ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Primeira Cúpula Rússia-África sinaliza retorno de influência ao continente africano

Após a Semana Russa da Energia, em Moscou, a cidade-balneário de Sochi sediou a primeira Cúpula Rússia-África, nos dias 23 e 24 de Outubro (2019). O evento contou com a presença de 43 Chefes de Estado africanos, e foi co-presidido pelo presidente russo Vladimir Putin e pelo Presidente egípcio e da União Africana, Abdel Fattah el-Sisi.

A cimeira ocorreu concomitantemente ao Fórum Econômico Rússia-África, e ambos discutiram pontos críticos relacionados ao papel da Federação Russa na promoção da África e o viés econômico dos Estados africanos no sistema financeiro internacional, bem como desafios de securitização. Neste paradigma, o conhecimento em segurança e influência na exportação de armas privilegiam Moscou nos negócios com o continente africano.

De acordo com o Financial Times, o Kremlin diz que negócios comerciais no valor de 12,5 bilhões de dólares* em investimento foram tratados na cúpula, onde áreas como energia, agropecuária, mineração e armamentos foram abordadas.  O foco, contudo, foi expandir o comércio de armas já existente, mantendo, assim, a hegemonia russa no suprimento de armamentos para o território africano.

O evento pioneiro está sendo tratado como uma empreitada da Rússia para exercer influências na África, enquanto potências como os Estados Unidos miram em outra direção. Durante a cúpula, oficiais russos arguiram que firmar acordos com seu país garante mais independência aos africanos para negociarem com potências como França, Reino Unido e mesmo China.

A própria Declaração da Primeira Cúpula Rússia-África envasa o comprometimento da Rússia e dos Estados Africanos em “trabalhar juntos para contra-atacar o despotismo político e chantagem financeira no comércio internacional e cooperação econômica”, dispositivo que coaduna a nova instância russa em sua relação com a África. O jornalista Joe Penney, em contribuição ao site Quartz Africa, considera que as palavras de Putin em seu discurso de abertura “posicionaram a nova incursão (da Rússia) no continente na tradição soviética de luta contra o colonialismo”.  

Chefes de delegações posam para foto na Primeira Cúpula Rússia-África

Embora a Federação Russa esteja muito atrás da China no que tange a investimentos e comércio com a África, as ofertas do país para o continente (usinas nucleares, jatos-caça, helicópteros e sistemas de defesa antimísseis) e o conceito de negócios “sem comprometimentos”, tornam a aliança Rússia-África atrativa. O Kremlin desvelou planos de dobrar os investimentos atuais no continente nos próximos anos. O presidente Putin demonstrou otimismo e afirmou que a cúpula “abriu uma nova página na história das relações da Rússia com os países africanos”, e celebrou o sucesso dos esforços conjuntos para “desenvolver uma cooperação integral mutuamente benéfica, bem-estar, futuro pacífico e prosperidade” dos países e povos envolvidos.  

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Nota:

* 12,5 bilhões de dólares = aproximadamente, a R$49.838.036.798,96 – na cotação do dia 28/10/2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vladimir Putin na Primeira Cúpula RússiaÁfrica” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/61893/photos/61680

Imagem 2 Chefes de delegações posam para foto na Primeira Cúpula RússiaÁfrica” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/61893/photos/61668

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Onda de protestos no Iraque: causas e consequências

Uma série de protestos vêm ocorrendo no Iraque desde princípios do mês de outubro. Em manifestações marcadas por intensos confrontos com as forças de segurança iraquianas, a população tem exigido do governo o cumprimento de uma série de promessas de campanha.

O estopim para os atos ocorreu no dia primeiro de outubro, quando pessoas tomaram as ruas para exigir a renúncia do governo de Bagdá e do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi. Ainda que algumas fontes tenham reportado que o episódio estaria ligado à demissão do general Abdul-Wahab al-Saadi, figura popular do combate ao terrorismo no país, uma série de pautas tem sido agregadas com o passar dos dias.

No poder desde 2018, a atual gestão do Parlamento havia prometido implementar medidas para diminuir o abismo entre pobres e ricos, bem como implementar uma série de medidas para combater a corrupção no país.

Rapidamente os protestos ganharam adesão por todo o país, sobretudo entre jovens. Em meio ao processo de recuperação dos impactos produzidos pelo combate com o Estado Islâmico (EI), o Iraque enfrenta uma série de novos desafios.

