NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Resposta à COVID-19 nas Américas pode sofrer transformação a partir de novos testes rápidos

Em 23 de outubro (2020), dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)indicam que foram confirmados no mundo 41.570.883 casos de COVID-19. Na Região das Américas, 12.776.071 pessoas que foram infectadas pelo novo Coronavírusse recuperaram.

Dados do governo brasileiro apontam que 76% das mortes relacionadas à COVID-19 durante fevereiro a setembro de 2020ocorreram entre adultos com 60 anos ou mais. Enquanto todos correm o risco de contrair a doença, os idosos têm muito mais probabilidade de desenvolver a forma grave, sendo a probabilidade de morte cinco vezes maior para pessoas de 80 anos.

O grande número de casos e mortes demonstra que o combate ao vírus precisa essencialmente de informações e resultados adequados aos sintomas apresentados pelos possíveis infectados. Assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS)aprovou a utilização de novos testes rápidos de antígenos que são mais precisos e ágeis no tratamento da COVID-19. 

Por outro lado, salienta-se que os testes diagnósticos do tipo PCR continuam sendo o “padrão ouro” para identificação dos casos. No entanto, por serem analisados em laboratórios, os atrasos para emissão dos pareceres comprometem a eficácia na prevenção à dispersão do vírus.

O acesso aos novos testes nos países da América Latina e Caribe será facilitado por meio da OPAS, especificamente a partir de seu Fundo Estratégico. Trata-se, portanto, de mecanismo regional de cooperação técnica para a aquisição conjunta de medicamentos e suprimentos essenciais.

Acomunidade científica estuda 180 vacinas contra a COVID-19, sendo que 11 delas estão com ensaios clínicos na fase III.Foto:OPAS

Atualmente, não há vacinas disponíveis contra a COVID-19. De fato, há mais de 180 vacinas candidatas em estudo, com 11 em ensaios clínicos na Fase III (significa que está sendo testada em milhares de pessoas). Quando uma vacina se mostra segura e eficaz em um ensaio clínico, as agências regulatórias avaliam completamente os dados antes de conceder as aprovações. 

A OMS também supervisionará um processo de revisão independente antes de conceder sua própria recomendação. Segundo a referida organização, o desenvolvimento de uma nova vacina é um processo longo e complexo que demora, em média, 10 anos.

Dada as circunstâncias da atual pandemia, instituições, desenvolvedores comerciais e pesquisadores em todo o mundo estão trabalhando a uma velocidade e escala sem precedentes, para obter vacinas contra a COVID-19 seguras e efetivas em aproximadamente 12 a 18 meses. Os resultados preliminares dos ensaios de vacinas em Fase III podem estar disponíveis até o final de 2020. 

Mais informações estão disponíveis na Folha Informativa COVID-19 da OPAS e OMS Brasil neste link.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Retrato de Francesca Palumpoenfermeira de terapia intensiva de Pesarona Itália, disponível na Wikimedia, que fechou parceria com a OMS para informações sobre COVID19.  FotoAlberto Giuliani/Wikimedia” (Fonte):

https://brasil.un.org/pt-br/97119-oms-e-fundacao-wikimedia-anunciam-colaboracao-para-informacoes-sobre-covid-19

Imagem 2A comunidade científica estuda 180 vacinas contra a COVID19sendo que 11 delas estão com ensaios clínicos na fase III.Foto:OPAS”(Fonte): 

https://brasil.un.org/pt-br/96919-opas-trabalho-para-vacina-contra-covid-19-e-mais-rapido-do-que-nunca-mas-processos-de

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

EpiVacCorona: segunda vacina russa contra a COVID-19 tem seu registro confirmado

Em uma reunião de Governo realizada no dia 14 de outubro (2020), o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, informou a efetivação do registro, pelo Ministério da Saúde russo, de uma nova vacina a ser utilizada no combate a COVID-19.

Batizada como EpiVacCorona, o imunizante foi desenvolvido pelo Centro Estadual de Pesquisa em Virologia e Biotecnologia Vector*, localizado em Novosibirsk, região da Sibéria, e é a segunda vacina registrada pela Federação Russa desde agosto (2020), quando a Sputnik V, vacina elaborada pelo Instituto Gamaleya e financiada pelo Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF, na sigla em inglês), foi apresentada à comunidade global.

