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O aprendizado dolorido de Uganda no combate ao Vírus Ebola

A epidemia do Vírus Ebola tem propagado o pânico no mundo a partir da concentração de surtos na África Ocidental, com destaque para Serra Leoa, Guiné e Libéria. Diante do atraso em buscar soluções efetivas para estacionar o contágio ou combater o vírus, a solução parece surgir da África Oriental, mais precisamente de Uganda, país que já passou por quatro surtos desde 2000, enfrentando-os nos anos de 2000/2001, 2007, 2011 e em 2012. Em um cenário de incertezas e de poucas soluções vindo do ocidente, lançava-se a pergunta do que esperar do lado oriental do próprio continente africano.

Em primeiro lugar, deve-se esclarecer do que se trata o Vírus Ebola e quais os sintomas da doença que tem levado à morte aproximadamente mil pessoas desde março. Infelizmente, trata-se de um vírus infeccioso que geralmente resulta na morte. Entre os sintomas, os pacientes diagnosticados sofrerão de febre, fraqueza, dores nos músculos, dores de cabeça e na garganta, além de vômitos, diarreias, funções prejudicadas de alguns órgãos e sangramento. Por enquanto, não há vacina contra o vírus, nem tratamentos específicos, exceto o gerenciamento e os cuidados com os sintomas dos infectados[1][2]. Por essa razão, a primeira ação consiste em conter a propagação do vírus ao isolar os suspeitos e aumentar a atenção das comunidades afetadas sobre como se protegerem contra as infecções. A população que passa por maior risco são os familiares dos infectados, tendo em vista que eles têm contato com as secreções destes.

Em segundo lugar, deve-se indagar sobre o que tem sido feito do ponto de vista médico e farmacêutico. Recentemente, especialistas em ética médica da Organização Mundial de Saúde (OMS) tem se reunido em Genebra para discutir o possível uso de drogas experimentais para tratar o Vírus Ebola[3]. Até a data, nenhuma vacina ou cura foi desenvolvida, o que permite a dispersão do vírus pela região. Para Annette Rid e Ezekiel Emanuel, o atual surto de Ebola traz um importante alerta para a comunidade internacional: o foco deveria ser maior no fortalecimento de sistemas de saúde e nas infraestruturas dos países, mais do que nos tratamentos experimentais[4].

Após décadas de guerra civil em Serra Leoa e Libéria, quase não há um sistema de saúde organizado. Nesse caso, os esforços internacionais deveriam tomar mais ações no direcionamento da ajuda internacional para a prevenção, do que no tratamento pós-desastres. Por exemplo, a Libéria tem uma taxa de 0,014 médicos por mil habitantes[2]. Entretanto, diante da emergência da situação, onde milhares de pessoas são confrontadas com a doença e sem nenhuma terapia eficaz no curto prazo, o uso de intervenções experimentais é eticamente aceitável, desde que sejam respeitados os oito princípios éticos para o uso de drogas experimentais[4]

Em terceiro lugar, cabe compreender de que forma Uganda conseguiu se sobressair com soluções, em contraste com a torre de babel visualizada pela falta de coordenação das inúmeras agências da ONU. Como afirmado anteriormente, o país já enfrentou quatro surtos de Ebola desde 2000, o que forçou a criação de infraestrutura, expertise e diálogo com a população no enfrentamento das crises[5].

O último surto ocorrido no país, em 2012, ocorreu internamente, fato que desconsidera a necessidade de coordenar vários governos e instituições na mesma tarefa, como no caso do atual surto na África Ocidental. Assim, algumas lições foram compreendidas e desenvolvidas. Por exemplo, os cientistas doUS Centres for Disease Control and Prevention”(CDC) desenvolveram um laboratório noUganda’s Virus Research Institutepara diagnosticar no prazo de 24 horas as febres hemorrágicas viraiscom foco para o Ebola[6]. Este procedimento reduziu o tempo para confirmar casos e direcionar os procedimentos necessários para contê-los. Mesmo assim, em 2012, a epidemia durou 68 dias. Ou seja, mesmo que tal atitude seja tomada na atual crise, os atuais 5 meses de incertezas e desconfianças poderá prosseguir, tendo em vista a falta de infraestrutura e de corpo técnico proporcional à população e aos infectados.

Em Uganda, para auxiliar nos procedimentos de identificação de casos suspeitos, jovens técnicos de laboratório criaram um sistema de monitoramento, conhecido como “mTrac”, que através de telefones móveis tem ajudado os técnicos de saúde em relatar os casos suspeitos, além de receberem informações sobre como ajudar as comunidades afetadas.

