Direito InternacionalEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Vós Sois a Luz do Mundo: Vaticano adota Lei Universal para coibir o abuso sexual clerical

No dia 9 de maio de 2019, foi estabelecida nova Carta Apostólica, pelo Sumo Pontífice Francisco, autoridade maior do Estado da Cidade do Vaticano, que, pela primeira vez, obriga todos os oficiais da igreja católica em qualquer parte do mundo a relatar a seus superiores casos de violência sexual clerical, especialmente contra crianças e pessoas vulneráveis, bem como tentativas de encobri-lo. Estão incluídos os eventos de assédio e produção de material pornográfico.

Esta lei, um Moto Proprio, intitulado “Vos estis lux mundi, Vós sois a luz do mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo chama cada fiel a ser exemplo luminoso de virtude, integridade e santidade”, será promulgada em 1º de junho próximo e revista em três anos.

Algumas das inovações que se destacam nesta peça de Direito Canônico são: a própria obrigatoriedade imposta para que os clérigos relatem as ocorrências; a celeridade imposta às investigações, 90 dias; além da instituição, dentro de um ano, a partir da entrada em vigor da lei, de espaços onde os casos possam ser relatados, aptos a preservar a privacidade e reputação da pessoa abusada.

Vos estis lux mundi’ é o título do novo motu próprio

Tem sido recebida favoravelmente, como a mais abrangente resposta normativa à onda de escândalos que tem maculado a Igreja Católica ao longo das últimas três décadas, e três Papados, ao menos. Este Moto Próprio, espécie de Decreto, comum à legislação leiga dos Estados nacionais, cria nova estrutura institucional para solucionar o problema da impunidade nos casos de abuso sexual, que não se confundem com o aparato estatal nos países onde ocorrem e com a aplicação das leis locais.

O Estado da Cidade do Vaticano é um Estado religioso criado em 1929, através do Tratado de Latrão. Esta norma atribui ao Vaticano a personalidade jurídica internacional de ente público, e, portanto, apto a desenvolver suas leis e aplicá-las em toda a sua jurisdição. Da mesma forma, os Estados nacionais e seus cidadãos têm direitos reconhecidos em seus países natais, inclusive em face de autoridades da Igreja Católica que os violem.

Nesta nova norma, o Vaticano reconhece a autonomia existente entre estas ordens jurídicas, as de natureza nacional e a do Vaticano, um Estado religioso, e enaltece a importância do fortalecimento de todas, para que, universalmente, estes crimes sejam prevenidos e combatidos, uma vez que traem a confiança do fiel”, como afirma.

Críticos a esta nova norma legal apontam que não é clara em estabelecer sanções e temem que não seja suficiente para responsabilizar os culpados, visto que não obriga os relatores a reportar as denúncias às autoridades civis, dentre outras lacunas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Estado da Cidade do Vaticano” – Tradução do oficial: “Stato della Città del Vaticano” (Fonte): http://www.vaticanstate.va/content/vaticanstate/it.html

Imagem 2 “‘Vos estis lux mundi é o título do novo motu próprio” (Fonte): https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-05/papa-francisco-motu-proprio-abusos-tornielli.html

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALTecnologia

Colômbia inaugura 1º centro latino-americano da indústria 4.0

Foi inaugurado em 30 de abril de 2019 o Centro para a Quarta Revolução Industrial (em inglês, Center for Fourth Industrial Revolution, ou C4IR), na cidade de Medellín, com a presença de Ivan Duque, Presidente da Colômbia. A primeira instituição latino-americana dessa natureza trabalhará em projetos relacionados a Inteligência Artificial, internet das coisas, robótica, cidades inteligentes, aprendizagem automática e blockchain

O Presidente havia proposto, em 2018, abrigar o primeiro centro em país de língua espanhola. Em janeiro de 2019, a ideia foi acatada no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, e o anúncio foi feito pelo próprio mandatário colombiano, em conferência de imprensa realizada no evento, em 23 de janeiro de 2019.

O Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum, ou WEF, em inglês) é uma organização internacional, sem fins lucrativos, criada em 1971, com sede em Genebra, Suiça, e busca engajar políticos, empresários e lideranças para elaboração de agenda global, local e industrial. O WEF se autodenomina como uma instituição “independente, imparcial e não vinculada a interesse específico”. As críticas ao WEF fizeram nascer o Fórum Social Mundial, como um contraponto de ideias e o slogan “um outro mundo é possível”.

