NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Irã ameaça fechar estreito de Ormuz

Após a saída unilateral dos Estados Unidos do acordo nuclear iraniano, conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), governo Trump anunciou a aplicação de novas sanções ao país persa. Além disto, solicitou que nenhum aliado seu importe petróleo do Irã e pressionou os Estados do Golfo Árabe para aumentarem a produção de petróleo. O presidente iraniano Hassan Rouhani, em resposta, declarou na sua página oficial que “os estadunidenses têm apoiado sobre a completa paralização das exportações de petróleo iraniana. Mas eles não entendem o real significado dessa declaração porque não existe nenhum motivo para o petróleo iraniano não ser exportado, enquanto os outros países da região o fazem”, por isso também ameaçou fechar o Estreito de Ormuz.

Mapa do Estreito de Ormuz

A importância geoestratégica desta região é essencial para o equilíbrio do comércio de petróleo no mundo. O passo entre o Golfo Persa e o de Omã é responsável por cerca de 30% a 35% da exportação marítima do produto a todos os continentes. Aproximadamente 17 milhões de barris por dia atravessam o estreito. Embarcações do Iraque, Kuwait, Bahrein e Catar, bem como de alguns portos dos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita saem diariamente. Portanto, conforme reiteração do observador de mercado global de energia, Cyril Widdershoven, sendo a ameaça do governo de Rouhani um blefe ou não, inevitavelmente são gerados impactos e incertezas quanto a passagem segura dos barcos carregados de petróleo e gás natural.

De acordo com especialistas em Oriente Médio, o fechamento de Ormuz seria a última opção da administração Rouhani. Por um lado, a tentativa poderia causar um possível confronto entre Irã e Estados Unidos, além de provocar um rompimento com o Conselho de Cooperação do Golfo, que busca preservar a livre circulação de navios e cargueiros pelo estreito. Por outro lado, reduziria o seu poder de negociação nas tratativas de mitigação das sanções estadunidenses e afastaria a União Europeia, China e Índia da sua esfera estratégica de parceria. Ademais, caso os aliados norte-americanos suspendam suas importações de petróleo, o país reduziria a venda de cerca de 1 milhão de barris por dia (bpd). Atualmente, a exportação da commodity alcança 2,28 milhões/bpd, resultando em consideráveis perdas na sua receita.

Especialistas pelo mundo apontam que dificilmente o Irã irá obstruir a travessia no local, porém é possível que o Governo central utilize sua expertise em cyberwar* contra os aliados estadunidenses na região, podendo importunar suas frotas militares e embarcações de petróleo no Golfo Pérsico.

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Nota:

* Conhecida como Ciberguerra ou Guerra Cibernética, é uma modalidade de guerra na qual o conflito não ocorre com o uso de armas físicas, mas através da confrontação com meios eletrônicos e informáticos no chamado ciberespaço.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Hassan Rouhani reeleito nas eleições de 2013 (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Hassan_Rouhani#/media/File:Hassan_Rouhani_press_conference_after_his_election_as_president_14.jpg

Imagem 2 Mapa do Estreito de Ormuz(Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/92/Strait_of_Hormuz.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Possível impacto na economia turca das novas sanções impostas ao Irã

Após a saída dos Estados Unidos do Acordo Nuclear Iraniano, conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, comunicou a reinstituição de sanções ao Irã, enumerando uma lista de exigências a serem incluídas no Tratado sancionado pelo ex-presidente Barack Obama. Conforme afirmação de Pompeu, estas sanções serão as mais fortes de toda a história, caso o governo iraniano não aprove as demandas elencadas. E reiterou que “qualquer nação que coopere com o país persa será igualmente punida”.

Mapa com a localização geográfica dos dois países, Irã e Turquia

As sanções serão divididas em dois momentos, o primeiro pacote terá início dia 6 de agosto e o segundo dia 4 de novembro. Os setores mais afetados da economia iraniana serão o mineiro, o que inclui ouro e outros metais preciosos; a indústria petroleira e o mercado financeiro. No entanto, não será apenas o Irã o único ator abalado por tais medidas, pois diversos aliados ou parceiros comerciais estadunidenses, tais como a União Europeia, a China, a Índia, a Coreia do Sul e a Turquia, principais compradores de petróleo iraniano, terão de repensar suas estratégias comerciais.

