AMÉRICA DO NORTEÁSIANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A Arábia Saudita entre a China e os Estados Unidos

As relações bilaterais entre China e Arábia Saudita apresentaram sinais de aproximação ao longo do mês de novembro de 2017. No dia 11, o periódico vinculado ao Partido Comunista Chinês (PCC), Global Times, publicou editorial elogiando as reformas econômicas anunciadas pelo Príncipe Mohammed Bin Salman. Além disso, a publicação enalteceu a inflexão na política externa da monarquia islâmica: “os sauditas abandonaram a tradição de alinhamento com os Estados Unidos e contra a Rússia. O Rei Salman visitou Moscou pela primeira vez no mês passado para fortalecer a relação entre as duas nações”.

O Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, e Vladmir Putin, Presidente da Rússia

Posteriormente, no dia 16, a agência oficial do Governo chinês reportou que o Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, telefonou para o Presidente da China, Xi Jinping, para congratulá-lo pela realização do 19º Congresso do Partido Comunista Chinês. Na ocasião, o Monarca declarou que seu país está pronto para se tornar um importante parceiro da China na região do Golfo, bem como está comprometido em aprofundar a parceria estratégica entre as duas nações. Xi Jinping, por sua vez, afirmou que a China apoia os esforços da Arábia Saudita para proteger sua soberania nacional e se desenvolver.

Nota-se que a aproximação entre Beijing e Riad ocorre em uma conjuntura de reorganização do poder político interno em ambos os países. No caso chinês, analistas percebem que a concretização da Iniciativa do Cinturão e da Rota e a consolidação da autoridade de Xi Jinping após o 19º Congresso do PCC indicam que a nação asiática se considera pronta para assumir a liderança do processo de globalização nos próximos anos.

No âmbito saudita, observa-se que o Rei Salman centralizou sua autoridade após a escalada de tensões entre facções opositoras as atuais diretrizes políticas do país. Além disso, o Príncipe e Conselheiro de Assuntos Econômicos e Desenvolvimento, Mohammad bin Salman bin Abdulaziz Al-Saud, anunciou contundente conjunto de reformas, visando reduzir a dependência econômica do reino em relação às exportações de petróleo.

Nesse contexto, é importante lembrar que a aliança com a Arábia Saudita é peça central da estratégia econômica e política dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial. Por um lado, o compromisso assumido pelo Governo saudita de negociar todas suas exportações de petróleo na moeda norte-americana em 1974 continua basilar para a manutenção do dólar como meio de troca predominante na economia mundial. Por outro, o apoio da Monarquia islâmica é militarmente estratégico para os EUA serem capazes de enfrentar a expansão dos interesses de países rivais no Oriente Médio.

Por conta disso, a perspectiva de aprofundamento da cooperação estratégica entre Beijing e Riad constitui elemento fundamental para a compreensão do futuro da ordem internacional contemporânea. Em outras palavras, a inclinação política da Arábia Saudita é indicador importante acerca da correlação de forças entre EUA e China.

Do ponto de vista chinês, boas relações com Riad asseguram os recursos energéticos necessários para manutenção das altas taxas de crescimento econômico, enraízam a influencia do país asiático no Oriente Médio e permitem o avanço da estratégia de internacionalização da moeda chinesa (yuan). Em relação ao último ponto, Carl Weinberg, economista chefe da consultoria High Frequence Economics, considera que “a precificação do petróleo em yuan acontecerá assim que os sauditas estiverem de acordo. A partir de então, o resto do mercado irá segui-los”.

Arábia Saudita e China

Na perspectiva saudita, os dividendos de uma aproximação com a China estão relacionados com a obtenção de maior autonomia em relação aos Estados Unidos, bem com a atração de capital externo para execução das reformas econômicas pretendidas. Exemplos de iniciativas nesse sentido já podem ser identificados. Apenas entre março e agosto de 2017, os dois países anunciaram acordos equivalentes a 70 bilhões de dólares e a criação de um fundo conjunto de investimentos de 20 bilhões de dólares. Ademais, caso seja confirmada a abertura das ações da petroleira saudita Aramco, as estatais chinesas Sinopec e PetroChina já anunciaram o interesse na aquisição de 5% do negócio.

