NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Observando a dimensão sunita-xiita da política no “Oriente Médio”

No dia 31 de maio, Yusuf al-Qaradawi, religioso muçulmano egípcio de grande influência que vive no Qatar (mais conhecido por seu programa na rede de televisão “Al Jazeera” e pelo website “Islam Online”, o qual ajudou a fundar e onde expõe suas interpretações do Corão[1]), proferiu discurso em Doha, invocando os muçulmanos sunitas do Oriente Médio a entrarem no conflito da Síria contra o presidente sírio Bashar al-Assad[2].

Qaradawi denunciou a seitaAlawita (uma ramificação do Islã xiita) de Assad como “mais infiel que cristãos e judeus[3] e afirmou que o grupo libanês xiita Hezbollah (cujo nome significa “Partido de Deus”) é, na verdade, o partido do diabo[3]. Como destaca a especialista Geneive Abdo, as palavras de al-Qaradawi, embora não endereçadas a todos os muçulmanos xiitas, tiveram o efeito de demonizar todo o xiismo[3].

Uma semana antes disso, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, reconheceu a participação do grupo no conflito sírio combatendo a oposição sunita ao regime de Assad, o que até então era tido pela comunidade internacional como uma verdade velada[3][4].

Em linhas gerais, a diferença entre as seitas sunita e xiita pode ser atribuída a desentendimentos quanto à sucessão do Profeta Maomé, que morreu em 632 d.C., e à natureza da liderança da comunidade muçulmana*[5].

Embora apenas 10 a 15% da população mundial siga o ramo xiita, os xiitas são maioria no Irã, no Iraque, no Bahrein, no Azerbaijão e, de acordo com algumas estimativas, no Iêmen. Também apresentam populações significativas no Afeganistão, na Arábia Saudita”, nos “Emirados Árabes Unidos”, na Índia, no Kuwait, no Líbano, no Paquistão, no Qatar, na Síria e na Turquia[6][7].

De acordo com Abdo, o duelo de discursos entre Qaradawi e Nasrallah tende a acirrar o conflito sunita-xiita no Oriente Médio”, para além dos casos sírio e libanês. Chama-se a atenção, assim, para o impacto da retórica de Qaradawi, legitimando o temor, no Egito, da influência do xiismo do Irã; encorajando a maioria sunita na “Arábia Saudita” e acirrando, no Bahrein[8], as tensões entre a população de maioria xiita e a família real sunita que governa o país[3].

No que concerne a esses dois últimos casos, alguns especialistas apontam que as monarquias sunitas do Golfo Pérsico vêem as recentes demandas democráticas na região como parte de umaagenda xiita subversiva[9].

Ainda, no Iraque, conforme explica Abdo, o primeiro-ministro Nuri Kamal al Maliki tenta consolidar a liderança política xiita excluindo a participação sunita em instituições importantes e considerando-os terroristas[3]. Ao mesmo tempo, no Paquistão, cresce a violência direcionada à comunidade shiita, minoritária[9] [10].

Entretanto, como observa o estudioso Marc Lynch, essa narrativa, como a de Abdo, que vê uma guerra fria sectária entre sunitas e xiitas tomando conta do Oriente Médiooblitera importantes linhas de conflito emergentes na região. Nesse sentindo, além dessa dinâmica, devemos atentar também para os candidatos** ao poder em países em uma transição política incerta e para aqueles*** que visam à liderança árabe regional[11], sendo uma dinâmica na qual o conflito sírio aparece como arena política[12].

Nesse sentido, destaca-se o choque do Salafismo, movimento reformista sunita, com a “Irmandade Muçulmana no Egito”, e com o “Partido Ennahda” na Tunísia, assim como a competição por poder entre países do Golfo[12][13], refletida também, mas não exclusivamente, na oposição saudita e árabe-emiradense e no apoio do Qatar à Irmandade Muçulmana[11][14].

Dessa forma, apesar da importância da dicotomia sunita-xiita no entendimento da política no “Oriente Médio”, enfatiza-se os limites do anti-xiismo como fator de unidade para a  identidade sunita[11].

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* Contudo, a divisão entre sunitas e xiitas abarca diversas outras diferenças, em crenças e práticas, e que não poderiam ser adequadamente explicadas na brevidade deste artigo.

** De maioria sunita.

*** Também majoritariamente sunitas.

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ImagemDistribuição de muçulmanos sunitas (verde claro) e xiitas (verde escuro) no mundo” (Fonte):

http://eatourbrains.com/EoB/wp-content/uploads/2008/04/muslimdistribution2.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.facebook.com/pages/Yusuf-Al-Qaradawi/24024767384?id=24024767384&sk=info

[2] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-22741588

[3] Ver:

http://edition.cnn.com/2013/06/07/opinion/abdo-shia-sunni-tension/index.html?iref=allsearch

[4] Sobre o impacto político do conflito sírio no Líbano, ver:

https://ceiri.news/index.php?option=com_content&view=article&id=3666:os-desafios-do-novo-primeiro-ministro-libanes&catid=94:notas-analiticas&Itemid=656   

Ver também:

https://ceiri.news/index.php?option=com_content&view=article&id=3675:tammam-salam-um-independente-ante-o-desafio-da-governabilidade-no-libano&catid=94:notas-analiticas&Itemid=656

[5] Ver BLANCHARD, Christopher M. Islam : Sunnis and Shiites. Congressional Research Service, 28, jan. 2009. Em:

http://www.fas.org/irp/crs/RS21745.pdf, p. 1.