Após a invasão pela coalizão liderada pelos Estados Unidos em 2003 e a subsequente queda do regime do partido Ba’ath, então liderado por Saddam Hussein, o Iraque atravessou distintos modelos de governos. Com o passar dos anos, as alternativas democráticas apresentadas falharam em resolver problemas estruturais e melhorar as condições sociais no país.

A população vem sofrendo com uma recorrente crise econômica e, sobretudo a juventude do país, vem enfrentando uma série de mazelas relativas à falta de perspectiva e ao desemprego. Segundo o Banco Mundial, em 2018 o Iraque apresentava uma taxa geral de desemprego de 7,9%, esta taxa sobe para 16,6% entre jovens.

Campanha desenvolvida pelo Observatório Iraquiano de Direitos Humanos contra a violência policial, expondo o slogan Não Atire em Mim (#DontShootMe/#لاترميني) – Página do Observatório de Direitos Humanos do Iraque no Twitter

Aliada às dificuldades econômicas, a falta de perspectiva no país e a decepção com a classe política se converteram em combustível para a insatisfação popular. A reação das autoridades locais repercutiu no mundo. A organização NetBlocks, que monitora as liberdades da internet, registrou que o governo local realizou cortes rotineiros de internet por pelo menos 3 dias seguidos. A movimentação foi considerada uma possível manobra para evitar a articulação da população para os protestos.

As Forças Armadas do Iraque reconheceram o uso excessivo da força durante o decorrer dos distúrbios no país. Ao longo do mês de outubro, registrou-se a morte de 157 pessoas nos protestos, sendo 149 civis e 8 membros das forças de segurança. Mais de quatro mil pessoas resultaram feridas durante os eventos.

Apesar da violência, os protestos demoraram a arrefecer, era comum identificar as pessoas que dissessem que “não havia mais nada a perder”. A renúncia do governador de Bagdá, Falah al-Gazairy, também não desmotivou as mobilizações. As marcas da violência geraram reações de distintos grupos da oposição que acusam o governo de promover ataques à população e podem gerar feridas difíceis de sanar em um futuro próximo.

Um grupo de trabalho organizado pelo Primeiro-Ministro realizou um levantamento do impacto dos protestos e o papel das Forças Armadas. Se levado adiante, será o maior julgamento de militares e responsabilização do governo no país.

Estes protestos são representativos do caminho que trilha o Iraque em seu processo de reconstrução. Para além dos conflitos e ameaças de grupos infra-estatais, a reestruturação e o diálogo com a sociedade representam o real desafio a ser enfrentado pelo governo no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Multidão reunida durante os protestos em Bagdá” (Fonte: Twitter oficial da Anistia Internacional no Iraque@AmnestyIraq): https://twitter.com/AmnestyIraq/status/1182263022485753856

Imagem 2 Campanha desenvolvida pelo Observatório Iraquiano de Direitos Humanos contra a violência policial, expondo o slogan Não Atire em Mim (#DontShootMe/#لاترميني) – Página do Observatório de Direitos Humanos do Iraque no Twitter” (Fonte): https://twitter.com/IraqHumanRights/status/1186336075624652800

ÁFRICAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Bombardeiros nucleares russos em solo africano

Há três décadas, a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) entraria num processo de seletividade geopolítica, culminando com um afastamento de seus antigos aliados africanos no governo de Mikhail Gorbatchev (último líder soviético entre 1985 e 1991). Os principais motivos seriam a má administração local, a corrupção e os deslocamentos pela ruptura repentina de relações econômicas com os antigos poderes coloniais, produzindo, na maioria desses países, fracassos econômicos de ampla escala.

Após a queda da União Soviética e o abrandamento das relações com o continente africano, o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, diante de mudanças no equilíbrio global de forças e da solidificação dos processos democráticos em vários países africanos, vem pautando uma reaproximação diplomática no intuito de expandir as relações político-econômicas com vários de seus antigos aliados.

Reunião de Cúpula Rússia-África em Sochi – Outubro 2019

Em 23 de outubro (2019) foi inaugurada, na cidade russa de Sochi, a primeira reunião de cúpula Rússia-África, que arregimentou 43 governantes africanos, além de 3 mil participantes, onde foram tratados assuntos como a duplicação do comércio, em 5 anos, entre África e a Federação Russa, além do perdão de dívidas de países africanos com a União Soviética, em torno de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 80,16 bilhões*).

Enquanto isso, em Pretória, capital da África do Sul, dois bombardeiros nucleares russos Tu-160 (denominação OTAN: Blackjack), aterrissavam na base da Força Aérea de Waterkloof, em uma “rara” demonstração de cooperação militar entre as duas nações.