A EpiVacCorona, segundo dados dos especialistas, é uma vacina sintética de peptídeo baseada em um vírus recombinante que imita certas partes do patógeno de onde são projetadas para proteger, fazendo com que o corpo humano produza antígenos capazes de combater o vírus real, diferente da Sputnik V, que é baseada em vetor de adenovírus, os quais basicamente são portadores que podem “entregar” material genético de um outro vírus para uma célula.

Logotipo do Centro Estadual de Pesquisa em Virologia e Biotecnologia Vector

Apesar da velocidade dos trabalhos de desenvolvimento de um medicamento que seja efetivo no combate ao novo coronavírus, o que inclui até o suposto registro de uma terceira vacina, que, segundo informações, vem sendo elaborada pelo Centro Científico Federal Chumakov de Moscou, e que poderá ocorrer até o final deste ano (2020), a Federação Russa ainda não inseriu nenhuma das vacinas na fase 3 dos testes protocolares, cujo resultado positivo deve garantir a liberação para imunização massiva de indivíduos.

Com uma segunda onda de casos de coronavírus varrendo a Rússia e ameaçando sobrecarregar os hospitais, o Kremlin também precisa da vacina internamente, pois luta contra taxas recordes de infecção diária, enquanto busca evitar a repetição de um bloqueio nacional na primavera, que abalou a economia do país. A Rússia teve mais de 1,3 milhão de infecções, a quarta maior do mundo, depois dos EUA, Índia e Brasil.

———————————————————————————————–

Nota:

* NPO Vektor, é uma subsidiária da Biopreparat, liga o Instituto de Pesquisa Científica de Biologia Molecular e o Instituto de Design de Substâncias Biologicamente Ativas. Vector possui mais de 100 prédios de laboratório e administrativos, incluindo um grande campus isolado de pesquisa de virologia. Durante a era soviética, Vector produziu compostos biológicos para aplicações civis e militares. Embora a Rússia tenha negado consistentemente que a União Soviética tinha um programa ofensivo de armas biológicas, acredita-se amplamente que o Vector foi especificamente estabelecido na década de 1970 para desenvolver agentes virais para usos militares. Em 2004, a jurisdição sobre o instituto de pesquisa foi transferida para o Ministério da Saúde e Desenvolvimento Social, e agora é um dos principais centros de pesquisa em virologia e biotecnologia. O Vector esteve envolvido no isolamento e caracterização do vírus e na vigilância da influenza aviária durante um surto em 2005, que ocorreu na região de Novosibirsk.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vacina EpiVacCorona” (Fonte):

https://cdn.tvc.ru/pictures/o/431/034.jpg

Imagem 2 Logotipo do Centro Estadual de Pesquisa em Virologia e Biotecnologia Vector” (Fonte):

http://www.vector.nsc.ru/

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Liderança senegalesa em face do COVID-19

No dia 2 de março de 2020, o Ministro da Saúde do Senegal, Abdoulaye Diouf Sarr, confirmou o primeiro evento de COVID-19 no país, também conhecido como Coronavírus, após um residente retornar da França. Até o dia 10 de abril foram reportados 250 casos de pessoas contaminadas, e 6 mortes foram contabilizadas devido à doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a transmissão dos episódios senegaleses como “cluster”, ou seja, “países/ territórios/ áreas com casos, agrupados no tempo, localização geográfica e/ ou exposições comuns”.

No dia 11 de março, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, caracterizou a situação enquanto pandemia, isto é, a disseminação de uma doença em diversas regiões do planeta. No entanto, no dia 30 de janeiro, a Organização já havia declarado o nível mais alto de alerta, constituindo, então, uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) pelo potencial de transmissão do novo vírus. Como afirmou o Diretor-Geral, a preocupação é de sua disseminação em países que não têm um sistema de saúde adequado para lidar com a situação e para que as medidas para a situação sejam tomadas de forma consistente e baseadas em evidências.

O Senegal foi um dos Estados que teve uma postura firme diante dos surtos de ebola em 2014, tornando-o preparado para a pandemia atual. Pode-se citar a presença do Instituto Pasteur*, que, em parceria com a OMS, desenvolveu uma das primeiras vacinas para febre amarela, justamente por ser um laboratório designado a pesquisar formas para combater surtos virais. Além disso, está desenvolvendo kits de teste para diagnosticar o Coronavírus em 10 minutos, ao lado da Mologic, empresa britânica de biotecnologia. De acordo com o Instituto, o kit será lançado em três meses e custará U$1 a unidade (R$5,11 – cotado no dia 10 de abril). Enquanto isso, o tipo de teste que é utilizado dá o resultado em quatro horas.

