NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Israel e Emirados Árabes Unidos dão primeiro passo na aproximação

A recente negociação entre Israel e os Emirados Árabes Unidos ganhou espaço internacionalmente nos meios de comunicação. A aproximação entre os países acontece em meio a uma crescente tensão entre Israel e os vizinhos árabes pelo projeto de incorporação de territórios da Cisjordânia.

Também representa transformações mais amplas e uma maior complexidade da dinâmica política da região. Os Emirados se tornaram com este ato o terceiro país árabe a reconhecer a existência do Estado de Israel, após o Egito em 1979 e o reino da Jordânia em 1994.

Depois de uma série de negociações, o governo dos Emirados apresentou um Decreto no sábado, 29 de agosto, suspendendo o embargo econômico aos israelenses, referente à lei existente desde 1972 – quando da unificação dos Emirados e surgimento do país – que refletia a política de consenso entre os países árabes.

Como um efeito representativo do fim do embargo, se concretizou o estabelecimento de voos entre Abu Dhabi e Tel Aviv, operados pela Etihad Airways e pela companhia israelense El Al. No dia 31 de agosto, uma aeronave proveniente de Israel aterrissou pela primeira vez no aeroporto internacional de Abu Dhabi

Para a realização do voo foi necessário que a Arábia Saudita suspendesse à proibição de aeronaves israelenses circulando em seu espaço aéreo, ainda que o país não tenha reconhecido oficialmente Israel, e nem levantado outras restrições comerciais.

Painel no aeroporto internacional de Tel Aviv anuncia saída do primeiro voo direto com destino aos Emirados Árabes Unidos / Página oficial do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu no Twitter – @netanyahu

Em seguida, no dia 1º de setembro, os países assinaram um primeiro acordo que estabelece um grupo de trabalho conjunto para colaborar com serviços financeiros e facilitar investimentos por ambas as partes. O Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou que uma série de parcerias devem ser anunciadas em breve.

O sucesso das atuais medidas e a possibilidade de futuros acordos são encarados também como um ganho diplomático pelos Estados Unidos. Os primeiros passos para a aproximação foram anunciados em declaração tripartite divulgada em 13 de agosto. Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump e responsável pela articulação política no Oriente Médio, esteve entre os oficiais que viajaram de Tel Aviv para Abu Dhabi no voo inédito da El Al.

Apesar da aproximação, autoridades emiradenses reafirmaram compromissos com os países árabes e salientaram que o acordo fortalece uma série de garantias. Jamal al-Muasharak, alto oficial do Ministérios das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, afirmou em declaração que os Estados Unidos garantiram em um diálogo trilateral” que Israel não prosseguiria com o plano de anexar territórios na Cisjordânia.

Os Estados Unidos e países da região buscam utilizar da aproximação para ampliar o diálogo de outros atores com Israel. Em viagem para a região, conforme já relatado no CEIRI NEWS, em artigo de Natália Nahas, no dia 28 de agosto, o Secretário de Estado estadunidense, Mike Pompeo, se reuniu com representantes do Sudão, Bahrein e Omã para discutir acordos semelhantes.

Nas próximas semanas, para além das novas etapas da aproximação entre ambos, serão demonstradas possibilidades de aproximação entre países da área e sobre o futuro das relações entre distintos Estados da região.

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Fonte das Imagens:

Imagem 1Bandeira de Israel é hasteada em Abu Dhabi, entre as bandeiras dos Emirados Árabes Unidos e dos Estados Unidos da América, para marcar a realização do primeiro voo direto provindo de Tel Aviv / Página oficial do PrimeiroMinistro de Israel, Benjamin Netanyahu no Twitter @netanyahu” (Fonte): https://twitter.com/netanyahu/status/1300430295246811136

Imagem 2Painel no aeroporto internacional de Tel Aviv anuncia saída do primeiro voo direto com destino aos Emirados Árabes Unidos / Página oficial do PrimeiroMinistro de Israel, Benjamin Netanyahu no Twitter – @netanyahu” (Fonte): https://twitter.com/netanyahu/status/1300319842222907392

NOTAS ANALÍTICAS

Brasil recebe estudos sobre a vacina russa Sputnik V

Na corrida contra o tempo no combate a COVID-19, a Federação Russa se tornou o primeiro país do mundo a registrar uma vacina contra o coronavírus, que foi batizada de Sputnik V, alegadamente em alusão ao lançamento bem-sucedido do primeiro satélite espacial realizado pela União Soviética, em 1957, e que foi o gatilho para a intensificação da pesquisa espacial em todo o mundo.