Bombardeiro Tupolev Tu-160

Considerado o maior e mais pesado bombardeiro estratégico do mundo e, segundo analistas militares, a maior plataforma avançada de dissuasão nuclear do planeta, a aeronave tem capacidade de se deslocar entre continentes com velocidade supersônica, carregando em suas baias até 40 toneladas de armamentos que podem variar entre mísseis de cruzeiro, bombas de gravidade nuclear e mísseis hipersônicos de longo alcance. Esses bombardeiros já tiveram participação em eventos recentes, tais como a inserção militar na guerra da Síria e a visita à Venezuela, em intercâmbio de voos operativos para elevar o nível de operações dos sistemas de defesa aeroespacial.

Os bombardeiros fazem parte do grupo aéreo da Força Aeroespacial Russa, que está visitando a África do Sul num acordo sobre cooperação militar assinado entre os Ministérios da Defesa de ambos os países no verão de 1995. Segundo o porta-voz do Ministério da Defesa sul-africano, Major Motsamai Mabote, em declaração à TASS (Agência de Notícias Russa), a chegada das aeronaves da Força Aeroespacial Russa é um processo inaugural e importante para toda a África.

Além dos bombardeiros Tu-160, o grupo aéreo da Força Aeroespacial Russa que atualmente permanece na África do Sul também inclui aeronaves de transporte militar Ilyushin Il-62 (denominação OTAN: Classic) e Antonov An-124 Ruslan (denominação OTAN: Condor). Os militares russos e especialistas que chegaram ao país participarão de um Workshop que será organizado pelo Ministério da Defesa da África do Sul. O Workshop discutirá as questões de realização de operações de combate, efetivação de medidas de busca e resgate.

Segundo analistas internacionais, a Rússia entra numa corrida geopolítica contra a China e os EUA para estabelecer laços sólidos com a África em questões comerciais, políticas e militares. O continente, que abriga em torno de 1,5 bilhão de habitantes, possui algumas das economias que mais crescem no mundo.

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Nota:

* Cotação de 27/10/2019 (USD 1 = BRL 4,0079).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bombardeiro Tupolev Tu160” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/91/Tupolev_Tu-160S%2C_Russia_-_Air_Force_AN2000246.jpg

Imagem 2 Reunião de Cúpula RússiaÁfrica em Sochi Outubro 2019” (Fonte): http://photo.roscongress.org/en/73/photos/list?PhotosContainerId=2812&OnlyVisible=True&OrderDirection=Asc

Imagem 3 Bombardeiro Tupolev Tu160” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/the-buzz/russias-tu-160m2-blackjack-supersonic-bomber-cruise-missile-20154

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Esforços para paz e inclusão das mulheres na Somália

Amina Mohammed, vice-secretária geral da Organização das Nações Unidas, realizou uma visita à Somália no dia 23 de outubro de 2019. O evento foi uma realização conjunta de uma viagem para a região do Chifre da África com a União Africana, dando ênfase na mulher, paz e segurança. A delegação foi composta também por Bineta Diop, enviada especial da União Africana para Mulheres, Paz e Segurança, e Parfait Onanga-Anyanga, enviado especial do Secretário-Geral para o Sudeste Africano.

O grupo foi recebido por Hassan Ali Khayre, Primeiro-Ministro, e Ministros do governo na capital Mogadíscio. Foram ressaltadas a importância sobre a participação efetiva das mulheres nas eleições e sua credibilidade, ações para o combate do extremismo e desenvolvimento econômico do país, além da busca pela paz e estabilidade. Foi um momento significativo para trocar experiências e aprender as ações governamentais nessas áreas. Também encontraram funcionários da Missão de Assistência das Nações Unidas na Somália (UNSOM) e do Escritório de Apoio às Nações Unidas na Somália (UNSOS), Agências da ONU, Programas, entre outras instituições.

Mulher somali em vestido tradicional Circa .

