EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

UKROBORONPROM: acusações de corrupção no setor de defesa da Ucrânia

Em pleno conflito com os rebeldes separatistas das regiões de Donetsk e Lugansk, na região de Donbass, leste da Ucrânia, o presidente Petro Poroshenko é acusado de participar de um esquema de corrupção envolvendo a estatal do setor de Defesa, a UkrOboronProm (UOP).

Em 2017, funcionários da estatal de Defesa ucraniana foram acusados de terem se apropriado ilegalmente de xxxxxxxx (aproximadamente, 22,8 milhões de reais, conforme a cotação de 25 de março de 2019), em um acordo para fornecer peças de aviões ao Ministério de Defesa do Iraque, além de adquirir motores velhos para quarenta tanques com preço de novos para a Ucrânia.

Tanque ucraniano em parada do Dia da Independência

A UkrOboronProm é um sistema com 80.000 funcionários e 130 empresas independentes, das quais 42 estão endividadas e inativas e 30 na fila para serem privatizadas. Além destas medidas, seu diretor geral, Pavlo Bukin, quer agilizar suas exportações e importações reduzindo a centralização de comando sobre o setor e adaptar os seus salários aos do mercado, isto é, elevá-los, para combater a corrupção. Mas, para que a credibilidade internacional e os financiamentos decorrentes ocorram, as auditorias contra a corrupção necessitam deixar de ser proteladas.

O escândalo de corrupção se tornou público após a divulgação de um relatório pelo site Bihus.info, no dia 25 de fevereiro. Nele, o filho do vice-presidente do Conselho Nacional de Segurança e Defesa (já demitido do cargo), Ihor Hladkovskyy, é acusado de organizar um círculo de contrabandistas de peças sobressalentes de equipamentos militares russos em 2015, um ano após a Rússia ter invadido a Crimeia, e apoiado militantes separatistas no leste do país.

O relatório ainda afirma que Ihor e seus sócios teriam ganho 250 milhões de grívnias (moeda ucraniana), aproximadamente, 34,56 milhões de reais, de acordo com a cotação de 25 de março de 2019, contrabandeando o material russo através de três empresas privadas, uma das quais pertencia ao presidente Poroshenko.

Os protestos contra a corrupção se avolumam no país. No dia 9 de março, o partido de direita “NATIONAL CORPS” realizou uma manifestação em frente à administração presidencial no centro de Kiev e em Cherkasy, cidade a sudeste, onde discursava o Presidente. E no sábado retrasado, dia 17, cerca de 10.000 pessoas foram novamente às ruas protestar contra o atual governo e seu envolvimento na compra de material deteriorado e superfaturado. O tom das manifestações já passou de ser contra a corrupção e a máquina administrativa, envolvendo o setor de Defesa, para uma crítica ao atual governo. Intitulado Svinarchuks (“porcos”) de Poroshenko, o protesto exigia a prisão de todos os envolvidos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo da UkrOboronPromempresa estatal do setor de defesa da Ucrânia” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UkrOboronProm.svg

Imagem 2 Tanque ucraniano em parada do Dia da Independência” (Fonte): https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:T-64BM_pre_parade.jpg

ÁSIADEFESANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Pequim planeja construir base estratégica no Mar do Sul da China

A China clama soberania sobre a maior parte do Mar do Sul da China por meio de sua “linha de nove traços” (“nine-dash line”, em inglês), que abrange as Ilhas Pratas, as Ilhas Paracel, as Ilhas Spratly e o Atol de Scarborough. A área é estratégica por ser uma das principais zonas de transporte de mercadorias do Leste da Ásia, além de ser rica em petróleo cru e gás natural. A zona está em litígio com o Vietnã, a Indonésia, a Malásia, Brunei, as Filipinas e Taiwan.

Linha de Nove Traços’, defendida pela China

O governo chinês planeja construir uma base estratégica de logística e serviços na Ilha Woody (Yongxing, em mandarim), a maior do arquipélago das Ilhas Paracel, e duas ilhas artificiais, Tree e Drummond (Zhaoshu e Jinqing, em mandarim), nas águas em disputa do Mar do Sul da China, relata o jornal South China Morning Post. O projeto será implementado pela cidade de Sansha, localizada na província de Hainan, que também é o território mais meridional da China.