Registrada em 11 de agosto (2020) pelo Ministério da Saúde da Rússia e, posteriormente, apresentada à comunidade global pelo presidente russo Vladimir Putin, a vacina foi alvo de desconfiança por vários países devido ao imunizante, pois, segundo especialistas, não obedecia aos padrões farmacêuticos internacionais, tendo o seu registro efetivado antes da conclusão da terceira e última etapa de testes, que é considerada pela comunidade científica como a mais importante para poder ser liberada massivamente.

Logotipo do RDIF

Paralelamente a isso, o Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF, na sigla em inglês) vê um grande interesse pela vacina no mundo e planeja realizar a terceira fase de testes clínicos em vários países, incluindo Arábia Saudita, EAU, Brasil e Filipinas, bem como iniciar a produção em larga escala com parceria dos fundos soberanos desses países, inclusive na Índia e Coreia do Sul. Além disso, estão sendo estudadas as possibilidades de produção na Arábia Saudita, Turquia e Cuba.

Logotipo do Tecpar

O Brasil, por sua vez, já recebeu, através do Instituto Tecnológico do Paraná (Tecpar), todas as informações sobre o desenvolvimento da imunização, além das pesquisas clínicas já realizadas pelo Instituto Gamaleya*, da Rússia. O estudo, com mais de 600 páginas, será verificado pelo Comitê Técnico Interinstitucional de Cooperação para Pesquisa, Desenvolvimento, Testagem, Fabricação e Distribuição de Vacina contra Sars-CoV-2 (COVID-19), instituído pelo governador paranaense, Carlos Massa Ratinho Junior (PSD), e coordenado pela Casa Civil, que será responsável por desenvolver a pesquisa com a Sputnik V, mas, momentaneamente, não divulgará dados para a comunidade científica brasileira devido a um memorando de intenções de parceria entre a Tecpar e Gamaleya, onde foi acertado um termo de confidencialidade, a partir do qual todas as informações foram compartilhadas para que o Tecpar elabore seu protocolo de validação para a realização da fase 3 da pesquisa clínica no estado brasileiro.

De acordo com o diretor-presidente do Tecpar, Jorge Callado, o estudo tem indicativos bastante positivos com os quais se permitiu iniciar a elaboração do protocolo de validação para a fase 3 de estudos clínicos da vacina russa no país, onde o Governo do Paraná deverá submetê-lo à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) dentro dos próximos trinta dias, além de também submetê-lo à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Só depois da aprovação dos protocolos por parte da Anvisa é que poderão ser iniciados os processos de importação das doses provindas do Instituto Gamaleya e, paralelamente, começará a triagem dos voluntários para os testes. Segundo Callado, os testes serão realizados nos hospitais universitários da rede pública. Num primeiro momento serão selecionados voluntários dentro dos profissionais de saúde que estão atuando diretamente no enfrentamento da pandemia. Na sequência, será expandido para outras pessoas no grupo de risco, sendo que a amostragem inicial envolverá cerca de 10 mil voluntários.

Caso a efetividade da vacina na fase 3 seja comprovada, se buscará o registro do medicamento em território brasileiro e a distribuição possivelmente será realizada pelo Ministério da Saúde do Brasil. O estado do Paraná, como pioneiro nos testes, poderá estruturar um processo produtivo local, tanto com investimento federal como também com investimento por parte do Fundo de Investimento Direto da Rússia, além do compromisso da transferência de tecnologia.

Atualmente, segundo fontes de pesquisa, existem cerca de 165 vacinas diferentes que estão sendo desenvolvidas em todo o mundo contra a COVID-19. Os principais tipos incluem: as baseadas em vetores virais; as baseadas em vírus; as baseadas em ácidos nucleicos e proteínas. A princípio, mesmo com a confidencialidade dos dados da Sputnik V, o que se tem conhecimento é que a vacina russa se baseia em vetor de adenovírus, que essencialmente são portadores que podem “entregar” material genético de um outro vírus para uma célula.

