NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Tensão política com o referendo no Egito

Os egípcios foram às urnas do dia 20 ao dia 22 de abril de 2019 para votar uma série de mudanças na Constituição do país. Compareceram 27 dos 61 milhões de eleitores aptos e 88% dos votos foram a favor da aprovação das medidas propostas pelo presidente egípcio Abdel Fatah el-Sisi.

Antes de ser submetida ao referendo, a proposta também foi aprovada no Parlamento. O Egito possuí um sistema unicameral, e os governistas são ampla maioria na Câmara dos Deputados. Dos 596 deputados, 522 votaram a favor das reformas.

A taxa de comparecimento de cerca de 44% não é muito distinta da observada nas eleições presidenciais de 2018. Meios de comunicação como a Reuters e a CNN reportaram uma série de suspeitas quanto à compra de votos e coerção dos votantes.

Conforme foi noticiado, comerciantes no Cairo afirmaram que foram coagidos pelas forças de segurança do governo a colocar cartazes manifestando apoio à aprovação das medidas. Segundo declaração à agência Reuters feita por Ahmed al-Tantawi, a liderança da oposição no Parlamento, os primeiros dias de votação foram de “cédulas e caixa de papelão”. A referência é ao fato de que ativistas relataram soldados entregando comida para pessoas saindo dos locais de votação.

Foram propostas 14 Emendas para a Constituição egípcia. Elas alteram vários pontos do funcionamento do sistema político. Dentre estes destacam-se a criação de um Senado, do qual o Presidente indicará 1/3 dos membros, e a atual Câmara Baixa será reduzida de 596 para 450 membros.

Al-Sisi, também conseguiu que fosse aprovada a alteração tanto na duração quanto no número máximo dos mandatos para o Presidente do país. Reeleito em abril de 2018 para um segundo termo, ele não poderia reapresentar-se nas próximas eleições. Com as mudanças previstas, o mandato presidencial estende-se a 6 anos com validade imediata e abre a possibilidade de um terceiro termo.

Abdel Fatah el-Sisi posa em trajes militares quando ainda servia como Ministro da Defesa, em 2013

Ou seja, o mandatário não precisará passar pelas urnas até 2024, quando poderá apresentar-se à outra reeleição, podendo permanecer no cargo até 2030. Al-Sisi também ganhou poder sobre o judiciário, como a capacidade de escolher juízes, a Presidência da Suprema Corte e o Procurador-Geral do país. Os militares terão estendidas suas capacidades políticas e de polícia. Cortes militares poderão levar civis à juízo.

Aliados e defensores do atual Presidente afirmam que as medidas são necessárias para garantir a estabilidade que o país precisa para crescer economicamente. Desde o turbulento período político que se seguiu à saída de Hosni Mubarak, em 2011, o Egito tem enfrentado dificuldade de retomar crescimento econômico.

Os partidos de oposição e ativistas internacionais expressaram suas preocupações com a concentração de poder nas mãos do Executivo, bem como temor quanto à preservação das liberdades e direitos humanos. Said Bernabia, diretor da Comissão Internacional de Juristas para o Oriente Médio e Norte da África declarou à Al Jazeera que “os militares e o executivo do Egito subordinaram o poder judiciário e o escritório do procurador geral à sua vontade política” e que isto poderia “sustentar a repressão aos direitos humanos no país”.

