EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Observadores apontam que explosão em base militar na Rússia apresenta caráter nuclear

No dia 8 de agosto (2019), ocorreu uma explosão em uma base militar na Rússia em Nyonoksa, localizada ao norte do país, no Mar Branco. A companhia nuclear estatal russa, Rosatom, logo emitiu um comunicado afirmando que ocorreu um acidente durante testes com um motor de foguete de propelente líquido, o qual ocasionou um incêndio a bordo de um navio atracado no porto. Ainda segundo a declaração, duas pessoas teriam morrido por conta da casualidade e outras 6 teriam sido feridas.

Entretanto, a informação começou a ser contestada quando autoridades de Severodvinsk, cidade localizada a 30km da base militar, divulgaram em site oficial que os níveis de radiação tinham se alterado levemente após a explosão. Tal informe causou agitação entre os moradores, os quais saíram em busca de iodo nas farmácias locais, substância conhecida por minimizar os efeitos da radiação no organismo. A publicação no website da cidade acabou sendo apagada e o governo russo seguiu negando o caráter nuclear do acidente.

Entretanto, o posicionamento das autoridades não acalmou a população e nem os observadores internacionais. Primeiramente, de acordo com especialistas, testes que envolvem mecânica de mísseis não envolve material atômico, então, é instigante que os níveis radioativos da cidade tenham indicado uma alta. Houve também muita movimentação de paramédicos em trajes especiais de proteção contra radiação ao transportar os feridos para um hospital em Moscou. O porto da Baía Dvina, onde localiza-se a base militar, fechou-se ao recebimento de embarcações por um mês e um quebra-gelo nuclear responsável por coletar e armazenar lixo líquido atômico atracou na região do acidente.

Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom

Após essas constatações, no sábado, dia 10 de agosto (2019), a Rosatom informou que além das duas mortes confirmadas, outros cinco funcionários faleceram devido a um acidente causado por testes que envolviam fontes de energia isotópicas. Isto é, houve de fato vazamento de material radioativo, porém, não informaram o que foi detonado, nem que tipo de experimento estava sendo realizado, ou o quanto de radiação foi exposta.

A mídia ocidental especula que a explosão ocorreu durante o experimento de um novo míssil de longo alcance que seria abastecido por um reator nuclear. Ano passado (2018), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que estaria testando um novo míssil chamado de 9M730 Burevestnik, conhecido pela OTAN por SSC-X-9 Skyfall. Tal armamento foi apresentado sob a possibilidade de alcançar qualquer canto do planeta por utilizar energia atômica, e suas características específicas também impedem que o Skyfall seja percebido ou até mesmo abatido pelos mais atuais sistemas antimísseis pelo mundo.

Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986

O acidente ocorrido em Nyonoksa estabelece mais um patamar na tensão entre Rússia e Estados Unidos após o término do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês). Sem esse Acordo, testes e utilização desse tipo de armamento não estão sob os auspícios de nenhuma agência de controle, o que escalona uma corrida armamentista entre os dois Estados.

Além disso, apontam observadores que ocultamento das autoridades russas sobre o que realmente aconteceu na última semana assemelha-se ao acidente em Chernobyl, em 1986. Na época, ainda União Soviética, não foi divulgado o grau do acidente, o que causou um grande aumento de vítimas intoxicadas e afetadas pela radiação. O acontecimento em Nyonoksa, especula-se, foi em uma escala bem menor, mas pode ser um dos piores acidentes nucleares desde Chernobyl.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Nuvem de cogumelo causada pela explosão da bomba nuclear na cidade de Nagasaki, no Japão, em 9 de agosto de 1945” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e0/Nagasakibomb.jpg/800px-Nagasakibomb.jpg

Imagem 2Logo da Corporação Estatal de Energia Nuclear Rosatom” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/a/ab/Rosatom_logo.png

Imagem 3Acidente Nuclear em Chernobyl em 1986” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/1/1b/Chernobyl_Disaster.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Demissão de Andrei Bohdan, chefe do Gabinete do presidente Zelenski [errata]

Andriy Bohdan foi o nome indicado para formação da equipe do presidente Zelenski para exercer a função de Chefe da Administração Presidencial, um cargo de alta confiança. Seu nome envolveu polêmicas na indicação por ter trabalhado com o conhecido oligarca ucraniano, Ihor Kolomoisky, representando-o em julgamentos sobre a estatização do PrivatBank*. Bohdan também foi Vice-Ministro da Justiça, entre 2007 e 2010; Vice-Ministro do Gabinete de Ministros, entre 2010 e 2011; e Comissário do Governo para Questões de Combate à Corrupção, entre 2013 e 2014.

