NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Onda de protestos no Iraque: causas e consequências

Uma série de protestos vêm ocorrendo no Iraque desde princípios do mês de outubro. Em manifestações marcadas por intensos confrontos com as forças de segurança iraquianas, a população tem exigido do governo o cumprimento de uma série de promessas de campanha.

O estopim para os atos ocorreu no dia primeiro de outubro, quando pessoas tomaram as ruas para exigir a renúncia do governo de Bagdá e do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi. Ainda que algumas fontes tenham reportado que o episódio estaria ligado à demissão do general Abdul-Wahab al-Saadi, figura popular do combate ao terrorismo no país, uma série de pautas tem sido agregadas com o passar dos dias.

No poder desde 2018, a atual gestão do Parlamento havia prometido implementar medidas para diminuir o abismo entre pobres e ricos, bem como implementar uma série de medidas para combater a corrupção no país.

Rapidamente os protestos ganharam adesão por todo o país, sobretudo entre jovens. Em meio ao processo de recuperação dos impactos produzidos pelo combate com o Estado Islâmico (EI), o Iraque enfrenta uma série de novos desafios.

Após a invasão pela coalizão liderada pelos Estados Unidos em 2003 e a subsequente queda do regime do partido Ba’ath, então liderado por Saddam Hussein, o Iraque atravessou distintos modelos de governos. Com o passar dos anos, as alternativas democráticas apresentadas falharam em resolver problemas estruturais e melhorar as condições sociais no país.

A população vem sofrendo com uma recorrente crise econômica e, sobretudo a juventude do país, vem enfrentando uma série de mazelas relativas à falta de perspectiva e ao desemprego. Segundo o Banco Mundial, em 2018 o Iraque apresentava uma taxa geral de desemprego de 7,9%, esta taxa sobe para 16,6% entre jovens.

Campanha desenvolvida pelo Observatório Iraquiano de Direitos Humanos contra a violência policial, expondo o slogan Não Atire em Mim (#DontShootMe/#لاترميني) – Página do Observatório de Direitos Humanos do Iraque no Twitter

Aliada às dificuldades econômicas, a falta de perspectiva no país e a decepção com a classe política se converteram em combustível para a insatisfação popular. A reação das autoridades locais repercutiu no mundo. A organização NetBlocks, que monitora as liberdades da internet, registrou que o governo local realizou cortes rotineiros de internet por pelo menos 3 dias seguidos. A movimentação foi considerada uma possível manobra para evitar a articulação da população para os protestos.

As Forças Armadas do Iraque reconheceram o uso excessivo da força durante o decorrer dos distúrbios no país. Ao longo do mês de outubro, registrou-se a morte de 157 pessoas nos protestos, sendo 149 civis e 8 membros das forças de segurança. Mais de quatro mil pessoas resultaram feridas durante os eventos.

Apesar da violência, os protestos demoraram a arrefecer, era comum identificar as pessoas que dissessem que “não havia mais nada a perder”. A renúncia do governador de Bagdá, Falah al-Gazairy, também não desmotivou as mobilizações. As marcas da violência geraram reações de distintos grupos da oposição que acusam o governo de promover ataques à população e podem gerar feridas difíceis de sanar em um futuro próximo.

Um grupo de trabalho organizado pelo Primeiro-Ministro realizou um levantamento do impacto dos protestos e o papel das Forças Armadas. Se levado adiante, será o maior julgamento de militares e responsabilização do governo no país.

Estes protestos são representativos do caminho que trilha o Iraque em seu processo de reconstrução. Para além dos conflitos e ameaças de grupos infra-estatais, a reestruturação e o diálogo com a sociedade representam o real desafio a ser enfrentado pelo governo no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Multidão reunida durante os protestos em Bagdá” (Fonte: Twitter oficial da Anistia Internacional no Iraque@AmnestyIraq): https://twitter.com/AmnestyIraq/status/1182263022485753856

Imagem 2 Campanha desenvolvida pelo Observatório Iraquiano de Direitos Humanos contra a violência policial, expondo o slogan Não Atire em Mim (#DontShootMe/#لاترميني) – Página do Observatório de Direitos Humanos do Iraque no Twitter” (Fonte): https://twitter.com/IraqHumanRights/status/1186336075624652800

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Grupo de 70 brasileiros deportados dos EUA e detidos no México retorna ao país

Na madrugada deste sábado, 26 de outubro, pousou no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, o Boeing 737-8Q8 prefixo N820TJ da Swift Air, fretado pelos Estados Unidos para transportar 70 brasileiros, deportados sumariamente do país.

