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Rússia e EUA: aspectos políticos sobre a crise da Venezuela

Uma nova etapa da crise política da Venezuela tomou forma, no dia 30 de abril de 2019, quando o autoproclamado Presidente, Juan Guaidó, lançou o que foi chamado de “a fase final da Operação Liberdade”, um movimento iniciado em janeiro deste ano (2019), e que envolveu tanto civis como militares em uma ação para a derrubada do atual presidente Nicolás Maduro.

Para analistas internacionais, a ação não só poderá resultar num conflito civil de grandes proporções, o que causará mais desalento a já cambaleante nação venezuelana, como também é mais uma peça a ser somada ao cenário geopolítico que esta ressuscitando velhos fantasmas ideológicos na região, por conta da repercussão internacional envolvendo EUA e Rússia.

Considerando aspectos históricos na relação entre as duas nações, a extinta URSS (União das Republicas Socialistas Soviéticas) geralmente evitava intervir diretamente na América Latina durante a Guerra Fria, e os Estados Unidos adotavam postura semelhante na Europa Oriental. Ambas as regiões eram consideradas “zonas de influência” das superpotências globais, onde cada qual tinha um amplo controle político e militar na sua respectiva Zona, ao menos oficialmente, levando-se em consideração a exceção que foi o caso de Cuba*.

Protestos na Venezuela

Passadas quase três décadas da dissolução da União Soviética, a Federação Russa adentra no território latino-americano como principal protagonista estrangeiro, dando sustentação internacional crucial a Nicolás Maduro, cujo governo, e o de seu antecessor, o presidente Hugo Chávez (1999-2013), assumiram fortes laços político-econômicos com o Governo russo, principalmente no tocante à aquisição de material bélico, tais como aviões de combate, tanques e sistemas de defesa aérea, deixando claro que a Venezuela não é mais considerada como um país sob influência dos EUA.

A ideia da influência norte-americana sobre a América Latina remete aos princípios da doutrina Monroe, implementada pelo presidente americano James Monroe, em 1823, que se resumia na frase “América para os americanos”, estabelecendo que qualquer intervenção europeia em qualquer território do continente americano seria vista como uma agressão que demandaria a intervenção dos EUA, espalhando, assim, sua própria hegemonia sobre a região.

A força dessa ideologia permanece nos dias de hoje ao ser evocada pelo Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, para justificar a política norte-americana para a Venezuela, principalmente pelo fato da presença explicita de comitiva militar russa em território venezuelano, o que, para especialistas, é algo excepcional, mesmo para os antigos parâmetros da Guerra Fria.

A Rússia, por sua vez, destaca que sua presença na Venezuela foi pactuada com o Governo daquele país e está de acordo com as leis internacionais, além de ressaltar que irá criar grupo internacional para atuar contra os planos de intervenção militar norte-americana, o que, segundo o Kremlin, iria contra os preceitos do Direito Internacional e da Constituição da Venezuela. O chanceler russo Sergei Lavrov informou que as posições de Moscou e Washington sobre a crise no país sul-americano são “inconciliáveis”, mas ressaltou que as autoridades russas estão dispostas e prontas ao diálogo.

Jornalista ferido em confrontos na Venezuela

Enquanto o embate político entre EUA e Rússia tomam proporção, órgãos internacionais como ONU (Organização das Nações Unidas), OEA (Organização dos Estados Americanos) e União Europeia, através do Grupo de Contato Internacional (ICG – International Contact Group) apelaram para uma solução pacífica e democrática desenvolvida pela própria Venezuela, respeitando os direitos humanos e as liberdades civis, e que, de uma forma urgente, terminem com a terrível situação humanitária a qual se agravou com os últimos acontecimentos.

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Nota:

* Em 1962, quando um avião espião dos EUA descobriu a instalação de mísseis nucleares soviéticos na ilha, o mundo chegou à beira de uma guerra nuclear. O episódio ficou conhecido como a “crise dos mísseis.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Confrontos entre manifestantes e a polícia na Venezuela” (Fonte): https://www.hrw.org/view-mode/modal/303179

Imagem 2 Protestos na Venezuela” (Fonte): http://www.as-coa.org/sites/default/files/styles/tab_content_detail/public/VenProtest643.jpg?itok=1GEYMUV_

Imagem 3 Jornalista ferido em confrontos na Venezuela” (Fonte): https://www.hrw.org/view-mode/modal/329828

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Tensão política com o referendo no Egito

Os egípcios foram às urnas do dia 20 ao dia 22 de abril de 2019 para votar uma série de mudanças na Constituição do país. Compareceram 27 dos 61 milhões de eleitores aptos e 88% dos votos foram a favor da aprovação das medidas propostas pelo presidente egípcio Abdel Fatah el-Sisi.