Os Centros para a Quarta Revolução Industrial (C4IR) são espaços que reúnem diversos stakeholders para elaborarem políticas e estabelecerem acordos de colaboração que permitam superar entraves e acelerar os benefícios da ciência e da tecnologia. O primeiro C4IR foi estabelecido em março de 2017, em San Francisco, Estados Unidos; em 2018 foi a vez da Índia, China e Japão. Em 2019 foram abertas as unidades dos Emirados Árabes Unidos (28 de abril), da Colômbia (30 de abril) e a rede de C4IRs em breve contará com unidades na África do Sul e Israel.

Presidente Ivan Duque concede entrevista na saída da visita ao Google

Duque, que tem buscado colocar seu país na vanguarda da indústria 4.0, ou  quarta revolução industrial, esteve nos Estados Unidos, nos dias 8 e 9 de maio de 2019,  onde cumpriu agenda de visitas a  megaempresas da área tecnológica. No primeiro dia, no Vale do Silício, ele esteve acompanhado de 14 empreendedores colombianos que tiveram a oportunidade de apresentar seus negócios e casos de sucesso. A aceleradora de empreendimentos 500 Startups interessou-se em apoiar os jovens empresários.

A Apple manifestou interesse em participar do C4IR de Medellín, apoiar na área de educação e em políticas ambientais. Com a Cisco foi assinado um acordo para modernização das instituições públicas, dentre outras coisas. Ivan Duque pediu à Google apoio para estender o acesso à internet a lugares remotos e que identificasse empreendedores nativos que possam colaborar no trabalho.

Segundo ele, a Microsoft prometeu investir quase 10 bilhões de pesos (cerca de 12 milhões de reais à taxa de 10 de maio de 2019) em conectividade para atender em torno de 150 mil pessoas, cujo acesso à tecnologia é precário. Na Amazon, o Presidente encontrou colombianos que trabalham na empresa e iniciou conversações para o estabelecimento de uma parceria.

Em Medellín já existe o centro de inovações e negócios Ruta N, em cujo complexo está também sediado o C4IR e, além disso, funciona em Bogotá o Innpulsa, instituição de gestão do crescimento empresarial do governo federal.  Embora criada em 2012, na gestão de Juan Manuel Santos, antecessor de Duque, a organização tem como objetivos atuais levar a Colômbia a ser uma das 3 economias mais inovadoras até 2025, e uma das mais competitivas da América Latina até 2032.

Além das instituições existentes no país e dos investimentos que estão sendo feitos, Ivan Duque aposta na indústria criativa, também conhecida como economia laranja. Duque é coautor do manual “A Economia Laranja: uma oportunidade infinita”, publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e disponível para download em quatro idiomas. Ao final das visitas ele declarou que tem como meta que a Colômbia seja vista como protagonista na América Latina, atraindo investimentos e obtendo êxito no setor tecnológico e de indústrias criativas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Complexo Ruta N, onde funciona o C4IR de Medellín” (Fonte): https://www.rutanmedellin.org/images/rutan/edificio/arutan.jpg

Imagem 2 Presidente Ivan Duque concede entrevista na saída da visita ao Google” (Fonte): https://id.presidencia.gov.co/Galeria_Fotografica/190508-Google-1800.jpg

AMÉRICA DO NORTEÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Vietnã se beneficia da guerra comercial sino-americana

Investidores estrangeiros continuam a desembarcar nos distritos fabris do Vietnã, à medida que a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China se aproxima de seu segundo ano. Os Estados Unidos aumentaram as tarifas de 10% para 25% sobre produtos chineses avaliados em 200 bilhões de dólares (aproximadamente 791,1 bilhões de reais, conforme a cotação de 10 de maio de 2019) na sexta-feira (10 de abril), depois de meses sem novas tarifas entre os dois países. Desde o início da guerra comercial, muitos fabricantes chineses transferiram parte de sua linha de produção para o Sudeste Asiático por causa do temor de prejuízos nas vendas nos Estados Unidos, decorrentes do aumento tarifário americano sobre as importações de produtos manufaturados chineses, informa o jornal South China Morning Post.