A Human Rights Watch publicou uma declaração afirmando que as reformas aprofundam o risco da consolidação do autoritarismo no país. O diretor da HRW para o Oriente Médio e Norte da África afirmou nesta oportunidade que o governo deveria “suspender os esforços para aprovar essas emendas ameaçando, desaparecendo e perseguindo críticos e dissidentes pacíficos”. Autoridades egípcias negam qualquer descumprimento das normas legais no processo eleitoral.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Foto da bandeira do Egito registrada durante a realização do referendo (Fonte Página oficial do Conselho Internacional de Juristas / ICJ):

https://www.icj.org/wp-content/uploads/2013/03/Egypt-flag-1-1400×978.jpg

Imagem 2 Abdel Fatah elSisi posa em trajes militares quando ainda servia como Ministro da Defesa, em 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Egyptian_Minister_of_Defense_Abdel_Fatah_Al_Sisi.jpg
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O vínculo entre o futuro da juventude iraquiana e a preservação a Democracia no Iraque

Atualmente, o Iraque é um país com uma população jovem, sendo que 62,8% dos seus habitantes possuem menos de 24 anos. É uma geração que passou pelo menos dois terços da sua vida vivendo em um país que atravessava profundas transformações. Estas pessoas vivenciaram de guerras civis à construção de um regime democrático.

Não vivendo mais sob a ameaça constante promovida pelo conflito, enfrentam hoje uma série de desafios. Compostos por distintos elementos, estes podem ser considerados como geradores de uma sensação generalizada de desesperança quanto ao futuro do Iraque.

O primeiro elemento é o elevado desemprego, sobretudo entre a população jovem. A taxa de desemprego entre os que possuem entre 15 e 24 anos era de 18,9% em 2018, de acordo com dados do Banco Mundial. A falta de infraestrutura, aliada à dificuldade no florescimento de uma iniciativa privada que possa prover empregos de qualidade para a população são algumas das principais causas deste problema.

A dependência do petróleo como principal fonte para a geração de divisas, aliada à um projeto que foi desenvolvido por Saddam Hussein durante sua permanência no poder, gerou uma dependência enorme do setor público enquanto empregador. Ainda que existam iniciativas para reverter a situação, como programas de Startups conduzidas por jovens, elas enfrentam problemas como a falta de qualificação e estrutura.

Jovens reunidas em curso para promoção da paz e coesão social, organizado pelo Fundo de População das Nações Unidas

Muitos destes jovens cresceram enfrentando problemas como a necessidade fazer constantes deslocamentos e a dificuldade em obter educação por conta do conflito que o país vivia. Tempo e investimento ainda serão necessários para que as escolas e universidades possam preparar uma nova geração para os novos desafios que o futuro trará.

O segundo é a falta de percepção de mudança no país. A democracia foi instaurada no Iraque através das eleições parlamentares de 2005. A experiência política anterior consistia na sucessão de governo identificados como autoritários, como os do Partido Ba’ath, que esteve no poder desde 1968.

A experiência democrática produziu uma sucessão de regimes no poder que, na percepção da população geral, não geraram mudanças efetivas e transformações. Conforme se identifica na mídia, a ideia é de que o dinheiro no Estado foi usado para promover o sectarismo e a corrupção no país.

Esta desconfiança é indicada tanto pelo baixo comparecimento nas eleições parlamentares de 2018, onde somente 44,5% dos eleitores aptos foram às urnas, bem como uma série de protestos contra a corrupção e uma crescente demonstração de nostalgia dos períodos autoritários.

Sendo um país que passou por duros períodos para a mudança de regime, o Iraque enfrenta hoje desafios inéditos e muitos recaem sobre o futuro dos jovens. Para além disso, o país espera um crescimento populacional à uma taxa de 2,6% ao ano, com uma taxa de fertilidade de 4,2 filhos por mulher, o que leva a concluir que as soluções necessitarão levar em conta o crescimento desta parcela da população.