Seu currículo impressiona, não fosse o fato de que entre 2010 e 2014 o Presidente fosse Viktor Yanukovych, identificado como o responsável pela repressão dos protestos do Euromaidan entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, que acabou se refugiando na Rússia.

Pela Lei da Lustração de 2014, em seu Artigo 3, Parágrafo 5, tal cargo – de Chefe da Administração Presidencial – está entre os que não podem ser ocupados por funcionários que estavam no poder entre 25 de fevereiro de 2010 a 22 de fevereiro de 2014, podendo retornar às funções públicas somente em 2024.

Em transmissão televisiva em 21 de maio, Bohdan se desculpou, afirmando, no entanto, que a lei não era justa, pois, graças a seu trabalho combatendo a corrupção acabou com desvios da ordem de 2 bilhões de grívnias, aproximadamente, 313,4 milhões de reais, na cotação de 9 de agosto de 2019. Bohdan poderia estar sendo vítima de perseguição política, pois, segundo sua afirmação, um dos responsáveis por esse esquema de corrupção, cujo nome não forneceu, teria ajudado a criar a referida lei. Ainda disse que ao ser adotada a Lei da Lustração posições como Chefe da Administração Presidencial e seus adjuntos deixaram de ser considerados cargos públicos, portanto, a mesma lei não se aplicaria a ele

Zelenski afirmou já ter dispensado Bohdan do cargo, após uma petição exigindo sua demissão baseada na referida Lei. Mas, a estratégia presidencial foi emitir um Decreto demitindo-o como Chefe da Administração do Presidente em 25 de junho de 2019, após ter criado o cargo de Chefe de Gabinete do Presidente em 20 de junho, no qual realocou Bohdan.

A atitude do Presidente foi mal recebida e, embora Andriy Bohdan tenha se justificado, afirmando que o cargo que ocupava não é considerado como público, a Lei da Lustração, em seu Artigo 2, parágrafo 5, é clara sobre quais cargos não poderiam mais ser exercidos por quem participou do governo Yanukovych, começando, inclusive, com o de “Chefe da Administração do Presidente”.

Em 17 de abril, poucos dias antes da votação do segundo turno da eleição presidencial, que já tinha Zelenski como favorito, jornalistas relataram uma suposta reunião de Andriy Bohdan com Stanislav Shevchuk, então Presidente do Tribunal Constitucional, o que causou protesto e seu julgamento foi adiado.

Bohdan construiu sua imagem na política lutando contra a corrupção e este legado é o que o mantém firme contra os ataques de seus opositores. A questão toda seria de fácil resolução, não fosse pelo fato de que estes opositores também se utilizam da lei para atacar antigos inimigos políticos ou aqueles que de uma forma ou outra colaboraram com o governo destes.

Logotipo da Agência Nacional para a Prevenção da Corrupção – A Agência Nacional para a Prevenção da Corrupção (NACC) é o órgão executivo para formação e implementação de políticas de combate à corrupção

Como já apresentado antes, a sobreposição de poderes constitucionais na Ucrânia, assim como em qualquer país, ameaça a democracia e o frágil equilíbrio de forças políticas e sociais obtidas graças a este regime. Por outro lado, não raro, uma lei pode servir como instrumento para perseguir inimigos políticos que atuaram corretamente, se alguma falha ocorrer em sua atuação ou posição, o que parece ser o caso de Andriy Bohdan.

Segundo a Lei da Lustração, que, conforme apresenta, visa a “purificação do poder político” no país, Bohdan deveria ficar afastado dez anos do poder a partir de 2014, podendo então retornar à vida pública em cargos governamentais somente em 2024. Isto não o impede de seguir atuando como cidadão ucraniano em outras atividades, inclusive aconselhando o Presidente. A questão que se coloca, no entanto, é se vale a pena um jogo de forças de Vladimir Zelenski contra seus opositores em prol da sociedade ucraniana.