No entanto, nota-se que a Arábia Saudita ainda depende dos Estados Unidos no âmbito securitário. Atualmente, a monarquia está diretamente envolvida com o acirramento dos conflitos com Irã, Iêmen e Qatar. Assim, em junho deste ano (2017), o presidente estadunidense Donald Trump negociou acordos estimados em 100 bilhões de dólares para venda de equipamentos militares de alta tecnologia para as Forças Armadas Sauditas.   

Portanto, percebe-se que o aprofundamento das relações entre China e Arábia Saudita possui implicações importantes para a política internacional contemporânea. De fato, caso a exportação do petróleo saudita em yuan se torne uma realidade, o próprio status do dólar enquanto moeda predominante na economia mundial estará ameaçado. No entanto, tal iniciativa encontra como obstáculo principal a dependência de Riad em relação ao apoio militar de Washington para execução de sua política de defesa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Salman_of_Saudi_Arabia#/media/File:Salman_bin_Abdull_aziz_December_9,_2013.jpg

Imagem 2O Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, e Vladmir Putin, Presidente da Rússia” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_and_Salman_of_Saudi_Arabia_(2017-10-05)_1.jpg

Imagem 3Arábia Saudita e China” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/cc/China_Saudi_Arabia_Locator_%28orthographic_projection%29.png/600px-China_Saudi_Arabia_Locator_%28orthographic_projection%29.png

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Coalizão árabe contra a Milícia Houthi no Iêmen

As relações diplomáticas entre a Arábia Saudita e o Irã têm se degenerado durante as últimas semanas, devido ao conflito armado que vem se desenvolvendo no Iêmen – pequeno país ao sul da Península Arábica que ocupa posição estratégica por situar-se no Golfo de Bab el Mandeb, o qual separa a Ásia da África. A situação política no Iêmen tem apresentado crescente instabilidade em razão das ações políticas da milícia Ansar Allah*, popularmente conhecida por Houthis (em referência ao nome de seus líderes, os irmãos al-Houthi).

Este grupo rebelde, oriundo do norte do país e composto por muçulmanos xiitas zaiditas, constitui-se de uma minoria religiosa que luta principalmente pela manutenção e reconhecimento de sua própria comunidade, bem como contra a discriminação por parte do Governo iemenita. Nesse país de maioria muçulmana sunita, as reivindicações houthis costumeiramente têm chegado à confrontos armados, ampliando-se assim a lacuna religiosa entre xiitas e sunitas claramente observada naquele Estado.

Pelo que se pode perceber, ao considerar pelas informações difundidas pelos principais veículos de mídia internacionais, a situação apresentou-se oportuna ao Irã para prosseguir em sua agenda junto ao Oriente Médio, visando consolidar-se como a principal potência naquela região. Assim, o Irã, importante nação islâmica xiita, acabou por se valer dessa condição para apoiar econômica e militarmente a Milícia Houthi, a qual tem sido responsável por inúmeros ataques armados contra o governo do Iêmen, fato que fez com que diversos governos classificassem os Houthi como uma organização terrorista. Em contrapartida, a Arábia Saudita, potência islâmica sunita, postou-se em defesa dos governantes iemenitas, dado o alinhamento religioso e cultural dessas nações fronteiriças.

Rei da Arábia Saudita encontra-se com o Secretário de Estado norte-americano em 2015 para discutir sobre a coalizão árabe contra o Iêmen

A escalada da violência na região motivou diversos países árabes a formar uma coalizão com a finalidade de combater a mencionada milícia, em defesa justamente da Arábia Saudita. Entretanto, é importante entender que essa coalizão não se destina a lutar especificamente contra aquele grupo, mas sim conter as ações do Irã, que, na realidade, tem se valido dos Houthi como um meio para ampliar suas ações, dentro daquilo que se convencionou denominar “guerra por procuração”.

Nessa lógica, o Irã atua de forma beligerante contra outros países sem ter que formalmente assumir tal condição, evitando quaisquer tipos de sanções diante da comunidade internacional por não assumir a autoria ou sequer a responsabilidade por ataques armados realizados por terceiros, ainda que obviamente atendam aos seus interesses. Enxergando-se a questão de um diferente prisma, verifica-se que a violência no Iêmen representa, em essência, um conflito entre Irã e Arábia Saudita, a exemplo das acusações direcionadas ao Governo iraniano quando do lançamento de um míssil contra a capital saudita que partiu do grupo Ansar Allah.