Esquema de vacina de dois vetores de coronavírus

As vacinas de vetores de adenovírus funcionam da seguinte forma:

–  O material genético do adenovírus que causa a infecção é removido e o material com um código de proteína de outro vírus, neste caso de um coronavírus, é inserido;

– O elemento inserido ajuda o sistema imunológico a responder e produzir anticorpos que protegem contra infecções;

A plataforma tecnológica de vetores baseados em adenovírus torna mais fácil e rápido criar novas vacinas por meio da modificação do vetor transportador inicial com material genético de novos vírus emergentes. Os adenovírus humanos são considerados os mais fáceis de modificar, razão pela qual se tornaram muito populares como vetores.

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Nota:

* O Centro Nacional de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia, nomeado em homenagem ao acadêmico honorário N.F. Gamaleya, é uma instituição de pesquisa líder no mundo em seu campo. O centro foi fundado em 1891 como um laboratório privado. Em 1949 recebeu o nome de Nikolai Gamaleya, pioneiro da pesquisa russa em microbiologia. Nikolai Gamaleya estudou no laboratório do biólogo francês Louis Pasteur em Paris e abriu a segunda estação de vacinação contra a raiva do mundo, na Rússia, em 1886. No século 20, Gamaleya, tornando-se um dos líderes do centro, lutou contra epidemias de cólera, difteria e febre tifóide e foi um dos organizadores de campanhas de vacinação em massa na URSS.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vacina Sputnik V” (Fonte):

https://sputnikvaccine.com/upload/iblock/8bd/8bd2349d736c14accd649abe0ec84ba8.jpg

Imagem 2Logotipo do RDIF” (Fonte):

https://rdif.ru/Eng_Index/

Imagem 3 Logotipo do Tecpar” (Fonte):

http://www.tecpar.br/

Imagem 4 Esquema de vacina de dois vetores de coronavírus” (Fonte):

https://sputnikvaccine.com/ajax/get-webp.php?path=/local/templates/sputnik/img/infographics/prt.png&crc=f2ef65439f4460ba1c846fbaede75dc0

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Cessar-Fogo na Líbia é anunciado

Líderes do Governo de Acordo Nacional (GNA) e do Exército Nacional Líbio (ENL), governo rival do leste do país, celebraram acordo de cessar-fogo, a ser cumprido a partir desta última semana de agosto de 2020. O primeiro-ministro líbio Fayez al-Sarraj declarou que, “como exige a responsabilidade nacional e política, a situação no país e as condições impostas pela pandemia do novo tipo de coronavírus (Covid-19), foi dada a ordem a todas as forças militares do país para que interrompam as operações militares e respeitem um cessar-fogo”.

As condições deste pacto incluem a desmilitarização das cidades de Sirte e Jufra, que são controladas pelos grupos rivais do Leste, o fim do bloqueio ao petróleo imposto por estes e a realização de eleições em março de 2021. Particularmente, a respeito das receitas oriundas do petróleo, Sarraj explicitou que “sejam depositadas na conta especial do Banco Central do Instituto Nacional do Petróleo e que, de acordo com as decisões da Conferência de Berlim, não se façam poupanças com estas receitas, até se chegar a uma ordem política integral e até que se garanta uma administração boa e transparente, com o auxílio da Missão da ONU de Apoio à Líbia”.

O Primeiro-Ministro líbio, Fayez al-Sarraj, deu ordens a todas as forças militares do país para interromperem imediatamente as operações militares e respeitarem um cessar-fogo

A queda e morte do ditador Muammar Kadhafi, em 2011, desencadeou grave crise política na Líbia. Desde então, diversas milícias armadas passaram a atuar em todo o território nacional. O GNA foi criado em 2015 e tem buscado exercer o controle nacional. Nos últimos anos, houve uma polarização na disputa de poder. Por isto, parte dos grupos se aliou ao GNA, apoiado pela ONU, sediada em Trípoli, e outra ao ENL, que tem força no leste do território líbio e recebe apoio do Egito e dos Emirados Árabes Unidos.