Na sexta-feira (15 de março), o Secretário do Partido Comunista de Sansha, Zhang Jun, afirmou que o plano de desenvolvimento da base e das ilhas artificiais origina-se a partir de uma diretiva do governo central lançada em abril de 2018, na ocasião do trigésimo aniversário da província de Hainan. Zhang também declarou: “Nós precisamos planejar cuidadosamente o desenvolvimento integral das ilhas e recifes baseado nas suas diferentes funções e levando em consideração seu relacionamento complementar”.

Ilha artificial Fiery Cross Reef, dotada de sistemas de radares e antimísseis, no arquipélago das Ilhas Spratly

Pequim construiu sete ilhas artificiais em áreas em litígio com outros países no Mar do Sul da China, criando mais de 128 milhões de metros quadrados de terra nova para o país, e clama a existência de zonas marítimas chinesas em torno dessas ilhas. O governo chinês tem militarizado a região de forma intensa desde 2014, por meio da instalação de radares submarinos, depósitos de armas e mísseis antinavio nas Ilhas Spratly.

Ao mesmo tempo, os Estados  Unidos  estão alarmados com a expansão da zona de influência chinesa no Pacífico, o que cria vulnerabilidades para a sua segurança, podendo comprometer as redes de comunicação e as rotas de navegação na região, constrangendo sua habilidade de trabalhar com seus aliados. A Marinha americana realizou duas operações de liberdade de navegação no Mar do Sul da China, em janeiro e em fevereiro de 2019, como forma de protestar contra a objeção chinesa de que veículos militares estrangeiros naveguem nas proximidades ou sobrevoem suas ilhas.

Os interesses das duas grandes potências no Mar do Sul da China têm o potencial de colocar Pequim e Washington em rota de colisão, tornando o Leste da Ásia uma região cada vez mais volátil e que pode desestabilizar a segurança do sistema internacional como um todo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vista aérea da Ilha Woody, no arquipélago das Ilhas Paracel” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3c/Aerial_view_of_Woody_Island.jpg

Imagem 2 Linha de Nove Traços’, defendida pela China” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Nine-Dash_Line#/media/File:South_China_Sea_Claims_and_Boundary_Agreements_2012.jpg

Imagem 3 Ilha artificial Fiery Cross Reef, dotada de sistemas de radares e antimísseis, no arquipélago das Ilhas Spratly” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Fiery_Cross_Reef#/media/File:Fiery_Cross_Reef_2015.jpg

NOTAS ANALÍTICASTecnologia

Cyber Security Clusters são centros de construção de IA militares

O caráter hiperconectado e aberto do ciberespaço envolve diferentes contextos ou perspectivas de guerra híbrida. Isso ocorre devido à capacidade daquele de dar suporte ao uso intensivo de tecnologias de comunicação e informação para expansão da economia global, algo que se processa através da criação de redes de comércio internacional, bem como do acesso e compartilhamento à informação e ao conhecimento universal.

A internet também oferece oportunidades sem precedentes para a militarização e suas consequentes adequações para a geração, mitigação e soluções de conflitos de nossas sociedades. Neste ambiente, a arquitetura da transformação da natureza, do poder e da guerra faz com que as ameaças cibernéticas cresçam tanto em número quanto em sofisticação. 

O risco cibernético está agora firmemente no topo da agenda internacional e a Inteligência Artificial (IA) tende a ser o principal ativo neste cenário,  já que governos (seus aliados e adversários), empresas e consumidores reconhecem o potencial impacto destrutivo de ataques maciços de hackers e outras falhas de segurança que venham ou possam vir a comprometer os interesses relativos à soberania do povo, sua estabilidade econômica e seu bem-estar social.

A corrida pelo protagonismo e pelo domínio de aplicações militares baseada em soluções de IA tem refletido nas relações cibernéticas, principalmente entre EUA, Rússia e China. Uma base dos valores envolvidos nos conflitos cibernéticos pode ser retratada na recente decisão da Casa Branca, anunciada na segunda-feira (18/03/2019), em pedir mais de US $ 17,4 bilhões para esforços cibernéticos federais no ano fiscal de 2020 (aproximadamente, 65,88 bilhões de reais, conforme cotação de 22 de maço de 2019).