Antes de ser submetida ao referendo, a proposta também foi aprovada no Parlamento. O Egito possuí um sistema unicameral, e os governistas são ampla maioria na Câmara dos Deputados. Dos 596 deputados, 522 votaram a favor das reformas.

A taxa de comparecimento de cerca de 44% não é muito distinta da observada nas eleições presidenciais de 2018. Meios de comunicação como a Reuters e a CNN reportaram uma série de suspeitas quanto à compra de votos e coerção dos votantes.

Conforme foi noticiado, comerciantes no Cairo afirmaram que foram coagidos pelas forças de segurança do governo a colocar cartazes manifestando apoio à aprovação das medidas. Segundo declaração à agência Reuters feita por Ahmed al-Tantawi, a liderança da oposição no Parlamento, os primeiros dias de votação foram de “cédulas e caixa de papelão”. A referência é ao fato de que ativistas relataram soldados entregando comida para pessoas saindo dos locais de votação.

Foram propostas 14 Emendas para a Constituição egípcia. Elas alteram vários pontos do funcionamento do sistema político. Dentre estes destacam-se a criação de um Senado, do qual o Presidente indicará 1/3 dos membros, e a atual Câmara Baixa será reduzida de 596 para 450 membros.

Al-Sisi, também conseguiu que fosse aprovada a alteração tanto na duração quanto no número máximo dos mandatos para o Presidente do país. Reeleito em abril de 2018 para um segundo termo, ele não poderia reapresentar-se nas próximas eleições. Com as mudanças previstas, o mandato presidencial estende-se a 6 anos com validade imediata e abre a possibilidade de um terceiro termo.

Abdel Fatah el-Sisi posa em trajes militares quando ainda servia como Ministro da Defesa, em 2013

Ou seja, o mandatário não precisará passar pelas urnas até 2024, quando poderá apresentar-se à outra reeleição, podendo permanecer no cargo até 2030. Al-Sisi também ganhou poder sobre o judiciário, como a capacidade de escolher juízes, a Presidência da Suprema Corte e o Procurador-Geral do país. Os militares terão estendidas suas capacidades políticas e de polícia. Cortes militares poderão levar civis à juízo.

Aliados e defensores do atual Presidente afirmam que as medidas são necessárias para garantir a estabilidade que o país precisa para crescer economicamente. Desde o turbulento período político que se seguiu à saída de Hosni Mubarak, em 2011, o Egito tem enfrentado dificuldade de retomar crescimento econômico.

Os partidos de oposição e ativistas internacionais expressaram suas preocupações com a concentração de poder nas mãos do Executivo, bem como temor quanto à preservação das liberdades e direitos humanos. Said Bernabia, diretor da Comissão Internacional de Juristas para o Oriente Médio e Norte da África declarou à Al Jazeera que “os militares e o executivo do Egito subordinaram o poder judiciário e o escritório do procurador geral à sua vontade política” e que isto poderia “sustentar a repressão aos direitos humanos no país”.

A Human Rights Watch publicou uma declaração afirmando que as reformas aprofundam o risco da consolidação do autoritarismo no país. O diretor da HRW para o Oriente Médio e Norte da África afirmou nesta oportunidade que o governo deveria “suspender os esforços para aprovar essas emendas ameaçando, desaparecendo e perseguindo críticos e dissidentes pacíficos”. Autoridades egípcias negam qualquer descumprimento das normas legais no processo eleitoral.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Foto da bandeira do Egito registrada durante a realização do referendo (Fonte Página oficial do Conselho Internacional de Juristas / ICJ):

https://www.icj.org/wp-content/uploads/2013/03/Egypt-flag-1-1400×978.jpg

Imagem 2 Abdel Fatah elSisi posa em trajes militares quando ainda servia como Ministro da Defesa, em 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Egyptian_Minister_of_Defense_Abdel_Fatah_Al_Sisi.jpg
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O estreitamento das relações China – Rússia