Sede da Organização Mundial da Saúde em Genebra

O Presidente senegalês, Macky Sall, decretou estado de emergência no dia 24 de março para frear a disseminação da doença. Foi estabelecido toque de recolher entre as 20:00hrs e 6:00hrs; aumento da regulamentação do movimento de pessoas, veículos e mercadorias; proibição de reuniões públicas ou privadas, desfiles, comícios e manifestações em vias públicas; fechamento de mesquitas da região de Dakar. Soma-se a suspensão de todos os voos internacionais do dia 20 de março ao dia 17 de abril, com exceção em caso de transporte de bens, evacuação médica ou em alguma circunstância especial.

Em declaração, o Ministro do Turismo e Transporte Aéreo, Alioune Sarr, afirmou que medidas extremas foram necessárias para preservar a saúde e o bem-estar da população.

Outros protocolos vigoraram a partir do dia 14 de março, como a proibição de aglomerações públicas por 30 dias, cancelando até a Comemoração de Independência da França; a suspensão de aulas em universidades e escolas primárias e secundárias; a proibição temporária de cruzeiros no país; o aumento de procedimentos de triagem nas fronteiras e aeroportos; suspensão da peregrinação do Hajj** e de todas as peregrinações cristãs. Além disso, foi adotado o Programa de Resiliência Econômica e Social (ESRP) financiado pelo governo, doações voluntárias visando o combate à pandemia e apoio às famílias e empresas no valor de U$2 bilhões (R$10,22 bilhões, conforme cotação no dia 10 de abril).

O Conselho dos Diretores Executivos do Banco Mundial aprovou, no dia 2 de abril, o crédito de U$20 milhões de dólares (R$102,2 milhões, também de acordo com a cotação de 10 de abril) da Associação de Desenvolvimento Internacional (IDA)*** para apoiar o Senegal e sua resposta contra a pandemia. Dessa maneira, busca aprimorar a prevenção, preparo e reação, complementando o projeto atual de Aprimoramento dos Sistemas Regionais de Vigilância de Doenças (REDISSE). O Diretor do Banco Mundial no Senegal, Nathan Belete, mostrou-se confiante diante do projeto e afirmou que o sistema de reação ao COVID-19 do país foi baseado em experiências bem-sucedidas para conter surtos de doenças nos últimos anos, através de sua identificação e pronta resposta.

Presidente do Senegal, Macky Sall

O Presidente do Senegal, Macky Sall, clamou por uma nova ordem mundial na qual requer confiança mútua e uma vontade sincera de cooperação em questões de interesse e valores comuns, respeitando as diferenças e excluindo o preconceito e discriminação, especialmente em relação ao Continente Africano. A nova mentalidade reconhece todas as culturas e civilizações como merecedoras da mesma dignidade, sem um centro civilizacional que dita como os outros devem agir e se comportar.

Também afirmou que assume a responsabilidade de lidar com a crise, assim como outros Estados africanos. No entanto, é necessário que os esforços nacionais sejam apoiados pela comunidade internacional. Assim, pede pelo cancelamento da dívida pública da África e a reestruturação de sua dívida privada, baseada em mecanismos a serem acordados.

———————————————————————————————–

Notas:

* Único estabelecimento pré-qualificado pela OMS que produz vacinas no Continente Africano.

** Peregrinação realizada pelos muçulmanos em direção à cidade de Meca.

*** A Associação de Desenvolvimento Internacional (IDA) do Banco Mundial, criada em 1960, tem como objetivo conceder crédito e empréstimos a baixo juros para projetos e programas que visem o crescimento econômico e a redução da pobreza em países pobres.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Dakar, capital do Senegal” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Dakar#/media/Ficheiro:Dakar-Indépendance.jpg

Imagem 2Sede da Organização Mundial da Saúde em Genebra” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/World_Health_Organization#/media/File:WHO_HQ_main_building,_Geneva_from_Southwest.JPG

Imagem 3Presidente do Senegal, Macky Sall” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/President_of_Senegal#/media/File:Macky_Sall_-_2008.jpg

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Sarampo causou a morte de mais de 140 mil pessoas em 2018

De acordo com novas estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, mais de 140 mil pessoas perderam suas vidas devido ao sarampo, no período em que foram constatados surtos em todas as regiões do globo. A maioria dos óbitos atingiu crianças menores de 5 anos.