A formação da referida coalizão árabe contra o Irã – vale lembrar que este país, ainda que islâmico, não é árabe, e sim persa – aponta para a possibilidade de um maior envolvimento iraniano a médio prazo, caso suas capacidades militares venham a ser prejudicadas, ou sua influência política não atinja os resultados esperados. Vale notar ainda que a formação de tal coalizão árabe, por contar com a liderança saudita e, principalmente, por tratar da defesa deste país, conta obrigatoriamente com a intervenção norte-americana, ainda que indiretamente, uma vez que o Governo saudita é o maior aliado do Governo norte-americano no Oriente Médio.

O resultado desse xadrez geopolítico, intrincado como de praxe naquela região, acaba por indicar a contraposição de interesses iranianos e norte-americanos, que já vêm sendo manifestados abertamente pelos seus representantes nos últimos meses.

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Nota:

* Do árabe, “partidários de Deus”.

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Fontes das Imagens:                                                                                                                

Imagem 1 Presidente iemenita encontrase com o Secretário de Estado norteamericano na capital saudita, em 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Abdrabbuh_Mansur_Hadi#/media/File:Secretary_Kerry_Shakes_Hands_With_Yemeni_President_Hadi_Before_Bilateral_Meeting_in_Saudi_Arabia_(17212641020).jpg

Imagem 2 Hassan Rouhani, presidente reeleito do Irã” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/President_of_Iran#/media/File:Hassan_Rouhani.jpg

Imagem 3 Rei da Arábia Saudita encontrase com o Secretário de Estado norteamericano em 2015 para discutir sobre a coalizão árabe contra o Iêmen” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Saudi_Arabian-led_intervention_in_Yemen#/media/File:Secretary_Kerry_Sits_With_Saudi_King_Salman,_Foreign_Minister_al-Jubeir_Before_Bilateral_Meeting_in_Washington_(21148062001).jpg

                                                  

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Prisão de Príncipes Sauditas muda cenário no Oriente Médio

No último domingo, 5 de novembro, o Governo da Arábia Saudita noticiou a prisão de onze Príncipes que ocupavam alguns dos cargos mais proeminentes do país, os quais teriam incorrido em corrupção em seus respectivos cargos públicos. Além deles, dezenas de outras eminentes figuras sauditas também foram detidas pelo mesmo motivo, incluindo antigos e atuais Ministros de Estado.

É importante notar que as mencionadas prisões se deram somente algumas horas após o Chefe de Polícia saudita ter sido destituído do cargo – o que permite acreditar que a força policial, de alguma forma, teria deixado de atuar, em desfavor de alguns dos detidos. Entretanto, a situação no Estado Saudita ainda é nebulosa, já que há discordância entre veículos de mídia internacionais ao noticiar o motivo das prisões.

Ministro da Defesa saudita e Secretário de Defesa norte-americano no Pentágono, em 2015

Assim, enquanto que alguns órgãos noticiaram que não havia acusações formais, ou processo jurídico que investigasse casos de corrupção envolvendo os mencionados príncipes e ministros – tendo a ordem de prisão sido emanada pelo príncipe Mohammed bin Salman –, outros órgãos mencionam que, ao surgirem provas referentes a antigas investigações a respeito de mau uso de verbas públicas, estabeleceu-se uma comissão anticorrupção na noite de sábado – algumas horas antes do início dos aprisionamentos –, criando-se, assim, embasamento para as detenções em tela.

Esta discrepância entre agências expõe a falta de transparência sobre os assuntos de Estado da Arábia Saudita, cuja Monarquia Absoluta não se atém aos mesmos valores de Estados democráticos. Destarte, o Monarca, ao acumular os poderes judiciário, executivo e legislativo em si próprio, acaba por ter condições legais de determinar prisões como aquelas ora mencionadas. Nesse sentido, ainda que se possa questionar a legitimidade das ordens de prisão, não há o que se falar quanto à legalidade desses atos, em se tratando de incumbência de representantes da Monarquia Saudita.

No campo econômico, podem-se prever problemas para algumas empresas internacionais norte-americanas, como Twitter, Apple e Four Seasons, uma vez que um dos príncipes presos, Alwaleed bin Talal, não só investe em companhias globais, como é um dos responsáveis por atrair corporações desse porte a investirem na Arábia Saudita. O poder econômico deste país, tido como o maior aliado norte-americano no Oriente Médio, certamente será levado em consideração por parte da direção das empresas prejudicadas.