Amina Mohammed declarou que ainda há progresso a ser feito para atingir a igualdade de gênero em suas diversas facetas. No entanto, foi notado o engajamento das mulheres somalis em diversos setores e seu comprometimento para transformar o papel da mulher na sociedade, abandonando a antiga visão tradicional, para criar espaço e atingir seu potencial.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Reunião entre ONU, União Africana e autoridades da Somália” (Fonte): https://twitter.com/AminaJMohammed/status/1187035692607705089/photo/1?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1187035692607705089&ref_url=https%3A%2F%2Fnews.un.org%2Fpt%2Fstory%2F2019%2F10%2F1691931

Imagem 2Mulher somali em vestido tradicional Circa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Women_in_Somalia#/media/File:Somali_woman_in_traditional_dress_Circa_1940.jpg

ÁSIAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A Estônia pede à Turquia que cesse os ataques unilaterais na Síria

A guerra civil na Síria já dura alguns anos e iniciou por ocasião da Primavera Árabe, na qual diversas pessoas protestaram em seus países a favor de democracia e maior liberdade de expressão. Todavia, a situação síria deteriorou-se e parcela da população entrou em conflito com o regime do presidente Bashar al-Assad.

O maior fator de agravo na guerra civil síria ocorreu com a ascensão do grupo terrorista Estado Islâmico (EI), o qual buscava a instauração de um Califado no entorno da Síria e do Iraque. A escalada militar intensificou-se na região com o ingresso de tropas dos Estados Unidos (EUA) e da Federação Russa, as quais combateram o EI até seu enfraquecimento.

Nas últimas semanas, o Presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou a retirada da força militar estadunidense na Síria. Esta medida foi duramente criticada pelos curdos, aliados locais de Washington*, e diversos Estados europeus, pois ressente-se que o EI possa retomar forças, e que os curdos fiquem sem proteção contra possíveis ataques da Turquia.

Felizmente, o EI não retornou a exercer o controle nos territórios sírios, todavia, os turcos iniciaram uma série de ataques terrestres e aéreos contra o nordeste da Síria. O alvo de Ancara** eram os curdos, os quais são considerados como terroristas pelos turcos, pois eles desejam criar um Estado próprio.

A Estônia expressou preocupação com os atos unilaterais da Turquia contra o território sírio e pediu aos turcos que cessem sua operação militar. Os estonianos desejam evitar as baixas de civis e a deterioração da estabilidade regional em um Estado em crise humanitária. Outra razão para Tallinn*** manifestar-se sobre a questão é que a Estônia é Membro Não-Permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), criado para zelar pela paz e segurança internacional. 

Ministro das Relações Exteriores da Estônia, Urmas Reinsalu

O jornal The Baltic Times trouxe a declaração do Ministro das Relações Exteriores da Estônia, Urmas Reinsalu, sobre a pauta, o qual afirmou: “A Turquia, nossa aliada da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], sem dúvida tem preocupações de segurança com relação ao terrorismo; no entanto, soluções políticas e diplomáticas devem ser buscadas para as tensões na região. A operação que começou, no entanto, pode prejudicar gravemente esses esforços e dar um novo impulso ao Daesh [EI]. Estamos preocupados com a operação militar da Turquia no nordeste da Síria, que prejudica ainda mais a estabilidade em toda a região. Pedimos a Turquia que pare sua ação militar unilateral e evite baixas civis e deterioração da situação humanitária”.

Os analistas observam com atenção as ações turcas na Síria, as quais, diante do Direito Internacional (DI), são compreendidas como violação da soberania síria. Em relação ao ataque unilateral turco aos curdos, que na atual situação nada fizeram contra Ancara, ainda existe, perante o DI, a questão de um possível genocídio. Diante da problemática, aguarda-se que a Turquia venha a optar pelo diálogo político e pela resolução de suas diferenças mediante o respeito ao DI e à autodeterminação dos povos.

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Notas:

* Washington: capital dos Estados Unidos; seu uso no texto representa a ação política do Estado norte-americano.  

** Ancara: capital da Turquia; seu uso no texto representa a ação política do Estado turco.

*** Tallinn: capital da Estônia; seu uso no texto representa a ação política do Estado estoniano.

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Fontes Consultadas:

Imagem 1 Combatente curdo” (fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f3/IRPGF_fighters_in_Tabqa_1.jpg

Imagem 2 Ministro das Relações Exteriores da Estônia, Urmas Reinsalu” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6f/Urmas_Reinsalu_2017-05-25.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Semana agitada põe em risco “Halloween Brexit” de Boris Johnson

Dia 31 de outubro de 2019, a data atualmente marcada para a saída oficial do Reino Unido da União Europeia (UE), é a mesma em que se comemora o Halloween (chamado de Dia das Bruxas no Brasil) nos países anglo-saxônicos. Coincidência à parte, os últimos dias foram tensos com os recentes acontecimentos sobre o Brexit – processo que se arrasta desde o referendo de 23 de junho de 2016, que decidiu pela saída do país da UE.