O grupo, formado por 38 adultos e 32 crianças e adolescentes, incluía um bebê de um ano. A deportação ocorreu cerca de um mês após a sua tentativa frustrada de entrar ilegalmente em território norte-americano, através de sua fronteira com o México. Por esta circunstância, lá ficaram detidos na cidade de El Paso, por aproximadamente um mês, segundo informou a Polícia Federal à imprensa, onde esteve restrito o acesso a direitos básicos, como a banharem-se.

Esta modalidade de deportação obedece às novas regras vigentes no país desde julho último, e tem natureza sumária porque prescinde de instauração de um processo judicial ou administrativo que possibilite a avaliação de cada caso, dentre outros aspectos. As novas leis de imigração americanas têm alertado membros da sociedade e organizações de defesa de migrantes, que temem que ocorram deportações em massa, em razão do grande número de migrantes que vivem no país, sobretudo em situação de irregularidade.

Estudiosos como Erin Blakemore também têm reavivado a memória de episódios de deportação em massa pelos Estados Unidos, que faz parte da história do país, de forma que não sejam repetidos. Em 1955, o Estado deportou 1.300.000 trabalhadores mexicanos. A Operação Wetback, assim denominada esta campanha de deportação massiva americana, foi a maior do gênero, e devolveu ao México nacionais imigrantes em situação irregular, ainda que tenham entrado no país através de políticas de Estado, e, portanto, regularmente.

Deportados desembarcaram em Confins na madrugada deste sábado

A intensificação das migrações é um fenômeno que se manifesta no mundo, sobretudo a partir dos anos 1990. Os fluxos mais comuns se originam nos países em desenvolvimento, para os mais desenvolvidos, como os EUA e os europeus. Esta enorme demanda por entrar nestes países, regularmente, tem gerado políticas mais restritivas que não tem inibido a migração irregular, como a intentada por este grupo de brasileiros que, recorrentemente, são alvos de organizações criminosas de contrabandistas e traficantes de pessoas.

Ao passo que os Estados são soberanos para promover políticas migratórias em seus países, há, na atualidade, o imperativo de observarem o direito internacional que regula esta questão, de forma que sejam respeitados os direitos humanos, em particular previstos na Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias, adotada pela Resolução 45/158, de 18 de Dezembro de 1990, da Assembleia-Geral, e entrada em vigor em 1o de Julho de 2003.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Voo foi fretado pela agência federal norteamericana responsável por imigração e alfândega –  Foto: Polícia Federal/Divulgação” (Fonte): https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/10/26/condenado-por-homicidio-e-preso-apos-aviao-com-deportados-pelos-eua-desembarcar-em-confins.ghtml

Imagem 2Deportados desembarcaram em Confins na madrugada deste sábado (26) –  Foto: Polícia Federal/Divulgação” (Fonte): https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/10/26/condenado-por-homicidio-e-preso-apos-aviao-com-deportados-pelos-eua-desembarcar-em-confins.ghtml

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Esforços para paz e inclusão das mulheres na Somália

Amina Mohammed, vice-secretária geral da Organização das Nações Unidas, realizou uma visita à Somália no dia 23 de outubro de 2019. O evento foi uma realização conjunta de uma viagem para a região do Chifre da África com a União Africana, dando ênfase na mulher, paz e segurança. A delegação foi composta também por Bineta Diop, enviada especial da União Africana para Mulheres, Paz e Segurança, e Parfait Onanga-Anyanga, enviado especial do Secretário-Geral para o Sudeste Africano.

O grupo foi recebido por Hassan Ali Khayre, Primeiro-Ministro, e Ministros do governo na capital Mogadíscio. Foram ressaltadas a importância sobre a participação efetiva das mulheres nas eleições e sua credibilidade, ações para o combate do extremismo e desenvolvimento econômico do país, além da busca pela paz e estabilidade. Foi um momento significativo para trocar experiências e aprender as ações governamentais nessas áreas. Também encontraram funcionários da Missão de Assistência das Nações Unidas na Somália (UNSOM) e do Escritório de Apoio às Nações Unidas na Somália (UNSOS), Agências da ONU, Programas, entre outras instituições.