———————————————————————————————–

Nota:

* O PrivatBank foi estatizado como parte da estratégia de reorganização do sistema bancário apoiado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O Banco era acusado de práticas fraudulentas de empréstimo e “lavagem de dinheiro”.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Andriy Bohdan, no canal de TV 1 + 1’, 2019” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:%D0%90%D0%BD%D0%B4%D1%80%D1%96%D0%B9_%D0%91%D0%BE%D0%B3%D0%B4%D0%B0%D0%BD_%D0%BD%D0%B0_%D1%82%D0%B5%D0%BB%D0%B5%D0%BA%D0%B0%D0%BD%D0%B0%D0%BB%D1%96_%C2%AB1%2B1%C2%BB,_2019.jpg

Imagem 2 Logotipo da Agência Nacional para a Prevenção da Corrupção A Agência Nacional para a Prevenção da Corrupção (NACC) é o órgão executivo para formação e implementação de políticas de combate à corrupção” (Fonte Автор: TohaomgВласна робота, Суспільне надбання[Public Domain]): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=59911547

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Banco Mundial lança relatório sobre a participação feminina na economia do Brasil

Na última quinta-feira, 8 de agosto de 2019, realizou-se em São Paulo o Seminário “Mulheres, Empresas e o Direito 19: uma análise de avanços e desafios à participação feminina na economia”. Promovido pelo Banco Mundial, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o intuito do evento foi promover o debate sobre os principais desafios a serem enfrentados para a promoção da participação feminina na economia, especialmente no Brasil.

Para tanto, houve o lançamento do estudo Mulheres, Empresas e o Direito 19: Uma década de Reformas, do Banco Mundial. Este material visa identificar como as discriminações legais afetam o emprego e o empreendedorismo das mulheres a partir da análise de dez anos de dados, por meio de um índice estruturado com base nas decisões econômicas tomadas pelas mulheres ao longo de suas vidas profissionais.

A metodologia do estudo utiliza trinta e cinco perguntas que são pontuadas em oito indicadores, sendo o índice para cada país equivalente à média não ponderada das pontuações nos oito indicadores, em uma escala de 0 a 100. Com base nesses critérios, a pontuação do Brasil é 81,88.

A pontuação global média é de 74,71 pontos, o que indica que há desigualdade de gênero em um quarto das áreas examinadas. No entanto, seis economias – Bélgica, Dinamarca, França, Letônia, Luxemburgo e Suécia – acumulam 100 pontos, portanto, as mulheres estão em condição de igualdade com os homens em todos os oito indicadores.

Segundo a advogada e especialista sênior do Banco Mundial Paula Tavares, “a pontuação de 81,8 coloca o Brasil entre os 40% de países com pontuação mais alta, o que não é necessariamente mau, mas, se formos comparar com países da América Latina e do Caribe, o Brasil está no meio, na posição 16, com vários países acima e que realizaram reformas nos últimos 10 anos. O Brasil não realizou nenhuma reforma nos pontos avaliados nos últimos 10 anos, então, não houve nenhum avanço, ficou estagnado”.

Deve-se salientar que o tema apresentado molda uma ferramenta para a estratégia de promoção de igualdade de gênero. Mais ainda, emprega-se como precursora do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 05.

Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 5 – Igualdade de Gênero – Foto: ONU Brasil

Com base no relatório, o Estado brasileiro deve melhorar seus índices nos seguintes critérios: em “Recebendo Remuneração”, ao buscar introduzir um dispositivo na legislação que garanta igual remuneração para trabalho de igual valor; em “Empreendendo”, com a adoção de uma cláusula de não-discriminação, com base no gênero no acesso ao crédito; e, por fim, em “Recebendo Pensão”, se equiparasse a idade de aposentadoria para homens e mulheres.

No entanto, faz-se importante destacar que a Lei Maria da Penha (Lei 11.340) de 2006 é considerada uma lei-modelo no combate à violência contra as mulheres, que inspirou vários países a adotar proteção semelhante.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Pontuação do Brasil no Mulheres, Empresas e Direitos 2019’– Foto: Banco Mundial” (Fonte): https://www.worldbank.org/pt/country/brazil/brief/brazil-women-business-law-2019

Imagem 2Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 5 Igualdade de GêneroFoto: ONU Brasil”(Fonte): https://nacoesunidas.org/pos2015/ods5/

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Israel realiza ataque aéreo a posições militares no Iraque

Israel realizou incursões com caças F-35 em espaço aéreo iraquiano nos dias 19 de julho e 31 de julho. Em ambos momentos, as aeronaves sobrevoaram e realizaram ataques a posições em solo. Os principais alvos que sofreram danos foram as bases militares de Amirli Abu Montazer al-Muhammadavi, conhecida como Camp Ashraf. As posições atingidas estão localizadas nos estados de Saladin e Diyala, ambos no nordeste do Iraque.