No dia 25 de abril, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, chegou à China para participar do Segundo Fórum do Cinturão e da Rota para a Cooperação Internacional. Mais de 30 líderes de diferentes países encontraram-se em Beijing para esse Encontro que reúne iniciativas do Cinturão Econômico da Rota da Seda e da Rota da Seda Marítima do século XXI. Embora o foco da delegação russa fosse essa Conferência multilateral, Putin realizou também reuniões bilaterais, inclusive com o presidente chinês Xi Jinping.

O foco da conversa dos dois líderes foi o avanço das relações econômicas e comerciais entre seus países. Em 2018, o comércio cresceu 24,5%, totalizando um recorde de 108 bilhões de dólares (aproximadamente, 425,1 bilhões de reais, conforme cotação de 30 de abril de 2019), valor que ultrapassou as expectativas estabelecidas de 100 bilhões de dólares (em torno de 393,6 bilhões de reais, de acordo com a mesma cotação). O estreitamento da diplomacia foi igualmente colocado em pauta, visto que este ano (2019) é o aniversário de 70 anos das relações entre China e Rússia. Sobre isso, Putin destacou que “a Rússia está determinada a expandir a parceria estratégica com a China em todas as áreas, como sempre esteve ao longo das últimas décadas”.

Outra questão discutida foi a crise que a Venezuela vem enfrentando ao longo dos últimos meses. China e Rússia são dois dos poucos países no mundo que demonstram apoio ao presidente Nicolas Maduro, enquanto que Estados Unidos, membros do Grupo de Lima (excluindo o México), a Organização dos Estados Americanos e a maioria dos países da União Europeia apoiam o líder da oposição, Juan Guaidó. Diante desse cenário, Xi Jinping e Putin destacaram que a pressão externa para que seja adotado o uso da força para depor Maduro é inaceitável.

Durante a reunião bilateral entre a delegação russa e a delegação chinesa

De acordo com o porta-voz russo do Kremlin, Dmitry Peskov, “tanto os chineses quanto o nosso líder [Putin] destacaram que é totalmente inaceitável quando tentam derrubar autoridades em um terceiro país, quando tenta-se o uso da força e a pressão internacional ilegal contra um Estado soberano”. Peskov destacou que ambos os presidentes concordam que o próprio povo venezuelano deve decidir sobre o futuro do seu país, não sendo aceitável a interferência de outros Estados.

A partir do Encontro de Putin e Xi Jinping, especialistas apontam que as relações entre os dois países se encontram numa posição positiva. Um dos resultados direto dessa aproximação foi o anúncio da criação de um fundo denominado em Yuan (moeda chinesa) para investimentos conjuntos no dia 28 de abril. De acordo com o comunicado liberado pelo Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), “o Fundo foca principalmente no investimento em projetos estrategicamente importantes na Rússia e na China em igual proporção, colocando-se como o primeiro e mais importante exemplo de implementação de cooperação regional entre dois países (região de Moscou, extremo-leste e nordeste da China). Para projetos chineses, será dado maior foco a projetos relacionados com a Nova Rota da Seda e outros setores em perspectiva”.

A partir de observações de analistas internacionais, percebe-se que China e Rússia estão paulatinamente criando condições para que a cooperação bilateral entre eles evolua para questões maiores, como a possibilidade de maior protagonismo mundial em áreas como diplomacia, finanças e comércio internacional.

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Notas:

* 108 bilhões de dólares, pela cotação do dia 30 de abril de 2019 equivale a, aproximadamente, 425,1 bilhões de reais.

** 100 bilhões de dólares pela cotação do dia 30 de abril de 2019 equivale a, aproximadamente, 393,6 bilhões de reais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e Presidente da China, Xi Jinping, antes da conversa bilateral” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/UB7yKAsnrCbQiiBAasY5NGcvfSY356Dj.jpg

Imagem 2Durante a reunião bilateral entre a delegação russa e a delegação chinesa” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/rSaIaNmASnwhRSYVe1GCzkAXRwKDGBnN.jpg

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Chile estreita relações com a China

Sebastián Piñera, Presidente do Chile, esteve em visita à China de 24 a 28 de abril de 2019, onde firmou Plano de Ação 2019-2022 com catorze matérias. A pauta incluiu as áreas de política, comércio, ciência, tecnologia, inovação e empreendimento, nas quais ambos ao países aprofundarão a cooperação pelos próximos três anos.