As campanhas públicas são vitais para o combate. Em 2012, o próprio Presidente de Uganda, Yoweri Kaguta Musevenifez um pronunciamento pedindo para que a população não beijasse ou apertasse as mãos[6]. Apesar de a mensagem ter se tornado uma piada, o público entendeu que era extremamente importante limitar o contato mais íntimo. Outra diferença crucial entre os surtos em Uganda e na África Ocidental é o foco da propagação. Enquanto em Uganda o vírus se propagava apenas entre as áreas rurais, o atual surto tem se espalhado pelas cidades. Essa diferença é determinante no número de pessoas expostas ao vírus e à dificuldade em conter seu avanço.

Diante do aprendizado adquirido, o Governo ugandense está enviando 20 especialistas, nas áreas de epidemiologia, gerenciamento de casos, educação em comunidades e apoio psicossocial, para combater o atual surto na África Ocidental[7]. Em um cenário de falta de coordenação política e técnica entre diversas agências da ONU e do atraso em tomar soluções mais efetivas na administração e na contenção do vírus, a solução parece surgir com mais clareza de um país de renda baixa, de dentro da própria África, que de fato enfrentou o problema.

Apesar de ser cedo para pronunciar, o caso parece ressaltar o papel do conhecimento dos próprios países do Sul para solucionar crises. Como se afirma no Relatório da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional: “[…] ninguém sabe tanto que não tenha algo a aprender, nem tão pouco que não tenha algo a ensinar[8].

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Imagem (FonteFirst Digital Ghana):

http://s2.djyimg.com/n3/eet-content/uploads/2014/03/Congo-Guinea-Ebola_Mitc-1024×681.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver CNN:

http://edition.cnn.com/2014/08/07/world/ebola-virus-q-and-a/

[2] VerThe Washington Post”:

http://www.washingtonpost.com/blogs/monkey-cage/wp/2014/07/15/why-west-african-governments-are-struggling-in-response-to-ebola/

[3] VerBBC News”:

http://www.bbc.com/news/health-28736388

[4] Ver:

RID e EMANUEL (2014). Ethical considerations of experimental interventions in the Ebola outbreak. The Lancet.

[5] VerAll Africa”:

http://allafrica.com/stories/201408211024.html

[6] VerBBC News”:

http://www.bbc.com/news/world-africa-28743595

[7] VerVoice of America”:

http://www.voanews.com/content/uganda-sends-20-experts-to-aid-in-ebola-crisis/2410521.html

[8] Ver:

IPEA. Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (COBRADI), 2005-2009. Brasília-DF; IPEA e ABC, 2010, p.33.

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Senegal fecha a fronteira com Guiné após novo surto da “Febre Ebola”

O Senegal fechou no último sábado a sua fronteira com a Guiné esperando que assim não se espalhe para o país o recente surto de Ebola que ocorre neste último. A doença já matou 70 pessoas[1] e já subiu para 111 o número de infectados na Guiné[2]. A descoberta de 11 pessoas contaminadas em países da fronteira sul da Guiné – “Serra Leoa” e Libéria[3] – ligou o alerta de Dakar quanto à possibilidade de que a contaminação se expanda também através das fronteiras do norte chegando assim ao território senegalês.

O Governo senegalês também fechou temporariamente um mercado que reúne milhares de pessoas provenientes de Guiné, “Guiné-Bissau” e Gâmbia na região de Kolda, sul do país[3].

O vírus Ebola causa a doença chamada “Febre Hemorrágica Ebola”. O seu primeiro surto foi em 1976, aparentemente ocorrido simultaneamente no Sudão e na “República Democrática do Congo[4]. A doença se espalha entre os humanos através de quaisquer fluídos corporais e é altamente infecciosa[5].