De acordo com veículos midiáticos, como o Jerusalem Post, os ataques tiveram como principal alvo posições onde encontravam-se emissários militares e possivelmente armamento iraniano.

A ação reverberou e produziu uma série de reações de surpresa no país, principalmente devido ao silêncio de Bagdá sobre os incidentes. Até o dia 8 de agosto, o governo iraquiano não havia emitido uma posição sobre o ocorrido.

Frente ao silêncio do governo do país, um grupo significativo de parlamentares iraquianos vêm cobrando uma posição. Eles rememoram declarações do atual Primeiro-Ministro do país, Adel Abdul-Mahdi, que, frente a questionamentos, afirmou categoricamente que o Iraque não se tornaria uma base para realizar ataques ao Irã. Também foram vistas com surpresas declarações recentes do embaixador iraquiano para os Estados Unidos, que afirmou existirem “razões objetivas para buscar uma normalização das relações com Israel”.

O primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul-Mahdi em discurso

As acusações que recaem sobre o governo variam de uma exposição do país frente a um complexo conflito até a colaboração com Israel, identificado com histórico adversário dos interesses iraquianos.

O Times of Israel afirma que integrantes do grupo libanês Hezbollah e da Guarda Revolucionária do Irã baseados nesta região do Iraque teriam resultado em feridos ou como fatalidades dos ataques. Segundo o jornal, emissários das Forças de Defesa Israelenses recusaram-se a comentar o assunto ao serem consultados.

O governo israelense já afirmou, entretanto, que o Campo de Ashraf estaria sendo usado como base para equipamento militar iraniano. Em agosto de 2018, uma reportagem da Reuters afirmava que o Irã havia transferido mísseis balísticos para grupos xiitas dentro do Iraque.

Mísseis Fateh 110, de fabricação iraniana, sendo disparados

Os armamentos seriam respectivamente dos modelos Zelzal, Fateh-110 e Zolfaqar, cujo raio de alcance varia entre 200 e 700 quilômetros, colocando, portando, cidades como Tel Aviv no seu raio de alcance, se disparados de território iraquiano.

Ainda assim, uma investida militar representa uma mudança na trajetória das relações entre os países que causa espanto à maioria dos observadores. O Iraque, apesar de haver repetidamente conclamado sua neutralidade, é reconhecido como um aliado dos Estados Unidos na região.

Os rumores e tensões vinculados ao ataque aumentam o debate sobre a estabilidade na área e possíveis frentes de batalhas que poderiam ser abertas, além de gerar difíceis questionamentos aos governantes da região.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Aeronave de caça f35I, da Força Aérea de Israel (IAF), em operação em 2018” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Martin_F-35_Lightning_II#/media/File:IAF-F-35I-2016-12-13.jpg

Imagem 2O primeiroministro iraquiano Adil AbdulMahdi em discurso”(Fonte Página Oficial do primeiroministro Adil AbdulMahdi no Facebook): https://www.facebook.com/Adil.Abd.Al.Mahdi1/photos/pcb.2623407917723732/2623407724390418/?type=3&theater

Imagem 3Mísseis Fateh 110, de fabricação iraniana, sendo disparados” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Fateh-110#/media/File:Fateh-110_Missile_by_YPA.IR_02.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O significado das eleições parlamentares na Ucrânia

A Ucrânia realizou suas eleições parlamentares no dia 21 de julho (2019). Seu Parlamento, a Verkhovna Rada, é eleito sob o regime de voto misto, no qual metade das 450 vagas são distribuídas em listas de partidos* e a outra em distritos eleitorais de um único membro**. Nestas eleições, o presidente Zelenski teve sua segunda grande vitória no ano, com seu partido – o Servo do Povo – obtendo a maioria das cadeiras do Parlamento, mais de 43%. Com o Poder Executivo e Legislativo em suas mãos haverá pouca dificuldade para aprovar sua pauta de reformas.

Observa-se que apesar da guerra travada no leste do país há cinco anos, a Ucrânia deu mostras de sua resiliência na defesa do regime democrático. Com a menor participação (49,8%) da população na história ucraniana, a eleição parlamentar referendou a eleição presidencial que levou Vladimir Zelenski ao poder, obtendo 254 cadeiras das 450 disponíveis no Parlamento.