Piñera foi recebido por Xi Jinping, Presidente da China, no Grande Palácio do Povo, onde assinaram o acordo, e  encontrou-se também com o líder do Parlamento Chinês, Li Zhanshu, com quem tratou de intercâmbio de acadêmicos e capacitação de técnicos.  Com o Primeiro-Ministro, Li Keqiang, o diálogo versou sobre relações econômicas e investimentos chineses em transporte, energia e infraestrutura no Chile.

Piñera fala a empresários chineses, em almoço de negócios

A agenda seguinte incluiu diversas atividades, tais como:  visita à Didi, empresa de transporte por aplicativos, que iniciará operação em território chileno ainda em 2019; almoço de negócios com executivos de 16 grandes empresas chinesas, onde se discutiu a ampliação das relações comerciais; reunião com empresas de eletromobilidade, dentre elas a BYD e a Yutong. Entre dezembro de 2018 e março de 2019, as 2 empresas forneceram ao Governo Chileno um total de 200 ônibus 100% elétricos, a maior frota da América Latina, e que torna o Chile, depois da China, o país com mais ônibus elétricos em circulação.

Em 25 de abril, em um fórum de investimentos e inovação, Piñera declarou que deseja fazer do Chile uma porta de entrada para que empresas chinesas alcancem todo o continente latino-americano. E foi o único Chefe de Estado da América Latina a participar do II Fórum Cinturão e Rota para a Cooperação Internacional (26 de abril). Ele também inaugurou um evento de promoção de vinhos na capital, Pequim, no dia 25. O país asiático tornou-se o principal destino do produto chileno depois que o volume importado se ampliou de 200 mil caixas em 2006 para 8 milhões em 2018.

A relação sino-chilena, que completará 50 anos em 2020, tem alguns marcos importantes: o Chile foi o primeiro país sul-americano a estabelecer laços diplomáticos com Pequim, em 1970, e o primeiro na América Latina a estabelecer acordo bilateral e reconhecer o status de economia de mercado da China, quando do seu ingresso na OMC. Em 2005 foi assinado o primeiro Tratado de Livre Comércio, nas gestões de Ricardo Lagos (Chile) e Hu Jintao (China).

Piñera, único Chefe de Estado da América Latina no II Fórum do Cinturão e Rota

Os laços têm sido reforçados nestes últimos treze anos em que Michele Bachelet e Sebastián Piñera tem se alternado no Governo chileno. Na primeira visita de Xi Jinping ao Chile, em 2016, ele e Bachelet elevaram a relação para uma parceria estratégica abrangente, que já vinha sendo gestada desde 2013, com Piñera. O comércio foi multiplicado sete vezes de 2006 a 2018 e, atualmente, a China é o destino de 28% das exportações do Chile, e seu principal parceiro comercial. A parceria extrapola o campo do comércio e, em 2018, uma frota naval chinesa visitou o país andino, onde realizou exercícios militares com a Armada chilena.

Recentemente, em início de abril de 2019, esta união foi criticada pelo Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que também criticou a presença chinesa na América Latina. Piñera declarou em Pequim que cada país tem o sistema político que deseja, mas o que importa neste caso é que Chile e China estão buscando ações pragmáticas que gerem benefícios a ambos os povos. Este giro pela Ásia incluiu uma visita à Coreia do Sul, no domingo (28 de abril), com retorno a Santiago na segunda-feira (29).

Pesquisa recente elaborada pela empresa chilena Cadem, com chilenos que tem conhecimento da guerra comercial entre EUA e China, apresentou os seguintes resultados: mais da metade dos chilenos (51%) acredita que o Chile deve estreitar a relação com os chineses, 25% entende que deve ser com os EUA e 15% com ambos. Os respondentes também reconhecem que é a China (60%) e não os EUA (33%) o principal parceiro comercial do seu país. No que se refere à boa imagem dos aliados, a China obteve 77% versus 61% de adesão aos norte-americanos e Xi Jinping tem mais que o dobro (61%) de Trump (30%).