O atual Governo dos Estados Unidos vem deixando claro seus interesses junto aos sauditas, tendo, inclusive, três conselheiros da Casa Branca comparecido a reuniões de alto-escalão naquele país. Tal situação demonstra que o governo Trump deve acompanhar de perto o desenrolar dos fatos no país árabe, em razão das consequências comerciais e econômicas envolvendo ambas as partes.

Já se observam consequências também na área da segurança, cuja cúpula também foi atingida pela onda de prisões de domingo. Nesse mesmo dia, unidades de defesa aérea sauditas interceptaram um míssil direcionado à capital, Riad, proveniente do Iêmen, e que teria sido lançado pela milícia Houthi. Em decorrência disso, o Governo saudita acusou esta milícia de promover uma “perigosa escalada na violência devido ao apoio iraniano”.

Percebe-se, assim, que forças xiitas – apoiadas pelo Irã – prontamente tentaram tirar proveito da momentânea debilidade nas defesas do Estado Saudita, principal força sunita no Oriente Médio, em sua conhecida agenda para se tornar a principal potência regional.

Fica evidente, portanto, que as consequências advindas das alterações no alto escalão do Governo da Arábia Saudita não tardaram para se observar, e podem ser mais graves do que imaginado inicialmente. Além disso, o equilíbrio de forças no Oriente Médio se desequilibra uma vez mais, tornando claro que Arábia Saudita e Irã, maiores representantes do sunismo e do xiismo islâmicos, respectivamente, continuam a se valer da política de empregar terceiros para dar sequência às suas campanhas visando a supremacia militar e econômica regional.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/House_of_Saud#/media/File:Prince_Salman_bin_Abd_al-Aziz_Al_Saud_at_the_Pentagon_April_2012.jpg

Imagem 2 Ministro da Defesa saudita e Secretário de Defesa norteamericano no Pentágono, em 2015” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/House_of_Saud#/media/File:U.S.Defense_Secretary_Ash_Carter_places_his_hand_over_his_heart_as_the_national_anthem_plays_during_an_honor_cordon_to_welcome_Saudi_Defense_Minister_Mohammed_bin_Salman_Al_Saud_to_the_Pentagon,_May_13,_2015_150513-D-NI589-527c.jpg

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Presidente do Curdistão Iraquiano deixará o poder

Nas últimas semanas o mundo assistiu a duas importantes tentativas de proclamação de independência: o caso da Catalunha, a qual vem tentando se separar da Espanha e ser reconhecida como um Estado independente; e o caso do Curdistão iraquiano, que busca sua independência em relação ao Iraque. Assim como na Catalunha, o Governo do Curdistão iraquiano promoveu consulta popular quanto a eventual independência, utilizando-se das vias legais para tanto – no caso, realizou-se um Referendo, o qual foi aprovado por ampla maioria não só da população da região citada, mas também pelos habitantes de outras regiões autônomas do Iraque.

Al-Abadi cumprimenta Donald Trump na Casa Branca

Entretanto, apesar de a consulta popular ter conferido ao movimento independentista curdo suposta legitimidade, as aspirações curdas contrariam o ordenamento jurídico iraquiano, de forma que o Governo central prontamente tomou providências a respeito. Assim, o Exército iraquiano avançou sobre os principais campos petrolíferos e outros pontos vitais do Curdistão, superando as forças Peshmerga e impossibilitando que o movimento pela independência avançasse.

Tal cenário não só expôs a fraqueza do Governo curdo – que não contou com o apoio e reconhecimento internacional, como previam – como também enfraqueceu politicamente Masoud Barzani, Presidente da região autônoma curda do Iraque, que deverá deixar o cargo em 1º de novembro. Na realidade, essa data não marcará somente a queda de Barzani, mas também o fim do sonho curdo pela independência do Iraque, desejo manifestado por muitos há décadas. Importante questão é o fato de que Barzani está no poder desde 2005, pouco após Saddam Hussein ter sido deposto pela coalizão britânico-americana responsável pela intervenção no Iraque, em 2003.

Por isso, o Presidente do Curdistão iraquiano não só se tornou em uma das principais figuras políticas do Iraque – permanecendo no poder por um período maior até do que figuras relevantes do Governo central daquele país, ainda que em condições legalmente questionáveis – mas também sempre contou com o apoio norte-americano em seu território, e foi prestigiado internacionalmente como o responsável pelo florescimento econômico de sua província em meio ao caos que assola praticamente todo o país, em razão da supracitada intervenção.