A lista de países com maior incidência da doença conta com as nações com pior acesso à saúde e à prevenção como: a África Subsaariana; a República Democrática do Congo; Libéria; Madagascar e Somália. No entanto, os Estados Unidos registraram seu maior número de casos em 25 anos, enquanto quatro países da Europa – Albânia, República Tcheca, Grécia e Reino Unido – perderam seu status de eliminação do sarampo em 2018, após prolongados surtos da doença.

Esses índices são resultados do movimento anti-vacinação que repercutiu com força na internet. Segundo a imprensa internacional, as taxas de vacinação nos estados de Califórnia e Los Angeles (Estados Unidos) estão tão baixas quanto no Chade e no Sudão do Sul.

Em se tratando do combate ao sarampo, segundo a OMS, é necessário 95% de cobertura vacinal com duas doses em cada país e em todas as comunidades para proteger adequadamente as populações. Em conjunto com o UNICEF, estima-se que 86% das crianças no mundo receberam a primeira dose da vacina contra o sarampo por meio dos serviços de vacinação de rotina de seus países, em 2018, e menos de 70% receberam a segunda dose recomendada.

Desta forma, a cobertura atual com a vacina contra o sarampo no mundo não é adequada para evitar surtos. Até meados de novembro do ano passado (2019), já havia mais de 413.000 casos notificados.

A única forma de prevenção é a vacina que está em uso há mais de 50 anos. Imunizar uma criança contra o sarampo custa menos de US$ 1.  

O GOARN, rede técnica global coordenada pela Organização Mundial da Saúde, já ofereceu o treinamento para a ferramenta Go.Data em diversos países / Foto: OMS

Para auxiliar no controle de epidemias e surtos, a Rede Global de Alerta e Resposta a Surtos (GOARN), uma parceria técnica internacional coordenada pela OMS, tem realizado treinamentos para especialistas em saúde pública a fim de promover o uso da Go.Data.

A ferramenta, disponível em aplicativo móvel, é usada para estabelecimento de cadeias de transmissão, visualização de dados, rastreamento de contatos e monitoramento de desempenho. O software é baseado em vários módulos e, por meio dessa abordagem modular, é possível uma expansão futura para acomodar novos surtos de doenças e cenários.

Fique atento: O vírus do sarampo é altamente contagioso;

·               Pode ser espalhado por tosse e espirros, contato pessoal próximo ou contato direto com secreções nasais ou de garganta infectadas;  

·               Também, permanece ativo e contagioso no ar ou em superfícies infectadas por até duas horas e pode ser transmitido por uma pessoa infectada a partir de quatro dias antes e quatro dias depois do aparecimento de erupções cutâneas. 

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Menino que fugiu de uma aldeia ao sul de Mossul, no Iraque, recebe vacina contra sarampo de um agente de saúde do governo apoiado pelo Iraque / Foto: UNICEF/Lindsay Mackenzie”(Fonte): https://nacoesunidas.org/mais-de-140-mil-morrem-de-sarampo-no-mundo-a-medida-que-casos-aumentam/

Imagem 2O GOARN, rede técnica global coordenada pela Organização Mundial da Saúde, já ofereceu o treinamento para a ferramenta Go.Data em diversos países / Foto: OMS” (Fonte): https://nacoesunidas.org/oms-introduz-no-brasil-ferramenta-digital-para-controle-de-surtos-de-doencas/

Project SyndicateSAÚDE

A notícia mais importante que lhe escapou em 2019

SEATTLE – Segundo a contagem mais recente, o Washington Post, o New York Times, e o Wall Street Journal publicam um total conjunto de 1000 notícias todos os dias. Embora o relatório não refira quantas pessoas leram todas, pode supor-se que ninguém o conseguiu fazer.