A pesquisa de 24 de abril de 2019, denominada Estudo 275, avaliou também o desempenho do Gabinete do Governo Piñera com 48% de desaprovação e apenas 31% de aprovação. No comando da nação que recentemente foi indicada pela Forbes como “o melhor país da América Latina para fazer negócios em 2019”, e pela ONU como “o país mais feliz da América do Sul”, Sebastián Piñera parece estar fazendo uma opção que atraia mais investimentos para o Chile e melhore a avaliação do seu governo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Piñera é recebido no Grande Palácio do Povo, por Xi Jinping” (Fonte): https://prensa.presidencia.cl/lfi-content/uploads/2019/04/thumbs/_aim7371_653x431.png

Imagem 2 Piñera fala a empresários chineses, em almoço de negócios” (Fonte): https://prensa.presidencia.cl/lfi-content/uploads/2019/04/thumbs/_aim9861_653x431.png

Imagem 3 Piñera, único Chefe de Estado da América Latina no II Fórum do Cinturão e Rota” (Fonte): https://prensa.presidencia.cl/lfi-content/uploads/2019/04/thumbs/_aim3406_653x431.png

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A Guerra no Leste da Ucrânia

O Conselho Supremo da UcrâniaVerkhovna Rada* – aprovou um apelo à comunidade mundial sobre a emissão ilegal de passaportes russos para os cidadãos do país residentes nos territórios de Donetsk e Lugansk, os quais o governo ucraniano considera ocupados. Petro Poroshenko, atual Presidente da Ucrânia e candidato derrotado nas eleições de 21 de abril, afirmou que esta decisão viola os Acordos de Minsk** e seu sucessor, Vladimir Zelenski, afirmou, através de um aplicativo, que vai “capacitar os migrantes para manter os laços com os cidadãos da Ucrânia nos territórios ocupados”.

Os protestos de 2014 e os conflitos entre grupos pró-russos e antigovernamentais, assim como a anexação da Crimeia, também alimentaram o conflito que já dura cinco anos na região de Donbass***, além do surgimento dos “Estados” autoproclamados da “República Popular de Donetsk” e “República Popular de Lugansk”, (RPD e RPL, respectivamente) apoiados pela Federação Russa.

Segundo o governo ucraniano, paramilitares russos passaram a integrar as milícias pró-russas no auge do conflito, em 2014. Em agosto do mesmo ano, a entrada do “comboio humanitário” russo, sem autorização de Kiev, ocorreu juntamente ao bombardeio de posições ucranianas. Após a ofensiva russa, as lideranças do RPD e RPL conseguiram recuperar territórios retomados pelas forças ucranianas. Foi neste contexto em que os governos da Rússia, ucraniano e dos rebeldes pró-russos no Donbass assinaram o Protocolo de Minsk, em 5 de setembro de 2014.

Situação da Guerra no Donbass, em julho de 2016

Os acordos, no entanto, não foram suficientes e a trégua foi interrompida diversas vezes, com dezenas de mortos todos os meses em 2017 (um soldado ucraniano a cada três dias). Conforme foi divulgado na mídia, neste período foram avistados 6.000 soldados russos, 40.000 separatistas na região de Donbass e cerca de 30.000 pessoas vestidas com trajes militares passando por dois dos pontos de fronteira entre a Rússia e a Ucrânia.

A situação de um “conflito congelado”, no qual nenhuma das partes se submete aos acordos de paz ou cessar-fogo levou a mais de 20 tentativas de trégua fracassadas. Com um saldo de 13.000 ucranianos mortos, ocorreu uma significativa redução do número de óbitos, após o último acordo, em março de 2019.

Em comunicado do Kremlin de março de 2014, por ocasião da anexação da Crimeia, Vladimir Putin declarou que, após a dissolução da União Soviética, “a nação russa se tornou um dos maiores, se não o maior grupo étnico do mundo a ser dividido por fronteiras”. As minorias russas em territórios da extinta União Soviética fazem parte do eixo central da política externa atual do Kremlin e a resolução do impasse gerado por ela é a base para que o sucesso das negociações de paz no Donbass possa ocorrer.