Fayez Mustafa Al-Serraj, Presidente do Conselho Presidencial e Primeiro-Ministro do Governo do Acordo Nacional da Líbia, discursa na cúpula de alto nível da ONU sobre grandes movimentos de refugiados e migrantes

A União Europeia, Liga Árabe, Arábia Saudita, Jordânia e Egito saudaram os grupos rivais pelo alcance deste compromisso, após vivenciarem intensos e longos combates. Como aliados, o GNA conta com a Turquia e a maioria das democracias ocidentais e o ENL com a Rússia e o Egito, dentre outros. Conforme declarado à imprensa pelo Primeiro-Ministro líbio neste 21 de agosto, o objetivo do cessar-fogo é garantir a integridade territorial da Líbia e a saída dos mercenários e soldados estrangeiros do país. A efetividade do pacto será acompanhada por toda a comunidade internacional, através da implementação das condições anunciadas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O PrimeiroMinistro líbio, Fayez al-Sarraj, deu ordens a todas as forças militares do país para interromperem imediatamente as operações militares e respeitarem um cessarfogo” (Fonte):

https://www.trt.net.tr/portuguese/africa/2020/08/21/sarraj-da-ordens-para-um-cessar-fogo-imediato-na-libia-1476989

Imagem 2Fayez Mustafa AlSerraj, Presidente do Conselho Presidencial e PrimeiroMinistro do Governo do Acordo Nacional da Líbia, discursa na cúpula de alto nível da ONU sobre grandes movimentos de refugiados e migrantes” / “Tradução livre do original: ‘Fayez Mustafa Al-Serraj, Chairman of the Presidential Council and Prime Minister of the Government of National Accord of Libya, addresses the UN high-level summit on large movements of refugees and migrants’ – UN Photo / 19 de setembro de 2016 United Nations, New York Photo # 692087” (Fonte):

https://www.unmultimedia.org/s/photo/detail/692/0692087.html

Imagem 3Kadafi em uma cúpula árabe na Líbia, em 1969, logo após a Revolução de setembro que derrubou o rei Idris I. Kadafi está sentado em uniforme militar no meio, cercado pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (à esquerda) e pelo presidente sírio Nureddin alAtassi (à direita) / Tradução livre do original: ‘Gaddafi at an Arab summit in Libya in 1969, shortly after the September Revolution that toppled King Idris I. Gaddafi sits in military uniform in the middle, surrounded by Egyptian President Gamal Abdel Nasser (left) and Syrian President Nureddin al-Atassi (right)” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Muammar_Gaddafi#/media/File:Nasser_Qaddafi_Atassi_1969.jpg

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Presidente do Mali é deposto e preocupa comunidade internacional

Durante a manhã do dia 18 de agosto de 2020, alguns soldados das Forças Armadas do Mali atiraram ao ar na base militar de Kati, a cerca de 15 km da capital do país, Bamako. Após o fato em Kati, seguiram para Bamako e prenderam o Ministro das Finanças, Abdoulaye Daffe; o Chefe da Guarda Nacional, Mahamane Touré; e o Porta-voz da Assembleia Nacional, Moussa Timbiné. O primeiro-ministro Boubou Cissé validou as reivindicações do grupo autointitulado Comitê Nacional para a Salvação do Povo e tentou promover o diálogo entre as partes. Entretanto, acabou sendo preso, assim como o Presidente, Ibrahim Boubacar Keïta, que renunciou e dissolveu a Assembleia Nacional no dia 19 de agosto, em programa transmitido pela televisão.

O golpe de estado teve apoio de parte da população, que se reuniu na Praça da Independência, em Bamako, para demonstrar seu apoio. Os membros do Comitê Nacional para a Salvação do Povo afirmaram no dia 20 de agosto que irão, eventualmente, transferir o poder para um novo Presidente durante a transição, civil ou militar, mas sem data prevista. Membros do partido CMAS disseram que vão apoiar os líderes que realizaram o golpe para desenvolver um caminho para novas eleições, e convocaram a população no dia 21 de agosto de 2020 para comemorar a “vitória do povo”. O líder do Movimento M5, de oposição ao governo e importante figura nos protestos contra o antigo governo, Imam Mahmoud Dicko, anunciou que não atuará mais na política por enquanto.

O líder do Comitê Nacional para a Salvação do Povo (CNSP) é o Coronel Assimi Goita. Ele já foi o Chefe das Forças Especiais do Mali e participou das operações contra os ataques jihadistas de 2015, em Bamako. Em sua carreira, participou da Missão das Nações Unidas em Darfur e recebeu treinamentos militares da França, Alemanha e Estados Unidos. Ao seu lado estão o Coronel Malick Diaw, vice-presidente do CNSP, e o Coronel Ismael Wagué, subcomandante do Estado-Maior da Força Aérea e agora porta-voz do novo governo. Soma-se também o ex-comandante da Academia Militar, Coronel Sadio Camara, e o Coronel Modibo Koné, participantes nos combates contra os jihadistas.

