transigência nas negociações mediadas pela ONU, que visam acabar com o conflito que matou cerca de 270.000 pessoas. O Presidente também declarou que danos econômicos e de infraestrutura causados pelo conflito brutal na Síria já custaram ao país mais de US$ 200 bilhões (176 bilhões de euros). Os combates nos últimos cinco anos deixaram vastas áreas do país em ruínas.

Não há alternativa que levará a uma nova Síria, senão a negociação de uma transição política”, disse Ban Ki-moon no último dia 30 de março. Conversações lideradas pelo enviado especial da ONU para a crise síria, Steffan de Mistura, fizeram uma pausa na semana passada, mas as partes permaneceram em impasse sobre o destino de Assad. A Oposição insiste em que o Presidente sírio deixe o poder antes de um Governo de Transição ser firmado. O Porta-Voz da Casa Branca, Josh Earnest, declarou à imprensa que o Presidente sírio não deve integrar qualquer Governo provisório de união, considerando tal participação “fora de questão”.

Em entrevista, Assad se limitou a declarar que a composição do Governo transitório deve ser acordada nas negociações na Suíça. Afirmou: “Há muitas questões que precisam ser discutidas em Genebra, mas não há perguntas difíceis. (…). Eu não as considero difíceis, todos elas podem ser resolvidas”.

EUA e Rússia pressionam por um Governo de Transição e um projeto de Constituição a serem estabelecidos até agosto, em conformidade com um plano acordado pelas potências mundiais no ano passado (2015). Assad declarou que um projeto de versão preliminar da Constituição poderia ser elaborado “dentro de algumas semanas”, mas insistiu que o país só adotaria uma nova Constituição “depois que o povo sírio votasse nela.

Em outubro de 2015, o presidente Bashar al-Assad havia prometido realizar novas eleições na Síria, mas somente após a derrota das forças “terroristas”. Na ocasião, o líder sírio declarou a legisladores russos estar disposto a participar de eleições presidenciais antecipadas, promover eleições parlamentares e discutir mudanças constitucionais. O Presidente indicou sua disposição em incluir “forças de oposição razoáveis e patrióticas” nas eleições parlamentares.

Críticos ao Regime condenam a postura de Assad nos últimos cinco anos e refutam sua participação no Governo de Transição. Adicionalmente, acusam-no de dualismo e simplismo ao referir-se à oposição ao seu Governo. De acordo com opositores, nos últimos anos, a leitura do cenário político por Bashar al Assad envolvia exclusivamente a posição do Regime e a oposição radical terrorista, negando a presença de outras forças sírias opositoras. Os críticos ao Governo Assad questionam se os chamados “independentes” serão compostos pela oposição moderada ou se por figuras da oposição toleradas pelo Regime.

No domingo, 27 de março, forças legalistas recapturaram das mãos do Estado Islâmico a histórica cidade de Palmyra, com apoio de ataques aéreos russos e forças especiais terrestres. Um cessar-fogo entre Damasco e as forças da oposição não-jihadistas se mantém de modo geral, desde o último 27 de fevereiro, vislumbrando a esperança de uma solução política.

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ImagemPresidente sírio Bashar alAssad concede entrevista em Damasco” (FonteReuters):

http://www.dci.com.br/internacional/assad-diz-que-pode-formar-novo-governo-na-siria-com-a-oposicao-id537473.html

AMÉRICA DO NORTENOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

O Massacre no Iêmen: Governo estadunidense mantém vendas de armas à Arábia Saudita

No mês de março, a Guerra civil no Iêmen completou um ano, mas, ao longo desse período, nenhuma solução foi encontrada e as grandes potências pouco tem comentado sobre o que ocorre no país. O conflito, que está longe dos grandes “holofotes” das disputadas que ocorrem na Síria e no Iraque, as quais envolvem potências extra-regionais e regionais, tornou-se caótico e a situação aprofundou-se, fragilizando ainda mais a população iemenita.