O país vive hoje um período de maior estabilidade e passa a ter novas questões às quais responder. Segundo especialistas, é necessário sobretudo manter os ganhos democráticos que foram produzidos, sendo estes necessários, inclusive, para a estabilidade do país. Conforme se observa a partir dos fatos relatados na mídia e das considerações de analistas, para tais, a provisão das adequadas condições de desenvolvimento desta parcela da população é um desafio para o governo iraquiano evitar uma possível regressão ao autoritarismo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Crianças bebem água em escola reformada pela Unicef no Iraque” (Fonte Twitter Unicef: Iraque @UNICEFiraq): https://twitter.com/UNICEFiraq/status/1107226137732751361

Imagem 2 Jovens reunidas em curso para promoção da paz e coesão social, organizado pelo Fundo de População das Nações Unidas” (Fonte Página oficial da UNFPA Iraque no Facebook): https://www.facebook.com/UNFPAIraq/photos/a.1766569953561240/2300751683476395/?type=3&theater

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Pacote de Medidas dos EUA para a Palestina

A política externa dos EUA para o Oriente Médio neste momento tem focado no que já foi chamado de “O Acordo do Século”. A iniciativa é coordenada por Jared Kuschner (genro do Presidente, casado com Ivanka Trump; assistente de Donald Trump e Conselheiro Sênior da Casa Branca) e setores do Departamento de Estado. Ao que inicialmente se sabe, foi gestado um plano que visa investir bilhões de dólares, primordialmente na Cisjordânia e na faixa de Gaza.

A provável data oficial para o anúncio do pacote de medidas é o próximo dia 15 de maio. A apresentação coincide com a celebração do Nakba, quando Israel comemora sua independência e criação enquanto Estado.

Até agora, a administração Trump tem enfrentado as consequências de sua política externa para a região. Após a mudança da embaixada em Israel para Jerusalém, o embaixador palestino retirou-se de Washington e os Estados Unidos promoveram corte de boa parte da ajuda e apoio que já foi fornecido à Autoridade Nacional Palestina, incidindo na autonomia da organização.

O apoio que os Estados Unidos aportavam para agências internacionais garantiam provisão de serviços básicos, infraestrutura e educação para os refugiados palestinos, como os feitos à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, na sigla em inglês). Foi a primeira vez, desde a fundação da Agência, que o país se recusou a manter o apoio e em não assumir este papel na manutenção da paz no Oriente Médio.

O investimento que virá por meio do novo Acordo seria estendido também a outros países da região, como a Jordânia, o Líbano e o Egito, desde que os mesmos cumpram com exigências pré-determinadas que devem ser reveladas juntamente com o plano.

A Palestina receberia por meio deste acordo um investimento de US$25 bilhões (Em torno de 98,13 bilhões de reais, conforme cotação de 18 de abril de 2019). Os demais países árabes participes do acordo, teriam um investimento em torno de US$ 40 bilhões de dólares (aproximadamente, 157 bilhões de reais, também de acordo com a mesma cotação). A quantia ainda não é certa, tampouco quem pagará por ela.

O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu

As negociações preliminares envolveram não somente os EUA, mas também os países considerados mais estáveis na região. Estes esperam atrair Estados como a Arábia Saudita para investir no acordo. Até agora, somente a Turquia pronunciou-se veementemente contra algumas das medidas, como considerar as colinas de Golã território israelense.

Um acerto que busque estabelecer um ponto final para um dos conflitos mais complexos existentes envolve distintos fatores. Para além do cenário positivo de um ambiente economicamente saudável que Kushner ressalta, está a ausência de uma solução para a autonomia palestina. A proposta de “eliminar fronteiras” antevê que as ambições políticas dos palestinos não estão incluídas na agenda.

Ainda que falte mais informação sobre os detalhes que serão oferecidos, analistas consideram que concretizar tal feito envolve uma série de impedimentos. O primeiro, e talvez mais imediato, é convencer os palestinos a abandonar suas bandeiras históricas e o reclamo sobre autonomia da terra em troca de investimentos. Por outro lado, ainda não deixa claro como vai equilibrar as demandas já existentes.