Boris Johnson, Primeiro-Ministro britânico – Chatham House

O primeiro-ministro Boris Johnson declarou várias vezes que o Reino Unido sairá, com ou sem um acordo, no dia 31 de outubro de 2019, e inclusive que preferiria “morrer em uma vala” (“die in a ditch”, em inglês) do que pedir um novo adiamento. O fato de o Brexit acontecer no dia do Halloween, porém, pode estar ameaçado. Apesar de o governo de Boris Johnson ter conseguido modificações importantes em relação ao acerto chegado entre ambas as partes, ainda sob a direção de Theresa May, o Parlamento britânico votou uma Emenda que, na prática, pode forçar à uma nova prorrogação do prazo de saída.

Abaixo, o Ceiri News faz um resumo dos principais acontecimentos da semana, para entender um pouco melhor o que está ocorrendo com o Brexit:

Quinta-feira, dia 17 de outubro de 2019Reino Unido e países membros da UE oficializam mudanças no acordo sobre o Brexit. Substancialmente, há pouca diferença em relação ao negociado durante o Governo de Theresa May, que foi rejeitado diversas vezes pelo Parlamento. A mudança principal ocorreu com o chamado Irish Backstop” (“Salvaguarda Irlandesa”), um mecanismo que manteria a Irlanda do Norte debaixo das regras do Mercado Comum Europeu e o Reino Unido como um todo dentro do território europeu de tarifa única (União Aduaneira). Dessa maneira, seria evitada a construção de uma barreira física com a República da Irlanda*.

Boris Johnson e Donald Tusk (Presidente do Conselho Europeu) durante reunião da cúpula dos países membros da UE – dia 17 de Outubro de 2019 – que selou mudanças no acordo de saída do Reino Unido

De acordo com a nova revisão do Tratado, a Irlanda do Norte permaneceria no território tarifário do Reino Unido e estaria inclusa em quaisquer negociações comerciais feitas com outros países. Produtos vindos da UE teriam tarifas aplicadas somente quando cruzassem o mar em direção à ilha da Grã-Bretanha. Os produtos de origem na Grã-Bretanha, por sua vez, serão avaliados por um comitê conjunto entre a UE e o Reino Unido, que decidirá se o produto se destina ou não ao Mercado Europeu, e estará ou não sujeito às taxas aduaneiras. Além disso, o novo Tratado dá à Assembléia Nacional da Irlanda do Norte o direito de ser consultada a cada 4 anos para aprovar ou rejeitar a continuação do esquema.

Sábado, dia 19 de outubro de 2019 –Apelidado de “Super-Sábado” (“Super-Saturday”) pela mídia britânica, a data ficou marcada pela sessão extraordinária do Parlamento, ocorrida pela última vez em 1982, em decorrência da Guerra das Malvinas. A urgência se deu pelo fato de que, em setembro, uma lei chamada “Benn Act (nomeada, por ter sido proposta pelo deputado trabalhista Hilary Benn) decretou que, caso até o dia 19 de setembro de 2019 um acordo não tivesse sido aprovado, o Governo seria obrigado a escrever para a UE requerendo um novo adiamento da data de saída. Enquanto se aguardava a aprovação do Tratado revisado, milhares de manifestantes a favor de um novo referendo tomavam conta das ruas de Londres.

Manifestantes, nas ruas do centro de Londres, pedem um novo referendo – Sábado dia 19/10/2019

Porém, o “Super-Saturday” acabou frustrando os planos de Boris Johnson de ter seu acordo aprovado. Oliver Letwin, deputado que foi expulso recentemente do Partido Conservador por tentar bloquear o Brexit, propôs uma Emenda que obriga o Governo a primeiro apresentar as leis necessária para implementar o Tratado. Somente depois de tal legislação ser aprovada o Parlamento poderia votar para ratificar ou não o acordo com a UE. A Emenda foi aprovada com 322 votos a favor e 306 contra, uma derrota árdua para o Primeiro-Ministro.

Carta assinada por Boris Johnson. O Primeiro-Ministro diz que o adiamento do Brexit ‘poderá prejudicar os interesses do Reino Unido e de seus parceiros da EU

A aprovação obrigou o Governo, à contragosto, a escrever oficialmente para a Presidência do Conselho Europeu** requerendo um novo adiamento da data de saída. A carta foi enviada, contudo, sem assinatura, solicitando a prorrogação para o dia 31 de Janeiro de 2020. Logo em seguida, Boris enviou outra carta, desta vez assinada, expressando sua insatisfação em relação à nova prorrogação.