Provavelmente, cada um de nós ignora dezenas de milhares de notícias importantes todos os anos. Mas a maior de todas que escapou às pessoas em 2019 aconteceu a 10 de Outubro, num salão de conferências em Lyon, França, onde uma assembleia de responsáveis governamentais, líderes empresariais e filantropos prometeu 14 mil milhões de dólares a uma organização denominada Fundo Mundial.

Não existem muitas pessoas que saibam o que é o Fundo Mundial até ouvirem a sua denominação completa: o Fundo Mundial para a Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária. O Fundo foi criado logo a seguir ao virar do milénio, quando centenas de milhares de crianças morriam de doenças evitáveis. A crise da SIDA estava no seu auge, e as agências noticiosas descreviam o vírus como uma “foice malévola” que desbastava a África Subsaariana. Houve quem previsse que a sua expansão imparável levaria países inteiros ao colapso. Tratava-se de uma crise internacional que exigia uma resposta internacional.

Nas Nações Unidas, o então Secretário-Geral Kofi Annan reuniu o mundo em torno dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio – um conjunto de metas específicas relacionadas com a redução da pobreza e da doença – e criou o Fundo Mundial para a sua consecução.

O Fundo foi concebido para ser um novo tipo de empreendimento multilateral, e não apenas uma coligação de governos. Também introduziu parceiros do sector empresarial e filantropos, nomeadamente a recém-formada Fundação Bill e Melinda Gates. Esta abordagem inclusiva permitiu que a iniciativa dispusesse de uma gama alargada de competências.

Durante as últimas duas décadas, o Fundo Mundial transformou o modo como lutamos contra a SIDA, a tuberculose e a malária – as três maiores causas de morte nos países pobres. Ao reunir recursos, o Fundo criou economias de escala para produtos vitais, como os mosquiteiros anti-malária e os medicamentos anti-retrovirais. Seguidamente, em colaboração com quase 100 países, o Fundo construiu uma enorme cadeia de abastecimento para distribuir as mercadorias. Neste processo, as mortes por SIDA diminuíram 50% desde a mudança do milénio. Hoje, o Fundo tem um novo financiamento de 14 mil milhões de dólares para continuar o seu trabalho.

Este reaprovisionamento é uma notícia de importância vital, em primeiro lugar devido ao enorme número de vidas que ajudará a salvar. Os 14 mil milhões de dólares, prevê o Fundo, serão suficientes para diminuir as taxas de mortalidade das três doenças novamente quase 50% até 2023. Isto significa salvar 16 milhões de vidas.

Mas o que aconteceu em Lyon a 10 de Outubro é crítico por outro motivo: por ilustrar como estamos num ponto de viragem na história, a partir do qual o mundo pode mover-se em sentidos diferentes.

Por um lado, o bem-sucedido esforço recente de angariação de fundos foi um testemunho do modo como o mundo resolveu as crises humanitárias nos primeiros anos deste século. O multilateralismo, afinal, funcionou – e funcionou extremamente bem.

Esse mesmo período também viu nascer organizações como a Gavi, a Aliança para a Vacinação, uma aliança global de intervenientes dos sectores público e privado que visa levar a vacinação a algumas das crianças mais pobres do mundo. A Gavi já ajudou a imunizar mais de 760 milhões de crianças. E a taxa de cobertura de vacinação contra a difteria, tétano e tosse convulsa (DTP3) em países apoiados pela Gavi aumentou de 59% em 2000 para 81% em 2018 – apenas quatro pontos percentuais abaixo da média global (a Gavi também necessitará de angariar mais financiamento durante o próximo ano).

Por outro lado, o facto de nenhuma organização multilateral semelhante ter sido criada desde o início da década de 2000 – pelo menos, a uma escala comparável – deveria fazer-nos pensar.

O Fundo conseguiu angariar os 14 mil milhões de dólares numa altura em que o isolacionismo está em ascensão. Hoje, muitos governos parecem preferir agir isoladamente, em vez de se envolverem na resolução abrangente de problemas que tão bem funcionou durante os últimos 20 anos. O Brexit é um exemplo deste facto. Outros incluem a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre o clima de 2015, e o apelo da sua administração a reduções drásticas da ajuda externa dos EUA (que, graças ao Congresso, ainda não foram concretizadas).

Pergunto-me frequentemente o que teria acontecido se a crise da SIDA tivesse aparecido 20 anos mais tarde. Conseguiríamos criar hoje o Fundo Mundial? A resposta, penso, é negativa. Seria muito difícil reunir apoios para este tipo de iniciativa no ambiente actual.