De acordo com o Middle East Monitor, Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Nacional Palestina, definiu que o chamado “Acordo do Século” se apresenta como um dos maiores desafios para o governo recém-eleito. Também declarou que os palestinos irão observar os avanços das propostas, mas salientou a dificuldade do diálogo com Donald Trump e afirmou que rejeitam um acordo que não inclua Jerusalém, porque os palestinos não querem “um Estado sem Jerusalém e sem Gaza.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Os presidentes de Israel (Yitzhak Rabin), dos EUA (Bill Clinton) e da Organização para a Libertação da Palestina (Yasser Arafat), cumprimentamse durante as negociações dos Acordos de Oslo, 1993” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Israeli%E2%80%93Palestinian_conflict#/media/File:Bill_Clinton,_Yitzhak_Rabin,_Yasser_Arafat_at_the_White_House_1993-09-13.jpg

Imagem 2 O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o primeiroministro Benjamin Netanyahu”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:President_Trump_at_the_Israel_Museum.Jerusalem_May_23,_2017_President_Trump_at_the_Israel_Museum._Jerusalem_May_23,_2017(34460980460).jpg

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A recente escalada de violência na Líbia

A Líbia voltou recentemente a ocupar manchetes por conta da escalada do conflito no país. Um grupo militar comandado pelo general Khalifa Haftar lançou uma ofensiva sobre a capital do país, Trípoli.

Com pouco tempo de conflito ainda não é possível prever seu desfecho ou tampouco quais os efeitos mais duradouros que as manobras possam produzir. O Governo do Acordo Nacional, entidade reconhecida pelas Nações Unidas como governantes da Líbia, foram pegos de surpresa pelo anúncio de que tropas marchariam para tentar tomar definitivamente o controle do país.

Khalifa Haftar, membro das Forças Armadas da Líbia desde 1966, apoiou Muammar Gaddafi no golpe que este empreendeu contra o rei Idris I, em 1969. Nas décadas que serviu sob o comando do ditador líbio, o General ascendeu dentro das Forças, comandando as tropas no conflito com o Chade. Após desertar para a Frente Nacional de Salvação da Líbia, grupo opositor ao governo, decidiu exilar-se nos Estados Unidos, onde tornou-se cidadão.

Após a derrubada de Gaddafi, em 2011, o general Haftar regressou ao seu país. A partir de 2014, converteu-se em comandante autoproclamado do Exército Nacional Líbio (ENL), organização que contesta a autoridade do governo em Trípoli, proclamando uma autoridade paralela, com a conquista de territórios ao leste do país, por meio de uma campanha militar autoproclamada “Operação Dignidade.

Desde então, há uma disputa pelo controle do país, que é particularmente intensa na região de Tobruk, cidade ao leste. Neste cenário, os militares que apoiam Haftar possuem apoio de Estados como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Egito. As Nações Unidas tentam mediar o processo e desencorajar o grupo insurgente de perseguir seus objetivos.

O Secretario Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, que se encontrava na Líbia com objetivo de organizar uma conferência dedicada a planejar futuras eleições, deslocou-se até a cidade de Benghazi para demover o líder do ENL da sua ofensiva. Após a falha das negociações, Guterres declarou em 6 de abril que deixava a Líbia “com o coração pesado e profundamente preocupado. Eu ainda espero que seja possível evitar um confronto sangrento dentro e ao redor de Trípoli”.

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Entretanto, no dia 4 de abril, o General divulgou um áudio entre a população anunciando o lançamento de sua ofensiva para conquistar a capital. Este foi o ponto de partida de uma iniciativa militar do autoproclamado governo paralelo, começando com ataques aéreos à capital, a partir do dia 7de abril.

A missão da ONU permaneceu no país, ainda que com pessoal reduzido, uma vez que a parte administrativa da missão foi deslocada para a vizinha Tunísia. Nos últimos dias tem se dedicado a remover alguns cidadãos em regiões de risco. Também haviam planejado uma conferência para discutir o cenário eleitoral, que deveria ter início no dia 14 de abril, mas, dadas as condições na Líbia, este compromisso foi adiado.

O Governo do Acordo Nacional que possui apoio das Nações Unidas, dentre outros membros da comunidade internacional, lançou uma contraofensiva militar e conta com uma série de milícias ao redor da capital dispostas a enfrentar as forças do autoproclamado ENL.