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Notas:

O Verkhovna Rada (Верхо́вна Ра́да Украї́ни, em ucraniano) é o poder legislativo unicameral da Ucrânia, composto por 450 cadeiras parlamentares preenchidas através do sufrágio universal. Trata-se do único órgão legislativo nacional, situado na capital, Kiev.

** Os Acordos ou Protocolo de Minsk, como também são chamados, foram assinados por representantes da Ucrânia, Rússia, dos territórios ocupados de Donetsk e Lugansk para acabar com a guerra no Donbass, no leste da Ucrânia, em 5 de setembro de 2014. A sua assinatura foi realizada em Minsk, capital da Bielorrússia, sob supervisão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). No entanto, até o presente, as tentativas de cessar-fogo foram fracassadas.

*** A definição mais comum se refere às regiões de Donetsk e Lugansk, tradicionais áreas mineradoras, desde o século XIX, localizadas no leste do país, com alta concentração demográfica e industrial.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Verkhovna Rada, o Parlamento ucraniano” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_Verkhovna_Rada_building_-%D0%B7%D0%B4%D0%B0%D0%BD%D0%B8%D0%B5_%D0%92%D0%B5%D1%80%D1%85%D0%BE%D0%B2%D0%BD%D0%BE%D0%B3%D0%BE_%D0%A1%D0%BE%D0%B2%D0%B5%D1%82%D0%B0_-_panoramio.jpg

Imagem 2 Situação da Guerra no Donbass, em julho de 2016” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/War_in_Donbass#/media/File:Map_of_the_war_in_Donbass.svg

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Protestos na Nicarágua após um ano de crise

Para entender a crise social e política que a Nicarágua enfrenta, primeiramente, deve-se atentar aos fatos ocorridos em 17 de abril de 2018. Naquele momento, o governo de Ortega havia publicado um Decreto para a reforma da Previdência, cujos detalhes, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH), não foram submetidos ao debate público.

Dentre as mudanças anunciadas, estava o aumento na contribuição de trabalhadores, que passaria de 6,25% para 7%. Já os aposentados passariam a ter uma dedução de 5% da sua pensão para cobrir despesas médicas A proposta do governo era fazer um aumento progressivo nas contribuições das companhias privadas, dos atuais 19% para 22,2% em 2022.

A população, em oposição, mobilizou-se em 18 de abril (2018) organizando manifestações pacíficas. No entanto, houve dura repressão e a propagação de violência desenfreada, levando ao recuo da reforma proposta no dia 22 de abril (2018). Os protestos continuaram, assim como a crise e o conflito civil.

Após um ano, 62 mil pessoas já foram forçadas a deixar o país em busca de refúgio em territórios vizinhos, sobretudo na Costa Rica, que abriga 55,5 mil nicaraguenses. Também, mais de 300 civis foram mortos, 2 mil ficaram feridos e outras centenas de indivíduos foram privados de sua liberdade.

O nicaraguense Manuel e seus dois filhos, em seu novo lugar na Costa Rica onde vivem como solicitantes de refúgio

Em março de 2019, de acordo com dados da Autoridade Migratória costa-riquenha, cerca de 29,5 mil novos pedidos foram apresentados formalmente. O perfil dos solicitantes de proteção é composto por estudantes, ex-funcionários públicos, figuras da oposição, jornalistas, médicos, defensores de direitos humanos e agricultores.

Por fim, a Alta-Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, instou que Ortega garanta que seus oficiais de segurança permitam a reunião pacífica dos cidadãos e a expressão de suas opiniões. Por outro lado, não há previsão para o fim da crise social que assola o país centro-americano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Mulher durante protesto em Manágua, Nicarágua, em abril de 2018” (FonteFoto: Celia Mendoza/Voice Of America): https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5910:aps-30-30-30-novo-pacto-regional-da-opas-pela-atencao-primaria-a-saude-para-a-saude-universal&Itemid=843

Imagem 2 O nicaraguense Manuel e seus dois filhos, em seu novo lugar na Costa Rica onde vivem como solicitantes de refúgio” (Fonte – Foto: ACNUR/Flavia Sanchez): https://www.acnur.org/es-mx/noticias/stories/2019/4/5cb5e3f44/despues-de-un-ano-de-crisis-sociopolitica-miles-de-nicaraguenses-continuan.html?query=nicaragua