ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China desenvolve gerador de 20-megawatts para embarcações de guerra

No dia 25 de dezembro de 2018, o Global Times, periódico oficial do Partido Comunista Chinês (PCC), anunciou que a nação asiática completou o desenvolvimento de seu mais poderoso gerador de turbina e energia elétrica a vapor para embarcações de guerra. Segundo especialistas, o novo equipamento é capaz de produzir 20-megawatts – quatro vezes mais que os utilizados atualmente pela Marinha do Exército Popular de Libertação* (MELP) – bem como propulsionar embarcações de até 10.000 toneladas. É importante notar que apenas as marinhas dos Estados Unidos (EUA) e da Grã-Bretanha possuíam navios com esse tipo de tecnologia até o momento.

O gerador foi produzido pela companhia estatal China Shipbuilding Industry (CSIS, sigla em inglês), a qual anunciou que ele se encontra totalmente operacional e pronto para fabricação em maior escala. Além disso, a empresa afirmou em nota oficial que o novo equipamento “não só proverá energia elétrica para o sistema de propulsão do vaso, mas também estabelecerá o fundamento para a construção de um sistema totalmente eletrônico para as embarcações”.

De acordo com Song Zhongping – especialista em assuntos militares e comentarista na televisão chinesa – a grande vantagem do novo gerador consiste na integração dos sistemas de propulsão e fornecimento de eletricidade para os demais aparelhos instalados nos navios. Por conta dessa inovação, tornam-se operacionalmente factíveis tanto a realização de missões em águas azuis pelos recém produzidos porta-aviões chineses, quanto o comissionamento de armas de energia direta – catapultas e canhões eletromagnéticos – nos destroieres da MELP.

Destroier chinês da classe Luyang II

Embora o desenvolvimento do gerador de eletricidade e turbina de 20-megawatt caracterize mais um marco no processo de modernização da MELP, ele também impõe novos desafios diplomáticos para Beijing. Isso porque a expansão das capacidades de navegação em águas azuis da China aumenta a percepção de ameaça que seu acelerado crescimento econômico produz nos demais países do sistema internacional.  

No âmbito regional, por exemplo, nota-se que países como Japão, Vietnã, Indonésia, Filipinas e Índia já nutrem importantes desconfianças em relação à expansão da presença naval chinesa no Mar do Sul da China e no Oceano Índico. No que tange às relações bilaterais com os EUA, por sua vez, as tensões são ainda maiores. Conforme aponta relatório publicado pelo Congresso estadunidense no dia 25 de agosto de 2018, “analistas percebem que o desenvolvimento naval chinês ameaça a capacidade de a marinha americana manter o controle das águas azuis na região do Pacífico Ocidental em um período de guerra”.

Diante disso, indica-se três possíveis cenários para a evolução da atual conjuntura. No primeiro – otimista – a China aceita restringir suas pretensões de construção de uma marinha de águas azuis. Por conta disso, o país torna-se capaz de estabelecer normas formais e informais de interação que sustentam uma convivência pacífica tanto com as demais nações asiáticas, quanto com os EUA.

Destroier estadunidense da classe Zumwalt. Ele possui gerador de turbina e energia elétrica similar ao recém desenvolvido pela China Shipbuilding Industry

No entanto, caso impasses políticos e comerciais continuem prejudicando as relações entre Washington e Beijing, há maior probabilidade de emergência de um cenário intermediário. Nesse caso, uma atmosfera permanente de competição entre as duas grandes potências tenderia a se consolidar e, consequentemente, o processo de modernização da MELP continuaria como uma prioridade para o PCC. Ainda que o conflito militar direto entre ambos não ocorra necessariamente, o aumento da polarização no sistema internacional produziria instabilidade econômica e a erosão das instituições de governança globais no longo prazo.

Por fim, o cenário mais pessimista é a ocorrência de um embate direto entre forças navais chinesas e estadunidenses. Ainda que improvável, tal situação não pode ser descartada em função das colisões de interesses existentes entre os dois países no Mar do Sul da China, no Oceano Índico e em relação à autonomia de Taiwan. Caso haja escalada do conflito, é plausível esperar a presença não apenas de armamentos nucleares táticos, mas também de armas de energia direta nos teatros de operações. 

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Notas:

* A Marinha do Exército de Libertação Popular (MELP) é o ramo naval do Exército de Libertação Popular da China (ELP). Este, por sua vez, é subordinado ao Partido Comunista da China (PCC). Além da MELP, o ELP também é composto por Força Terrestre, Força Aérea, Força de Misseis Balísticos Intercontinentais e Força de Apoio Estratégico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Soldados da Marinha do Exército Popular de Libertação da China” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Liberation_Army_Navy#/media/File:PLAN_sailors.jpg

Imagem 2Destroier chinês da classe Luyang II” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a4/Luyang_II_%28Type_052C%29_Class_Destroyer.JPG

Imagem 3Destroier estadunidense da classe Zumwalt. Ele possui gerador de turbina e energia elétrica similar ao recém desenvolvido pela China Shipbuilding Industry” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/32/Future_USS_Zumwalt%27s_first_underway_at_sea.jpg/1024px-Future_USS_Zumwalt%27s_first_underway_at_sea.jpg

About author

Doutorando em Ciência Política pela Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisa nas áreas de Segurança Internacional, Economia Política Internacional e Política Externa Brasileira. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre Ásia, especialmente sobre China, país em que residiu durante um ano e que é seu objeto de estudo desde 2013.
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