No dia 26 de março de 2015, a Arábia Saudita, apoiada pela Liga Árabe, promoveu uma ofensiva militar no Iêmen, a fim de reestabelecer no poder o presidente Abedrabbo Mansour Hadi e sufocar os rebeldes Houthi, apoiados pelo Irã. Os Houthi são grupos de apoio ao ex-presidente Ali Abdullah Saleh e segmento do Exército, que controla parte sul do Iêmen, próximo ao Estreito de Bab el-Mandeb, entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden.

O Iêmen é um dos países mais pobres do Mundo Árabe, mas é um país geoestratégico para a cadeia de distribuição de hidrocarbonetos, uma vez que, desde 2013, passam pelo estreito em média 3,8 milhões de barris de petróleo, por dia. Uma parte desse petróleo sai do Golfo Pérsico, passa pelo estreito de Ormuz (Irã e Omã), por Bab el-Mandeb e o Canal de Suez, tendo como destino os mercados ocidentais. Mas esse Estreito também é uma via alternativa de Ormuz para a Arábia Saudita, que tem oleodutos e gasodutos que desaguam no Mar Vermelho e precisam passar por Bab el-Mandeb para chegar aos mercados asiáticos, por exemplo.

Um ano depois, a guerra proxy (guerra por procuração) travada entre os grupos aliados as forças sauditas e os Houthis levou o país a uma profunda crise humanitária, que deslocou mais de 2,4 milhões de pessoas e deixou cerca de 6 mil mortos, entre civis e combatentes. Segundo Alto Comissariado das Nações Unidas, mais de 60% dessas mortes foram causadas por ataques aéreos. Os dois lados cometeram crimes de guerra, impedindo que alimentos, água e eletricidade cheguem à população. Estima-se que mais de 80% da população precise de ajuda humanitária, agravada pela insegurança alimentar, pois mais de 7 milhões de pessoas não possuem condições de comprar comida.

Na última semana, os Estados Unidos da América (EUA) promoveram dois ataques com aviões não tripulados contra a Al Qaeda na Península Arábica (AQPA), localizada no sul do Iêmen, destruindo várias posições da organização terrorista utilizadas para treinamento, como quartéis da Defesa Litorânea e da Defesa Aérea. De acordo com estimativas do Pentágono, dezenas de pessoas morreram durante os ataques contra a AQPA, que é considerada pelos EUA como uma das mais perigosas ramificações da rede fundada por Osama Bin Laden.

Além disso, os Estados Unidos tem apoiado as forças sauditas através da venda de armamentos, como bombas de fragmentação, a exemplo das Mk-80. Organismos internacionais, como a Human Rights Watch (HRW), apelam para que o Governo norte-americano e de outros países, como Grã-Bretanha e França, parem e vender armas aos sauditas. Segundo a HRW, entre maio e outubro de 2015, os norte-americanos venderam aos sauditas US$ 20 bilhões em armas. No final de 2015, o Departamento de Defesa autorizou a venda de US$ 1,29 bilhão, que irá fornecer cerca de 18.440 bombas e 1.500 ogivas à Arábia Saudita.

Várias organizações internacionais, sobretudo ligadas aos Direitos Humanos, pesquisadores e analistas tem pressionado e criticado o Governo estadunidense, ao apontar que não importa o momento em que o negócio de armas foi feito, pois, quando países como EUA, França e Reino Unido vendem armamentos às forças que combatem no Iêmen, eles estão pactuando com as violações do direito internacional que têm ocorrido no país. O massacre que ocorre na população iemenita, portanto, é de responsabilidade também desses Estados, pois a coalizão liderada pela Arábia Saudita é a maior responsável pelos ataques aéreos e pelas mortes provocadas pelo bloqueio das linhas de distribuição de alimentos e água.

As três guerras em curso no Oriente Médio (Síria, Iraque e Iêmen) envolvem posições distintas dos Estados Unidos e de outras potências extra-regionais, dependendo do país, embora nos três se oponham ao Estado Islâmico, conforme ilustra a figura abaixo.

Assim, enquanto na Síria os Estados Unidos apoiam as forças opositoras ao Governo de Bashar al-Assad, no Iraque, o apoio é em favor do Governo do iraquiano empossado após a retirada das tropas norte-americanas do país, entre 2010-2012. No Iêmen o apoio também ocorre em favor do Governo atual. Em virtude disso, na Síria e no Iêmen os Estados Unidos se colocam ao lado da posição saudita, já no Iraque atua em conjunto com o Irã.