Segundafeira, dia 21 de Outubro de 2019 – O Governo tenta mais uma vez a ratificação do acordo junto ao Parlamento. Porém, John Bercow, o Speaker of the House of Commons (cargo equivalente ao de Presidente da Câmara dos Deputados no Brasil), barrou nova votação. O Speaker justificou que a Emenda de Letwin “explicitamente especificou que a legislação deveria vir primeiro”, desta maneira, confirmando que uma nova votação sobre o Acordo só seria possível se as leis necessárias para a saída fossem implementadas. Na mesma noite, porém, o Gabinete de Johnson apresentou uma proposta de lei de 110 páginas, para que fosse submetida à avaliação dos Deputados.

John Bercow, o Speaker do Parlamento Britânico, é quem tem poder para decidir quais propostas podem ser votadas, segundo as regras da Casa – UK Parliament

Terça feira dia 22 de outubro – Correndo contra o relógio, o Governo levou ao Parlamento a lei para a implementação do Brexit (EU Withdrawal Agreement Bill). A proposta foi acatada pelos legisladores com uma maioria de 329 votos a favor e 299 contra. Porém, logo em seguida uma nova votação estremeceu as intenções governistas. Com 322 votos contra e 302 a favor, o cronograma planejado por Boris Johnson, que permitiria uma aprovação em tempo hábil, foi rejeitado. 

O que poderá acontecer agora?

As chances de o Primeiro-Ministro comemorar o Halloween, com a saída no dia 31 de outubro, estão cada vez mais remotas. A posição natural do Reino Unido seria de automaticamente se desligar da UE, sem um acordo, caso um não fosse aceito. Mas, a legislação atual (Benn Act, mencionada acima), obriga legalmente o governante a pedir uma nova prorrogação.

A alternativa, seria torcer para que, pelo menos, um dos países membros da UE vetasse uma nova extensão. Porém, a tendência é de que o Bloco aprove a prorrogação com unanimidade. Tudo indica que, caso uma nova data para o Brexit seja aceita (provavelmente o dia 31 de Janeiro de 2020), os britânicos poderão ter uma eleição para um novo Governo, ainda antes de dezembro. Caso algum Partido consiga a maioria, o mesmo obterá maior controle sobre o processo. O Brexit, em janeiro, poderia também facilitar a ocorrência de um novo referendo, já que Partidos como os Liberais Democratas e os Trabalhistas apoiam essa opção. 

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Notas:

* A Irlanda do Norte é localizada no norte da ilha da Irlanda. O país é parte do Reino Unido e faz divisa ao sul com a República da Irlanda. Apesar de o Reino Unido e a República da Irlanda serem dois países distintos, não há fronteiras físicas entre os dois, fato possível por ambos fazerem parte do Mercado Comum Europeu, o que permite a livre circulação de bens e pessoas. A região, contudo, historicamente, sofre com conflitos entre aqueles que advogam pela unificação da ilha, e aqueles que querem se manter como parte do Reino britânico. Para maiores informações: http://ceiri.news/irlanda-do-norte-e-a-questao-da-fronteira-com-a-republica-da-irlanda-diante-do-brexit/

** O Conselho Europeu é o órgão da União Europeia que reúne os Chefes de Estado ou Governo dos países membros. O polonês Donald Tusk é o atual Presidente do órgão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestantes durante marcha em favor novo referendo20 de Outubro de 2018 / autor Mary E Carson” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Brexit_March_Death_among_the_demonstrators.jpg

Imagem 2Boris Johnson, PrimeiroMinistro britânicoChatham House” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/chathamhouse/26147764939

Imagem 3Boris Johnson e Donald Tusk (Presidente do Conselho Europeu) durante reunião da cúpula dos países membros da UE dia 17 de Outubro de 2019 que selou mudanças no acordo de saída do Reino Unido © European Union” (Fonte): https://newsroom.consilium.europa.eu/permalink/p91861

Imagem 4Manifestantes, nas ruas do centro de Londres, pedem um novo referendo Sábado dia 19/10/2019” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/threefishsleeping/48928157071

Imagem 5Carta assinada por Boris Johnson. O PrimeiroMinistro diz que o adiamento do Brexit poderá prejudicar os interesses do Reino Unido e de seus parceiros da EU” (Fonte): https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/840660/PM_to_Donald_Tusk_19_October_2019.pdf

Imagem 6John Bercow, o Speaker do Parlamento Britânico, é quem tem poder para decidir quais propostas podem ser votadas, segundo as regras da Casa UK Parliament” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/uk_parliament/48710692842/