AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Impactos socioeconômicos da Pandemia de Coronavírus na América Latina

No início de julho (2020), a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) lançou o relatório “As empresas diante da COVID-19: emergência e retomada”.  Neste documento, identifica-se que a crise econômica gerada pelo vírus atinge uma estrutura produtiva e empresarial caracterizada pela baixa produtividade e excessiva heterogeneidade entre setores e empresas.

De acordo com a coleta de dados realizada até a primeira semana de junho de 2020, o impacto será muito maior no caso das microempresas e Pequenas e Médias Empresas (PME). A CEPAL estima que seriam fechados mais de 2,7 milhões de negócios formais, sendo 2,6 milhões microempresas, com uma perda de 8,5 milhões de empregos diretos.

Em síntese, os setores mais afetados até este momento são o comércio atacadista e varejista; as atividades comunitárias sociais e pessoais; hotéis e restaurantes; atividades imobiliárias, empresariais e de aluguel, e as manufatureiras. Em conjunto representam mais de um terço do emprego formal e um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) da região. 

Complementando este estudo, o escritório da Organização Internacional do Trabalho para América Latina e Caribe destacou recentemente que as previsões do Banco Mundial indicam uma queda no crescimento econômico de -7,2%. Logo, a taxa de desemprego poderá atingir o índice de até 12,3%, ao passo que, se forem considerados os últimos dados de contração do FMI de -9,4%, os níveis alcançariam 13%.

Em números absolutos, essas taxas implicam um aumento no número de pessoas que procuram emprego e não o conseguem – 26 milhões, antes da pandemia – para 41 milhões em 2020. Além disso, há uma deterioração na qualidade dos postos de trabalho e uma redução na renda.

O novo documento mede e analisa os efeitos da crise no universo empresarial e nos setores produtivos da América Latina e do Caribe – Foto: Pixabay

Por fim, deve-se salientar a corrente expansão do teletrabalho e a possibilidade de exclusão de inúmeras camadas da população latino-americana. Por um lado, os trabalhadores de serviços considerados essenciais enfrentam um risco maior de redução de horas ou salários, licenças temporárias ou demissões permanentes. 

Por outro, a título de ilustração, Noruega e Cingapura possuem maior infraestrutura para promover teletrabalho do que Brasil, Chile, México, Equador e Peru. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), isso acontece porque mais da metade das famílias na maioria dos países emergentes e em desenvolvimento não tem um computador em casa.

Portanto, os desafios para as populações latino-americanas e caribenhas durante e após a pandemia do Coronavírus demonstram a vulnerabilidade de suas economias, a necessidade de maior investimento em tecnologia e o esforço coletivo para mover as engrenagens sociais dos novos tempos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Relatório Setores e empresas frente à COVID19Fonte: CEPAL/2020” (Fonte):

https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/45734/4/S2000438_es.pdf

Imagem 2O novo documento mede e analisa os efeitos da crise no universo empresarial e nos setores produtivos da América Latina e do Caribe –  Foto: Pixabay” (Fonte):

AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Apoio ao empreendedorismo de refugiados em meio à COVID-19

Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o surto da doença causada pelo novo coronavírus (COVID-19) constitui uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Portanto, configura-se como o mais alto nível de alerta, conforme previsto no Regulamento Sanitário Internacional.

Já em março do corrente ano (2020), a COVID-19 foi caracterizada como uma pandemia. Até o dia 4 de abril (2020), no mundo houve a confirmação de 1.051.635 casos da doença (79.332 novos em relação ao dia anterior) e 56.985 mortes (6.664 novas em relação ao dia anterior). Atente-se que este número não é determinante do real cenário de contaminação, visto que não há testes que permitam cobertura total da população que apresenta sintomas, tampouco para os casos assintomáticos.

Especificamente sobre o contexto brasileiro, 10.278 pessoas apresentaram a COVID-19 e 432 mortes foram contabilizadas até a tarde de sábado (4 de abril de 2020), segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. O país declarou que há transmissão comunitária da COVID-19 em todo o território nacional.