Mulher somali em vestido tradicional Circa .

Amina Mohammed declarou que ainda há progresso a ser feito para atingir a igualdade de gênero em suas diversas facetas. No entanto, foi notado o engajamento das mulheres somalis em diversos setores e seu comprometimento para transformar o papel da mulher na sociedade, abandonando a antiga visão tradicional, para criar espaço e atingir seu potencial.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Reunião entre ONU, União Africana e autoridades da Somália” (Fonte): https://twitter.com/AminaJMohammed/status/1187035692607705089/photo/1?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1187035692607705089&ref_url=https%3A%2F%2Fnews.un.org%2Fpt%2Fstory%2F2019%2F10%2F1691931

Imagem 2Mulher somali em vestido tradicional Circa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Women_in_Somalia#/media/File:Somali_woman_in_traditional_dress_Circa_1940.jpg

AMÉRICA LATINAÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Bolsonaro visita Pequim, mas não dá sinais de que o Brasil ingressará na Iniciativa do Cinturão e Rota

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro se encontrou com o seu congênere chinês, Xi Jinping, em Pequim, na sexta-feira (25 de outubro de 2019). Na ocasião, ambos os lados se comprometeram a melhorar o investimento bilateral, mas não houve comprometimento da parte do Brasil em relação ao ingresso na Iniciativa do Cinturão e Rota, informa o jornal South China Morning Post.

Xi afirmou para Bolsonaro que “a China e o Brasil devem continuar a apoiar o desenvolvimento mútuo, dar prioridade ao desenvolvimento de relações diplomáticas e avançar sua ‘parceria estratégica compreensiva’”. Ambos os líderes reconheceram que a Iniciativa do Cinturão e Rota “pode vir a ser integrada” às iniciativas brasileiras de desenvolvimento. Contudo, Brasília não realizou um comprometimento claro de que ingressará no ambicioso projeto de infraestrutura promovido por Pequim.

Em um fórum na sexta-feira (25 de outubro de 2019), Bolsonaro apontou que “China e Brasil nasceram para caminhar juntos” e asseverou: “Estamos alinhados em mais coisas além da questão comercial”. Durante o evento, o Vice-Primeiro-Ministro da China, Hu Chunhua, declarou que a China deseja aumentar suas importações de bens industriais e agrícolas do Brasil, e que os dois países podem aprofundar a cooperação em áreas como a de infraestrutura. Em novembro de 2019, Xi Jinping participará do Fórum Econômico da Ásia-Pacífico, no Chile, e espera-se que o Presidente chinês também visite o Brasil para o encontro anual da Cúpula do BRICS, em Brasília.

Plantação de soja no Mato Grosso

A China tem figurado como o maior parceiro comercial do Brasil por uma década e é sua principal fonte de investimento externo. O comércio entre as duas nações atingiu a marca dos 100 bilhões de dólares em 2018 (aproximadamente 400,4 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 25 de outubro de 2019), e a China é o maior importador de produtos brasileiros, principalmente commodities, como soja, algodão e milho. Há a expectativa de que o Brasil venda mais soja para a China devido à guerra comercial entre Washington e Pequim, e o país espera aumentar suas exportações de carne processada para a China, enquanto a nação asiática lida com os efeitos devastadores da epidemia de febre suína africana.

A viagem de três dias de Bolsonaro ao país marcou o 45º aniversário de relações diplomáticas entre os dois Estados. Analistas observam que a viagem de Bolsonaro teve a função de remediar os efeitos de suas declarações acerca dos investimentos chineses no Brasil, realizadas durante a campanha presidencial de 2018. À época, Bolsonaro afirmou que “Os chineses não estão comprando no Brasil. Eles estão comprando o Brasil”. A pesquisadora brasileira Karin Costa Vazquez, do Centro de Estudos sobre BRICS, da Universidade Fudan, em Xangai, aponta: “Os diversos desentendimentos criados em relação à China no começo do governo Bolsonaro são um reflexo de um problema estrutural do Brasil: a nossa visão de mundo eurocêntrica”. E indica: “Nós temos uma visão ultrapassada e estigmatizada sobre a China…Teremos que esperar e ver como se desenvolverá a Cúpula do BRICS em novembro”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente Jair Bolsonaro se encontra com o Presidente da China, Xi Jinping, em Pequim” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=BOLSONARO+XI&title=Special%3ASearch&go=Go&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Bolsonaro_Xi_Jinping_China_2019.jpg