A Operação “Vulcão de Raiva, lançada pelas Forças Armadas da Líbia, leais ao governo, procura retomar territórios ocupados pelos insurgentes, incluindo o aeroporto nacional de Trípoli. Conflitos no sul da capital já deixaram mais de 3.400 desabrigados, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. A entidade condena o conflito e urge a Haftar para cessar a escalada da violência.

De uma maneira geral, a comunidade internacional permanece silente à questão. Pelo que vem sendo disseminado na mídia, grandes países ocidentais tomaram pouca atitude ou não se pronunciaram quanto ao tema. No dia 8 de abril, os EUA retiraram as tropas que possuíam estacionadas no país alegando razões de segurança. Segundo a CNN, o secretario de Estado, Mike Pompeo, afirmou que “não há solução militar para o conflito na Líbia”, conclamando autoridades líbias e internacionais a buscar mediações.

A deflagração do maior conflito no território líbio nos últimos anos ainda deve permanecer sob observação. O Conselho de Segurança das Nações Unidas deve reunir-se em breve para lidar com preocupações como a segurança da população, como isto afetaria o fornecimento de matérias-primas e uma possível nova crise de refugiados.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Crianças desabrigadas pelo Conflito na Líbia” (Fonte Twitter do Chefe da OCHA na Líbia, @NielScott): https://twitter.com/NielsScott/status/1115631522298642432

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Perspectivas da política externa iraquiana: desafios e oportunidades

O gabinete do governo iraquiano, que se sustenta pela maioria parlamentar garantida por meio da Aliança Nacional Iraquiana, congrega em seu interior interesses diversos, sobretudo em suas relações com grupos fora do Iraque. Por isso a política externa do país, mais do que um termômetro do equilíbrio interno, pode representar a coesão necessária para que os lados encarem os desafios que possuem após o fim dos combates com o Estado Islâmico, como reinserir Iraque na política regional, reconstruir a economia e superar os altos índices de desemprego, sobretudo entre jovens*. Estes problemas sociais, caso não superados, podem impactar profundamente nos avanços que o país experimentou recentemente.

O plano para a reconstrução do Iraque, que foi apresentado em conferência realizada em fevereiro de 2018 no Kuwait, requer um investimento de cerca de US$ 100 bilhões ao longo de dez anos (aproximadamente, 381,41 bilhões de reais, conforme a cotação de 14 de março de 2019). Como indicado em reportagem da Al-Jazeera, uma parcela significativa dos US$ 30 bilhões (próximos de 114,42 bilhões de reais, de acordo com a mesma cotação) que foram prometidos durante conferência proveio de países do Oriente Médio, como Turquia, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes e Arábia Saudita, mostrando que ganhar confiança dos próprios vizinhos será um desafio central para que o Iraque possa superar os entraves que se apresentam à sua estabilidade.

Enfrentar esta conjuntura depende diretamente da personalidade que tomará a frente na construção da política externa iraquiana. Até o momento, a figura do presidente Barham Salih tem sido mais relevante nesta área do que a do primeiro-ministro Adil Abdul-Mahdi. O Presidente, de origem curda, é tido como uma figura dinâmica e enérgica, o que lhe garante grande popularidade dentro e fora do Curdistão iraquiano. Salih, até o momento, tem se mostrado bom interlocutor para a maioria dos atores com os quais o Iraque busca estabelecer diálogo. O Presidente recebeu no dia 9 de janeiro de 2019 o Secretário de Estado estadunidense, Mike Pompeo, posteriormente encontrou-se com o chanceler iraniano Mohammed Zarif, e recepcionou o Presidente do Irã, Hassan Rouhani, no dia 11 de março. Segundo noticiado pelo Deustche Welle, o Presidente iraniano salientou na ocasião de sua visita que esta se tratava de um marco histórico na renovação das relações entre os países. O encontro também deu lugar à assinatura de acordos comerciais. Salih realizou também visitas a todos os países vizinhos, bem como discursou em eventos na Europa, onde encontrou-se com Chefes de Estado.