De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), como forma de enfrentamento à crise econômica e social oriunda da pandemia faz-se necessário ampliar as capacidades nacionais e regionais, principalmente na produção e provisão de bens de primeira necessidade, por meio de impulso ao comércio intra-regional. Estima-se que na área interna as medidas de contenção terão custos de produção (até 67% do PIB regional) e no emprego (até 64% do emprego formal).

No abrigo Pintolândia, em Roraima, crianças indígenas da etnia Warao treinam como lavar as mãos adequadamente, após instruções das equipes do ACNUR e seus parceiros

Para tratar a emergência social são necessárias medidas de proteção de renda para os grupos mais vulneráveis, medidas de proteção do emprego (como os benefícios de desemprego e renda básica de emergência) e medidas de apoio às pequenas e médias empresas (PMEs) e aos trabalhadores autônomos.

A título de ilustração, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) lançou a páginaRefugiados Empreendedores”. A proposta é gerar visibilidade aos negócios de pessoas refugiadas que seguem empreendendo no país e contribuindo para o desenvolvimento de suas comunidades e da economia local.

Além disso, o ACNUR vem realizando sessões informativas com a população abrigada em Roraima (Boa Vista e Pacaraima) e Amazonas (Manaus). Estima-se que pelo menos 10 mil refugiados e migrantes venezuelanos já receberam as informações distribuídas pelo ACNUR e seus parceiros.

Cerca de 15 mil refugiados e migrantes venezuelanos em Pacaraima, Boa Vista, Belém e Manaus já foram beneficiados com a distribuição de aproximadamente 8.300 mil itens de assistência humanitária emergencial, como kits de higiene e limpeza, colchões, mosquiteiros, redes, roupas e fraldas para crianças e idosos. Kits adicionais serão distribuídos nas próximas semanas.

Para mais informações, acesse ao site do ACNUR neste link.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Site acompanhará a história de pessoas refugiadas empreendedoras que estão empenhadas em superar mais um desafio, a pandemia de COVID19.Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau” (Fonte):

Imagem 2 No abrigo Pintolândia, em Roraima, crianças indígenas da etnia Warao treinam como lavar as mãos adequadamente, após instruções das equipes do ACNUR e seus parceiros. Foto: ACNUR/Allana Ferreira” (Fonte):

ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Manufatura chinesa registra maior queda desde 2009 devido ao coronavírus

A atividade do setor manufatureiro da China registrou a maior queda desde 2009, em meio à desaceleração econômica que o país vem sofrendo devido ao surto de coronavírus. Segundo o Bureau Nacional de Estatísticas da China, o Índice de Gestores de Compras (PMI) para o mês de fevereiro se situou em 35,7 pontos, contra 50,0 pontos em janeiro. Uma cifra acima de 50 indica expansão da atividade e, abaixo, contração, informa a agência de notícias Reuters.

O resultado é muito inferior à previsão dos analistas entrevistados pela Reuters, cuja média era de 46,0, um nível inédito desde janeiro de 2009. Os analistas da consultoria japonesa Nomura Holdings estimam que o crescimento chinês no primeiro trimestre deve ser de 2%.

Desconfiados do aumento dos custos econômicos, os principais líderes chineses instaram os governos locais, fábricas e trabalhadores a reiniciar as operações o mais rápido possível nas regiões menos afetadas, mas muitas autoridades estão preocupadas com o ressurgimento de infecções. Contudo, os dados oficiais mostraram que os níveis de produção das fábricas pequenas e médias eram de apenas 32,8% até quarta-feira (26 de fevereiro de 2020), e somente 40% dos trabalhadores imigrantes retornaram ao trabalho. Assim, muitas fábricas de pequeno porte têm sofrido com a falta de mão de obra.

Pessoas usando máscaras de proteção, em Guangzhou, na Província de Guangdong

Já a britânica Capital Economics publicou um comunicado na última sexta-feira (28) afirmando que “mesmo com a volta ao trabalho dos trabalhadores chineses, algumas fábricas ainda devem enfrentar problemas para se regularizar, já que outros países também enfrentam paralisações na produção”. Segundo os economistas da americana Morgan Stanley, o impacto no crescimento global do primeiro trimestre corre riscos de se manter também até a metade do ano (2020).