No entanto, analistas apontam que essa situação pode se alterar no Iêmen e que os EUA já deram indicações de que pretendem atuar ao lado dos Houthi para combater as forças jihadistas no país. Essa mudança, somada a recente reaproximação com o Irã, pode fragilizar ainda mais as suas relações com a Arábia Saudita e os países que compõem o Conselho de Cooperação do Golfo, que são rivais do Irã.

Até o presente, a guerra no Iêmen não revelou nenhuma força vencedora, apenas uma profunda crise humanitária, como já mencionado. A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que os dois lados rivais no Iêmen concordaram com o cessar-fogo a partir de 10 de abril, bem como com as negociações para o estabelecimento da paz. Apesar do otimismo, o resultado dessa negociação está relacionado às guerras nos outros dois países e ao apoio dado por sauditas e iranianos aos grupos proxies

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Imagem (Fonte):

https://www.stratfor.com/analysis/saudi-arabia-and-iran-compete-yemen

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Aos 5 anos: o impacto do conflito sírio nas vidas de 8,4 milhões de crianças

No último dia 15 de março de 2016, a Guerra Civil Síria completou 5 anos de duração. A data serviu de oportunidade para que inúmeros canais midiáticos revissem os aspectos mais atrozes do conflito, como os maiores cercos, as províncias com maior número de deslocados internos e os meses com mais baixas civis. Também serviu de palco para críticas à ineficiência de potências regionais e mundiais em encontrar uma solução pacífica ao que se tornou mais do que uma simples batalha entre apoiadores e opositores a Assad.

À medida que a Guerra Síria começa seu sexto ano, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, na sigla em inglês) chama atenção para o impacto do conflito sobre crianças sírias, lembrando que 5 anos representa uma enorme fração do tempo de vida de uma criança – e mesmo uma vida inteira, para os 3,7 milhões de sírios nascidos desde o início do conflito. Em “No Place for Children”, Relatório publicado há alguns dias, o órgão das Nações Unidas propõe cinco medidas críticas, a fim de proteger cerca de 8,4 milhões de crianças em necessidade de ajuda humanitária, dentro da Síria e em países vizinhos, incluindo cerca de 2,8 milhões sem acesso a educação.

Notadamente, as medidas consistem em: eliminar violações dos direitos da criança; suspender cercos e melhorar o acesso humanitário; investir na educação; desenvolver políticas claras de proteção à criança, a fim de permitir uma paz duradoura e digna; transformar promessas de financiamento em compromissos.

Notadamente, o Relatório aponta que, em 2015, houve ao menos 1.500 violações graves contra crianças, incluindo 500 casos de crianças mortas e 400 de crianças mutiladas, como resultado do uso de armas explosivas em áreas povoadas. Além disso, o recrutamento de crianças tem sido uma prática cada vez mais frequente, e com crianças cada vez mais novas – até mesmo com 7 anos de idade. Nos primeiros anos de conflito, a maioria das crianças recrutadas eram garotos de 15 a 17 anos, a desempenhar papéis secundários; no entanto, agora recebem treinamento militar e participam em combate, além disso, mais da metade dos casos de recrutamento confirmados pela UNICEF em 2015 envolviam menores de 15 anos.

Mais de 200.000 crianças encontram-se vivendo em áreas sitiadas, o que traz consequências psicológicas devastadoras. A Síria perdeu mais de um quarto de suas escolas – mais de 6.000, que sofreram danos, foram forçadas a fechar, usadas para fins militares ou convertidas em abrigos para deslocados internos – enquanto a taxa de escolarização caiu para 74%.

Ademais, 70% das crianças sírias não têm acesso a água potável, enquanto 66% do esgoto sírio não é tratado, o que multiplica os riscos de infecções e doenças entre crianças. Não raramente, crises humanitárias necessitam de soluções políticas – e a UNICEF tem conduzido esforços à altura, a fim de alcançar os objetivos traçados em “No Place for Children”. O Diretor Executivo da agência, Anthony Lake, visitou a Síria no início de março, e urgiu que forças do Governo e da Oposição facilitem o acesso de organizações humanitárias a crianças em necessidade.