O Vietnã se tornou o lugar favorito dos investidores diante do aumento dos custos trabalhistas na China e da ameaça de tarifas. Adam McCarthy, economista chefe da Mekong Economics, de Hanói, afirma: “A guerra comercial está acelerando uma tendência que já estava ocorrendo, que é a saída de fábricas de uma China mais cara. É difícil dizer quantas fábricas viriam para o Vietnã sem uma guerra comercial”.Le Ahn Tuan, diretor de pesquisa na Dragon Capital, de Hanói, completou: “Sejamos claros: A China tem sido e continuará a ser a maior potência industrial do mundo, não há dúvida disso. Contudo, eu ainda acho que haverá um transbordamento marginal da China em diferentes países, especialmente o Vietnã, e ele tem aumentado”.

Vista panorâmica de Hanói, capital do Vietnã

A economia do Vietnã cresceu 7% em 2018, o ano mais próspero em mais de uma década, causado em grande parte pelos 19 bilhões de dólares (em torno de 75,1 bilhões de reais, ainda conforme a cotação de 10 de maio de 2019) em investimento externo direto. O investimento no país, particularmente em manufatura leve e intensiva em trabalho, também aumentou muito desde 2018. A nação do Sudeste Asiático tem conseguido atrair investimentos para a produção de celulares, semicondutores e telas planas.

Novos investimentos no país chegaram a 81%, e contribuições de capital, usadas para financiar novas fábricas, atingiram 215%, de acordo com dados de abril do governo vietnamita. As exportações para os Estados Unidos também aumentaram em 28,8% em 2019, em comparação com o ano anterior. Espera-se que essa tendência continue no terceiro e quarto semestres de 2019, quando as fábricas recém-instaladas começarão a funcionar, segundo Maxfield Brown, associado sênior da Dezan Shira & Associados, de Ho Chi Minh.

Contudo, o aumento contínuo do investimento em centros manufatureiros tradicionais, como Ho Chi Minh e Hanói tem exercido grande pressão sobre as redes de infraestrutura do Vietnã, bem como a reserva de mão-de-obra e os fornecedores locais. Além disso, se a guerra comercial continuar, prejudicará a economia chinesa, o que pode afetar o comércio do país com a China, atingindo especialmente as empresas vietnamitas que são fornecedoras terceirizadas de linhas de montagem chinesas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vista noturna de Ho Chi Minh, a maior cidade do Vietnã”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=Ho+Chi+Minh+City&title=Special%3ASearch&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Ho_Chi_Minh_City_Skyline_(night).jpg

Imagem 2 Vista panorâmica de Hanói, capital do Vietnã” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=hanoi&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Panorama_of_Hanoi.jpg

AMÉRICA LATINAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O retorno russo à ilha de Cuba

No dia 1º de maio de 2019, o ex-presidente Raúl Castro, Primeiro-Secretário do Partido Comunista de Cuba, recebeu o Prêmio Lênin, a mais alta condecoração concedida pelo Partido Comunista da Federação Russa. Em sua declaração, ao receber a honraria, Castro reiterou que “o prêmio é um símbolo poderoso das relações históricas entre os povos de Cuba e da Rússia que sofreram em diferentes cenários, mas, que, hoje, se reforçam e se renovam”.

Che Guevara e Fidel Castro em 1961

A forte relação bilateral entre essas nações teve início na década de 1960 quando, em meio ao embate político-ideológico entre EUA e URSS ao longo do período conhecido como a Guerra-Fria, aconteceu a Revolução Cubana*, movimento liderado por personagens como FidelCastro e Che Guevara, que depôs o então presidente Fulgêncio Batista. Em 1961, Fidel Castro declarou publicamente a sua adesão ao comunismo internacional e sua opção pelo marxismo-leninismo, sendo que quatro anos depois fundou o Partido Comunista de Cuba.

A postura de Fidel Castro aproximou, definitivamente, cubanos da União Soviética. Sendo Cuba uma ilha geograficamente estratégica, situada no Caribe, os soviéticos viram em seu território uma oportunidade do estabelecimento de bases de mísseis nucleares que ficariam apontados para as cidades estadunidenses, e que, posteriormente, passariam por um dos piores desbalanceamentos de segurança internacional, no que ficou conhecido como a “Crise dos Mísseis” de 1962.