Esses dados desalentadores destacam o elevado dano econômico causado pelo coronavírus na segunda maior economia do mundo, que matou quase 3.000 pessoas na China continental e que levou à implementação de medidas de quarentena. No entanto, o presidente Xi Jinping assegurou repetidamente aos líderes mundiais que o impacto econômico do vírus é temporário e que Pequim espera atingir as metas de crescimento de 2020.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Pessoas usando máscaras de proteção em mercado no Condado de Yanshan, Província de Hubei” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=500&offset=200&profile=default&search=coronavirus+china&advancedSearch-current={}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:People_wearing_mask_in_Yanshan_InZone_20190129.jpg

Imagem 2Pessoas usando máscaras de proteção, em Guangzhou, na Província de Guangdong” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=500&offset=200&profile=default&search=coronavirus+china&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1&searchToken=2vrbnloidljl3vkilae4w1urj#%2Fmedia%2FFile%3AStreet_photo_in_Guangzhou_city_%2849477439332%29.jpg

ECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

A Reforma do Mercado de Terras na Ucrânia

Há décadas que a Ucrânia debate a regulamentação de seu mercado de terras. Grupos antagônicos divergem sobre vantagens e desvantagens da formulação de uma legislação do setor. O fato é que essa reforma é necessária ao desenvolvimento econômico de longo prazo, à sua atração de capitais fixos ao território ucraniano, mas, no curto prazo, do ponto de vista político, ela é altamente impopular.

Existe uma moratória ao mercado de terras há 18 anos e no dia 13 de novembro se ensaiou sua retirada, o que seria uma decisão histórica para o país. O Projeto de Lei adotado permitiria que se comprasse e vendesse terras no país, considerado o “celeiro da Europa”. Sua aprovação contou com 240 votos, 227 dos quais com o partido do Presidente, o Servo do Povo. Os outros partidos, nacionalistas ou pró-russos, o Solidariedade, do ex-presidente Poroshenko, a Voz, do astro de rock Sviatoslav Vakarchuk, a Pátria, de Yuliya Tymoshenko, e a Plataforma de Oposição – For Life –, pró-russo, foram contra.

Apesar da justificativa para a entrada da moratória em 2001 ter sido a preparação para leis necessárias à introdução do mercado de terras, ela foi regularmente prorrogada. O grande temor é de que a terra ucraniana fosse tomada por estrangeiros, dentre os quais, chineses e árabes. Isto levou ao presidente Zelensky a anunciar que o projeto seria alterado antes de uma segunda leitura para que apenas “cidadãos e empresas ucranianas fundadas por cidadãos exclusivamente ucranianos” tivessem o direito de vender e comprar as terras, com a possibilidade de extensão desse direito a estrangeiros através de um referendo, exclusivamente, ucraniano.

Quem teria acesso à terra?

Com o objetivo de abrir o mercado, o Projeto de Lei apresentava restrições, como não mais que 35% das terras agrícolas poderem ser possuídas por um indivíduo dentro de uma comunidade territorial unificada*, não mais do que 8% do oblast e não mais do que 0,5% (200.000 hectares) no país. Na prática, como grande parte das terras agrícolas já é de propriedade de grandes empresas com participação de capital estrangeiro, as restrições mencionadas no projeto não se aplicarão à maioria delas.

Formalmente, de acordo com o documento aprovado, apenas podem comprar terras:

– Cidadãos ucranianos;

– Entidades legais;

– Comunidades territoriais;

– o Estado.

Mas o que diz a primeira versão do texto sobre a reforma quanto aos estrangeiros?

Eles podem adquirir a terra para fins agrícolas, mas são obrigados a aliená-las dentro de um ano a partir da data da aquisição da propriedade, o que seria um fator de desestímulo às transações. No entanto, há um parágrafo sobre “Disposições Transitórias do Código de Terras”, dedicado a estrangeiros e entidades estrangeiras que proíbe a compra de terras até 2024, mas concede exceções aos que trabalham na Ucrânia há, pelo menos, três anos. Além disso, quando a lei entrar em vigor, terão preferência na compra das terras.