Lake afirmou: [A]altos funcionários do governo em Damasco concordaram que, em conjunto com a [Organização Mundial de Saúde] e nossos parceiros, incluindo o Ministério da Saúde [sírio], nós podemos ir em frente e imediatamente planejar e implementar um programa de imunização nacional contra doenças infantis. Isso vai exigir acesso a todas as áreas sitiadas e de difícil alcance”, com o apoio de ambos os lados do conflito.

Ao mesmo tempo, o Chefe Regional da UNICEF, Peter Salama, clamou, no início desta semana, que países doadores honrem as promessas feitas na Conferência Internacional de Apoio à Síria, realizada em Londres, no início de fevereiro. Como aponta o relatório “No Place for Children”, até o momento, a agência da ONU só arrecadou 6% dos 1,16 milhão de dólares pleiteados para sua resposta humanitária à crise Síria.

Também no início desta semana, reiniciaram-se as conversas de paz entre representantes do governo do presidente sírio, Bashar al-Assad, e grupos da oposição. O Enviado Especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, caracterizou o atual estágio das negociações como o “momento da verdade” e ambos os lados do conflito se manifestaram otimistas em relação aos esforços de paz.

Apesar das altas expectativas, acrescidas ainda mais com a retirada russa da Síria, as negociações já enfrentam contratempos, face a discordâncias sobre a composição de delegações e o apelo curdo por uma Síria Federal, com uma região curda semiautônoma, no norte do país. Além disso, representantes do Governo sírio descartaram a possibilidade de se encontrar cara-a-cara com a Oposição, restringindo as conversas de paz à diplomacia de vai-e-vem que tem imperado.

De toda forma, com apenas alguns dias de negociações, resta aos observadores internacionais e, mais importante, ao povo sírio, esperar que os atuais esforços pela paz sejam o “momento da verdade” profetizado por de Mistura.

Nas palavras de Anthony Lake, [e]m todos os lugares que visitei – em Damasco, Homs, Hama e Al-Salamiyah – as pessoas falavam de esperança. Esperança de que haja paz, a esperança de que a paz possa ser encontrada em mais do que um pedaço de papel diplomático, a esperança de que a paz retorne ao seu cotidiano”. E continuou: “nós prometemos que a UNICEF irá continuar a fazer tudo o que pudermos para dar suporte à Síria, não apenas para satisfazer necessidades humanitárias, mas também em sua recuperação e desenvolvimento. […], pois a cada vez que nós educamos uma criança síria, onde quer que ela esteja, nós estamos ajudando a construir o futuro sírio”.

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ImagemEm Aleppo, Síria, Esraa, de 4 anos, e seu irmão Waleed, de três, sentamse no chão próximo a um abrigo para deslocados internos” (Fonte):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=53433.

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Segundo o IHS, Estado Islâmico perdeu 22% de território nos últimos 15 meses

De acordo com a compilação de dados publicada pela empresa de Pesquisa em defesa IHS, o Estado Islâmico (EI) teriam perdido 22% do território, uma vez detido na Síria e no Iraque, nos últimos 15 meses. A análise também estima que o Estado Islâmico tenha perdido 40% de sua receita – em grande parte de petróleo – após perder o controle de parte expressiva da fronteira turco-síria. A última análise do grupo IHS, publicada em dezembro de 2015, informava que os jihadistas já haviam perdido 14% do território sob seu domínio, em comparação ao mês de janeiro do mesmo ano. A perda registrada foi, sobretudo, nas áreas sírias ao norte, em fronteira com a Turquia e próximas às cidades de Kobane, Ain Issa, Tal Abyad e Al Hasakah; e centro-norte iraquianas, próximas às cidades de Tikrit, Baiji e Ramadi.