Mapa indicando localização de Cuba e da Rússia

Os 9.550 quilômetros que separam Havana de Moscou praticamente não tinham significância durante os 30 anos que perduraram os laços ideológicos e militares caracterizados pelo forte subsídio econômico oferecido a Cuba pela União Soviética (cerca de 4 bilhões de dólares anuais, ou R$ 16,4 bilhões ao câmbio atual). Com o colapso da URSS em 1991, a presença massiva dos soviéticos se retirou da ilha, deixando uma grave crise econômica para trás. Segundo estatísticas, em apenas dois anos após a retirada da ajuda econômica, o PIB (Produto Interno Bruto) de Cuba encolheu 35%, gerando a pior crise da história do país.

Embaixada da Rússia em Havana

Atualmente, a reaproximação por parte da Federação Russa vai de encontro ao processo de consolidação de sanções que os EUA aplicam contra a ilha, acusada de apoiar militarmente o governo venezuelano de Nicolás Maduro, outro aliado de Moscou. Segundo especialistas, a política adotada por Washington obriga a ilha caribenha a “abrir as portas” para uma maior presença não só da Rússia, mas, também, de outros países interessados nas vantagens geopolíticas e geoestratégicas da região, tais como a China.

Em 2018, os primeiros traços dessa reaproximação bilateral começaram a ser vislumbrados com a injeção de 1,392 bilhão de dólares (aproximadamente, 5,506 bilhões  de reais, de acordo com a cotação de 10 de maio de  2019), sendo 97% desse valor destinado a renovar linhas ferroviárias e implantar acordos em matéria de energia elétrica e nuclear, o que poderá aumentar em 20% a produção na ilha, além de implantar sistemas de cibersegurança; os 3% restantes serão destinados a modernizar a indústria militar cubana.

Segundo Ric Herrero, diretor do Grupo de Estudos sobre Cuba, que reúne cubano-americanos que defendem a abertura econômica e política do país, o processo de reaproximação “É parte de um esforço maior da Rússia para desestabilizar os Estados Unidos, mais do que para criar um satélite soviético a 90 milhas da costa norte-americana, como aconteceu na Guerra Fria”.

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Nota:

* A Revolução Cubana foi um processo revolucionário responsável pela derrubada do governo ditatorial imposto por Fulgêncio Batista, que resultou na tomada de poder da guerrilha liderada por Fidel Castro no ano de 1959. Apesar de, a princípio, não se basear em uma ideologia socialista, o movimento cubano acabou se alinhando ao comunismo soviético. Cuba tornou-se independente em 1898, a partir do apoio dos EUA contra a Espanha e, desde então, tornou-se uma espécie de “terreno” dos EUA, onde, conforme apontam alguns historiadores, inúmeros negócios norte-americanos se desenvolviam com lucros altíssimos ao realizar à exploração da economia cubana. O processo de oposição contra o poder em Cuba s e iniciou a partir do golpe político realizado por Fulgêncio Batista, em 10 de março de 1952, que resultou na derrubada do então presidente Carlos Prío Socarrás. A partir do golpe, Fulgêncio Batista instituiu uma forte ditadura militar com aguda repressão da imprensa e de qualquer movimento político de oposição e com ela se iniciou a luta de Fidel Castro e seus partidários. Pode-se afirmar, portanto, que o movimento liderado por Fidel Castro é, ao mesmo tempo, uma luta contra a ditadura de Fulgêncio Batista e também uma luta nacionalista contra as intervenções norte-americanas nos assuntos cubanos, tanto em questões políticas quanto em questões econômicas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Sede do Comitê Central do Partido Comunista, em Havana” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Cuba#/media/File:Comit%C3%A9_Central_PCC.jpg

Imagem 2 Che Guevara e Fidel Castro em 1961 ” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Cuba#/media/File:CheyFidel.jpg

Imagem 3 Mapa indicando localização de Cuba e da Rússia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/62/Cuba_Russia_Locator.svg

Imagem 4 Embaixada da Rússia em Havana” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Relações_entre_Cuba_e_Rússia#/media/File:Embassy_of_Russia_in_Havana_-_Nick_De_Marco.jpg

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Pena de morte na Guiné Equatorial e a CPLP

Tem sido questionada pelos Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) a permanência da Guiné Equatorial como participante integral na Comunidade, seguindo as bases constitutivas.