Em 2012, volume de comércio entre Irã e turcos foi de US$ 22 bilhões, antes de cair para US$ 14 bilhões, em 2014, devido às sanções impostas pelos Estados Unidos. Estas atravancaram o pagamento das importações do aliado iraniano, principalmente petróleo, gás natural e plásticos, uma vez que o país persa estava isolado do sistema bancário internacional.

A adoção do JCPOA, em outubro de 2015, removeu as restrições anteriores entre Ancara e Teerã. Segundo o ex-embaixador iraniano na Turquia, Alizera Bigdeli, 174 empresas turcas já haviam aberto uma filial no Irã em janeiro de 2015, antecipando-se ao futuro acordo. Bigdeli afirma que “empresários e investidores turcos ficaram muito interessados ​​em aumentar sua presença no Irã”, e adiciona: “o comércio preferencial, usando moedas nacionais nas trocas comerciais, melhorando as condições nos postos fronteiriços e terminais, melhorando a cooperação financeira e monetária, alternando laços turísticos e aumentando os laços energéticos e de defesa devem ser adicionados à cooperação existente para seguir o caminho desejado”.

Apesar da empolgação de ambos países com a esperança no aumento do volume comercial, a realidade foi um pouco distinta. A primeira razão para tanto se deve ao fato das diferenças políticas e conflitos regionais na região, principalmente na Síria, Iraque e na região do Golfo. Além disso, a falta de transparência, ambiente legal inadequado e o controverso papel econômico de instituições como a Guarda Revolucionária do Irã dificultaram as relações nos setores de energia, manufatura e telecomunicações. Em decorrência, em 2016, o volume comercial reduziu-se a US$ 9,6 bilhões e, em 2017, recuperou-se levemente com US$ 10,7 bilhões.

Se por um lado alguns analistas acreditam que como a economia turca é mais diversificada, e seu mercado está mais globalizado, o impacto das futuras sanções impostas causará danos mínimos; por outro lado, os mais céticos asseguram que, uma vez entrando em vigor as sanções contra o petróleo iraniano, em novembro deste ano (2018), o governo turco terá de reduzir as importações do Irã, a fim de evitar punições dos Estados Unidos.

Entretanto, Ancara ainda depende muito do país vizinho para suprir suas necessidades de petróleo e gás. Em 2017, 44,6% do total de suprimentos de petróleo e 17% do total das importações de gás saíram do porto iraniano de Bandar-Abbas, o resto foi fornecido principalmente pelo Iraque, Rússia, Kuwait e Arábia Saudita. Estes países podem ser uma alternativa, frente ao cenário apresentado, porém os custos logísticos aumentariam, bem como o preço do petróleo, caso as sanções atinjam a produção iraniana.

A dependência turca pela importação de petróleo e gás afeta os indicadores macroeconômicos. O aumento dos preços globais do petróleo e o aumento da demanda doméstica por gás eleva o déficit em conta corrente e, consequentemente, a inflação, diminuindo o crescimento econômico e depreciando o valor da lira turca. Nesse sentido, Ancara precisará converter ainda mais liras para o dólar, com o intuito de pagar suas importações de energia.

Consciente do encadeamento que pode ser gerado, o Ministro da Economia da Turquia, Nihat Zeybekci, afirmou em entrevista aberta que “a Turquia continuará a fazer negócios com o Irã, seguindo as resoluções da ONU”. Contudo, se a União Europeia decidir apoiar e cumprir as sanções dos Estados Unidos, e caso o Irã renuncie ao acordo nuclear, os turcos terão pouca margem de manobra para enfrentar esta situação, pois se acredita que terá apenas a escolha entre dois caminhos a seguir: ou apoia os EUA e preserva sua aliança com eles, correndo possíveis riscos de sofrer impactos negativos na sua economia; ou mantém sua aliança com o Irã, tendo de buscar formas para resistir às prováveis punições.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Encontro do primeiro-ministro iraniano Mohammad Zarif e do exministro das relações exteriores turco Ahmed Davotoglu” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/bb/Mohammad_Javad_Zarif_and_Ahmed_Davuto%C4%9Flu.jpg