Para organizar suas doutrinas, políticas e estratégias de segurança nacional competitivas, bem como acompanhar e realizar a manutenção de domínios, ou conquistar novas posições em relação ao uso do ciberespaço, a construção de consórcios entre governos, indústrias, empresas e instituições com habilitações interdisciplinares e confiáveis permite combinar sinergias, resultando, por sua vez, na implementação de Clusters de Segurança Cibernética como estratégia de Defesa Nacional, utilizando a Inteligência Artificial para fins militares. Estes clusters são centros avançados, compostos por sociedades digitais de alta capacidade de resposta à ataques virtuais, os quais, atualmente, estão na vanguarda da segurança cibernética. Mitigar riscos de ataques e proteger sistemas é o foco deles.

Logo da OTAN

A propagação desta abordagem, incentivada fortemente pela OTAN/NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte/North Atlantic Treaty Organization), inclui o novo paradigma do uso sistemático e integrativo de redes que permitem a união entre os Estados membros da Organização*, indústrias, empresas, forças militares, academia, associações e instituições de fomento, agências e laboratórios federais, organizações de apoio à inovação e empreendedorismo, órgãos governamentais estaduais e locais, think tanks e organizações de pesquisa, câmaras de comércio e indústria,  visando incrementar capacidades operacionais e fazer frente à crescente disputa pelo poder cibernético.

Nesse sentido, nos clusters de segurança cibernética os processos de coalizões entre Estados e suas respectivas estruturas de agentes estatais e privados têm como objetivos a proteção de seus próprios sistemas, o compartilhamento de informações sobre ameaças, o reforço da resiliência das redes, a ajuda e prevenção, bem como capacitar a responder e a se recuperar de ataques cibernéticos.

Também se deseja identificar vulnerabilidades, dominar processos de inovações tecnológicas e conhecimentos especializados, os quais são cruciais para o financiamento** e a proteção de seus ativos em infraestrutura crítica e de suas cadeias de abastecimento, protegendo as redes de dados, fomentando novos ambientes de negócios, o desenvolvimento de produtos e serviços baseados em pesquisa e alavancando o crescimento econômico regional, além da competitividade nacional. Além disso, é possível aumentar a conscientização pública sobre as melhores práticas de segurança cibernética.

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Notas:

* A OTAN tem vinte e nove membros, principalmente na Europa e América do Norte. Alguns desses países também têm território em vários continentes, mas a Aliança cobre apenas a região acima Trópico de Câncer. Poucos membros gastam mais do que dois por cento do seu produto interno bruto em Defesa, sendo que os Estados Unidos respondem por três quartos dos gastos de Defesa da Aliança Países Membros da OTAN: Albânia, Alemanha, Bélgica, Bulgária, Canadá, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, França, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Montenegro, Holanda, Noruega, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Romênia e Turquia. TURQUIA (1952)

** Os Aliados da OTAN concordaram com os orçamentos civil e militar para 2019. Em uma reunião do Conselho do Atlântico Norte na terça-feira (18 de dezembro de 2018), os Aliados acordaram um orçamento civil de 250,5 milhões de euros (aproximadamente, 1,081 bilhão de reais, de acordo com a cotação de 22 de março de 2019) e um orçamento militar de 1,395 bilhão de euros para 2019 (aproximadamente, 6,017 bilhões de reais, também de acordo com a cotação de 15 de março de 2019). Os países membros contribuem para esses orçamentos de acordo com uma fórmula de partilha de custos acertada com base no Rendimento Nacional Bruto. Isto inclui medidas para: fortalecer as capacidades de inteligência da OTAN; antecipar e planejar desafios cibernéticos e híbridos; melhorar a maneira como a Aliança lida com os dados como um ativo estratégico; aumentar a cooperação em defesa com os parceiros. Para além dos orçamentos civis e militares, o terceiro principal elemento comum financiado pela Aliança é o Programa de Investimento em Segurança da OTAN. Cobrindo grandes investimentos no sistema de construção e comando e controle, o teto de 2019 para a NSIP é de € 700 milhões (aproximadamente, 3,019 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 22 de março de 2019).  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Chefes de Estado e de Governo que participam na reunião do Conselho do Atlântico Norte em Bruxelasnos dias 11 e 12 de julho de 2018” (Fonte): https://www.otan.missaoportugal.mne.pt/pt/noticias/declaracao-da-cimeira-de-bruxelas

