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China e Turquia aprofundam relacionamento bilateral

A Turquia tem localização estratégica no cenário geopolítico mundial. Exercer influência no país médio-oriental é importante para consolidar posições de poder global. Tradicionalmente, os turcos têm fortes laços com países ocidentais, principalmente com os EUA, e participam ativamente das instituições influenciadas pelo Ocidente. Essa conjuntura está sendo alterada recentemente, devido à crescente presença chinesa no país, por meio da cooperação econômica e militar.

A Turquia é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)* desde 1952 e buscou frequentemente auxílio no Fundo Monetário Internacional (FMI)** quando sua economia esteve em crise. A recente desvalorização excessiva da lira turca, contudo, não provocou o mesmo movimento e o governo voltou-se para a China. Segundo alguns analistas, isso ocorreu devido ao aumento de influência do presidente Recep Tayyip Erdogan, que teria sido capaz de controlar as resistências e os temores da elite turca em relação aos chineses. De fato, o mandatário venceu um referendo em abril de 2017, que transformou o país em uma República Presidencialista, garantindo-lhe mais poderes. No entanto, ainda não há dados suficientes para afirmar com segurança que esse fato impulsionou a aproximação à China.

Lira turca antiga

A situação monetária desfavorável motivou a busca de recursos chineses. Segundo o economista turco Emre Alkin, “A estabilidade da lira turca virá da cooperação com países valorosos, como a China. É impossível que o Banco Central faça algo sozinho. Recursos são necessários […] está claro que precisamos da sabedoria, de ideias e de sugestões de países como a China”. Em contraprestação aos recursos chineses, os turcos estão dispostos a ampliar parcerias em portos e em infraestrutura de transportes. Além disso, a Turquia sinalizou recentemente seu interesse em ingressar no grupo BRICS*** e acredita que tem apoio dos membros para tanto.

A cooperação militar com Pequim é outra área que está em ascensão. Existe sentimento crescente de antiamericanismo na Turquia, devido em parte ao apoio estadunidense aos curdos na luta contra o Estado Islâmico. Isso é visto com desconfiança pela população turca, já que os curdos têm o pleito de fundarem um Estado que englobaria parte do território turco. A China e a Rússia, portanto, mostram-se como alternativas viáveis. Em maio de 2018, muitos oficiais chineses participaram do exercício militar “Ephesus 2018”**** como observadores. A tendência é que a cooperação aumente.

Para a China, a intensificação do relacionamento com a Turquia é positiva. O país médio-oriental encontra-se em ponto chave para a ligação física entre os continentes europeu e asiático, o que o torna essencial para o êxito do projeto chinês da Nova Rota da Seda, que visa a expandir sua influência global e promover a conectividade física, facilitando os fluxos de comércio entre a Europa e a Ásia. A concretização da iniciativa, portanto, depende de uma parceria sólida com os turcos.

A relação bilateral entre China e Turquia é pautada pela cooperação e pela aproximação progressiva. À medida que os turcos se afastam do Ocidente e das instituições ocidentais, cada vez mais buscam a parceria de outros atores, como os chineses e os russos. Pequim busca aproveitar a conjuntura favorável para estabelecer confiança e fortalecer os laços bilaterais, de modo que o relacionamento seja vantajoso para ambas as partes.

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Notas:

* Organização fundada em 1949, no contexto da Guerra Fria. Tem como objetivo fundamental garantir a defesa atlântica por meio de um sistema de segurança coletivo.

** Organização criada para ajudar a solucionar problemas na Balança de Pagamentos dos membros, por meio do fornecimento de empréstimos. Os recursos concedidos, contudo, têm como condição a adoção de disciplina fiscal rígida, o que é impopular em muitos países.

*** Coalizão que envolve Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (ingressa em 2011), que se reúne regularmente desde 2008 para debater temas da agenda internacional e promover iniciativas de reforma da ordem mundial, de modo a torná-la menos assimétrica, mais aproximada à atual distribuição internacional de poder e mais representativa dos interesses das nações em desenvolvimento.  

**** Exercício militar que ocorre a cada dois anos e é promovido pelo governo turco e seus aliados. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mesquita Azul, em Istambul” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Turkey

Imagem 2 Lira turca antiga” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Turkish_lira

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Demais Fontes Consultadas

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/08/little-brothers-together-turkey-turns-to-china/

[2] Ver:

https://www.theguardian.com/world/2017/apr/16/erdogan-claims-victory-in-turkish-constitutional-referendum

[3] Ver:

http://www.atimes.com/article/china-will-buy-turkey-on-the-cheap/

[4] Ver:

https://www.al-monitor.com/pulse/originals/2018/08/turkey-china-intensifying-defense-security-partnership.html

About author

Especialista em Direito e Relações Internacionais pela Universidade de Fortaleza. Especialista em Desafios das relações internacionais, especialização oferecida pela Universidade de Leiden & pela Universidade de Genebra em parceria com o Coursera. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará.
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