Imagem 2 Plantação de soja no Mato Grosso”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=SOJA+MATO+GROSSO&title=Special%3ASearch&go=Go&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Ronodonópolis_colheita_soja_(Roosevelt_Pinheiro)_28mar09.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Semana agitada põe em risco “Halloween Brexit” de Boris Johnson

Dia 31 de outubro de 2019, a data atualmente marcada para a saída oficial do Reino Unido da União Europeia (UE), é a mesma em que se comemora o Halloween (chamado de Dia das Bruxas no Brasil) nos países anglo-saxônicos. Coincidência à parte, os últimos dias foram tensos com os recentes acontecimentos sobre o Brexit – processo que se arrasta desde o referendo de 23 de junho de 2016, que decidiu pela saída do país da UE.

Boris Johnson, Primeiro-Ministro britânico – Chatham House

O primeiro-ministro Boris Johnson declarou várias vezes que o Reino Unido sairá, com ou sem um acordo, no dia 31 de outubro de 2019, e inclusive que preferiria “morrer em uma vala” (“die in a ditch”, em inglês) do que pedir um novo adiamento. O fato de o Brexit acontecer no dia do Halloween, porém, pode estar ameaçado. Apesar de o governo de Boris Johnson ter conseguido modificações importantes em relação ao acerto chegado entre ambas as partes, ainda sob a direção de Theresa May, o Parlamento britânico votou uma Emenda que, na prática, pode forçar à uma nova prorrogação do prazo de saída.

Abaixo, o Ceiri News faz um resumo dos principais acontecimentos da semana, para entender um pouco melhor o que está ocorrendo com o Brexit:

Quinta-feira, dia 17 de outubro de 2019Reino Unido e países membros da UE oficializam mudanças no acordo sobre o Brexit. Substancialmente, há pouca diferença em relação ao negociado durante o Governo de Theresa May, que foi rejeitado diversas vezes pelo Parlamento. A mudança principal ocorreu com o chamado Irish Backstop” (“Salvaguarda Irlandesa”), um mecanismo que manteria a Irlanda do Norte debaixo das regras do Mercado Comum Europeu e o Reino Unido como um todo dentro do território europeu de tarifa única (União Aduaneira). Dessa maneira, seria evitada a construção de uma barreira física com a República da Irlanda*.

Boris Johnson e Donald Tusk (Presidente do Conselho Europeu) durante reunião da cúpula dos países membros da UE – dia 17 de Outubro de 2019 – que selou mudanças no acordo de saída do Reino Unido

De acordo com a nova revisão do Tratado, a Irlanda do Norte permaneceria no território tarifário do Reino Unido e estaria inclusa em quaisquer negociações comerciais feitas com outros países. Produtos vindos da UE teriam tarifas aplicadas somente quando cruzassem o mar em direção à ilha da Grã-Bretanha. Os produtos de origem na Grã-Bretanha, por sua vez, serão avaliados por um comitê conjunto entre a UE e o Reino Unido, que decidirá se o produto se destina ou não ao Mercado Europeu, e estará ou não sujeito às taxas aduaneiras. Além disso, o novo Tratado dá à Assembléia Nacional da Irlanda do Norte o direito de ser consultada a cada 4 anos para aprovar ou rejeitar a continuação do esquema.

Sábado, dia 19 de outubro de 2019 –Apelidado de “Super-Sábado” (“Super-Saturday”) pela mídia britânica, a data ficou marcada pela sessão extraordinária do Parlamento, ocorrida pela última vez em 1982, em decorrência da Guerra das Malvinas. A urgência se deu pelo fato de que, em setembro, uma lei chamada “Benn Act (nomeada, por ter sido proposta pelo deputado trabalhista Hilary Benn) decretou que, caso até o dia 19 de setembro de 2019 um acordo não tivesse sido aprovado, o Governo seria obrigado a escrever para a UE requerendo um novo adiamento da data de saída. Enquanto se aguardava a aprovação do Tratado revisado, milhares de manifestantes a favor de um novo referendo tomavam conta das ruas de Londres.