Imagem 2Mapa com a localização geográfica dos dois países, Irã e Turquia” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a9/Turkey_Iran_Locator.svg

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Criada coalizão parlamentar frente às incertezas no cenário interno iraquiano

Após serem realizadas as eleições parlamentares iraquianas no mês passado, no dia 12 de junho, em Najaf, ao sul de Bagdá, os líderes das coalizões vencedoras em primeiro e segundo lugar, respectivamente Muqtada al-Sadr, da coalizão Sairun (Marcha Avante), e Hadi al-Amiri, representante da Fatah (Conquista), comunicaram a impressa nacional e internacional o acordo firmado entre eles. Em conjunto, foram convidadas a fazerem parte as coalizões Hikma (Sabedoria), dirigida pelo clérigo xiita Ammar al-Hakim, e Al-Wataniya (Aliança Nacional do Iraque), liderada pelo atual vice-presidente Ayad Allawi.

Parlamento iraquiano

Este acordo coloca-os perto de possuir uma maioria capaz de formar o novo governo, uma vez que a Sairun tem 54 assentos, Fatah 47, Al-Wataniya 21 e Hikma 19, totalizando 141. No entanto, para compor a formação política são necessárias 165 cadeiras. Seguindo esta necessidade, a nova coalizão deve buscar outros aliados com o fim de alcançar seu objetivo.

No momento, já demonstraram interesse o Partido Democrático do Curdistão (KDP) e a União Patriótica do Curdistão (PUK). Ambos estão formando um grupo capaz de sentar-se à mesa e conversar sobre os seus futuros políticos. Respectivamente, cada um possui 25 e 19 assentos, sendo estes números necessários para a constituição do novo governo. Além dos dois maiores partidos curdos no Iraque, o ex-primeiro-ministro iraquiano Nour al-Maliki e seu grupo também podem unir-se a nova aliança.

Este cenário, segundo diversos analistas no tema, indica que o atual Primeiro-ministro do Iraque, Haider al-Abadi, que lidera a coalizão Nasr al-Iraq (Vitória do Iraque), será excluído e não terá força e apoio suficiente para opor-se a esta composição. Tendo pouca margem de manobra, o governo de al-Abadi tem reagido contra os resultados das eleições parlamentares alegando fraude no pleito e apoiando o Parlamento na autorização da recontagem manual dos votos.

Além disso, ele e sua equipe ministerial têm ido à mídia explicar-se sobre diversos ataques ocorridos nas últimas semanas em Bagdá. Os mais delicados foram a morte de 18 pessoas em uma explosão em um depósito de armas na Sadr City, reduto dos apoiadores de Muqtada al-Sadr, e a queima de um depósito em Bagdá, onde as urnas das eleições parlamentares estavam guardadas.

Apesar do acordo ter surpreendido muitas lideranças políticas locais, devido a algumas discordâncias entre al-Sadr e al-Amiri, o clérigo xiita afirmou que o objetivo da coalizão é constituir “uma verdadeira aliança para acelerar a formação de um governo nacional longe de qualquer dogmatismo”.

Se por um lado al-Sadr possui um discurso nacionalista, que abre as portas aos que estão na periferia social e política, e uma posição contrária a interferência estrangeira sobre a política local, principalmente dos Estados Unidos e Irã, em contrapartida, Al-Amiri é o principal aliado do Irã em solo iraquiano e possui apoiadores políticos aliados à grupos armados xiitas que, em conjunto com o Irã, ajudaram na vitória contra o Estados Islâmico no Iraque.

A composição com a coalizão Al-Wataniya e uma possível aliança com curdos do KDP e PUK confirmam o discurso do comunicado do dia 12. Com muitos membros sunitas no Parlamento, a Al-Wataniya torna-se um dos principais locutores deste grupo religioso na nova coalizão. Já a abertura de diálogos com os curdos demonstra uma ruptura de um impasse político histórico no Iraque entre os xiitas, sunitas e curdos.