Imagem 2 Emblema da OTAN/NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte/North Atlantic Treaty Organization)”(Fonte): https://www.nato.int/

ÁfricaCOOPERAÇÃO INTERNACIONALMEIO AMBIENTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

Cabo Verde: gestão de recursos hídricos para tratar da escassez de água

A gestão de recursos hídricos e os efeitos causados pela escassez de água nas esferas sociais, econômicas e ambientais representam um tópico de interesse público e internacional. No tocante ao arquipélago de Cabo Verde, que se utiliza de chuvas sazonais para seus reservatórios e que já registrou períodos de emergência, como no ano de 2017, alternativas ao uso da água em setores produtivos fazem parte das prioridades do país.

Mais recentemente, Cabo Verde sediou durante a segunda semana do mês de março de 2019 o primeiro Fórum Internacional sobre Escassez de Água na Agricultura, com o tema “Não deixar ninguém para trás”, uma vez que a crise hídrica é um obstáculo para muitos Estados, não apenas os insulares. Visando discutir sobre a escassez de água no âmbito da agricultura e segurança alimentar, esta iniciativa incluiu a colaboração da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO, sigla em inglês para Food and Agriculture Organization of the United Nations).

Logo da FAO

A parceria entre a FAO e o país teve início em 1976 e no seu quadro de ações encontra-se o enfoque das relações com as condições climáticas do arquipélago. Em decorrência do caráter emergencial presente nas estiagens que Cabo Verde tem enfrentado, a atuação com programas voltados à mitigação da seca acaba sendo priorizada. Neste contexto de apoio técnico nos setores que interagem com a produção de alimentos, cabe mencionar a criação de programas ampliando a produtividade e o desenvolvimento da agricultura familiar, segurança alimentar e saneamento.

Um exemplo de reutilização dos recursos hídricos é a dessalinização de água do mar para uso doméstico, um recurso já utilizado pelo país e que, ao final do ano de 2018, recebeu investimentos da Agência Francesa de Desenvolvimento, Banco público para o desenvolvimento.

Imagem sobre irrigação

De forma complementar, para além do apoio financeiro, pode ser identificada a Cooperação Técnica no quadro de parcerias. Esta corresponde ao desenvolvimento de relações com países experientes no que tange a produção agrícola em contexto climático adverso, buscando integrar novas tecnologias e capacitar os profissionais da área rural, como ocorre na produção de alimentos em Israel, que é desenvolvida em território semiárido.

Deste modo, pode-se observar a atuação cabo-verdiana no espaço internacional, onde a construção de parcerias estratégicas voltadas para superação de desafios e implementação de mecanismos sustentáveis de gestão da água, independente do recurso pluvial, integram um ponto de inflexão na agenda exterior do Estado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Foto ilustrativa de irrigação por gotejamento” (Fonte): https://pensamentoverde.com.br/wp-content/uploads/2013/09/img49-300×300.jpg

Imagem 2Logo da FAO” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/db/FAO_logo.svg/2000px-FAO_logo.svg.png

Imagem 3Imagem sobre irrigação” (Fonte): https://www.portalpadom.com.br/wp-content/uploads/2018/07/israel-deserto-exportadores-agricolas-prospero-min-696×453.jpg

NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A agenda política do Irã para superar as novas sanções

Os Estados Unidos confirmaram uma das mais repetidas promessas de campanha de Donald Trump em 8 de maio de 2018, procedendo com a saída unilateral do Plano de Ação Integral Conjunto (a sigla JCPOA, do inglês Joint Comprehensive Plan of Action), popularmente conhecido como o Acordo Nuclear do Irã.

A partir de 5 de novembro, o governo estadunidense anunciou também a aplicação de sanções sobre o país persa. Estas ocorrerão em etapas, em um ciclo de 180 dias: primeiro restringindo a compra de dólares americanos, para em seguida limitar a exportação de petróleo e, por fim, colocando limites para negociações de empresas e indivíduos.