Este tópico diz respeito à existência da pena de morte na legislação do país, o que entra em conflito com os valores estabelecidos pela Concertação Político-Diplomática da CPLP, tais como o respeito aos direitos humanos, a liberdade dos cidadãos, a justiça social e a promoção da paz. De modo complementar, a Concertação Político-Diplomática também desenvolve o papel de incentivar o diálogo e a difusão de valores comuns.

Tal perspectiva foi apresentada pelo Primeiro-Ministro português, António Costa, em ocasião da V Conferência Portugal-Cabo Verde, realizada no arquipélago africano no mês de abril de 2019. Consequentemente, segundo a observação feita pelo Primeiro-Ministro, para que a Guiné Equatorial se mantenha na CPLP compreende-se a necessidade da readequação do país.

Teodoro Obiang, Presidente da Guiné Equatorial

O país integra o quadro de Estados membros plenos da Comunidade desde 2014, e com seu ingresso foi planificado um Roteiro de Adesão que incluía, entre outras determinações, o fim da pena de morte.

Em pronunciamento da Missão da Guiné Equatorial na CPLP, apontou-se que alterações jurídicas são complexas, contudo, apesar de existente, a pena de morte foi suspensa. Somada a contextualização do cenário jurídico do Estado, o comunicado discorreu brevemente sobre como o tratamento incisivo para com o país não é legítimo e pode comprometer a estrutura da Organização.

Igualmente no mês de abril de 2019, o presidente guineense Teodoro Obiang havia anunciado que será desenvolvido e encaminhado ao Parlamento uma proposta de lei voltada para a abolição definitiva das execuções. Faz-se importante observar que, além desta questão legislativa e política, há outras, como a permanência de Obiang como Presidente desde 1979, e o país também possui acusações de violação dos direitos humanos e da liberdade dos indivíduos, como apontou a Organização Anistia Internacional. 

O Palácio Conde Penafiel, sede da CPLP em Portugal

No que tange a CPLP e a plena participação da Guiné-Equatorial, a Organização enviará ao Estado uma missão técnica para a observação dos processos de adesão, tal como a promoção da língua portuguesa e, consecutivamente, fará considerações sobre a abolição da pena de morte. A missão que se dará no mês de maio próximo pretende elaborar um relatório sobre quais pontos necessitam ser aprimorados para a conclusão deste processo. Pode-se compreender que vários aspectos envolvem a inserção da Guiné Equatorial na CPLP. Desta forma, o desenvolvimento de missões da Organização e a cooperação com os Estados membros poderiam impulsionar os resultados esperados.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Bandeiras dos Estados membros da CPLP” (Fonte): https://news.un.org/pt/sites/news.un.org.pt/files/styles/un_news_full_width/public/thumbnails/image/2015/12/Cplp.jpg?itok=evhwG7Ih

Imagem 2Teodoro Obiang, Presidente da Guiné Equatorial” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Teodoro_Obiang_Nguema_Mbasogo#/media/File:Teodoro_Obiang_Nguema_Mbasogo_at_the_White_House_in_2014.jpg

Imagem 3 O Palácio Conde Penafiel, sede da CPLP em Portugal” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Pal%C3%A1cio_Conde_Penafiel,_Sede_da_CPLP,_em_Lisboa_02.jpg

ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A situação dos curdos na Síria

O conflito da Síria já se estende por mais de 8 anos e tem afetado profundamente a vida da maioria da população do país e na região. Em 23 de março de 2019, as tropas das Forças Democráticas Sírias (SDF, em inglês) anunciaram a vitória sobre o Estado Islâmico (EI, ou ISIS, de Islamic State of Iraq and the Levant – traduzindo, Estado Islâmico do Iraque e do Levante) em seu território, após expulsar o grupo terrorista da cidade de Baghouz. Esta era reconhecida como último enclave territorial do ISIS na Síria.