Presidente iraquiano proferindo conferência ‘Após o Daech, um novo Iraque’, no Instituto Francês de Relações Internacionais

O presidente Salih, mais do que o primeiro-ministro Abdul-Mahdi (político que é um interlocutor de preferência dos iranianos), representa tendência já sinalizada por outras forças políticas como Muqtad Al-Sadr, líder da coalizão Saairun (Avante), que conseguiu o maior número de assentos no Parlamento iraquiano no último pleito realizado em março de 2018. Conforme declarou Al-Sadr à reportagem do portal Bas News, o país necessita preservar boas relações com os Estados Unidos e o Irã, não promovendo, entretanto, espaço para ingerência de nenhum deles.

A projeção de interesses estratégicos de distintos países nos problemas internos é um efeito presente na vida política do Iraque desde a invasão pela Coalizão liderada pelos EUA, em 2003. O Presidente iraquiano ressaltou, em declaração oficial veiculada pela Presidência, a necessidade de uma mudança, e que o país pretende “deixar de ser a região onde conflitos são lutados” para ser “o local onde os interesses de nossos vizinhos convergem”. Um Presidente vindo do Curdistão pode constituir desde o princípio um recado forte de um Iraque coeso, com o necessário diálogo interno entre Bagdá e Erbil.

O Iraque atual acena para uma melhora da relação com demais vizinhos, estremecidas desde o período em que o regime de Saddam Hussein ainda estava no poder, há vários indicativos neste sentido, como o aumento das visitas e diálogo, ou a iniciativa de outros países da região em fornecer ajuda ao Iraque.

Coerente com tal perspectiva, o presidente Salih expressou, segundo a agência Reuters, uma postura enérgica frente às declarações de Donald Trump no dia 4 de fevereiro quanto ao uso da base dos Estados Unidos no Iraque para observar o Irã, alegando que preservar a relação do Iraque com a república islâmica é prioridade.

Salih posa para foto oficial junto a Hassan Rouhani, em primeira visita do mandatário iraniano ao Iraque

O reposicionamento do Iraque em sua política externa assinala, portanto, uma perspectiva multifacetada e de importância central, que refletirá diretamente a operacionalidade do governo iraquiano. Isto poderá ser um reflexo visível do equilíbrio interno da gestão, que busca afastar influências externas e tornar mais coeso o diálogo político entre grupos dentro do Iraque, em busca de estabilidade.

Conseguir a ajuda externa necessária à reconstrução do país irá requerer habilidade diplomática. Para que ele solucione suas crises deverá conquistar a confiança de outros atores, bem como para que possa retomar de maneira responsável e autônoma seu papel na dinâmica regional.

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Nota:

*A taxa de desemprego no país atingiu 11,2% em 2018, de acordo com o Banco Mundial ela é duas vezes maior nas regiões mais afetadas pela violência do Estado Islâmico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O presidente iraquiano, Barham Salih (esquerda) recebe em audiência o PrimeiroMinistro do país, Adil AbdulMahdih (direita) em seu gabinete”(Fonte: Twitter da Presidência da República do Iraque – @IraqiPresidency): https://pbs.twimg.com/media/DyEBVfQWwAADeWY.jpg:large

Imagem 2 Presidente iraquiano proferindo conferência Após o Daech, um novo Iraque’, no Instituto Francês de Relações Internacionais”(Fonte: Twitter da Presidência da República do Iraque @IraqiPresidency): https://pbs.twimg.com/media/D0aKOtQW0AILK4u.jpg:large

Imagem 3 Salih posa para foto oficial junto a Hassan Rouhani, em primeira visita do mandatário iraniano ao Iraque”(Fonte: Twitter da Presidência da República do Iraque @IraqiPresidency): https://pbs.twimg.com/media/D1YIxrRXQAIAmb9.jpg:large

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Protestos na Argélia

Desde o dia 22 de fevereiro de 2019, vem ocorrendo na Argélia inúmeras demonstrações de descontentamento contra o presidente Abdelaziz Bouteflika e o sistema político liderado em sua maioria por militares veteranos de guerra. Tais manifestações apareceram principalmente em resposta ao anúncio do líder, em 10 de fevereiro, de que concorreria ao seu quinto mandato durante as eleições de abril.