Ataques aéreos e ofensivas terrestres durante o ano de 2015 forçaram o grupo a se retirar de alguns lugares. Contudo, o grupo também fez novos ganhos, sobretudo perto das regiões sírias de Palmira, Aleppo, A’zaz e Qarah, e iraquianas de Haditha e Deir Al Zour. A perda de domínio terrestre também pode estar sufocando o financiamento do Estado Islâmico. De acordo com o analista Columb Strack, que lidera a equipe responsável pela produção dos mapas de monitoramento de conflito da IHS, a perda de controle de postos de fronteira com a Turquia, ao norte do reduto do Estado Islâmico em Raqqa, significou o aumento na dificuldade de arrecadar dinheiro com a venda de petróleo no mercado negro. Com o controle da área fronteiriça por curdos sírios, a exportação de petróleo se torna muito mais difícil. Enquanto em 2015 o Estado Islâmico viu diminuir um quinto de seu território, os curdos sírios quase triplicaram o seu.

De acordo com a IHS e o Diário The Washington Post, a perda do posto fronteiriço sírio central de Tal Abyad tirou um dos principais pontos de acesso do Estado Islâmico para o contrabando de armas, material e novos combatentes. O controle reforçado na fronteira turca também reduziu os fluxos de caixa, bem como o número de recrutas estrangeiros que procuram se juntar ao grupo.

Fontes de segurança reportaram à BBC Newsnight que o fluxo de jihadistas do Reino Unido indo combater na Síria também registrou queda. Conforme analistas, a perda de território na Síria, aliada a morte ou captura de diversos líderes de alta patente nos últimos meses, enfraquece a mensagem de propaganda do grupo na Grã Bretanha. Novos recrutas ainda deixam a região para lutar na Síria, mas a um ritmo mais lento. No total, pouco mais de 800 pessoas deixaram o Reino Unido para se juntarem a extremistas em território sírio – a vasta maioria para lutar com o EI. Quase 100 morreram e cerca de 350 estão de volta ao Reino Unido.

Um suposto comandante do Estado Islâmico teria morrido na sequência de um ataque aéreo norte-americano na Síria. Omar al-Shishani teria sido abatido no último dia 14 de março. Enquanto isso, aviões de guerra russos continuam a retirar-se do país, depois de o Governo da Rússia ter anunciado de forma inesperada que retiraria a maior parte de suas forças. As conversações de paz destinadas a encerrar o conflito que já dura cinco anos entraram no seu terceiro dia em Genebra, neste 16 de março. O envolvimento russo permitiu que o Exército do Presidente sírio, Bashar al-Assad, retomasse postos-chave e fortalecesse suas posições antes das negociações. Após 6 meses de operações aéreas, a Federação Russa julgou já ter cumprido sua missão por lá. Contudo, Putin deixou claro que a Rússia manterá sua base aérea, uma instalação naval e algumas tropas terrestres na Síria.

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ImagemA mudança territorial do Estado Islâmico desde Janeiro de 2015” (Fonte The Washington Post):

https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2016/03/16/the-islamic-state-has-lost-more-than-a-fifth-of-its-territory-says-report/

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Nações Unidas esperam negociações de paz ‘substantivas’ para a Síria

Uma nova rodada de negociações de paz para o conflito sírio terá início na próxima segunda-feira, 14 de março. O enviado especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, espera que conversações “substantivas e mais profundas” entre Governo e Oposição tenham início. De Mistura informou que a agenda incluiria a formação de um novo Governo (transição administrativa), Constituição e Eleições. Ainda não é claro, contudo, quem irá participar das negociações indiretas em Genebra. Alguns líderes da oposição ainda não teriam confirmado sua presença. Na guerra síria, que já entrou em seu quinto ano, uma trégua parcial que teve início há 13 dias reduziu consideravelmente a intensidade dos combates.

Conforme reportou a BBC londrina, em entrevista coletiva em Genebra, na quarta-feira 9 de março, de Mistura saudou o que descreveu como “uma redução sustentada da violência”. O cessar fogo estabelecido por Estados Unidos e Rússia através do Grupo Internacional de Apoio à Síria tomou efeito em 27 de fevereiro de 2016. O enviado informou esperar que as discussões informais tenham início imediatamente em hotéis em toda Genebra, mas que as negociações formais não seriam retomadas oficialmente até segunda-feira.