Os protestos no Mali iniciaram no dia 5 de junho de 2020. Além de demandarem a renúncia do presidente Ibrahim Boubacar Keïta, os manifestantes denunciavam a corrupção governamental, a má gestão no combate ao extremismo islâmico e problemas econômicos. Desde a eleição, em agosto de 2018, há uma tensão política devido às alegações da Oposição de irregularidades no processo eleitoral. Além disso, apesar da situação de pandemia atual, o governo promoveu a eleição legislativa em março. O Tribunal Constitucional também anulou 31 dos resultados, configurando a liderança de assentos e, consequentemente, o maior bloco no Parlamento para o partido de Ibrahim Boubacar Keïta.

Nos últimos meses também houve um aumento de ataques, principalmente na área central do país, por tensões étnicas. Em um desses eventos, Soumaila Cisse, líder da oposição foi sequestrado perto de Timbuktu em março de 2020. Depois de meses sem notícias, Cisse conseguiu enviar cartas à sua família, de acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Desde 2012, com o golpe de estado no Mali, há problemas de instabilidade. Vale relembrar que, durante esse período, rebeldes da etnia Tuareg e grupos alinhados com jihadistas tomaram conta de cerca de dois terços do país, necessitando da intervenção francesa para fazer frente às forças rebeldes.

A oposição acusa o Presidente de favoritismo pela influência de seu filho. Karim Keïta deixou o cargo de Presidência do Comitê de Defesa e Segurança do Parlamento em julho de 2020. O governo, por sua vez, nega as acusações da Oposição. Além disso, a economia do país, dependente do algodão e do ouro, tem sofrido devido à pandemia e à instabilidade política. Mais um efeito da crise ocorreu em junho de 2020, quando professores promoveram protestos devido à falta de comprometimento do governo em pagar o aumento de salário prometido previamente.

Rebeldes separatistas de etnia Tuareg, em janeiro de 2012

De acordo com a notícia do dia 21 de agosto de 2020, o antigo Presidente, Ibrahim Boubacar Keïta, está preso em um acampamento militar em Kati, tal qual o seu filho. Assim, recebeu a visita da equipe de direitos humanos da Missão das Nações Unidas no Mali. Outros 17 políticos que foram presos também se encontram nesse local. Os militares afirmaram que o Ministro das Finanças e o antigo secretário do Presidente foram soltos.

Os Estados Unidos da América (EUA) suspenderam no dia 21 de agosto a cooperação militar no Mali até que a situação seja esclarecida, de acordo com o porta-voz, J. Peter Pham. Além do apoio e treinamento para as Forças Armadas do Mali, os EUA também proviam suporte à Inteligência para as Forças Francesas no Sahel no combate a grupos terroristas, como al-Qaeda e ISIS.

A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS) condenou o golpe no Mali e o suspendeu do órgão de tomada de decisão da comunidade. A aliança regional afirmou que países vizinhos da África Ocidental estão fechando suas fronteiras com o Mali e que irão parar todas transações econômicas, financeiras e comerciais de seus membros com o país. O Presidente da França, Emmanuel Macron, assim como o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, também condenaram o golpe. Outras instituições como a União Europeia, o Conselho de Segurança da ONU e a União Africana se posicionaram da mesma forma.

Coronel Assimi Goita, líder do CNSP, em agosto de 2020

Além disso, António Guterres pediu que o presidente Ibrahim Boubacar fosse solto, assim como os outros políticos. A Missão de Peacekeeping no Mali tem o custo de cerca 1,2 bilhão de dólares anualmente (ou aproximadamente 6,75 bilhões de reais, conforme cotação em 23 de agosto de 2020) e, segundo Jean Pierre Lacroix, Secretário Adjunto de Operações de Paz, no dia 19 de agosto a Operação continua comprometida com o seu mandato, mas é necessário que a estabilidade institucional e a ordem constitucional sejam retomadas.