Considerando o histórico das formações de coalizões políticas no Iraque e o momento atual, alguns analistas internacionais são céticos e desacreditam na possível mudança que estas aproximações podem brindar ao país. Conforme afirmou Andrew Parasiliti, da Rand Corporation, ao The National, “para aqueles que pensavam que as eleições iraquianas poderiam ter sido um revés para o Irã, é hora de pensar novamente. Apesar dos sinais positivos de coalizões e distritos eleitorais, as políticas em torno de um novo governo estão se tornando mais do mesmo. Quando o próximo governo iraquiano for anunciado, ele será abençoado pelo Irã”, disse Parasilti. O processo de formação do governo ainda não foi finalizado, a expectativa paira sobre quais serão os arranjos pactuados e quem fará oposição.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Apoiadores de alSadr comemorando a vitória nas eleições parlamentares” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Muqtada_al-Sadr#/media/File:The_joy_of_the_supporters_of_various_Iraqi_parties_after_the_parliamentary_elections_08.jpg

Imagem 2Parlamento iraquiano” (Fonte):

http://en.parliament.iq/wp-content/uploads/2017/09/%D8%AC%D9%84%D8%B3%D8%A7%D8%AA-%D8%A7%D9%84%D9%85%D8%AC%D9%84%D8%B3.jpg

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Protestos na Jordânia

Dias consecutivos de protestos têm ocorrido na Jordânia, em sua capital e diversas outras cidades*. As manifestações, que se iniciaram no dia 30 de maio de 2018, continham demandas contra o projeto da nova Lei tributária feita pelo poder Executivo, adequada às medidas de austeridade do Fundo Monetário Internacional (FMI), contra o aumento de preços e requerendo a demissão do Primeiro-Ministro.

Os manifestantes afirmavam que a nova lei prejudicará a classe média e as classes mais baixas do país. O Projeto de Lei de imposto de renda previa o aumento do número de contribuintes, reduzindo o limite de renda exigido para o pagamento do tributo. Com isso, haveria tributação de proventos de classes mais modestas, as quais não eram antes alcançadas pelo fisco.

Rei Abdullah II em 2011

A organização dos protestos tem sido feita por um grupo independente chamando “Hirak Shababi” (Movimento Jovem) e por 33 associações profissionais em conjunto com grupos da sociedade civil**. Somaram-se demandas adicionais, como mudanças nas políticas governamentais, reintrodução de subsídios no preço do pão e de combustíveis, redução de preços e aumento do salário mínimo.

No domingo, 3 de junho de 2018, após o fracasso da negociação entre o governo e representantes dos sindicatos, cerca de 3.000 pessoas reuniram-se perto do gabinete do Primeiro-Ministro, localizado no centro de Amã. Forças de segurança e manifestantes entraram em confronto, que resultou em algumas detenções e policiais feridos.

No dia 4 de junho de 2018, o primeiro-ministro Hani Mulki, cujo mandato iniciou-se em 2016, pediu sua renúncia, a qual foi aceita pelo Rei Abdullah II durante uma reunião. O Monarca providenciou a convocação do ex-economista do Banco Mundial, Omar Al Razzaz, para formar um novo governo. Todavia, os protestos continuaram.

No dia 7 de junho de 2018, o governo anunciou que iria revogar a nova Lei tributária. O novo Primeiro-Ministro indicado, Omar Al Razzaz, que assumiu o cargo prontamente, afirmou que a decisão foi tomada em conjunto com as duas Casas do Parlamento.

O novo governo, porém, deverá lidar com a mesma conjuntura econômica, um déficit público altíssimo***, acompanhado de 3 anos de linha de crédito do FMI, aprovada em 2016, que necessitarão de reformas estruturais na economia.