Visando reduzir à zero as exportações do Irã, os Estados Unidos prometem duras retaliações aos que mantenham atividades comerciais que possam ser vistas como uma forma de driblar as sanções. Segundo o The Guardian, o presidente Trump afirmou categoricamente que qualquer um que comercialize com os iranianos, não o fará com os Estados Unidos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escolhe paródia da série televisiva Game of Thrones para anunciar a data final em que passou a valer o novo pacote de sanções ao Irã

O Acordo Nuclear, em si, bem como os compromissos que este acarreta não são frutos de uma relação bilateral entre o Irã e os EUA, uma vez que o JCPOA foi desenvolvido no âmbito do P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – China, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia – e também a Alemanha).

Estes países possuem preocupações específicas quanto aos efeitos das sanções, acreditando na necessidade de manutenção do Acordo, apesar de identificar perigo em certas atitudes do Irã, conforme ressaltou a chanceler Angela Merkel na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2019. As relações comerciais e políticas dos iranianos com outros países, especialmente seus vizinhos, também devem ser levadas em consideração.

Após meses de negociações, o Ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammed Zarif, e seus pares do P5+1, anunciam em Viena a assinatura do JCPOA, em julho de 2015

A saída dos EUA do acordo já impactou profundamente a economia do país persa. Entre maio e outubro de 2018, a moeda do país, o rial iraniano, passou por uma desvalorização de 172% em relação ao dólar, de acordo com o Banco Mundial. A inflação também atingiu em agosto a taxa anual de 24%, a maior vista no país desde 2013. A exportação de energia, gás e de produtos do petróleo é uma das principais fontes de receita do Irã. Conforme noticiado pela agência Reuters a exportação de petróleo para os principais consumidores sofreu uma queda de quase 20% em relação ao ano anterior (2017).

Para garantir tanto pressão política sobre os EUA quanto a manutenção do ingresso de capital, as autoridades iranianas têm se movimentado para reagir. Esta reação inclui desde negociar com grandes potências interessadas na manutenção do Acordo, até buscar negociações diretas com países vizinhos. Para isso, são importantes os aliados próximos, como a Síria e o Líbano; vizinhos abertos ao diálogo, como o Iraque; e outros atores como a Turquia e os países do Golfo Pérsico.

Os recentes acontecimentos políticos levam os persas a colocarem as diferenças de lado, buscando um diálogo mais profundo com atores da região. O Irã procura parecer aberto à cooperação, como a recente declaração do presidente Rouhani com respeito à Arábia Saudita, reproduzida pelo Middle East Monitor, alegando que busca a aproximação e que “os muçulmanos devem garantir a segurança regional”.

As diferenças históricas, acusações mútuas quanto ao financiamento de terrorismo na região e o apoio a lados opostos nos conflitos da Síria e Iêmen, tornam o diálogo complicado neste caso, por mais que se anuncie o contrário. As relações comerciais com os Emirados Árabes Unidos, grande comprador de petróleo iraniano, apesar da dura retórica que Dubai dispensa à República Islâmica, devem ser reduzidas por medo de retaliação dos Estados Unidos.

No caso do Qatar, os recentes embargos impostos a ambos levou ao aumento do diálogo entre eles. O jornal Haaretz noticiou que o governo de Teerã abriu seu espaço aéreo para o trânsito de aeronaves da Qatar Airways, amenizando parte do impacto que Dubai sofreria por conta das medidas restritivas de seus vizinhos. Em reconhecimento ao apoio, o Qatar reestabeleceu relações diplomáticas com Teerã.

A Turquia chegou inclusive a anunciar a possibilidade de buscar outras formas de manter o comércio com o Irã. Conforme noticiou a Al Jazeera, um encontro trilateral de Rouhani com o presidente Recep Erdogan, foi intermediado em Sochi por Vladmir Putin, Presidente da Rússia, em 14 de fevereiro. Na ocasião, discutiu-se o apoio para ações conjuntas dos países no conflito da Síria.

Erdogan declarou que a Turquia está pronta para aderir a medidas alternativas visando superar as sanções e manter o comércio com os persas.  Pouco depois, o governo turco anunciou a realização de operações junto ao Irã contra forças curdas na fronteira entre os dois países. Ainda que as alegações tenham sido negadas por autoridades iranianas, esta aproximação sinaliza alinhamento de interesses entre ambos.