Diagrama do Parlamento formado em julho de 2019

Em um segundo lugar, afastado, tivemos o Plataforma de Oposição – Pela Vida, de Yuriy Boiko, do qual já se aventava uma representação razoável, mas bem menor do que a que já houve dentre os partidos pró-russos. Em terceiro e quarto lugares tivemos os partidos União PanUcraniana Pátria”, de Yulia Tymoshenko, e o Solidariedade Europeia, de Petro Poroshenko, respectivamente, de centro-direita e centro-esquerda. Interessante notar que suas participações nos resultados são muito próximas. Ambos os partidos são liderados por políticos tradicionais que, inclusive, já ocuparam altos postos no escalão da política nacional, Tymoshenko como Primeira-Ministra (2005; 2007-2010) e Poroshenko como Presidente (2014-2019).

Logo atrás desses partidos, a surpresa, o partido Voice, do músico Sviatoslav Vakarchuk (que já fora deputado em 2007), fundado em maio de 2019 e de orientação pró-europeia. Trata-se de um fenômeno similar ao que levou Zelenski e o seu Servo do Povo ao poder, pautado na busca de novos rostos para política e com um discurso de renovação para fortalecimento do Estado: “Devemos destruir o inimigo interno e nos tornar fortes diante do inimigo externo”.

Resultados das Eleições Parlamentares de 2019 por Lista de Partidos

Grupos considerados como de extrema-direita, por sua vez, reduziram sua participação. Em 2014, dois candidatos às eleições presidenciais de partidos como Svoboda e Setor da Direita, respectivamente, Oleh Tiahnybok e Dmytro Yarosh, obtiveram 1,2% e 0,7% dos votos do eleitorado. Juntamente ao National Corps, tais partidos obtiveram apenas nove cadeiras nas eleições parlamentares. Já na eleição presidencial deste ano (2019), outro candidato desta linha política, Ruslan Koshulynskyi, alcançou apenas 1,6% dos votos. Nas eleições parlamentares de julho de 2019, o único partido concorrente deste grupo, o Svoboda, apoiado pelo National Corps e pelo Setor da Direita, alcançou 2,2% com apenas um candidato ganhando a votação.

Outro dado interessante na política ucraniana é a participação feminina em ascensão. Apesar do novo Código Eleitoral estabelecer cotas de participação feminina, ele entrará em vigor somente em 1º de dezembro de 2023. Nestas eleições, a presença de mulheres entre os candidatos eleitos passou de 12% para 19%, tanto no partido do ex-presidente Poroshenko (o Solidariedade Europeia), quanto no do atual mandatário (o Servo do Povo), e no estreante (o Voice), com 40%, 27% e 44,4% dos eleitos, respectivamente.

Resultados das Eleições Parlamentares de 2019 por Candidato Único por Distrito Eleitoral

Vladimir Zelenski e seu Servo do Povo foram os grandes vitoriosos este ano. Eles obtiveram ampla aceitação, referendada pela participação popular nas urnas. Eles poderão formar todo o governo e aprovar qualquer indicação presidencial para os cargos de Procurador Geral, Chefe de Serviço de Segurança, Ministro das Relações Exteriores, entre outros. Política externa e interna serão controladas com fácil consenso. Além disto, a aprovação de leis sofrerá pequena oposição, exceto para Emendas Constitucionais, para as quais são necessários um mínimo de 300 legisladores. Neste ponto, sim, o poder de articulação terá de entrar em ação.

O voto no Servo do Povo foi um voto em prol de uma agenda reformista, mesmo que se considere que os apoiadores financeiros do Partido possam sair beneficiados. No entanto, o incomum são as propostas contra vantagens destinadas ao sistema político. O Partido quer tirar a imunidade dos parlamentares e introduzir um mecanismo para removê-los do cargo, além de Referendos sobre questões cruciais de importância pública. Sua proposta mais controversa visa criar um Projeto de Lei que proíbe qualquer funcionário do ex-governo Poroshenko ocupar cargos públicos.

Observadores consideram que a luta contra a corrupção na Ucrânia é tão importante, se não mais, que a luta contra inimigos externos. Mas, apontam que a ansiedade em a travar pode levar à introdução de mecanismos autoritários que tornem o Estado Ucraniano uma arena política onde o Legislativo se sobreponha ao Judiciário. No país, as mudanças são vistas como bem-vindas, mas requerendo debate e transparência.