[6] Ver:

BLANCHARD, op. cit., “Summary”.

[7] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-16047709

[8] Sobre a repressão do regime bareinita sobre a população xiita, ver:

https://ceiri.news/index.php?option=com_content&view=article&id=3693:a-derrota-do-grand-prix-do-bahrein&catid=94:notas-analiticas&Itemid=656

[9] Ver:

http://www.globalpost.com/dispatches/globalpost-blogs/belief/conflict-between-sunni-and-shia-muslims-seen-escalating-across-mi

[10] Ver:

http://www.globalpost.com/dispatch/news/regions/asia-pacific/pakistan/130221/pakistan-shiites-hazaras-quetta-bombing

[11] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/05/23/war_for_the_arab_world_sunni_shia_hatred

[12] Ver:

http://www.americanprogress.org/issues/security/report/2013/05/14/63221/the-structure-and-organization-of-the-syrian-opposition/, parteInternal Divisions”.

[13] Ver:

http://www.al-monitor.com/pulse/security/2013/04/syrian-opposition-formation.html

[14] Ver:

http://www.wnd.com/2013/06/muslim-brotherhood-disrupts-even-islamic-nations/

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Hamas expulso do Líbano pelo Hezbollah

Na quinta-feira passada, 30 de maio, o grupo libanês shiita, Hezbollah, ordenou que membros do Hamas, organização islâmica palestina, se retirem do Líbano imediatamente. A ordem teria sido resultado do apoio do Hamas a grupos da oposição ao governo de Bashar al-Assad, na Síria[1].

Segundo fontes, o braço militar do HamasBrigadas Ezzedine al-Qassam – estaria treinando grupos do Exército Livre da Síria em Damasco. Tal decisão poderia ser um indício de que o Hamas estaria cortando de vez a aliança e patrocínio sírios e aceitando investimento do Qatar[2].

ÁSIANOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Israel e Síria: aumento das provocações e da violência

Nos últimos dois anos, Israel se manteve longe da guerra civil que vem acontecendo na Síria e declarou diversas vezes não ter a intenção de intervir de forma alguma. No entanto, o governo israelense deixou claro que não iria permitir a contínua transferência de armas sofisticadas ao grupo paramilitar Hezbollah” nem qualquer ataque intencional ao seu território. O “Hezbollah” é acusado de assumiu diversos atos terroristas ocorridos em Israel e tem tido auxílio do governo sírio para receber armamentos do Irã e possivelmente da Rússia.

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Renovação e Reabilitação da Cidade Velha de Jerusalém avaliadas pela Unesco

A “Cidade Velha de Jerusalém” é uma singularidade no mundo. Ela abriga, intramuros, as representações históricas e simbólicas das três religiões monoteístas, isto é, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Toda a sua simbologia é traduzida na riqueza histórica e cultural de cada um dos seus 220 monumentos[1] que, em 1981, por indicação da Jordânia, foram eleitos pela Unesco como “Patrimônio da Humanidade” e, no ano seguinte, “Patrimônio da Humanidade em Perigo”. Por estar situada numa área conflitiva com soberania indefinida, na lista da Unesco, a “Cidade Velhanão aparece como pertencente a um Estado específico.

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONALTecnologia

O “Programa Nuclear” Iraniano e o “Poder Cibernético” do país

Em 12 de março passado, o “Diretor de Inteligência Nacional” dos “Estados Unidos da América” (EUA), James Clapper, apresentou para a “Comissão do Senado” estadunidense um informe sobre a avaliação das principais ameaças mundiais. Tal documento ressalta o Programa Nuclear Iraniano e a Segurança Cibernética. Para exemplificar, citou a ação de negação de serviço (colocação de sites fora do ar) que sofreram alguns sítios da internet, como alguns Bancos e, em 2012, a maior empresa saudita, a Aramco[1].

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Shimon Peres garante que Israel honrará acordos referentes a locais sagrados

Na quarta-feira, dia 8 de maio de 2013, Israel comemorou o “Yom Yerushalaim”*, ou “Dia de Jerusalém”. De acordo com a “Partilha da Palestina votada pela ONU, em 1947, Jerusalém deveria ser uma cidade internacional. Porém, como resultado da primeira guerra árabe-israelense em 1948, ela acabou sendo dividida entre Israel e Jordânia. Posteriormente, na “Guerra de 1967”, os israelenses entraram na parte jordaniana, compreendida como “Jerusalém Oriental”, e a cidade passou a ser unificada sob o governo de Israel.  A data em hebraico – que varia no calendário gregoriano – foi o dia “28 de Yiar e é feriado nacional.