Novamente, considerando a questão curdo-iraquiana em relação ao caso catalão, nota-se que os governos centrais adotaram abordagens bastante diferentes entre si, ainda que os casos sejam muito semelhantes. Enquanto que o Primeiro-Ministro espanhol, Mariano Rajoy, se limitou a adotar medidas legais para impedir o prosseguimento do processo de independência de uma de suas regiões autônomas, o primeiro-ministro iraquiano Haider Al-Abadi não hesitou em lançar mão de suas Forças Armadas para sufocar econômica e militarmente o movimento liderado por Barzani.

Ademais, embargos aéreos e econômicos internacionais também colaboram para com o fracasso da independência curda, graças à maior força e ao reconhecimento formal do Estado Iraquiano junto à comunidade internacional. Notadamente, o método adotado por Al-Abadi provou ser mais célere. Contudo, por ter se valido da força para impedir a divisão do país, tais medidas têm sido questionadas por diversas entidades internacionais, considerando-se que poderia ter havido maiores negociações com os representantes curdos para tal.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestação pró-independência curda no Iraque” (Fonte):

http://www.gettyimages.com/license/865503336

Imagem 2 AlAbadi cumprimenta Donald Trump na Casa Branca” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Haider_al-Abadi#/media/File:Donald_Trump_greets_Iraqi_Prime_Minister_Haider_al-Abadi,_March_2017.jpg

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Governo dos EUA promove a descertificação do Acordo Nuclear com Irã

O Presidente dos EUA, Donald Trump, confirmou na última semana que o acordo multilateral para desnuclearização do Irã, denominado Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA, na sigla em inglês), não terá sua certificação renovada. Ele havia sido assinado em julho de 2015 por Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, China, Rússia e pelo próprio Irã.

O compliance* exigido pelo estadunidense não é parte do JCPOA, contudo, em virtude de uma lei promulgada no Capitólio, impõe-se a necessidade de avaliação de conformidade a cada 90 dias.

Acordo nuclear do Irã. Acordo em Viena. Da esquerda para a direita, ministros estrangeiros: secretários de estado Wang Yi (China), Laurent Fabius (França), Frank-Walter Steinmeier (Alemanha), Federica Mogherini (UE), Mohammad Javad Zarif (Irã), Philip Hammond (Reino Unido), John Kerry (EUA)

Com a medida, Trump deixa clara sua oposição aos termos negociados em conjunto com outras nações e abre precedente para reintrodução das sanções que foram removidas como parte dos esforços em controlar o programa nuclear iraniano.

Caberá ao Congresso estadunidense avaliar a iniciativa do Presidente no prazo de 60 dias.

Dentro desse período, há a possibilidade de reinserção de algumas, ou todas as sanções suspensas, o que especialistas e altos funcionários dos EUA creem como improvável. Em paralelo, existe a tendência de novas sanções que poderiam apontar para a Guarda Revolucionária Islâmica, por conta de seu papel ativo na guerra civil síria.

Para Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations, uma vez que os EUA adotem novas sanções, seu posicionamento será unilateral, pois Europa, China e Rússia interpretam os termos negociados em 2015 como em conformidade com o JCPOA.

Na Europa, os argumentos de Trump foram ignorados quando os europeus afirmaram comprometimento com Teerã, postura similar também adotada em outras circunstâncias, como no Acordo do Clima de Paris e na formatação do bloco comercial transpacífico (TPP, na sigla em inglês, decorrente de Trans-Pacific Partnership).

Signatários da certificação iraniana, Rússia e China demonstram preocupação quanto à capacidade dos EUA de manterem compromissos anteriores, assim como de serem parceiros confiáveis para negociação.

Segundo Ehud Barak, Primeiro-Ministro de Israel no período de 1999 a 2001 e Ministro da Defesa de 2009 a 2013, a negativa estadunidense na certificação do programa nuclear iraniano é “um erro grave”.

Para o ex-Premiê israelense, o risco imediato é Teerã relançar seu programa de armas nucleares, o que faria nações como Egito, Arábia Saudita e Turquia iniciarem um processo de desenvolvimento da capacidade nuclear para fins bélicos o que impactaria diretamente no status quo de uma região já volátil.