Apesar das vitórias, os curdos ainda não possuem certeza quanto ao futuro que terão após o fim do conflito. Desde 2014, o SDF também tem enfrentado constantes embates com forças do governo sírio. Com o fim dos combates com o Estado Islâmico, os curdos controlam uma extensa parcela territorial do norte e leste da Síria, sobre a qual esperam negociar condições para incrementar a própria autonomia, senão almejar uma condição de independência parcial frente ao governo em Damasco (Síria).

O território controlado pela administração curda representa hoje quase 25% da extensão total da Síria, além de fazer fronteira tanto com a Turquia quanto com o Iraque. A proximidade com estes vizinhos representa a necessidade de enfrentar outras frentes de negociação.

O governo turco reconhece a entidade política curda síria, as Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla em curdo), como associada aos curdos na Turquia, representados pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), compreendido pelos turcos como uma organização terrorista.

Por conta disto, o governo de Ankara possui severas restrições à autonomia curda no país vizinho. Com o fim dos conflitos contra o Estado Islâmico, foi percebido um aumento nas incursões militares e ataques do Exército turco contra forças do Curdistão sírio. Os turcos também requerem estabelecer e controlar uma “zona de segurança”, com 32 quilômetros de extensão, tanto entre a fronteira da Síria com a Turquia quanto com o Iraque.

O anúncio em princípios de 2019, por parte do presidente estadunidense Donald Trump, reforçou a situação de fragilidade para os curdos. A retirada dos soldados estadunidenses representa uma forte incerteza, uma vez que os Estados Unidos têm fornecido historicamente apoio tanto logístico quanto de recursos para os curdos, além do fato de a presença estadunidense frear o avanço de possíveis hostilidades.

Ante à ausência de Washington na negociação, a Rússia tem-se feito cada vez mais presente. Como Moscou detém bom trânsito junto à administração do presidente sírio Bashar al-Assad, e de sua contraparte turca, Recep Erdogan, tratou de destinar um grupo diplomático especializado para lidar com a situação. O foco das negociações por este lado tem sido demover os curdos do projeto de autonomia e aceitar a incorporação das suas forças no Exército sírio, leal a Assad.

O Presidente sírio, Bashar al-Assad, recebe em visita o Vice-Primeiro-Ministro para a Defesa da Rússia, Yuri Borisov, encarregado das negociações com a Síria

O Presidente sírio afirmou, segundo a Reuters, que os curdos não devem apoiar-se em Washington, e que somente a Síria pode defendê-los. Em um evento realizado em Moscou, uma assessora sênior da Presidência síria, Bouthaina Shaaban, afirmou à Reuters que “autonomia significa a partição da Síria. Nós não temos como dividir a Síria”.

Apesar da dificuldade em chegar a um acordo com o governo, Damasco também enfrentará resistência em reestabelecer as condições anteriores de sua relação com os curdos. Estes possuem uma memória extremamente presente do domínio do Baath (partido do governo de Assad) na região. Esta é relativa sobretudo à violência e repressões pelo governo central, como relatam veículos de mídia.

Por conta disso, trataram de estabelecer além de uma estrutura administrativa uma série de escolas, livrarias e manifestações cotidianas de autonomia. Retornar à condição anterior à guerra, quando o governo central proibia livros e expressões culturais no idioma curdo, é amplamente rejeitado pela população.

Os curdos afirmam estabelecer bases claras para a negociação, ao mesmo tempo em que enfrentam um crescente aumento da pressão por várias frentes. Com os Estados Unidos pressionando pela aceitação da entrada de tropas turcas, apresentaram ao Presidente sírio um plano para que possam chegar a um acordo. Ainda assim, deixam claro que não haverá incorporação de suas forças no Exército sírio sem uma contrapartida de autonomia política e que atos de violência serão respondidos com reações militares.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Combatente das Forças Democráticas Sírias posa em Rojava” (FonteTwitter oficial das Forças Democráticas Sírias @sdf_press1): https://twitter.com/sdf_press_1

Imagem 2O Presidente sírio, Bashar alAssad, recebe em visita o VicePrimeiroMinistro para a Defesa da Rússia, Yuri Borisov, encarregado das negociações com a Síria”(Fonte Twitter da Presidência da Síria. @Presidency_Sy): https://pbs.twimg.com/media/D4lsD8oW0AA3jXA.jpg