No dia 22 de agosto de 2020, membros do CNSP e da ECOWAS se reuniram para conversar sobre um novo governo de transição. No entanto, a reunião terminou em apenas 20 minutos. Alguns diplomatas apontaram que dificilmente o antigo Presidente retornará à liderança, mas que a ECOWAS deve auxiliar na transição de um novo governo antes que a crise se generalize. Países como Costa do Marfim e Guiné prezam por um posicionamento mais contundente do bloco para que saibam que golpes não serão tolerados. Além do medo de atitudes similares em outros Estados da região, líderes europeus temem uma nova onda de migrantes e que esforços internacionais contra grupos terroristas sejam minados pela situação atual do Mali.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Capital do Mali” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Portal:Mali#/media/Ficheiro:Bamakolooking_north_from_the_old_bridge.jpg

Imagem 2Rebeldes separatistas de etnia Tuareg, em janeiro de 2012” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mali#/media/File:Le_Mali_confronté_aux_sanctions_et_à_lavancée_des_rebelles_islamistes_(6904946068).jpg

Imagem 3Coronel Assimi Goita, líder do CNSP, em agosto de 2020” (Fonte):

https://fr.wikipedia.org/wiki/Assimi_Goita#/media/Fichier:OPD742K77NFB7ITPGBHNL6LKDQ.jpg

AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Vinícolas sul-americanas premiadas entre as melhores do mundo

A World’s Best Vineyards divulgou a lista dos 50 melhores destinos de turismo de vinho (enoturismo) do mundo em uma premiação realizada online em 13 de julho de 2020. Entre as 10 primeiras classificadas, 4 regiões são de países sul-americanos e o primeiríssimo lugar é da Argentina.

A cerimônia seria realizada no estado americano da Califórnia, no Condado de Sonoma, famoso pela gastronomia e pelas mais de 400 vinícolas, mas não pôde ser presencial em razão da pandemia do coronavírus. A escolha foi feita por meio de uma academia com mais de 500 integrantes, de todas as partes do mundo, entre especialistas em vinho, sommeliers e correspondentes de viagem. Estes integrantes são concentrados em torno de 20 Cátedras Acadêmicas, que representam regiões, incluindo a Cátedra “Restante das Américas, exceto Argentina e Chile”, que é ocupada pela sommelier brasileira Cláudia Melo.

A lista completa conta com 50 vinhedos de 18 países dos cinco continentes, sendo que os mais presentes numericamente são o Chile (8 regiões), a França (7) e a Argentina (5). O Brasil não esteve representado na lista e os vencedores por região foram: Zuccardi Vale de Uco (Argentina) na América do Sul; Domäne Wachau (Áustria) pela Europa; Roberto Mondavi Winery (EUA) pela América do Norte; Rippon (Nova Zelândia) pela Australásia; Delaire Graff Estate (África do Sul) pela África; e Château Mercian Mariko Winery (Japão) pela Ásia.

A vencedora Zuccardi Vale de Uco já havia arrebatado o primeiro lugar em 2019, na primeira edição da premiação em Londres. A Zuccardi está situada na região de Mendoza, junto à Cordilheira dos Andes, e fica aberta para visitação, passeios, degustação de vinhos e refeições no Restaurante Piedra Infinita. Em 2020 obteve novamente o primeiro lugar na premiação que teve a Bodega Garzón (Uruguai) e a R. López de Heredia Viña Tondonia, S.A. (Espanha), em segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Instalações da Vinícola argentina Zuccardi

Os organizadores da premiação sabem que, por algum tempo, em razão da pandemia de Covid-19, os apreciadores de vinho e de viagens não poderão se deslocar tão fácil e livremente como antes, mas poderão escolher para onde ir quando o momento crítico passar. Sabendo disso, a Wines of Argentina (WOFA), responsável pela promoção da imagem daquele país como exportador de vinhos, lançou em 5 de agosto de 2020, um plano de negócios e posicionamento, visando sobretudo garantir presença em grandes mercados como a China e EUA, sem descuidar de outros como Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Canadá, América Latina, Brasil e México.