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Nota:

* Compliance: “Termo cunhado para designar um conjunto de disciplinas que tem como objetivo examinar o cumprimento das normas legais e regulamentares. No caso do Programa Nuclear Iraniano, o compliance ao qual o texto se refere remete ao exame sobre o cumprimento das políticas e diretrizes para a manutenção do acordo, verificando e tratando eventuais desvios e inconformidades”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente Trump em Springfield, Missouri” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Presidency_of_Donald_Trump#/media/File:President_Donald_J._Trump%E2%80%99s_Visit_to_Springfield,_Missouri.jpg

Imagem 2Acordo nuclear do Irã. Acordo em Viena. Da esquerda para a direita, ministros estrangeiros: secretários de estado Wang Yi (China), Laurent Fabius (França), FrankWalter Steinmeier (Alemanha), Federica Mogherini (UE), Mohammad Javad Zarif (Irã), Philip Hammond (Reino Unido), John Kerry (EUA)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Plano_de_Ação_Conjunto_Global#/media/File:Iran_Talks_Vienna_14_July_2015_(19067069963).jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Forças Sírias retomam maior campo petrolífero do Estado Islâmico

A retomada da cidade iraquiana de Mosul, há algumas semanas, foi uma importante conquista para a coalizão internacional que luta contra o Estado Islâmico (EI) no Oriente Médio. Desde então, essa união de forças militares, encabeçada pelos Estados Unidos, tem mantido sua estratégia conjunta para continuar a derrotar o grupo terrorista em diversas cidades em que ainda exerce pleno controle.

No caso da Síria, têm-se verificado esforços no mesmo sentido. Neste domingo, a mencionada coalizão logrou retomar não uma cidade, mas o campo petrolífero Al-Omar, o mais importante daquele país. Este complexo, cuja produção é estimada em cerca de 9 mil barris diários, fica próximo à fronteira iraquiana e encontrava-se sob domínio de terroristas desde 2013, sendo considerada uma das principais fontes de recursos dos EI. As tropas sírias responsáveis pela reconquista de Al-Omar, que contaram com apoio aéreo norte-americano, não se tratam do Exército Sírio regular, ou seja, não são forças do presidente Bashar Al-Assad, mas sim das Forças Democráticas Sírias, posicionadas contra o atual Presidente.

Veículo das Forças Democráticas Sírias em operação em 2017

Outra importante característica desta força militar é o fato de ser liderada por curdos, o que denota a exploração das diferenças étnicas existentes dentro da própria Síria, estratégia comum por parte do atual governo dos EUA em países do Oriente Médio, a exemplo do que já foi aplicado no Iraque após a intervenção iniciada em 2003.

Concorrentemente, o Exército regular sírio também tem avançado contra o Estado Islâmico, contando com apoio de outra coalizão que atua no Oriente Médio. Esse exército, que tem se engajado em combates nos arredores do campo petrolífero em questão, conta com o apoio aéreo da Força Aérea Russa e de bem treinadas e equipadas milícias iranianas. A Rússia, neste caso, apoia o Exército regular da Síria em razão do alinhamento político entre estes dois países, sendo que existe inclusive uma grande base aeronaval russa em território sírio, o que explica o empenho de Vladimir Putin em apoiar o presidente Bashar Al-Assad.

Neste caso, é interessante constatar que a campanha russo-iraniana também explora a questão das diferenças étnicas no campo político-militar, uma vez que o apoio do Irã só foi concedido pelo fato de as Forças Democráticas Sírias serem multiétnicas e plurirreligiosas – envolvendo árabes, curdos e assírios, dentre outros –, numa clara tentativa de diminuir a influência árabe sunita naquele país.

Numa visão mais ampla, é possível perceber que o conflito na Síria não é apenas contra os terroristas do EI, mas também pela influência e controle do país após a prevista derrocada do EI. Ademais, esse conflito já se demonstrou bipolarizado (um lado russo e outro norte-americano), por ter coalizões com o mesmo objetivo declarado, mas que na realidade são concorrentes e contam com a colaboração de seus aliados que, por sua parte, esperam apoio externo para se consolidarem como potências regionais no Oriente Médio. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Hussam Awak, comandante das Forças Democráticas Sírias” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Hussam_Awak#/media/File:Hussam_Awak.png

Imagem 2 Veículo das Forças Democráticas Sírias em operação em 2017” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Syrian_Democratic_Forces#/media/File:SDF_Guardian_Armored_Personnel_Carrier_1.png