Apesar dos esforços de negociação, permanece incerto quem efetivamente participará das rodadas em Genebra. Alguns líderes da oposição sugeriram não terem decidido se irão comparecer – sobretudo os oposicionistas à Bashar al Assad, apoiados pela Arábia Saudita. O principal partido Sírio Curdo (Partido da União Democrática, PYD) alega novamente não ter sido convidado.

As partes que participarão das conversações da próxima semana já começam a chegar na Suíça. O enviado especial da ONU deixou claro que quer que as negociações, para serem substantivas, cubram uma Constituição e Eleições – tanto presidenciais quanto parlamentares – dentro de 18 meses. Ele informou que as negociações ocorreriam até 24 de março, antes de uma pausa de até 10 dias para dar aos segmentos tempo para consulta. De acordo com especialistas, é pouco provável que as conversações tenham início sem progressos tangíveis na libertação de prisioneiros. A rápida libertação de milhares de presos políticos está sendo vista como o próximo obstáculo para as negociações de paz síria. A Grã-Bretanha apoia as chamadas da oposição para libertação de estimados 65.000 presos políticos ou “indivíduos forçosamente desaparecidos” na véspera de novas rodadas.

O correspondente da BBC em Genebra, Imogen Foulkes, reporta também que o foco das negociações será um Governo de Transição, uma nova Constituição e eleições, no entanto, violações ao acesso humanitário e ao cessar-fogo não estarão na agenda. A ONU criou dois grupos de trabalho para lidar com essas questões e claramente quer que os representantes da Oposição e do Governo se concentrem em uma solução política. As Nações Unidas informam que bom progresso foi feito para obtenção de suprimentos para áreas sitiadas, com quase 240 mil pessoas alcançadas, a maioria das quais receberam nada no ano passado.

A primeira rodada de negociações convocadas por de Mistura entrou em colapso em  alguns dias no início de fevereiro passado, após demandas da Oposição e uma ofensiva do Governo apoiada pela Rússia, perto do Aleppo, a maior cidade da Síria. A Rússia tem amparado Assad com uma campanha militar envolvendo o poder aéreo.

O cessar fogo – embora limitado e experimental – tem sido em sua maior parte mantido, ainda que alguma violência esporádica seja registrada. A trégua, que cobre áreas da Síria detidas pelas forças governamentais de Bashar al-Assad e por rebeldes não-jihadistas, reduziu o número de mortes diárias em 90% em relação aos níveis anteriores, reportou o Observatório Sírio para Direitos Humanos. Existem grandes ressalvas, no entanto. A trégua negociada pelos Estados Unidos e pela Rússia não abrange os setores significativos do país sob domínio do ISIS, ou da Frente Nusra, filiada à Al Qaeda. Vítimas civis e militares expressivas continuam a ser relatadas nessas áreas.

A trégua é um acordo temporário de cessação das hostilidades e não parte de um Acordo de Paz mais abrangente, indicando que o objetivo de obtenção da paz no país ainda parece bastante longe de ser cumprido. O conflito sírio já vitimou ao menos 250.000 pessoas, segundo a ONU, e mais da metade da população pré-guerra de 22,4 milhões foi internamente deslocada ou fugiu para países vizinhos.  A guerra forneceu terreno para grupos radicais como Estado Islâmico e Jabhat al Nusra para captura de estimados 50% do território sírio – ainda que majoritariamente composto de áreas desérticas e com baixa densidade demográfica. Esses grupos foram excluídos dos atuais esforços diplomáticos para resolução do conflito.

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Raad Al Hussein, afirmou a BBC que o sistema internacional falhou na Síria, sendo incapaz de lidar com esta forma de conflito que já deu demonstrações de “quase todos os crimes de guerra concebíveis, além de crimes contra a humanidade”. E acrescentou: “Então, futuras ‘Sírias’, não temos nenhum algoritmo, nenhuma fórmula sobre como devemos nos dirigir em relação a estes conflitos. E isso não é um bom presságio para o século 21”.