A Jordânia é um país que depende muito de ajuda externa, empréstimos e doações. O Conselho de Cooperação do Golfo, em especial os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita deverão oferecer incentivos ao país. No dia 10 de junho, uma reunião entre Arábia Saudita, EAU, Kuwait e Jordânia será realizada para debater o apoio à economia jordaniana, a fim de cessar a crise na qual está submersa.

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Nota:

* Houve protestos nas cidades de Amã, Zarqa, Balqa, Maan, Karak, Mafraq, Inbid e Jerash

** Dentre os grupos, inclui-se a Associação dos Engenheiros Jordanianos e o Sindicato dos Professores. Perfazem o maior número de associados do país, com aproximadamente 300.000 pessoas.

*** Dados da economia jordaniana: https://tradingeconomics.com/jordan/government-debt-to-gdp

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeira da Jordânia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jordânia#/media/File:Flag_of_Jordan.svg

Imagem 2Rei Abdullah II em 2011” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Abdullah_II_da_Jordânia#/media/File:King_Abdullah_of_Jordan_(6436574483).jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Eleição parlamentar no Iraque levanta a bandeira do secularismo

No dia 12 de maio foram realizadas as eleições parlamentares no Iraque. Haviam sido registrados cerca de 7.000 candidatos, divididos em 80 listas, os quais disputavam 329 cadeiras.

Dentre as coalizões, destacam-se a do atual Primeiro-Ministro iraquiano, Haider al-Abadi, quem encabeça a aliança Nasr al-Iraq (Vitória do Iraque). O nome faz jus a vitória do governo de al-Abadi sobre o Estado Islâmico em dezembro de 2017. Predecessor de al-Abadi, ex-aliado partidário e atualmente rival, Nour al-Maliki, lidera a coalizão Dawlat al-Qanun (Estado da Lei). Já o líder da Organização Badr, Hadi al-Amiri, comanda a coalizão Fatah (Conquista). Por outro lado, o clérigo xiita e líder do Movimento Sadrista, Moqtada al-Sadr, criou um novo partido chamado Istiqama (Integridade), o qual compõe a coalizão Sairun (Marcha Avante). E, finalmente, a coalizão Hikma (Sabedoria) que é dirigida pelo clérigo Ammar al-Hakim.

As coalizões acima descritas são de maioria xiita, no entanto, havia listas de coalizões de curdos e sunitas, tais como, respectivamente, a União Patriótica do Curdistão (PUK) e Qarar al-Iraqi (Aliança Decisão Iraquiana).

Apesar de apenas 44,5% dos eleitores terem comparecido às urnas, a vitória foi dada à coalizão Sairun, seguida pela Fatah e pela coalizão do atual Primeiro-Ministro, al-Abadi.

Presença dos curdos no Oriente Médio

Se por um lado a confiança da reeleição de al-Abadi se devia ao fato do êxito gerado pelas medidas tomadas pelo seu governo após a realização do Referendum* curdo e pela vitória do exército iraquiano contra o Estados Islâmico, por outro lado, al-Abadi havia conseguido recuperar uma fração da economia iraquiana e reduzir o número de ataques contra o país, principalmente em Bagdá. No entanto, tais conquistas permaneceram abaixo do desempenho esperado pela população, uma vez que não foram cumpridas as promessas de melhora da economia em algumas regiões do Iraque, bem como da segurança interna. A corrupção institucionalizada permanece e a insatisfação pelos serviços públicos prestados eram evidenciados nos protestos realizados nos últimos meses antes da eleição.

O resultado do pleito e, principalmente, da abstenção dos eleitores é consequência de um descontentamento arrastado por anos de promessas não cumpridas, de uma etno-sectarização política e de índices de pobreza e analfabetismo. Uma parcela dos iraquianos que possuía alguma esperança política confiou nas propostas de al-Sadr. Muito próximo das camadas mais marginalizadas da sociedade, o clérigo possui como bandeiras: a construção de políticas públicas para redução da pobreza no país e uma busca pela secularização política. O segundo objetivo proposto é confirmado pelas alianças políticas internas, formando uma coalizão com o Partido Comunista Iraquiano e com grupos ativistas a favor do secularismo; e alianças externas, aproximando-se da Arábia Saudita e buscando evitar uma influência direta do Irã na coalizão, apesar de o clérigo ser xiita.