Tabela: Cronologia de casos passados de infecção pelo Ebola

Ano País Casos Mortes Taxa de fatalidades
2012 República Democrática do Congo 57 29 51%
2012 Uganda 7 4 57%
2012 Uganda 24 17 71%
2011 Uganda 1 1 100%
2008 República Democrática do Congo 32 14 44%
2007 Uganda 149 37 25%
2007 República Democrática do Congo 264 187 71%
2005 Congo 12 10 83%
2004 Sudão 17 7 41%
2003 (Nov-Dec) Congo 35 29 83%
2003 (Jan-Apr) Congo 143 128 90%
2001-2002 Congo 59 44 75%
2001-2002 Gabão 65 53 82%
2000 Uganda 425 224 53%
1996 África do Sul (ex-Gabão) 1 1 100%
1996 (Jul-Dec) Gabão 60 45 75%
1996 (Jan-Apr) Gabão 31 21 68%
1995 República Democrática do Congo 315 254 81%
1994 Costa do Marfim 1 0 0%
1994 Gabão 52 31 60%
1979 Sudão 34 22 65%
1977 República Democrática do Congo 1 1 100%
1976 Sudão 284 151 53%
1976 República Democrática do Congo 318 280 88%

Fonte: Organização Mundial de Saúde[4].

Desde o surto da febre no ano de 2012, na “República Democrática do Congo”, não se tinha notícia de problemas com a doença. Todavia, a “Organização Mundial da Saúde” já se manifestou sobre o caso da Guiné na última semana e garantiu que não será necessário fazer para aquele país qualquer tipo de restrição a viagens ou negócios[6].

O grande problema do fechamento de fronteiras é que esse tipo de política desincentiva os países a relatarem aos seus vizinhos novos casos relacionados a essa ou a outras doenças.

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Imagem (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-africa-13442051

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/03/29/us-guinea-ebola-idUSBREA2S0JA20140329

[2] Ver:

http://www.smh.com.au/world/ebola-death-toll-in-guinea-rises-to-70-as-senegal-closes-border-20140330-zqom0.html

[3] Ver:

http://abcnews.go.com/Health/wireStory/senegal-closes-border-guinea-ebola-fears-23117196

[4] Ver:

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/

[5] Ver:

http://www.news-medical.net/health/What-is-Ebola.aspx

[6] Ver:

http://www.afro.who.int/en/clusters-a-programmes/dpc/epidemic-a-pandemic-alert-and-response/outbreak-news/4065-ebola-haemorrhagic-fever-in-guinea-25-march-2014.html

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Ver também:

http://www.scmp.com/lifestyle/technology/article/1460373/scientists-are-closing-drugs-may-stop-deadly-ebola-virus

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Imortalidade será realidade em 20 anos, afirma “Diretor do Google”

A imortalidade não é uma realidade, mas, à medida que a tecnologia evolui, esta possibilidade torna-se mais próxima, declarou[1] o “Diretor de Engenharia do Google”, Ray Kurzweil, no “Congresso Internacional Futuro Global 2045[2] (“Global Future 2045 World Congress”) realizado nos dias 15 e 16 de junho em “Nova York”.

Kurzweil ressalta que provavelmente em menos de 15 anos observaremos um grande avanço na medicina e, obviamente, esse avanço ampliará a expectativa de vida dos seres humanos. O diretor acredita que em breve será possível reprogramar células para se recuperarem de doenças e até mesmo gerar tecido humano em impressoras 3D.

O “Diretor de Engenharia do Google não é o único a esperar que a tecnologia traga a imortalidade para os seres humanos. No mesmo evento, o multimilionário russo Dmitry Itskov* está buscando investidores para financiar a pesquisa para uma tecnologia que pretende tornar possível a vida eterna[3], transferindo a consciência humana de uma forma artificial em avatares (corpos robóticos). O projeto prevê a produção em massa de avatares de baixo custo e aparência humana onde seria possível carregar o conteúdo de um cérebro humano, incluindo todos os detalhes específicos de consciência e de personalidade.

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* Itskov é o fundador da “Iniciativa de 2045”, uma organização sem fins lucrativos focada na criação de um centro de pesquisa internacional, onde os cientistas vão pesquisar e desenvolver tecnologias para tornar possível a vida eterna.

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[1] Ver:

http://www.cnbc.com/id/100818858

[2] Ver:

http://gf2045.com/

[3] Ver:

http://www.cnbc.com/id/100559031

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OMS nega diálogo com a indústria do tabaco

De acordo com informações publicadas no site da “Organização Mundial da Saúde” (OMS), no dia 20 de maio, a “Diretora Geral da OMC”, Margaret Chan, abriu a “66a  Assembleia Mundial da Saúde”, com declarações sobre os sucessos alcançados no controle das grandes endemias (HIV, malária e tuberculose) e pandemias (SARS – “Severe acute respiratory syndrome” / em português, “Síndrome Respiratória Aguda Severa” – e “Influenza A H1N1”), bem “como a necessidade dos Estados Membros trabalharem coordenados nas respostas às novas situações de emergências[1].