Em visita inédita ao Iraque, Rouhani ressaltou buscar formas de aumentar o comércio entre os dois países. Tendo em vista que Bagdá procura manter uma relação amistosa com o vizinho, este busca beneficiar-se para aumentar a entrada de capital e o fluxo comercial. Segundo noticiado pela Bloomberg, o Presidente iraniano afirmou que a expectativa é que o comércio entre os dois países suba até final do ano de 2019 de US$ 12 bilhões (em torno de 45,48 bilhões de reais, correspondendo à cotação do dia 19 de março de 2019) para próximo de US$ 20 bilhões (cerca de 75,8 bilhões de reais).

As negociações incluem acordos entre os Bancos Centrais de ambos, visando permitir o pagamento das transações em euros ou dinares iraquianos, evitando as sanções impostas. Também foram criadas facilidades para retiradas de vistos, isenção de taxas, além do investimento em infraestrutura ferroviária, visando facilitar a conexão na fronteira. 

Sustentando o discurso da manutenção das instituições multilaterais e alegando que a retirada do Acordo criaria um risco ainda maior de perder o controle sobre o programa nuclear do Irã, os demais signatários do JCPOA vêm buscando medidas que permitam a manutenção de suas relações comerciais com Teerã. Alemanha, França e Reino Unido anunciaram no final de janeiro (2019) um Veículo de Propósito Especial*, o mecanismo estabelecido foi nomeado “Instrumento em Apoio à Trocas Comerciais” (INSTEX, na sigla em inglês), que permitiria pagamentos fora do sistema bancário tradicional e a manutenção negócios à margem dos termos das sanções.

Por mais que a medida tenha sido criticada por oficiais do governo dos Estados Unidos, outros países como a Rússia, a China e a já mencionada Turquia apontaram intenção de promover medidas semelhantes, sustentando que a manutenção do Acordo é a melhor medida para o equilíbrio regional.

Acompanhando esta movimentação internacional, diplomatas iranianos apresentaram uma nova denúncia contra autoridades dos Estados Unidos na Corte Internacional de Justiça. Seguindo uma demanda já realizada por haver quebrado o Acordo, o presidente Rouhani alegou, conforme noticiado pelo Al Monitor, que “aqueles que negam a importação de comida e remédios são criminosos”, salientando que irão demandar aqueles que desenharam as sanções por “crimes contra a humanidade”.

A saída dos Estados Unidos do Acordo Nuclear do Irã aumenta ainda mais a complexidade das relações na região. Com o alegado objetivo de diminuir a influência iraniana, impedindo que o país possa obter recursos para financiar grupos políticos fora de seu próprio território, ou acelerar uma mudança de regime, Washington pode produzir novas alianças que ameaçam seus próprios projetos no Oriente Médio.

Teerã tem demonstrado que buscará maneiras de manter-se equilibrada, com disposição inclusive para flexibilizar o diálogo com outros atores. Esta política visa garantir o equilíbrio interno do país, podendo culminar em novas alianças, como uma possível ação contra os curdos junto à Turquia, ou mais presença iraniana no Golfo Pérsico. Este processo político pode gestar novos paradigmas ainda mais complexos e imprevisíveis para o Oriente Médio.

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Nota:

* Veículo de Propósito Especial, ou Entidade de Propósito Especial, é uma forma de instrumento bancário usado por uma companhia-mãe para isolar ou assegurar as operações sobre um ativo específico, sobretudo em planilhas externas. É criada como uma empresa separada, usualmente para realizar join-ventures, operação de projetos ou transações.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Presidente do Irã, Hassan Rouhani, inaugura a terceira fase da refinaria Persian Gulf Star, na cidade de Bandar Abbas”(Fonte Islamic Republic News Agency): http://www.irna.ir/en/Photo/3672564

Imagem 2 O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escolhe paródia da série televisiva Game of Thrones para anunciar a data final em que passou a valer o novo pacote de sanções ao Irã” (Fonte Twitter do Presidente Donald Trump @realDonaldTrump): https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1058388700617498625/photo/1?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1058388700617498625&ref_url=https%3A%2F%2Fqz.com%2F1449603%2Ftrump-parodied-game-of-thrones-on-twitter-on-iran-sanctions%2F

Imagem 3 Após meses de negociações, o Ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammed Zarif, e seus pares do P5+1, anunciam em Viena a assinatura do JCPOA, em julho de 2015” (Fonte – Wikimedia Commons): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Iran_Talks_Vienna_14_July_2015_(19067069963).jpg

ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

Investidores asiáticos controlam 100% de clube italiano da Série A

Já faz alguns anos que grandes empresas do continente asiático vêm utilizando a estratégia de investir em clubes de futebol de pequeno, médio e grande portes. Dentre os objetivos estão: promover o gerenciamento intercultural, diversificar seus rendimentos, estabelecer suas marcas em um cenário global e reafirmar um plano de marketing mais audacioso.