O líder octogenário, desde 1999 no poder, teve um papel fundamental durante a Guerra de Independência argelina (1962) e na promoção da reconciliação nacional após a guerra civil (1991-2002) entre o governo argelino e grupos rebeldes islâmicos. Porém, atualmente, encontra-se debilitado em função de um acidente vascular cerebral que sofreu no ano de 2013. 

Mesmo com as manifestações iniciais, Bouteflika formalizou sua candidatura no dia 4 de março, prometendo realizar, caso eleito, nova eleição na qual não se candidatará. Diante do cenário, os militares prometeram não deixar o país sofrer nova onda de violência e garantiram condições estáveis para a realização da eleição de 18 de abril.

No dia 8 de março de 2019, Dia Internacional da Mulher, mais de um milhão de pessoas  reuniram-se em protestos por todo país, aumentando ainda mais o número de adesão dos insatisfeitos, dentre os quais, desde o dia 26 de fevereiro de 2019 contavam com a presença de estudantes universitários e de uma grande participação feminina, em um país onde manifestações são proibidas. No dia 10 de março de 2019, domingo passado, após a convocação de greves, estudantes, incluindo os do ensino médio, e demais manifestantes retornaram novamente às ruas. Também houve protestos fora da Argélia, em Paris, na Praça da República, e na cidade de Marselha. Jornalistas, advogados e políticos de oposição aderiram à onda de descontentamento.

Dezenas de pessoas já foram detidas e foram reportados atos de violência policial, como, por exemplo, o lançamento de gás lacrimogênio contra a população. No entanto, apesar desses acontecimentos, não há, aparentemente, um interesse do governo em recrudescer a repressão.

Rachid Nekkaz

O Presidente viajou para a Suíça a fim realizar exames médicos de rotina no Hospital Universitário de Genebra, onde foi internado em 24 de fevereiro de 2019. Manifestações foram realizadas em frente ao hospital, e uma tentativa de invasão culminou na prisão de seu opositor político Rachid Nekkaz pelas autoridades suíças. Retornou, após duas semanas, em meio aos protestos do dia 10 de março.

A Argélia é um país cuja economia é dependente da produção de hidrocarbonetos. Obteve um bom período de programas de infraestrutura durante o momento de alta do preço da “commodity” nos anos 2004 a 2014, porém, com a queda dos preços do petróleo, o abalo na economia foi inevitável, resultando na redução de subsídios, o que causou altos índices de desemprego, principalmente entre a camada mais jovem da sociedade.

Durante a Primavera Árabe de 2011, reformas políticas e econômicas foram prometidas. No espectro político, houve mudanças parciais, todavia, em relação à economia, o que foi prometido não foi cumprido. Ademais, há grandes indícios de corrupção no governo e reclamações de autoritarismo, uma conjuntura que motiva a população nos dias de hoje contra o sistema político argelino como um todo, durante suas reivindicações nas ruas. O futuro ainda é nebuloso na Argélia, pois não se sabe quem poderá substituir Bouteflika e quais consequências os protestos poderão trazer.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Abdelaziz Bouteflika” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Abdelaziz_Bouteflika#/media/File:Abdelaziz_Bouteflika_casts_his_ballot_in_May_10th%27s_2012_legislative_election_(cropped).jpg

Imagem 2Rachid Nekkaz” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Rachid_Nekkaz#/media/File:Nekkaz_2014.jpg