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ImagemStaffan de Mistura, Enviado Especial do SecretárioGeral ONU para a Síria, fala durante conferência internacional em Geneva” (Fonte UN/Loey Felipe):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=51535#.VuGUlfkrLIU

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OLP procura apoio internacional para o retorno dos cadáveres dos militantes retidos por Israel

A recente onda de violência que assolou Jerusalém Oriental, em setembro de 2015, e que teve o Monte do Templo, ou Mesquita de al-Aqsa, como o epicentro das hostilidades dos palestinos contra os judeus compõe, hoje, mais um capítulo no embate entre os dois povos. Embora os descontentamentos e os atentados não tenham cessado totalmente, outro episódio encontra-se, atualmente, no centro do conflito. Trata-se da permanência, em território israelense, dos corpos de nove militantes palestinos que, supostamente, estavam realizando ataques em Israel e foram abatidos pelas Forças de Segurança daquele país. O lado palestino, através da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e ONGs de Direitos Humanos, tem pedido apoio internacional para o repatriamento dos cadáveres de seus compatriotas para que sejam sepultados na Palestina, em conformidade com os costumes familiares e religiosos.

De acordo com as ONGs palestina e israelense, a Associação de Direitos Humanos e Apoio aos Prisioneiros (Addameer) e o Centro Legal para os Direitos da Minoria Árabe em Israel (Adalah), está ocorrendo “uma grave violação do Direito Internacional Humanitário, bem como do Direito Internacional dos Direitos Humanos, incluindo violações do direito à dignidade, liberdade de religião e o direito de praticar a cultura”. As ONGs também argumentam que a retenção dos corpos “obstrui a possibilidade de realizar um inquérito sobre as circunstâncias das supostas execuções extrajudiciais e uma autópsia adequada”.

Na sequência dos acontecimentos, o Secretário-Geral do Comitê Executivo da OLP se reuniu separadamente com o Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, Nikolay Mladenov, uma delegação parlamentar belga, suíça, chanceleres cipriotas e o representante do Japão para a Palestina para tratar do assunto, tendo afirmado que “punições coletivas de Israel estão agora a ser realizadas contra os vivos e os mortos”. Enquanto prossegue o impasse sobre a questão, que está a ser levada ao âmbito internacional, os palestinos alegam que havia sido estabelecido um acordo entre israelenses e palestinos referente à devolução dos corpos dos militantes, mas que o pacto foi violado por Israel. Segundo o Procurador da Addameer em Jerusalém, o advogado Mohammad Mahmoud, uma família acertou com as autoridades israelenses a entrega do corpo do familiar, tendo pago NIS 30,000, aproximadamente 7.060 Euros. Porém, conforme afirmou Mahmoud, Israel não cumpriu com o combinado e apresentou uma nova condição para liberar o corpo, que incluía “confiscar os aparelhos celulares de todos os presentes até o final do sepultamento”.

Para as autoridades israelenses, estas medidas estão sendo tomadas para evitar o incitamento a novos ataques. O Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o Ministro de Segurança Pública, Gilad Erdan, ambos favoráveis ao atraso da devolução dos corpos dos militantes palestinos, acreditam que a medida evita que a massa que acompanha o funeral, como normalmente ocorre, peça o assassinato de israelenses. Ante tal situação, as autoridades palestinas e as ONGs visam mobilizar a comunidade internacional no sentido de pressionar o Governo israelense a devolver os corpos de Thaer Abu Ghazaleh, Hasan Manasrah, Baha Alayan, Alaa Abu Jamal, Mutaz Eiwaisat, Mohammad Nimer, Omar Iskafi, Abed al-Muhsen Hassouneh e Mohammad Abu Khalaf. A resolução deste impasse será decisiva para impedir a elevação dos ânimos na sociedade palestina e evitar, assim, mais violência entre os dois povos. Neste contexto, cabe à comunidade internacional intervir de modo imparcial em busca do entendimento entre israelenses e palestinos.

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ImagemMembros da Polícia palestina carregam os corpos de palestinos que, alegadamente, esfaquearam israelenses, depois de seus corpos terem sido liberados pelas tropas israelenses (Hebron, Cisjordânia, 30 de outubro de 2015)” (Fonte):

http://www.haaretz.com/polopoly_fs/1.683348.1446237933!/image/2403329072.jpg_gen/derivatives/headline_1218x685/2403329072.jpg