Para os deputados que criticaram o projeto aprovado, os interesses dos grandes produtores agrícolas de origem estrangeira foram garantidos, aumentando o risco de monopolização do setor. Com o fim do comunismo, muitos empresários se formaram arrecadando ativos do Estado com valores abaixo do mercado externo, porém, o setor agrícola permaneceu fechado até que uma lei de terras fosse aprovada, que veio em 2001. No mesmo ano foi declarada a moratória para venda até 2005 e, até hoje, o Parlamento já prorrogou seu fim por nove vezes.

O que os ucranianos pensam sobre o projeto?

Enquanto a União Europeia apoia a abertura do mercado de terras ucraniano, a sociedade ucraniana a rejeita por até 73% da população, segundo pesquisa da Rating, podendo chegar até 80% de rejeição em outras fontes de pesquisa.

Quais seriam as raízes de tamanha rejeição?

O tema é sensível porque o conceito de terra na Ucrânia está intimamente ligado à ideia de nação, tanto que há uma palavra que tem ambos os significados, zemlia. Desde a coletivização forçada de terras pelo regime comunista** que a posse de sua propriedade individual é vista como uma questão de autonomia nacional. Mas, nesse sentido, a terra como propriedade privada é vista, prioritariamente, como terra para os ucranianos. Apesar da predileção dos nacionalistas ucranianos em se integrarem à União Europeia, para esta a abertura do mercado de terras é essencial ao desenvolvimento econômico do país.

Apoiadores da moratória

Dentre os opositores, além dos produtores rurais já estabilizados no mercado interno ucraniano, encontram-se partidos que solicitaram referendo popular sobre o Projeto de Lei, como a Pátria (Batkivshchyna), de Yuliya Tymoshenko, e o partido pró-russo, a Plataforma de OposiçãoFor Life. Junto a estes, o partido conservador-nacionalista Freedom (Svoboda), que não obteve nenhuma cadeira no Parlamento nas últimas eleições ao Legislativo, participaram de manifestações contrárias à liberação. Somando forças, mas por razões diversas, o partido liberal, Voice (Holos) também se opôs ao modelo de reforma. Como ponto em comum, todos acusam o risco de monopolização do mercado de terras. Segundo comunicado do Svoboda: “De fato, o sentido dessa ‘reforma agrária’ é semelhante à privatização de cupons da indústria ucraniana. Quando todos os cidadãos ucranianos que assinaram vales em papel em suas mãos supostamente se tornaram proprietários, mas, vários clãs oligárquicos se tornaram os verdadeiros proprietários da indústria. Com o ‘mercado de terras’ será semelhante: de fato, todos serão coproprietários, mas, de fato, oligarcas e empresas estrangeiras se tornarão donos de terras ucranianas”.

Para Yuliya Klymenko, parlamentar do partido Voice, de corte liberal, que, em princípio, apoia a liberação do mercado de terras, a situação é confusa, o que levou seu partido a não apoiar o Projeto de Lei: “Até eu, como parlamentar, não entendo completamente qual conceito final no mercado de terras nos será sugerido. Toda semana temos um novo modelo. Qualquer mudança no modelo leva a mudanças drásticas que refletem os resultados econômicos”.

Apoiadores da reforma

O argumento primordial contra a abertura do mercado de terras é pelo risco de monopolização do setor, mas, como ele se organiza hoje? Em 2001, 74% das terras aráveis da Ucrânia pertenciam a sete milhões de proprietários e80% dessa terra está sob controle de pequenas empresas agrícolas ou fazendas. Os 20% restantes (6,3 milhões de hectares) da área total das terras aráveis estão nas mãos das 100 maiores empresas, 12 das quais controlam um pouco mais da metade da área (3,2 milhões de hectares). Ou seja, mesmo com o objetivo de proteção aos pequenos e médios proprietários, a moratória à liberação do mercado acaba por proteger os grandes grupos já consolidados, evitando a competição.

Esta argumentação é a base dos defensores da reforma, que classificam as forças contrárias como atrasadas e as culpam por corresponderem aos interesses dos grandes proprietários de terras já existentes. Também refutam os alertas de que a reforma não beneficiaria a maioria dos ucranianos. Esse tipo de temor se ampara na visão de que estrangeiros tomariam as terras ucranianas não restando nada aos nacionais, mas, não foi o que ocorreu em todos os momentos de entrada de capital no país. Em um prazo de 20 anos, da independência do país até 2010 observou-se:

1. A privatização da Kryvorizhstal, a maior siderúrgica integrada da Ucrânia, quando entraram 4 bilhões de dólares em receitas (aproximadamente, 16,4 bilhões de reais, conforme a cotação de 23 de dezembro de 2019);

2. A abertura do setor bancário para estrangeiros em 2004, o que trouxe dezenas de bilhões de dólares para o país;

3. A liberalização de vistos para cidadãos da União Europeia em 2005.

E é isto que os defensores da reforma esperam, um dramático aumento dos investimentos, caso caia a moratória.