Como pode ser depreendido de apontamentos que vem sendo disseminados na mídia, os quais são realizados por observadores e analistas internacionais, o apoio popular à coalizão é um pilar importante para a construção de um sistema político contrário ao proposto desde então e, ao mesmo tempo, é uma ameaça à classe política tradicional iraquiana adepta a etno-sectarização que, por um lado, fortaleceu alianças políticas e estratégicas no pós-invasão norte-americana e, por outro lado, dilatou ainda mais a desigualdade social existente. Nesse sentido, seguindo esta lógica, uma aliança entre as diversas coalizões que conquistaram cadeiras na Assembleia Nacional é primordial para a reconstrução política, econômica e social do Iraque.

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Nota:

* O povo curdo está espalhado por Armênia, Iraque, Irã, Turquia e Síria. No caso do Referendum realizado no Iraque, eles buscam a sua independência do país e unificação com outras regiões do Oriente Médio habitadas por curdos, com o propósito de criar o Curdistão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Vitória da Coalizão Sairun” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2015_Venezuela–Colombia_migrant_crisis_collage.jpg

Imagem 2Presença dos curdos no Oriente Médio” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Curdos#/media/File:Kurdish-inhabited_area_by_CIA_(1992).jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Príncipe William faz visita histórica a Israel, Jordânia e Palestina

No dia 24 de junho de 2018, o Príncipe William, Duque de Cambridge, fará uma visita oficial a três países do Oriente Médio, a primeira de um membro da família real a Israel, atendendo ao pedido feito pela Rainha Elizabeth II.

 A visita formal possui grande significado para o Estado israelense e sua população, pois será realizada no 70º aniversário do país, um ano após o centenário da Declaração Balfour, que foi uma garantia do apoio britânico ao estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu na Palestina, e no contexto da decisão do governo Trump quanto à abertura da Embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém.

Benjamin Netanyahu

Seu pai e avô já estiveram em Israel, mas não oficialmente. O Príncipe Charles atendeu ao funeral do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em 1995, e do ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente, Shimon Peres, em 2016; e o Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, compareceu a uma cerimônia no Yad Vashem, em outubro de 1994. Sua mãe, Princesa Alice de Battenberg foi homenageada por ter escondido judeus em seu palácio durante a ocupação nazista na Grécia. Seu túmulo encontra-se na igreja de Santa Maria Madalena no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, e foi visitado pelo Duque de Edimburgo e, discretamente, pelo Príncipe Charles.

A visita dar-se-á em um contexto de extrema tensão entre Israel e os palestinos de Gaza. Confrontos têm ocorrido ao longo da cerca fronteiriça de Gaza e Israel, desde o mês de abril de 2008, por força da denominada “Grande Marcha do Retorno”. No dia 29 de maio de 2018, foguetes foram lançados a partir de Gaza, ferindo três soldados israelenses e atingindo uma escola infantil.

Esta é uma visita histórica, a primeira do tipo, e nós iremos recebê-lo aqui com grande afeição” afirmou o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sobre a visita real.

Hanan Ashrawi, membro do Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) declarou: “Príncipe William, que aceitou um convite do presidente palestino Mahmoud Abbas, será um convidado bem-vindo, não somente pela sua liderança, mas também o povo palestino vai proporcioná-lo a oportunidade de compartilhar sua história e fazer uma conexão em um nível humano”. E acrescentou: “Essa viagem servirá também para reforçar as relações diplomáticas e culturais entre sua Alteza Real e o povo da Palestina”. A viagem iniciará em Amman, capital da Jordânia, passando por Jerash, Tel Aviv e Ramallah, com duração até o dia 28 de junho de 2018.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Guilherme, Duque de Cambridge” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme,_Duque_de_Cambridge#/media/File:Prince_William_February_2015.jpg

Imagem 2Benjamin Netanyahu” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Netanyahu#/media/File:Benjamin_Netanyahu_2012.jpg