O plano prevê a implementação de ações inovadoras de marketing digital, com a exploração de plataformas de geração e disseminação de conteúdo, educação à distância, organização de eventos, ativação de novos canais voltados ao e-commerce e plataformas de vendas.  Além disso, farão uso de realidade virtual e aumentada, bem como de pesquisas de mercado para entender o novo normal e subsidiar a tomada de decisões.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vinhedos da Zuccardi” (Fonte):

https://zuccardiwines.com/wp-content/uploads/2020/06/piedra-infinita-1.jpg

Imagem 2 Instalações da Vinícola argentina Zuccardi” (Fonte):

https://zuccardiwines.com/wp-content/uploads/2019/05/turismo-gal4.jpg

Direito InternacionalNOTAS ANALÍTICAS

Especialistas independentes da ONU recomendam suspensão de Sanções a Estados durante a pandemia

Em nota divulgada à imprensa neste 7 de agosto, a Organização das Nações Unidas (ONU) deu voz a um grupo de Relatores Especiais e Peritos Independentes que integram o Sistema Universal de Direitos Humanos desta organização, que se posicionaram publicamente sobre os efeitos das sanções impostas a Estados, neste período de pandemia. O grupo de especialistas afirmou que “as sanções impostas em nome da defesa dos direitos humanos estão, na verdade, matando pessoas e privando-as de direitos fundamentais, incluindo o direito à saúde, à alimentação e à própria vida”.

Por esta razão, apelaram aos países para suspenderem ou, ao menos, aliviarem as sanções impostas, com o objetivo de facilitar o acesso a suprimentos como água, sabão, eletricidade e combustível, bens essenciais ao funcionamento de hospitais e para a entrega de alimentos, escassos por causa das sanções. Segundo declara o grupo, “As sanções estão trazendo sofrimento e morte em países como Cuba, Irã, Sudão, Síria, Venezuela e Iêmen”.

Os autores do apelo incluem: Alena Douhan, relatora especial sobre o impacto negativo das medidas coercitivas unilaterais no gozo dos direitos humanos; Obiora Okafor, especialista independente em direitos humanos e solidariedade internacional; Mofokeng, Relator Especial sobre o direito à saúde física e mental; Michael Fakhri, Relator Especial sobre o direito à alimentação; e Agnès Callamard, Relatora Especial para Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias. Eles são independentes de qualquer governo ou organização e atuam em sua capacidade individual.

Um menino está em um bairro desfavorecido de Ahvaz, Irã. O país está entre os que estão sendo submetidos a sanções internacionais, apesar dos estragos da COVID-19

O grupo de especialistas promoveu o primeiro apelo neste sentido em abril, bem como às Sociedades Internacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, que é agora reiterado, visto que não provocou adesões. Nesta oportunidade, os especialistas saudaram os esforços de muitos Estados, organizações intergovernamentais e não governamentais, para tentarem ajudar os países sancionados a combaterem a COVID-19, particularmente a União Europeia, Reino Unido, Suíça, Rússia, China, Estados Unidos e outros doadores de suprimentos médicos.

A respeito do fundamento legal para a suspensão de sanções, o grupo equipara a pandemia global pela COVID-19 a uma circunstância capaz de gerar isenções humanitárias. Assim presumida, a suspensão das sanções deve ser concedida sob a presunção de que o seu propósito declarado é realmente humanitário.

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Fontes das Imagens:

Imagem 2David Kaye (à esquerda) e Agnes Callamard estão entre os especialistas que emitiram a declaração em janeiro de 2020, reiterada em agosto. São, respectivamente, o Relator Especial para a Promoção e Proteção do Direito à Liberdade de Opinião e Expressão, e o Relator Especial para as Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias (foto de arquivo) –  [Tradução livre do original: Interpol David Kaye (left) and Agnes Callamard are among the experts who issued the statement. Respectively, they are the Special Rapporteur on the Promotion and Protection of the Right to Freedom of Opinion and Expression, and the Special Rapporteur on extrajudicial, summary or arbitrary executions (file photo). UN Photo/Rick Bajornas/Loey Filipe. 22 de janeiro de 2020]” (Fonte):

https://global.unitednations.entermediadb.net/assets/mediadb/services/module/asset/downloads/preset/Libraries/Production+Library/22-01-2020-NICA-739599-Kaye-NICA-828271-Callamard.jpg/image1170x530cropped.jpg

Imagem 2Um menino está em um bairro desfavorecido de Ahvaz, Irã. O país está entre os que estão sendo submetidos a sanções internacionais, apesar dos estragos da COVID19 – [Tradução livre do original: A boy stands in a disadvantaged neighbourhood of Ahvaz, Iran. The country is among those being subjected to international sanctions, despite the ravages of COVID-19. © UNICEF]” (Fonte):

https://news.un.org/en/story/2020/08/1069732