A posição da União Europeia

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (CEDH) decidiu contra a moratória da venda de terras ucranianas e em favor dos proprietários em 2018. Segundo ele, a moratória viola os direitos dos cidadãos ucranianos como proprietários de terras. A situação é instável desde o ano passado (2018), com o risco de a Ucrânia ter de arcar com pesadas indenizações pela compensação da extensão da moratória. Imposta pela primeira vez em 2001, com prazo para terminar em 2005, ela foi prorrogada a cada ano desde então.

Tribunal Europeu de Direitos Humanos

Segundo Ivan Lishchyna, Agente Governamental no Tribunal Europeu de Direitos Humanos do Ministério da Justiça da Ucrânia, o julgamento do CEDH, segundo o qual a moratória viola os direitos das pessoas, deve ser respeitado: “Caso contrário, o CEDH, em algum momento, perderá a paciência e começará a conceder uma compensação nesses julgamentos. Em seguida, haverá bilhões de grívnias*** em compensação via Estrasburgo para todos os proprietários ucranianos de terras agrícolas que desejarem (aplicar ao Tribunal)”.

Consequências e perspectivas

Uma decorrência lógica desta situação restritiva é a instauração de um mercado paralelo na compra e aluguel de terras, isto é, que funciona ilegalmente. Segundo matéria de 2018, houve 3,2 milhões de transações em dois anos, quase 95% dessas são herdadas ou arrendadas, além, é claro, do desenvolvimento de várias modalidades de corrupção.

Os solos negros de chernozem na Ucrânia estão dentre os mais férteis do mundo

Segundo a Constituição Ucraniana, em seu Artigo 14, a terra é a grande riqueza nacional. Mas, nas economias contemporâneas, ela é um meio para a produção de riquezas e, diferentemente de outros recursos minerais, como petróleo, minerais metálicos etc., finitos por natureza, a terra pode ser preservada e manejada sob o conceito da sustentabilidade. Isto, no entanto, requer investimentos em insumos e mão de obra. Com a elevação desses custos, boa parte das propriedades tem sido alugada ou vendida, ainda que ilegalmente. A organização logística das vendas, o financiamento bancário para compra de insumos e maquinário, a infraestrutura necessária para distribuir a produção nos mercados regionais e nacional no atual estado tornam mais fácil aos moradores de Kiev comprar maçãs polonesas que ucranianas. E é este mercado que tem que ser levado em consideração, para que proprietários, investidores e consumidores possam atingir um ótimo comum, que lhes permita fugir das armadilhas monopolísticas de um mercado restrito ou de uma privatização seletiva.

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Notas:

* Comunidade territorial unificada, segundo a legislação “Sobre o autogoverno local na Ucrânia”, em seu “Capítulo I, Disposições Gerais, Artigo 6”, as comunidades territoriais podem unir-se em uma comunidade rural, assentamento, comunidade territorial urbana, formando “órgãos unificados de governo local”.

** A coletivização forçada de terras pelo regime comunista foi um processo de expropriação de propriedades privadas, sobretudo agrícolas, ocorrido entre 1929-1931, quando Josef Stalin estava no comando da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A drástica concentração de propriedades passando de 21 milhões de unidades para cerca de dois milhões (1931) trouxe enormes prejuízos na produção. Para a Ucrânia, particularmente, foi muito mais do que uma má política com consequências administrativas e logísticas negativas, pois implicaria em um processo deliberado de perda da produção, aproveitado como arma política, causando a morte de, no mínimo, sete milhões de ucranianos, conhecido como Holodomor, o “Holocausto Ucraniano”, entre 1932 e 1933.