As notícias de Lyon do último mês, então, farão parte de uma história que ainda não terminou. Será que o mundo vai entender que as coligações multilaterais funcionam, e corrigirá o seu rumo? Ou estará a era do multilateralismo a terminar?

O reaprovisionamento do Fundo Global poderá ser a melhor notícia que lhe escapou em 2019. Mas a menos que interrompamos o deslize no sentido do isolacionismo e comecemos a reconstruir uma comunidade global, é o tipo de notícia de que poderá nunca mais ouvir falar.

*Mark Suzman é diretor de estratégia e presidente de Política e Defesa Global na Fundação Bill e Melinda Gates.

Copyright: Project Syndicate, 2019.
www.project-syndicate.org

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Dengue atinge o maior número de casos confirmados nas Américas

A partir de nova atualização epidemiológica produzida pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), organismo vinculado à Organização Mundial de Saúde (OMS), constatou-se o maior número de casos confirmados de dengue já registrados na História. Com mais de 2,7 milhões de registros da doença, incluindo 22.127 graves e 1.206 mortes notificadas até o final de outubro de 2019, estima-se a prevalência de uma nova epidemia nas Américas.

Em 2015 houve uma propagação semelhante, mas o número de casos em 2019 é 13% superior à quantidade daquele ano. Apesar disso, a taxa de letalidade (proporção de mortes em casos de dengue) foi 26% menor este ano, em comparação com 2015.

Os quatro sorotipos do vírus da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4) estão presentes nas Américas e a co-circulação dos quatro foi notificada no Brasil, Guatemala e México. A circulação simultânea de dois ou mais tipos aumenta a ocorrência de casos graves.

Os países em que a circulação da dengue se destaca são: Brasil, dada sua grande população, teve o maior número nesta atualização, com 2.070.170 casos notificados; o México teve predomínio em 213.822 pessoas; a Nicarágua obteve 157.573 confirmações da doença; a Colômbia teve 106.066; seguida por Honduras, com 96.379 registros.

No entanto, as maiores taxas de incidência, que relacionam o número de casos com a população, foram: Belize, com 1.021 casos por 100 mil habitantes; El Salvador, com 375 casos por 100 mil habitantes; Honduras, com 995,5 casos por 100 mil habitantes; e Nicarágua, com 2.271 casos por 100 mil habitantes. O quinto país com a maior taxa de incidência nas Américas é o Brasil, com 711,2 casos por 100 mil habitantes.

Bombeiros ajudam a combater o foco de larvas do mosquito Aedes aegypti em áreas públicas de Brasília. Foto: Agência Brasília/Gabriel Jabur Foto: Gabriel Jabur/ Agência Brasília

Em 2020 o Brasil adotará uma técnica de radiação que produz mosquitos estéreis da espécie Aedes aegypti no combate a dengue, zika e chikungunya. O método é usado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em parceria com o Programa Especial de Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

A estratégia parte pela criação de grandes quantidades de mosquitos machos esterilizados em instalações especiais. Mais tarde, eles são liberados para acasalar com fêmeas que, ao não reproduzir, ajudam a baixar a população de insetos com o tempo.

Além disso, a OPAS recomenda que as campanhas de comunicação dos países das Américas, principalmente em meio a este novo surto, devem conscientizar o público sobre a importância de intervenções de controle de vetores no domicílio e prestar especial atenção a pacientes com febre; bem como focar nas ações para controle de vetores, especificamente o controle de criadouros de mosquitos dentro de casa e nos arredores, além de medidas de proteção individual.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 “O mosquito Aedes aegypti é o principal vetor da dengue. O vírus é transmitido para humanos por meio da picada de mosquitos fêmea infectadosApós o período de incubação (410 dias), um mosquito infectado é capaz de transmitir o vírus pelo resto de sua vidaFoto: OMS” (Fonte): https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5963:folha-informativa-dengue-e-dengue-grave&Itemid=812

Imagem 2 “Bombeiros ajudam a combater o foco de larvas do mosquito Aedes aegypti em áreas públicas de Brasília.Foto:Agência Brasília/Gabriel Jabur” (Fonte): https://nacoesunidas.org/dengue-nas-americas-atinge-o-maior-numero-de-casos-ja-registrados/