Manifestantes, nas ruas do centro de Londres, pedem um novo referendo – Sábado dia 19/10/2019

Porém, o “Super-Saturday” acabou frustrando os planos de Boris Johnson de ter seu acordo aprovado. Oliver Letwin, deputado que foi expulso recentemente do Partido Conservador por tentar bloquear o Brexit, propôs uma Emenda que obriga o Governo a primeiro apresentar as leis necessária para implementar o Tratado. Somente depois de tal legislação ser aprovada o Parlamento poderia votar para ratificar ou não o acordo com a UE. A Emenda foi aprovada com 322 votos a favor e 306 contra, uma derrota árdua para o Primeiro-Ministro.

Carta assinada por Boris Johnson. O Primeiro-Ministro diz que o adiamento do Brexit ‘poderá prejudicar os interesses do Reino Unido e de seus parceiros da EU

A aprovação obrigou o Governo, à contragosto, a escrever oficialmente para a Presidência do Conselho Europeu** requerendo um novo adiamento da data de saída. A carta foi enviada, contudo, sem assinatura, solicitando a prorrogação para o dia 31 de Janeiro de 2020. Logo em seguida, Boris enviou outra carta, desta vez assinada, expressando sua insatisfação em relação à nova prorrogação.

Segundafeira, dia 21 de Outubro de 2019 – O Governo tenta mais uma vez a ratificação do acordo junto ao Parlamento. Porém, John Bercow, o Speaker of the House of Commons (cargo equivalente ao de Presidente da Câmara dos Deputados no Brasil), barrou nova votação. O Speaker justificou que a Emenda de Letwin “explicitamente especificou que a legislação deveria vir primeiro”, desta maneira, confirmando que uma nova votação sobre o Acordo só seria possível se as leis necessárias para a saída fossem implementadas. Na mesma noite, porém, o Gabinete de Johnson apresentou uma proposta de lei de 110 páginas, para que fosse submetida à avaliação dos Deputados.

John Bercow, o Speaker do Parlamento Britânico, é quem tem poder para decidir quais propostas podem ser votadas, segundo as regras da Casa – UK Parliament

Terça feira dia 22 de outubro – Correndo contra o relógio, o Governo levou ao Parlamento a lei para a implementação do Brexit (EU Withdrawal Agreement Bill). A proposta foi acatada pelos legisladores com uma maioria de 329 votos a favor e 299 contra. Porém, logo em seguida uma nova votação estremeceu as intenções governistas. Com 322 votos contra e 302 a favor, o cronograma planejado por Boris Johnson, que permitiria uma aprovação em tempo hábil, foi rejeitado. 

O que poderá acontecer agora?

As chances de o Primeiro-Ministro comemorar o Halloween, com a saída no dia 31 de outubro, estão cada vez mais remotas. A posição natural do Reino Unido seria de automaticamente se desligar da UE, sem um acordo, caso um não fosse aceito. Mas, a legislação atual (Benn Act, mencionada acima), obriga legalmente o governante a pedir uma nova prorrogação.

A alternativa, seria torcer para que, pelo menos, um dos países membros da UE vetasse uma nova extensão. Porém, a tendência é de que o Bloco aprove a prorrogação com unanimidade. Tudo indica que, caso uma nova data para o Brexit seja aceita (provavelmente o dia 31 de Janeiro de 2020), os britânicos poderão ter uma eleição para um novo Governo, ainda antes de dezembro. Caso algum Partido consiga a maioria, o mesmo obterá maior controle sobre o processo. O Brexit, em janeiro, poderia também facilitar a ocorrência de um novo referendo, já que Partidos como os Liberais Democratas e os Trabalhistas apoiam essa opção. 

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Notas:

* A Irlanda do Norte é localizada no norte da ilha da Irlanda. O país é parte do Reino Unido e faz divisa ao sul com a República da Irlanda. Apesar de o Reino Unido e a República da Irlanda serem dois países distintos, não há fronteiras físicas entre os dois, fato possível por ambos fazerem parte do Mercado Comum Europeu, o que permite a livre circulação de bens e pessoas. A região, contudo, historicamente, sofre com conflitos entre aqueles que advogam pela unificação da ilha, e aqueles que querem se manter como parte do Reino britânico. Para maiores informações: http://ceiri.news/irlanda-do-norte-e-a-questao-da-fronteira-com-a-republica-da-irlanda-diante-do-brexit/