*** Grívnia, moeda ucraniana que, de acordo com a cotação em 19 de dezembro de 2019, equivalia a 17 centavos de Real.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Paisagem ucraniana” (Fonte): https://pxhere.com/pt/photo/1426099

Imagem 2 Tribunal Europeu de Direitos Humanos” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Courtroom_European_Court_of_Human_Rights_01.JPG

Imagem 3Os solos negros de chernozem na Ucrânia estão dentre os mais férteis do mundo”(Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/6400943409

ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Governo chinês promete promover o crescimento e combater a pobreza e a poluição em 2020

Os líderes da China prometeram fomentar o crescimento econômico em 2020, diante da guerra tarifária com os Estados Unidos, e reduzir a pobreza e a poluição. Segundo uma declaração da mídia estatal chinesa na sexta-feira (13 de dezembro de 2019), os líderes do Partido Comunista Chinês se comprometeram a promover o desenvolvimento nacional baseado na tecnologia e na competição, por meio de uma maior abertura da parte da economia que ainda é dominada pelo Estado, informa o jornal South China Morning Post.

A Reunião Anual de Trabalho Econômico, que terminou na quinta-feira (12 de dezembro de 2019), estabelece as metas do governo para o ano que vem (2020). A reunião “enviou um forte sinal de que a estabilidade é a primeira prioridade”, afirmou a empresa americana do ramo de serviços financeiros, Citigroup, em um relatório. Mas, destacou que “alguns dos elementos que afetaram a desaceleração da China em 2019 continuarão a moldar a economia do próximo ano”.

Os governantes chineses estão em meio a uma campanha de orientar o país em direção a um crescimento mais sustentável, embora mais lento, com base no consumo doméstico, em vez de comércio e investimento. Seus planos foram desafiados pela guerra comercial com os Estados Unidos e por uma queda inesperadamente acentuada na demanda dos consumidores. No terceiro trimestre de 2019, o crescimento econômico caiu para uma das menores taxas nas últimas décadas, em torno de 6% ao ano, em relação ao mesmo período de 2018.

Fábrica às margens do Rio Yangtzé, na China

Pequim prometeu combater “três grandes batalhas”: contra a pobreza, a poluição e o risco financeiro. Segundo o governo, “o Partido Comunista garantiria crescimento razoável na economia e o crescimento estável do comércio. Não houve menção direta à guerra comercial com Washington, mas afirmou-se que o país enfrenta “crescentes riscos e desafios em casa e no exterior”.

A China tentou manter o crescimento econômico por meio do afrouxamento dos regulamentos sobre empréstimos bancários e da injeção de dinheiro na economia por intermédio do aumento do investimento em obras públicas. Mas, a liderança governamental deseja evitar o aumento da dívida e declarou que prefere contar com reformas estruturais a gastar com estímulos econômicos. As tarifas comerciais dos Estados Unidos atingiram os exportadores chineses, que, por sua vez, responderam aumentando as vendas para outros mercados, deixando o país com poucas perdas no comércio global no ano de 2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O Presidente da República Popular da China, Xi Jinping” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=20&offset=80&profile=default&search=xi+jinping+filetype%3Abitmap&advancedSearch-current={%22fields%22:{%22filetype%22:%22bitmap%22}}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Xi_Jinping_at_Great_Hall_of_the_People_2016.jpg

Imagem 2Fábrica às margens do Rio Yangtzé, na China” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=File%3AFactory+in+China+at+Yangtze+River.JPG+filetype%3Abitmap&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%22fields%22%3A%7B%22filetype%22%3A%22bitmap%22%7D%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Factory_in_China_at_Yangtze_River.JPG

ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

“Poder da Sibéria” muda perspectivas de mercado energético para Rússia e China

Percorrendo incríveis 8.111 quilômetros de extensão (3.000 km na Rússia, e 5.111 km na China) e com capacidade de exportação de 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, Vladimir Putin e Xi Jinping celebraram a cerimônia de lançamento do gasoduto Poder da Sibéria (Power of Siberian) durante videoconferência na segunda-feira (2 de dezembro de 2019). A parceria entre Gazprom e China National Petroleum Corporation (CNPC) é descrita como “um prodígio da infraestrutura energética – e da engenharia política”.