Mercado-alvo e com times de forte projeção internacional, o continente europeu foi palco de uma das mais recentes operações bilionárias. Em junho de 2016, a terceira maior empresa privada da China adquiriu 68,55% da Inter de Milão, clube italiano que completou 111 anos em 2019.

A compra das ações majoritárias foi anunciada pelo então presidente da Inter, Erick Thohir, e por Zhang Jingdong, CEO do grupo Suning Holdings Group*, acompanhados do vice-presidente do clube, Javier Zanetti, e do executivo-chefe Michael Bollingbroke. O valor divulgado da transação foi de € 270 milhões (cerca de R$ 1,161 bilhão). Segundo a agência Reuters, “a companhia disse que quer criar um ‘ecossistema’ esportivo global, incluindo propriedade de clubes, direitos de mídia esportiva, agências de jogadores, instituições de treinamento, plataformas de transmissão, produção de conteúdo e comércio eletrônico relacionado a esportes”.

No último trimestre do ano passado (2018), Thohir, então detentor de fatia minoritária das ações, deixou o comando da Inter para dar lugar ao empresário Steven Zhang – filho de Zhang Jingdong –, que já fazia parte do corpo diretivo do clube desde a aquisição das ações pela Suning, empresa a qual prestava serviços anteriormente.

Corpo diretivo do clube com Steven Zhang, atual CEO de 27 anos, a frente

De acordo com nota publicada no website oficial do clube, o jovem, à época com 26 anos, já possuía experiência profissional para lidar com as responsabilidades da função. “Antes de iniciar sua carreira na Suning, Steven Zhang trabalhou como analista no Morgan Stanley, na divisão Investimentos e capitais, onde se especializou em ofertas públicas iniciais (IPOs) e fusões e aquisições (M&A)”.

Ao final de janeiro deste ano (2019), Erick Thohir, por meio da International Sports Capital, encerrou de uma vez por todas o seu vínculo com o clube ao vender o total de suas ações para a LionRock Capital. A empresa com sede em Cingapura desembolsou € 150 milhões (aproximadamente 645 milhões de reais) para adquirir 31,05% dos ativos da Inter de Milão, e se tornar a sócia minoritária. Os 0,40% das ações restantes estão sob posse de pequenos acionistas históricos.

Fundada e dirigida desde 2011 por Daniel Kar Keung Tseung, a LionRock já possui ações do grupo Suning Sport, o que aumenta a especulação de que o investimento da empresa irá facilitar as operações para que a Suning possa assumir o controle total da Inter no futuro.

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Nota:

* Fundada em 1990 como uma pequena empresa empreendedora, graças ao seu espírito inovador e altas habilidades no setor, o Suning Holdings Group se expandiu exponencialmente e rapidamente se transformou em um dos três maiores grupos chineses não-estatais do país, com quase 50 milhões de vendas anuais. No momento, o Suning Holdings Group possui duas empresas listadas, uma em seu próprio país e a outra no exterior. Com uma cadeia de mais de 1.600 lojas, a sua atividade comercial abrange 600 cidades entre a China e Japão, além de Hong Kong, e está em constante crescimento através de ramificações em seis setores: Varejo, Imobiliário, Esportes, Mídia e Entretenimento, Investimentos e Serviços Financeiros.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Torcedores da Inter de Milão marcam presença no estádio Santiago Bernabeu para a final da UEFA Champions League 200910”(Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e2/Il_biscione_e_l%27fc_Internazionale_al_Bernabeu.jpg

Imagem 2 “Corpo diretivo do clube com Steven Zhang, atual CEO de 27 anos, a frente” (Fonte): https://scontent.fcgh18-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/18700060_1662711960490229_6678580553365152300_n.jpg?_nc_cat=108&_nc_ht=scontent.fcgh18-1.fna&oh=321a0860b98e192b4f8aa36ff02a11a6&oe=5D02488F