** O Conselho Europeu é o órgão da União Europeia que reúne os Chefes de Estado ou Governo dos países membros. O polonês Donald Tusk é o atual Presidente do órgão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestantes durante marcha em favor novo referendo20 de Outubro de 2018 / autor Mary E Carson” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Brexit_March_Death_among_the_demonstrators.jpg

Imagem 2Boris Johnson, PrimeiroMinistro britânicoChatham House” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/chathamhouse/26147764939

Imagem 3Boris Johnson e Donald Tusk (Presidente do Conselho Europeu) durante reunião da cúpula dos países membros da UE dia 17 de Outubro de 2019 que selou mudanças no acordo de saída do Reino Unido © European Union” (Fonte): https://newsroom.consilium.europa.eu/permalink/p91861

Imagem 4Manifestantes, nas ruas do centro de Londres, pedem um novo referendo Sábado dia 19/10/2019” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/threefishsleeping/48928157071

Imagem 5Carta assinada por Boris Johnson. O PrimeiroMinistro diz que o adiamento do Brexit poderá prejudicar os interesses do Reino Unido e de seus parceiros da EU” (Fonte): https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/840660/PM_to_Donald_Tusk_19_October_2019.pdf

Imagem 6John Bercow, o Speaker do Parlamento Britânico, é quem tem poder para decidir quais propostas podem ser votadas, segundo as regras da Casa UK Parliament” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/uk_parliament/48710692842/

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Mortos durante prece na Mesquita em Burkina Faso

Na sexta-feira a tarde, dia 11 de outubro, homens armados, ainda não identificados, entraram na Grande Mesquita na vila de Salmossi matando os frequentadores que realizavam suas preces. Cerca de 15 pessoas foram mortas e 4 foram severamente feridas. Segundo um residente de uma cidade próxima, “apesar do reforço militar, há um clima de pânico e diversas pessoas começaram a fugir da área”. No dia seguinte, cerca de 1.000 pessoas se reuniram para protestar na capital do país, Ouagadougou, para reivindicar a saída de tropas estrangeiras no terreno e denunciar a violência e o terrorismo.

Segundo Andrew Mbogori, porta-voz da Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), aproximadamente 486.000 pessoas foram forçadas a abandonar a região, tornando-se deslocadas internas, sendo 267.000 delas apenas nos últimos três meses. Adicionou também que é “uma emergência humanitária sem precedentes”. Os relatos demonstram que, desde 2018, por volta de 500 pessoas foram mortas em 472 atentados e operações contra-militares. O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas comunicou ao Conselho de Segurança durante a reunião sobre paz na África, na segunda-feira, dia 7, que a disseminação de redes terrorista nas fronteiras africanas é uma ameaça que resulta em violência e escassez de recursos.

Membro do grupo armado ISIS

Diversos setores estão sendo afetados pela insegurança. Quase 3.000 escolas foram fechadas e a economia predominantemente rural está sendo impactada pela falta de condições para que o comércio ocorra. A situação vem se agravando desde 2015 com o aumento da violência relacionado a grupos armados como al-Qaeda e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS). Há um aumento de tensões étnicas e religiosas, principalmente no norte de Burkina Faso, pela fronteira com o Mali, uma rota de acesso desses conglomerados.

Mapa de Burkina Faso e países fronteiriços

As forças de segurança do país apresentam desafios em questões de equipamento e treinamento, bem como não puderam impedir a propagação da violência no país. Ainda assim, parte da população se opõem às tropas estrangeiras. Segundo Gabin Korbeogo, um dos organizadores da manifestação, “o terrorismo se tornou um pretexto ideal para implantação de bases militares de outras nações em nosso território. Franceses, americanos, canadenses, alemães e outros vieram para cá querendo combater o terrorismo, mas cada vez mais esses grupos armados se fortalecem”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Operação militar contra o terrorismo em março de 2019 na capital de Burkina Faso” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Terrorism_in_Burkina_Faso#/media/File:Burkina_Faso_Response_by_Military_to_Terrorism.jpg

Imagem 2 “Membro do grupo armado ISIS” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_Islâmico_do_Iraque_e_do_Levante#/media/Ficheiro:İD_bayrağı_ile_bir_militan.jpg

Imagem 3 “Mapa de Burkina Faso e países fronteiriços” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Burkina_Faso#/media/Ficheiro:Burkina_Faso_carte.png