———————————————————————————————–

Notas:

* Representação Proporcional por Lista de Partidos corresponde ao sistema de votação que favorece a representação proporcional em eleições, nas quais vários candidatos são eleitos através de uma lista eleitoral.

** Distritos Eleitorais com Membro Único corresponde ao sistema eleitoral que indica o candidato de sua escolha em uma cédula. Apesar de comum, não é um sistema universal e é praticado em cerca de um 1/3 dos países.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Fachada do Verkhovna Rada (Parlamento da Ucrânia)” (Fonte): https://web.archive.org/web/20071005120059/http://portal.rada.gov.ua/control/uk/publish/category/system?cat_id=46656

Imagem 2 Diagrama do Parlamento formado em julho de 2019” (Fonte adaptado): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Verkhovna_Rada_2019.svg

Imagem 3 Resultados das Eleições Parlamentares de 2019 por Lista de Partidos”(FonteBy TohaomgOwn work [based on data from the website of State voters register], CC BYSA 4.0): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=77631482

Imagem 4Resultados das Eleições Parlamentares de 2019 por Candidato Único por Distrito Eleitoral” (FonteBy TohaomgOwn work [based on data from the website of State voters register], CC BYSA 4.0): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=80705720

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A Estônia e a EXPO Dubai

A EXPO é uma exposição internacional com o propósito de estimular a organização das atividades e apresentação de temáticas específicas. A EXPO ocorre anualmente e é gerenciada pelo Escritório Internacional de Exposições (BIE – sigla em inglês para Bureau International de Exposições).

A BIE, por sua vez, é uma organização internacional com sede em Paris, França, e se encontra responsável pela vigilância e aplicação da Convenção Relativa às Exposições Internacionais, que nasceu em 22 de novembro de 1928 e estabeleceu a antiga Oficina Internacional de Exposições. Ela ficou sob administração da Sociedade das Nações (SN) até a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), quando se tornou autônoma. A gestão da BIE recai sobre as exposições que possuam duração superior a 3 semanas e com limites de até 6 meses.

Diante do exposto, a cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, foi a escolhida por votação para a realização da EXPO 2020, a qual acontecerá de 20 de outubro de 2020 a 10 de abril de 2021. O evento possui como tema central “Conectando Mentes, Criando o Futuro”, e reúne empresas privadas e organizações governamentais e não-governamentais (ONGs) com o objetivo de discutir negócios, tecnologia, sustentabilidade, ciências, cultura, gastronomia, urbanismo e economia.

EXPO Dubai 2020

A importância da participação estoniana na EXPO Dubai 2020 envolve a possibilidade de apresentar ao mundo o que o país pode oferecer. Diante disso, as empresas de tecnologia de Tallinn* observam uma oportunidade de inserção e de demonstrarem seus potenciais. Dentro dessa perspectiva, as empresas da Estônia ganharam um fundo do Programa Expo Live na cifra de US$ 100 milhões (em torno de 368,62 milhões de reais, conforme a cotação de 31 de julho de 2019) dados a instituições que tenham desenvolvido produtos com implicações sociais, humanitárias e ambientais.

O jornal The Baltic Times trouxe a afirmação do Chefe da representação da Estônia na EXPO, Andres Kask, sobre a pauta a qual vê com entusiasmo: “Até à data, o fundo EXPO Live de 100 milhões de dólares financiou 121 projetos de 65 países. Empresas letãs e finlandesas já receberam apoio, pelo que vale a pena agarrar a oportunidade e apresentar uma candidatura. O apoio financeiro é uma coisa, mas outro é ser um membro do clube de inovação da EXPO – a Comunidade de Inovadores Globais da Expo Live –, que oferece uma excelente oportunidade para estabelecer contatos em todo o mundo”.

Os analistas compreendem que a EXPO Dubai será um meio bom para a expansão do networking das empresas estonianas, as quais, em sua maioria, são da área de tecnologia, e o acesso aos recursos da EXPO Live muito podem contribuir para ampliar as possibilidades de exposição de novas ideias e produtos de pequenas empresas estonianas.

———————————————————————————————–

Nota:

* Tallinn: capital da Estônia; utilizada como referência ao Estado e seu governo.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Riigikogu Parlamento da Estônia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2f/Riigikogu_Parliament_of_Estonia.JPG

Imagem 2 “EXPO Dubai 2020” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3c/Logo_expo_2020.gif