Marcando o septuagésimo aniversário das relações diplomáticas entre Rússia e China, o funcionamento do gasoduto ocorre num momento em que as duas nações enfrentam sanções impostas pelas potências ocidentais. A República Popular da China tem buscado alternativas ao carvão devido a problemas de poluição do ar e emissão excessiva de carbono, ao mesmo tempo em que a Rússia tenta mitigar os impactos das restrições financeiras advindas do impasse sobre a Crimeia em 2014.

O projeto de 55 bilhões de dólares (aproximadamente, 227,7 bilhões de reais)* sinaliza a ignição de um acordo de 30 anos, assinado entre Moscou e Beijing em 2014, num valor estimado em 456 bilhões de dólares (em torno de 1,89 trilhão de reais)*. Alguns especialistas, contudo, duvidam da viabilidade do gigantesco gasoduto em termos de lucros: o colapso do rublo russo em 2016 aumentou o gasto do valor inicial em cerca de 29 bilhões de dólares (próximo de 120 bilhões de reais)*. Jenny Yang e Anna Galtsova, analistas da IHS Markit, escreveram em nota que, todavia, é impossível prever se a Gazprom terá lucros no projeto, uma vez que foi concebido numa época em que o preço do petróleo era aproximadamente duas vezes o valor atual, e a Gazprom sempre conectou seus contratos ao valor do petróleo.

Conforme reportado pela Reuters, o compromisso de Moscou em suprir energia para a China consolida a posição desta como maior mercado de exportação do país, dando à Rússia uma alternativa aos mercados do Ocidente. Putin assistiu, em videoconferência simultânea com Xi Jinping, ao início dos serviços do Poder da Sibéria, e considerou o evento “histórico, não apenas para o mercado de energia global, mas, acima de tudo, para nós – Rússia e China”.

O Presidente chinês também se pronunciou e disse: “O gasoduto da rota leste é um projeto notável da cooperação energética China-Rússia e um paradigma de profunda convergência entre os interesses dos dois países, e uma cooperação ganha-ganha”. Xi ainda reforçou a necessidade de tornar o gasoduto “verde, fortalecendo laços de amizade e desenvolvimento das regiões envolvidas. Em seu site, a Gazprom garante que todos os tubos utilizados no Poder da Sibéria foram produzidos na Rússia e que a empresa se baseia em práticas não nocivas ao meio-ambiente.

Infográficos do Poder da Sibéria

Independentemente do veredicto econômico dos analistas, a revista online Fortune considera que a parceria energética Rússia-China tem um viés de autopreservação. Enquanto a Rússia diversifica seus mercados de exportação, não dependendo tanto da Europa, a China reduz a pressão auto-imposta das tarifas sobre as importações de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) americano (25%), e também explora novas rotas de suprimento energético para sua economia crescente, antes limitadas ao gasoduto Turcomenistão-China.

Putin e Xi Jinping, 13/11/2019

O mega-gasoduto deve operar com capacidade total em 2025, e, por enquanto, envia 10 milhões de metros cúbico de gás para a China todos os dias. Alexei Grivatch, Diretor Geral da Fundação Russa para Segurança Energética, consolida a ideia de uma cooperação quase simbiótica em tempos de crescimento industrial, incerteza econômica e combate ao aquecimento global: “Por um lado, o gasoduto vai expandir o suprimento de gás natural no mercado mais dinâmico do mundo, com crescimento de dois dígitos ao ano. Por outro lado, vai abrir o acesso da China aos estáveis fornecedores russos para suprir sua demanda crescente. Especialmente nas regiões que, no momento, não podem receber gás importado e, como resultado, sofrem extremamente com uma grande porção de carvão na balança energética”. Como afirmou Xi Jinping, é uma relação benéfica para ambas as partes. 

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Notas:

* Cotação do dólar em 09/12/2019: US$ 1 = BRL 4,14.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Primeira seção do Poder da Sibéria” (Fonte): http://en.kremlin.ru/catalog/regions/SA/events/46527

Imagem 2Infográficos do Poder da Sibéria” (Fonte): https://www.gazprom.com/press/media/2019/308796/

Imagem 3Putin e Xi Jinping, 13/11/2019” (Fonte): http://en.kremlin.ru/catalog/persons/351/events/62039